Entretanto, a 10 de Março, achavamo-nos na margem direita do rio Tabôco,
o qual, contra as previsões de nossos soldados, que trilhavão já caminho
conhecido, dava nado de lado a lado, n'uma extensão de mais de 30
braças, quando a sua largura normal não excede de 18 a 20.
Passámos a noite debaixo de um laranjal, que servia de pomar á casa do
cidadão Joaquim Alves de Souza, a qual teve de hospedar aos paraguayos,
quando elles ião para o Coxim, e fôra testemunha dos attentados que ahi
praticárão.
Esses hospedes incommodos forão tratados com urbanidade tão bem fingida,
que não duvidárão em deixar o dono da casa em sua fazenda, com promessas
de leva-lo com toda familia para a villa de Miranda. Um camarada,
havendo, n'essa occasião, tentado fugir, foi pelos soldados fustigado,
amarrado a um pé de _piuva_[44] (peroba) e quasi esfolado pelas pontas
do açoute.
Depois d'aquella execução barbara, a que assistio o misero patrão, com
custosa indifferença, partírão elles, promettendo voltar breve,
concluida a expedição ao norte do districto.
Se elles cumprírão a palavra, Joaquim Alves julgou-se com razões
ponderosas para não fazer o mesmo.
Apenas voltárão as costas, fugio com toda sua gente para os matos,
tomando depois caminho de Sant'Anna do Paranahyba.
Vingárão-se os paraguayos do logro, feito á ingenuidade de homens
brutaes e barbaros, queimando as casas e dependencias, e destruindo tudo
quanto encontrárão.
A denominação de _Tabôco_ é de origem guaycurú: significa _fundo_,
apezar de seu pouco volume de aguas habitual.
Alguns indios, porém, d'aquella nação, havendo habitado junto a um
peráu, formado n'uma das voltas do rio, derão-lhe em toda a extensão
aquella especificação pouco conveniente.
Officialmente e nos mappas da provincia diz-se _Dabôco_, muito
erradamente e sem razão.
Suscitando-se, em Agosto de 1866, a dúvida a respeito do nome exacto,
colhemos a certeza não só da boca de pessoas conhecedoras da lingua
guaycurú[45], senão dos proprios naturaes d'aquella nação.
Os que dizem _Dabôco_ a todo o trance, não se firmão em principio algum,
a menos que apresentem, como autoridade, dous ou tres mappas da
provincia, em que apparece aquella palavra escripta por um _D_.
O rio, no lugar da passagem, tem a margem direita alta, a esquerda baixa
e paludosa depois das inundações, frequentes, em razão da proximidade
das cabeceiras, se bem de pouca duração. Bellas figueiras e alguns pés
de _ingá_ (ingá edulis) tornão esse lado umbroso, ao passo que o outro é
completamente descoberto.
Um pouco abaixo, o rio bifurca-se: um ramo segue direcção, no rumo médio
O.; o outro diverge para S. O., deixando intermedia uma comprida insua
rasa e arenosa.
Os desmoronamentos da barranca direita deixão perceber a natureza
completamente arenacea dos terrenos proximos, o que tambem póde explicar
o nome de _fundo_, dado em certa época a um rio que, carregando grandes
porções de arêa, modifica com facilidade o leito em que corre.
Fallárão-nos, na realidade, nas diversas phases por que elle tem
passado, assignalando-se datas, não mui remotas, em que a sua
profundidade variou extraordinariamente.
Ao chegarmos junto ao Tabôco, a noite, ha muito, tinha cahido. Nuvens
carregadas de chuva pesavão no horisonte, estendendo um véo tristonho,
por entre o qual a lua, a custo, diffundia raios amortecidos e tibios.
As arvores, formando densa mouteira, lançavão sombras vigorosas sobre a
superficie turva do rio que rolava, engrossado pelas chuvas passadas,
toldadas aguas, em cujo seio, de quando em quando, abria-se, com o
espadanar do salto de algum peixe, um vão luminoso.
Com o nosso approximar, um bando de _capivaras_[46] (hydroch[oe]rus
capibara) atirou-se ao rio, afundindo-se com estrondo, e indo surgir na
margem opposta, ao passo que barulhentos _quero-quero_[47], acordando,
com estrepitosos gritos, os echos, cruzavão-se nos ares com precipitado
vôo.
Ahi achavão-se vestigios da passagem de numerosa comitiva, e, ao aclarar
o dia, reconhecêrão os soldados serem pisadas de indios, a despeito de
não apreciarmos os signaes que differençassem essas pégádas, das de
qualquer outra planta de pé, como com razão o affiançavão elles.
Esses homens são de uma sagacidade espantosa; nunca se enganão e
conhecem perfeitamente os rastos de todos os animaes. Ao depois, vimos
nos indios demonstração de um tino tão fino, que reconhecem, pela
impressão do pé no terreno, a pessoa que a deixára.
O Tabôco dava nado de lado a lado: recorremos aos couros e o passámos
com difficuldade, perigando, n'essa occasião, a fragil pelota, em que se
mettêra o nosso collega Lago.
N'esse dia (10) deviamos emfim chegar á aldêa dos indios da Piranhinha:
aligeirando pois a marcha, tomámos aquella direcção, tendo á frente dous
soldados, conhecedores d'esses lugares, que caminhavão com a confiança
que lhes faltára junto á serra, isto é, cortando campos, seguindo
trilhas imperceptiveis e rompendo por veredas cobertas pelo matagal e
capim.
Haviamos deixado a serra de Maracajú e iamos então fraldejando um ramo
d'ella, o qual segue para o sul, parallelamente á cadêa, em cujo novo
encontro achava-se a aldêa.
Os campos são pouco dobrados; o verdor das arvores, o capim crescido
denotavão, que, havia tempo, não lavrava fogo n'elles.
Cerrados, como sempre, se estendem por todos os lados; n'elles apparecem
com frequencia as _bignoniaceas_[48], as quaes tem menos representantes
nos das outras provincias: continuão comtudo a predominar os _araticús_.
Caminhando uma legoa e tres quartos na direcção media S., attingimos ao
morrete que faz ponta ao ramo, que, então, diverge para N. S. e vai
unir-se á serra, a qual avistavamos de novo, dominando, com pincaros
recortados, o aldêamento da Piranhinha.
D'aquella ponta de morro, parte o caminho, que leva ao Aquidauana e ao
porto, chamado do Souza, onde existia então um destacamento paraguayo,
com uma guarnição de pouco mais de cem homens, a qual vigiava o rio e a
estrada do Tabôco, pela qual presumião dever de descer a força
brasileira.
Ao dobrarmos aquelle promontorio, avistámos, na distancia de tres a
quatro legoas, uma columna de fumaça, que, maculando com rolos
alvacentos o puro campo do céo, subia pesadamente, destacando de si
ligeiros flócos, em breve dissipados ao sopro da brisa.
Era o fogo do invasor atirado aos campos do Brasil, era o signal da
usurpação.
Indicava aquelle ponto negro a posse, depois da perfidia, o dominio após
a violencia: posse momentanea que o governo de Lopes havia de pagar bem
caro, dominio temporario, que custou milhares de vidas, nas grandes
questões á mão armada, que se debatêrão nas planicies da republica do
Paraguay.
Caminhando uma legoa e um quarto d'aquelle morro, passámos o lindo
regato das Piranhinhas, no meio de luxuriante mata, finda a qual,
começámos a trilhar estrada, que mostrava signaes de muita frequencia.
Na realidade n'uma volta além, achava-se a aldêa, cujos ruidos, cada vez
mais crescentes, denunciavão vida e animação.
Os baques de machados, confundião-se com o cantar de gallos e o vozear
de homens, formando um concerto, que então preferiamos aos mais sublimes
acórdes do autor de Ernani, pois significava-nos o final de todos os
soffrimentos; alegrava-nos o espirito e o corpo, abrindo largos
horisontes ao nosso direito de compensações.
Em breve, diante de nós, corrêra um indio.
Noticia importante circulou pela aldêa.
Ouviamos grande vozeria, algazarra continuada, e, quando surgírão ante
nós as primeiras palhoças, uma chusma de gente armada se atirou ao nosso
encontro.
O aspecto não era agradavel. Chegárão alguns a apontar para nós: a vista
porém dos soldados que lhes erão conhecidos, o nosso passo pouco
bellicoso, o nosso acompanhamento, em nada medonho, dissipárão logo
qualquer dúvida.
A reacção foi estrepitosa. Explicámos a razão de nossa chegada, e,
cercados, quasi em braços, no meio d'aquella boa gente, fomos ter a casa
do capitão José Pedro, que nos acolheu, não como chefe de indios, mas
como um filho da civilisação.
Não pouca estranheza nos causava a apparencia de nossos novos amigos,
pintados de _genipapo_ e _urucú_. Fallavão, com volubilidade espantosa,
lingua que nos parecia então extraordinariamente aspera e estavão
armados, uns com lanças, chuços, espadas, quasi todos com espingardas e
clavinas.
Depois de fartarem, por mais de uma hora, a curiosidade, que lhes
causavamos, a um aceno do capitão deixárão a palhoça, em que nos
achavamos, e podémos, afinal, comer socegadamente uma gallinha cosida
com arroz, que teria merecimento em qualquer parte do mundo.
A noite passou-se em narrar a José Pedro os acontecimentos que havião
precedido a guerra com o Paraguay, os successos do sul e os nossos
triumphos, que muito o enthusiasmárão.
Fallou-nos elle, com verdadeiro sentimento respeitoso, do Imperador, de
Suas altas attribuições e mostrou-se conhecedor reconhecido da
benevolencia, que o monarcha brasileiro nutre pelos indios de Seu
Imperio.
Narrou-nos, com côres vivas e expressivas, a invasão, suas phases;
elogiou o comportamento de varios individuos de sua tribu, nunca fallou
de si, e, mostrando sempre os principios de uma boa educação esboçada,
deu-nos prova de intelligencia clara e capaz de desenvolvimento.
O capitão José Pedro de Souza sabia lêr e escrever; mantinha em sua
aldêa severa disciplina; organisára uma escola de meninos, na qual
figuravão os seus dous filhos e sempre se havia mostrado affeiçoado aos
brasileiros, unindo-se com elles nas horas de infelicidade.
Era digno, debaixo de todos os titulos, de obter do governo imperial a
confirmação do posto, que lhe fôra concedido pelo virtuoso missionario
frei Marianno de Bagnaia, sob cujas vistas foi educado, na aldêa dos
Quiniquináos do Bom-Conselho, além do rio Paraguay[49].
Estabelecidos na aldêa do _Naxe-daxe_ ou de _Santa Cruz_, a 6 legoas da
villa de Miranda, tinhão os indios Terenas procurado um refugio, por
occasião da invasão dos paraguayos, dedicando-se logo ao plantio, apezar
da carencia de sementes e grãos, em que se achárão.
Entretanto, quando chegámos, já havião colhido boa quantidade de arroz,
algum milho e mandioca, da qual fazem excellente farinha.
Na manhã do dia seguinte, aquelles generos com mel e rapaduras figurárão
nos presentes, que o mulherio, em peso, veio offerecer aos dous hospedes
da nação terena.
Retribuimos com moedas de prata de duzentos réis; o que causou alegria
manifesta.
Muitas mulheres, na confusão, accusavão não ter sido contempladas e só
se retiravão depois de satisfeitas as suas exigencias, voltando com
dadivas novas para fazerem jus á nova distribuição de dinheiro.
O capitão livrou-nos de mais sacrificios pecuniarios, levando-nos a
passeio. A aldêa preparava-se para uma festa e varios indios _padres_
cantavão debaixo de alpendres de _perypery_[50], para que o mel colhido,
de dias, fermentasse depressa.
Fallaremos, em capitulo separado, de todas essas ceremonias e mais
costumes dos indios de Miranda; ainda depois do muito que se tem dito a
este respeito, é estudo curioso esmerilhar as praticas especiaes d'essa
gente, que tem conservado o seu typo bem caracteristico, apezar do longo
contacto com os brancos.