CAPITULO IX

Acabada a digressão, dirigimo-nos no dia 29 para a margem direita do rio

Aquidauana.

Atravessando o ribeirão das _Pirapitangas_, fomos seguindo, de novo, a

serra na direcção S., até chegarmos junto á margem do rio, depois de

2-{1/2} legoas de marcha. Os aspectos do terreno continuão os mesmos.

As margens são aprumadas, cobertas de vegetação vigorosa, na qual

avultão os elegantes taquarussús, que fórmão grupos compactos,

entremeados com elevadas macaúbeiras.

O Aquidauana é o mais bello rio caudal, que se encontra em todo o

districto de Miranda: as mais lindas paizagens se fórmão em seu correr;

as mais animadas scenas se achão em suas vizinhanças.

A abundancia de pesca e caça ahi se encontra por modo prodigioso.

A natureza virgem, os viventes que lhe infundem o movimento, aquellas

matarias tão verdejantes, aquellas aguas puras e crystallinas a

reflectirem um céo de saphyra, a serra azulando ao longe, levão o extase

a uma alma artistica e a atirão n'essa alegria pura e suave, repassada

de tristeza, que Horacio tão bem exprimio pelo--_flebile nescio quid_.

Lembrar-nos-hemos sempre de um ponto de vista, que attrahiria os olhares

do ente menos admirador do bello.

O rio, ahi, descendo em rapida _corredeira_, morre de repente n'uma

bacia, que se abre regularmente no reconcavo de barrancos, cortados a

pique.

Ahi as aguas dormem: circulos ligeiros mal encrespão a

superficie,--ultimos impulsos da correnteza--e, em ondulações

concentricas, vão desapparecer de encontro ás margens.

Ora a brisa geme na folhagem delicada dos taquarussús e brinca sobre as

aguas; ora é o vento, que, vergando os flexiveis colmos, anima aquella

scena com harmonia mais grandiosa. Assim a vimos.

No alto das margens alcantilosas, as arvores estremecião aos embates de

forte sopro: as elevadas cannas se enroscavão, se confundião, se

debatião frementes, ás vezes, ligando os flexuosos topos ás copas das

macaúbas, outras abatendo-os até tocarem o chão.

O sereno lago, perturbado pelas lufadas, reflectia, de quando em quando,

o sombrio de nuvens que orlavão o azul celeste das abertas, por entre as

quaes o sol estirava raios destacados de scintillante luz.

Centenares de passaros esvoaçavão: uns tocados pelo vento, com as azas

meio encolhidas; outros cortando, com vôo mais firme, a ventania e

suspendendo-se n'ella. Muitas marrequinhas brincavão n'agua, sobre a

qual brancas garças deslisavão-se veloces, ao passo que lontras fazião

reluzir ao sol o pello lustroso, mergulhando de continuo e nadando com

ligeireza.

Tudo isto gritava, tudo isto piava, unindo mil vozes diversas,

produzindo mil sons differentes que, combinados no espaço, davão á

natureza aquella animação e vida, só proprias das obras do Creador.

Outra vez vimos essa bacia debaixo de novo aspecto. Tudo era calma; as

aguas não se movião; as arvores não se mexião.

O silencio da natureza como que se deixava ouvir; permitta-se-nos essa

expressão arrojada.

Um calor abrasador abatia e enervava a vida; luz deslumbrante penetrava

tudo.

A mataria, illuminada nos seus recantos mais sombrios, não tinha

mysterios; as arêas apparecião no fundo de esverdeadas aguas, e só

cardumes de peixes, symbolo do mutismo, nadavão em todos os

sentidos.....

O rio Aquidauana nasce de vertentes da grande serra de Maracajú[58].

Recebe, depois de algumas legoas de curso, os rios Cachoeirinha e

Cachoeira, tomando desde então importante volume de aguas, engrossado

pelos ribeirões _Dous Irmãos_, do _Taquarussú_ e _Uacôgo_[59], que

entrão pela margem esquerda e de _João Dias_, corregos do _Paxexi_ e da

_Paixão_, que desaguão pela margem direita.

Do ribeirão de João Dias, onde existe a ultima corredeira, o seu curso é

livre de obstaculos, com profundidade quasi constante de 8 a 10 palmos,

e largura média de 30 braças.

Navegavel para grandes canôas n'uma extensão de quasi 40 legoas, fenece

no rio Miranda pelo lado direito, confundindo as suas aguas claras e

puras ás revoltas e barrentas d'aquelle rio.

O seu nome é de origem uaycurú.

Um capitão dos cadiuéos tem a mesma denominação, com o accrescimo de um

T.--Taquidauana.

Não nos podérão explicar o que significa.

Nas matas d'esse rio habitão os animaes vulgares da fauna brasileira:

_onças_ (felis variarum specierum), _antas_ (tapirus americanus),

_lobinhos_, _jaguatiricas_, (felis pardalis, Neuwied), _raposas_,

_macacos_, (simia v. sp.), _tamanduás_, _tatús_ (Dasypus v. sp.), muitos

_queixadas_ (dicotyles labiatus), etc.; _lontras_ (lutra), _ariranhas_

(lutra brasiliensis) e _capiváras_ atravessão, a todo instante, a

correnteza; em seus campos proximos pullulão _cervos_ (cervus paludosus,

Desm.), _veados_ (cervus rufus, c. campestris), _emas_ (rhea americana),

_ceryemas_ (dicholophus cristatus.); nos cerrados, _jabotís_ (testudo

tabulata), muitas _cobras_ venenosas (crotalus horridus, bothrops

Neuwiedi, b. surucucú, boipébas, urutús, etc.) e reptis de outras

sortes.

Em aves ha os _jacús_ (penelope marail), _jacu-cácas_ (penelope

jacucáca, Spix.), _jacutingas_ (penelope leucoptera, Neuwied), _mutuns_

(crax v. sp.), _jaós_ (crypturus noctivagus) e _aracuans_[60], _tucanos_

(rhamphastos v. sp.), _araçaris_ (pteroglossus), muitas _pombas_,

_gralhas_, _periquitos_ (psittacula v. sp.), _papagaios_, (psittacus v.

sp.), _aráras_, enfeitão a ramagem das arvores, ao passo que os

_inhumas_[61] (palamedea chavaria), _jaburús_ ou _tuyuyús_[62],

_tabuyayás_[63] (ciconia m.), _socós_ (ardea), _curicácas_ (ibis

melanopsis) e bandos de numerosos _patos_ (anas) e _marrequinhas_ pousão

nas ribeiras ou se agrupão nos rochedos e insuas do rio. (Nota I)

Em pescado o Aquidauana é fartissimo.

Abundão os _jaús_, os _sorubys_, _dourados_, em certos mezes _pacús_,

_pirapitangas_, _corimbatás_ e _pacu-pebas_, _papa-terras_ (geophagus,

Heckel), _raias_, etc., etc.

O _jaú_ é o maior peixe dos rios de Mato-Grosso: extremamente voraz, não

duvida atacar o homem[64]. A resistencia que tal monstro faz, quando

agarrado ao anzol, é prodigiosa e não são raros os exemplos de grandes

canôas viradas na sua pesca.

O _soruby_ (platystoma), chamado mais commummente na

provincia--pintado--, é peixe de pelle, com malhas pardacentas em fundo

escuro. A cabeça é chata, com appendiculos como a dos bagres e occupa um

terço do comprimento total: a carne é saborosa, bem que um tanto forte.

O mais abundante e ao mesmo tempo um dos mais delicados peixes de

Mato-Grosso é o _pacú_, (prochilodus, Agassiz) tambem chamado _caranha_,

do qual Pison diz: «melioris saporis et nutrimenti habetur, quàm sargus

Europeus»: tem côr pardacenta, azulada n'agua, escamas pequenas com

reflexos dourados; geralmente 2 a 3 palmos de comprimento. É achatado.

Em certas occasiões, dá tal abundancia de gordura, que alimenta

proveitoso commercio de azeite. A quantidade é prodigiosa.

Nas enchentes do Paraguay, os _pacús_ seguem o movimento das aguas em

grandes cardumes, que ficão, na retirada d'ellas, presos em poças dos

campos e lagôas, onde morrem á mingoa d'agua e por causa da elevada

temperatura.

O ar fica então inficionado muitas legoas em derredor.

Contárão-nos que, em certos pontos perto do rio Paraguay, fica o chão

forrado, em extensões importantes, com camadas de 2 a 3 palmos d'esses

restos.

A gordura do pacú é preconisada para varias molestias: dizem ser de

grande efficacia na pica malacia, pelo enjôo que causa ao enfermo.

Um dos peixes, com razão, mais apreciados dos rios da provincia, é a

_pirapitanga_ (species characini), chamado em Goyaz _jurupensen_ (?) e

pelos indios guanás _araráitiissi_ (peixe de rabo vermelho). As suas

dimensões nunca são extraordinarias; attinge no maximo a tres palmos de

comprido; mais commummente regula de um 1 a 2 palmos. A carne, com

listras vermelhas, é consistente, saborosa, bem que, como a dos outros

peixes de rios, seja crivada de perigosas espinhas bifurcadas.

As pirapitangas sobem os ribeirões e corregos até onde encontrão agua

sufficiente. Muitas vezes, ficão retidas em poças mais fundas até a

época das enchentes. No corrego dos Laianas apanhámos algumas de bom

tamanho, apezar da agua ter apenas 1/2 palmo de profundidade.

No Aquidauana é muito rara a presença dos monstruosos _sucurys_, assim

como a das perigosissimas _piranhas_ (myletes macropomus).

São habitantes predilectos do grande Paraguay.

Da voracidade da piranha se ha fallado sufficientemente: nada resiste

aos dentes aguçados de myriades d'aquelles peixes[65], que no ardor da

fome, devorão-se uns aos outros, com rapidez prodigiosa.

Os _sucurys_[66] (boa murina), verdadeiros representantes

antediluvianos, chegão a dimensões que os tornão entes deslocados na

natureza proporcional de nosso globo. Vimos uma d'essas serpentes, com

30 palmos de comprido e 15 de circumferencia na barriga; era comtudo

muito nova, pois que o nosso amigo, o tenente de guarda nacional, João

Faustino do Prado nos asseverou attingirem muito além de 6 braças,

contando-nos a este respeito um episodio curioso nas historias de

sucurys.

N'uma viagem a Cuyabá, passando elle pelos pantanaes do Piquiry,

observára de longe um touro, o qual disparava em todos os sentidos,

parecendo retido por um extenso cipó, que conheceu era um enorme sucury.

De mais perto notou aquella curiosa contenda. A serpente, depois de

estirar-se o mais possivel, retrahia-se de vagar, trazendo, de rastros

ao chão, o seu adversario exhausto.

Com o approximar de gente, o touro deu um arranco desesperado e partio á

disparada, bramando loucamente. O sucury deu de si até ficar da grossura

de tres dedos: depois começou a encolher-se, arrastando a presa que,

extenuada por tantos esforços, de novo se deixára cahir.

A victoria era certa; o final conhecido.

Um novo elemento perturbou a peripecia natural. O facão do homem, de um

golpe, cortou o sucury e deu a liberdade ao touro. Este, erguendo-se de

um só pulo, sacudio a cabeça e, arrojando-se pela campina, com o tronco

da serpente pendurada ao pescoço, em breve desappareceu d'aquelle

theatro, onde devêra achar a morte.

Ás vezes, os sucurys atacão as onças e antas com exito[67]. Entretanto

n'uma margem do Paraguay, o capitão Francisco Domingos da Costa Pereira

vio uma onça arrebentar um sucury, por quem fôra enlaçada.

Com uma facasinha o homem defende-se perfeitamente d'essas serpentes:

basta uma ligeira picada, levantando as escamas para obrigal-as a

desapertar os seus fataes enleios.

Já em occasião opportuna fallámos sobre os ferrões que os sucurys tem ao

redor do anus, e o que pensamos a tal respeito[68].

As rochas, sobre que rolão as aguas do Aquidauana, são de grés; em

muitas partes, o seu leito é completamente silicoso, em outras,

argiloso; lamacento, raras vezes. N'estes ultimos pontos reunem-se os

_corimbatás_[69] (schizodon, Agassiz), _piáus_, _traíras_ (erythrinus),

_bagres_, etc. Os seixos rolados abundão nas margens e entre elles o

_silex_ e os _silicatos_ de ferro.

As enchentes do rio nunca sobem a grandes alturas; raramente trasbordão,

não só pela elevação dos barrancos, senão pela facilidade com que se

escoão as aguas no rio Miranda, o qual corre por campos baixos e faceis

de serem inundados.

Scenas de viagem Exploração entre os rios Taquary e Aquidauana no districto de Miranda : memoria descriptiva · 第 24 / 64 题