Acabada a digressão, dirigimo-nos no dia 29 para a margem direita do rio
Aquidauana.
Atravessando o ribeirão das _Pirapitangas_, fomos seguindo, de novo, a
serra na direcção S., até chegarmos junto á margem do rio, depois de
2-{1/2} legoas de marcha. Os aspectos do terreno continuão os mesmos.
As margens são aprumadas, cobertas de vegetação vigorosa, na qual
avultão os elegantes taquarussús, que fórmão grupos compactos,
entremeados com elevadas macaúbeiras.
O Aquidauana é o mais bello rio caudal, que se encontra em todo o
districto de Miranda: as mais lindas paizagens se fórmão em seu correr;
as mais animadas scenas se achão em suas vizinhanças.
A abundancia de pesca e caça ahi se encontra por modo prodigioso.
A natureza virgem, os viventes que lhe infundem o movimento, aquellas
matarias tão verdejantes, aquellas aguas puras e crystallinas a
reflectirem um céo de saphyra, a serra azulando ao longe, levão o extase
a uma alma artistica e a atirão n'essa alegria pura e suave, repassada
de tristeza, que Horacio tão bem exprimio pelo--_flebile nescio quid_.
Lembrar-nos-hemos sempre de um ponto de vista, que attrahiria os olhares
do ente menos admirador do bello.
O rio, ahi, descendo em rapida _corredeira_, morre de repente n'uma
bacia, que se abre regularmente no reconcavo de barrancos, cortados a
pique.
Ahi as aguas dormem: circulos ligeiros mal encrespão a
superficie,--ultimos impulsos da correnteza--e, em ondulações
concentricas, vão desapparecer de encontro ás margens.
Ora a brisa geme na folhagem delicada dos taquarussús e brinca sobre as
aguas; ora é o vento, que, vergando os flexiveis colmos, anima aquella
scena com harmonia mais grandiosa. Assim a vimos.
No alto das margens alcantilosas, as arvores estremecião aos embates de
forte sopro: as elevadas cannas se enroscavão, se confundião, se
debatião frementes, ás vezes, ligando os flexuosos topos ás copas das
macaúbas, outras abatendo-os até tocarem o chão.
O sereno lago, perturbado pelas lufadas, reflectia, de quando em quando,
o sombrio de nuvens que orlavão o azul celeste das abertas, por entre as
quaes o sol estirava raios destacados de scintillante luz.
Centenares de passaros esvoaçavão: uns tocados pelo vento, com as azas
meio encolhidas; outros cortando, com vôo mais firme, a ventania e
suspendendo-se n'ella. Muitas marrequinhas brincavão n'agua, sobre a
qual brancas garças deslisavão-se veloces, ao passo que lontras fazião
reluzir ao sol o pello lustroso, mergulhando de continuo e nadando com
ligeireza.
Tudo isto gritava, tudo isto piava, unindo mil vozes diversas,
produzindo mil sons differentes que, combinados no espaço, davão á
natureza aquella animação e vida, só proprias das obras do Creador.
Outra vez vimos essa bacia debaixo de novo aspecto. Tudo era calma; as
aguas não se movião; as arvores não se mexião.
O silencio da natureza como que se deixava ouvir; permitta-se-nos essa
expressão arrojada.
Um calor abrasador abatia e enervava a vida; luz deslumbrante penetrava
tudo.
A mataria, illuminada nos seus recantos mais sombrios, não tinha
mysterios; as arêas apparecião no fundo de esverdeadas aguas, e só
cardumes de peixes, symbolo do mutismo, nadavão em todos os
sentidos.....
O rio Aquidauana nasce de vertentes da grande serra de Maracajú[58].
Recebe, depois de algumas legoas de curso, os rios Cachoeirinha e
Cachoeira, tomando desde então importante volume de aguas, engrossado
pelos ribeirões _Dous Irmãos_, do _Taquarussú_ e _Uacôgo_[59], que
entrão pela margem esquerda e de _João Dias_, corregos do _Paxexi_ e da
_Paixão_, que desaguão pela margem direita.
Do ribeirão de João Dias, onde existe a ultima corredeira, o seu curso é
livre de obstaculos, com profundidade quasi constante de 8 a 10 palmos,
e largura média de 30 braças.
Navegavel para grandes canôas n'uma extensão de quasi 40 legoas, fenece
no rio Miranda pelo lado direito, confundindo as suas aguas claras e
puras ás revoltas e barrentas d'aquelle rio.
O seu nome é de origem uaycurú.
Um capitão dos cadiuéos tem a mesma denominação, com o accrescimo de um
T.--Taquidauana.
Não nos podérão explicar o que significa.
Nas matas d'esse rio habitão os animaes vulgares da fauna brasileira:
_onças_ (felis variarum specierum), _antas_ (tapirus americanus),
_lobinhos_, _jaguatiricas_, (felis pardalis, Neuwied), _raposas_,
_macacos_, (simia v. sp.), _tamanduás_, _tatús_ (Dasypus v. sp.), muitos
_queixadas_ (dicotyles labiatus), etc.; _lontras_ (lutra), _ariranhas_
(lutra brasiliensis) e _capiváras_ atravessão, a todo instante, a
correnteza; em seus campos proximos pullulão _cervos_ (cervus paludosus,
Desm.), _veados_ (cervus rufus, c. campestris), _emas_ (rhea americana),
_ceryemas_ (dicholophus cristatus.); nos cerrados, _jabotís_ (testudo
tabulata), muitas _cobras_ venenosas (crotalus horridus, bothrops
Neuwiedi, b. surucucú, boipébas, urutús, etc.) e reptis de outras
sortes.
Em aves ha os _jacús_ (penelope marail), _jacu-cácas_ (penelope
jacucáca, Spix.), _jacutingas_ (penelope leucoptera, Neuwied), _mutuns_
(crax v. sp.), _jaós_ (crypturus noctivagus) e _aracuans_[60], _tucanos_
(rhamphastos v. sp.), _araçaris_ (pteroglossus), muitas _pombas_,
_gralhas_, _periquitos_ (psittacula v. sp.), _papagaios_, (psittacus v.
sp.), _aráras_, enfeitão a ramagem das arvores, ao passo que os
_inhumas_[61] (palamedea chavaria), _jaburús_ ou _tuyuyús_[62],
_tabuyayás_[63] (ciconia m.), _socós_ (ardea), _curicácas_ (ibis
melanopsis) e bandos de numerosos _patos_ (anas) e _marrequinhas_ pousão
nas ribeiras ou se agrupão nos rochedos e insuas do rio. (Nota I)
Em pescado o Aquidauana é fartissimo.
Abundão os _jaús_, os _sorubys_, _dourados_, em certos mezes _pacús_,
_pirapitangas_, _corimbatás_ e _pacu-pebas_, _papa-terras_ (geophagus,
Heckel), _raias_, etc., etc.
O _jaú_ é o maior peixe dos rios de Mato-Grosso: extremamente voraz, não
duvida atacar o homem[64]. A resistencia que tal monstro faz, quando
agarrado ao anzol, é prodigiosa e não são raros os exemplos de grandes
canôas viradas na sua pesca.
O _soruby_ (platystoma), chamado mais commummente na
provincia--pintado--, é peixe de pelle, com malhas pardacentas em fundo
escuro. A cabeça é chata, com appendiculos como a dos bagres e occupa um
terço do comprimento total: a carne é saborosa, bem que um tanto forte.
O mais abundante e ao mesmo tempo um dos mais delicados peixes de
Mato-Grosso é o _pacú_, (prochilodus, Agassiz) tambem chamado _caranha_,
do qual Pison diz: «melioris saporis et nutrimenti habetur, quàm sargus
Europeus»: tem côr pardacenta, azulada n'agua, escamas pequenas com
reflexos dourados; geralmente 2 a 3 palmos de comprimento. É achatado.
Em certas occasiões, dá tal abundancia de gordura, que alimenta
proveitoso commercio de azeite. A quantidade é prodigiosa.
Nas enchentes do Paraguay, os _pacús_ seguem o movimento das aguas em
grandes cardumes, que ficão, na retirada d'ellas, presos em poças dos
campos e lagôas, onde morrem á mingoa d'agua e por causa da elevada
temperatura.
O ar fica então inficionado muitas legoas em derredor.
Contárão-nos que, em certos pontos perto do rio Paraguay, fica o chão
forrado, em extensões importantes, com camadas de 2 a 3 palmos d'esses
restos.
A gordura do pacú é preconisada para varias molestias: dizem ser de
grande efficacia na pica malacia, pelo enjôo que causa ao enfermo.
Um dos peixes, com razão, mais apreciados dos rios da provincia, é a
_pirapitanga_ (species characini), chamado em Goyaz _jurupensen_ (?) e
pelos indios guanás _araráitiissi_ (peixe de rabo vermelho). As suas
dimensões nunca são extraordinarias; attinge no maximo a tres palmos de
comprido; mais commummente regula de um 1 a 2 palmos. A carne, com
listras vermelhas, é consistente, saborosa, bem que, como a dos outros
peixes de rios, seja crivada de perigosas espinhas bifurcadas.
As pirapitangas sobem os ribeirões e corregos até onde encontrão agua
sufficiente. Muitas vezes, ficão retidas em poças mais fundas até a
época das enchentes. No corrego dos Laianas apanhámos algumas de bom
tamanho, apezar da agua ter apenas 1/2 palmo de profundidade.
No Aquidauana é muito rara a presença dos monstruosos _sucurys_, assim
como a das perigosissimas _piranhas_ (myletes macropomus).
São habitantes predilectos do grande Paraguay.
Da voracidade da piranha se ha fallado sufficientemente: nada resiste
aos dentes aguçados de myriades d'aquelles peixes[65], que no ardor da
fome, devorão-se uns aos outros, com rapidez prodigiosa.
Os _sucurys_[66] (boa murina), verdadeiros representantes
antediluvianos, chegão a dimensões que os tornão entes deslocados na
natureza proporcional de nosso globo. Vimos uma d'essas serpentes, com
30 palmos de comprido e 15 de circumferencia na barriga; era comtudo
muito nova, pois que o nosso amigo, o tenente de guarda nacional, João
Faustino do Prado nos asseverou attingirem muito além de 6 braças,
contando-nos a este respeito um episodio curioso nas historias de
sucurys.
N'uma viagem a Cuyabá, passando elle pelos pantanaes do Piquiry,
observára de longe um touro, o qual disparava em todos os sentidos,
parecendo retido por um extenso cipó, que conheceu era um enorme sucury.
De mais perto notou aquella curiosa contenda. A serpente, depois de
estirar-se o mais possivel, retrahia-se de vagar, trazendo, de rastros
ao chão, o seu adversario exhausto.
Com o approximar de gente, o touro deu um arranco desesperado e partio á
disparada, bramando loucamente. O sucury deu de si até ficar da grossura
de tres dedos: depois começou a encolher-se, arrastando a presa que,
extenuada por tantos esforços, de novo se deixára cahir.
A victoria era certa; o final conhecido.
Um novo elemento perturbou a peripecia natural. O facão do homem, de um
golpe, cortou o sucury e deu a liberdade ao touro. Este, erguendo-se de
um só pulo, sacudio a cabeça e, arrojando-se pela campina, com o tronco
da serpente pendurada ao pescoço, em breve desappareceu d'aquelle
theatro, onde devêra achar a morte.
Ás vezes, os sucurys atacão as onças e antas com exito[67]. Entretanto
n'uma margem do Paraguay, o capitão Francisco Domingos da Costa Pereira
vio uma onça arrebentar um sucury, por quem fôra enlaçada.
Com uma facasinha o homem defende-se perfeitamente d'essas serpentes:
basta uma ligeira picada, levantando as escamas para obrigal-as a
desapertar os seus fataes enleios.
Já em occasião opportuna fallámos sobre os ferrões que os sucurys tem ao
redor do anus, e o que pensamos a tal respeito[68].
As rochas, sobre que rolão as aguas do Aquidauana, são de grés; em
muitas partes, o seu leito é completamente silicoso, em outras,
argiloso; lamacento, raras vezes. N'estes ultimos pontos reunem-se os
_corimbatás_[69] (schizodon, Agassiz), _piáus_, _traíras_ (erythrinus),
_bagres_, etc. Os seixos rolados abundão nas margens e entre elles o
_silex_ e os _silicatos_ de ferro.
As enchentes do rio nunca sobem a grandes alturas; raramente trasbordão,
não só pela elevação dos barrancos, senão pela facilidade com que se
escoão as aguas no rio Miranda, o qual corre por campos baixos e faceis
de serem inundados.