Publicado primitivamente em crónicas, recolhidas agora em volume, êste

livro nada destôa da obra de Blasco, mesmo se dissermos que Blasco é

autor de livros maravilhosos como _La Horda_, _Entre naranjos_, _Flor

de Mayo_ e outros. E que, alêm disso, está horrorosamente traduzido

em tôdas as línguas, como o Máximo Gorki, de quem um entendido me

dizia outro dia: «Gorki é um mártir. Imagine que êle, escrevendo em

russo, tem sido traduzido em tôdas as línguas e dialectos por aí

abaixo». É assim uma cousa parecida com uma história contada aqui e

que mil bôcas fôssem passando umas às outras até Alcântara. Cada uma

tinha dado um átomo da sua originalidade. Tinha ido substituindo ou

transformando. ¿Pois não é uma lei que «na natureza nada se perde,

tudo se transforma»? Quando chegou a Alcântara a história está tôda

transformada. Deixou de ser do seu inventor para ser duma sociedade

anónima. Tal qual Gorki. «O Gorki em russo, diz o meu interlocutor,

parece-se tanto com o que aí conhecemos, que foi traduzido do espanhol

para onde havia vindo do francês e assim por diante, como uma galinha

se parece com uma espada, para não dizer um ôvo com um espêto».

O Oriente deslumbrou Blasco. Foi, viu e publicou o seu livro. Acho

bem. Acho bem, tanto mais que deu aos seus 20:000 ou não sei quantos

leitores o prazer de ler um livro adorável e desenfastiadamente

escrito, que nos põe bem com a arte e com as viagens.

E agora, que fechei o livro e me preparo para fechar a crónica,

sempre lhes direi que o trabalho é uma cousa consoladora. Eu penso

assim. O meu vizinho,--todo o cronista tem um vizinho pensador ou

pensativo,--pensa que o trabalho é bom para preto. Não importa. Eu

penso que o trabalho ainda nos põe bem com a vida e que, se assim não

fôsse, eu não teria ido ao Oriente em espírito, não teria lido um livro

magnífico e não teria gostosamente esportulado os seis tostões que me

custou o livro de Blasco.

As flores

Certa ocasião em que, ido dos confins de Lisboa, me decidi a visitar o

solitário poeta do _Hereje_ e da _Traição_ na sua casa da rua da Bela

Vista, à Graça, ouvi dele, ao perguntar-lhe qual a sua flor favorita,

a seguinte resposta: «Que sei eu, meu amigo? As flores são como as

criaturas. Há nelas tambêm uma hierarquia. ¿Quem pode deixar de adorar

uma dessas rosas do Japão, aveludada, enlanguescida, aristocrata,

soberana? A rosa chá é uma duqueza formosíssima e decotada. Ah! a rosa

chá! Mas tenho uma decidida predilecção pelo cravo rubro, o cravo

sangue, estridoroso, flamante como uma bandeira desfraldada. O cravo

petulante! A violeta é uma menina romântica. Há violetas que sabem de

cor versos inteiros de Soares de Passos. A camélia é uma delambida.

Não veste bem. Tem algo duma burguezinha carnuda e afectada. Mas não

desadoro na sua humildade o cacto silvestre e a flor de lis».

Ora, como o meu querido Gomes Leal, considero que não há nada que se

pareça tanto com uma linda mulher do que uma bela rosa. E por isso é

que, sempre, ao ver uma rosa me lembro duma bela mulher. Ao ver um

campo de flores, um jardim cuidado e mimado, como Alexandre ao espraiar

os olhos pelo seu exército dum milhão de homens, não posso deixar de

scismar em que tudo aquilo foi feito para morrer. Alexandre considerava

que ao fim dum século nenhum de todo aquele brilho sobreviveria, nenhum

dos seus guerreiros conservaria o seu porte marcial e humano. Eu, ao

ver a _montre_ dum florista, na falta de jardins por onde alongar os

olhos, penso tristemente que nada restará daquela beleza ao fim de

cinco dias. Envelheceram os cravos, murcharam as rosas, penderam os

lírios, os amor-perfeitos secaram. O próprio funcho, o feto silvestre,

êsses mesmos se vão secando. E de tôda aquela beleza nada resta,

nada. Fôlhas sêcas, fôlhas moribundas, flores agonizantes. O tempo,

impiedosamente, com sua mão gelada as tocou e lhes foi a pouco e pouco

dando a morte...

Uma rosa branca é uma linda mulher. A mulher envelhece como a

rosa; a rosa morre como a mulher. Conservo na minha vida uma grande

saudade. Foi duma rosa branca, enorme, perfumada, que numa jarrinha,

onde um par dulcíssimo e precioso, entrajado à Império e miniaturado

à Watteau, dançava um clássico minuete, viveu, agonizou e morreu.

Trouxera-a uma tarde, déra-ma não sei quem. Posta na sua jarra, depois

de mil cuidados, a rosa era linda e desdenhosa. Linda e desdenhosa me

acostumara a vê-la. Falava-me às vezes. O seu perfume dizia-me cousas

estranhas, misteriosas, exquisitas, que me embriagavam, que me faziam

sonhar.

Acostumei-me a corporizar a rosa.

Já não era uma flor com a sua anatomia que a botânica me ensinara.

Era uma linda criatura, sonhadora, melancólica, fiel e amada, que me

fazia feliz, mas que se definhava na sua solidão. A-pesar do calor

dos meus beijos, do meu recolhimento profundo e magoado, ela foi-se

«pouco a pouco amortecendo», como no soneto célebre de João de Deus.

Uma dorida mágua a mirrava e entristecia. Sem saber porque, via a minha

rosa tossir. Mimei-a. Incapaz de amar alguêm, de a alguêm ser fiel,

ageitei-lhe o pouso, dulcifiquei-lhe a estada. Fui seu enfermeiro

vigilante. A pouco e pouco, porêm, a-pesar-de todos os meus cuidados,

emurchecia. Uma tristeza vaga entrou com ela. Perdeu o brilho. Do setim

das suas fôlhas sumiu-se o lustro, e amarrotou-se como as saias de

sêda que se metem a trazer por casa. Encarquilhou-se. E um belo dia,

como aquela donzela dos versos de Vítor Hugo, que morreu valsando, a

minha rosa morreu. Tombou da haste agonizante. Docemente, tristemente,

assisti à sua morte. Vejo agora no fundo duma caixa, o seu caixão,

aquela rosa que foi o meu único amor, e que é hoje a única saudade da

minha vida. Porque amei estremecidamente aquela linda rosa aveludada

cujo perfume ainda hoje me entontece. E não a posso ver, ao seu

cadáver, uma múmia galante e ressequida, que não entristeça. Era tão

linda!

Tambêm amo apaixonadamente as violetas. Diga embora o meu poeta que

elas são românticas. Eu adoro os românticos, porque não sou no fundo

mais do que um romântico que se travestiu em homem desta época para que

o não roubem, para que o não assaltem, para que o não explorem, para

que o não espanquem. Se adoro os românticos, é porque êles são afinal

os únicos que sabem sentir e os únicos que souberam amar.

Camilo, o romântico apaixonado, amou outra vez ao escrever a D. Maria

Izabel as cartas de amor que seu filho assinava. E pelo rapto foi

uma flor que o vélho romântico indicou para dar o sinal no peitoril

da janela da raptada. Uma flor! Camilo, que fôra um romântico tôda a

vida, como um romântico amando, e odiando com uma sanha que só hoje se

encontra nos vélhos alfarrábios, como um romântico morreu. Quem poria

hoje uma flor? diz Alberto Pimentel. Ninguêm. ¿Tambêm, quem ama hoje

as flores apaixonadamente? Um ou outro maduro que as cultiva, que as

estremece e que as chora. Adoro as violetas. São simples e são modestas.

O perfume das flores é o espírito das mulheres. Há flores magníficas,

supremas de graça, estonteantes de côr, que não cheiram. Não gosto

delas. Há mulheres vestidas de setim, perfumadas a lilás, que não teem

perfume. Quem as pode amar?

Os homens, querendo corrigir a natureza, fizeram flores de conta

própria por cruzamentos e enxertos. Sairam flores macabras, flores

_canailles_, flores que lembram _cocottes_, berrantes, auriflamantes,

estonteadoras. Mas não cheiram. Não teem perfume. Como o pintor da

antiguidade que encomendara ao discípulo uma Vénus e que êste lha

apresentara ataviada, mas feia--gargantilhas de pérolas, barreira de

ouro, colar de diamantes, pedraria em profusão--as flores cruzadas são

lindas mas não teem perfume. E logo a resposta do mestre nos vem à

bôca: Fizeste-a rica porque a não pudeste fazer formosa! É o mesmo.

Porque as não puderam fazer perfumadas, fizeram-nas formosíssimas.

É agora a época das flores. Os dias de sol, lindos, dias tépidos

como os de agora, fazem amar as flores, porque ¿quem as pode amar em

dias londrinos, de nevoeiro e chuva? ¿Quem pode viver sem o perfume

da violeta? Se não fôssem as violetas, a vida seria duma monotonia

assustadora. E tão indispensável se tornam à vida que duma linda mulher

sei eu que não pode viver sem elas. Quantas vezes, bocejante de tédio,

neurastenizada, ela me diz parafraseando a frase célebre do filósofo

alemão:--«Ah! meu amigo! Se não fôssem as violetas eu não gostaria de

viver». Ao seu peito um ramo de violetas rejuvenesce eternamente. No

seu toucador um frasco de violetas perfuma o ambiente e lhe perfuma a

carne. À sua mesa certas são as violetas, em que os seus dentes gulosos

se atufam, como nas fôlhas de rosa os dentes brancos dessa poética

_Madona do Campo Santo_.

Depois destas flores mimadas, veem as flores modestas e as flores

terríveis. Flores modestas, a papoula e o malmequer. «Mal me quer...

muito... pouco... nada». Sina rudimentar, sina do acaso. Aos iludidos

ela diz sempre falso: “Muito”. O tempo vem e afinal era “nada”. Como o

malmequer mentiu?! O malmequer é sempre mentiroso. Se diz “muito” a

gente duvida e tem sempre razão. Se diz “nada” a gente não acredita. E

é por isso que falando êle sempre verdade, porque sempre diz _nada_, a

gente o não quere nas jarras, o desfolha sem amor. Porque nós odiamos

quási sempre quem nos diz a verdade sem lisonjas e sem paixões.

Nas flores terríveis temos a mancenilha. A mancenilheira é uma criatura

diabólica. Persisto em corporizar as flores. A mancenilha é uma mulher,

uma mulher que dá a morte. Uma daquelas mulheres que matam, sorrindo,

que sorrindo arruinam, e que trazem consigo sómente a infelicidade.

Nunca encontrei nenhuma mulher-mancenilheira. Eis aqui porque adoro a

mancenilha, que não conheço. Porque a não conheço e porque dá a morte

sorrindo.

Quanto custa uma mulher?

Tibério, filósofo machacaz e meu amigo, tendo lido nesse extraordinário

doido que se chamou Nietzsche, que tudo pode ser pago porque tudo tem

seu preço, veio a mim, resoluto e inquietador, saber qual o preço que

em boa razão se deve dar por uma mulher. Tibério é um filósofo cheio de

ironia azêda e eu, pobre de mim, confessando-lhe a minha ignorância,

resolvi consultar os padres mestres, os calhamaços e os chavões.

Áquele que perdêra os óculos a arrumar a livraria, aconselhou Castilho

que os procurasse no Dicionário, letra O, que lá estavam. Pois nos

livros,--nos livros há de tudo como na botica--devia vir por fôrça a

resolução do problema.

Procurei, deitei abaixo a livraria e nada. Os meus livrecos eram todos,

ou quási todos, subservientes. Em lhes cheirando a saias...

Tinha ideia dum tal Schopenhauer, filósofo de bôca amarga, estômago

sólido e algibeira quente. O que êle dizia, porque todos estes

filósofos dizem cousas, era pouco, mesmo muito pouco.

E Tibério esperava resposta, mãos nas algibeiras, perna traçada.

Então?...

Suava. Guérin Ginisty dizia, isso lembrava-me eu, que, no fundo,

uma mulher nunca resiste a bons argumentos: «Com quinhentos luíses,

a mais segura delas, indigna-se... Com mil, defende-se... Com dois

mil, perturba-se... Com mais alguma cousa, cede». Tibério amigo, aqui

tem você! Foi o que se pôde arranjar! Mas Tibério sorria e fazia uma

careta. Acho forte, respondeu! Dois mil luíses é muito! Acho caro!

Muito caro, mesmo.

E Tibério, lesto, acabou o cigarro,--não sei se disse que Tibério fuma

desalmadamente!--abriu a porta e foi-se.

Agora aqui fico considerando na pergunta. Fôra uma vergonha tanta

ignorância junta. Mas, era a derrota de tôda esta livralhada de que

me ufano tanto. Era a derrota de tudo isto, ante o gesto desdenhoso e

a pergunta irritante dum filósofo safardana e impertinente. Nada, não

tinha geito nenhum. Considerei, estudei o problema.

Já lá vai algum tempo depois da pergunta. Agora, se o bom Tibério me

aparecer, mostrando o meu ar mais profundo e o meu mais retórico gesto,

dir-lhe-hei:

«Tibério amigo: O preço duma mulher varia conforme as circunstâncias.

Na Austrália compra-se uma mulher por uma garrafa de vidro, ou por uma

faca ferrugenta. Hás-de concordar que não é caro! Na Cafraria, por uma

quantidade de cabeças de gado bovino, quantidade que varia de dez a

setenta cabeças. Na Índia, por um porco ou por bois. Mas, se deres mais

de dez bois, já foste comido! Na Islândia compra-se uma mulher por um

marco. Em pontos da África por uma garrafa de rum, e olha que não é

barato! O rum sempre vale mais.

Entre os povos civilizados, o negócio é mais demorado. Casar com ela, é

a fórmula. Então dá-lhe o nome. E ela vendeu-se ou porque sim, ou por

ver a sua tranquilidade assegurada, ou porque o marido tem boa posição,

é deputado, ou lhe pode dar vestidos. Há tambêm uma outra moeda. Essa,

chama-se Amor.

O Amor é uma bebida e uma embriaguez. São duas criaturas que se

encontraram e se propozeram beber do mesmo copo. Beberam até cair.

Depois a bebida começa a repugnar-lhes e adormecem. Essa repugnância

chama-se Saciedade e o adormecer, Esquecimento. Quem um dia adormeceu

no amor ou quando acordou está curado ou não acordou jamais.

Ora eu, amigo Tibério, não acredito no Amor, cousa em que jamais algum

homem forte acreditou. O amor é uma cousa para crianças, uma teia de

aranha. É preciso estar quietinho para que ela se não rompa. Depois

não acredito que tu ames! ¿Pois tu, com êsse carão ignóbil de farçola,

sabes lá amar? Mesmo que amar é subalternizar-se. Quem ama curva-se.

Quem ama, meu caro amigo, transige. Quem ama, sim, quem ama... emfim

não te aconselho a que compres mulher nenhuma com essa moeda. Sai pelos

olhos da cara.

Bem. Mas suponhamos que realmente a queres comprar por êsse preço.

Eu te digo: Tu que a queres, é porque a desejas. Ora não há nada tão

jesuita como um desejo. (Isto é de Balzac, mas tão profundo que parece

meu). Mas desejar não é tudo. É preciso paciência, uma paciência

enorme, uma daquelas paciências que vulgarmente se chamam paciências

de ...cordato paciente. A paciência, ou leva ao triunfo, ou à cura.

Com paciência, saberás esperar. As impaciências são nefastas e tão

funestas em trato de gente limpa que Acácio, conselheiro, a caminho de

presidente do conselho, diz que elas são próprias da gente ordinária.

Acácio é chavão, Acácio sabe disso. Nada percebe de amor, mas tem

dinheiro, e quem tem dinheiro, tem tudo e mais amor.

Ora, ia dizendo! com paciência descobrirás o fraco da pretendida. Lá

diz Molière: Não é bem Molière, é Castilho, mas isso não tira nem põe:

Nem o mais forte resiste

Aos que no fraco lhe dão.

Que mais queres? Meio Brummel, um quarto de Tartufo e um logar no

ministério da Fazenda deve chegar. E, se não chegar, olha que sempre te

digo que é caro. É pela hora da morte. «Um animal de cabelos compridos

e ideias curtas» como quere Spencer!

Acredito que, não a achando em conta, a não comprarás. «Não te deixes

ir atrás dos artifícios da mulher» é o palavreado bíblico, e olha que é

certo como as cousas certas.

Comprar a mulher em troca dum vitelo, como se faz na Hotentócia, não

acho caro.

Em troca duma tanga vermelha e quatro penas de pavão para a carapinha,

ainda está bem. Dum boi, se os bois abundam, ainda não está fora da

conta. Agora comprá-la pelo casamento acho caro. O casamento «é um

contrato perpétuo»... _por tôda a vida_, bem sei, diz o código. Ora

um contrato por tôda a vida, para sempre, de que um homem se não pode

evadir senão morrendo, acho duro. E é comprar uma cousa que não serve

para nada e de que a gente se não pode desfazer vendendo-a a terceiros.

Nada. Não te aconselho êste meio. Pelo amor, vá. Amor com uma parte de

indiferença e duas de desconfiança.

Mas Tibério amigo, isso é platónico? Estarás tu apaixonado? Apaixonado!

Mas isso é inacreditável num scéptico, num ironista, num desenganado,

num filósofo emfim. Como os filósofos são frágeis! Como o homem é

afinal e no fundo uma pena leve que o vento levanta e muda. Como você,

Tibério, se deixou apaixonar.

(Aqui Tibério protestará com a veemência dum deputado da oposição e eu

rejubilo por o meu amigo Tibério ainda não ter escorregado).

Bem me queria parecer! você, amar! Você o mordaz, o cínico, o que diz

conhecer os homens e as mulheres!

Olhe, Tibério, quere um conselho? Os homens fortes não amam. Amar

é próprio dos fracos. Tenha sempre esta máxima à cabeceira. Guerra

Junqueiro disse a Mercedes Blasco que pusesse à cabeceira da cama a

vida de Cristo e a vida de Buda. Pois digo-lhe que guarde à cabeceira

da cama a recordação do que lhe digo. Tenha sempre presente. O amor é

como o toucinho, e dêsse diz Paulo Diacre, que todo acaba por criar

ranço. Ora quem começa a amar acredita lá que o seu toucinho crie ranço

algum dia!?

Tibério: Meu amigo. ¿Leu você nos jornais a notícia daquele homem que

se suicidou em Paris, por causa duma mulher que o deixou? ¿Leu você

a história daquele que, ciumento, furou a pele doutra com uma dúzia

de punhaladas? ¿Leu você a daquele outro que, por causa dEla, matou o

rival com uma cacheirada no toutiço? Leu você? Ora aqui tem exemplos

dos que as compraram bem caro, se é que as compraram mais do que em

Ideia. Veja você se pode passar sem isso. Não compre nenhuma. Veja

se alguêm lha empresta, ou se a encontra. E se emfim sempre se puser

a comprá-la, compre-a por tudo menos por essa tal moeda que se chama

Amor. Não se apresse. Vem no Frei Luís de Souza... «As cousas são

grandes ou pequenas, segundo a medida do desejo com que se buscam...»

Quanto menos as desejar mais baratas lhe aparecerão.

E que pena que Tibério já se tivesse ido embora! Era um discurso tão

bonito!...

Teatro nacional

As primeiras chuvas precederam a abertura dos teatros. Do Olimpo os

deuses queriam significar com isso, numa profecia risonhamente marota,

que o teatro nacional continuava a pedir chuva. Continua e continuará

«per omnia sæcula sæculorum», vá lá o latim do Borda dágua.

Chegou o inverno. Pôs-se à mão o impermeável, sacudiram-se do pó as

galochas e... abriram os teatros.

Mas há, em Portugal teatro? Certamente. Portugal tem um teatro seu e

belos dramaturgos. ¿Esquecem-se então de Gil Vicente, de António José

da Silva, o «Judeu», e de Garrett, que é moda apelidar o «divino»?

Todavia o teatro em Portugal a-pesar dêsses ancestros colossais, está

decadente, como o filho dum gigante que esteja a morrer tuberculoso.

Disso não resta a menor dúvida. Há artigos laudatórios nos jornais,

escritos pelos interessados, que dizem que nunca êle esteve tão bom. E

concluem que a peça do «nosso ilustre confrade e distinto dramaturgo X»

é a obra mais pujante que as gambiarras teem visto, já se sabe depois

do «Frei Luís», para que o Garrett não se esquente. Mas, deixem-nos

falar. É tudo mentira. O teatro em Portugal está realmente decadente.

Pergunta-se: De quem a culpa? De todos. Dos autores, dos empresários,

dos actores e do público. Os autores porque gágás de todo dão pecinhas

insexuadas, sem vida, sem cousa nenhuma; os empresários porque,

gananciosos de ofício, o que querem é explorar a beatitude do público;

o público, porque, acostumado por autores e empresários, os dirigentes,

a fantochadas e bambochas, prefere a tudo quanto é arte, que o educa e

o faz pensar, as revistas do ano, onde há piadas grossas, tangeres e

bailatas com pernas à vela e muita afrodisia, nas frases, nas coplas,

no ar, e até nas pernas. Dos actores, finalmente, porque, na verdade,

bem poucos teem senso artístico ou o procuram ter, e grotesquizam

deplorávelmente a mais simples rábula que lhes confiem. De quem é

pois a culpa? Mais do que a ninguêm aos autores e aos actores devemos

atribuí-la.

Vítor Hugo disse, no prólogo dos Burgraves, (há quantos anos isso lá

vai), que «o teatro deve fazer do pensamento o pão da multidão».

Assim devia ser. ¿Teem os nossos encarregues de teatro tentado cumprir

a verdade da frase do vélho de Guernesey? Creio que não. Os autores

são boas pessoas, isso são! (quási todos meus conhecidos! ¿pois não é

isto uma aldeia onde todos nos conhecemos?) mas erraram-lhes a vocação.

Fazer teatro para êles, é fazer peças mexidinhas, e prender a atenção

com carpinteiragens vistosas. Quanto à orientação educativa, é inútil

perguntar-lhes. Êles só conhecem os direitos de autor.

Com outros então sucede o contrário; fazem teatro por vezo peceiro, e

até pagam o scenário... se necessário fôr.

Entregue o teatro a criaturas que querem fazer vida, satisfazer a

vaidade, ou carpintejar simplesmente, o resultado é o que os senhores

estão vendo.

Quanto aos actores, quási todos são duma lamentável ignorância. E como

não são artistas, mas mercenários, é inútil procurar-lhes a menor

instintividade artística. Aparte poucas excepções, que eu apontarei se

quiser, são tapados como portas de catedral. O teatro em Portugal é

feito, como é feito tudo: por clichés. Um cliché para os pais nobres,

outro para os Scárpias, outro para os galãs, outro para os centros.

Dessa repetição ininterrompida temos que a gente não vê peças, vê

actores. Bem pode a criatura, esfalfar-se no tablado:--«Pois se tu eras

o filho do conde de Luna...»--que logo o espectador diz da platea:

«Pois sim! Bem te conheço! Tu és, mas é o Joaquim Costa!»

Sem estudos prévios do meio, sem a precisa integração no personagem,

sem recursos fisionómicos, o actor toma aquilo não como uma missão

elevada de elevadíssimas responsabilidades, mas como um logar que é

preciso desempenhar, assim uma espécie de repartição para onde se entra

logo que o pano sobe, se descansa para uma pessoa ir lá dentro, volta

e torna a ir àquela parte até que o pano baixa de todo, os bombeiros

revistam, o gás se apaga e cada um vai para casa cear com a mulher e

com os filhos.

Como não é artista e como não estuda, não tendo portanto intensidade

dramática que o agigante, que o transforme, que o complete, êle fica

sempre um mastigador de palavreado ôco, porque não transfiltra alma

ao que retorica, cantilena ou fanhoseia. Não acreditam? É vê-lo. Nas

scenas passionais, lamecha, uma lamechice de saldo, de conquistador

de criadas de servir, nas scenas scarpianas uma catadura fera e um

vozeirão--que não há criança na plateia que não chore. Para que o

actor mereça êste nome, é necessário que vibre; que não seja uma

criatura egoismada com os meses que lhe faltam para a reforma; que

tenha no estudo uma paciência sherlockolmesca, que se ensimesme, e

que crie; que busque na vida real o seu modêlo e por êle se guie; na

maneira de andar, de gesticular, de encolher os ombros, de ter as mãos,

de escarrar. Que finalmente, é isto que se lhe exige, que faça tiranos

como os antigos actores do Príncipe Real os faziam. Tão fielmente

verdadeiros que os espectadores os esperavam à porta da caixa para os

desancar; ou com a fidelidade com que o Tasso, ali no mesmo tablado,

onde êles gaguejam, representava. E tão verdadeiramente que até uma

mulher lá do alto, das varandas, bradou--abençoado seja o pão, que

aquele homem ganha!

¿Para que demónio havemos de estar a utopizar? O actor em Portugal é

um amanuense ou um funcionário público, de que D. Maria é a direcção

geral. Se o teatro está em baixo, deixem-me dizer-lhes! se não foram

êles que o estragaram, eu tambêm não fui!

No teatro o único logar compatível com a bôlsa da multidão é o

galinheiro. ¿O leitor nunca foi para o galinheiro? Pois olhe que é

curioso.

Uma pessoa compra o bilhete e vai para a porta duas horas antes. Logo

que esta se abre, deve galgar a escada dum fôlego à frente da matula

para conseguir um logarsinho donde se aviste a caixa do ponto. Emquanto

o pano não sobe, os espectadores, apertados como sardinha em canastra,

travam conversas e arranjam conhecimentos. Um ou outro misantropo

saca um jornal da algibeira e põe-se a soletrar. Os outros conversam.

Fala-se de tudo: do tempo, do João Franco, da peça que vai, dos calos

e da vida: oferece-se a casa. Entretanto sobe o pano. Tiram-se os

chapéus, cospe-se, tosse-se e apuram-se os ouvidos. Começa a cousa. Mas

com todos os santos da côrte do céu! Não se vê nada, não se ouve nada.

Esta só pelo demónio!

E aí começa uma pessoa a estender o pescoço. Estende mais, estende

sempre. Aquilo já não é pescoço, é um óculo de ver ao longe, é um

telescópio, a sair duma camisa. Quem olha da plateia tem a impressão

de que aquilo não são criaturas. São girafas, são camelos, são só

pescoços, pescoços sem fim, com dois olhos vorazes, lá no cimo, a

espreitar.

Isto são os que chegaram à frente. Os retardatários, êsses, então,

não vêem nem ouvem nada. Ficam cá nas últimas filas a contemplar a

beleza do lustre e as pinturas do tecto. Ás vezes por milagre sempre

conseguem ouvir assim uma cousa parecida com a «passagem do regimento»,

em monólogo, conforme o fôlego do actor. De resto, silêncio absoluto.

Na impossibilidade de ver e de ouvir e depois de ter examinado bem

o lustre, o tecto, o pescoço dos da primeira fila, o porteiro e os

bancos, prepara-se o espectador para um soninho descansado. Mas

logo por azar, de lá, das profundezas do palco vem por ali acima um

berro:--Ah tirano!--e a criatura acorda assustada julgando que é fogo.

Mas não, tudo voltou ao silêncio absoluto. Lá em baixo a scena continua

com estas intermitências.

Crónicas imorais · 第 3 / 11 段