Bem visto, ela está no seu papel. As academias não se fizeram para

fazer cousa alguma. Academia é para a gente se reunir, fumar a sua

cigarrada, jogar a sua partidinha de dominó, com a municipal à porta,

mandar para a mesa duas cartas que o ilustre sócio escreveu ali ou

trouxe escritas de casa, dizendo--«Peço ao ilustre presidente o

obséquio de dar essas cartas ao contínuo para as deitar no marco quando

sair!» Ás tantas levantam todos a gola, dão as boas noites e desandam

para vale de lençóis.

Teófilo Braga disse uma ocasião em público: «Academia é uma colecção

de sábios, que caminha para o pedantismo». Foi muito amável. Foi muito

amável porque se alguêm quiser saber o que é a nossa Academia Real,

etc., consulte o _Cancioneiro da Vaticana_ no seu prefácio. Ali verá

que nunca o _Cancioneiro_ seria impresso se não fôsse êsse benemérito

sábio que foi em vida Ferraz de Macedo, o antropologista. Porque para

ser impresso pela Academia não havia dotação e um dos membros da classe

de literatura de quem dependia a aprovação do _Cancioneiro_ julgava que

o texto era latim!

Mas há mais. Não havia dotação para o _Cancioneiro_, mas houve perto

de dois contos de réis para gastar com o embelezamento das salas para

a celebração duma sessão real, uma sessão solene. Com o dicionário já

se gastaram algumas dezenas de contos de réis e não serve para nada,

o estafermo. Não é caso para dizer «não estala um ai de dôr em cada

peito», mas «e não há um arrocho que os desanque!»

Depois, ¿para que servem as academias? Que préstimo teem? Eu não lhes

conheço nenhum. Nunca de nenhuma Academia saíu um homem de talento, e

em compensão os que o teem e entram para elas perdem-no logo. Senão

digam-me a obra grande, de utilidade ou de valor, que as academias

tenham fomentado! Qual? Nenhuma. Crer-se-ia na plausibilidade disso

se Academia não fôsse um vaso de víboras como o de Carlyle, víboras

desdentadas, invejosas e pequeninas, e que, para não deixar entrar

nenhuma ideia nova, nenhuma ideia grande, até pôs guarda à porta,

exactamente como à porta dos parlamentos se põe tambêm guarda, que é

para que a Justiça fique de fora.

Plauto, o cómico, não foi da Academia Real das Sciências. Cervantes,

tambêm não. Shakespeare tambêm não. Camões, idem. Ora aqui estão uns

mágicos que não precisaram, para entrar na imortalidade, de apresentar

o cartão de visita tendo por debaixo do nome «da Academia Real das

Sciências, da Sociedade Filarmónica Capricho Recreativo, da Sociedade

dos «tacões ao domingo, etc.». E estou até desconfiado de que o

porteiro, ao ver tal, e ter olhado bem para a cara do sujeito, lhe diz

com um risinho e uma palmadinha no ombro:-«O amigo está enganado! Tem

que descer. Isso é na cave!»

Porque a imortalidade é o único logar para que a farda não serve de

passe de livre trânsito.

Malheiro Dias diz, nas suas _Cartas de Lisboa_, que «a mais alta

categoria social não vale uma farda de simples adido de embaixada, com

plumas de avestruz no bicórnio e folhagem de vinha e oliveira, bordada

a ouro, na gola»; pois com êste simples fardamento os polícias fazem

continências, os municipais abrem filas e a multidão comprime-se para

dar passagem. Isto ao subir a calçada da Ajuda.

Será verdade. Mas agora aqui me ponho eu a pensar que talvez a farda

não valha para a imortalidade, porque para ir para lá a Ajuda não é

o melhor caminho. Sim. Deve ser isso. Assim é que Plauto foi moço de

padeiro, Camões foi soldado e Cervantes soldado e pobretão, e entraram.

Camões tinha farda, mas quando morreu estava no prego. Em compensação,

dos ilustres fardados da Academia, o porteiro não deixa lá entrar nem

três. Vejam lá se vale a pena gastar dinheiro no alfaiate quando o que

é preciso é gastar noites a fritar os miolos.

«Cá e lá más fadas há». Isto não é de nenhum dos escritores que

eu costumo citar. Isto é da sabedoria das nações. Os senhores já

sabiam?! Pois em França é tambêm assim, quando não pior. A Academia

dos Goncourts, fundada para dar um prémio ao melhor romance, não tem

estimulado nada o talento dos bichos que concorrem. Tem-lhes estimulado

mas é o apetite e a solércia. Não os podendo fazer mestres em romance,

fá-los mestres na empenhoca. E por isso o premiado é sempre o que mais

empenhos tem. Pois então.

Não se desconsolem os que não são académicos. As academias não são para

todos. Isto é dúbio, bem sei, mas entenda-o cada qual como quiser.

E estou escrevendo e está-me lembrando a caricatura de Zola feita

por Gilbert Martin: Zola vestido de mineiro, cachimbo, botas altas e

lanterna, oferece o braço à Academia, uma vélha esganiçada e tôla, ao

mesmo tempo que lhe pisa a cauda. É claro que a vélha escama-se e não

dá o braço. E a propósito da Academia e de Zola há outra publicada na

_Silhouette_: Zola, com os seus livros às costas, puxa o cordão da

campainha da Academia. Puxa, quebra o cordão e a porta não se abre.

Zola não entrou. Objectar-me-hão: mas queria entrar! Queria por estar

a porta fechada para êle. Por teimosia, por pirraça. Se lá entrasse o

mais certo era... vir embora.

Maupassant disse que três cousas desonravam um homem: a Academia, as

condecorações e a _Révue des deux mondes_. Depois, passados muitos

anos, prestes a morrer, escrevia na _Révue_, estava para entrar na

Academia e creio que era condecorado. Ironias do Destino. ¿Quem sabe

lá se eu um dia tambêm serei sócio da Academia? Tudo é possível. Então

serei um velhote grave, ponderado, sério, terei óculos, um grande

horror ao galicismo, um poucochinho de pancada na mola, e uma coleira

ao pescoço com a chapa da casa. Todos êles teem. Pancada na mola e um

bocadinho de imbecilidade. Vai daí, a Academia forneceu-lhes a chapa

para os distinguir da outra gente, e para que as prendas se não percam.

Pois quando eu lá chegar, ia dizendo... Mas emquanto não chego, ¿os

senhores dão-me licença que acenda um cigarrinho?...

O passado

Desejar a morte é ainda querer voltar ao passado. E assim como há dias

em que ser morto é a ânsia que me lança um baraço ao pescoço e me

afoga, outros há em que uma ânsia regressiva me faz voltar atrás para

tornar a viver sôfregamente os dias já vividos. Hoje é um deles. Lá

fora o céu pôs o seu «plúmbeo capacete». Por vezes uma chuva miudinha

e intérmina envisca tudo da sua frialdade. E as almas, ressentidas de

tanta fereza, voltam-se a viver o Ontem, queimando o Hoje gélido na

lareira das mornas recordações.

Recordar não é só privilégio dos vélhos. Lembrar, é ainda na vida o

único lenitivo.

Ai! o que seria a vida para aquele que não tivesse a memória e a

fantasia,--o Passado e a Ilusão.

Com a memória vive-se, com a fantasia sonha-se. Mas vive-se

deliciosamente e sonha-se um sonho ainda mais delicioso. Por isso em

dias assim,--um chuvisco frio minando as energias,--as almas vivem e

sonham. Lá fora há lama e frio. Cá dentro, acesa a fogueira, principia

o desfile.

Então não há recordação, carta de amor, beijo dado ou passado dia,

que não traga o seu quinhão. São pequenas cousas, cousas mínimas

que se transfiguram. A saudade vê sempre por vidros de aumentar. Aí

começa a gente a viver com fúria dias maus, que, comparados com os de

hoje, nos parecem bons, dôres sofridas que cotejadas com estas, nos

parecem verdadeiros prazeres. Ao fim, quando aquela galopada furiosa

desfilou, quedamo-nos encolhidos scismando: como a gente envelheceu! E

a saudade manda recomeçar a sessão, como num animatógrafo em que a fita

recomeçasse a passar.

Como é verdadeiro o dito do poeta: «e saudades até doutras saudades!»

Sim! eu sinto isto. Não há dúvida. Uma grande ânsia de ser pinheiro, de

ser oliveira, árvore perdida, rocha bruta, me atormenta. E a chuva cai.

O passado atrai-me. Os livros novos não me dão novidades, com o seu

papel de alvura fatigante e a sua sorna monotonia. Não, os livros novos

não são novos. Lembro-me de ter já lido isto! Aonde, não sei. Mas

de-certo tudo isto eu senti, tudo isto eu vi já.

Estes amores, assim rasos, assim secantes, já por mim passaram. Estes

versos já eu os ouvi. Tudo hoje à minha volta me deixa frio. Hoje não

há senão aridez e sequidão. É o _simoun_ que turbilhona, arrasta e

sepulta.

Os vélhos livros, com suas páginas amarelentas e os seus grossos

caracteres, dizem-me não sei quantas vélhas saudades inolvidadas. Assim

compreendo a paixão dos bibliófilos avaros, dos numismatas soberbos,

de todos os coleccionadores e de todos que, estranhos ao seu Hoje, ou

chocados pela brutalidade dele, se evadem da realidade pela porta do

sonho e se deitam a correr atrás da fantasia.

Os vélhos livros contam histórias encantadas e escândalos sem par;

sabem cousas que são o encanto dos vélhos e o deslumbramento dos novos.

Oh! se vós soubésseis cousas que andam em vélhos livros?!...

Criaturas há que nem saudades teem. Saudades de quê? Nem saudades, nem

queixas, nem esperanças. Tudo se lhes foi diluindo dia a dia. A miséria

não deixa saudade: pode deixar lembrança. Deixa às vezes no esqueleto,

no macerado das faces, na pele por colorir, sinais indeléveis da sua

passagem. De resto, todos os seus dias são iguais. As suas noites

parecem medidas pelo mesmo compasso. O ontem foi amargo, o hoje é tão

amargo como o ontem. Olhando em roda, ninguêm. E em verdade, um ninguêm

é sempre só, e não vale uma unidade um bilião de zeros. Se a criatura

vive a vida bruta de animal, a sua única felicidade é êsse covil--o

sono--onde as necessidades todos os dias a vão espancar, até um belo

dia dele não voltar mais. É por isso até que chamam ao sono irmão da

morte, como a Bíblia, ou primo, como o nosso Eça de Queiroz.

Outras há para quem o sono é sómente «o aquário da noite», como quere

Vítor Hugo. Para essas o sono não é um covil tranqùilo onde se possa

descansar. No sonho se continua a vida e quem morre a sonhar não chegou

ao fim do seu romance. Essas, que nem no sono teem prazer, votam-se a

viver a vida já vivida e quando a não teem para viver--gente há que

não viveu nunca!--imaginam-na. Outras ainda vivem a vida lida. Não é a

sua nem o seu mundo que habitam. É o mundo dos livros que leram, das

personagens que idearam, das criaturas que só em sonhos são reais.

A vida de hoje, para as almas sensíveis, é duma brutalidade

exorbitante. Daí a debandada ser cada vez maior. Uns evadem-se para não

voltar; outros deixam só o corpo. A alma--o que em nós pensa, sente

e quere, da filosofia antiga,--essa não anda dentro de muitos corpos,

evadiu-se tambêm. Recordar, recordar! ¿há lá cousa mais pungente e mais

deliciosa? Felizes os que sabem e podem recordar!

Ora imaginem que a velhice, o inverno da vida ou o que quiserem de

mais amargo chamar-lhe, não tinha êsse brasido longo e aquecedor

da recordação?! Imaginem-na agora sem memória?! Porque cruel é já

arrancar-lhe a destreza no jôgo das armas, a agilidade nos músculos,

o calor nos beijos, o entusiasmo na palavra; roubar-lhe a beleza, a

fôrça e o amor; roubar-lhe a aventura e o garbo. Cruel é dar-lhe o

reumatismo que lhe emperrou as articulações, a razão que lhe moderou

os entusiasmos, a experiência que lhe roubou calor aos beijos, e o

abandono de vida que lhe tirou o garbo e a beleza. ¿Que nome não teria,

que inédita crueldade não seria a de lhe roubar tambêm a memória--a

única mocidade dos vélhos? «De vélho torna-se a menino», diz o adágio.

E a única felicidade é lembrar. Tornar a sentir os mesmos beijos,

tornar a viver os mesmos dias. Povoa-se-nos a vida de espectros.

Vivemos com mortos. Vive com mortos quem vive de recordações. Todavia,

que delicioso não é?!

É por isso que hoje, dia em que o céu se forrou das mais escuras

côres, e a chuva toca marselhezas de _spleen_ nas vidraças, eu busco

vélhas lembranças, lembranças de outros dias, lembranças de outras

lembranças, «saudades de outras saudades.» E da minha estante tiro um

livro poeirento e antigo onde se lê, quási apagada, uma vélha história

de amor...

¿Qual de vós não sentiu já, por vezes, esta ânsia de recomeçar

novamente? ¿Fazer de novo a obra já feita, ganhar de novo o já ganho,

de novo sofrer o já sofrido, beijar o já beijado, amar o já esquecido,

e tornar depois, ainda, a recomeçar? Todos, de-certo. Êste desejo

sentiu-o tôda a gente. Mesmo sem sêr vélho, mesmo sem ser gasto. Um dia

de chuva basta para nos lavar dos egoísmos e desenterrar em nós amargas

recordações. O inverno desperta sempre saudades para nos dar lágrimas.

O sol, o «claro sol, amigo dos heróis» se nos dá vontade de partir é

consoladoramente, como quem nunca sentiu saudades, porque a saudade,

sendo o único mal, é o único bem da vida. Quem tem saudades não deseja

a morte. A morte é o fim e só se chega ao fim quando não há mais nada.

Pois bem. Recordo hoje. Tôda a minha vida desfio, lentamente, como

as contas dum rosário em dedos de monja crente. Busco, rebusco e,

como alguêm, que, buscando, volta as fôlhas dum livro, não encontro

nada. Nenhuma saudade, nenhuma recordação. Quimeras não tive nunca, e

esperanças não tenho já. De tanto esperar, desesperei.

Se alguêm, como a Job, me perguntasse, na hora extrema, na hora

derradeira em que as memórias se reunem em volta do frio leito, como

no soneto de Antero, se quereria recomeçar de novo, fazer de novo a

obra já formada, beijar de novo os beijos já beijados, crer de novo os

sonhos já mentidos, eu, a-pesar do meu amor ao vivido, virando-me para

o outro lado havia de responder, juro-lhes:--como é triste o dia, lá

fora!--Que não, que não valia a pena.

Entrado na agonia, não voltaria os olhos. Não fôsse a Saudade querer,

a-pesar de tudo, entrar comigo a larga porta que dá para a eternidade.

O calor

Os senhores leram já de-certo, aquele livro _Á Esquina_, onde há um

trecho maravilhoso que se intitula _Ceifeiros_? Leram? Pois como

Flaubert, ao descrever o envenenamento da Bovary, sentia na bôca

o sabor do arsénico, eu, ao ler pela primeira vez o trecho do _Á

Esquina_, senti a sensação do calor. E a mesma ânsia de ir buscar

água fôsse onde e qual fôsse, a mesma intraduzível agonia dos ganhões

do Alentejo, se apossou de mim. Água! água! E êsse martírio que não

conhecia, como um pesadelo, tornou-se realidade. Lisboa deixou de o

ser. Tornou-se Alentejo, tornou-se África, forno, o que quiserem.

Nem uma aragem move as fôlhas. Os pássaros, de bico aberto, respiram a

custo. A gente deitou fora todos os superlativos do trajo. Foram-se as

camisolas, foi-se o colete, buscou-se o mais transparente casaco. E

como é de uso sentirmos o mal alheio quando nos toca pela porta, aqui

me ponho, mente soturna e cogitativa, a lembrar a agonia dos fogueiros,

êsses homens sepultados no interior dos grandes transatlânticos, de

todos os que trabalham sob a pressão de altas temperaturas, no mar ou

em terra, em oficinas ou fábricas. E afigura-se-me horrível agora, que

o ar me falta e tôda a terra zumbe à minha volta, tonta de sufocações.

Mas, é claro, logo que surda a primeira aragem, já a miséria dêsses

proletários me será tão indiferente como a morte de algum mandarim

desconhecido nos limites do Celeste império dos mandarins, do chá

Pouchong e dos papagaios de papel.

Com êste calor nenhuma ideia se manifesta. E como é impossível

trabalhar, deita-se a gente a admirar o que os outros fizeram... em

ocasiões em que a temperatura de-certo não pesava tanto. Escrever?

qual! A tinta é inútil. Tanto se sua, que já a tinta se dispensa. Um

regatozinho vem do tórax ao punho, do punho à caneta e daí ao papel,

acompanhar e colorir o garatujar da pena de aço. Por isso, os artigos

agora não são escritos, são suados. Um movimento não é um movimento; um

gesto é um sudorífero.

Energia? decididamente não há energia com um calor dêstes! Ainda que

se diga à criada para a meter dentro dum balde de água quando se vai

buscar, ela está tépida--é uma energia água morna, uma energia sem

gana, sem nada, muito a pedir pílulas Pink ou uma carapinhada.

Tambêm, justo é dizer que para nada é precisa. Não é precisa para pôr

um credor a andar, porque qual seria o credor, quem tão herói seria,

que se aventurasse a atravessar a cidade debaixo dum calor dêstes?

Sim, porque uma pessoa sai de casa, e, a não ir dentro de um frasco,

ninguêm lhe garante que chegue ao seu destino. Já não é a primeira que

se derrete pelo caminho. Não sendo precisa para um crédor, ¿para que

diabo será urgente? Meia Lisboa foi-se embora e a que não foi, ou vai

ou tenciona ir. Porque ir em pensamentos é quási o mesmo que ir em

realidade. Razão por que há tanta gente contente em teoria.

O calor não é tão realmente mau como se imagina. Dum casal pobre sei

eu que come fiado todo o inverno. Fregueses antigos, a mercearia vai

fiando e agora por esta altura deve o rol andar por uns sessenta a

setenta mil réis, um absurdo para um par miserável. O merceeiro, porêm,

logo que o calor aperta, esfrega as mãos de contente. E todo êle é

fariscar a atmosfera, sondar, fazer perguntas a respeito dos astros. O

casal, averigùado o interêsse do merceeiro, vim a saber, paga de verão

a conta tôda e gasta algumas arrôbas de açúcar. Êle e ela, cada um para

seu extremo da cidade, com uma quitanda portátil, vendem refrescos

e manipulam limonadas, com um furor que toca as raias do delírio.

Á noite, recolhidos a casa, se não ganharam tanto como um director

geral, sempre lhes sobra para deitar abaixo uma talhadinha da conta do

merceeiro. Daí o contentamento dêste e o contentamento dos que vendem.

Porque todo o desespêro é dos que pagam.

Trinta e duas limonadas, meu caro amigo, dizia-me um cavalheiro,

trinta e duas! E eu, estarrecido, tocava a mão em cujas veias

circulavam trinta e duas limonadas. Decididamente, o cavalheiro não era

cavalheiro, era um contador de pressão. Se lhe desandassem a torneira,

apagaria um incêndio.

Se o telefone toca, já se sabe para que é: para pedir ao Silva, da

_Violette_, que mande um refrêsco. E metem-se empenhos. Perguntem a

um homem célebre neste momento:--¿O cavalheiro diz-me qual é o seu

ideal? Ora a resposta é sabida. O cavalheiro passa a mão pela lustrosa

gaforina, scisma, dá dois estalinhos com a bôca e, depois, solene, com

o ar macbético e profundo de quem vai responder à imortalidade, diz: «O

meu ideal? O ideal seria um capilé! sentir o criado trazer num cristal

o líquido colorido, tocar-lhe e sentir a sensação de frescura; saborear

depois a pequenos goles, hein! Pois não seria o ideal?» Concorda-se, é

claro, e manda-se vir: «Rapaz, dois capités!»

Uma ocasião, foi isto em 1849, Gustavo Flaubert e Maxime du Camp

desembarcaram no Egipto. Subiram o Nilo e internaram-se no deserto só

com 3 odres de água, uma água mais do que morna, pútrida e detestável,

que era transportada sôbre um camelo. Uma fatalidade fêz com que o

camelo caísse e esmagasse os odres, perdendo-se a água, que nunca mais,

durante três dias, se pôde encontrar. Conta M. du Camp: «Tinha a bôca

sêca, os lábios farinhentos; a bicharia do meu dromedário tinha-me

invadido e devorava-me. Na nossa pequena caravana ninguêm falava...»

E com uma minúscula pederneira quebrada colocada sob a língua, para

entreter a actividade das glândulas salivares e neutralizar um pouco

a sêde, os desgraçados agonizavam. Os senhores tirem o suplício por

êste calor. Imaginem êste inferno,--eu sei lá--elevado ao quadrado!

Senão quando, de repente, pelas 8 horas da manhã, ao passarem num

desfiladeiro--uma fornalha--Flaubert numa obsessão doentia se volta

para M. du Camp e lhe diz: «¿Lembraste dos sorvetes que se tomam no

Tortoni?... O sorvete de limão é uma cousa superior; confessa que não

desgostarias de engulir um sorvete de limão». Daí a 5 minutos: «Ah! os

sorvetes de limão! em redor do copo há um vapor húmido que se assemelha

a uma geada branca». E já du Camp, azêdo, ofegante, agonizado, lhe

volvia: «¿Não seria melhor mudarmos de conversa? Flaubert, teimoso:

«Seria, mas o sorvete de limão é digno de ser celebrado; enche-se a

colher, isto faz como que uma pequena cúpula; esmaga-se brandamente

entre a língua e o céu da bôca; isto derrete lentamente, frescamente,

deliciosamente; isto banha a úvula, isto roça pelas amígdalas, isto

desce até ao esófago, que não fica zangado, e cai no estômago que

estoira de riso, tão contente está. Aqui para nós, faltam os sorvetes

de limão no deserto do Qôseir!»

Maxime du Camp agarrou-o terrívelmente e esteve em quásis de o matar.

Só depois de ter bebido a saciar-se, Flaubert o tomou nos braços e lhe

disse: «Agradeço-te o não me teres quebrado a cabeça com um tiro de

espingarda; no teu logar, não teria resistido».

E agora, contada a história, digam-me se, como Esaú, não trocariam

a progenitura por um bock ou se não dispensariam a glória, a

imortalidade, a academia, eu sei lá, por um dos tais sorvetes de limão

do Tortoni? Porque, com franqueza, ¿qual de vós, ao menos a sonhar,

não parafraseou a frase célebre de Augusto pedindo a Varo as suas

legiões? Qual de vós não acordou uma noite destas em gritaria aflitiva,

bradando:--José, José, traz-me um sorvete!

Os bastidores do Génio

Zola--Wagner--Gorki

a Eduardo Schwalbach.

Sienkiewicz, êsse forte e original Sienkiewicz, que a multidão

consagrou pelo martírio da sua Lígia, o amor da sua Eunice e a _linha_

orgulhosa e aristocrata do seu Petrónio, tem em tôda a sua obra um

livro maior do que êsse _Quo Vadis_ aclamado e do que êsse _Dilúvio_ de

que se fala tanto. Intitula-se, na tradução portuguesa, _Sem Dogma_.

Pois foi nesse livro, quási esquecido, que eu topei um dia com esta

frase intensa: «_todo o homem tem em si a sua tragédia_». Se, na

sua generalidade, ella é já precisamente humana, quando se aplica a

artistas toma a sua expressão mais flagrante e mais real e, então, como

certas palavras de que fala Daudet, que quando se pronunciam abrem

um horizonte inteiro ao pensamento, visiona qualquer cousa do abismo

dessas almas de que se conhece só a superfície.

Foi com a tragédia espantosa dêsse russo, que está agora prendendo a

atenção do mundo--êsse Máximo Gorki que é tão grande como Tolstoi--que

eu me dei a considerar a tragédia de todos os que lutam pela Arte,

almas de luz e fel, que, como êle na sua passagem para a Glória,

escondem uma odisseia de torturas, amassada de lágrimas e feita de

ânsias e tormentos.

Essa tragédia dolorosa, indescritível, convulsa, misto de aromas e

travores amargos, esperanças e desilusões, é a que transborda para as

suas personagens, para as figuras que criaram e a que deram vida. Se

uma figura às vezes atravessa um livro inteiro, um drama, uma peça

inteira carregada de amargura--tanta que infunde piedade,--é que o

seu autor trazia muita consigo. Se sofreu tanto que se impõe à nossa

admiração, lá está por trás dela êsse homem transfigurado, às vezes

grandioso e ridículo, que chora as suas lágrimas e sofre as suas dôres

porque a tragédia das suas personagens é arrancada da sua própria

tragédia. O autor é o seu primeiro actor. É a sua tragédia que êle ali

estadeou e autopsía. Tôda a porção de ridículo, de mágua e piedade,

de cólera e compaixão, todo êsse arco-íris de sentimento não é mais

do que qualidades suas que êle transportou, corporizando-as no papel.

Não é a vida alheia que êle vive. É a sua. Todos os dramas, tôdas as

tragédias que êle patenteou nos seus romances, nas suas peças, nos seus

quadros, na sua música, não foram mais que uma janela que êle abriu à

alma para nos mostrar a sua tragédia.

¿Pois o Dr. Storkman do _Inimigo do Povo_, de Ibsen, não será a sua

própria encarnação dentro do drama? ¿A luta que Storkman sustenta

contra o egoísmo e a mesquinhez do seu _meio_ não será a mesma que

Ibsen sustentou, para conseguir impor a sua arte?

¿As outras figuras não serão figuras que êle sentiu à sua roda

molestando-o,--vivendo-as por conseguinte? ¿Brand, Solness não serão

ainda êle? Ibsen conheceu o insucesso, lutou, lutou e venceu. ¿A

estranha conclusão a que êle chega no _Inimigo do Povo_ não será a

conclusão que cimentou das suas horas de odiado e guerreado?

¿Swit na sua obra não se identificou tão profundamente com ela que

antes parecia tê-la vivido e representado? ¿A tragédia do célebre

_Kreissier_ de Hoffman não será por acaso a sua?

Em Flaubert a tragédia é tão intensa que chega a confessar que, na

ocasião de transportar ao papel o envenenamento de M.ᵐᵉ Bovary, sentia

na bôca o sabor do arsénico. Edmond Goncourt, no _Journal_, falando de

seu irmão Jules, dá-nos uma prova flagrante disso, dizendo que à fôrça

de se analisarem, de se estudarem e de se dissecarem, chegaram a uma

sensibilidade super-aguda, que os fazia assim viver a vida das suas

personagens.

Crónicas imorais · 第 9 / 11 段