CAPITULO VIII

No dia 24 de Março, partimos em direcção ao rio Aquidauana, cuja margem

direita deviamos explorar, como recommendavão-nos as instrucções.

Alguns moradores dos Morros nos acompanhavão n'este reconhecimento, em

que havia perigos a correr, por qualquer eventualidade possivel, quando

não provavel.

O Sr. João Pacheco, entre todos, primava pela dedicação e energia;

costumado a andar de pé longas distancias, servia-nos de excellente

guia, caminhando com toda a galhardia diante de nossas cavalgaduras, que

com difficuldade seguião-lhe os ligeiros passos.

O rio Aquidauana, em Marco de 1866, formava a linha divisoria material

entre o Brasil e a republica do Paraguay e o districto todo de Miranda,

a mais linda porção da provincia de Mato Grosso, achava-se occupado

debaixo do titulo de districto militar de Mbotety[52].

A margem esquerda era guardada por um forte destacamento e

cuidadosamente rondada em toda sua extensão, e, bem que, desde Maio de

1865, o presidente Lopez houvesse prohibido[53] a transposição do rio

aos seus soldados, as correrias, no outro lado, tinhão-se dado varias

vezes, com grande susto da população dos Morros.

Iamos assim, apezar da falta de meios para isso, effectuar um verdadeiro

reconhecimento militar.

Dirigindo-nos pois para o acampamento de Francisco Dias, que distava do

nosso meia legoa, como já o havemos dito, reunimos ahi mais alguns

companheiros, com os quaes galgámos a encosta oriental da bacia em que

está encerrado aquelle acampamento.

A trilha, aberta pelos cascos de animaes, dá difficil transito, subindo

as rampas abruptas d'aquellas fragosidades.

De certa altura, dominámos os picos vizinhos: alargou-se-nos o

horisonte; as grandes cópas dos madeiros ficárão ao nivel comnosco e

nossos olhares se atiravão além e bem ao longe.

No cume, a paizagem tomou amplidão immensa. Erão campos, a perder de

vista, verdejantes aqui, azues mais adiante e roxeados nos extremos

limites, cortados por grupos raros de bosques, ao passo que continua

mataria mostra o curso das aguas do Aquidauana.

Taes aspectos da natureza são profundamente melancolicos: o espirito

como que se atira por essas immensidades, que recordão o indefinido do

oceano, sem terem comtudo aquella magestade que encanta a alma,

lançando-a n'uma prostração incomprehensivel.

Para o habitante do litoral, as vastidões terrestres acordão milhares de

recordações saudosas; suave tristeza se apodera de nós e transporta o

espirito ás bellas praias do mar.

Outro sentimento contristador dominava-nos então.

Atraz de um morrete longinquo achava-se a villa de Miranda, presa do

estrangeiro e fogos, em um ponto e outro pela campina, lembravão a

occupação inimiga.

Muitos dos nossos companheiros se embebecêrão então na contemplação

sombria que dominára o mouro, quando, do alto da rocha dos Suspiros,

elle lançára as derradeiras vistas sobre os formosos campos de Granada e

talvez as palavras de Aixa fossem de novo bem cabidas, como exprobração

merecida.

Essa scena desappareceu no descambar da serra.

Por todos os lados novamente cercárão-nos matas espessas, e o sol, a

furto, desenhava, por entre a folhagem, seus circulos fugaces no

caminho.

Os ribeirões succedião uns aos outros, tombando de quéda em quéda e

despenhando-se pelos declives abaixo.

Como primeiros exploradores, fomos-lhes applicando nomes que nos

parecião mais convenientes, ora procurando um distinctivo que os

tornasse facilmente conhecidos; ora consagrando-os á lembrança de

nymphas classicas ou americanas; assim passámos o ribeirão da

Congonha[54], mais adiante o de Euterpe e, meia legoa além, o de

Catharina Pazes, uma lindissima quiniquináo, que habitava nos Morros.

Junto a este ultimo, tomámos ligeira refeição, comendo, debaixo de

aprazivel sombra, a matalotagem preparada de vespera e bebendo a pura

lympha d'aquelle bello riacho.

Continuando a descer, achámo-nos em breve na planicie, abrindo-se ante

nós os campos, que levão a _Camapuan_[55], illuminados então pelo brilho

do sol em seu zenith.

Tencionavamos visitar dous aldeamentos indios, collocados a 7 legoas do

ponto de nossa partida: por isso tomavamos direcção E., da qual deviamos

divergir para S., quando procurassemos as margens do Aquidauana.

Assim pois caminhando, n'aquelle primeiro rumo, mais tres legoas, fomos

pousar junto ao lindo corrego das _Palmeiras_, na casa do cidadão

Valerio de Arruda Botelho que recebeu-nos franca e amavelmente.

Ahi tivemos um agradavel dia de falha, que nos proporcionou a

jovialidade de nosso amphitryão.

Foragido de Miranda, Botelho conservára-se, por muitos mezes, occulto

com sua familia nas matas de sua propria fazenda do Embauval, perto do

rio Miranda, apesar da passagem continua dos paraguayos por suas terras.

Afinal transportára-se com crianças, e cargas para a margem direita do

Aquidauana, depois de uma perigosa viagem de dias, entre as rondas

inimigas.

O lugar de sua nova habitação era encantador: magestosos boritys,

banhando os pés nas aguas rapidas do corrego, se erguião fronteiros a

ella, e na fralda de um morro abaulado coberto de vegetação, que se

estende para N. E., formando com outras pontas isoladas, um systema

perfeitamente distincto. A grande serra corre para S., elevada como

sempre e dependurada desde ahi sobre o ribeirão das Pirapitangas, que

deviamos atravessar quatro vezes.

Deixando as Palmeiras no dia 26, em companhia de Valerio fomos á aldêa

do _Oauassú_[56] onde alguns indios quiniquináos havião procurado

refugio, depois de expulsos de suas palhoças do _Euagaxigo_, além

Aquidauana.

Tomando sensivelmente a E. N. E., fomos do Oauassú ao aldeamento da

_Boa-Vista_, formado pelos indios laianos, distante do outro tres e meia

legoas. O caminho de communicação era uma apertada trilha atirada por

sobre lindos campos, ora perfeitamente planos, ora dobrados mais ou

menos profundamente.

De quando em quando, fraldejavamos um d'aquelles picos destacados ou

passavamos por abertas estreitas entre morretes, cujos córtes a prumo

obrigavão a attenção.

A aldêa da Boa-Vista estava situada n'um outeiro encostado a varios

morros e constava de cincoenta a sessenta ranchos de palha.

Os indios nos acolhêrão do modo o mais sympathico e cordial. Achámos um

rancho feito de proposito, em attenção á nossa visita e ahi nos

obsequiárão com grandes mostras de respeito.

Os laianos da Boa-Vista moravão, antes da invasão, a uma e meia legoa da

villa de Miranda, e d'entre elles se tiravão os melhores camaradas para

o trabalho de roças, serviço de canôas e _costêo_ de gado. Como quasi

todos os indios, são excellentes cavalleiros e domadores destemidos.

Em honra á nossa chegada, o capitão José Vieira organisou dançados, que

durárão até alta noute, formados tão sómente pelo desejo de

festejar-nos, posto que faltasse o incentivo obrigatorio para taes

divertimentos a--aguardente.

Diante de um pifaro e um tambor, collocárão-se tres rapazes e igual

numero de raparigas, os quaes, de mãos dadas, avançavão e recuavão,

imitando os gestos e movimentos titubantes dos embriagados.

Conforme a perfeição ou inexactidão na imitação, colhião os dançadores

applausos dos circumstantes ou apupadas, o que fazem batendo a mão

aberta de encontro á boca.

A toada é sobremaneira monotona; o dançado igualmente; quando não ha o

elemento que transforme o fingido em triste realidade: então todos tem

n'elle parte com ardor e furia indescriptiveis, até cahirem

completamente exhaustos.

Ao som d'aquella musica insipida, adormecemos.

Depois de combinarmos, no dia seguinte, com Vieira, sobre o ponto de

reunião em que elle devia se achar com vinte de seus indios[57] junto ao

Aquidauana, despedimo-nos d'aquella gente simples, voltando á casa de

Valerio, onde de novo falhámos um dia.

Scenas de viagem Exploração entre os rios Taquary e Aquidauana no districto de Miranda : memoria descriptiva · 第 23 / 64 题