E, amigo Tibério... Aqui, Tibério, que está quási a dormir,

espreguiça-se e com aquele olhar inteligente e vivo, que todos lhe

conhecem, diz-me irónico:

«Mas isso é o que se chama não ter religião nenhuma!...» ao que eu

redargúo abespinhado--exactamente como Gérard de Nerval no salão de

Vítor Hugo:--«Não ter religião nenhuma? Pois se tenho pelo menos

dezassete!?»

Gomes Leal

De Gomes Leal se anuncia para breve um novo livro, êsse antigo, ruidoso

e singular _Antí-Cristo_, completamente refundido e aumentado. Gomes

Leal é sem dúvida uma das mais curiosas, extravagantes e originais

figuras da nossa literatura contemporânea. Sitando longe da baixa, num

modesto segundo andar lá para os sítios da Graça, necessário é, se o

quisermos encontrar, ter de procurá-lo no seu gabinete de trabalho,

uma sala alegre e clara onde há um canapé, uma bela cadeira de vêrga,

uma secretária e uma cómoda, ambas estas cobertas de livros, de

brochuras, de cartas e de papeis. Das frinchas das gavetas entreabertas

surgem agressivos pedaços de manuscrito. O poeta é um concentrado,

vivendo muito pelo espírito, lendo tudo e tudo sabendo. Gomes Leal,

convêm dizê-lo, é um paladino da Arte, um D. Quichote de quem a Arte

é Dulcinêa; como aquele--aventuroso; como aquele--sonhador e louco;

porque--diz-me aqui do lado um malcriado que está vendo o que eu

escrevo--é preciso ser-se louco ou sonhador para ter veleidades de Arte

em Portugal.

Gomes Leal nasceu poeta. É inútil insistir. Podia ter nascido Coimbra

ou Amieiro, bibliotecário da Ajuda ou parvo, e então a sua sorte seria

mais compensadora. Ter nascido Amieiro, para dar a sua autorizada

opinião sôbre se o rei vestia ou não camisa! Ter nascido bibliotecário

para, pelo telégrafo, lhe dizerem que dissesse o que o outro dizia

de Turgot! Ah! é admirável! Então se tem nascido parvo, tinha a sua

fortuna feita. Em verdade te digo, amigo Fernandes, tinha a sua fortuna

feita.

* * * * *

«Balzac e Baudelaire avançavam em sentido contrário sôbre um cais

da margem esquerda. Baudelaire parou em frente de Balzac e pôs-se a

rir, como se o conhecesse há dez anos. Balzac parou por seu turno

e respondeu dando uma gargalhada, como diante dum amigo tornado

a encontrar. E depois de se terem _reconhecido_ num relance e

cumprimentado, ei-los caminhando juntos, conversando, discutindo,

encantando-se, não chegando a espantar-se um do outro».

Eu não conheci Gomes Leal como Baudelaire conheceu Balzac. Mas, antes

de o conhecer, já de côr sabia algumas das mais belas e indignadas

estrofes da _Traição_, alguns dos mais artísticos trechos do _Hereje_,

as comovidas quadras da _História de Jesus_ e os mais belos e originais

pedaços das _Claridades do Sul_. Assim, antes de tudo acostumara-me

a ver em Gomes Leal a indignação e a revolta, a arte e a comoção, a

sátira, o riso, a lágrima, todo o íris do sentimento, emfim.

Gomes Leal é um poeta, disse. Um poeta lírico, um enternecido lírico.

É um poeta que vibra amorosamente. Sabe muito menos odiar do que amar.

Iria fazer a revolução com um ramo de cravos sangrentos na lapela.

Iria para uma barricada com a cartucheira cheia de violetas. E é assim

em tudo. No entanto, dentro do seu peito há oceanos de amargura, de

revolta; tempestades de ódio, clamorosas vozes invectivantes. Tôdas as

cordas do humano, do riso à lágrima, do raio de sol à Júlio Diniz até

à tempestade à Shakespeare, da calma ao furacão, vibram dentro dele

rugidoramente. Gomes Leal é um peninsular. Ora penedia agreste, rochedo

a prumo, fragas sem fim, ora verdura sem par, céu sem rival, vegetação

sem equivalência.

Para conhecer Gomes Leal atravessei, pois, meia Lisboa. Conhecia-o dos

seus livros, conhecia-o das suas prosas, conhecia-o dos seus artigos,

conhecia-o dos seus retratos, conhecia-o do _Cancioneiro Alegre_ de

Camilo. Nunca tinha visto êste homem ora lendário, ora macabro, ora

sonhador; apóstolo e pedagogo símplice hoje, sectário de estranhos

cultos e misteriosas religiões amanhã. Os seus retratos davam-me uma

vaga ideia. Mas o seu nome tinha no meu ouvido a orquestração bizarra,

ora da marcha da _Carmen_ ou da _Marselheza_, ora da trombeta de

Jericó! Era qualquer cousa de extravagante, qualquer cousa de outro

mundo, porque tôdas as bizarrias, tôdas as extravagâncias, tôdas as

alucinações, todos os mistérios se esperam dêste cérebro--de quem um

amigo meu diz, que tem telefone com o infinito.

O _Edgar Pöe da península_ lhe chamou não sei quem. O que êle seja

afinal não sei eu. Baudelaire e Jesus, Pöe e Sancho Pança, D. Quichote

e Homero, Camões e Goya, reuniram-se um dia para formar um espírito. O

que saíu foi Gomes Leal. Junqueiro disse que os génios combinaram um

dia um encontro e se reuniram na cabeça de Vítor Hugo. Talvez fôsse

verdade. Os génios podem reunir-se onde quiserem. Ninguêm tem nada com

isso.

A Gomes Leal deu Baudelaire o satanismo desatinado e histérico; Jesus

a bondade, a comoção; Pöe, o desequilíbrio; Sancho Pança a farçolice,

o _humour_; D. Quichote a crença, e a crendeira ilusão; Homero, a

cegueira do mundo de patifes em que caíu; Camões, a indignação e o

clamorar rutilante e patriótico; Goya, o claro escuro, ora muito claro,

branco de leite, ora negro, negro, noite fechada. Destas dádivas tôdas

saíu êsse conjunto monstruoso e formidável, ora comum, ora topetando os

astros; um grão de loucura, outro de génio, e os restantes como o dum

louco e como o dum génio.

Gomes Leal é uma alma extraordinária.

Se os génios se quiseram reunir para pensar e buscaram o seu cérebro

como em Hugo, os músicos e os poetas quiseram fazer um concêrto e

buscaram o seu coração. É por isso que, se no seu cérebro marulha um

mar como à volta do túmulo de Ossian, no seu coração ecoam tôdas as

melodias como na rabeca de Paganini. Parece que Gomes Leal não é um

poeta, é um panteão. Não da beleza morta, mas da beleza viva, porque os

espíritos como o seu são telescópios com que a gente olha através do

infinito.

O que o novo livro de Gomes Leal será não o sei eu. Calculo o que êle

seja. O _Anti-Cristo_, que era na primeira edição um bom livro, sairá

considerávelmente melhorado. Anos passaram sôbre a primeira edição.

Anos passaram sôbre o espírito do poeta. O _Anti-Cristo_ sairá e não

somos nós, não é o público, nem a crítica, nem a imprensa, quem dele

dirá de sua justiça. Ela será feita pelas gerações futuras «visto que

é preciso morrer para que nos façam justiça», como disse Zola e como

disse o Camilo.

Gomes Leal é ainda um exemplo a apontar a novos e vélhos. A vélhos que

se gá-gáisaram e a novos que se vão gá-gáisando. E nesta época resulta

precioso. Nesta época de lamentáveis Ortigões, Ortigões mais do que

lamentáveis, deploráveis. Nesta época em que os vélhos perderam o

silêncio e a vergonha, e os novos, pingando máguas, veem, sem vergonha

nem silêncio, fazer versinhos insípidos e cantatas inspiradas. Novos a

quem o poeta odeia:

É o ódio contra ti, fraca geração nova,

que amas sómente rir, e não tens convicções,

nem ideal, nem fé, nem nervos, nem tendões

não sabes venerar, não sabes ter respeito

rugir, nem arrancar as lágrimas do peito,

nem rir como Voltaire, amar como Romeu

sofrer como Jesus--nem odiar como eu.

Que não sabem venerar quem devem, nem castigar quem o merece. Ora

Gomes Leal, com tôdas as desigualdades do seu talento, é honesto, não

é oportunista, visto que não é interesseiro, está-se manguitando para

tôdas as sinecuras, ucharias, fardas e logares. Ama a arte sôbre tôdas

as cousas e o próximo,--exactamente como a mim,--nada lhe interessa. É

por isso, por êle se manguitar, nada lhe interessar o próximo, e não

se parecer nada com os vélhos que entonteceram, que eu o considero. E

considero-o porque são raros os vélhos que tenham a sua mocidade, tanto

como são raros os novos, que, como êle, saibam ser dignos.

E à procura dum homem digno andou Diógenes com a sua lanterna e afinal

teve que a apagar por inútil...

Naufrágios

(Carta a Felipe Trigo)

Lembra-se, meu caro amigo, daquele seu oficial reservista que a bordo,

durante a tempestade, guardava o salva-vidas de navalha em punho,

crendo que a cousa estava por um instante? Lembra-se?

¿O que faria êsse homem na ocasião em que o barco se afundasse e

a multidão se precipitasse sôbre o salva-vidas, atropeladamente?

Defendê-lo-ia a navalhadas. Mulheres e crianças não seriam poupadas,

não é verdade? Leio-lhe a intenção. O meu amigo, como conhecedor dos

homens e da sua ingénita cobardia, pois que é um psicólogo, e da sua

miséria profunda, visto que é médico, deixou em meia página um tipo

imortal.

E creio-o bem. Nunca o homem durante uma tempestade deixará de vigiar o

seu salva-vidas de navalha em punho.

Talvez lhe tenha já esquecido o personagem. A mim avocam-mo agora bem

intensivamente os telegramas do afundo do _Larache_. E dizem êles com

o seu laconismo em que verdadeiramente o silêncio é de ouro, pois é

nos telegramas que se aprende a calar, porque o palrar se paga: «Os

passageiros disputavam os salva-vidas à punhalada e a tiro». Aí tem o

meu amigo o fim, e o que faria o oficial reservista para defender o

seu: o numero 30.

O mar atrae-me, muito mais do que a terra. Creio que no mar a porção

boa, dose mínima, que cada homem tem, aparece mais freqùentemente.

Exceptua-se, é claro, o naufrágio. Então o homem alija a porção boa e

busca uma navalha com que defenda o seu jaleco ou a sua coroa fúnebre

de cortiça. Não há pais, nem filhos, nem amantes, nem irmãos. Cada um

governa-se. E só em ocasião de naufrágio cada um conhece o seu vizinho.

Tambêm, às vezes em terra assim sucede. Quando uma criatura busca, à

sua roda, já atolada até ao pescoço, uma abnegação, um auxílio, vê

então todos egoístamente cada qual tratando de se defender e safando-se

à cautela. De resto no mar ou em terra, ai de ti se não defendes a tua

cortiça à navalhada.

Quando me lembrei do personagem episódico do seu _Del Frio al Fuego_

não deixei de me recordar tambêm daquele comunista de D. Emília, a D.

Emília Pardo Bazan. Não sei de tipo mais fielmente descrito. Meu caro

amigo: Devem ser assim, são fatalmente assim todos os comunistas.

Um amigo meu não conhece a história. E abro aqui um parêntesis para

êle. (Ora o caso foi que havia a bordo um socialista-comunista, muito

ardente, persuadido, de boa fé e demais propagandista. Sucedeu-lhe ir

a bordo e o barco ser colhido no mais brutal duma borrasca desfeita.

Escaleres ao mar. Um deles, o mais pequeno, ia cheio de mulheres e

crianças, porêm, tão cheio que se começava afundando. Idearam sustê-lo

com cabos emquanto se passava gente para outro escaler. O comunista foi

encarregado de suster um cabo. Traduzo agora: «A princípio agarrou-o

com afinco e só notou um ligeiro ardor; mas logo começou a arder-lhe

a palma da mão, como se a tivesse cheia de brasas. Se soltasse,

perdiam-se os do escaler: havia que sofrer, que deixar arrancar a pele

e a carne. Mas a dôr crescia, a sensação era tremenda e o comunista,

soltando um grito, afrouxou o cabo e viu que o barco como uma pedra

descia para o abismo. Ficou triste--e para que negá-lo?--Mas confessou

que, se cem vezes lhe arder assim a mão, outras cem deixará afundar-se

o bote»).

Todos farão como êle e todos o confessarão.

Para mim só o mar tem beleza. O mar profundo, intérmino, sem terra à

vista. E, não sei porquê, atrae-me «aquela fria e inquieta sepultura»,

como se diz na _História Trágico Marítima_. Uma saudade muito profunda,

cresce, avoluma-se e evola-se lentamente pela memória de todos os

mortos no mar, afogados ou Ofélias, amantes perdidas ou simples

labutadores da vida.

Morrer no mar! Há lá maior beleza?! Longe de terra, sentir através

das paredes de ferro dum estreito barco o mar iroso batalhar, entoar

rouquenho as suas cóleras, cóleras de água que na bonança se desfarão

em espuma! Em terra tudo se deixa. No mar tudo vai connosco. Lá em

baixo, fazendo companhia aos galeões de Vigo, caldeiras apagadas, as

escadas solitárias, a sala de música emudecida, a biblioteca tôda por

ler, as viandas por manjar, o nosso barco será indiferente de-certo

até ao próprio _Nautilus_ do capitão Nemo, das arrojadas fantasias de

Júlio Verne. Navio da morte que ao fundo foi com todos os seus. E é

consolador dizê-lo. Não nos esmigalhará o crânio a enxada do coveiro ao

fim do nosso primeiro sono, nem sôbre a nossa campa a mulher que dizia

amar-nos colherá um cravo rubro para colocar, entre o parêntesis dum

beijo, na _boutonnière_ do amante.

Já não falo no consolador prazer que haveria em duas criaturas que se

estimassem morrerem abraçadas, sentindo o vélho Oceano galgar por ali

acima à sua procura, para as separar, e não conseguindo mais do que

fazê-las abraçar com maior amor; ou do capitão que imperturbávelmente,

como o capitão da prosa de Vítor Hugo, que ordena a salvação de todos,

primeiro as mulheres, depois as crianças, depois os vélhos; a maruja no

fim, e todos salvos, na ponte de comando o vélho comandante afunda-se

nas águas com o seu navio. Já não falo disso. Mas morrer longe de

todos, tranqùilamente, fumando um cigarro, ou ouvindo uma música ideal,

recordando alguêm ou alguma figura dos nossos livros preferidos, sem

levar saudades nem as deixar sequer. No meio da grande solidão imensa

do Oceano! Depois as _almas de mestre_, as aves que no mar alto dão

longos e sentidíssimos pios, iriam lembrar à superstição dos que

passassem que um pouco nada bastava, uma vaga às vezes, para que quem

escutasse fôsse meter-se no corpo dos passarocos e por sua vez fôsse

ouvido.

Mas, divagações à parte, aí tem o meu amigo o último acto da tragédia

que só esboçada foi. E se o seu passageiro não empregou a navalha,

agradeça-se ao Oceano que não sacudiu mais violentamente o seu corpo em

fúria. Os passageiros do _Larache_ mostraram-nos o homem. Da _Medusa_

sairam antropófagos; do _Larache_ bandidos. Ah! meu amigo, não o

enganou a sua visão. E deixe-os falar, os optimizados. Eles não sabem

da vida senão uma teoria confusa e abstracta. É necessário ter visto

reluzir o aço da navalha do reservista, _verdad_?

¿Mas para que, afinal, aquilo tudo? ¿Para que disputar a tiro um

adiamento de morte? A morte é uma letra a pagar, diz um negociante meu

amigo, que tem suas tinturas de filosofia. Para que a reformar, direi

eu. Isso que vale?

Depois, no mar, a-pesar-de tôda a sua monotonia, há muito mais poesia,

muito mais grandeza do que em terra. A terra é pequena, com seus

egoismos, suas sepulturas, suas recordações, lembranças de gerações que

foram, pó, pó sempre, eternamente erguido para constantemente derrubado

ser.

Decididamente, meu amigo, a terra é banal. Nada me prende a ela, nada.

E se alguma vantagem ela tem, é só a que lhe encontrava o capitão Nemo,

a de vir buscar livros, muitos livros para ler, para saber, distante,

quais as paixões, as cegueiras e os vícios que fazem os homens dar-se

caça como a lobos e odiarem-se com um ódio profundo, secular, que irá

até que, da terra, os dois últimos mortais, já tombados, larguem da mão

as navalhas com que disputaram o último bocado.

Que, decididamente, meu amigo, diga-mo a sua luminosa inteligência,

¿vale acaso a Vida essa labuta, essa fadiga, ou sequer o gesto de

puxar a navalha para defender a cortiça, refúgio da morte? ¿Vale acaso

a vida, essa ambição de _reformar a letra_ a tiro, à navalhada e a

murro?

Goron

Um escritor daqueles que mais considero é êste Goron, antigo chefe da

polícia de Paris. E, em verdade, se me dessem a escolher entre qualquer

obra de renome universal--a _Jerusalem Libertada_, os _Lusiadas_ ou

o _Paraiso Perdido_,--e as _Memórias_, eu não hesitaria um segundo.

Seriam as _Memórias_ de Goron preferidas.

Goron, ex-chefe da brigada de segurança, é um dos escritores mais

interessantes do seu tempo. O pitoresco e o formidável, o repugnante

e o heróico, o vício, a doença, a loucura e o crime, tôdas as

loucuras, todos os vícios, todos os crimes, passam nas suas páginas,

mesclados, num desfile estranho, numa procissão extravagante e

macabra, polichinelesca e terrível. Abro uma página da série das suas

_Novas memórias_--as do Amor. Será a primeira do volume _Mercado

de mulheres_. O que essa página seja não chega a minha prosa para

o contar. É a confissão duma _rôdeuse_ detida no _boulevard_ de la

Chapelle.

Dostoiewsky não faria uma página mais sinistramente comovida nem mais

elegíacamente emocionante. É duma grandeza absorvente. A história duma

vida desfila ali em quatro páginas, vertiginosamente.

Se me perguntarem _á priori_ o que é a obra de Goron, eu não saberei

responder. As suas personagens, quem são? e terei novo embaraço.

Biografias sinistras, silhuetas de criaturas desgraçadas, de criaturas

pérfidas, de criaturas míseras, terríveis, alucinadas, ciumosas,

soluçantes. Retalhos de vidas, episódios trágicos, misérias, lôdos,

confissões patibulares em lábios purpurinos, confissões sentimentais

brotando de criaturas putrefactas, sei lá?! Não sei, decididamente não

sei dizer. É uma cousa indistinta, é a vida, a vida vortilhão, a vida

Maelstroom, a vida abismo, sôbre que alguêm se debruçasse e trouxesse

depois nos olhos todo o horror e todo o espanto.

Pelo seu gabinete desfilaram tôdas as manifestações selvagens da fera

humana: Arrancaram a máscara tôdas as qualidades de homens e despiu a

alma tôda a sorte de mulheres. E então êle pôde ver, a frio, como um

bacteriologista em suas culturas e um dissecador no mármore anatómico,

os vícios e as paixões que convulsionam, arrastam e perturbam esta

mesquinha e egoísta humanidade. A sua obra é a verdadeira _Tragédia

humana_. Ela ficará amanhã, a obra dêste antigo chefe de polícia, como

a documentação mais perfeita, o repositório mais eloqùente de factos

para a reconstituição da psicologia duma época. E em verdade vos digo

que tem comoção para tôda uma literatura, e tão intensificada a sua

grandeza que daria filão maravilhoso a romancistas, dramaturgos e todos

os buscadores de entrechos se não fôsse tambêm para meditar e para ler,

mais com o coração do que com os olhos.

¿Julgarão talvez que sob o aspecto desabrido, rude e solerte do agente

não existe o artista e o homem? Enganam-se. O agente comoveu-se muitas

vezes e é o artista quem nos transmite essa comoção. Não há ali um

coração endurecido. Tanta miséria e tanta podridão tem êste homem visto

desfilar ante seus olhos, em tanto lôdo tem mergulhado suas mãos, que,

dir-se-ia ter-se-lhe embotado a sensibilidade, tornado incomovíveis

tôdas as fibras e de todo já se lhe terem estancado as lágrimas. Mas

não. Uma imensa piedade transborda da sua obra. Uma piedade infinita,

uma piedade tornada avalanche, que chega até nós ainda avassaladora e

convincente.

Querem uma prova? Êste homem forte, que conhece a humanidade por

dentro, em todos os seus cinismos e tôdas as suas ternuras, em todos

os seus apetites e tôdas as suas ambições, em todos os seus vícios e

tôdas as suas virtudes, que conhece o calcanhar de Aquiles de tôdas

as almas, que viu empalidecer os maiores homens e cair a cabeça aos

maiores criminosos, que conhece a noite e sabe os recantos da miséria,

êste homem chegado a certo ponto em que necessário lhe era descrever

a enfermaria das mulheres perdidas da _Saint Lazare_, dos versos de

Bruant, pousa a pena e diz com ar sumido: «Repugna-me descrever a

enfermaria. É demasiado triste, demasiado feia». E logo nos começa

contando outra miséria, como se quisesse arrancar o leitor a um

espectáculo doloroso.

A dôr só embota as criaturas rudes. Ás outras estimula-as. Assim,

Goron, sob a sua farda de polícia, tem um coração piedoso e sob os

olhos inquisitoriais e pesquisantes de perseguidor há muitas vezes

lágrimas reprêsas. ¿Porque abandonou êle o cargo? Não sei. Talvez

farto de tanta dôr. O espectáculo da dôr contínua, que é hábito para

os rudes, para certas criaturas é um suplício. Goron é uma criatura

sensível, uma alma de artista apaixonado e sonhador. E quem tal

diria? Sonhador, nem menos! Ah! Não julgueis nunca os homens pelas

aparências. ¿O que lá está dentro quem no sabe? E creio-o; jamais

alguêm o saberá!

A obra de Goron é o mais profundo estudo de _bas-fonds_ que conheço.

E olhai que muitos há. Tenho aqui à mão o _Paris impur_ de Charles

Virmaitre e os livros de L. Taxil.

Não só profundo êle é. Há muita poesia naquelas descrições e muita arte

nesses relatos. Mão cariciosa cinzelou aquela prosa desprendida que não

sei que encanto tem.

Dir-me-hão que uma cidade como Paris e um cargo como o de chefe dão

para óptimos livros de memórias. De acôrdo. Mas é necessário ser-se

artista e necessário saber ver fora da visão profissional. E Goron

soube ver.

* * * * *

«Sinto-me morrer longe de ti; tenho um desejo louco de abraçar-te.

«Quero ver-te a todo o custo e quando saia quero que me ames como

sempre, que jamais, jamais, sejas doutra mulher. Prefiro ver-te morto

que perjuro ao nosso amor, e se me abandonas matar-te-hei!...

«Pensa em mim tôdas as noites, na tua cela, como eu penso em ti,

rogando a Deus que nos reúna breve, ainda que seja na Nova...»

(Nova-Caledónia, a penitenciária).

Assim escrevia uma mulher pública a um ladrão. Ambos presos. Ela

escrevia de Saint Lazare.

E são cartas, confissões, ódios, vinganças, paixões, tôda a gama de

humanos sentimentos que ali ruge, e passa em tropel.

Quási poeta nas _Novas Confissões_, Sherlock-Holmes no _Através

do Crime_, Goron é um apaixonado e um artista. A sua obra é

proveitosíssima e lê-se com verdadeiro interêsse.

Quem ainda crê no amor, que se sacie. Tem ali o amor em tôda a sua

nudez. Quem crê na sinceridade e não se acostumou a ver o homem como um

animal que inventou as luvas para esconder as garras, tambêm ali tem

que aprender. E certo é que todos, lendo-a, andarão mais algumas horas

na intimidade da alma humana.

Por suas relações, por sua larga experiência--Goron é um cavalheiro

edoso--pela larguíssima racolta de documentos vívidos e do natural

colhidos, flagrantes ainda e ainda conservando tôda a sua intensidade,

mereceram as _Memórias_ o sucesso europeu que desfrutam. Acolhidas com

ensurdecedor murmúrio à data da sua publicação--que arquivo de graves

cousas, cousas comprometedoras, cousas pícaras, nojentas e terríveis,

surdiria?!--elas foram tambêm logo festejadas. É que as _Memórias_

de Goron não eram obra para armar à popularidade, cativando por suas

escandalosas revelações, e rocambolizando a meada profissional. Não

eram. As _Memórias_ eram sómente isto: o trabalho dum artista, dum

homem que sentiu a vida e que vem das regiões misteriosas do crime, dos

abismos profundos do vício, relatar-nos o que viu em linguagem comovida.

Falhando pois à ansiosa popularidade do escândalo, a obra de Goron não

teve o êxito passageiro das que o teem. Antes continua a ser lida, lida

será e sempre com amor. É o estudo dum homem que viu. E só quem viu

merece ser acreditado.

Goron, antes de ser agente, era um artista. Quando deixou de ser

agente, artista ficou. E pelo contrário: a sua convivência com gente

humilde, a sua excursão por essas desconhecidas paragens, deram-nos um

documento que será lido emquanto bater um coração e não secar de todo

essa solitária flor da piedade.

E porque a sua obra me faz sentir, sentir intensamente, é que eu

considero Goron um grande artista.

Mercedes Blasco

(A propósito do seu livro «Memórias duma actriz»)

Antes, muito antes mesmo, de ter lido as _Memórias_, já pensara da sua

autora o que Vítor Hugo escreveu de Cláudio Frollo: «¿Que fogo interior

é êsse que por vezes lhe brilha nos olhos, a ponto de se assimilharem

a uns buracos feitos na parede duma fornalha?» ¿Que brilho mau trazem

êsses olhos, que pesa como o coturno dos gladiadores que vencem? Mas

foi um pensamento só. Não psicologizei do brilho nem do fogo. Já

Plínio, o antigo, no ano 79 de Cristo, morrera no Vesúvio vítima da sua

lamentável curiosidade...

Crónicas imorais · 第 5 / 11 段