¿Pois não arrastou dentro de si esse bárbaro Shakespeare a tragédia

tormentosa do seu rei Lear, a loucura sonharenta dêsse Hamlet, a

perfídia de Macbet e a candidez da sua Ofélia? ¿Não se descortina

em tôda a obra dêsse melado e extraordinário Daudet a sua tragédia?

¿Dickens, Póe, Baudelaire, Verlaine e êsse Rollinat, cuja morte

estranha ainda está na memória de todos, não se encarnavam na sua vida

literária, não eram aquelas páginas, aqueles versos, aqueles dramas

arrancados de si, motivados por essa super-intensidade de sentir

análoga à dos Goncourts e que lhes faz ainda maior a sua tragédia?

Wagner é o herói da sua novela, _O fim de um artista em Paris_, como

Gorki é o padeiro do seu conto dos _Vagabundos_. ¿Zola, essa forte

organisação de génio e de trabalhador, não se retrata nesse belo e

inolvidável conto _Nantas_? Não sentiu êle o seu Nantas? ¿Não viu

Paris, faminto, correndo tôdas as portas à procura de emprêgo,

sofrendo tôdas as recusas, sentindo inamovíveis aos seus desejos

todos os corações, fechadas tôdas as almas, exactamente como o seu

Nantas quando voltava à noite a casa, cambadas as botas, alma sêca,

cheio de lama, tendo corrido dum extremo ao outro extremo todos os

_boulevards_ da cidade? E não lhe pôde êle dizer um dia, exactamente

como Nantas--Agora és meu?!

Nantas, como Zola, é um moço que chega a Paris sem um ceitil na

escudela e que o corre todo a procurar uma côdea, porque Nantas,

exactamente como Zola, teve fome. Depois consegue triunfar, mercê duma

incrível tenacidade, duma fôrça hercúlea. Chegara. Como Zola ainda!

Audran passou miséria. Maupassant, Daudet e Balzac conheceram a vida, o

mais ingrata possível.

Chatterton, para fugir à miséria, pediu refúgio à morte. Bernardin de

Saint Pierre não tinha uma camisa para vestir. A miséria de Milton e

Homero é tão indubitável como o seu génio. Savage morreu de frio numa

rua de Paris. Camões e Gilbert, como Verlaine, foram varar a carcaça à

cama do hospital.

Villiers de l’Isle Adam e Barbey d’Aurevilly, Shakespeare e sabe Deus

quantos outros, morreram na miséria. É esta miséria, eterna companheira

dos artistas, que Wagner invoca no comêço da sua _Visita a Beethoven_.

«¡Pobreza, dura miséria, companheira habitual do artista alemão! É a

ti que, escrevendo estas memórias, te devo invocar. Quero celebrar-te,

fiel companheira, que sempre me tens seguido a tôda a parte.»

Entre os portugueses, êsse génio esquecido de S. Miguel de Seide, sem

estátuas, nem ruidosas consagrações, mas com uma obra maior do que isso

tudo, ¿não sofreu essa angústia do _Amor de Perdição_? ¿A sua obra,

essa gigântea _Comédia humana_, não foi dele que saiu, da sua tragédia?

¿De que porção enorme de lágrimas, de amor, de amarguras, de todo êsse

misto sem nome, não seria feita a tragédia dêsse homem? Tão grande

ela era que chegou para êle a dividir por uma centena de criaturas,

que vergam muitas vezes sómente ao pêso da pequena parte que êle lhes

quinhoou e que, comparadas à sua, não chegam, sequer, a ser uma lágrima

no Atlântico.

¿As criações do nosso Eça não serão figuras que êle sofreu, que viveu

e que o rodearam? Temos ainda Fialho de Almeida, o extraordinário

colorista do nosso tempo. ¿Pois não é êle quem, na sua autobiografia,

confessa que viveu alguns anos de prodígios económicos, alguns

miseráveis cobres que não compensavam nem sequer o que para os apanhar

tinha suado?

¿Veja-se, perscrute-se um quadro de Rembrandt ou de Sequeira, uma tela

de Goya ou um esfumado de Assunção, uma partitura de Wagner ou uma

sinfonia de Beethoven, e que tragédia não há em tudo isto, como aquela

arte não é suada e sofrida, que soma de trabalho não representa?

¿Quantas horas de canseira para daguerreotipar um tipo, caricaturizar o

grotesco duma figura, fazer o esquiço ou a _silhouete_ apenas doutra;

o aguardar dum beijo, o _facies_ contorcido duma máscara, o estilo

que sabe a carícias, a armures, a fofos dedos e amarrotadas sêdas?

¿Que soma de ânsia e de suor não representam as figuras convulsas

de Dostoiewski, a beleza formidável dos ladrões e dos vagabundos de

Gorki, o diavolismo de Barbey d’Aurevilly; em d’Annunzio, a torturada

confissão do seu _Episcopo_; em Zola, o naturalismo da sua _Naná_ e de

_Le Germinal_, a delícia suprema de _Le Rêve_ e a singularidade de _La

Bête Humaine_; o esmerilhado feminil dêsse Gauthier, o espiritualismo

de Maupassant e de Huysmans, a saudade voluptuosa de Pierre Loti, e a

psicologia burguesa de Bourget?

O público de nada sabe. ¿Que lhe importa a maneira _como e porque_ se

fêz a arte? E aí está como às vezes passa despercebida a _genesis_ de

obras que as gerações que vierem, mais justiceiras talvez, hão-de

apreciar devidamente.

A tragédia abraça todo o artista. Vai de Zacconi a Zola, como foi de

Raphael a Guttenberg, ou de Sócrates a Platão, e encontra-se igualmente

na freira portuguesa, essa Sóror Mariana apaixonada, e na alma dêsse

pessimista violento e cruel que se chamou Schopenhauer.

O destino aproximou no génio estes três nomes: Gorki, Zola e

Wagner, como os tinha aproximado na mesma odisseia de desventura. O

músico alemão, o contista russo e o escritor francês identificam-se

poderosamente.

Wagner, refugiado em França, chegou aos últimos apuros. Zola, quando

veio para Paris, sem nome e sem dinheiro, passou uma vida aflitiva

primeiro que o seu nome fôsse conhecido. Na rua Soufflet, numa

hospedaria onde habitava e onde as rusgas da polícia eram freqùentes,

viveu Zola uma vida espantosa, no dizer dum dos seus mais dedicados

biógrafos. «Conheceu ali tôda a classe de privações. As suas comidas

eram pão e café. Ou bem pão e dois soldos de queijo de Itália, ou pão

e dois soldos de batatas. Algumas vezes sómente pão! Outras nem isso

sequer! As roupas iam parar, umas após outras, ao monte da Piedade.»

Era então, como de Wagner, a pobreza a sua companheira habitual.

Quando a última peça de vestimenta se havia sumido, aí estava Zola

forçado a ficar em casa, envolto nos lençóis e na coberta. Nem por

isso ia a pique a serenidade, e essa maneira de trajar denominava-a,

pitorescamente, _fazer de árabe_, aludindo aos muitos árabes que se

viam em Paris, envoltos nos seus albornoz brancos. ¿Quem sonharia ali o

futuro autor da _Obra_, do _Germinal_, e o defensor heróico de Dreyfus?

Mas Zola é o maior exemplo de tenacidade do mundo inteiro. Como êle

triunfou todos o sabem. O seu nome é hoje tão ou mais universal que o

dêsse vélho conde russo,--Tolstoi. Mas, mais do que êste, conseguiu

desencadear sôbre si todo o aplauso e furor humanos, uma verdadeira

tempestade de palmas e de ódios, de admirações e de rancores.

Gorki é perfeitamente a sua obra. Ela só trata de miseráveis, de

vagabundos, de ladrões, criaturas sem lar e sem abrigo, sem um braço

onde repousem a cabeça, nem uma bôca que lhes cicie palavras de

confôrto e de resignação. Foi moço de bordo, padeiro, vagabundo,

barqueiro, operário, guarda de linha, tudo quanto um homem pode ser.

Correu meio universo, sentiu em erupção a sua dôr e a alheia e disso

fêz uma _obra_. Plena de emoção, vibrante, e cheia de saudade, nenhuma

outra, que me lembre, é tão intensa. Contou o que tinha sofrido e

só isso lhe deu o triunfo, só isso lhe aureolou o nome da admiração

universal. Triunfara! ¡Mas para quantos o triunfo chega tarde!

São assim os grandes espíritos. Quere êles se chamem Danton ou lord

Byron, Homero ou Bonaparte, Pedro, o discípulo, ou Plínio, o sábio.

Todos teem seu martírio e sua consolação; mas no que todos devem

concordar é que a glória é uma cousa bem amarga!

A tortura do Estilo

Eça de Queiroz

A Afonso Lopes Vieira

O estilo é o calvário do escritor. Os profanos não calculam quanto

de energia, de paciência espectante, de trabalho, custou um capítulo

ou uma página, um período ou uma frase dêsses volumes, que são o

passatempo da maioria e a idolatria das almas nascidas para o Belo.

Essa espontaneidade que tanto admiramos e que tão celebrada é; êsses

versos tão fluentes e apaixonados, que julgamos nascidos dum só jacto;

essas páginas de fogo que parecem feitas dum só bloco; essas tiradas

tão dramáticas que dir-se-iam brotadas dum só arranco, que trabalho

louco não deram aos seus autores?! Charles Baudelaire diz que a

inspiração «consiste em trabalhar todos os dias», e Baudelaire percebia

disso. Ora a espontaneidade, ainda que isto pareça um paradoxo, é, como

a inspiração, produto de muitos dias de trabalho, de muita fadiga, de

muita noite perdida a burilar a forma, a perseguir a ideia, a dar à

emoção a sua veste mais atraente e mais adequada.

O escritor não se pertence. Um dos seus mais tirânicos senhores é o

Estilo. O Estilo é a grande tortura. O que esgota, que envelhece, o

que arruina. Tudo exige esta dolorosa profissão. As nossas emoções e

as nossas angústias, a nossa fantasia, a nossa paciência. O escritor,

ao fim de certo tempo, não tem dôres nem emoções suas. A própria vida

e todo o seu cortejo de acontecimentos passa a ser encarada como um

_motivo_ de arte. Tudo são _motivos_. É a deformação profissional,

idêntica à do magistrado que só vê criminal, do médico que só vê

morboso, do militar, do especialista. Para êle nada mais existe do que

o _assunto_ e depois do assunto a _forma_.

Para alguns a _forma_ não é mais que a imprescindível maneira de

exprimir o pensamento. Para outros, porêm, os mais artistas e os mais

amados, a _forma_ é objecto de longa tortura.

Foi êste o suplício que matou alguns dos mais notáveis homens de

letras. Maupassant, em seguida a uma dessas cruciantes sessões, atirou

uma navalha de barba às goelas, e foi morrer numa casa de saúde. E não

só Maupassant. Há mais; mas para que citá-los? Sabe-se que a maioria

dêstes obcecados da perfeição morre neurastenizada, louca ou esgotada.

¿O que amargurou a vida do nosso Eça, a de Balzac e a de tantos outros

senão a _forma_? As correcções, que primeiro se fazem normalmente, a

breve trecho tomam foros duma das mais obsidentes fobias.

Almas insatisfeitas, nunca uma linha lhes saíu das mãos sem que ela

tivesse realisado a imaginada beleza, a perfeição sonhada. ¿E quantas

vezes essa perfeição não vinha e êles se gastavam a persegui-la com uma

paixão e um furor que tocava as fronteiras da loucura?

Entre os mártires do Estilo o nome de alguns tem ficado lendário. São

as vestais da Beleza. A sua vida é uma odisseia de sofrimento, de

abnegação e de sacrifício. Por isso as suas obras duram mais que a sua

existência efémera e sofrida.

O mais torturado é Flaubert. Nunca nenhum escritor teve em tão alto

grau a ânsia da perfeição, nem nunca a _forma_ teve tão apaixonado

admirador. ¿Porêm que tormento não é tôda a sua vida, que exemplo

de martírio ela não representa? Para escrever as trinta páginas da

_Herodiade_ levou 900 horas e regista como um raro exemplo da sua

fecundidade o ter escrito vinte páginas em um mês!!! «Escrever era

pois para êle uma cousa temível, cheia de tormentos, de perigos, de

fadigas», diz um dos seus biógrafos, o seu discípulo Guy de Maupassant.

«Ia sentar-se à mesa com o mêdo e o desejo desta tarefa amada e

torturante. Ali permanecia, durante horas, imóvel, encarniçado no seu

trabalho assustador de colosso paciente e minucioso que construiria uma

pirâmide com bolas de criança. Enterrado na sua poltrona de carvalho de

alto espaldar, a cabeça encolhida entre os seus fortes ombros, olhava

o papel com o seu ôlho azul, cuja pupila muito pequena parecia um grão

negro sempre móvel»... «Depois punha-se a escrever, lentamente, parando

incessantemente, recomeçando, riscando, sobrecarregando, enchendo

as margens, traçando palavras dum lado a outro, escrevendo vinte

páginas para acabar uma, e, sob o esfôrço penoso do seu pensamento,

gemendo como um serrador de pranchas...» «E, a face túrgida, o pescoço

congestionado, a fronte vermelha, tendendo os músculos como um atleta

que luta, batia-se desesperadamente contra a ideia e a palavra,

apreendendo-as, emparelhando-as a seu pesar, mantendo-as unidas duma

maneira indissolúvel pelo poder da sua vontade, apertando o pensamento,

subjugando-o pouco a pouco com uma fadiga e esforços sôbre-humanos, e

engaiolando-o, como um animal cativo, numa forma sólida e precisa.»[1]

A sua correspondência está cheia de confissões amargas, as suas cartas,

tôdas elas, teem alguma cousa da tortura que o persegue. Em tôdas

se autobiografa e analisa, com uma resignação e uma amargura raro

excedidas ou igualadas.

Um dia escreve a Maxime du Camp: «estou-me tornando duma dificuldade

artística que me desola», para depois escrever a Madame X.: «Não sei

como algumas vezes os braços me não caem de fadiga e a minha cabeça se

não faz em papas. Levo uma vida áspera, deserta de todo o contentamento

exterior, e em que não tenho nada para me manter senão uma espécie

de raiva permanente que chora algumas vezes de impotência, mas que é

contínua. Amo o meu trabalho com um amor frenético e pervertido como um

asceta; o cilício raspa-me o ventre...»

Há uma carta em que, como um grito, se ergue[1] esta frase, que tudo

em si resume, condensa e encerra: «a deplorável mania da análise

esgota-me». E foi certo.

[1] Consulte o leitor o esplêndido e paciente trabalho do Dr. José de

Magalhães, _O Pessimismo no ponto de vista de psicologia mórbida_,

Lisboa, 1890. Tese apresentada e defendida perante a Escola Médica de

Lisboa. É um grosso volume de 500 e tantas páginas repleto do ótima

prosa e excelentes informações sôbre Leopardi, Schopenhauer, Flaubert,

Baudelaire, Amiel, etc.

Foi afinal essa «deplorável mania» que fêz da sua vida um inferno e que

mais depressa o levou desta para melhor.

Emquanto a Balzac ouçamos o que das provas dos seu livros diz êsse

outro grande artista e grande torturado que se chamou Theophilo

Gauthier: «Linhas, linhas que partem de tôdas as palavras para as

margens à direita e à esquerda, para cima e para baixo, conduzindo

intercalamentos, incisões, mudanças, supressões, aumentos. Ao cabo de

algumas horas de trabalho, dir-se-ia, um fogo de artifício pintado por

uma criança.

Do texto saem foguetes que estalam em palavras manuscritas. E são

cruzes e sôbre-cruzes, estrêlas, sóis, cifras árabes e romanas, letras

gregas e tôda a classe de sinais. Como as margens não chegam, cola

bocados de papel com obreias e segue emendando, emendando sempre».

Balzac corrigia tudo nas provas. Chegava a 10.ª ou 12.ª para que

emfim pudesse ser impressa a fôlha. Morreu aos 50 anos de excesso de

trabalho, de noitadas e de café e escreveu noventa e sete volumes.

«L’argent partout l’argent, l’argent toujours: ce fut le persécuteur

et le tyran de sa vie», diz Taine. Pois a-pesar disso foi tão artista

que conseguiu resistir a uma das cousas mais irresistíveis:--a falta

de dinheiro. A necessidade não subalternizou o seu talento até à

transigência. A sua obra o demonstra.

Mas Flaubert e Balzac ainda não são tudo. Temos Baudelaire, temos

Gauthier, temos Annunzio, temos Maeterlinck, temos Valle-Inclan, temos

os Goncourts.[1] Os Goncourts sobretudo. Gomez Carrillo, o intenso e

interessante cronista espanhol escreve a propósito deles em um capítulo

do seu livro _El Modernismo_, consagrado à _Arte de trabajar la prosa

artistica_, o seguinte: «Flaubert mismo tenia ódios, pasiones, perezas,

desesperanzas. Los Goncourts, no. Casi no fueran hombres. Fueran

literatos. No adoraron sino las letras. Escribiron siempre con el mismo

ardor, con la misma paciencia. Y lo que no fué literatura, belleza

escrita, impresion estética, no les interesó nunca». Os Goncourts foram

os chineses da prosa. Se alguêm os igualou em trabalho, nunca foram

excedidos em paciência. Tôda a sua vida foi passada a polir frases, a

burilar. Quando[2] um deles morreu, o outro teve a respeito do seu

trabalho uma página frisante. É êle que tem a palavra: «Ainda o vejo

lendo os quartos escritos em comum e que ao princípio não nos haviam

satisfeito; vejo limá-los, poli-los durante dias inteiros com uma

paciência irritável, mudando aqui um termo, acolá uma frase imprópria,

mais alêm um rodeio impreciso; vejo-o fatigando-se e esgotando o

cérebro em busca dessa perfeição tão difícil, tão impossível de

alcançar com a nossa língua francesa, na expressão de sensações e de

cousas modernas. Depois dêste trabalho ficava-se como morto, em um

sofá. Só tinha vida para fumar. Quando escrevíamos, passávamos até uma

semana sem sair, nem ver ninguêm. É êsse o único meio de fazer algo de

bom».

[2] O leitor que conhecer queira o trabalho de correcção nos

manuscritos dos grandes escritores consulte _Le Travail du Style_, por

Antoine Albalat, (Colin ed.) Paris 1905. Aí encontrará interessantes

capítulos sôbre Chateaubriand, Flaubert, Bossuet, Pascal, Rousseau,

Buffon, Hugo, Balzac, Fénélon, T. Gauthier, George Sand, etc.

O livro é uma das cousas que mais trabalho dá. É preciso trabalhar,

trabalhar muito, trabalhar sempre, para que êle tenha valor. Cada vez

será mais difícil fazer um bom livro, um livro que fique. É necessário

um enorme cabedal de conhecimentos, ilimitada paciência, faculdades

próprias e, ainda mais, o _quelque chose_ de Chénier. Passou a época

dos artistas ignorantes. As multidões vivem absortas na sua luta pela

vida e são avaras de atenção que não seja para a sua dôr ou para o

seu egoísmo. A soma ignóbil de talento que dá direito a ser lido só

se consegue por duplicada soma de trabalho. Por isso os que não teem

qualidades para a luta que não entrem nela. Serão fatalmente esmagados.

Há, neste momento que estou escrevendo, em todo o globo, dez mil

criaturas debruçadas sôbre as tiras de papel, scismando na maneira de

ser grande. E pensar a gente que de todos êsses só vinte talvez, talvez

nenhum, chegarão ao almejado êxito!!

Agora, como remate, ¿quereis saber como Gomez Carrillo, um dos mais

torturados e pacientes apóstolos da ideal perfeição do estilo, defende

a _forma_, proclamando mesmo a sua soberania sôbre a ideia?

«A Arte deve ser a Arte sem teorias, como a Beleza é a Beleza; como o

Amor é o Amor; como a Vida é a Vida.

«Porêm isto não o podeis compreender vós outros, os pesados

cultivadores da rotina; vós outros, os que creis que se escreve para

dizer algo; vós outros, os que ignorais que uma página bela, não tem

mais deveres que uma bela rosa; vós outros, que só considerais a frase

como um veículo; vós outros os lamentáveis irreligiosos da grande

religião do ritmo.»[3]

[3] E. Gomez Carrillo--_El Modernismo_. Madrid.

A religião do ritmo?! Eu sei. Tem no seu _Flos Sanctorum_ os nomes de

Flaubert, Balzac, dos Goncourts, Gauthier, de todos êsses torturados e

até o do próprio Gomez Carrillo!!!

* * * * *

Eça de Queiroz foi um dos maiores atormentados do Estilo em Portugal.

Cada página das suas representa um trabalho imenso, excessivo,

extraordinário, e se considerarmos a sua obra em globo veremos que o

escritor poderia ter deixado o dôbro dos volumes.

Os seus originais eram tão pacientemente trabalhados como os de

Flaubert, as suas provas tão caprichosamente emendadas e anotadas como

as de Balzac. A espontaneidade aparente do seu estilo era trabalhada,

porque Eça era um escritor de gestação difícil e produção morosa e

tardia.

Os seus íntimos conhecem bem isto e de-certo se não esqueceram daquelas

manhãs em que êle, depois de almôço, e de ter enrolado um fornecimento

de cigarros, uns cigarros duma propositada magreza ideal, se sentava

para trabalhar; e roendo as unhas até ao sabugo, diante dos largos

quadrados de papel a encher, os cigarros iam desaparecendo em fumo, as

horas sumiam-se em nada e o papel permanecia branco, sem que uma linha

da sua letra trémula fôsse rasgar aquela neve obsidente.

Quando a ideia acorria e os esquadrões de letras desfilavam,

principiava então o verdadeiro labor. O rascunho breve se cobria de

emendas. E, quando não ia fora, por inaproveitável, ficava uma cousa

lastimosa. Era o caos. Uma confusão que só êle entendia e que a mais

ninguêm aproveitava. Primeiro que daquela baralha de letras saísse algo

que o satisfizesse, era uma seca!

A frase era construida de tôdas as maneiras possíveis e imagináveis:

o vocábulo rebuscado, escolhido e modificado vezes sem conta. Quantas

vezes sucedeu frases completas, mesmo já depois de compostas,

_irem à caixa_, quando não períodos inteiros. E êle prosseguia na

sua penosíssima tarefa, dando aqui e acolá um tom, sombreando ou

diafanizando a luz, buscando acordâncias, regulando o conjunto,

estudando a harmonia cantante e vibrada dos períodos, fugindo aos

solavancos, para dar essa prosa que, à sua semelhança, é dandinante

mas pobre, elegante mas vincada por muitas e multíplices torturas.

Essa ironia, o traço caricatural que é a linha mais caracteristica,

mais celebrada e mais vibrante, a razão de ser da sua obra, vinha-lhe

de longas fadigas. Depois essa fadiga mais acentuadamente nos aparece

se considerarmos a pobreza do seu vocabulário e a trabalheira doida

de com êle, com um número bastante restrito de termos e expressões,

tirar cambiantes e efeitos. É mesmo essa pobreza de lexicon que lhe

faz dar, quando se coteja a sua prosa com a prosa camilesca, um tom de

subalternidade muito evidente.

Camilo já não tinha êsse labor. A sua prosa saía pronta. Fazia-se

no cérebro e a sua trasladação ao papel era um trabalho puramente

mecânico. Não emendava quási nada e possuia uma memória de ferro. E a

propósito de memória, um caso curioso: Contava o Teixeira, tipógrafo

da Cancela Vélha, que uma das vezes que se compunha uma obra de Camilo

sucedeu perder-se um quarto de original. Isto significava, alêm da

perda, o ter que aturar o génio de Camilo, demais tendo êle recomendado

a máxima cautela com os extravios, visto não haver cópia. Compôs-se

tudo a ver se aparecia, mas qual!... E não houve remédio senão contar

o caso ao autor, que ficou furioso mas prometeu ligar o espaço e

recompor aquilo de qualquer maneira. De memória recompôs o quarto e a

impressão fêz-se. Passam-se anos, e numa arrumação de oficina, o quarto

aparece. Confrontou-se por curiosidade e não se lhe achou diferença nem

duma vírgula!...

Henrique Marques, o autor da _Bibliografia Camiliana_, que me

referiu êste episódio, assegurou-me tambêm que as obras de Eça eram

primitivamente compostas em tipo vélho, isto que lho confessara

Genelioux, um dos sócios da casa editora. E só depois dele ter pôsto

o torturado e custoso «Pode imprimir tendo todo o cuidado com as

emendas», é que então definitivamente se compunham.

Não se julgue que êste tormento indefinível, esta ânsia da forma,

que lhe fazia sempre duvidar do que estava feito, era só nos seus

livros. Os seus artigos sofriam a mesma cousa. Os originais não são

nada, ou quási nada do que o público conhece. Entre o original e o

impresso existe por via de regra meia dúzia de provas fantásticas,

riscadas, entrelinhadas por emendas, parágrafos inteiramente mutilados

e substituidos, palavras alteradas, emendas feitas sôbre que colava

bocadinhos de papel com outras emendas, uma cousa, emfim, que deve ter

feito cabelos brancos a muito tipógrafo do seu tempo. Eu tive em meu

poder as últimas provas do _Adão e Eva no Paraizo_[4] e pude ver bem o

que assevero.[5]

[4] Prefácio ao Almanach Encyclopedico. A. M. Pereira. 1896--Pag.

XXI-LI.

[5] Reproduzido um dos graneis, nos Serões (Janeiro de 1907 Art. _Como

trabalham os nossos escritores_). Pertencem hoje ao jornalista e meu

ilustre amigo José Sarmento, que amabilíssimamente as cedeu.

Um dos seus livros dá um exemplo bem flagrante da preocupação do

estilo, que tão intensa é nele, e mostra a soma extraordinária de

paciência e de trabalho que lhe custavam as suas páginas. Êsse livro

é _O Crime do Padre Amaro_, que foi publicado de três maneiras

diferentes. E de tôdas as três vezes o estilo é outro e a acção se

modifica.

A primeira vez que _O Crime do Padre Amaro_ foi publicado foi em

1875, na _Revista Ocidental_. Em 1876 publicava-se pela segunda vez,

primeira em volume. (Tipografia Castro & Irmão). A esta edição, chamada

DEFINITIVA, escreveu Eça um prólogo justificativo:

«_O Crime do Padre Amaro_ foi escrito há quatro ou cinco anos, e desde

essa época esteve esquecido entre os meus papeis--como um esboço

informe e pouco aproveitável.

Crónicas imorais · 第 10 / 11 段