O Governo representativo, assim, não seria uma burla; as consciencias

fariam a sua obra sem coacção; e, por uma consequencia necessaria, Leis

boas trariam por toda a parte abundancia, e com ella contentamento e

bons costumes.

O Povo, que não é jamais suicida, e tem um maravilhoso instincto do

bem, defenderia como arca de alliança o Governo que a taes destinos o

houvesse conduzido.

... _Deus nobis hæc otia fecit._

* * * * *

Limitemo-nos porém ao nosso ponto primario, Côrtes agricolas, pois,

conseguidas ellas, por ellas, que fazem as Leis, facilmente se

conseguirão todas as outras necessarias innovações.

Seja pois o incançavel empenho das sociedades eleitoraes, que desde já

se devem formar, o contrabalançar, vencer, e destruir, a influencia

maléfica das sociedades eleitoraes já existentes, secretas ou publicas,

mas todas ellas exclusivamente _politicas_; diversas entre si, e até

inimigas mutuas, mas todas comprovadamente impotentes para bemfazer.

Á vista da incontestabilidade de ser a Agricultura a que só nos pode

restaurar, poderia perguntar-se: ¿Não conviria votar unicamente em

agricultores para Deputados?

A nossa opinião é que o Parlamento deve conter de tudo; sem o que, não

seria representação _nacional_; e por outra parte, a não ser assim, se

acharia carecente de muitos conhecimentos necessarios. Entretanto, pela

mesma rasão de dever elle ser representação _nacional_, deve compôr-se

de lavradores a sua grande maioria, pois ou em exercicio, ou em

propriedade, lavradora é, e lavradora deve ser, a pluralidade da nossa

gente.

Entretanto, como as nossas associações eleitoraes não hão-de ser as

unicas a trabalhar, como as do egoismo mal entendido e incorrigivel

hão-de sempre existir, e sollicitar com tanto mais força, quanto mais

se sentirem contrastadas pelas nossas diligencias, prudentissimo

arbitrio fôra que nos cerrassemos nós outros em esquadrão, para só

votarmos em lavradores, e, quando muito, em um ou outro industrial

benemerito e de esperanças. ¡Felizes, ainda assim, se os nossos eleitos

constituissem a maioria, e se os exforços e machinações dos inimigos

só lograssem pôr na teia parlamentar a proporcionada e necessaria

mescla dos outros interesses secundarios!

* * * * *

Outra consideração, que muita força nos faz para instarmos pela maioria

agricola no Congresso, é que, mesmo para só equilibrar os interesses

da terra com todos os outros bem ou mal entendidos interesses, é

indispensavel que os partidarios dos primeiros sejam muito mais

numerosos que os dos segundos.

A Arithmetica, com parecer de exacção absoluta, é, por via de regra,

em coisas moraes, a mais erronea de todas as medidas. As decisões por

votos nol-o provam a cada hora: nas assembleas _dez_ podem ser mais que

_cem_, e todos os dias o são.

Christovão Colombo era um só contra toda uma armada; Galileu um só

contra todo o mundo: e todavia, com um só voto contra tantos, a America

descobriu-se, e a Terra move-se.

Não pretendemos inferir d’aqui o absurdo de que se outorgue a palma

ás minorias; a nossa consequencia d’aquelle principio inquestionavel

é que n’uma corporação destinada a um grande fim social, mas que por

força tem de ser composta de elementos heterogeneos, alguns nullos, e

não poucos hostis, se os presumptivos partidarios da boa causa são por

sua natureza menos atrevidos e influentes que os seus antagonistas,

só pelo excesso do numero é que poderão compensar o que em forças e

importancia lhes falleça; e portanto, se ambicionâmos que triumphe a

boa causa, temos de fazer pela quantidade d’elles a compensação da sua

qualidade.

Os filhos dos campos, qualquer jerarchia, educação, illustração, que

aliás lhes supponhâmos, teem, em toda a parte, em presença dos filhos

das Cidades, um não-sei-quê de pudor e timidez, que parece ser fruto

indigena da solidão. Como as creanças e as mulheres, perdem elles

metade das suas forças e recursos naturaes, logo que sentem que são

observados. A duplice desconfiança em que estão, por uma parte, da

sua rudez, por outra, da superioridade e maligno escarneo dos bem

falantes, lustrosos, e regalados moradores das cidades, onde elles só

entram como fornecedores e servos, quebra-lhes metade da sua energia

varonil. Creados com o falar sóbrio, chão, e sem atavios, não só a

eloquencia dos fazedores de phrases os deslumbra, mas até a verbosidade

esteril os enleia e os sophisma; esgrimindo com arrogancia, se os não

convence, muitas vezes lhes desarma o bom senso, só forte da sua força

intrinzeca. Finalmente, a tatica e estrategia parlamentar, sciencia

occulta que se não aprende em poucos dias, por mais predisposição que

se tenha para desleal e ruim, hão-de sempre trazer o pobre aldeão

sincero como vendido, romper-lhe as fileiras no fervor do combate,

voltar-lhe as armas contra si, precipital-o em ciladas, converter-lhe

a miudo a victoria ganha em derrota, endoidecel-o, desgostal-o, e

pôl-o em fuga para o seu campo amado, que o conhece, e que é d’elle

conhecido, e para entre os seus visinhos, cujos enganos elle sabe

antever e illudir.

É por tudo isto que, se o numero os não affoitar, elles serão sempre

derrotados; e o beneficio, que á Patria poderiam fazer, se mallogrará

a despeito das suas consciencias, sans como os seus ares, e das suas

rasões, robustas, mas informes como os seus troncos.

Estas Côrtes levariam ainda muitas outras vantagens a quantas para

ahi se nos teem feito em nosso nome. As provincias, pelo trato mutuo

dos seus representantes, ficar-se-hiam conhecendo; fraternisariam;

aprenderiam, umas de outras, com que adiantar ou aperfeiçoar as suas

culturas.

Seria applicar á primeira das artes beneficios proporcionaes aos

que as luzes superiores teem ultimamente recebido dos _Congressos

scientificos_.

Ainda mais, e ainda melhor: o Rei, que tudo deve presencear, e não pode

demover-se do seu Throno, ouviria e veria d’est’arte as provincias;

abrangeria com a imaginação, com o amor, e com as providencias, alguma

coisa mais que o recinto confuso da sua Capital.

* * * * *

Pintae, meus amigos, desde já, na phantasia, o que serão taes Côrtes,

se a Divina Bondade nol-as tem de outorgar:

Homens fortes, sizudos, vestidos do seu linho, e modestas lans fiadas e

tecidas por suas filhas e companheiras; condecorados, não com fitas,

mas com os honrosos calos da charrua; não frizados pelo cabelleireiro

parisiense, mas com o semblante bello de hombridade, e crestado dos

soes; sem pomposos nomes herdados, mas creando cada um d’elles um,

de que seus descendentes se não hão-de envergonhar. Madrugam para o

grangeio da Patria, como lá costumavam fazel-o para o da fazenda;

aproveitam em cheio as horas, como nos dias apressados da sementeira.

As suas vozes, sem outras entoações que as da convicção e do affecto,

expõem as verdades com a graça inimitavel da nudez, como na eira do

seu casal deixavam espairecer sem vestidos os seus filhinhos e netos.

Os seus discursos são como os seus predios: frutos, e não jardins;

pão, gado, azeite, vinho, madeira de córte, em vez de flores ephémeras

e estéreis. As suas argumentações não lh’as ensinou a logica das

assemblêas, essa perigosa tintureira de verdades e mentiras; dos factos

positivos lhes saem sem exforço as consequencias, como do grão do trigo

a espiga do trigo, do caroço a arvore, e do amor dos homens a virtude.

Os talentos, as boas vontades, as emprezas promettedoras, não expirarão

á mingua; elles sabem que uma pouca de rega tem dado vida e fruto a

muito pomar. Não mesquinharão os salarios ao trabalho, mas exigirão que

o trabalho os mereça, porque ouviram ao seu Pastor ler no Evangelho,

que se não deve amarrar a bocca ao animal que está suando na debulha.

Não sorriem com philosophica sobranceria do que se refere ao unico

principio sólido de toda a moral humana; elles presencearam sempre,

assim como o carvalho da serra e a hervinha emboscada no vallado, que

luz e calor não procedem senão de cima. Ao votar, não interrogam os

olhos ou os acenos de ninguem; ¿perguntaram elles jamais se se devia

plantar na estação propria, ou se ao rebanho sequioso se havia de dar

de beber? Os motivos ruins, não os entendem; ¿que insensato dispôz

nunca tojos e espinheiros na herdade amanhada para o manter? O medo

das contrariedades não lhes tolhe pugnar pelo que é de sua natureza

prestadio; estão affeitos a ver as intempéries das estações ameaçarem

a seára, e a seára, por derradeiro, encher a tulha. Ignoram a sciencia

dos financeiros, mas sabem que a diligencia e a boa-fé grangeiam

cabedaes. Os pontos duvidosos, meditam n-os antes de os decidir, como

antes de comprar uma courella examinavam comsigo e com os visinhos a

indole do chão, as conveniencias e as desconveniencias do seu fabrico.

Não armam á fama, nem trepidam diante das injurias; as phrases dos

periodicos malignos, como as dos lisonjeiros, lhes resvalam pelo ouvido

sem entrar; ¿ha-de-se deter a junta de bois no meio do sulco, porque

zuniu o mosquito?

No fim de cada sessão, retiram-se contentes do que fizeram, para

meditarem, cada um a sós, com o seu entendimento e coração, o que lhes

resta para fazer. O amor do genero humano é o seu ultimo pensamento

antes de adormecer; a ventura da sua aldeia, da sua provincia, e da

Patria, o seu sonho de toda a noite, de todas as noites, e de todos os

dias.

* * * * *

¡Oh! ¡meu abençoado Parlamento de lavradores! Semelhante ao enxame

industrioso, vós fabricareis sem estrondo, do que ha mais bello e

amavel sobre a terra: para ella o oiro liquido e medicinal do mel, para

o Ceo os santos lumes dos altares.

Como vós, todos nós gosaremos da doçura que houverdes preparado; só

os zangãos vos odiarão. A vossa Rainha, no cimo da colmeia, feliz e

abençoada, não terá inveja aos maiores Soberanos.

¡Oh! ¡podesse Ella, entre os seus innocentes e maternaes sonhos de

ante-manhan, perceber, levados por algum Genio de amor, uns eccos

sequer d’estes nossos votos!

O seu entendimento avaliaria quanto ha de intrinzeca bondade, e de

affecto aos homens, e de devoção para com Ella mesma, n’estes votos de

Portuguez.

A felicidade de um Povo, e a de quem o rege, são uma e indivisivel.

Novembro de 1848.

NOTAS DE RODAPÉ:

[3] Castilho começa aqui a datar o aprendizado constitucional desde a

revolução de 1820.

OS EDITORES.

VI

O Clero, e as Mulheres

SUMMARIO

Na obra proposta, para todos ha tarefa: a dos escriptores é semear

a palavra.--Defensa e apologia do Clero; necessidade e modo de o

reformar.--Os Bispos, eleitos pelo Povo, apresentados pelo Governo,

confirmados pelo Pontifice.--Um Seminario para cada Bispado, em

que se ensinem, com as sciencias moraes e mysticas, os rudimentos

das sciencias terrestres mais necessarias.--As Parochias providas

pelos respectivos Bispos, e modo como.--Vantagens que d’ahi

resultarão.--Justo panegyrico das mulheres.--Reivindicação para ellas

do direito de votação.--Bens, que de um tal acto de justiça deveriam

advir á sociedade.

Os pensamentos do nosso coração acharam eccos; é porque o santo amor

da terra e dos homens não morre nunca. O fogo existia; a nossa voz não

fez mais do que assoprar de cima de uma parte d’elle a cinza que o

occultava.

¿Com tão felizes auspicios, como poderiamos nós deixar de proseguir?

Prosigâmos; não já a sonhar em voz alta, mas em voz alta a meditar, a

propôr, a pedir.

* * * * *

Concordes estamos (dir-se-hia que por uma inspiração salvadora,

baixada na hora da angustia sobre todos nós ao mesmo tempo) concordes

estamos, e convencidos, de que só a associação das nossas forças, tão

malbaratadas até agora em mutuamente se espedaçarem, e apesar d’isso

ainda tão grandes, tão sufficientes para uma façanha; applicando-se com

fé, com ardor, com perseverança, á Agricultura, pode não só aguentar as

nossas cidades, que a lanço e lanço se desabam, mas fundal-as novas,

dilatar e multiplicar as aldeias, engrinaldadas de vegetação frutifera,

transformar a guerra em amor, a mendicidade em trabalho, o roubo, a

venalidade, a agiotagem, a alcunhada _politica_, e a prostituição,

essas outras mendicidades, muito mais torpes e odiosas, em honesta e

folgada vida, em producção, em virtude, em paz, em contentamento, em

gloria, em liberdade, em poderio.

Fomos um grande Portugal; em nossa mão está sermos, e breve, um

Portugal ainda maior, mais formoso, mais seguro, mais festejado, mais

attractivo para estrangeiros, mais hospedador de suas prendas, de suas

artes, de suas sciencias, de sua multiplice civilisação.

Queirâmos; queirâmos de veras. Congreguemo-nos fraternalmente; os dos

campos, nos campos; os da cidade, com os olhos n’elles. Lavremos e

semeemos todos; uns com o ferro e o grão, outros com o oiro, outros

com a doutrina, que tambem é oiro; os legisladores com as Leis; os

magistrados com a protecção; e nós, nós os apóstolos descalços, a quem

a Providencia recusou terra, oiro, sciencia, e autoridade, mas a quem,

em compensação de tudo isso, outorgou alguma alma e muitissimo amor,

nós os escritores, semeemos tambem alguma coisa no chão da Patria, a

que já está impendente larga benção de regeneração: semeemos a palavra.

Que nenhum de nós se acovarde por desconfiança de sua fraqueza; que

nenhum sonegue o que tem por verdade, com medo de que os poderosos lh’o

desprezem, os nescios lh’o impugnem, e os malignos lh’o escarneçam.

Onde a boa vontade nos houver illudido, valer-nos-ha ella mesma de

excusa; e, á falta de approvação, conciliar-nos-ha o tacito affecto dos

homens de bem.

Quanto a nós individualmente, assás havemos já provado n’estes artigos,

cujo fio vamos seguindo, quanto, apesar de conhecermos melhor que

ninguem a nossa incompetencia, e a confessarmos a cada hora, propomos

com lisura e franqueza, o que julgamos poder salvar a nossa moribunda.

Nem a lisonja, nem contemplações pusillanimes, nem medo a ruins

interpretações, nem a indifferença d’aquelles mesmos por quem fazemos

votos, nos demoveram ainda do nosso proposito, atrevido talvez, mas

honrado de certo.

Com egual abnegação, com egual soltura, com ainda maior convicção, pois

nos cresce de mez para mez, continuaremos a lavrar o nosso testamento

de Portuguez, estas desenfeitadas linhas, mas para nós mais amadas, que

toda quanta poesia nos florejou a mocidade.

* * * * *

Para dois pontos convocamos agora a attenção sizuda das nossas futuras

Sociedades promotoras da Agricultura, do Parlamento de lavradores, que

os seus esforços nos hão-de produzir, do Ministerio da Agricultura, que

esses legisladores hão-de fundar, e finalmente do proprio Throno; para

o que, novamente rogamos a todos os nobres missionarios da Imprensa

levem os nossos alvitres, corroborados com o seu saber, e ungidos com

a sua eloquencia, até onde o humilde e longinquo da nossa voz os não

deixaria penetrar.

Estes dois assumptos, ambos grandes e ambos esquecidos, ambos de summa

importancia, assim para o mal como para o bem, e ambos injusta e

cruelmente desprezados, são: o SACERDOCIO, e as MULHERES.

* * * * *

É o Sacerdocio Catholico uma instituição eminentemente social, e cuja

origem divina é, por isso mesmo, impossivel não reconhecer.

Não renovaremos n’este logar disputações intempestivas, e já exhaustas,

sobre os beneficios e as calamidades, de que em tal ou tal paiz, em

tal ou tal seculo, o Clero tem sido, voluntaria ou forçada, activa ou

passivamente, causador. Esses argumentos de alguns factos (ou de muitos

factos) contra theses universaes e duas vezes millannarias, não podem

servir para mais, que para lhes realçar a evidencia.

Quanto mais os da escola _fossil_ de Voltaire, quanto mais os

anachronicos citadores do _Citador_, e os mui respeitaveis _Compadres_

do _Abbé Laurent_, esperdiçarem o seu engenho para nos afeiarem em

romances obscenos a vida licenciosa de um ou de outro, ou de muitos

Sacerdotes; quanto mais nos affirmarem, sob sua palavra honrada, e á

vista de umas estatisticas que só elles possuem, que o numero d’estes

discolos é infinito; tanto mais, sem o sentirem, sem o quererem,

engrandecem a força intrinzeca e divina de uma instituição, que, desde

o tempo dos Apóstolos até nós, ainda não cessou de ser havida por

mantenedora da arca-santa da Fé e dos costumes.

Se ella fosse humana, se ella fosse sobretudo ré da millionesima parte

dos crimes e horrores, que os seus adversarios (¡varões probos e

honestissimos!) lhe assacam, ¿como haveria resistido a dezoito seculos?

¿a trezentas revoluções na politica, e outras tantas nas ideias? ¿aos

vaivens das seitas, e das chamadas philosophias? ¿ás minas surdas do

indifferentismo? ¿ao fanatismo sanguinario de alguns de seus membros, e

á perfidia e á deserção de tantos outros?

Neros e Sardanapálos appareceram mais de uma vez na cadeira de S.

Pedro. Mãos em vão sagradas cavaram masmorras e accenderam fogueiras;

seguraram os pulsos a povos, para que tirannos os agrilhoassem; afiaram

os punhaes e as espadas para guerras fratricidas; e a Sciencia, filha

do Ceo como a luz, em nome do Ceo a perseguiram.

E entretanto, atravez d’esses arroios de sangue e lagrimas, e d’esses

montes de cinzas e ruinas, o esquadrão candido dos Levitas continuava a

sua peregrinação para o Ceo, abençoando, e abençoado; penitenciando se

em segredo pelos maleficios de que era innocente; vertendo lagrimas e

chrysma sobre as feridas de seus irmãos; semeando na terra desconsolada

o amor e as esperanças.

Ao notarem ignorancia e corrupção no Clero, os semi-philosophos

imprevidentes votam, sem hesitar, a sua abolição. Os sabios, isto é

os prudentes e amigos da humanidade, calculam caladamente: ¡o que se

tornaria o rebanho, privado de pastores! ¡os costumes, sem doutrina

nem censura! ¡as penas sem conforto! as prosperidades e soberbas, sem

contrapezo! ¡os seis dias da terra, sem um dia do Ceo! Depois, comparam

essa corrupção e essa ignorancia (desgraçadamente muito certas) com

a corrupção e ignorancia ainda maiores de quasi todos os inimigos da

Egreja; e, convencendo-se de que o mal não é sem cura, propõem, em vez

de exterminio, que é sempre o primeiro recurso dos barbaros: contra

aquella ignorancia, luz de sciencia; contra aquella dissolução, outra

vez luz, disciplina, e vigilancia.

Não está o remedio em fechar a residencia parochial, depois de expulso

d’ella o Cura indigno, deixando muda e ás escuras a casa da oração.

Não está em despejar os paços episcopaes, para morada e pagode de

especuladores enriquecidos, e as cathedraes para quarteis, theatros,

ou serrarias de madeira. Está, sim, em precaver por Leis sabias, como

sem custo as ha-de fazer o nosso Parlamento agricola, que os Bispos e

Parochos sejam sempre o que o seu nome, o seu caracter, a Lei da sua

instituição, a utilidade, a necessidade, e a vontade do Povo, e a sua

propria consciencia, lhes ordena que sejam.

¿Será isto exequivel? sim, sim; e tanto, e por tão faceis meios, que

o que só admira e espanta é não se achar já de muito em execução, em

praxe, e em costume.

O primeiro ponto, o primeiro passo, a primeira condição impreterivel

para esta reformação tão necessaria e tão urgente, quer a consideremos

á luz do Céo, quer á dos interesses temporaes, é a boa escolha dos

Bispos.

* * * * *

Foram os Bispos, nos seculos doirados da Egreja, e nas terras onde ella

mais floresceu, eleitos, cada um pelo proprio rebanho a que havia de

presidir[4]. Nada mais liberal, nada mais natural e justo, nada mais

conveniente, que essa usança; nada mais digno de se ressuscitar n’uma

edade, que blasona de liberrima e philosophica.

A nomeação dos Prelados pelo Chefe do Estado civil, e só dependente

da sancção do Pontifice, sancção em que tantas contemplações, tantos

motivos extranhos ao merito real, podem influir, é, mesmo para

os entendimentos mais myopes, viciosa, e mais que arriscadissima

a desacerto. É esta uma verdade, que (¡ainda mal!) os factos teem

repetidamente confirmado.

¡Que de vezes uma parcialidade vencedora, já para recompensar, já

para predispôr serviços profanos e profanissimos, não tem enviado

das catacumbas facciosas para os thronos episcopaes, ora lobos, ora

apestados e leprosos, ora defuntos! ¡mãos geladas para as boas obras!

¡corações gelados para os bons desejos! ¡linguas geladas para as

palavras de amor! O Céo nos defenda de citar exemplos; ¿e para quê? ¿ha

ahi quem os não conheça, e os não deplore?

Escolhido, ou pelos Ecclesiasticos do Bispado, e em escrutinio

secretissimo, aquelle d’entre seus membros, que por virtudes, luzes,

patriotismo e prudencia, notavelmente se avantaja, ou (melhor e mais

liberalmente ainda) votado tambem em escrutinio secreto por todos

os fieis da Diocese, assim de um como de outro sexo, n’esse devemos

presumir que está a idoneidade para o grande sacerdocio, para a

relevantissima magistratura do Episcopado. O juizo do Povo haverá sido

o juizo de Deus.

Ao Chefe temporal do Estado, liberto assim de uma responsabilidade

tremenda, só resta levar com alegria a santa proposta aos pés do

Throno do Vigario de Christo, para impetrar á obra terrestre a sancção

suprema, e não desligar o interesse da parte, do formoso e admiravel

systema da unidade catholica.

Sagrados nas sédes de todas as egrejas Prelados de tão altos abonos, é

logicamente indispensavel deixar-lhes as mãos livres para o seu lavor,

que é infinito e complicadissimo.

E quando não, consideremos, com madureza, o que é um homem collocado

no centro de muitos milhares de homens, para acudir a todas as

necessidades espirituaes, e a grande numero das temporaes, umas e

outras imperativas, e sempre recrescentes.

A Oração Dominical cifra o seu espantoso encargo. Os seus primeiros

predecessores, os Apóstolos, viveram e morreram a cumpril-o. Christo

mesmo não curava só as almas, se não tambem os corpos; prégava as

virtudes, e ao mesmo tempo multiplicava o pão e os peixes no deserto, e

o vinho nas bodas. O seu Precursor na Lei escrita, ao mesmo passo que

dava os mandamentos do Sinai, e extirpava a idolatria, libertava o povo

do captiveiro, desentranhava os rochedos em fontes, o céo em maná e em

aves, as nuvens em luz, debellava a peste, e encaminhava os peregrinos

para a Terra da promissão e da abundancia.

Tudo isto, que fez Moisés, que fez Jesus, e em que os Apóstolos o

imitaram, tudo isto ha-de emprehender, e ha-de conseguir até ás raias

do impossivel, o Prelado que fôr digno da sua missão.

¿Mas como bastariam dois unicos braços, uma só lingua, para tanto

instruir, e para tanto obrar? De nenhuma sorte. O amor, mesmo no homem,

pode não ter limites; mas teem-n-os as fôrças.

É por isso, que de cada Sé brotaram em de redor d’ella quantidade

de Parochias, como da arvore boa se transplantam ramos para lhe

continuarem e multiplicarem os frutos em muitas partes ao mesmo tempo.

A voz do grande Pastor, repetida pelos seus coadjutores, fez-se ouvir

até da ovelha mais desgarrada, no reconcavo dos valles, ou no cume

das serras; e os beneficios das suas mãos, transmittidos por mãos

fieis, poderam diffundir-se para todos os quatro ventos do céo até ao

horizonte.

D’esta simples consideração se deriva inquestionavelmente, que, sendo

os Parochos nada menos que delegados e representantes dos Bispos,

como os Bispos o são de uma Providencia paternal, e necessitando o

Chefe conhecer e reconhecer, animar, e dirigir constantemente aos

seus immediatos mandatarios, são elles tambem, elles sós, livres,

liberrimos, independentes, os que os devem educar, preparar, eleger,

conservar, suspender, ou excluir.

É logo necessario, que o Governo temporal seja por Lei inhibido de

prover as freguezias; direito ou costume esse, ao qual principalmente

se deve imputar a odiosa ruindade, e incapacidade absoluta, de tanto e

tanto Parocho, que, mais que os livros dos impios, teem em toda a parte

concorrido para o descredito da Religião.

O Governo só deve, quando muito, superintender, como vigia supremo do

Estado, no comportamento dos Curas de almas como cidadãos, e no que o

seu officio tiver de puramente secular. O de Cesar, a Cesar; o de Deus,

a Deus. Nada mais orthodoxo.

* * * * *

Felicidade pela Agricultura (Vol. I) · 第 4 / 10 段