quão passageira e falsa é a glória do mundo! ¿Quem se recorda hoje do
segundo ministro dum rei de há três séculos--um cargo tão invejado!--e
do general favorito de Breno--um cargo tão merecido? Quem? Quem hoje lê
os vélhos? Quem hoje os aprecia? Vélhos, sombras do que foram. O tempo
é velhice e Morte. Mas consolemo-nos. O meu vizinho, homem célebre,
tambêm há-de morrer e ser esquecido como eu. Todos serão esquecidos. E
se a alguns parece escolher o tempo, deixai. Dai o tempo ao tempo. Êle
os esquecerá....
* * * * *
Ora, sendo o tempo uma cousa tão preciosa que cumpria não esperdiçar,
antes conservar avara e egoístamente, roubar tempo é um crime, alêm
de ser roubo. Os inglêses, dizem que tempo é dinheiro. Eu direi que
roubá-lo é uma grande pouca vergonha, digna de muito cacete ou de
fôrca, se quiserem. Não há país onde se roube tempo como em Portugal.
Em Portugal, país do Amanhã, não há a noção do tempo. Ninguêm sabe o
que seja pontualidade. Prometer e cumprir caso é de estranhar, agora
prometer e faltar é caso trivial. Senão vejam os senhores em tudo e
por tudo. Faz-se um pedido, qual é a resposta? Deixe para amanhã.
Procura-se um devedor; amanhã paga. Pede-se fiado: «Hoje não se fia;
amanhã sim». Tudo é amanhã, tudo é no outro dia, um amanhã que nunca
chega e que só é pretexto para nos extorquir tempo e paciência.
¿Os senhores nunca foram registar uma carta ao correio geral? Pois
vão, mas vão com pressa. Isso é que é pândego! Uma pessoa chega: há
15 pessoas agarra-das a um postiguinho muito pequenino, um daqueles
postigos que através da distância de quinze pessoas só se vê por óculo.
A gente chega e sossega. Póde sossegar à vontade. Ainda agora chegou.
Se dá mostras de impaciência, o que está à frente abespinha-se e
redargúi: «¿Que está o cavalheiro a fungar? Há uma hora estou cá eu».
E a gente curva-se. Passa a olhar o sujeito respeitosamente. Caramba!
«uma hora!» E tudo são cogitações. ¿Mas não há quem nos atenda? ¿Não há
quem nos despache? Há sim, senhores. Há um tipo que está lá ao fundo
chupando uma beatazinha, mãos nas algibeiras e dizendo, para outro
matuto sorna como êle: «O cházinho era delicioso! E então os bolos. Os
bolos, menino!...»
«Eu estou aqui há duas horas!» diz um escanifrado que agita uma carta.
«Espere se quiser, diz o dos bolos. Há muito mais tempo estou eu cá e
não faço tanta chiada!»
¿Os senhores nunca foram pagar a décima? Não foram? Felicito-os.
Pagar a décima é tambêm uma cousa divertida, para quem não é cardíaco,
nem tem aneurisma nenhum. Eu fui uma ocasião, mas à cautela levei
_lunch_, um _couvre-pieds_ e um romance para ler. Não foram prevenções
inúteis. Fui para lá ao amanhecer e havia candieiros acesos. Li o
romance todo e comi até as migalhas do _lunch_. Comeria outro, se o
levasse ou não receiasse perder o logar. Porque aquilo é à vez. Uma
pessoa, munida do competente papel intimativo e do dinheiro para a
ressalva, apresenta-se. Quando chega, há já uma linha de pessoas que
vem até à rua. Umas ficaram de véspera, outras foram ainda de noite
e as que foram assim quando os galos cantam e a aurora rompe, já
encontraram três dúzias delas à espera. Outras vão chegando,--já se
sabe, o competente farnel, o cobertor e o livreco--e tomam logar. Ás
onze e meia--a repartição abre às 10--chega o garimpo que varre a
casa. E é um tropel de gente que se empurra, que toma logar, que se
instala. Neste apertão é vulgar perder a carteira ou ficar com um calo
esborrachado. Mas tudo vai bem. A gente sentou-se, apara a paciência,
abre o livro. Meio dia. Entra o pastinha. Depois entra o outro, depois
o recebedor. São as feras. Há uma grade entre elas e o público, e um
postiguinho, por onde a gente lhe mete a massa, que é como quem diz o
sustento.
Começa a chamada. O patife parece que está a entoar cantochão. Vem
ainda estremunhado. Entretanto os que não levaram livro vão contando a
vida aos vizinhos. «Eu moro na rua da Ametade. O meu nome é Simão. O
meu pai é timbaleiro. Minha mãe era parteira...» Ah!... O meu vizinho
ressona de assobio. Um velhote quere dormir mas a conversa dos dois
grulhas não o deixa pegar no sono. Bem: ainda há 44 adiante de mim. Eu
volto à leitura. «José Ferreira Casmurro!» Pronto, diz o outro. É a
chamada que continua. E os outros pensam: «Aquilo é que é um Casmurro
com sorte». Ah! quanto falta para lá chegar?!
Aqueles bandidos não teem nenhuma pressa. Vão tranqùilamente zombando
do tempo e da paciência dos outros. Passa uma hora, passam duas,
passam três. Ao meu lado havia um petiz de ano e meio que mamava como
um danado na têta da mãe, quando eu entrei. Quando se chega quási à
minha altura alguêm do lado toca-me no ombro. Volto-me. É o petiz que
interroga e pede: «¿O cavalheiro não tem por aí um cigarrinho que me
dê?» Como êle cresceu, o brejeiro!
Emfim, na rua! Caramba, mas é de noite! Como o tempo passa! E aquilo lá
dentro continua. Uff!
Quem diz registos e décimas diz tudo. «Olhe, venha amanhã! Olhe,
espere! Se tem pressa, vá andando». Emfim é um nunca acabar. O que se
resolveria em qualquer parte num quarto de hora, em Portugal leva um
dia, uma semana, um mês, um ano, uma eternidade. Isto é o país das
eternidades. Primeiro que as cousas cheguem...
Eu jogo não sei há quanto tempo com uma cautela de três na lotaria.
Sempre o mesmo número. Pois para verem como Portugal é o país do
amanhã, só lhes direi que é rara a lotaria em que a cautela me não sai
branca. Ora não sei se os senhores estão a ver que se fôsse em qualquer
outra parte já me teria saído a sorte grande...
Mas o que me consola é que o tempo virá e acabará com o meu dinheiro,
com a minha vida, com o número em que jogo, com a grande, com a
lotaria, com a Santa Casa e até com a lembrança de tudo isto.
E não sei se os senhores estão a ver que isso será uma felicidade...
A decadência do jornalismo em França
Um articulista parisiense, parisiense pela finura da sua expressão,
pelo subtil da sua análise e sobretudo pela leveza scintilante da
sua prosa, Ibels, acaba de declarar decadente o jornalismo francês.
E vem, com uma santa ingenuidade, uma destas ingenuidades para
medalha de ouro, e um espanto nada correcto, nem do mundo, dizer que
o jornalismo francês decai porque o que lhe falta são jornalistas;
porque os artigoleiros são muitos e os articulistas são poucos e
porque finalmente êle é o eco de tôdas as _chantages_, o eco de tôdas
as calúnias, o gramofone de tôdas as mentiras e o acusador de tôdas
as reputações. E, indignado, prossegue: «O periódico moderno pratica
a medicina ilegal, recomenda venenos, serve de intermediário entre
donas de casas suspeitas e jovens de menor idade. Insere e entretêm
a correspondência amorosa e adúltera e vai mais longe, publicando
um boletim financeiro em que milhares de môscas caem prisioneiras
vendendo os seus títulos porque acreditam na sinceridade do periódico
que lêem». E diz mais, que isto, que aquilo, resumindo que é tudo uma
pouca vergonha desaforada. A propósito, para não perder pitada, ferra
uma tunda no _Le Matin_, que na sua opinião é um intrujão que já de há
muito deveria ter a redacção instalada numa das celas da Penitenciária
de lá.
Eu não conheço Ibels. As suas conclusões parecem-me acertadas. Mas o
que acho interessante são os seus espantos. Admira-se. Admirar-se a
gente é mau sinal. O Eclesiastes tinha dito que nada de novo há debaixo
do sol. Ora a pouca vergonha é mais velha do que o Eclesiastes. É
talvez mais vélha do que o sol. Mais vélha do que o sol, do que os
deuses, do que a terra e do que tudo quanto existe. A pouca vergonha é
eterna. Não tinha pois de que se admirar. Eu é que me admiro (oh, santa
incoerência!) do seu espanto.
A decadência do jornalismo em França vem de longe. Balzac já lhe
estudou as causas nas _Ilusões Perdidas_. E caso curioso, nas _Ilusões_
havia tambêm um Luciano que se admirava. O articulista de agora é o
Luciano de ontem. Está escrito: «Hão de existir Lucianos em todos os
tempos!»...
Quem quiser saber destas cousas sem o tom acre de censura e lamento
que perfuma o artigo de Ibels, antes com o tom risonho de quem está
muito à sua vontade--como quem está em sua casa, por exemplo--deve ler
um curioso artigo em tempos publicado na imprensa espanhola. Chama-se
_Esplendores y miserias del periodismo_. Assina-o Gomez Carrillo,
cronista do _Liberal_, creio eu, literato de Espanha vivendo em Paris
e artista _urbi et orbi_ onde vá a língua de Quichote ou a respectiva
tradução. Aí é que se diz tudo! Tudo e ainda mais o que disse Paul
Pottier, homem lido e sabedor.--Ora diz Carrillo, e escreveu Paul
Pottier, que «para 600 empregos no jornalismo há 3.000 jornalistas». ¡E
se êles, todos êsses pobres concorrentes, soubessem o que os espera!
Uma vida sugante e angustiosa. Nem horas de comer. Dormir incerto.
São os cavalos de posta da notícia. É preciso lutar, lutar sempre. O
que chega a Paris cheio de vontade leva um dêstes abanões que quási
o deitam a terra. O jornalismo é uma luta. Não há jornalistas, há
cavalos de corrida. ¿Qual dará o artigo, a notícia, o comentário mais
desenvolvido, mais agaçante de pormenores, mais chorudo de minudências,
mais dramatizado de bagatelas? O público quere. O público aguarda.
Quere cousas novas, cousas inéditas, cousas imprevistas. Um assassínio?
Isso é vélho. É preciso achar novo. Não há? inventa-se. Saber inventar,
eis a questão em ocasiões difíceis.
Ao cabo de três anos num logar subalterno, tendo dado tudo o que trazia
na cabeça, tendo gasto todos os seus nervos, puido tôda a sua vontade,
sem nada no estômago porque se alimentou mal e irregularmente, com uma
neurastenia aos ombros e o vácuo no cérebro, a criatura é corrida a
pontapé do jornal e vai direitinha a um manicómio onde nunca mais a
endireitam.
Os grandes jornais baixam as suas tarifas de pagamento. Quási todos
desceram a linha a 15 cêntimos, com excepção de _Le Temps_ que paga
30, _Le Figaro_ que dá 25 e _Le Gaulois_ e _Gil Blas_ que não dão mais
do que 20. É certo que Catulle Mendés cobrava de _Le Journal_ quarenta
mil francos anuais, sejam sete contos e tal. Mas _Le Figaro_, que ontem
dava a Huret 2:000 francos, não dá hoje a Serge Basset pelos teatros
senão 1:000.
Harduin no _Le Matin_ recebe 1:500 francos, com obrigação de escrever
todos os dias um minúsculo artigo. Sarcey recebia de _Le Temps_ 1:000
francos mensais pelos seus artigos. Octave Mirbeau e Severine, que no
_Le Petit Parisien_ recebiam importantes honorários, foram dispensados
da sua colaboração. E os contos que Fernand Xau pagava a 300, 250 e 150
francos baixaram a 25, e últimamente a 15 francos. E isto em jornais
que tiram milhões de exemplares.
Os nomes cotados fazem-se pagar bem. Porêm para os que veem sem nome,
para êsses, o caminho da imprensa é um calvário. São recebidos com
duas pedras na mão; exactamente como no tempo em que Luciano queria o
logar de redactor no periódico que tinha por Cerbero o vélho militar.
E devemo-nos lembrar de que todos os citados são os bem pagos: os
da fôrça de Mirbeau, por exemplo, que só com um artigo fêz o nome a
Maeterlinck...
Considerai o que não será agora nos subalternos?!...
Um escritor que viva de escrever e que tenha já uma pequena voga vê-se
obrigado a rebentar com trabalho para cobrar um estipêndio rasoável. As
revistas não lhe publicam um artigo senão de três em três meses pelo
menos, para não repetirem o nome do colaborador; os grandes jornais,
de que êle vive, baixam-lhe dia a dia a tarifa. Os artigos reunidos em
livro dão uma bagatela. Os livros que são enviados ao periódico, para
criticar, vendidos e regateados não dão para o alfaiate. De maneira que
a criatura vê-se e deseja-se.
Isto é tendo certo nome, porque de contrário nem as revistas lhe
aceitam artigos, nem os grandes jornais lhe abrem a porta, nem os
livros lhe chegam à mão.
E a tanto chega o descaramento que Magnier, senador, que largos anos
possuiu _L’Evenement_, dizia aos seus redactores: «O que preferem os
senhores? ¿Que lhes marque um ordenado de 500 francos por mês e não o
pague ou que lhes dê 250 para os pagar?»
Quer o redactor aceitasse uma ou outra proposta, sabido era que não via
cinco réis. E a maneira de alguma cousa receber era negociar com êle
uma parte da página dos anúncios. Se não andava depressa na cobrança
ficava sem real, porque o director mandava tambêm cobrar. E quantas
vezes o redactor ao chegar não soube que os anúncios já estavam pagos...
Êste Magnier era caloteiro contumaz. Conta-se que Aurelien Scholl, a
quem êle devia certa soma e não tinha maneira de a receber, uma ocasião
ao ver passar o seu trem correu para êle, desprendeu os cavalos e foi
vendê-los ao _Tattersall_. Foi uma inspiração divina. Senão podia dizer
adeus ao débito.
A imprensa francesa explora o escândalo, explora o público, explora
todo o explorável. Até aqui muito bem! Que há nisto de estranho?
¿Pois não é natural que meio mundo explore a outra metade? E Ibels,
indignado, cita o Panamá, cita mil casos em que o «periodismo» tem sido
nefasto. E deixa, o maroto, ficar no tinteiro a questão Dreyfus.
O jornalismo tem bons e maus. Que êle esteja decadente, não acredito.
Êle é o reflexo do seu tempo. Exigir jornais sãos numa sociedade podre
parece-me exigir de mais. De acôrdo que os maus sejam mais do que os
bons! Mas isso que importa? Se às vezes um jornal só, um homem com uma
pena na mão, fica nos séculos, sobreleva acima de tôda essa podridão,
de todo êsse enxurro, de tôda essa vaza, cujo mau cheiro só o tempo
purificará?!
Que importa, se um brado de Justiça vale mais do que uma multidão
berrando, e se um jornalista de consciência vale mais, tem por si só
mais fôrça do que um grande exército?!...
Que o jornalismo está decadente? Embora. Êle é ainda a árvore onde de
tempos a tempos se empoleira uma criatura para dizer que o manto, o
celebrado manto de el-rei da fábula não passa duma hipocrisia ou duma
cegueira.
O Carnaval
Eu não posso folhear atentamente a obra de Rafael Bordalo sem me
demorar nessa página suprema, traçada num minuto de tédio e feita
num instante de aborrecimento: _A última máscara_. A última máscara
é, escusado dizê-lo, a máscara da Morte. Se a do feto é a primeira
máscara, a da caveira é a última. _A última máscara_, de Rafael
Bordalo, representa pois a caveira.
Esta vida são três dias, diz-se. Êsses três dias simbolizam as três
idades. O Carnaval são três dias, que tantos são os da vida. Esta
vida é pois um carnaval. Murger chamou-lhe uma «máscara de forçados»
outros lhe teem chamado o que melhor lhes tem parecido. Não inquiramos.
Assunto complexo, se se quiser explicar, traz consigo complexas
deduções. E não há assunto mais complexo do que a Vida.
O carnaval que a gente vê, ou por outra que a gente viu, é bem pior
do que aquele de que a gente se lembra e bem melhor do que aquele que
se verá. O carnaval tende a desaparecer. A graça foliona, travêssa,
doudejante, morreu. O que por aí anda é outra graça, uma graça que
sorri nos intervalos de tosse e nos intervalos do riso mendiga
dez-reisinhos.
Se não, é ver-se como a fôlha mais bem escrita do Carnaval é a
de quarta-feira de cinzas, esta quarta-feira em que vos escrevo,
satisfeitíssimo por ter visto as ruas despejadas de mendigos
enfarinhados, mendigos _pierrots_, mendigos _chechés_, e mendicidades
ambulantes, danças, paródias, filarmónicas e _tutti quanti_. Passou
a época das tremoçadas. Chapéu alto que passava era penante dado ao
criador. Ninguêm se aventurava a sair. Despejavam-se barricas de
tremoço sôbre o desventurado que ia assim mais asseadinho.
Uma criatura saía. Á saída da porta levava logo com uma luva cheia
de areia pela cara que ficava azul. Andava mais um minuto e era
uma assuada. Cada minuto cada nova aventura. Algumas de que saía
mal-ferido. Á hora de jantar, quando a criatura recolhia e se
inventariava, via com desgôsto que o chapéu estava inconcertável. A
farpela cheia de farinha, com um ovo feito em estrêla nas costas, seis
farpões de rabos postos e arrancados. Um ôlho a menos. O colarinho
zebrado com uma longa lista de pós de sapatos. A camisola cheia de
areia, a guedelha cheia de farinha e as botas--ah! as botas!--cheias de
lama--porque soe chover quási sempre pelas entrudadas,--e a chuva é o
protesto do infinito.
Vejam lá hoje. Tantas são as leis publicadas sôbre o Carnaval que a
gente se vê na absoluta necessidade de consultar um advogado sôbre se
será prejudicial atirar uma serpentina.
O advogado consultado promete estudar. Estuda e apresenta a sua
resposta quarta-feira de trevas, ao mesmo tempo que apresenta a
conta da consulta. São pelo menos 2$500. Vejam lá se há cousa mais
interessante.
Antigamente a criatura, depois de borrifada com urina, zurzida
de tremoços, mascarrada de pós de sapatos, enfarinhada, maçada
e enlameada, recolhia num bolo, mas alegre. E resumia para a
família:--Aquilo é que foi divertir! Agora não. Sai de chapéu alto,
escovada, correcta, exactamente como se fôsse para aquelas
recepções da embaixada
em que há uma duqueza que sorri, «tão branca, tão decotada» que até
dá vontade de a gente resumir, ao recolher a casa:--Ai, filha, que
papança, o que traduzido em vulgar quere dizer:--Ai, filha, que maçada!
Ah! o Carnaval civilizado! ¿Já viram maior pouca vergonha? Antigamente
a gente não saía. Agora, sabendo que volta com o arranjinho como foi,
sai. Sai, e volta abrindo a bôca, espreguiçando-se, moída, sem ânimo,
farta de ouvir baboseiras e de ver misérias ambulantes. As ruas são
tristes. Os bailes são quási macabros. As mascaradas são lúgubres:--¿O
cavalheiro dá licença que eu lhe atire êste saquinho de bombons?--Pois
não! ora essa! O cavalheiro atira. A gente guarda. Chegando a casa abre
o saquinho. Não são tal bombons. São feijões, são tremoços, é grão de
bico. Comentário--Que intrujice!
Se abstrairmos do Carnaval e volvermos os olhos misericordiosos sôbre
esta mascarada em que todos entramos, uns mascarados de sinceros,
outros de cínicos, uns vestidos de moços fidalgos, outros de moços de
fretes, uns vestidos de archeiros, outros de par do reino, a desilusão
resulta pior. Porque, bem considerando, tudo na vida é mascarada e tudo
são máscaras. ¿Por que razão é que, tendo um homem nascido nu e entrado
na morte como a mãe o depôz cá neste mundo, essa súcia inventou que um
bocado de galão dourado pôsto num braço provoca um gesto de submissão,
e pôsto num caixão nos faz pensar nas vaidades de todos os galões
e de todos os gestos? ¿Por que razão é que quem «rouba um milhão é
barão e quem rouba um pão é ladrão», como diz o poeta? Tudo se mudou.
«¿Antigamente não eram os ladrões pregados nas cruzes e não se pregam
agora as cruzes nos ladrões?» Fala certo Junqueiro:
E não estala um ai de dôr em cada peito.
E não submerge o monstro a cólera do mar,
E a terra continua em seu girar perfeito;
Ó Chimera, ó Tristeza, ó Justiça, ó Direito,
Providencia onde estás, que te quero insultar!
A indignação passa, a miséria fica. E para que há-de a gente considerar
em tanta miséria?!
É fatal. Se a gente scisma e se ensimesma, pobre _dominó_ sentimental!
_Dominó_ lunático, sonhador escarnecido! Se a gente ama, pobre tolo,
que anda na lua. Se acredita, que assuada! se considera, que filósofo!
E não há que scismar, que sonhar, que amar, que acreditar e que
considerar. É deixar-se ir no vortilhão, como quem aborrecido vai na
onda, empurrado, sem sentir os empurrões, escarnecido sem ouvir os
escárneos, apupado sem ter ouvidos para os assobios. Em resumo: É
a vida um baile de máscaras muito aborrecido. Entra-se julgando a
gente divertir-se imenso, e, quando se chega a quarta-feira de cinza,
encontra-se, depois de muita maçada, morta de aborrecimento e de
tristeza com êsse dominó embuçado, misterioso, que tem um riso eterno e
que é o porteiro da saída. Êsse dominó é a última máscara. É a ultima
máscara que mudamos e é o último mascarado que encontramos. Como
Rafael Bordalo deveria estar morto de tédio para fazer a síntese duma
filosofia num quarto de papel--a síntese da filosofia do riso, porque o
riso é uma filosofia em que sempre se acaba a chorar.
Mascarada! Mascarada eterna! Mascarada que veio através dos séculos
até nós e de nós irá por êsses séculos sem fim. Mascarados que todos
nós somos. Quando falamos mentimos, quando juramos mentimos. Quando
tentamos falar verdade ainda mentimos, porque a verdade não é mais do
que uma mentira menos mentirosa. E, senão, que nos mostrem algum amor
que o seja, algum amigo que não falseie. O amor--uma _Colombina_ e um
_pierrot_--Mas livra-te de amar, porque serás o _pierrot_ traído. A
amizade--uma espada que se quebra ao sair da baínha para nos defender.
E entre outras desilusões, de vez em quando passa por nós sorrindo _a
última máscara_, de Rafael Bordalo.
Eu invejo os que se divertem. ¿Como serão feitas lá por dentro as
criaturas que se divertem? Não sei, e creio que nunca ninguêm o saberá.
Invejo-as, porque não sei se elas existem. Acho mesmo que as criaturas
nessas condições estão em igualdade com a do feliz, que Manuel Bento
de Sousa pôz em quadras. O sultão, para se restabelecer da sua grave
enfermidade, precisava nem mais do que da camisa dum homem feliz.
Embaixadas, expedições, o demónio e nada. O homem feliz não aparecia.
Interrogados os súbditos dos seus estados, à uma todos responderam
que não, que não eram felizes. Só um pobre, que puxava a uma nora e
cantava, respondeu que sim. Êle possuia essa cousa tão rara como o
amor e como a amizade. Êsse era feliz. Foi o pobre diabo amordaçado
e conduzido sôbre um camelo à presença do régio doente. Era a cura.
Mas logo que o despiram se verificou com espanto que êle,--o homem
feliz,--nunca tivera camisa.
É bonita a história, ¿mas quem nos diz se não será mentira? ¡Sucedeu há
tanto tempo e num país distante!
E com estas e outras histórias, umas cómicas, outras trágicas, se passa
a crónica e a vida. E depois à saída do baile, lá espera o _dominó_
fatal.
É por isso que eu me demoro, sempre que folheio a obra de Rafael
Bordalo, nessa página que representa _a última máscara_.
Academias
Não sei se os senhores teem reparado que muito ao contrário da eterna
verdade que Ibsen apresenta, no seu _Inimigo do Povo_,--«o homem mais
forte é o que está mais só», que tambêm pode ser traduzida «vale mais
só do que mal acompanhado»--o homem tem uma extraordinária tendência
para se reunir e dizer asneiras de sociedade. E é fatal. O homem, alêm
de tudo quanto é, ia eu dizendo, _Homo sapiens_ de Linneu, «o animal
implume que ri» de Platão, é tambêm palrador. Palrador, sim, meus
senhores! Prometam-lhe uma libra para estar calado uma hora. Ou diz ao
fim de meia, como o outro, que «meia hora já está passada», ou pedirá
ao fim de dez minutos de experiência, que guardem a libra porque se não
fala rebenta.
Tem uma certa razão, valha a verdade. «Para viver só, é preciso ser
bêsta ou Deus» disse Aristóteles. Nietzsche concluiu que há tambêm um
terceiro caso; ser as duas cousas: filósofo. Ora nem todos são deuses,
se bem que as bêstas abundem. Filósofos, não vai o tempo para êles. E a
um ou outro que vem, quási sempre por engano, sucede-lhe a mesma cousa
que ao _Misantropo_ de Castilho, aquele
«Severo Tristão de Matos»
que, depois de clamar, de se indignar e de ter estado não sei quantas
vezes em risco duma apoplexia ou duma congestão
«Saíu da vida presente
por farto de ver sómente
falsos, vis, ladrões e ingratos».
Provado, pois, que o homem tem necessidade de se assembléar, para
viver, logo foi inventar mil nomes para justificar a reunião. E então
chamou-se-lhe, de _soirée_--sociedade onde a gente se aborrece, tendo
ido para se divertir,--até _Academia_, sociedade onde a gente se
diverte, tendo ido para se aborrecer. Não é das Academias recreativas
familiares da rua onde a gente mora. É das outras. Cousa séria, grave,
ponderada, onde se discute ou se dorme, mas quási sempre se dorme. Isto
vem a propósito de termos agora mais uma Academia.
Ora há muitos anos que a gente tem outra--ali para as bandas de Jesus,
que se chama, creio, Academia Real das Sciências. É uma sociedade onde
os sócios teem fardamento tal como a Incrível Almadense ou a banda dos
bombeiros de Chão de Maçãs. Fardamento, chapéu armado e espadim. Para
que serve, não sei. Que tem feito? Quási nada. Um dicionário que ficou
em _azurrar_. Ora eu entendo que em vista de nunca ter passado do A,
sendo já tão crescidinha, se lhe dê outro ofício. Está provado que não
nasceu para aquilo. E o que é mais, não tem vergonha nenhuma. ¡Sempre é
uma tamanhona sem préstimo!