Ás vezes, quando um cidadão não só dorme, mas sonha tambêm, sempre lhe

ferram cada susto?! Acorda estremunhado. Palmas. Ah! É o intervalo. Os

da frente principiam a recolher o pescoço. O misantropo, que não pôde

apanhar logar à frente e não largou o jornalsinho, embrulha o jornal e

prepara-se para ir beber dois ao «Cesteiro». «Vinum bonum lœtificat cor

hominis». O bom vinho alegra o coração do homem. E o misantropo, quando

volta, traz o nariz que parece uma malagueta e sempre fede!...

A scena continua, os da frente estendem outra vez o pescoço e os de

trás, à cautela, forneceram-se de pevides. Sim! Porque se uma pessoa

não leva pevides, está tramada!

Se o teatro está decadente, não é por falta de

«dramamíferos»--dramamíferos é boa!--porque até um deles enviou

uma carroça de mão, cheia de peças, com a nota de que aquilo tinha

um descontozinho para revender. Agora é que o teatro ressuscita.

Dramaturgo raso que há anos trazia as peças dentro dum canudo de fôlha

debaixo do braço, e que não lhas representaram, por má vontade da

emprêsa, já se vê, vê-as agora representadas com a sábia medida de D.

Maria. Agora é que vão aparecer. Shakespeares, Maeterlincks, Ibsens e

Hauptmans. Mas no fim de contas do que eu estou desconfiado é de que

esta emprêsa de D. Maria tinha um avultado parasitismo dramatúrgico

sôbre si, que vai agora sacudir... representando-o.

Mas a arte, onde está? Que resulta de tôda esta cousa? Vale a pena a

gente ralar-se? Não. De-certo que não. Não vale a pena. Calino, que na

bilheteira pedira um logar que não fôsse por debaixo do lustre, para

lhe não sujar o fato algum pingo de gás, acha bem. Eu tambêm. Acho

óptimo, acho tudo o que êles quiserem contanto que não me macem. Tempo

é dinheiro. E, caramba! Tudo isto somado não vale a ponta dum cigarro.

Mas o remédio? Deixemo-nos disso. Nada de fantasias, que isto de

gizar planos e bandarrear profecias é como as contas do sapateiro.

Saem sempre furadas. Afinal é clamar no deserto:--«vox clamantis in

deserto». É tal e qual. Até vem nas Escrituras.

D. João da Câmara

João da Câmara (D.), cronista do _Ocidente_, autor dos _Vélhos_ e da

_Triste Viuvinha_, acaba de partir para a grande viagem donde se não

volta. E agora, a esta hora que escrevo, se regozija êle na cela do seu

caixão, cela dêsse «convento, que há alêm da Morte e que se chama a

Paz». Êle não voltará jamais olhar-nos por cima da luneta, contar-nos

uma anedota que o seu sorriso reticenciava, nem embalar-nos com o

tom serêno, religioso, espiritual, da sua conversa tão segredada e

insinuante.

D. João da Câmara era ainda, neste país de bacharéis, nesta pátria

de futilidades e falcatruas, uma criatura que fazia vida àparte de

_cotteries_ e de políticas, que a vida levava como Deus era servido, e

que por isso mesmo se tornou simpático a gregos e troianos.

Um _bon viveur_ com perpétuas faltas de dinheiro, que a sua falta

de tino administrativo e a sua generosidade fidalga explicavam

prolíxamente, sem cuidados mais fundos do amanhã e sem que o hoje

fizesse à sua maneira de encarar a vida descalabro grande; não havendo

agiota que o não sugasse para não haver desventurado que, dentro do

seu âmbito generoso e monetário, êle não protegesse; um boémio em

tudo, se por boémio tivermos um abandono de horas, de convenções, de

regularidades. Eis o que êle foi. Criatura sempre camarada, sempre

amiga, sempre fidalga, não murmurando nunca dos outros, nada aziumeira

e biliosa, sincera sempre no seu auxílio, a ponto de lhe forçarem a boa

fé sem que tivesse desdens, a ponto de o intrujarem, sem que tivesse

rancores, eis aqui como o conheci e a lembrança que conservo dele, o

primeiro consagrado com quem me dei, se consagrado se pode chamar o que

chegou primeiro e tem mais largos horizontes de protecção e crédito

nominal, que nem outro crédito o escritor disfruta em Portugal.

A nossa camaradagem, e falo dela com orgulho, foi sempre boa, serêna,

plácida. E dele três lembranças há, que mais fixativamente se me

gravaram na memória. A da estatueta do escultor Silva Gouveia, uma

flagrância bem natural, e a da penúltima vez que o encontrei, fazendo

a ascenção penosa, uma ascenção asfixiante, da escada das _Novidades_,

então no Largo das Duas Egrejas. Essa impressão é a mais viva. Uma

impressão de ruína, de acabamento. Da última vez que o vi, foi na

estreia das _Rosas de todo o anno_, do nosso Júlio Dantas, no palco de

D. Amélia. Nunca mais o tornei a ver. Agora outra impressão me ficou: a

do seu entêrro, em que se fizeram discursos que deviam ser proibidos,

por convencionais, literaticos ou desageitados, e onde em tôdas as

fisionomias vi a mágua sincera da sua perda, a ponto de grandemente me

apoquentar a cara contristada, sofredora, de Lopes de Mendonça, outra

criatura sincera e afectiva, e a de Eduardo Schwalbach, que nada tinha,

nada, do seu mefistofelismo habitual.

* * * * *

Quanto à obra pública do escritor, outra é a minha opinião. Eu não

creio que João da Câmara tivesse feito uma obra grande. Que fizesse

uma obra sua não duvido, porque tôda ela é desigual, ressentindo-se

das ocasiões em que a trabalhou, das circunstâncias em que a fabulou

o espírito, e das impressões ou necessidades que a fizeram trasladar

ao papel. Nem plano, nem harmonia, nem concatenação filosófica que a

atravesse, nem fim a que se destine. Ela não é mais do que o espelho

dum espírito cheio de lirismo, romântico por falta de leituras novas,

sem concepção do mundo e dos outros e ainda o que é mais, sem que seja

outra cousa do que produto duma travessia desordenada e fugitiva pelas

regiões do sonho.

O livro póstumo ora publicado--_A Cidade_--é mais do que medíocre.

São poesias soltas, cantando cousas banais, em versos banais, porque

não foi, esta pobre alma de poeta, nunca uma alma tragediadora que

sentisse a vida e as cousas com nervos de quem sente apressadamente.

Natureza mole, um quási nada enxundiosa, a vida representou-se-lhe

sempre como uma cousa calma e pacificada, demais tendo, como êle tinha,

porque era um bom, o defeito de acreditar na bondade alheia. Assim,

o seu lirismo são versinhos sem nexo à falta de idea que os vibre, e

deixam-nos no espírito a impressão de que lhes deu forma uma criatura

afeminada e criada entre armures e cousas fôfas. A cidade que o poeta

viu é uma cidade banal, de lirismos contumazes de poeta principiante e

água morna. Quanto à obra restante, bom será que a turba jornaleira,

que não soube fazer um artigo digno e deu à jolda informatriz o

encargo de dizer do passamento do malaventurado homem de letras, se

não escagarrinhe de entusiasmo por peças que nunca viu representar,

nem livros que jamais leu. E bom será, para que não venha provocar

palavras de justiça quando são necessárias palavras de saudade.

Babuje embora os seus pobres louvores, sem forma e sem gramática, a

sua sermonada do costume em entêrro de conselheiros, mas não queira

exercer, judicatura em cousas para que ninguêm lhe deu fôro. E que os

mortos não sirvam, pobres mortos! para que um nome que não lhes serviu

a êles, nos agiotas, sem fiador, venha levantar celeumas justiceiras e

tornar-se ferrete ignominioso duma profissão.

Curioso é, como, tendo morrido o pobre D. João, há bem pouco tempo,

já os jornais andam afervilhados para que a família do escritor não

fique na miséria. E vá de explorar essa miséria fazendo jus a uma

pensãosinha, pondo demais à cabeça do rol a encobrir, justificar e pôr

o visto, o nome de Fialho de Almeida, sob títulos de que Fialho num

artigo frisava o estado precário do poeta.

Há por certo engano. Os senhores estão enganados. Fialho não frisou o

estado de miséria em que viveu D. João. O que Fialho fêz foi frisar o

estado de miséria em que chafurdam os nossos intelectuais. Generalizou,

não falou de D. João em especial. A miséria dos nossos intelectuais, se

miséria se pode chamar um máu passadio, de horizonte limitado, em tudo

é já sabida. É até uma tristeza mecher-se nisso.

Mas os jornais não param. Pretendem para a família de D. João uma

pensão.

Ora, começa aqui o amargo. A família de D. João não a merece. Porquê?

Porque não. Ficam escondidas várias razões que virão, se fôr preciso.

Não a merece, como a não merecia a família de João de Deus e como a não

merece a família do Eça.

A obra de D. João não é uma obra nacional ou com foros disso. O Estado

pagou ao escritor como funcionário público. O Conservatório como

professor.

Nada tem o país que ver com o resto.

Mas se os jornais querem dar uma pensão à família do escritor, que se

reunam êles, as empresas teatrais, as casas editoriais, os agiotas e

terceiros, para fazer a restituição de tudo quanto em vida lhe roubaram.

Pensão do Estado não pode ser. E não pode ser, porque o Estado é pobre

e porque basta de precedentes. Eram 800$000 réis, não eram? Pois

reclamem, reclamem êsses oitocentos mil réis para escolas, para que

amanhã o povo dê ao escritor mais mil ou dois mil leitores. O Estado

é pobre, o Estado não pode dar pensões a ninguêm, quando ha milhões

de analfabetos. O Estado não pode ter parasitas, quando tem dívidas.

Que dê pensão aos netos de Camilo, vá. Mas que as dê a todo o que

se permitiu gastar o pouco que ganhou, sem nenhum interêsse para a

arte nacional, é que não. Amanhã virão todos os que literatejaram e

conseguiram nome reclamar. Virá... eu não digo os que virão. É melhor

estar calado. Até eu, quando morrer, deixarei à família o requerimento.

Mas para que demónio nos obrigam a falar nestas cousas!?

Arte de Reinar

Senhor:

«Hum sabio disse que não havia n’este mundo homem que se conhecesse;

porque todos para comsigo são como os olhos, que, vendo tudo, não

se vêem a si mesmos; e d’aqui vem não darem muita fé nem de suas

perfeiçoens, nem advertirem em seus defeitos; e ser necessário que

outrem lhes diga o que passa na verdade. Se V. Magestade não se

conhece, nem o mundo em que vive, e de que he Senhor, eu o direy em

breves palavras».

O autor anónimo da _Arte de Furtar_ começa assim o seu prólogo em

palavras de ontem que parecem de hoje. Começa assim e não vai mal. Eu,

porêm, não começarei assim. Chama-se esta crónica _Arte de Reinar_ ou,

para melhor, _Da Arte de Reinar_. Há várias crónicas e várias artes.

Desde a _Arte de cavalgar a tôda a sela_, do mui erudito senhor e

sábio eloqùente D. Duarte, que Deus, ou lá quem é, haja em sua santa

guarda; desde a _Arte da guerra do mar_, de mestre licenciado Fernão de

Oliveira, que a eternidade em sua santa glória haja; desde a _Arte de

Furtar_, que as más línguas atribuem ao reverendo Vieira, até ao livro

que se lhe contrapõe _Arte de los estafadores_, que traz trezentas

ou quatrocentas maneiras de os evitar, como se os _estafadores_ não

tivessem ainda oitocentos golpes para as inutilizar; desde as artes,

emfim, de _Pedro das malas_ ditas até ao Livro ou _Arte de ensinança

dos principes_, que quantidade de artes! Esta, de que hoje se trata, é

a arte de reinar. Reinar não é assim uma arte muito fácil. É mesmo mais

difícil do que o que parece. É mesmo muito difícil reinar nos tempos

que vão correndo.

Para reinar, três predicados se exigem: Que o reinante seja um

filósofo, isto é, que conheça os homens; que seja um scéptico, isto

é, que não acredite na felicidade; que seja justiceiro, para que o

que é de Cesar não vá parar a Paulo e para que Paulo não berre que

Cesar lhe empolgou o seu quinhão. Ora, para V. Magestade ser um

filósofo e conhecer os homens, não tem mais do que abrir a sua _Arte

de Furtar_--se não tem, empresto-lhe!--no prólogo supra mencionado.

Lá diz: «este mundo he hum covil de ladroens», e olhe V. Magestade

que é verdade. Isto não é um vale de Lágrimas, é um vale de patifes.

Cerque-se V. Magestade de homens honrados, mas não deixe de fazer como

o esclarecido D. Luís, vosso augusto avô, fazia às caixas de charutos

que tinha para consumo particular: pôr sob a tampa de cada uma, uma

caixa de música, de maneira que por cada charuto surripiado ouça ao

menos o _intermezzo_ da _Cavalleria_, o intróito dos _Palhaços_ ou o

_La donna é mobile_ do _Rigoleto_.

Não ouça V. Magestade mais do que o conselho do seu conselho, que é

como quem diz a reflexão do seu juízo. Acredito que sejam todos muito

honrados, mas bom será sempre conferir as colheres de prata. Se V.

Magestade achar que a _Arte de Furtar_ é pouco, leia Schopenhauer, um

má língua sem precedentes, e o mais que a experiência lhe aconselhar.

Ouça os conselheiros... Eu conto uma história a propósito de

conselheiros. Li-a em um volume de José de Magalhães, escritor que

deve ler, demais a mais colaborador da _Luta_, e vou dizer-lha dum

fôlego: «Um dia que Çakia-Muni, príncipe jovem e feliz, a quem tinham

ocultado as doenças, a velhice e a morte, saía com um séquito numeroso

pela porta oriental da cidade, para se dirigir ao jardim de recreio

de Lumbini, encontrou no seu caminho um vélho desdentado, decrépito e

coberto de rugas, articulando com dificuldade sons desagradáveis. O

príncipe, admirado, pergunta porque chegou aquele homem a tal estado.

Em resposta consegue saber que todos os homens chegarão a estado

semelhante, salvo se a Morte misericordiosa os tomar. Desconhecia o

príncipe tambêm o que era a Morte. Mas doutra vez que saía a passeio

topou no seu caminho um esquife em que levavam um homem que já nem

respirava, nem pensava, nem gemia. Já não conhecia o sofrimento e

poderia Çakia-Muni passar por êle cem vezes, que o vassalo submisso,

dedicado e reverente, nem uma vez se ergueria para o saudar. Tambêm o

príncipe não conhecia que cousa fôsse doença, quando o encontro dum

vélho ulceroso, chaguento e miserável lhe veio patentear mais uma

miséria a que estamos sujeitos, a que todos os homens se sujeitam, e a

que mesmo réis ou príncipes, imperadores ou párias, se não podem furtar.

Foi então que Çakia-Muni deliberou não ouvir mais os seus conselheiros

e considerar. E fêz bem. Fêz muito bem. Por ter ouvido demais os

conselheiros é que aquele outro rei veio em fralda para a rua.

Todos os conselheiros diziam que êle estava vestido com um estôfo

maravilhoso, e tantas vezes lho disseram que êle acabou por acreditar.

Exactamente como aquele Marques a quem tantas vezes chamaram Marquez,

que êle acabou por se julgar assim. Foi preciso um garôto, um garôto

insurreccionado, atrevido, irreverente, encarrapitado numa árvore,

berrar lá de cima «O rei vai em fralda!» para que êle caísse em si e

corresse aquela choldra dos conselheiros. Se algum dia os conselheiros

disserem a V. Magestade que mais isto e mais aquilo, V. Magestade

duvide sempre. Duvidar não fica mal aos mortais, embora êsse mortal

seja um rei.

Para reinar bem, é preciso ser sábio, ser prudente, ser justiceiro,

recto e generoso. É muito para um homem só, mas com um pouco de boa

vontade tudo se consegue. Ser sábio ainda é o menos. E por essa

história fora há tanto bom rei de letras gordas... Ser prudente e ser

justiceiro são qualidades indispensáveis. Prudente como a Prudência e

justiceiro como Salomão. Assim se governa a contento dos governados e

os governados se contentam com quem os governa. Já se dizia isto no

tempo de Gôngora, em que parece escrito, pelo trocadilho.

Para bem reinar é preciso conhecer os homens. Para conhecer os homens é

preciso ou ser filósofo ou ter sofrido. E, que demónio! não é difícil

ser um bocado filósofo e sofrer o bocado que lhe falta.

Mas reinar é uma cousa e falar é outra. Os que falam mais não são os

que melhor governam, nem os que mais prometem que melhor cumprem.

Reinar é uma cousa difícil. Isto já se dizia há séculos em vélhos

livros poeirentos e vernáculos. Vernáculo e poeirento é quási sinónimo,

nestes tempos em que vélhos e novos «galicismam e escabeceiam».

E visto que o ofício é governar, nada de montarias. Ainda que os

conselheiros de hoje são cortezãos de cheviote vulgar e não diriam

nunca «Senão...», aquele senão histórico que vem nas crónicas e de que

a história reza, com prólogos de muito louvor.

Eis pois os tópicos essenciais da arte de reinar, complexa arte de que

profanos não percebem. Ser rei é bonito, mas não é lá muito bom ofício.

Não sei mesmo o que êles pensam a respeito da sua ocupação. E curioso

seria reunir as opiniões de cada um deles sôbre o emprêgo que lhes

deram. Consultar o Kaiser, êsse Guilherme II da Alemanha e dos bigodes,

o _Cleopoldo_ da Cléo, o rei de Espanha, o de Itália, o da Grécia, os

de tôdas essa terras. Inquérito lembrado a uma revista que explore a

especialidade.

E já que falei em reis, em reinos e em reinados, aí vai uma anedota

que, se não fôr verdadeira, nem por isso deixa de ter bastante

filosofia:

«A um rei pediu uma ocasião um frade que lhe desse quarenta moedas

para comprar uma mula. Respondeu o rei que não tinha, ao que o frade

objectou: «Falai baixo, meu senhor, porque se essa gente--e indicava a

turba dos cortezãos--sabe que V. Magestade não possui quarenta moedas

para comprar uma mula, nem um deles deixará de se ir embora».

Religiões

As religiões, ia você dizendo?!... E como o filósofo erguesse o focinho

em ponto de interrogação, eu volvi solene: «Sim, amigo Tibério: Essa

cousa de religiões é uma cantiga. Positivamente uma cantiga. De resto,

não me julgue você ateu ou pedreiro livre. É certo que não vou à missa,

não sei o padre-nosso, não trago sermões, nem sou papa-hóstias. Isso

não. Mas tambêm não faço bolas de sabão, nem deito papagaios, nem quero

saber da vida alheia. Ora daqui a ateu, amigo Tibério, que diferença?!

E você, se duvida, escute: Eu acredito que, quando a cabeça não tem

juízo, o corpo é que o paga. Emquanto a religiões, dir-lhe-hei, muito

à puridade, que acredito. Acredito e como é sempre bom estar bem com

Deus e com Satanaz, tenho para meu uso uma data de deuses. A todos

respeito, tiro o chapéu a todos, se êles me estendem a mão não lhes

recuso a minha, se os encontro, inquiro solícito como vão lá pelo céu a

mulher e a pequenada--isto aos deuses casados; aos outros pergunto-lhes

que tal vão da figadeira, se passaram bem a noite, emfim, cuidados de

gente bem educada.

Assim, como trato bem a todos, êles vão-me deixando viver tambêm, na

paz do Senhor.

Respeito o urso, o deus dos siberianos, mas não lhe estendo a mão.

Respeito as serpentes, como os africanos, mas não me chego muito. E

para ser um bocadinho descrente, valha a verdade que não acredito muito

que seja grande fortuna ser morto por um leopardo, como acreditam os

nossos irmãos do Dahomé.

Dou-me óptimamente com Ilâh ou Shamsh, o deus Sol, e tenho em minha

casa um gato chamado _Marau_, que deve por certo ser descendente do

gato sagrado de Heliópolis, no tempo de Rã. E quantas vezes, quantas

vezes olhando para êle eu considero;--para êle que só reconhece, na sua

irreverência felina acima de si o carapau.--«E é isto descendente do

sagrado Rã, a quem os sacerdotes daqueles tempos oravam: «Tens a cabeça

do deus-sol, tens a fauce de Thut, o que é duas vezes poderoso e senhor

de Hermópolis! As tuas orelhas são as de Osíris, que ouvem tôdas as

preces; a tua bôca é a do deus Tum, o deus da vida, que te manteve

impoluto; o teu coração é o de Phtah, que te lavou os membros de tôda a

nódoa! Tens os dentes de Chunsu, o deus da lua, e as coxas de Horus, o

que vingou seu pai Osíris!»

O gato de Heliópolis teve um santuário, um bosque frondoso, e fiéis.

Fiéis como tem agora às sextas-feiras o Senhor dos Passos da Graça.

Não era assim meia dúzia de fidalgotes. Eram aos seis, setecentos mil,

fora os bandos de crianças levadas pela mão ou ao colo pelas mães,

diz o nosso Oliveira Martins: «Aschoreas de fiéis subiam, os gritos

da flauta convidam os deuses, as castanholas, como a antiga matraca

selvagem, excitavam o fervor das danças sagradas. Balouçavam-se as

barcas no rio, levando, trazendo gente; sussurrava a turba e um côro

de orações obscuras enchia o ar de evocações fantásticas. Os talismans

de Bast afugentavam os maus espíritos; por isso os romeiros levavam

ao pescoço uma cabeça de gato, como bentinhos». E mais se diz que a

pintura da lua de Bast e a imagem do gatarrão «enchiam de contrição os

romeiros».

Aquilo é que era. Naquele tempo a vida estava para os gatos. É claro

que não explico ao meu o que foi o avô dele, porque, estou certo que

êle ignora que tem parentela tão distinta. Deixemo-lo viver na sua

ignorância. Quem sabe! Podia tornar-se exigente.

Depois, gosto das vacas. Uma foi deusa, a vaca de Hathor. Dos bois

não gosto muito, mas tenho-lhes respeito. Já alguns atrevidos se teem

atrevido de mais e o resultado é êles marrarem. Depois ainda, pondo

de parte os paus marrantes, êles teem na família Mnévis, boi louro ou

branco que se venerava em Heliópolis--uma espécie de jardim zoológico

da antiguidade; e Apis, boi negro, parente não sei em que grau do

_Capirote_, aquele célebre que entrava em corridas e comia à mão,

coitadinho.

Respeito Astarte, a divindade de Sidon, e Milkom, deus dos amonitas;

Kamosh, deus dos moabitas e Moloch, deus de outros povos. Respeito

Jeová e Baal, Cristo e Confúcio, Maomet e até o seu profeta.

Respeito-os a todos para que todos me respeitem. Respeito Santa Bárbara

para que leve as trovoadas para onde não façam perca nem dano; S.

Marçal, para que nos livre dalgum raio de ao pé da porta, e todos os

santos e santas da côrte do céu.

Aqui tem você, Tibério, uma restolhada de deuses e de religiões. Há

mais, que tenho em casa com a etiqueta conveniente. Veja você qual

a que mais lhe convêm. Parecem-se tôdas um pouco. Que você adore a

Senhora das Dòres, ou Apis, o boi negro; que você adore o Sol ou a

chuva, um manipanço ou um bentinho, tudo é adorar, amigo Tibério. Quere

você um conselho? Quere? Pois bem, trate-os bem, mas não acredite

neles. Nunca lhes peça nada. Porque; nesse ponto, os deuses são como

os homens, e como os homens conhecem-se nas ocasiões. Não peça, porque

os irrita. A gente, para viver bem com os deuses, deve mostrar que não

precisa deles. Depois, se você tem lido, deve saber que esta cousa de

ser Deus está muito por baixo. Deus foi Mercúrio e era um larápio; Deus

foi Júpiter e era um transformista; Deus foi Saturno, aquele vélho

Saturno de barba branca, e comia os filhos, o ladrão!

Plutão era tão mal encabado para Deus que o mandaram para as profundas

dos infernos; Baco sempre era um Deus que dormia pelas tabernas. Rara

era a noite que a polícia o não levava para a esquadra, donde, quando

êle acordava, o mandavam embora, não sem lhe terem dado uma valente

descompostura: «Que tomasse juízo; que se emendasse, que era indigno

dum Deus; que era a vergonha da cara do Olimpo». Mas qual! O patife

reincidia. Está já reformado, mas tem ainda muitos fiéis.

Ora que quere você, amigo, com Deuses desta ordem?! Tão bons são uns

como os outros.

O próprio Cristo foi um pusilânime. ¿Você lembra-se da bofetada? Só

teve génio quando agarrou no chicote e bateu nos vendilhões, uns pobres

velhotes, que, chatinando, levavam a vida como Deus era servido.

S. Pedro, o guarda-portão, foi pescador nos seus tempos, e por isso, já

sabes, os pescadores vão todos para o inferno.

É por isso, amigo Tibério, é por eu estar bem com todos que os conheço.

Exactamente como os farmacêuticos que preferem sempre as drogas feitas

em casa dos vizinhos. Não os aturo. Talvez sejam bons os que não

conheço. Duvido e não me tenho dado mal. E por mais que parafuse, não

chego a perceber porque razão é que Deus não se zanga por um padre ter

o chapéu na cabeça na sua presença e dá o cavaco por ver o chapéu na

cabeça de qualquer mortal. Altos desígnios!

Ah! mas no outro mundo é que são elas. Deus envia-me para Satanaz.

Mas êste, que não pode ver Nosso Senhor nem pintado, sabe que é por

vingança que êle me faz aquela partida e, em logar de me frigir,

encarrega-me de escrever a crónica do seu vizinho do andar de cima.

Então é que eu direi o patife que êle é.

Estou desconfiado de que em morrendo nem Jesus Cristo me vale. E como

a viagem não é das mais pequenas e incerto o destino, ou recomendarei

nas minhas últimas vontades que, à semelhança do que faziam aos

defuntos na Suécia, que lhe metiam no caixão o cachimbo, a bôlsa de

tabaco, os fósforos e algum dinheirito para a viagem,--encerrem no meu

tudo isso, uns volumesitos para ler, papel, pena e tinta para escrever

as minhas _Memórias_. Não quero confiar êsse encargo ao snr. Fernando

de Lacerda, porque temo que êle diga que são dele, as _Memórias_. E

estou certo de que em sucesso--como se diz à francesa--não ficariam

muito àquem das _Memórias duma actriz_, de Mercedes Blasco.

Se, alêm disso, quiserem meter mais um chapéu de sol e umas galochas,

como se faz em Reichenbach, na Alemanha, e uma certidão de baptismo com

o meu nome e sinais, atestando a bondade dos meus costumes e a pureza

da minha fé, como se faz na Rússia, tambêm não será mau.

Crónicas imorais · 第 4 / 11 段