CAPITULO X

Do primeiro pouso junto ao Aquidauana, seguimos a O. fraldejando sempre

a serra, que se eleva, cada vez mais, com pincaros escalvados e talhados

até a base.

Os sitios são agrestes e sombrios; as plantas sexatiles se agrupão de

lado a lado da trilha que sobe e desce, conforme as dobras extremas da

serrania.

De vez em quando, descobrem-se as corredeiras do rio, cujo ruido se ouve

de longe; de vez em quando descortinão-se pedaços de campo distante, com

lindas arvores, a modo de vergeis.

N'um ponto, a vereda parece ir esbarrar n'um córte a pique de montanha:

a paizagem é ahi muito curiosa e eminentemente pitoresca.

Penetra-se então n'uma fenda monstruosa que dá passagem ao viajante,

entaliscando-o n'um corredor humido, cujas gotejantes paredes achão-se

tapetadas por achamalotadas _begonias_, _argyrostigmas_,

_capillus-veneris_, _adiantos_, etc.

Depois, sahe-se em campo: ahi acaba a serra[70].

As campinas, queimadas pouco tempo antes, reverdecião depois das ultimas

chuvas, e se estendião vicejantes, a perder de vista, como tapiz vistoso

salpicado de flôresinhas mimosas[71].

Caminhámos 2-{1/2} legoas até o corrego do Paxexi, onde fizemos pouso,

aproveitando ranchos abandonados e em ruinas.

A noite cahio serena: a trovoada do dia dissipára-se ao sopro de forte

ventania e tão sómente fugaces relampagos rasgavão um massiço de nuvens,

amontoadas em um ponto do horisonte. Roncos longinquos, intervallados,

mal se ouvião, rompendo o silencio crepuscular, tão solemne n'aquellas

paragens.

A lua subio então, espargindo sua meiga luz sobre a natureza e

infundindo aquella doce tristura, que acompanha essas noites de calma e

tranquillidade.

O dia da Paixão de Christo, em que estavamos, mais nos engolfava n'essa

meditação melancolica, que, sem méta, sem direcção certa, se atira no

espaço, e durante a qual os olhos da materia se fixão, sem vista, n'um

ponto, ao tempo que os olhos da alma vagueão pelos mundos além creados,

pelo indefinido e indeterminado.

De repente, atraz de um morro erguêrão-se nuvens rubras, densas na base,

flocadas acima e adelgaçadas. «São os paraguayos, disse-nos o velho

indio Palhá, que estão vaquejando no Taquarussú, a 5 legoas d'aqui;

queimão á noite os campos, para chamar o gado _esparramado_

(espalhado)...»

Sahindo de Paxexí com a madrugada, fomos em direcção ao porto de D.

Maria Domingas, o qual deviamos examinar como ponto de passagem para as

forças. Estavamos então a uma legoa de distancia d'elle.

Já se havião reunido a nós os indios da Boa-Vista, que vinhão constituir

a nossa guarda de protecção. Montados em bois, marchavão uns atraz dos

outros, com a lentidão grave d'aquelles ruminantes, a qual não sería

alterada, ainda quando apparecessem os inimigos.

Já começavamos então a avistar grandes manadas de gado: as _pontas_

pastavão em compactos grupos, que se apartavão com a nossa chegada,

fugindo as vaccas e bezerros, ao passo que os touros paravão, para

olhar-nos com desconfiança e sobranceria. Ás vezes, de um ponto

afastado, corria ao nosso encontro um d'elles; estacava junto ao caminho

e ahi nos esperava com ar de desafio e resolução. Bastava, comtudo, um

simples grito, um aceno para desvial-o, senão para afugental-o bem

longe[72].

O caminho vai sempre seguindo o rio, o qual ora sahe em campo limpo, ora

d'elle se separa por uma mata espessa e sombria.

Passavamos, de quando em quando, por tapéras[73]; erão ranchos vastos

cobertos de _herva de S. Caetano_[74], rodeados de urzes e espinhos;

erão moendas, engenhos, queimados em parte, cortados pelos machados do

invasor; em toda a parte, signaes de desolação e destruição inutil e

barbara. Só a natureza, no brilhantismo de seus verdores, consolava ao

derredor as vistas, cançadas de tamanhas provas de vandalismo; ella que,

embora desfigurada pela mão do homem, procura de continuo reparar os

estragos que tenha soffrido.

O porto de _D. Maria Domingas_, chamado pelos indios, _alinána_, é uma

larga aberta na mata. Dava passagem aos carros que, das fazendas da

margem direita do rio, se dirigião para a villa de Miranda.

Esse lugar fôra testemunha de uma das poucas scenas de resistencia no

longo periodo da occupação paraguaya e apresentava gloriosas mostras

d'aquelle feito de armas: varias arvores varadas por balas e cinco

ossadas humanas.

Em Maio de 186 , dezeseis indios terenas, occupados em fazer ahi

rapaduras, tinhão sido atacados por duzentos paraguayos, os quaes,

recebidos de dentro da mata por um fogo vivo e certeiro, em poucos

minutos forão obrigados á retirada, abandonando não só mortos como

feridos, que morrêrão ás mãos de seus encarniçados inimigos.

Cada vez que uma caravana india passa por junto d'esses restos,

levanta-se um clamor immenso: uns quebrão os ossos, outros insultão as

caveiras, cuspindo n'ellas e calcando-as aos pés; outros riem-se

estrepitosamente e dirigem motejos aos manes paraguayos.

Prohibimos demonstrações d'essa barbara expansão ao nosso sequito, que,

a custo, conservou-se calado, ao passar duas vezes por diante dos

alvejantes craneos, na entrada e sahida da mata: entretanto alguns

indios, descendo de seus bois, apanhárão uns ossos que levárão

escondidos.

O porto de D. Maria Domingas offerecia as melhores condições para uma

passagem de forças, estando a outra margem occupada pelo inimigo. Pouco

frequentado, afastado da estrada por onde os paraguayos presumião dever

descer a nossa gente, com váo seguro e commodo, com uma boa mataria para

protecção na transposição, era além d'isso o ponto onde convergião todos

os caminhos do districto e cuja posse cortava as communicações entre os

postos do Taquarussú e Souza, então existentes mais proximos do rio e

que deviamos primeiro atacar.

Ahi decidimos que se effectuaria a passagem e trabalhámos sempre n'esse

sentido, apezar dos estorvos que se levantárão contra essa escolha

razoavel e conveniente. Como, entretanto, não se realisárão as nossas

previsões e falhárão os nossos planos pela demora das forças brasileiras

e retirada dos paraguayos em Agosto, deixaremos de parte essas questões

que tinhão interesse immenso no momento e que o terião no futuro, se

houvessem surtido effeito as providencias, que n'aquelle sentido

tomámos.

As terras, que atravessámos, pertencião a D. Maria Domingas de Faria,

senhora estimada pelas suas excellentes qualidades e virtudes. As suas

posses importantes estèndião-se em toda a margem direita e esquerda do

Aquidauana e n'ellas estavão estabelecidos os seus parentes mais

chegados e filhos, entre os quaes temos o prazer de contar um amigo, o

sympathico fazendeiro--João Mamede Cordeiro de Faria.

Tangidos violentamente de suas propriedades pela invasão, havião todos

esses pacificos habitantes fugido de suas fazendas, indo, depois de mil

trabalhos e peripecias, se refugiar a 50 legoas d'ahi, junto ao rio

Taquary, a 7 legoas do lugar onde acampou a força no Coxim.

Sahindo do porto de D. Maria Domingas, fomos pousar no laranjal de

Francisco Dias, que estava então acoutado nos Morros, e, no dia

seguinte, chegámos ao porto do Pires, a uma legoa do entrincheiramento

paraguayo.

Ahi esperava-nos a maior contrariedade. Haviamos combinado com vinte e

tantos moradores dos Morros, para que nos fossem esperar n'aquelle

ponto, bem armados e com munição sufficiente para defesa, no caso de

sermos perturbados na ultima legoa, que restava fazer.

Apressáramos a viagem, com o fim de não nos tornar esperados; deixáramos

de parte muita curiosidade que examinar; haviamos desprezado o

entretenimento de pescas e caçadas em completa perda.

Verificando os nossos recursos, o municiamento e armas, achámo-nos com

18 pessoas mal armadas e municiadas só a um ou dous cartuxos.

Os indios revelavão receio latente: a cada instante ouvião toques de

caixa e cornetas, os quaes, entretanto, apezar de nossa boa audição,

nunca podémos perceber.

A cada instante nos avisavão que os paraguayos estavão em vigilancia

continua e que erão muito valentes. Accrescia ainda que, n'aquelle dia,

haviamos desconfiado da passagem de gente para a margem direita, por

causa de pontas de gado que parecião vir tangidas dos lados do porto do

Souza e que, por diversas vezes, havião passado diante de nós, n'uma

corrida tremenda.

Assim pois, perigos nos cercavão sem a protecção conveniente para os

casos de aperto: continuar, fôra temeridade improficua; proseguir, passo

inconsiderado.

Resolvemos por isso fazer-nos na volta dos Morros, cortando campo em

direcção a um dos picos da serra em que ficava a nossa pousada.

Assim, voltámos as costas ao sul, havendo préviamente lançado fogo á

campina que, abrasada pelo sol, incontinente despedio ao céo rolos de

negrejante fumaça.

Minutos depois apparecia, na margem de lá, outra fumaça, em signal de

aceitação de desafio, como usavão os paraguayos.

Desappareceu, porém, debaixo do formidavel aguaceiro que, por mais de

meia hora, despejárão as nuvens, protegendo a nossa retirada e impedindo

qualquer tentativa de perseguição.

N'esse mesmo dia (2 de Abril) chegámos ao nosso acampamento, onde

encontrámos os commodos que tanto consolo nos havião dado depois dos

dias penosos de nossa primeira viagem; ficando em nós, d'aquella

digressão ás bellas margens do Aquidauana, a immarcessivel recordação de

dias alegres e felizes.

Scenas de viagem Exploração entre os rios Taquary e Aquidauana no districto de Miranda : memoria descriptiva · 第 25 / 64 题