Mas é dum livro que se trata. Mercedes Blasco, actriz e escritora,

acaba de publicar as suas _Memórias_, quási ao mesmo tempo em que Sarah

Bernhardt publica as dela e Júlia Fons em Hespanha, sorrindo, nos

mostra a capa do seu _Lo que yo pienso_, ao mesmo tempo que sorrindo

tambêm nos pede pelos seus pensamentos duas pesetas. Não me admirei

nada de que Sarah publicasse _Memórias_. Apesar da enormidade da maçada

que elas são, e do volume, achei até que ela deva ter ainda muito que

contar. Mas admirei-me tanto da Fons ter pensamentos, como da Mercedes

ter _Memórias_. As memórias são dos vélhos. Ora não sendo Mercedes

vélha, não podia ter _Memórias_. Ou a lógica era uma cantata. E era.

Mercedes é nova e tem memórias. E bem interessantes que elas são, ainda

que a muitos peze.

Confesso que sentira tambêm «ao boato de publicação do livro» um

«aperto de coração». Não houve motivo para isso. O livro dessa

criatura, cuja figura Silva Pinto tão bem silhuetou--essa «_Mercedes_

que tão bem oculta, sob uns exteriores de gentil frivolidade, a mais

fina sensibilidade, a lealdade mais correcta e a mais impressiva alma

de artista--na elevada e luminosa esfera da arte pura»--é um grande

livro.

É um volume curiosíssimo, escrito invejávelmente num estilo de

ideal simplicidade, numa prosa que tem o encanto duma espirituosa

conversação. Nenhum esfôrço, nenhuma tortura ela apresenta. Essa

simplicidade da prosa, correndo como a água dos regatos, que é o ideal

de todo o artista; essa simplicidade, que foi a grande tortura do

autor das _Viagens na minha terra_, e que fêz os cabelos brancos ao

autor da _Madame Bovary_ e ao Daudet da _Sapho_, encontra-se no livro

desta travêssa criatura, senhora da prosa, de dois olhos terríveis,

abismais, duma cabeleira agarotada e dum corpo de boneca voluptuosa.

É o livro mais curioso dos últimos anos, e então curioso como nenhum,

se considerarmos que raras são as criaturas de teatro, em Portugal,

capazes de alinhavar um livro de memórias. Quer como subsídio para

a história do teatro nacional, quer como obra literária, quer como

documento íntimo para o estudo duma alma e duma vida, êle é um

trabalho absolutamente inédito, completo e modelar. Como arte, as

suas descrições maravilhosas, o aroma das suas páginas, a flagrância

das suas scenas, a intensidade dos seus momentos passionais e a sua

travessura inquietante, revelam-nos obra da grande artista que é

Mercedes,--uma artista gloriosa e privilegiada, cheia de talento, de

graça, de originalidade e de imprevisto.

No teatro tem Mercedes Blasco o seu logar marcado entre as nossas

primeiras actrizes; se me objectarem que a opereta, de que ela

é a nossa primeira figura, é um género inferior, eu redarguirei

parafraseando Teófilo Gauthier, que dizia que em literatura não havia

géneros inferiores mas sim escritores inábeis:--No teatro não há

géneros inferiores, o que há é artistas que o são e artistas que o não

foram, não são, nem serão nunca.

Se ela, em logar de enveredar pelo caminho do _couplet_, tem tomado

pelo caminho do drama, seria hoje uma extraordinária actriz dramática.

Pela sua intensidade de sentir, pela extraordinária vibratilidade dos

seus nervos, onde parece que existem amassadas tôdas as loucuras, tôdas

as paixões, tôdas as bondades e tôdas as emoções humanas, e pelo seu

modo de ser artista, tão probo e tão grande que a obriga a dispensar

aos papeis de galhofa que tem feito todos os seus cuidados e lhe faz

sentir em cada noite de _estreno_ a intranqùilidade artística que

acometia o Bongrand da _Obra_ de Zola diante de cada quadro novo.

A razão porque esta criatura é guerreada numa guerra surda feita de

picuínhas irritantes, não a explico. Vieira diz que «um grande delito

muitas vezes achou piedade, mas nunca a um grande merecimento faltou

inveja». E aí está como o padre António Vieira explicou. É essa a razão.

Mercedes Blasco nasceu actriz. Nasceu actriz, como Gomes Leal nasceu

poeta e Gavarni, caricaturista. O teatro foi a sua quimera, o seu

deslumbramento. Ela julgou sempre que no teatro se fizesse teatro,

quando ali sómente se faz pela vida. O desengano veio breve. Ela hoje

sabe bem que «tudo ali é falso: o beijo das amigas, os galanteios dos

apaixonados e os protestos dos amigos, que desaparecem mal supõem que

podemos precisar deles». Disse-o nesse esplêndido e impecável trecho de

prosa, que é a sua _Carta aberta_, em tempos publicado. Acreditou no

amor e afinal não encontrou no seu caminho mais do que gozadores banais

e ressêcos egoístas. Hoje tem perdidas as ilusões, o que não admira,

pois tôda a sua vida tem sido a epopeia do desengano. Restam-lhe dois

filhos dessa travessia. É deles que a sua alma está cheia, porque

é sôbre o seu berço que ela se tem visto forçada a afugentar as

lágrimas, servindo-se da sua linda voz, para, nas ocasiões de maior

tristeza,--triste ironia do Destino--os adormecer, cantando-lhes alguma

bela serenata napolitana, das suas noites de glória.

Noutro meio, noutro meio onde as criaturas que teem algo para dizer são

escutadas com amor, Mercedes teria uma fortuna. Poderia fazer loucuras

sarahbernhardthescas. Aqui a sua fortuna não é para que a invejem. Eu

admiro-a e admiro a bondade com que ela indulgencia as torpezas que

a calúnia vulga e borda, a energia e a vontade com que ela combate,

desamparada de todo o auxílio, e o seu talento de escritora que tudo

originaliza, que a tudo empresta vida e nos deu êste livro de memórias.

As _Memórias duma actriz_, ora publicado, é o livro das suas paixões,

dos seus triunfos. É o livro da actriz. Mas, exactamente como Guerra

Junqueiro dizia de João Penha, Mercedes deve ter outro: o livro das

suas lutas, das suas agonias, dos seus desânimos; o livro da mulher. O

que êsse livro seria, dada a sua hiper-sensibilidade e o encanto íntimo

da sua prosa, nem eu sei dizer-lhes. Seria espantoso, em verdade, se

ela arrancasse a máscara e nos viesse contar a história dos seus dias,

o sabor dos seus momentos amargos, os sobressaltos do seu sono, a

inquietação das suas horas, a guerra de insídia, de calúnia, de inveja

que se tem feito à sua roda; se ela nos dissesse os _porquês_ e as

_causas_ de muita história reticenciada, ou que no seu livro publicado

só se lê nas entrelinhas.

A verdadeira Mercedes não é a que conhecemos das _Memórias_,

sublinhando gaiatamente uma cançoneta, cheia de rapazices adoráveis e

publicando cartas de amor para mostrar que nunca amou. A verdadeira

está por detrás da máscara desta chorando. Se às vezes lhe vem

espreitar aos olhos, quando sucede entristecerem, é sómente pelo geito

que teem os comediantes de vir olhar pelos óculos do pano de bôca.

A Mercedes das _Memórias_ é a actriz. Certo é que, aqui e alêm, a

caracterização deixa ver a mulher. Mas logo, num geito, ela recompõe a

máscara--que tem o público com as suas tristezas!--e aí a temos outra

vez a rir maliciosa, com aqueles dois olhos, que são enormes, que são

profundos e em que por vezes parece cachoar, revolver e estorcer-se uma

labareda criminosa.

Certo estou de que as suas _Memórias_ encontraram em cada leitor um

espectador deliciado e ávido; o outro livro encontraria, em cada,

um coração. E por isso é que, se tenho pela Mercedes das _Memórias_

sómente uma curiosidade agaçante, tenho pela outra uma devoção

profunda, um infinito amor. Com esta deplorável mania de tragediar

tudo, até as cousas que não teem tragédia, eu vejo em Mercedes Blasco

uma criatura a quem tem pontapizado o orgulho, estrangulado a ambição.

Não ha vileza que lhe não tenham assacado, intriga em que a não tenham

envolvido. Julgo que tenha chorado muito, mas para dentro, não fôssem

as lágrimas deixar-lhe sulcos na pele. Só o martírio, o martírio

infinito de recompor a máscara tôdas as manhãs, não vá a gente com o

espectáculo da nossa dôr dar prémios gordos de alegria aos safardanas

que nos espiam e nos invejam!...

Se cada homem ou cada criatura soubesse fazer um livro, um diário da

sua dôr, quando não soubesse fazer dela um poema como queria Goethe,

a vida resultaria inaturável. Tôda a gente tem em si a sua tragédia,

disse Sienkiewicz. Pois bem. Mercedes, escrevendo o livro da sua

tragédia, teria feito o livro mais humanamente intenso, mais doloroso

e mais interessante que se poderia escrever. Teria concorrido para

se desvendar a vida de aparências que todos somos obrigados a viver.

E então, ah, então, veriam os que nos invejam, que as aparências não

são mais do que as máscaras de que nos servimos, comediantes, para que

ninguêm saiba a mágua que nos consome.

Um seria o livro da cómica. Outro o livro da trágica. O livro de

aparências e o livro de realidades. Então ver-se-ia como um completaria

o outro. Porque se as _Memórias_ são para o público, o outro seria

para seus filhos, «o maior e único amor do seu coração». E seria o

maior legado que lhes poderia deixar no dia em que a Morte viesse

cerrar-lhe os olhos piedosamente, porque a Morte é o pano de ferro que

inevitávelmente correrá sôbre a tragédia e a comédia de nossas vidas.

A Deliciosa Mentira

Tomando uma pitada de simonte, e sacando do bôlso o lençolesco e

portuguesíssimo tabaqueiro de Alcobaça, ao ser-lhe perguntado qual era

optável, se uma mentira deliciosa, se uma terrivel e forte verdade, o

padre engatilhou logo o seu eterno e favorito: _Distinguo_. Explicou;

e, como a mentira deliciosa era o Amor, perguntaram-lhe após o que

faria se se visse perseguido por uma mulher bonita. Esteve o tonsurado

um momento suspenso e ardilosamente se esquivou, citando, entre outra

pitada e uma fungadela, a resposta de S. Tomaz d’Aquino: «o que eu

devia fazer, sei: mas o que eu faria, só Deus o sabe».

Isto se passou em tempo de frades, porque tambêm os frades amaram.

O amor é vélho como a maldade e forte como aí qualquer teia de

aranha. Não resconstituo o sítio. O leitor, compulsando a _História

de S. Domingos_, o fantasiará à sua vontade. É até mais bonito.

Não pictorizo a indumentária, nem com enxundiosas côres me permito

ressuscitar as figuras. Basta de patranhosa inventiva. Só no recontar

da história pus, como o leitor vê, uma discreta referência ao lenço de

Alcobaça--reclame úrgico à indústria nacional em crise.

Creio que, depois, a conversa se generalizou. E, como a sabatina

ameaçasse eternizar-se, logo um frei noviço propoz, para desempate, que

se consultasse os mestres.

O frade, pitadeando gravemente, aduziu razões, carretou argumentos,

fulminou sabenças e confundiu os adversários. Santo Agostinho, S. Isto,

S. Aquilo, foram chamados a capítulo e até basta cópia de autores

gentílicos vieram provar ser o Amor cousa nefanda e temerosa. E, depois

de ter aduzido, carretado, fulminado e confundido, o padre resumiu que

se guardassem de amar. O amor é o mal e o amar o inferno. Com outra

erudita pitada os despediu, e vélhos e novos recolheram às suas celas

vencidos, mas não convencidos. Que, não sei se convencido iria tambêm o

fradinho cheirador.

Parou a discussão aí por alturas do século passado. Já os

controversistas estão feitos em pó--pó caído, diz Vieira--dentro do

pó dos seus hábitos. Mas eu, que mais com os mortos vivo do que privo

com os vivos, ressuscito o claustro pleno e entro na discussão. Trago

tambêm os meus anátemas e argumento com autores modernos. Concordo

plenamente com o frade e se venho é porque a turba parece rebelde, e

disposta a ceder. Oh! as freiras! O _eterno feminino_...

* * * * *

Mentira deliciosa, o Amor é a mais mentirosa das mentiras. Anacreonte

conta que, uma noite em que se albergaram juntos o Amor e a Morte,

ambos armados com suas setas e aljava, de ouro as do Amor, de ferro as

da Morte, ao levantar, como ainda fôsse escuro, as aljavas se trocaram.

«Daqui vem que, dali por diante, como o Amor trouxesse as setas da

Morte, as suas feridas foram mortais». Considerai pois que as suas

feridas são mortais.

¿E vale a pena amar? Não, não vale. O amor não é dêste mundo e isso que

vós julgais amor é mera ilusão dos sentidos, fátuo deslumbramento dos

olhos, passageiro encanto dos ouvidos. «É quimera, é mentira, é engano,

é uma doença da imaginação, e por isso basta para ser tormento», diz

Vieira. Eu concluirei que, se o cuidais um paraíso, olhai que tambêm

tem um purgatório. E afinal não é sempre senão caminho para o inferno.

O amor tem tambêm o seu inferno, e onde há, como no outro, o perpétuo

ringir de dentes--_stridor dentium_--que é, dizem, o ciúme.

Alêm disso, de que vale iludir-vos? «Pinta-se o Amor sempre menino,

porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à

idade de uso de razão. Usar de razão, e amar, são duas cousas que não

se juntam». Mas novo ou vélho, ela linda como estátua ideal ou doce

como uma carta de amor, nunca o amor vale o afecto que se ponha nele.

É um ruim companheiro, o amor. Tira o tempo, gasta o dinheiro, aumenta

os cuidados, muda as intenções, inimiza os amigos, semeia ódios, leva

a vinganças, muda, transforma, arrasa e nada nos dá. Ainda se alguma

cousa de bom deixa, isso não é mais que uma saudade, o cilício da

imaginação.

Mas remédio para tamanho mal, perguntarão? Quatro são conhecidos e

êsses os disse, púlpito abaixo, o nosso padre António Vieira: o tempo,

a ausência, a ingratidão e, sôbre tudo, o mudar de objecto. «Dizem que

um amor com outro se paga, e o mais certo é, que um amor com outro

se apaga». O tempo o esvaece. Como um perfume, como uma recordação,

como uma flor cara, o tempo o faz desaparecer; como na morte, longe

da vista, longe do coração, a ausência faz seu efeito, a ingratidão o

faz mudar de objecto, e o mudar de objecto apagar de todo. Um amor com

outro amor se apaga, lembrai-vos!

De resto, o amor é um aleijão comum, um mal secreto, de que todos se

sentem e poucos se queixam. Para ser feliz, não amar é tudo. A vacina

do amor é a indiferença. O amor é um mal de raça. Urge combater êsse

mal. Abel Botelho diz que o amor actual ou é «hipocrisia, ou cálculo,

ou simonia, ou deboche» e disso não vou longe.

Oh! o amor! Padecem disso as crianças e os poetas. Os outros... os

outros são os felizes. Vale pois muito mais ser feliz. Irmãos! Rezai

pois um _pater-noster_ pelos inocentes, porque não sabem o que é amor,

e outro pelos poetas, porque o são. _Pater noster_...

* * * * *

É o amor adversário perigoso. Não se lhe deve dar combate. Napoleão, o

maior capitão do seu tempo, opina, que no «amor a grande vitória é a

retirada». Combatê-lo é uma tontaria. Evitai-o, evitai-o sempre. Quem

um dia amou um dia foi vencido.

¿Lembram-se da _Notre Dame_, de Hugo? ¿Lembram-se de Jehan Frollo, o

estudante, no assalto à catedral? O estudante foi ao combate carregado

de armas. Por véste uma armadura, por defesa uma bésta, uma espada,

punhais, um arsenal. Dir-se-ia invencível, não é verdade?

Subiu a escada, entrou na galeria. Quasímodo mal o viu, ocupado como

estava em balancear a escada, apinhada de escalantes. Quando se voltou,

dum salto achatou-lhe a armadura contra a parede. Tirou-lhe uma por

uma as peças da sua casca de ferro; a espada, os punhais, o capacete,

a couraça, os braçais. Depois, com uma só mão, agarrou nele pelos

pés e volteou-o no abismo. Do cavaleiro de antes viram as turbas um

cadáver, quebrado em dois, o crânio vazio, suspenso de uma saliência da

arquitectura da catedral.

O amor é Quasímodo, o sineiro, porque o sineiro fêz como o amor.

Despojou primeiro, e só depois é que deu a morte. Primeiro expoliou,

depois arremessou ao abismo. É assim sempre. E como amor é Quasímodo,

guardai-vos de o procurar, para que não vos suceda o mesmo que a êsse

inditoso Jehan Frollo.

O amor é o pior dos males. Que nos deixa êle? «Ridículo, amarguras, ou

nada...» responde Octávio Mirbeau. «Que loucura terrível que é o amor!

No fundo é sempre triste», continua.

Não amem nunca, ouvem! Sendo o amor um negócio, «quem é generoso é mau

comerciante». Nada de ilusões. Nada de amores. Mulheres nunca uma. Uma

é perigoso. Se fôram forçados a amar, porque o amor é uma doença como o

sarampo ou como a meningite, repartam-se em pequenos quinhões.

Quem teve um só amor na vida foi desgraçado. É ver a história de todos

os livros de amor. Quem muitos teve, não amou nada. Quem amou uma foi

infeliz, quem amou cento viveu satisfeito. Reza um assento da Tôrre do

Tombo, que pelos anos de 1220, o padre Fernando da Costa, presbítero

do hábito de S. Pedro, prior da Egreja de Tarouca, pedira perdão a

el-rei D. Afonso III por se julgar ter dormido com «sete irmãos,

nove comadres, uma tia, nove afilhadas, e com António da Cunha, alêm

de cincoenta e uma mulheres, das quais houve cento e noventa e sete

filhos, quarenta e sete fêmeas e cento e cincoenta varões».

Mas não reza a história que êste amoroso fôsse desgraçado como o

Armando da _Dama das Camélias_, ou como o Werther se suicidasse.

Por mim, em verdade lhes direi, que me creio o mais imune dos bípedes,

porque o mais egoísta me julgo. De resto o amor é para os raros apenas.

Deixá-los lá amar. São êsses que fazem depois os belos livros que a

gente gosta tanto de ler. Que em verdade, irmãos caríssimos, admito o

amor, a deliciosa mentira, mas só em teoria. História remota, cujos

heróis já morreram, e que sucedeu nalgum país distante. Porque se é

triste e eu entristeço, logo me põe bem com a minha digestão e com a

minha consciência,--duas cousas que se parecem--o comentário clássico e

absoluto: ¿Quem sabe lá se ela não será mentira?

Estátuas e comendas

«Decididamente Portugal é um país de ingratos», escrevia-me desolado um

estrangeiro que há uns bons vinte anos se esforça por tornar conhecidas

no seu país a nossa história e a nossa literatura. Há vinte anos que

trabalha por nós, tem 15 volumes publicados sôbre as nossas letras,

e ainda não recebeu de Portugal um agradecimento sequer. Sucede até

escrever a portugueses, escrever a estações oficiais e não receber

resposta. E, desoladamente enumera-me o que outras nações da Europa,

por quem êle tem feito menos, lhe teem concedido, comendas, cruzes,

medalhas, o demónio.

Não me chegou o homem a perguntar se em Portugal havia fitas, cruzes

e comendas. Não perguntou. Eu porêm é que lhe disse que as havia, mas

que eram para... os barbeiros. E que não tivesse pena de não ter

nenhuma, porque isso em Portugal não valia absolutamente um caracol.

Valia tão pouco que era até frequente ver aguadeiros, comendadores, e

capatazes da limpeza, grandes-oficiais.

O que êle, na sua ingenuidade de homem do norte, reputava uma honra,

era, afinal e sómente, a marca da mediocridade.

Fizeram João de Deus grande-oficial de S. Tiago. Pois bem: João de

Deus, para se evadir à _honra_... morreu. E então S. Tiago, uma cousa

que se dá aos sapateiros, um hábito relaxado de todo. Que os outros

regulam pela mesma cousa. O da própria Tôrre e Espada já por vezes tem

sido recusado e o de Cristo é para os abastados, criados de mesa, moços

de esquina e... archeiros da casa real.

Tão desconceituado êle anda, que até o Baptista, o vélho criado do

Carlos d’_Os Maias_, o recusou sob o pretexto de que não havia cão nem

gato que o não tivesse.

As comendas em Portugal são a paga dos badalos para sinos, das eleições

ganhas, da galopinagem activa, e de muitas outras cousas que se não

podem precisar. Guy de Maupassant disse um dia que três cousas em

França desonravam um homem: a Academia, as condecoraçõese a _Révue des

deux mondes_. Isto em França onde a Academia é uma cousa de préstimo,

e a _Révue des deux mondes_ é a _Révue des deux mondes_. Que faria se

fôsse em Portugal, onde a Academia é um retiro de tatibitates e as

condecorações são o que se sabe.

A um caso assisti que me mostrou bem qual a ideia que o povo faz de

como elas são adquiridas: Quando nos visitou Afonso de Espanha, sucedeu

passar pelo local onde me achava um ilustre desconhecido, cujo peito

era couraçado por tôda a sorte de condecorações. Uma se avantajava

e impunha o seu destaque, rebrilhante e majestosa. Dois operários

conversavam ao meu lado e quando o ilustre passou, um deles, apontando

ao outro a venera, explicou-lhe: «¿Vês aquela medalha grande? aquilo

abichou-a êle uma ocasião em que tinha que se levantar às dez horas e

só acordou ao meio dia». E estava certo.

Ora eis aqui a razão por que o estrangeiro, com os seus anos de

trabalho e os seus livros publicados, não apanhou ainda nem uma sêde de

água.

* * * * *

Outra das grandes pragas nacionais é a das estátuas.

Fervilham as condecorações, a ponto de se confundirem com a placa dos

moços de esquina. Não há cidadão que não possua o seu habitozinho,

dado quási sempre em recompensa do trabalho que teve para o conseguir.

Alguns, os coleccionadores, tem-nos às dezenas, de tôdas as qualidades,

de todos os feitios, de tôdas as ordens, desde a ordem da _Pontinha de

oiro_, fundada por João Lourenço da Cunha até... à Ordem Terceira, ou

qualquer outra ordem que quiserem.

As estátuas são como as urtigas. Rebentam por tôda a parte e são quási

tôdas iguais, para não escangalharem a simetria da sala. Não há em

Lisboa jardim que não possua estas três cousas indispensáveis a um

passeio que se preza: Um _water-closet_, um marco fontanário e uma

estátua.

Quási tôdas elas teem o ar dum castiçal e há de todos os tamanhos e

para todos os paladares. Desde a minúscula do Largo da Biblioteca até à

de Belêm, onde Afonso de Albuquerque boceja de tédio ao ouvir dizer à

volta de si que Baptista Diniz é o maior dramaturgo português.

Há bem pouco tempo que um silfo bom obstou à perpetração dum dêstes

crimes. Erguerem uma estátua ao maior, ao mais glorioso e ao mais

desgraçado dos romancistas portugueses, Camilo Castelo Branco, como

se êle fôsse aí qualquer burguês enriquecido ou qualquer director

geral. Chegou-se a armar uma comissão, que não levou os seus trabalhos

avante por se ter levantado grande controvérsia sôbre se Camilo foi ou

não escritor célebre que floresceu no século XIX. E até o dr. Libório

de Meireles fêz um discurso, verdade seja que plagiado quási todo ao

sr. Aires de Gouveia, tendente a provar irrefutávelmente que não foi

Camilo o autor dos _Lusíadas_, ideia assente no espírito do seu colega

na comissão, sr. António José da Silva. Como ninguêm se entendesse,

porque todos tinham uma ideia muito remota de quem fôra o escritor, de

que nenhum deles conhecia escritos, as sessões, que pareciam ou uma

tourada de curiosos ou uma sessão da Academia Real das Sciências, não

se repetiram e deixaram felizmente em paz o romancista.

O crime não se consumou e foi melhor. As estátuas não nobilitam

ninguêm e não servem senão para vertedouro dos cães. O honroso é não

ter estátua. E tão difícil é hoje encontrar um homem que não tenha a

sua condecoração ou a sua estátuazinha, pelo menos em projecto, que

Diógenes, se voltasse a êste mundo à procura dêsse mortal, «apagava a

lanterna como cousa inútil» e voltaria pelo mesmo caminho sem o ter

encontrado.

Camilo não necessita de estátua. A sua maior glória é não a ter. Os

estrangeiros perguntarão por ela como outrora pela de Catão, que não

teve estátua no Capitólio.

¿Quere a comissão um conselho? A comissão não sabe quem fôsse Camilo,

mas sabe de-certo quem foi o Palma Cavalão. Pois bem. Assembléem outra

vez e botem estátua ao Palma Cavalão. Êsse sim. Êsse é que precisa dela

e grande crime é ainda não a ter. Pois compreende-se lá que nesta terra

de Palmas Cavalões, Palma Cavalão não tenha uma estátua ou ao menos uma

rua, uma avenida, um beco, uma travessa com o seu nome!

Palma Cavalão é um símbolo; Palma Cavalão assim chamado para se

distinguir dêsse outro benemérito Palma Cavalinho, é uma instituição

nacional.

Quem o não conhece?! Palma Cavalão, director da _Corneta do Diabo_, o

que fazia o _High-Life_ na _Verdade_, ainda não ter estátua! Aqui está

uma cousa que não se compreende.

Dir-me-hão que êle não escreveu uma obra, que não escreveu livros. De

acôrdo. Mas tinha lógica! «Lisboa está caríssima, e a literatura neste

desgraçado país...» Não tinha Livros? Mas esta frase, meninos?! Que

filosofia! A filosofia dos Palmas Cavalões!!

Depois, ¿o que é preciso para ter uma estátua? Sim, o que é? Damaso,

o nosso distintíssimo _sportman_ Damaso Salcede, só o acusou dêle ter

«pedido o relójio ao Zeferino para figurar num baptizado e pô-lo no

prego!...», e isso numa hora de indignação. Para estátua bem sei que

é pouco, mas lembrem-se de que Palma Cavalão foi tôda a sua vida um

tímido, e isto, aqui à puridade, é porque o Zeferino lhe não emprestou

tambêm a corrente.

Aqui está uma criatura que, a-pesar de todos os paradoxos, merece

monumento na praça pública.

Crónicas imorais · 第 6 / 11 段