maduramente nesta pretendença. Deixem lá o outro. Palma Cavalão é
afinal quem a merece. A comissão que envide todos os seus bons esforços
e levante uma estátua ao «malogrado jornalista». Se a comissão não
souber quando ele floresceu, consulte _Os Maias_. Se, ao lê-los,
se não sentir tocada e não levantar o castiçal em nome da «pátria
reconhecida» então, decididamente, é que isto é um país de idiotas e de
refinadíssimos ingratos.
A tristeza profissional
Zamacois, escritor espanhol de muito talento, escreveu, algures, que
não conhecia «melancolia mais incurável, abatimento mais profundo,
nem declinar mais silenciosamente trágico, que o ocaso dos vélhos
actores». Não deveria ter dito assim. A melancolia dos vélhos actores
é a tristeza profissional e essa não a teem só os cómicos. Escritores,
jornalistas, pintores, todos os que vivem dragando o cérebro e a
imaginação, todos êsses sofrem dessa tristeza incurável, a mais
horrível, a mais intensa, a mais cruciante de tôdas as tristezas.
A tristeza profissional é uma cousa inexplicável. É o assalto de todos
os males do universo à criatura, porque não há lágrimas que ela não
chore, agonias que não passe, dúvidas que não tenha. É o inferno, o
inferno com todos os círculos da sua medonha expiação.
* * * * *
Imaginemos o martírio do comediante que envelheceu e se vê sem público.
É o martírio da cortezã que se vê sem adoradores. Ela todos os dias
ao espelho se vai gastando a olhar o embranquecer dos cabelos, o
aparecimento das rugas. A pele perde a pouco e pouco a sua macieza, a
carne torna-se mole, flácida, a bôca perde a airosidade da sua curva.
Os homens vão-se. As juras e os protestos de amor evaporam-se. Á roda
da criatura o gêlo sobe numa muralha que a isola do mundo. Imaginar
a tortura dessa mulher curvada sôbre os estragos que o tempo vai
fazendo, é imaginar a tortura do comediante curvado sôbre um passado
que se evaporou. Que resta dele? Nada. Recordações, o que é quási
nada. Cinza fria de apagado lume. As suas noites de glória, noites
de ovação, noites de triunfo, o que são? Ninguêm se lembra delas.
As suas criações, os seus fatos luxuosos de príncipes do acaso,
imperadores de horas, quem os recorda? Ter sido grande e cair de
repente no esquecimento é tão doloroso como ter sido rico, ter tido
trens, equipagens, mulheres, e de repente ter que esmolar uma côdea
para jantar. Mas o comediante é de todos o mais feliz. Foi vitoriado,
aclamado. A sua figura fêz bater o coração das mulheres e despertar
aplausos loucos nos dos homens. Foi feliz ao menos uma noite. E ter
sido feliz na vida ao menos uma noite...
A tristeza do comediante comparada com a tristeza do escritor nada
vale. A criatura que escreve não tem nunca consolações. O pior dos
seus inimigos, o que a mina, a destrói, é a Dúvida. Para escrever uma
página levava Flaubert uma semana. Eça sôbre o _Crime do Padre Amaro_
gastou um têrço da sua vida. Acreditam todavia que, ao fim de tanto
labor, êles poderam emfim descansar? Não, nunca! Depois da escrita,
recebe-se a crítica com sobressalto. Se as páginas causam ruído, uma
vaga consolação entra na alma da criatura. Mas é uma confiança firmada
no ar. Basta que um invejoso venha entornar a sua taça de insídia,
para que ela tenha logo torturas sem fim. No actor já ninguêm lhe pode
apontar os defeitos, ao passo que o pelourinho do escritor é a sua
obra. Envelhece e as suas páginas começam a tornar-se vélhas. Os que as
louvaram, porque tambêm as viveram, morreram uns, esqueceram-se outros.
E os novos veem, com a sua fúria iconoclasta, perturbar o sono aos
pobres esquecidos. Veem, irreverentes e selvagens, sem respeito pelos
nossos cabelos brancos, sem piedade pelas canseiras que tivemos, sem
se lembrarem de que tambêm hão-de envelhecer, dizer que a nossa obra
não vale um chavo, que nunca fomos moços, que nunca tivemos talento. E,
mofando, destroem assim o que de mais caro nos restará. A dúvida, que
já em novo nos perseguia a cada página feita, não nos larga mais.
É uma agonia pavorosa. Já não podemos ver os nossos livros sem horror.
E tão intenso é êste horror profissional, que Zola não tornava a ler os
seus livros depois de publicados e Flaubert os escondia no fundo das
gavetas para não mais tornar a vê-los.
Ter escrito belas páginas, ter gasto a vida curvado sôbre uma obra,
para que, no fim, o primeiro passante nos venha dizer que ela nada
vale, é triste. Creio que não há martírio maior. Zola, que na _Obra_
se autobiografou, rasga um bocado do que seja essa tragédia: «... o
trabalho apoderou-se-me da existência. Pouco a pouco roubou-me minha
mãe, minha mulher, tudo o que eu amo. É o gérmen lançado no crânio,
que devora o cérebro, que se apossa do tronco e dos membros, que róe o
corpo inteiro. Logo que salto do leito, de manhã, o trabalho agarra-me,
prega-me à minha mesa sem me deixar respirar uma lufada do grande ar;
depois segue-se o almôço; mastiga surdamente as minhas frases com o meu
pão; depois acompanha-me, se eu saio, põe-se a jantar no meu prato,
deita-se à noite no meu travesseiro, sem que eu possa deter nunca o
pensamento da obra entre mãos e cuja germinação continua até no fundo
do meu sono... Depois caio no sonambulismo das horas de imaginação,
nas indiferenças e nos desconchavos da minha ideia fixa. Tanto melhor,
se as páginas da manhã correrem bem, tanto pior se uma delas ficou
defeituosa! O rosto rirá ou chorará, segundo o belo prazer do trabalho
devorador... Fechei a porta do mundo por detrás de mim e lancei a chave
pela janela... Nada mais, nada mais no meu antro, do que o trabalho e
eu; êle devorar-me-há e depois não haverá mais nada, mais nada!
«As primeiras páginas ainda vão, mas depois, eis-me desanimado, nunca
satisfeito com a tarefa quotidiana, condenando já o livro entre mãos,
julgando-o inferior aos antecedentes, forjando-me torturas de palavras,
de frases, de páginas, chegando até as próprias vírgulas a parecerem-me
deformidades que me apoquentam. E quando está acabado, oh! quando
está acabado, que alívio! não é um gôzo do indivíduo que se exalta na
adoração do seu fruto, mas a praga do carrejão que deita abaixo o fardo
que lhe magoou o espinhaço... Depois aquilo recomeça; aquilo recomeçará
sempre; depois arrebentarei furioso contra mim próprio, exasperado
por não ter tido mais talento, enraivecido por não deixar uma obra
mais completa, mais elevada, livros sôbre livros, o empilhamento duma
montanha; e terei ao morrer a medonha dúvida do que fiz, perguntando-me
se aquilo estaria bem, se não devia ir antes para a esquerda quando
passei para a direita, e a minha última palavra, o meu último estertor
será para querer fazer tudo de novo...»
Tal foi a agonia de Zola. A dos outros foi uma agonia inconfessável,
uma tortura que com êles se sepultou na Morte. ¿Onde existe pois maior
tristeza do que esta? A tristeza do escritor, que um dia acreditou
na sua obra e entra com êle o gusano da dúvida, não tem _pendant_
na terra senão a do romântico que amou loucamente uma criatura que
o atraiçoou--pobre banabóia que acreditou no Amor--ou a dos crentes
que esperam no outro mundo ter a recompensa de todos os terrenos
sofrimentos. Deve ser igual a esta a careta dêstes últimos, quando no
limiar da morte se certificarem de que, ali, bons e maus são todos
ossos, vermes, podridão e que não há bodo para os bons, nem caldeira
para os maus.
Agora, pense-se na tristeza dos vélhos embarcadiços que o reumatismo
prende em terra! A saudade dos longes de água, da amplidão, dos
desertos sem fim, movediços e espumantes! Pense-se na tristeza dos
caçadores a quem a velhice entropega as pernas e já não podem ir por
montes e valados atrás da fugitiva e almejada presa! Pense-se em mil
outras tristezas, que são mais própriamente tristezas profissionais.
Pensem e digam-me se conhecem tristeza mais triste, amargura maior, dôr
mais cruciante...
Eu não creio que haja. Não creio, e penso às vezes com horror no
tormento indefinível e infindável da dúvida perpétua. Mata-se uma
criatura a suar, a ralar-se e para quê? Para que outros venham, tambêm
ingénuos e moços como nós fomos, alimentar o fogo em que lentamente se
hão-de devorar. Ser grande, ser glorioso, para que depois se duvide,
ser amado para que se seja esquecido, ser iludido para ser depois
desenganado. E como se não bastasse já a mágua de nossas próprias
vidas, ainda é sina acendermos por nossas mãos a chama que na velhice
nos há-de queimar a fogo lento.
A morte
Penso às vezes na Morte com devoção. Nestes dias, em que o sol quente
não chega a dar calor que abrase, penso em quanto será bom estar sob o
lençol de terra, inerte, estendido de papo para o ar, sem apoquentações
e sem cuidados! Penso e quási que os invejo--aos mortos. Êles devem
estar bem consolados, como caminheiros cansados que alfim encontraram
pouso. Ao passo que nós, os vivos, arrastaremos eternamente o nosso
tédio e as nossas amarguras, aos baldões por essa vida fora, raro
encontrando uma criatura que nos compreenda, sem afeições e sem
carinhos, como um vaso feio em que as plantas não chegam nunca a
florir. Como eu invejo, nesses dias, os mortos!
Deve ser consolador esta ideia! Não scismar,--e é o scismar que mata
os homens. Não sonhar--e é o sonho que os infelicita. Saber que nem
céu nem inferno nos espera, mas o tranqùilo sono da podridão. Corações
que batestes, o vosso amor era pó. Pó, sómente, terra, cousa nenhuma.
Cérebros que pensastes, o vosso labor quão fátuo foi. Homens de génio,
mulheres olímpicas, estátuas de carne, soberanas do Desejo, raínhas,
cortezãs, imperatrizes. Nada na Morte as distancia. Que tesouro enorme,
que avalanche de cousas divinas a morte não guarda no seu seio!
Penso na morte com devoção! Penso na morte quanto mais lido com
os homens e quanto mais conheço as mulheres. Os homens «são como
aquele pedaço de gêlo que o Árabe, julgando ser um diamante, guardou
cuidadosamente no seu alforje. Quando o procurou nem ao menos uma
gota de água pôde achar.» As mulheres... as mulheres são uma taça.
Metade fel, metade mel. Ninguêm procure todavia o mel. Nunca ninguêm o
encontrou. Jamais alguêm o encontrará.
Estima, afeição, amor, sinceridade, dedicação, amizade, que belas e
mentirosas máscaras. Belas porque, para a criatura que cegamente crê,
tudo é belo. Mentirosas, porque tudo é mentira na vida, tudo, excepto
a morte. É a morte a única verdade. E pensar em como a vida seria
um doloroso escárnio, uma insustentável cousa, se até a morte fôsse
mentira! Mas não. Quem um dia transpôs essa porta, que só se abre para
lá, não mais sofreu. Maltrapilhos, nababos, _lords_ e senhores, párias
e fidalgos, todos lá serão esquecidos, irremediávelmente. É a única
porta que se abre igualmente aos que vão vestidos de sêda e aos que
vão vestidos de burel; aos que vão vestidos de ilusão e aos que vão
desenganados. E nunca a ela esperam nem sequer os que vão nus.
Penso muitas vezes na morte e com alegria até.
Creio que é ela a única fôrça da vida. Porque, cansado de lutar,
exausto, assediado por tudo, eu tenho nela a retirada, exactamente como
a pedra girante do _Noventa e três_, de Vítor Hugo. Ora lutar, viver,
cansar, sem uma porta para a retirada era uma cousa trágica. Foi por
isso que o Destino, êsse Destino de que os árabes dizem «que conduz os
cavalos pela noite», se encarregou de colocar atrás de cada combatente
a porta para a fuga.
Por detrás dela cessam tôdas as distinções.
Não há já Carlos I nem Buíça. Não há já rei, nem professor; nem
carabina, nem alvo. Há dois esqueletos só. Restos derradeiros de dois
combatentes.
Nada mais.
A leitura dos jornais radicou-me no espírito esta cousa absoluta,--que
é bem fácil morrer. Tão fácil, como difícil é saber morrer. Ou antes,
morrer a tempo. Morrer a tempo não é «morrer moço», como quere êsse
artista mago do verso que é Lopes-Vieira. Não é morrer em combate
sem conhecer o triunfo e sem conhecer a derrota. Morrer a tempo é
morrer exactamente como Mousinho de Albuquerque. É morrer de monóculo
e casaca, como aquele milionário inglês que, no Cabo, se deitou ao
oceano, talvez por _spleen_. É morrer como Antero. É morrer como
Nerval. É morrer como morrem muitos de que as crónicas não rezam, nem a
História fala.
Não há ninguém que não tenha, ao menos uma vez na vida, pensado
na Morte com amor. Porque a morte não é uma cousa terrível, é uma
deliciosa criatura que nos espera ao fim da vida para nos indemnizar de
tôda a maldade dela. E só assim eu compreendo a Morte--não ser senão
para os que tivessem sofrido. Os felizes não precisam de morte. Quem
é feliz não tem direito à morte. E cousa que me irrita é esta. É que,
sendo a morte a maior das delícias da vida, ela seja igualmente para
mim e para o meu vizinho. Para mim que a vou merecendo e para o meu
vizinho, anafado e feliz, que está bem longe de a ela ter direito. É a
minha única inveja. Considerar que os outros teem que morrer como eu!
Quando o meu desejo seria que êles vivessem, exactamente como o desejo
do Ursus, de Hugo, que entendia que o maior mal que podia fazer ao seu
semelhante era ajudá-lo e protegê-lo... para que vivesse.
Morrer! Morrer é bom. Vós todos que me escutais sabei isto. Que a morte
é como o Diabo. Nunca tão feia como a pintam. Alêm disso, imaginai uma
criatura condenada a viver. A viver como as catedrais dos tempos que
já não lembram. A viver como a rocha que o tempo não conseguiu puir. A
viver muito, a viver uma eternidade. Que maior pena, que maior degredo
se lhe poderia dar! A criatura chegaria a ponto de ter que fugir.
Escolheria para isso o suicídio. Mas a porta não se abriria para ela.
Implacávelmente fechada, eternamente fechada. Seria uma tragédia bem
horrível.
Ás noites, nas minhas noites de insónia, em que o cérebro é um novelo
de fio, que o pensamento vai puxando sem nunca conseguir chegar ao fim,
penso neste tormento indefinível. E quedo-me de horror!
Foi talvez por esta razão que aquele bonzo ou aquele sacerdote
respondeu ao pária que, numa estrada, o interrogou sôbre o destino que
havia de dar à pesada carga que levava.
Mas eu conto a história. Vem em Maxime du Camp:
Um brâmane estava um dia sentado à beira dum rio. Um escravo abanava-o
com um leque sumptuoso, emquanto outro lhe prodigalizava a sua infusão
aromática. A seus pés um caminho seguia onde os passantes se curvavam
em adoração. E um homem que vinha curvado ao peso duma carga enorme,
ofegante e exausto, disse: «Oh! brâmane! como és feliz em poder
repousar à sombra!»
O brâmane olímpico respondeu:
«Cão, filho de cão, segue o teu caminho!» E como o miserável
insistisse, o sacerdote de Wichnu redarguiu molestado: «Fala depressa
então!»
«Estava na minha aldeia dormindo--começou êle--à sombra do pagode
de Saraswati, quando um desconhecido que passava me despertou com
brutalidade para me pôr esta pesada carga aos ombros, ordenando-me que
caminhasse, até o encontrar. Estou cansado. Há três dias que caminho
e não vejo o homem. Que devo fazer?» O sacerdote então interrogou:
«Pagou-te adiantado?» e ao ouvir a resposta negativa, o brâmane,
considerando na fadiga do pária, volveu solene:
«Não sabes a quem pertence o fardo, nem a quem o entregar! Não sabes o
que contêm. Sabes apenas que é superior às tuas fôrças! Pois bem. Larga
o fardo e vai-te».
É por isso, por êste fardo que se chama Vida resultar para alguns tão
pesado, que êles o largam e se vão embora.
Poetas
A poesia é morta. Quási já não há poetas. E é curioso isto. ¡A poesia
quási a extinguir-se num país de poetas! Portugal mais do que nenhum é
por excelência o país dos poetas, se sinonimarmos neste têrmo todos os
que publicam o seu livrinho de versos, embora às vezes sem dez réis de
poesia.
¿Quantos livros de versos se publicam anualmente em Portugal? Aqui está
uma estatística impossível. São inúmeros, são infinitos. Não há vilão,
que meta um pé nas letras, que não diga dos seus amores, dos seus
calos, das estrelas que vê ao meio dia, dos cabelos d_Ela_, dos olhos
d_Ela_, em duzentas páginas, em cento e cincoenta, em cem, em vinte, ou
dez ou cinco, pelo menos. O português vê-se obrigado a fazer um livro
de versos. É fatal. Três cousas são indispensáveis ao cidadão: Ser
vacinado, ir às sortes, e publicar o tal, o livrito de versos. Daí a
morte da poesia, debaixo duma tão grande avalanche de poetas.
A poesia tende a desaparecer. Porquê? Porque já passou o tempo dos
poetas. Mas dir-me-hão, ¿o tempo dos músicos, dos escultores, dos
prosadores, de todos os que emfim vivem só para a Arte? O dêsses não
tarda a passar. ¡As multidões egoismadas querem lá saber da Arte!
¿Que teem as multidões com isso? Absorta na sua luta pela vida, em
lançar os gadanhos em arpéu o mais alêm que possa, a criatura dispensa
perfeitamente a Arte. Pois se a vida de cada um é uma tragédia, inútil
é demorar-se a ver a tragédia dos outros. Arte é um contrapêso inútil.
E a prova, a prova fatal de que a Arte é um aleijão na vida das
sociedades, uma demência, uma tara demoníaca e soturna, está em que,
em todos os tempos, a multidão deixou morrer à fome os seus maiores
artistas e vestiu de brocado e holanda fina os seus maiores ladrões.
A época é de prosa vil, bem vil por sinal. O verso antigamente era
indispensável. Hoje não. Antigamente, para pedir cinco tostões
emprestados, requeria-se em verso. Camões requereu galinhas.
«Cinco galinhas e meia
Deve o senhor de Cascais.»
Hoje pedem-se cinco tostões duma maneira!... Tambêm se agradecia em
verso. Agora não. Os pobres às portas dos mosteiros cantavam. Agora
quem canta vai preso, se é na rua e provoca ajuntamento; se é em casa
pode cantar à vontade, que não ganha mais por isso. Até o ditado, o
vélho ditado que não falha nunca, nos aconselha que não nos fiemos em
cantigas, depois da razão, matrona experiente e sogra da fantasia,
nos ter dito que não é delas que a gente vive. E para verem como tudo
mudou, hão de ter cotejado muitas vezes isto: o agradecimento que era
antigamente em verso, que é sempre uma maneira bonita de agradecer,
tomou pelo andar dos séculos a forma de prosa--o couce--que é tambêm
prosa e não das menos agressivas.
Ora vão ver como o verso desempenhou um papel importante na vida dos
homens: Um indivíduo queria comer, pedia em verso; queria catrapiscar
uns olhos bonitos e tomar uma barrigada de doce, ia aos outeiros;
queria vingar-se dum mágico qualquer--zás, aí vai sátira; se queria
fazer política, era «rei chegou, rei fugiu...» que não havia surdo que
não ensurdecesse outra vez. E não havia lambão que não fôsse saciado,
amoroso que não fôsse farto, guloso que não fôsse enjoado, odiento que
não ficasse contente, e político que não desabafasse na cantata.
Vão lá agora com cantigas!... Nem pitança, nem mulher, nem bolos, nem
desabafos. O verso decididamente já não presta para nada, pois para
nada é útil.
Os editores não dão nada por um livro de versos. Não sei se conhecem,
ou se se lembram daquele editor, Dauriat, o Dauriat das _Ilusões
Perdidas_, de Balzac, que recomendava ao Gabusson--chamava-se Gabusson
o caixeiro:--«A todo e qualquer que venha oferecer manuscriptos,
pergunte-lhe se é verso ou prosa. Se fôr verso, ponha-o logo a andar.
Estes poetas são a perdição dos editores!» Isto no tempo de Balzac,
vejam os senhores!
Prosa, tudo prosa. Nada mais existe do que a prosa. E que seja bem
fresca, catita, com meias abertas para se ver as pernas, hein! Senão,
nada feito.
Tambêm a prosa começa a estar pela hora da morte. O que se vende não
é a _Ressurreição_ nem as _Memórias do Príncipe Kropotkine_, nem a
_História de Portugal_ do Herculano. O que se vende é a _Tuberculose
Social_ pela pornografia, não pela parte documental, os livros
franceses que trazem estampas do nu, e pouco mais.
Tudo isto está desabante. Não há poetas, não há artistas, nem
prosadores, nem músicos, nem dramaturgos, visto que tôdas as formas
de arte tomaram um papel secundário na vida do homem de hoje. Que o
homem está descendo, isto é, que o homem se está aproximando da Vida,
e a Vida não é senão brutalidade, não há dúvida, porque à medida que é
menor o número de criaturas intelectuais, é maior o número de gatunos
de carteiras e burlões professos.
Que está desabante não resta dúvida pois. E se buscarmos a razão
disso, acharemos recônditamente, pelo menos no que se refere aos
poetas, que, sendo o poeta uma criatura cheia de sonhos, de utopias,
cheia de bondade, mixto de super-homem e super-fêmea,--o verdadeiro
poeta,--essas criaturas vão rareando a pouco e pouco, e a pouco e pouco
se extinguirão, para se tornarem lembradas na memória dos vélhos, senão
lendárias na fantasia dos novos.
Nós assistimos aos últimos poetas. E agora, que restam sete ou oito,
dez ou doze, ou quantos são, náufragos da poesia sôbre o oceano enorme
das ambições humanas, do ódio, da indiferença e da cólera humana,
justo é que se lhes reze o responso final, e se admire a persistência
dos que, como capitães heróicos, vão ao fundo sem abandonar o seu
ideal, um triste ideal na verdade. ¿Pois não é triste escrever cousas
que ninguêm lerá, para que todos teem olhos indiferentes e o coração
endurecido?
¿Tocar sem que ninguêm escute, gastar a vida sem que a ninguêm
aproveite, e para quê? Há já tanto poeta, tanto! ¿Que resta ao fim de
séculos dum poeta? Um nome, nada mais. ¿E quantas vezes, na lápide que
êsse nome grava, o sol não veio bater até o comer de todo, o apagar,
o sumir no olvido de sempre? Depois, essa lápide é como a memória das
gentes: uma pedra branca, nada mais.
Vão-se os poetas, mau sinal. Ainda os que restam formam quadrado, novos
granadeiros em Waterloo, mas debalde. Quando sucumbirem, não virão
outros tomar o logar dêstes. Estamos no fim.
O poeta de há muito tendia a desaparecer. ¿A vida é luta, não é
verdade? Mas luta de hipocrisias em que os maus vencem e os bons
sucumbem. ¿Nestas condições, que há de o poeta cantar? ¿A hipocrisia, o
mal vencedor e tirano, a astúcia esmagando com o seu coturno de sêda o
arnez brunido da fôrça? Não.
Vão-se-lhe os motivos. O poeta já cá não tem nada que fazer. Já não há
que cantar, cala-se o cantor. É o caso.
A poesia tem que render-se. É como rainha exilada sem reino e
sem vassalos. Todos a abandonaram. Só um ou outro dedicado, fiel,
intemeratamente fiel, fiel até ao sacrifício, espera e morre como êsse
Eliseu Méraut de _Les Rois en exil_ de Daudet, crendo ainda e bradando
no limiar da Morte um último viva a uma soberania que morreu à muito.
E eram, afinal, tão interessantes, os poetas.
O Tempo
Representavam os antigos, o Tempo por um velhote de barba branca... Não
é com isto positivamente que eu queria começar. O _Tempo_ era um jornal
de José Dias Ferreira, e _Tempo_ se chama um jornal inglês de que os
inglêses dizem que é o maior do mundo. Será. Mas para bem informar os
leitores cumpre-me dizer-lhes que se é ou não, não sei. Nunca o li. À
uma, dizem que é muito maçador, muito grave, tão grave que até parece
feito por juízes do Supremo; à outra, eu não sei o inglês. Talvez
isto pareça ignorância. Pois não é. Aí está o Marquês de Pombal, que,
vivendo um ror de anos em Inglaterra, nunca passou do _Yes_, do artigo
_The_ e dos verbos _to be_ e _to have_.
Mas do Tempo diz o Padre António Vieira que «tudo cura, tudo faz
esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba». Não há soberano que
tanto poder tenha como êle. A própria Morte é da sua côrte e sua
subalterna. «Nada se faz sem tempo», diz-se. Tudo o tempo acaba,
direi. Assim, temos, que o tempo faz e desfaz, cria e destrói, forma e
arruína. As fortunas gastam-se, a formosura envelhece, a sorte muda,
os anos passam, os dias voam e a morte chega. As flores murcham, as
ilusões caem, as esperanças dissipam-se, os amores esquecem e de tudo
só ficou o Tempo, sombra de tempo, memória de tempo, que até a própria
memória o tempo apaga e confunde!
A sabedoria de Salomão, a bondade de Cristo, a dignidade de Catão, a
valentia de Cesar e o amor de Jacob, são do tempo. O tempo é que as
lembra, o tempo é que as esquece. O tempo é o maior amigo, o tempo é o
maior inimigo. Porque se tudo traz, tudo leva; porque se tudo aproxima,
tudo afasta; porque se tudo nos dá, tudo nos tira.
Ama-se uma mulher que nos ama. O tempo passa e em breve a sua beleza
será fealdade; a sua mocidade será velhice. Culpa de quem? Do tempo.
Ama-se uma mulher que nos despreza. Em breve o tempo levará os seus
adoradores e transformará as suas faces em rugas e os seus beijos
em flores sêcas. O tempo nos trouxe o castigo, o tempo nos deu
satisfação. As rosas murcham, e não há grande obra que não esqueça.