Assim como ao obreiro, para se lhe poder tomar conta da obra, se hão-de

primeiro dar materiaes e instrumentos, assim a cada Bispo hão-de

umas Côrtes de juiso conceder, não em vans promessas escritas, mas

effectivamente, com que organisar e manter um Seminario, com mestres a

todos os respeitos dignissimos; de fora da Diocese, se n’ella os não

ha; de fora do Reino, se os não ha no Reino. Para aqui, ¡mãos largas!

¡mãos rôtas! ¡mãos prodigas, se é licito dizel-o! que a máis nescia de

todas as economias é a que nega adubío, sementes, e rega, ao solo de

que pretende fruto.

¡Oh! ¡de que desperdicios não tem já sido causa a não entendida palavra

_economia_!

Sob os olhos do Bispo, medrarão além de toda a esperança estes

viveiros de Parochos, educados na theoria e pratica da Sciencia

Divina por mestres, que serão ao mesmo tempo seus exemplares. Elles

ahi aprenderão, com as sciencias moraes e mysticas, o que hoje

seria imprudencia, temeridade, e infamia, querer d’ellas apartar:

aprenderão as sciencias, que renovam e regeneram a terra, e que,

matando a perguiça e a penuria, aplanam, atravéz de uma bemaventurança

passageira, o caminho para outra, que não finda; a hygiene; os

rudimentos da medicina domestica, e da veterinaria; a agricultura e a

physica; as noções geraes da jurisprudencia do Estado, e os deveres

politicos; um pouco da economía publica, muito da caseira; os methodos

mais faceis de ensino para as materias mais necessarias; em summa:

habilitar-se-hão para poderem e quererem ser, em tudo, o opposto a

muitos dos deploraveis Parochos dos nossos dias.

Entre os Clerigos, alumnos de um mesmo Seminario, instruidos nas

mesmas materias, e pelos mesmos professores, ha-de haver differenças

de genios, de gostos, de talentos, de virtudes. Cada individuo tem a

sua organisação; cada educação de infancia affeiçôa para o futuro um

diverso homem.

Differenças, como as que se notam nos individuos, existem não menos

entre as povoações. O Bispo, que, durante o longo curso de estudos,

haverá podido reconhecer e verificar a aptidão especial de cada um

dos seus alumnos, saberá depois distribuil-os segundo o caracter e

necessidades das Parochias: para a mais inerte e atrazada, o mais

progressivo e emprehendedor; para a mais licenciosa, o mais modesto;

para a mais indigente, o mais caritativo; para a mais aspera, o mais

soffredor; o mais conciliador para a mais desavinda; o menos rustico e

o mais instruido para a mais cortesan.

* * * * *

Imaginae (se tendes imaginação que abranja o infinito) imaginae o

que virão a ser, em alguns annos, as freguezias, mormente as ruraes,

presididas por taes varões.

A Fé se reanimará, menos pela eloquencia das homilías, que pelos

milagres da caridade.

Pelos predios sorrirá a abundancia, pelas vidas a harmonia.

Apertar-se-hão os laços entre os membros de cada familia, os dos

visinhos com os visinhos, os dos cidadãos com os seus concidadãos.

A semana deslizará, como um ramal de horas de prata, nas festas da

lavoira e da industria; o domingo nas festas do Senhor, e nos folguedos

innocentes, que a Religião permitte e ama, e nos quaes se prepara o

casto amor que reproduz as familias, e se podem exercitar a graça e

dextreza corporal, que realçam a obra-prima do Creador.

Vêde ¡como á sombra fresca da parreira do presbyterio, no verão, e

no inverno ao lume da sua cosinha terrea, veem contentes as creanças

aprender, ora as letras, as contas, e a escrita, ora o cathecismo, ora

os deveres sociaes em historias singelas e amoraveis!

Ouvi ¡como dos mesmos labios, que distribuem o biscato da alma a

aquelles passarinhos implumes, sai o conselho de paz, que solda,

melhorada, a amisade entre os desavindos, o consolo para o coração

viuvo, a correcção benevola, mais efficaz que a severidade, a esperança

precursora da Providencia e aurora da esmola, aqui uma consulta sobre

o praso e melhor modo de uma plantação, de um córte de madeiras, ou do

encaminhar as aguas de uma rega, ali uma supplica de filho, cujo pae

cahiu com uma dor ou accidente repentino, e que não sabe como lhe acuda

em quanto o medico não chega!

Todas as linguas fala o Parocho, excepto a da maledicencia. Para os

males que não admittem remedio, ainda elle sabe e applica um balsamo: a

conformidade.

O presbyterio é a côrte do logar, com ser a mais pobre casa de todo

elle. Todos lá vão, tributar respeito ou pedir graças. Os grandes saem

d’ali maiores porque aprenderam a humildade; os ricos, mais ricos

porque aprenderam a dar; os infelizes, serenados porque viram um Anjo.

Governantes, este homem não fará eleições, mas fará subditos fieis,

cidadãos pacificos e laboriosos.

Não mentirá em favor vosso, mas tambem contra vós não mentirá.

Se jamais no Sacrificio da Ara se implorou com fervor paz e concordia,

d’aquella bocca se hão-de elevar quotidianamente taes orações, como

perfume de incenso sem mistura.

Esquecei esse monarcha de espiritos no meio do seu povo; elle vos

serve com mais zelo do que vós mesmos vos servis. Em torno d’elle

intercede-se cada noite pela vida de bons e maus. Em quanto elle

respirar, sabei que ha no Reino um recanto, em que a indigencia mesma

não amaldiçôa. Os filhos se ufanarão de haver sido por elle baptisados;

os esposos, de lhe terem recebido a benção; os moribundos, de lhe

exhalarem no seio a alma, por elle já desenleada de espinhos, e já de

antemão coroada das açucenas do Ceo.

Estes serão necessariamente os Parochos procedentes das escolas

d’aquelles Bispos. Uma Lei de homens, mas de homens sãos e sizudos,

haverá creado uma semelhança de paraizo.[5]

* * * * *

Falámos do sacerdocio de Deus; falemos do da Natureza; falemos das

Mulheres.

Um phenomeno moral dos mais inexplicaveis, é a dependencia, a sujeição,

a especie de tutella ignominiosa da mulher em todos os paizes, em todas

as edades, em todos os graus da civilisação. Nascido d’ella, creado

por ella e para ella, referindo a ella quasi todos os seus trabalhos,

pensamentos, e ambições, proclamando-a soberana, acatando-a quasi como

uma semi-divindade terrestre, o homem não cançou ainda de tratal-a de

facto como serva.

O seu nome triumpha na lyra dos poetas; as suas graças, na tela dos

pintores e no marmore dos estatuarios; o seu credito, na lança dos

antigos paladins, na pistola e espada dos modernos duellistas; a sua

apparição na sociedade é recebida com murmurio festivo e lisonjeiro,

como a da aurora na espessura a que ella traz vida. Se desprende a voz,

a razão parece mais bella passando pela sua bocca; a virtude perde o

seu azedume; um feitiço indefinivel lhe careia todos os animos; o

tumulto se apazigúa; os vicios grosseiros escondem o rosto e emmudecem

até a deixarem passar. O rasto de aromas, que os seus cabellos e os

seus vestidos deixam apoz si, não egualam ao vago e voluptuoso affecto,

que o mais leve dos seus movimentos coou até ao fundo dos corações.

Respeita-se-lhe o juiso; ama-se-lhe o espirito, a modestia, a decencia,

os instinctos bons, nobres e generosos, a timidez que não exclue a

heroicidade. Colhem-se-lhe as palavras benevolas, como diamantes que se

enthesoiram e defendem com ciume; fazem-se os maiores sacrificios para

lh’as merecer. O mais soberbo sente-se ufano no dia em que obtem a sua

mão; o mais avaro daria metade dos thesoiros pelo seu primeiro suspiro,

e os thesoiros todos pelo seu primeiro beijo; o mais sabio a consulta,

como a melhor e menos fallivel porção de si mesmo. N’uma palavra: o

mais grave dos nossos interesses, a primeira educação moral dos nossos

filhos, ¿a quem é commettida? dir-se-hia que a nossa alma, ainda tenra,

se nutre no seio da sua, como entre os seus braços bebemos no leite de

seus peitos o seu amor.

E todavia... Abri os codigos de todo o mundo, e perguntae-lhes o que

é este ente, complexo de tantas maravilhas, creado para companhia do

homem, mas depois do homem, como elle o fôra depois dos brutos, e os

brutos depois dos entes insensitivos.

Todos os codigos vos responderão: «É uma escrava.» E alguns: «É uma

victima.»

Os trabalhos continuos, obscuros, e inglorios, são a sua vida; e a

sua morada um carcere. Aqui, a excluem dos recreios mais honestos;

além, a punem com o ridiculo, se deixa respirar o seu talento; uma

decencia convencional e tirannica lhe impõe silencio quasi continuo.

A acção, o passo, o dito mais indifferentes, lhe são interpretados.

As Universidades lhe estão fechadas; defezas as magistraturas e os

tribunaes; inaccessiveis o fôro e a tribuna. Só da caridade, dos

hospitaes, das escolas de infancia, e do claustro da oração, a não

poderam excluir.

¡Que dizemos! não só a Asia as vende, como se vendem as flores para

os regalos dos opulentos, e a Inglaterra as deixa vender nos seus

mercados como animaes de carga, se não que a propria França, a patria

da cortesia e do melindre, a terra em que ellas mais imperam sobre as

artes, o gosto, e a sociabilidade, a França mesma, lhes impõe nas suas

Leis obediencia e respeito ás vontades de um marido.

Da sujeição filial, a unica reconhecida pela Natureza, lá passam para o

captiveiro conjugal.

O anel de um noivado é o primeiro de um grilhão muitas vezes

insoffrivel, e que nenhumas forças lhes poderão quebrar. O nome do

seu senhor lhes é para logo imposto em vez do paterno; é a marca, é

o ferrete do dominio; marca indelevel, que sobreviverá ao possuidor,

e que só um possuidor novo encobrirá, substituindo a esse nome o seu

nome, e á tirannia extincta uma segunda tirannia[6].

Ainda cerceámos o desenho; ainda enfraquecemos as côres do quadro; mas

não haverá coração generoso, que ao encaral-o não estremeça.

* * * * *

O Homem Deus redimiu as nações do predominio romano, do fatalismo,

e das paixões divinisadas; sublimou, sobre tudo, os pobres e os

perseguidos a grau de humanos, e de mais que humanos.

A philosophia moderna restituiu a liberdade natural ao pensamento.

A politica, sua filha, desatou o jugo de ferro da cerviz dos povos, e o

atirou feito pedaços para o abysmo do passado.

A philanthropia, ou talvez a especulação, aboliu a escravaria das

povoações negras.

Á infancia mesma vai chegando o que é possivel de emancipação; asylos

e escolas a convidam a instruir-se; e ao açoite, que d’antes lhe

desfolhava os brios em flor, succederam a affabilidade e os carinhos,

tão necessarios aos pequeninos como o pão.

¿Que dizemos? até para os irracionaes pululam na Europa sociedades

protectoras.

¿E a Mulher?! A Mulher, nossa mãe, nossa esposa, nossa filha, nossa

irman, a Mulher, nossa ama, nossa educadora, nossa ecónoma, nossa

enfermeira, a Mulher que nos civilisa, que nos adoça, nos encaminha,

nos aconselha, nos acompanha e consola nos trabalhos, nos realça e

requinta as alegrias, a Mulher, que não vive, que não quer, que não

pode viver senão para nós, que nos soffre e nos perdoa de continuo,

a Mulher que é toda amor, e a mais brilhante revelação do Céo, a

Mulher...... é ainda escrava! ¡escrava em plena Europa! ¡em pleno

Christianismo! ¡quasi como na Africa e na Asia sob os influxos do

Korão! ¡escrava como na India, como na China, como na Tartária, como na

Turquia, como na Russia, como entre os selvagens errantes, como entre

os Romanos barbaros, escrava, como sempre e em toda a parte!

* * * * *

Já que ellas se não queixam (¡pobres victimas só feitas para soffrer!)

ousemos nós defender os seus interesses apesinhados; e não contra os

nossos, se não ainda em nosso beneficio.

Parlamento das nossas esperanças, congresso de lavradores, atrevei-vos

a uma Lei, que vos doire na Historia, e vos immortalise. Decretae,

depois de seis mil annos, A ALFORRIA DA MULHER.

Não são a milicia, as magistraturas, os governos das provincias, que

para ellas vos pedimos; não são as cadeiras de legisladores, nem

as do magisterio; n’uma palavra: não são nenhuns dos cargos, que a

prepotencia lhes disputaria, e de que a Natureza as tornou isentas (não

por fracas, não por inferiores em espirito, mas porque foram fadadas

para mães).

Dae-lhes porém o que sem injuria não poderieis recusar-lhes:

reconhecei-lhes, como a seus esposos, como a seus paes, como a seus

filhos, o direito de suffragio.

De que poderieis vós arrecear-vos franqueando-lhes o caminho á urna?

¿Não teem ellas tanto interesse como nós, em que Leis sabias rejam,

e homens sabios administrem? ¿Não zelarão ellas o bem da terra em

que vivem seus consortes e a sua prole? ¿Não são ellas dotadas para

avaliar os meritos, para estremarem a verdade e a impostura, de uma

maravilhosa sagacidade, occulta arma defensiva com que a Natureza as

premuniu contra as offensivas do nosso sexo? ¿Não vivem mais longe do

tumulto da praça, que a nós outros tanta vez nos desvaira, lançando-nos

em turbilhões, já de odios, já de amores insensatos e contradictorios?

¿Não teem innatamente, além do instincto da harmonia, o espirito

da justiça? ¿Não foi já por isso, que nas antigas allianças entre

Carthaginezes e Gallos se estabeleceu, que, onde de parte a parte

recrescessem rasões de queixa, fossem arbitros, por Carthago os seus

magistrados, pelas Gallias as suas mulheres?

Mas--vos segredarão alguns com maligno sorriso--¿«conhecem ellas o

grande jogo da Politica? ¿fazem ideia do que seja a ordem publica?

¿com quem o aprendeu a sua roca para lh’o ensinar?»

Não, homens honrados, ellas não sabem a Politica; e eis ahi uma das

grandes vantagens que nos levam para eleitoras; mas a ordem publica,

se a não sabem, adivinhal-a-hão, que para isso, entre seus filhos

e domesticos, são rainhas de pequenos reinos. Essa roca, alvo do

epigramma ingrato e insolente, é o seu sceptro; e pode ser que acerca

da felicidade commum da aldeia, da freguesia, e da provincia, lhes haja

ella dito muito mais, nas caladas dos serões de inverno, que á maior

parte dos nossos eleitores cortesãos a lampada parisiense entre os

baralhos de cartas e os montes de oiro.

Mas concedamos-lhes que nossas esposas, nossas mães, e nossas filhas,

nunca jamais até agora pensaram sobre os negocios do Estado, como vos

elles dizem. Por isso mesmo, por isso mesmo, lhes deveis restituir mais

depressa o seu usurpado e imprescriptivel direito de votação; porque

essa indifferença, se n’ellas existe, é mais uma calamidade, pois são

as educadoras da geração que nos ha-de succeder.

Concedamos ainda mais: que o precioso affecto da Liberdade é n’ellas

quasi nullo. ¿De quem é a culpa? ¡D’ellas!! Não; mas de nós outros, que

a poder de escravidão lh’o adormentámos.

Restitui ás Mulheres o seu quinhão legitimo de Liberdade, e vereis como

ella se consolida sobre fundamentos de amor mais que duplicados.

¡Que miserrima contradicção é esta: que onde para a herança da Corôa

a Lei salica não governa, onde á Mulher se reconhece aptidão para o

cargo supremo do Estado, se lh’a denegue para votar como cidadan em

mandatarios dos communs interesses!

De uma coisa podeis vós estar certos, Ó Deputados; e é: que as eleições

em que ellas entrassem, por menos acertadas que a sua inexperiencia

as produzisse, não dariam (porque era impossivel) mais vergonhosos

resultados, que todas quantas á sua revelia havemos feito, e que, para

vergonha nossa, lá ficam registadas na Historia.

* * * * *

¡Oh! ¡Se o humilde Portugal estava ainda guardado para dar do fundo do

seu abysmo tão altas lições, tão esplendidos exemplos á Europa e ao

Mundo! ¡Uma Representação nacional genuina e insophismada! ¡um Clero

sabio, virtuoso, paternal! ¡a Mulher investida na plenitude dos seus

destinos sociaes!....

No dia em que a Patria cingisse por suas mãos tres corôas tão

magnificas, morriamos felizes. Teriamos vivido uma eternidade de

bemaventurança.

Dezembro de 1848.

NOTAS DE RODAPÉ:

[4] _Nullus invitis dandus est Episcopus; ille omnibus prœferendus,

quem cleri ac plebis consensus concorditer elegerit._--S.

Gregor.--Epist. ad Nastas.

[5] Os nossos respeitos ás doutrinas canonicas é conhecido e provado. A

innovação que propômos e que deverá ter iniciativa no Parlamento, para

se tornar effectiva necessita da censura e regular approvação da Egreja.

CASTILHO.

[6] Com estas reflexões não pretendemos desapprovar a subordinação

das mulheres a seus maridos nos termos em que a prescrevem os nossos

livros sagrados. Só não queremos que esta dependencia se converta em

escravidão, que a legitima autoridade marital degenere em tirannia.

Eva, diz um Padre da Egreja commentando o Genesis, não foi formada da

cabeça de Adão, para que não tivesse a presumpção de o querer dominar;

nem tão pouco foi formada dos pés do homem, para que por elle não

fosse considerada como serva; foi-o de uma costella, a fim de que se

entendesse que era destinada a ser sua companheira.

CASTILHO.

VII

Primeiro serão do casal

Propriedade territorial

SUMMARIO

Vantagens do escrever.--Vantagens do ler.--O autor não pode por ora

dizer o que tratará n’estes seus serões d’aqui avante, mas tenciona

il-os empregando na sua ideia querida da felicitação da Patria

pela Agricultura; para o que, vai proseguindo nas suas utopias.--A

propriedade territorial não é um direito natural, mas é um dos

direitos da sociedade permanente.--No direito de possuir terra não

se contem o poder deixar de cultival-a.--Apontamentos para uma Lei

importantissima a este respeito.--A theoria pode-se estender dos

predios rusticos aos urbanos.

¡Que bella coisa, meus amigos camponezes, não é o escrever e o ler!

Uma folha de papel, que a principio não foi mais que umas hervinhas

verdes, depois umas febras seccas e pardas, nos dias da sua maior

gloria talvez uma camisa, e a final um trapo despresado e esquecido;

uma folha de papel póde ser uma origem de delicias e venturas.

Por meio d’ella, um homem desconhecido, e fechado no seu cantinho, logo

que Deus lhe lança na alma um reflexo passageiro da Verdade e do Summo

Bem, prende esse raio de luz celeste, liberalisa-o para toda a parte,

solidifica-o, bem como de um gaz, que se não vê nem palpa, se faz no

fundo das minas um diamante; lança-o assim para o thesoiro commum

dos conhecimentos humanos; e, quando ninguem mais lh’o diz, diz-lhe

baixinho a sua consciencia:

«¡Oh! ¡Bem hajas, que déste a esmola da alma á alma! ¡Bem hajas, que

as horas que podéras gastar no ocio, ou em gosos futeis, em dissipar

ou em adquirir haveres, ou em me envenenar a mim, que sou a tua boa

consciencia, empregaste-as em proveito dos teus semelhantes! ¡Bem

hajas! ¡e bem haverás por certo! Os teus exforços não serão perdidos,

nem para o Céo nem para a terra. Lá em cima, o Liberalisador de toda

a verdade te coroará; e já, cá no mundo, uma especie de immortalidade

e de omnipresença será a tua partilha. Sobreviver-te-has em parte a

ti mesmo. O teu nome e os teus pensamentos estarão ao mesmo tempo em

muitos logares, graças a esta folha de papel; e os annos, que hão-de

destruir o teu corpo, deixarão a tua honrada memoria a crescer para os

seculos.»

Mas, se tal é a boa sorte do escritor de veras; se os seus deleites

lhe descontam o trabalho e penas que o acompanham; se da sua miseria

elle se consola com a lisonjeira certeza de afortunar aos outros; se

no silencio do seu albergue desguarnecido ouve já a sua futura fama, e

na sua enxerga de palha riem sonhos, que nunca visitaram os colxões de

plumas de soberbões inuteis; a mesma folha de papel, que, a baixo de

Deus e do estudo, o tornou venturoso, multiplicada pela Imprensa vai

fazer por elle muitos outros venturosos.

* * * * *

¡A leitura, meus amigos! ¿Sabeis vós bem o que é a leitura?! É de todas

as artes a que menos custa, e a que mais rende.

Ha livros, que, semelhantes a barquinhas milagrosas, incorruptiveis

e innaufragaveis, nos levam, pelo Oceano das edades, a descobrir,

visitar, e conhecer todo o Mundo que lá vai....

Os povos antigos revivem para nós com todos os seus usos, costumes,

trajos, feições, crenças, ideias, vicios, virtudes, interesses, e

relações.

A Historia é a mestra da vida, e as suas lições ampliação e complemento

ao nosso juizo natural. No que foi, aprendemos o que deve ser. ¡Dizem

que mente ás vezes! tambem na seára ha joio, e nem por isso deixais vós

de ceifar com alegria. Mas, apesar das suas mentiras, fica ainda sendo

a Historia uma das mais verdadeiras coisas do mundo.

Os contemporaneos de cada um dos homens notaveis, heroes ou monstros,

dos tempos antigos, talvez os não vissem tão ao natural como nós cá

de longe. ¿Porquê? por isso mesmo que eram vivos; cercavam-n-os um

estrondo confuso, e vozes contradictorias, que para nós emmudeceram.

O amor e o odio, o terror e o enthusiasmo, tingiam nas suas cores os

feitos e os ditos: o espectador, muito de perto, e distrahido com os

seus proprios negocios, não podia abranger a totalidade de uma scena ás

vezes immensa e complicada. Não é nem ao-pé em demasia, nem em demasia

longe, que os objectos se julgam com exacção.

* * * * *

Mas não é só a Historia, meus amigos, que nos encanta instruindo-nos.

Desde a Mathematica, que péza e mede os astros, até ao officio mais

humilde, não ha sciencia, arte, nem mistér, que os livros nos não

ensinem divirtindo-nos.

Vós, se lêdes ao serão, cultivais melhor e mais lucrativamente no dia

seguinte; sabeis conservar melhor os vossos frutos administrar com mais

interesse os vossos haveres. Outro tanto acontece aos vossos visinhos,

ferreiro, carpinteiro, surrador, tintureiro, tecelão, etc.

A povoação onde se sabe ler, e se lê, floresce mais, é mais pacifica

e morigerada, mais unida e rica, mais poderosa, mais contente, mais

amavel, e mais amada.

Porque haveis de saber, meus amigos, que tudo quanto os homens teem

descoberto e inventado para augmentar as suas forças, os seus cabedaes,

a sua saude, as suas virtudes, as suas relações de amor, e o numero

das horas suaves e alegres, tudo, de muitos seculos para cá, se tem

ido guardando nos livros. É um patrimonio de sciencia e bondade, que

vai sempre a crescer de paes a filhos, onde cada um pode tomar ás mãos

cheias o que lhe convém, e para onde a cada um é licito, e até mesmo

é dever muito agradavel, levar o pouco ou muito que o seu juizo lhe

subministra. É um commercio mutuo de todos os tempos e de todas as

almas, do qual ninguem sai lesado, e no qual mesmo dando se recebe.

Quanto a mim, meus bons visinhos, estou muito satisfeito com a minha

tarefa litteraria. Outros, mais capazes de vos instruir na Agricultura,

teem a bondade de tomar a si esse encargo, para o qual eu mesmo vos

confessei já que me não sinto habilitado. Á minha conta está procurar

desenfadar-vos algum serão do domingo. ¿Que quereis? quem nasceu para

pouco... Um poeta é como um d’estes passarinhos, que Deus creou para

recreação do lavrador na força dos seus trabalhos.

* * * * *

Se eu ao menos podesse dizer-vos desde já o em que havemos de

entreter-nos.... mas ¡adivinhae-o lá! ¿O passarinho, um minuto antes

de abrir o bico, sabe por ventura o que vai gorgear? é a verdura, é

a viração, é o sol ou a estrella do momento, que o inspira; a sua

_hypocrene_ é muitas vezes a ultima gotta de orvalho, que bebeu no

calix de uma flor por onde passou.

Mas, assim como nos cantares do plumoso poeta dos bosques ha sempre o

que quer que seja de bom e affectuoso conselho, de revelação do Céo,

com o qual elle parece tratar mais de perto do que nós; assim o meu

espirito, que mora todo cá dentro no coração, e por elle vale alguma

coisa, só praticará comvosco, segundo espero em Deus, em algum dos seus

sonhos de felicitação para o genero humano.

Porque haveis de notar, boa gente, que, se o que está feito é muito,

muito mais é ainda o que está para fazer. Cada geração adianta um

passo; os netos sabem mais que os avós; cada anno floreja ideias,

que os seguintes convertem em frutos, e outros, além, amadurecem e

colhem. Nos ares andam sempre ideias de todas as edades (sem falar nas

que vão cahindo mortas); umas decrépitas; outras recemnascidas, que

ainda se não atrevem a voar; outras adultas e robustas; e nenhuma das

que se chegam a transformar em obras, deixou de ser na origem muito

extranhada, e muito havida por impossivel ou perigosa, e de padecer

perseguição da parte de nescios e ruins.

Ora eu, que (Deus louvado) de ruins me não temo, e a escutar nescios me

não detenho, parece-me que não poderia, por em quanto, empregar melhor

a minha folha de papel, e o vosso serão no casal, do que em vos relatar

os meus sonhos ou devaneios solitarios sobre a salvação da Patria pela

Agricultura; axioma este já hoje comprehendido por todos os que a

Natureza não condemnou a viver e morrer sem comprehenderem nunca nada.

Felicidade pela Agricultura (Vol. I) · 第 5 / 10 段