Suppomos, imaginamos já, o oiro e a prata a choverem á porta do

lavrador na vespera da sementeira, da plantação, do arroteamento;

¿e que digno uso fará o triste rustico d’esses meios de acção,

d’essas forças que se lhe liberalisam, d’essa colheita, que se lhe

antecipou ao trabalhar, se lhe minguam luzes de sciencia alheia, ou

sua, que o dirijam? ¿vontade intima, que lhe dê impulso? ¿certeza,

ou quasi certeza, de consumo ao que vai produzir? ¿Que fará emfim,

se, ainda tendo tudo isto, Leis viciosas o avexarem no seu officio,

lhe arrancarem os operarios e os filhos para a milicia, lhe multarem

com tributos o suor, como se devêra multar a ociosidade, o luxo, e os

vicios, e lhe exposerem a herdade a ser talada pela guerra civil, os

bois do seu arado comidos, as ovelhas do seu adubío espingardeadas, o

carro e as arvores do seu pomar convertidos em fogueiras para aquecer

a tropa rôta, ou a guerrilha descalça e bandoleira que transita?

N’uma palavra: ¿que aproveitará que o predio se lhe desentranhe em

frutos, como uma cornucopia, se a estrada para o mercado não existe,

se o rio convisinho, que deve transpôr, não tem ponte, se o que podia

carrear-lhe os moios se obstruiu, e apodrece dormente pelas margens

usurpadas?

Eis aqui chagas velhas, asquerosas, e envenenadas, que a nossa

Agricultura padece em todo o corpo, e para cujo curativo não é

sufficiente balsamo um Banco rural.

Se de veras queremos ser salvos, não ha remedio senão soccorrermo-nos

a uma reforma e organisação franca, sincera, absoluta, cabal,

completissima: Côrtes mais lavradoras que financeiras; mais lavradoras

que politicas; ou antes muito _politicas_ por muito _lavradoras_;

Leis agrarias, e mais Leis agrarias; e para todas as anti-agrarias

suppressão e execração; um Ministerio da Agricultura fecundo, dadivoso,

vigilante, e incançavel como o seu objecto; e, sobretudo, associação

universal dos homens bons, dos homens intelligentes, dos homens de

sciencia, dos homens de fortuna, dos homens de acção, dos homens de

valimento, dos homens patriotas, dos homens de bem, dos homens homens,

finalmente.

Repitâmol o, ainda a risco de enfadar, e repitâmol-o, porque é

Evangelho: não ha sacrificio, que, por grande, se deva recusar á

terra, pois é ella só que possue o segredo, que os estadistas procuram

cegamente nos livros e nos calculos. Não é no perseguir uns, no

divinisar outros, e no trocar todos com perpetuo e devastador fluxo e

refluxo; é no associal-os entre si, e reconcilial-os com a mãe-Terra,

que está a condição facillima de todas as venturas.

* * * * *

As Sociedades promotoras, quaes as havemos bosquejado, seriam para

o lado dos operarios rusticos pharol, bussola, thesoiro, conselho,

estimulo, protecção, refugio, canal para a entrada dos gados, das

sementes, dos instrumentos novos, e para a sahida e venda dos

productos. Para a parte dos que governam seriam não menos pharol,

não menos bussola, não menos thesoiro, não menos conselho, não menos

estimulo, não menos protecção, não menos refugio, não menos segurança

e felicidade; pois que a felicidade e segurança dos governantes, só da

felicidade e segurança dos governados se compõe, e só d’ellas se pode

compôr.

Assumpto era este para interminaveis commentarios; mas estreiteza de

papel, mas estreiteza ainda peor de vontade em quem nos ha-de ler (ou

não ler) nos acovarda.

Dizer tudo, não o podemos; tudo calar não nol-o soffre o coração.

Vamos cerrar em epilogo mais algumas lembranças, que ahi fiquem já,

de proposta á consideração das futuras e das presentes Sociedades

agricolas, do futuro Ministerio da Agricultura, dos Deputados, e da

Imprensa.

* * * * *

I--Se a associação é a mãe dos prodigios; se os que se associam dão,

por voluntario tributo, tempo, trabalho, despezas, a um interesse

publico; ¿não é repugnante contradicção que o Governo, representante

natural de todos os publicos interesses, lhes carregue ainda os onus,

e, a troco de uma illiberalissima sancção de seus estatutos, de uma

inintelligivel licença para existirem, lhes exija nas secretarias uma

avultada somma pecuniaria?

¿Não deveriam antes as associações agricolas, as industriaes, as

artisticas, as litterarias, e ainda as de mera e honesta recreação,

ser tão livres como são em nossas casas os convites, os bailes e os

festejos?

E ainda mais: ¿as uteis não mereceriam, em vez d’esta compressão á

nascença, premios e louvores segundo a sua importancia?

II--¿A introducção de tudo quanto pode contribuir para o

aperfeiçoamento da Agricultura não deveria ser, da mesma sorte, não só

isenta de direito, senão ainda premiada?

III--¿Não seria sobre modo util legislar mais premios, para os que no

trato da Agricultura se extremassem? ¿Quem universalisou a cultura

da batata, senão o premio? ¿Não deveria semelhantemente havel-os

para todos os primeiros introductores de novidades agrarias, para os

autores, mesmo para os traductores, de escriptos agronomicos de uso

pratico, verbi-gratia imprimirem-se-lhes gratuitamente esses escritos

pela Typographia Nacional?

IV--¿Não é já tempo para a creação de quintas exemplares?

V--¿Não seria ajuizadissima providencia enviar mancebos, previamente

habilitados, matricular-se nas escolas agrarias praticas das nações

adiantadas, os quaes, depois de viajadas a França, a Allemanha, a

Inglaterra, a Italia, a Suissa, se recolhessem mestres e regeneradores

para entre os seus conterraneos?

VI--Os lavradores, os camponezes em geral, dir-se-hia que, semelhantes

ás plantas, lançam não sei que raizes no torrão nativo. A ideia de se

desviarem, mesmo para perto e para pouco tempo, lhes repugna; o seu

viver tem as demarcações da sua fazenda. E depois, fallecer-lhes-hiam

os haveres, para se irem tão longe á escola rural; os haveres, e o

animo tambem, que entretanto ahi lhes ficava a herdade sem tutella,

a casa sem escora, os paes alquebrados dos annos, sem bordão nem

companhia.

¿Não fôra logo uma providencia tão santa como philosophica e fecunda,

fazer d’esses regressados viajantes--agrónomos, professores ambulantes

de Agricultura, que se fossem de Districto em Districto, e de Provincia

em Provincia, doutrinando como Apóstolos? ¿assentando hoje aqui a sua

escola, á sombra da arvore rustica no alto do oiteiro, e tomando para

thema da prégação os predios circumjacentes; os mais bem cultivados,

assim como os mais errados e perdidos? ¿d’aqui a um mez, mais longe, em

cima das médas da eira, por uma noite de luar, adubando os preceitos,

no meio dos ouvintes apinhados, com episodios da sua Odyssêa por

terras alheias, com apraziveis digressões, sempre bem vindas, sobre a

Sabedoria e Liberalidade Divina?

Como os Apóstolos antigos, estes evangelisadores do trabalho, em toda

a parte assignalariam com milagres a sua passagem; as gandaras se

transformariam em seáras debaixo de seus pés, em pomares e mattas por

cima de suas cabeças; os baldios, em pastagens; os gados famintos, em

lustrosos rebanhos e manadas; a arca mal cheia, em celleiros atulhados;

a borôa sem conduto, em meza saborosa; a choça lodacenta, em casinha de

sobrado e vidraças, com dois ou tres livros para o serão, um leito alvo

e fôfo para a noite, e um oratorio, sempre enfeitado de flores frescas,

para as acções de graças quotidianas.

Tudo isto, que é infinito para a felicidade, o haveria feito o passeio

de um só homem pela provincia.

Quando elle houvesse passado, mandasseis muito nas boas horas o exactor

dos tributos; não havia de voltar com as mãos vazias.

VII--Seja-nos permittido citarmo-nos a nós mesmos, transcrevendo para

este papel de consciencia o que em outro papel, tambem de consciencia,

escreviamos em 17 de Abril de 1845, por occasião do relatorio do Barão

Thénard sobre a admiravel Exposição da Industria franceza n’esse

anno. O conselho que então davamos, ninguem dirá que fosse insensato,

nem vergonhoso ou ruim de receber, nem que, recebido, podesse ser

improductivo; e entretanto.... soou no deserto; não encontrou um só

ecco pelo Parlamento, nem pelo Governo, nem pela Imprensa; ainda

dormiam todos.

Agora que já a miseria cresceu, em tres annos, mais tres seculos,

repetimol-o. Pode ser que já alguem tenha acordado. ¡Oxalá!:

«Reflicta-se no exemplo d’aquella grande Nação, a França, e cuide-se

em o imitar. Lá a par da invenção, apparece constantemente o premio.

Convidar e abrir salas aos productos da Industria, alguma coisa é, mas

não basta. Para os espiritos capazes de crear, seja em que genero fôr,

não ha estimulo como o do premio honorifico; e o premio honorifico, as

medalhas de oiro, de prata, ou de bronze, recebendo-se como thesoiros,

podem custar pouquissimo a quem as dá. Tantos não são os premiaveis

n’este pequeno Reino, que hajam taes premios de montar a muito; e

¡oxalá que subissem a contos de réis! A esta verba nova de despeza

do Estado corresponderia outra de receita milhares de vezes maior.

Fundada no exemplo da França, dos Estados-unidos etc., parece-nos que

nenhum serviço mais relevante poderia fazer a Sociedade promotora

da Industria nacional, do que offerecer ao Governo, para elle

apresentar ás Côrtes, um projecto de Lei de premios para os inventos

e aperfeiçoamentos. A nossa proxima futura Exposição poderia sahir

dez vezes máis esplendida e animadora, que a passada. ¿E não conviria

até, e não seria inteiramente conforme com o espirito d’este seculo,

crear uma Ordem nova especial para os benemeritos da Industria, como

nos tempos guerreiros se creavam tantas para os extremados no exforço?

¿Será mais honrosa, e será sobre tudo mais util, a heroicidade

militar, que o engenho creador e renovador da terra?»

Assim bradavamos nós em favor de todos os generos de Industria.

Hoje limitamos o requerimento á Industria mãe de todas: á Agricultura.

* * * * *

Homens, que o Povo escolhe e envia, e a quem paga, para lhe formulardes

em Leis a sua vontade, mostrae-vos dignos de tão alta missão; decretae

a ORDEM DO ARADO.

Outubro de 1848.

NOTAS DE RODAPÉ:

[2] Pode consultar-se o _Agricultor Michaelense_, publicação mensal,

orgam da Sociedade, n.ᵒ 2, de Fevereiro de 1848. Refere-se Castilho a

uma proposta do seu consocio José do Canto, intitulada _Banco Rural_.

NOTA DOS EDITORES

V

Côrtes agricolas

SUMMARIO

A Patria está em perigo; deve-se deixar de curandeiros. O campo e o

trabalho hão-de salval-a.--Singular historia de um mancebo Inglez.--O

regresso da Agricultura não é desagradavel, nem vil, nem rude; e é o

unico possivel para nós.--Desenvolve-se a já tocada idéia de Côrtes

de lavradores.--Prova-se, que só por este meio teremos Governo, que

mereça o nome de representativo.--Quadro de um tal Parlamento.

Não saiâmos da cabeceira da nossa querida e atribulada enferma.

Foi poderosa, opulenta, rainha, e bella; jaz sem forças, nua,

desprezada, e agonisante; só a belleza não perdeu ainda. De mais,

é nossa mãe. D’ella e n’ella nos formámos e nos nutrimos; d’ella

recebemos a vida, a fala, as orações da infancia, os conhecimentos,

os brasões, as glorias de todo o genero; d’ella os objectos de todas

nossas affeições mais intimas. O seu ser é o nosso ser; os seus

infortunios são nossos; a nossa prosperidade seria a sua.

Gratidão, piedade, interesse, sentimento religioso, nos obrigam a não

desamparar a Patria, em quanto respira.

Superior a ella, não ha senão o genero humano, como acima do genero

humano só ha Deus.

Mas, pela admiravel harmonia, com que a universalidade das coisas está

ligada, não só a Deus e ao genero humano serve quem serve á Patria, se

não que serve ainda á familia, e ao seu proprio individuo.

Irmãos, não nol-o dissimulemos: a enfermidade de nossa mãe é grave;

os seus males, complicados e antigos; o seu virar-se e revirar-se tão

a miudo, sem poder estar de lado algum, prova desequilibrio geral nos

principios vitaes. Se a queremos salvar, e salvar-nos, não ha remedio

senão lançar fóra todas as beberagens, com que medicos e charlatães

nol-a teem peorado de dia para dia, e recorrer a novo tratamento.

¿Mas qual? o que muitas vezes tem salvo a doentes já desenganados da

medicina: os ares e os exercicios do campo.

* * * * *

Um mancebo Inglez, nobre, opulento, e excessivamente mimoso da fortuna,

via-se chegado pelos prazeres á insensibilidade, e pelo abuso da vida

ao inevitavel termo d’ella. A Natureza o abandonava; a alma se lhe

anoitecêra; no coração mesmo não lhe vicejava já um só desejo, a não

ser o vago instincto de existencia, que é o _ultimum moriens_. Nem a

mocidade nem a fortuna tinham já forças para reanimar a sua victima.

A sciencia, baldadas as derradeiras tentativas, lhe voltára as costas

confusa e desconsolada. Não era um moribundo aquelle homem; era um

morto. Para ser enterrado só lhe faltava o acabar de cahir.

Em Paris estava; estatua entre danças; acipreste entre flores;

holocausto entre fragrancias e musicas; e o seu derradeiro sol ia

pôr-se. Reune os servos; despede se d’elles, que choram recebendo os

copiosos effeitos da sua liberalidade. Cerra n’um cofre os papeis,

algumas joias, e um retrato de mulher formosa... que se esquece de

beijar; e, guardando a chave, entrega ao seu hospedeiro este deposito,

com tal declaração de ultima vontade:

--«Se eu não voltar dentro em um anno, arrombae este cofre; arrecadae

para vós as preciosidades que n’elle achardes; o de mais, que vos seria

inutil, remettei para Londres á pessoa que ahi mesmo fica designada.»

Não era ainda passado o anno, e já todos, os que o haviam conhecido,

consagravam saudade e algumas lagrimas... (talvez uma lagrima)

ao prematuro e ignorado fim de um mancebo amavel e bom, a quem a

felicidade se azedára em morte.

¡Eil-o que reapparece, como que de baixo da terra!

¡Mas quão outro!¡ reverdecido e florescente! o rosto alto; as faces

risonhas; os olhos vívidos; andar ligeiro; todos os movimentos faceis e

graciosos. O semblante crestado revéla que foi o sol e a Natureza quem

o retemperou.

Pede o seu cofre; abre-o com alvoroço; dá as joias ao seu depositario

fiel; mas o retrato.... ¡beija-o com lagrimas, com alegria, com

soffreguidão! ressuscitára-lhe o coração com a saude.

¿Que feiticeira, ou que magico, operou tamanho prodigio? o TRABALHO, e

a NATUREZA.

O pouco vigor que lhe restava, empregou-o, como quem põe a ultima peça

de cobre n’um jogo de parar, na tentativa de um viver duro e sóbrio;

metteu-se ás estradas, obscuro moço de cavalgaduras; sujeitou-se a

todos os caprichos dos viajantes, das estações e do acaso; despejou

a pé, a léguas e léguas, e muitas vezes de um só fôlego, os caminhos

mais asperos, como os suaves, por soes e chuvas, por neves e ventanias;

dormiu contente onde a sorte lh’o deparou: aqui sobre o feno, ou ao

lume; além entre lençoes; mais longe na terra nua e humida; a fome,

cosinheiro optimo, lhe temperou o pão negro e os legumes grosseiros;

o costume dentro em pouco lhe tornou agradavel o remedio, a principio

amargoso. O exforço, que lhe reconquistára a existencia, ficou para

lh’a guardar.

A historia d’aquelle mancebo podéra ser lição para Nações. O luxo e

o desconcerto tambem as matam, como aos individuos. Tambem, como aos

individuos, o Trabalho e a Natureza as podem ressuscitar.

* * * * *

De mais, a occupação agricola para um povo nem sequer é desabrida.

Se tem espinhos.... verdura, flores, e frutos lh’os disfarçam. Se a

sua lida é continua, a variedade a acompanha; se lhe chamam canceira,

ella é saude; se pobreza, ella a fonte de todos os haveres; se obscura

e humilde, ella a menos dependente; se rude, ella a mais cheia de

conhecimentos praticos, a mais visinha do Creador, e, como tal, a mais

fecunda em inspirações.

Accrescentemos que para Portugal não ha já hoje outra occupação

possivel.

¿A conquista? não. ¿Os descobrimentos? não. ¿As minas? não. ¿A

industria? não. As nossas conquistas, os nossos descobrimentos, as

nossas minas, a nossa industria, é o solo da Patria. É o unico mister

para que ainda nos restam braços, instrumentos, forças, e liberdade. É

o unico lavor, em que nenhumas invejas estrangeiras perigosas hão-de

vir perturbar-nos.

O Sceptro de D. Affonso Henriques, e o de D. Manuel, perderam-se; o de

D. José quebrou-se. Sceptro, e não escárneo, só pode ser hoje no Throno

Portuguez o de D. Sancho I, e o de D. Diniz.

* * * * *

Em um dos nossos precedentes artigos suscitámos a ideia de Côrtes

lavradoras.

Este assumpto, que desde então não cessámos ainda de considerar, cada

vez se nos representa mais fundamental, e mais ponderoso para a nova

e desejada reformação; e isto por muitas rasões; mas principalmente

porque é por Leis novas que a Agricultura só pode ser protegida: e

essas Leis, quanto mais agricola for o Parlamento que as dictar, tanto

mais concretas e acertadas hão-de sahir.

Quem primeiro estreou na terra virgem

o arado creador, primeiro aos homens

deu macio sustento em aureas messes,

e em meditadas Leis costumes, Patria,

Céres foi; tudo é dádiva de Céres.

São palavras postas bem dignamente na bocca de uma das Musas por um dos

maiores poetas do mundo, por Ovidio, que amava e praticava tambem a

Agricultura, e, onde convinha, sabia elevar-se á Philosophia.

* * * * *

Como faremos nós, porém, para que o Parlamento se componha de

verdadeiros representantes dos interesses agricolas?

Excellentemente; facillimamente: associando-nos desde já, por toda a

parte, para trabalharmos para as primeiras eleições _nacionaes_ em

sentido _nacional_.

Que as sociedades secretas enredem e machinem, no esconderijo das

noites, para a candidatura dos seus politicos. Reunâmo-nos nós, ao

olho do sol dos domingos, depois da Missa do dia, sobre a relva do

adro de cada Parochia rural, a discutir qual é dos visinhos o que

melhor cultiva a terra da Patria, o que tem mostrado mais sincero

amor á lavoira, aos operarios, aos filhos, e a toda a familia; mais

caridade para com os indigentes, mais desvelo para com os animaes

do seu uso, mais observancia das Leis, mais actividade no grangear,

mais innocencia e concerto no viver. Descobertas essas phénices (que

existem, e depressa se descobrem) dêmo-nos fortemente as mãos para não

commettermos a outrem os mais caros dos nossos interesses. Façâmos

d’estas listas de consciencia, que possam entrar sem vergonha na urna,

só então propriamente collocada na casa de Deus e da oração.

E em verdade: ¡com que despejo se ousa ainda, depois de vinte e oito

annos de experiencia e demonstração[3], chamar _representante_ ou

_mandatario_, de Gôa ou dos Açores, o homem, de quem os Açores e Gôa

não ouviram jámais falar, e que nem talvez, em carta geographica,

jámais os visse!

¿Como veio o alemtejano procurador de Traz-os-montes, e o minhoto do

Alemtejo, e quasi sempre o lisboeta de toda a parte, quando o triste

(ou antes o alegre) tudo ignora de todo o Reino, afóra os corredores de

S. Carlos, as alamedas do Passeio Publico, as galerias de S. Bento, e

as arcadas do Terreiro do Paço, d’onde se sobe para as secretarias onde

se requer?

Eleições de facção. Eleições de dependencia. Eleições de compra,

ou de compadria. Eleições sem côr, ao menos, de verosemelhança

ou possibilidade. Eleições sem eleição. Eleições verdadeiramente

fabricadas nas trevas, e para trevas. Comedia, que seria para rir,

se não fosse para chorar, e mais van cem vezes que as dos tablados,

pois que ahi, ao menos, se o actor não é a personagem que representa,

apparece falando acertadamente como ella, e advogando nos termos

proprios os seus interesses.

¿Fazem-no assim os representantes parlamentares? Pedi, a uma e uma,

a cada Provincia, que vos mostre o rol dos beneficios, de que foi

devedora ás diligencias da maior parte dos desconhecidos mandatarios em

quem votou.

Uma reforma para fazer, até por Lei, seria que ninguem podesse dar o

seu suffragio a cidadão fora do seu districto demarcado. Então sim, que

poderia existir de veras representação nacional. Os subornos seriam

ainda possiveis, assim como os enganos de vontade, e as fraudes; mas

do mero possivel ao certo, ao constante, ao inevitavel, vai infinita

distancia; e de dois methodos viciosos (mormente onde se trata da

felicidade de um Povo) é sempre ao menos vicioso que se deve dar a

preferencia.

* * * * *

Ao Governo monarchico absoluto pôz a philosophia uma accusação

peremptoria; a saber: a falsidade manifesta, e conseguintemente a

nullidade, do seu fundamento unico, o _Direito Divino_.

¿Aos olhos d’essa mesma philosophia, como poderemos nós sustentar o

chamado _regimen liberal_, se a sua base, tambem unica, a representação

do Povo, fôr manifestamente uma chimera? ¿Ha ahi quem negue que ella o

seja? ¿Onde está elle? ¿em que parcialidade? ¿e como o provaria?

Confessemos, meus amigos, que todos havemos peccado até hoje um

grande peccado contra a Liberdade e contra a Patria, e contra a nossa

consciencia, e contra o senso commum. Confessemol-o, que será nobre,

e sobre tudo será util, a confissão, pois a ella se poderá seguir a

vergonha, á vergonha a emenda, e á emenda o remedio.

* * * * *

As sociedades eleitoraes, uma vez instituidas, poderiam estender a sua

acção benefica a muito mais que á escolha e nomeação dos Legisladores.

Não falamos já nas Juntas de Parochia, cujas attribuições, em ponto

pequeno, são relevantes; mas as Camaras dos Municipios não são talvez

de menos importancia que o Parlamento mesmo; já pela sua influencia,

mais ou menos directa, na feitura dos Deputados, e na formação da

Junta geral do Districto e do Conselho de Districto, isto é na acção

legislativa e na administrativa, já pelas suas proprias attribuições

municipaes, isto é maternaes, domesticas, e economicas.

Em quanto só se procurarem campeões da Politica para Vereadores,

como geralmente se costuma, os campos e as aldeias, a lavoira, e mil

pequenas industrias, só terão padrastos em vez de paes.

N’uma palavra:

Para que o Systema representativo seja uma realidade, uma formosura,

uma salvação; para que se coadune com o entendimento, com a

vontade, com os multiplicadissimos interesses de todos; não é só

util e necessario, é indispensavel, que os cargos electivos, de

qualquer natureza que sejam, se dêem segundo as aptidões, para bem

se preencherem sem respeito algum ás opiniões politicas, nem á

indifferença e á incredulidade, pois muita gente ha ahi hoje, e da

melhor em consciencia e em patriotismo, a quem tão longas decepções

tornaram incrédula, e apparentemente indifferentista sobre os negocios

publicos.

Não nos explicámos bem. Ha muita gente, que, enfadada de ver a

Politica substituida constantemente pela individualidade, as coisas

pelas pessoas, e os principios pelas ambições, não vai enxovalhar

o seu patriotismo na tauromachia das eleições, nem nas orgias

dos clubs; conserva latente, e como que de reserva para melhores

tempos, o seu patriotismo; mas que, chegada a hora de o mostrar por

obras, o presentará inteiro, energico, productivo, desinteressado,

incorruptivel, e inquebrantavel.

Eis ahi, sobre tudo, os salvadores de que havemos grandemente mistér

para Deputados, para Vereadôres, para Conselheiros de Districto,

para membros da Junta geral de Districto, e das Juntas de Parochia,

em summa, para todos os postos que forem electivos, desde a base

até ao vértice da pyramide; ¡e oxalá que electivos fossem todos os

cargos, havendo, por toda a parte para as eleições a confederação, que

propomos, dos homens sinceros, de bem, e patrioticos! assim como ¡oxalá

não houvesse um só cargo electivo em quanto a eleição fosse uma mentira

e uma injuria! injuria tanto para os que diante da urna arremedam

votar, lançando listas que não leram, como para aquelles sobre quem

taes escolhas recaem; como para quem, no fundo de espeluncas, fabricou

a seu bel praser essa expressão de uma vontade popular que não existe.

Este alvitre, este conselho, esta supplica, que a philosophia, que a

honra, que o santo amor da Patria dirigem a todos e a cada um de nós,

só os ambiciosos vís, só os mal amigos da Patria, só os insensatos, os

poderiam repellir.

Maravilhosamente salutares para os governados, elles o são não menos

para os governantes. O Rei, o Ministerio, que por esta estrada franca e

descoberta uma vez se resolvessem a caminhar, seriam o mais popular e o

mais abençoado dos Reis, e o mais duradoiro de todos os Ministerios.

As revoluções não nascem de mais de tres causas: o horror instinctivo

do homem para com o engano, para com a violencia, e para com a fome.

Felicidade pela Agricultura (Vol. I) · 第 3 / 10 段