Chegados, caidos no vértice duma vida estranha, tudo lhes é agressivo.

Os dignos de piedade são intrusos. Que querem? Ganhar a vida. Que

sabem? E, quando os míseros mostram os braços, já está lavrada a sua

condenação. Como a Terra Mater é saudosa! E começa a agonia de viver

a vida que já viveram, porque não é outra cousa a saudade. Mas viver

só imaginativamente. Se beijou vai-se para se beijar e estendem-se

os lábios para o vácuo. Abraçou-se e é só o espaço que se encontra.

Passa a viver-se aflitivamente. Pesa mais a enchada. A serra é

colossal. E como a planta dos trópicos que conduziram à Groenlândia,

ou como o símio que julgasse a banana definitivamente extinta da face

da terra, a criatura amarelesce e pende. Há um remédio--o regresso.

Quando partiu, se é sonhadora, padece, se é desprendida pode triunfar

talvez. Mas quantas lutas? Quantos esforços? É por isso que os

brasileiros,--é assim que se denominam os emigrantes que partiram

cedo e foram enriquecer ao Brasil--teem quási todos barriga grande.

Porque se acostumaram a armazenar o sonho no estômago. Saudades,

recordações, qual!--comer, beber, ganhar. Mas são raros. Os que voltam

veem desanimados. Os que por lá estão vão vivendo. Depois o emigrante

é sonhador e ignorante. Duas más qualidades. Há ignorantes que fazem

fortuna mas nunca ninguêm viu coalhar dinheiro a um sonhador.

São ambiciosos? Alguns. Outros partem com o fatalismo trágico de quem

vai cumprir um destino. É o caso do vélho do quadro de Sieffert. Os

ambiciosos ficam por lá, raramente voltam e geralmente o ambicioso

verdadeiro é cosmopolita, não vive para a saudade nem para ninguêm

que êle não seja. Por isso vence. Os outros vão e quási sempre

ficam. Mas se voltam--pobres emigrantes--trazem um saquitelzinho com

desilusões,--o espólio dum sonho morto,--um grande desânimo, a alma

mais fenecida, o cadáver mais surrado e uma grande ânsia de voltar--que

é isto que quási sempre traz o emigrante quando volta:--o saquitelzinho

com o espólio dum sonho morto e uma grande ânsia, aquela infinita ânsia

do regresso.

Gabriéllo d’Annunzio

Mão carinhosa e amiga manda-me de longe a última tragédia de Gabriéllo

d’Annunzio. A edição é luxuosa e o livro chama-se _La Nave_.

Exactamente no momento em que o correio me bate á porta, leio eu

_Fradique Mendes_ na sua _Correspondência_. Não sei que destino mau

nos pôs frente a frente de novo. Os livros são conhecidos vélhos e

tambêm entre os livros, como entre os conhecidos, há íntimos. Pois

encontrei-me de novo com Fradique aquela manhã em que dava uma volta

pelas estantes, como se Fradique viesse Chiado acima, neurastenizado

e aborrecido e eu lhe propuzesse uma cházada em comum. Devo declarar

porêm, que Fradique não é meu íntimo. Fradique é um aristocrata, _snob_

um pouco, e muito pretencioso. É tambêm um _vencido da vida_ que se

dá ares, mas confesso-lhes, prefiro aos vencidos os vencedores. Ia

eu exactamente quando Fradique se revolta contra as «ideias feitas,»

fala daquelle Cornuski, ou que o pareça, e diz das angústias críticas

do russo. Diante das mais belas obras, Cornuski sentia a dúvida que o

minava. ¿Não seria êle que não sabia ver? ¿Pois era lá possível que

todos se tivessem enganado? E duvidando, achando as grandes obras

sofríveis borracheiras, ou quando muito toleráveis banalidades, o

desgraçado repetia para aturdir-se um pouco:--«Como é belo!»

Agora estou eu assim diante do livro do escritor italiano. Eu não tenho

paixão por d’Annunzio.

Acho-o cabotino até ao infinito. O seu cabotinismo não se pode medir.

O seu talento êsse sim. E duvido. ¿Será d’Annunzio o grande escritor

que eu ouço dizer a todos? Debalde busco as suas obras, debalde leio os

seus livros. Que demónio! Não me admiro, não me comovo, não rio, não

choro, não sinto. Sim, porque nenhum dos livros de d’Annunzio nunca me

fêz chorar ou me fêz sentir. São bem feitos, não resta dúvida. Mas que

diabo! E dão-me ganas de o correr das minhas estantes. Desconfio muito

que seja um intrujão.

D’Annunzio é para mim um belo decorador. A sua arte é scenografia pura.

Há sempre flores e perfumes nas suas páginas. O lilaz é talvez a sua

flor preferida. O poente a sua hora predilecta. Os seus heróis não

amam, lirizam. Os seus personagens não falam, murmuram; não sentem,

representam. E, para que ocultá-lo, apesar da sensualidade capitosa que

os inunda, iria apostar que são todos castrados.

Para d’Annunzio o amar é assim como que uma oração, como que uma doce e

suave embriaguez. Não é a rajada que passa, dominadora e perturbante,

não é um cataclismo, não é uma tempestade. Não é. O amor nele é leve,

muito leve, imaterial, bizantino e todo espiritualizado. Há sempre luar

e sempre músicas celestes vibram psicologias profundas.

Mas eu leio d’Annunzio. Leio-o mesmo muitas vezes para ver se o

percebo. E no meu espírito fica uma impressão muito vaga de tudo

aquilo, muito vaga e muito dolorosa. Porque, decididamente, não tenho

olhos para ver aquelas belezas tôdas e o meu espírito não pode, sem

_Bœdecker_, penetrar naquelas regiões encantadas da prosa.

Um livro há que eu guardo, que leio com prazer e tenho como óptimo. É

o seu _Episcopo & C.ª_ e os seus contos. Êsses sim. Ponho-o a par dos

deliciosos de Guy de Maupassant. Ali há sinceridade e eu sinto quando

os leio. A operação feita a bordo do lugre _Trindade_ e o seu _São

Pantaleão_ de pedra, que esmaga a mão a um dos condutores, que depois

lha vai oferecer, são prosas magistrais. Mas, declaro: _O Fogo_ é

qualquer cousa de ultra-humano, de divino, do demónio que os leve, que

não sei o que êle quere dizer. Não me falta vontade para o compreender.

Mas aquilo ainda não é para mim. Linguagem para deuses só a deuses é

compreensível. E, à hora do poente que êle tanto prefere, o céu lilaz,

lilaz a terra tôda, a treva abraçando o mundo, vindo a curvar-se num

beijo sôbre o dia que morre, eu volvo desanimado:

-Deve ser essa a razão!...

D’Annunzio representa o homem para quem o nó da gravata todos os

dias é uma tortura. Tenho a impressão de que êle se perfuma e é

incorregívelmente, viciosamente _dandy_. Da sua vaidade não falemos.

Deve ser infinita a vaidade dêste pobre diabo, contou-me uma vez o

Eclesiastes.

A sua prosa é tambêm assim. Não tem arestas. Tão harmónica, que parece

ter cópula com a música. Ricamente vestida, mas só isso. É mesmo o que

a caracteriza. Se o _desideratum_ é agradar às mulheres, d’Annunzio

deve ter conseguido, porque às mulheres agrada-lhes sempre o que não

percebem. Depois, a feminagem perfumada que impregna os seus livros faz

com que seja buscado com prazer e com prazer deixado. Daudet, na minha

estante, está perto. E, devo confessar-lhes, eu adoro Daudet. Daudet é

o poeta da vida. Objectam-me que d’Annunzio é um poeta. Mas Daudet faz

a poesia da prosa, com princípio, meio e fim. D’Annunzio é indiferente.

Leiam os senhores os seus livros por onde quiserem e encetem a leitura

por qualquer página. Isso não fará diferença. Faz sempre sentido. Há

lilaz em tôdas as páginas. Poeta foi Gauthier e eu ainda hoje o leio

com prazer. Tem muito de misticismo êste Gabriéllo! diz uma dama. Pois

bem, minha senhora, o lugar dos místicos é no céu. Queira dizer ao seu

d’Annunzio que mude de feitio senão perdeu um freguês. E é que nunca

mais o compro!...

Uma cousa curiosa que eu tenho notado é que entre os artistas que

não teem gravata e aqueles para quem o nó da dita é uma preocupação,

os primeiros teem sempre mais talento. Não sei porque, mas creio que

entre um Verlaine que morre no hospital e um Gabriéllo que manda fazer

o mausoléu em mármore, o do hospital vale mais. Mas eu não discuto!

Os senhores não se zanguem, ou zanguem-se embora, que eu nada lhes

levo por isso. Isto é comigo sómente. Se eu lhes digo que prefiro o

Baudelaire ao Torquato Tasso!

Se d’Annunzio é poeta, é um parnasiano. Se é prosador, a sua prosa

talvez seja poesia. Pela abundância de imagens, pelo colorido pouco

vulgar, decoração e o não descrito, seja embora um poeta, como prosador

gosto dele nos contos. As suas novelas não as entendo. Eis o que eu

penso. De resto qualquer dos franceses ou dos espanhóis mas dá iguais.

E se querem experimentar já lhes não digo que leiam d’Annunzio e logo

Gauthier. Leiam por exemplo d’Annunzio e Suderman. Se vos não der a

impressão que os livros de d’Annunzio são escritos por uma mulher, não

sei que diga!

Tolstoi quando começou às punhadas a Shakespeare devia sentir a tortura

do russo do livro de Eça. E todavia Tolstoi com tôda a sua mansidão,

a sua paciência sofredora, a sua resignação passiva e néo-cristã não

pode compreender a tempestade de paixões que é Shakespeare. Porque

Shakespeare é o colosso do Ódio e do Amor, o Céu, a Terra e o Inferno.

E eu penso que é preciso ser-se um vélho bruto para não compreender

Shakespeare.

Outro tanto dirão de mim. Não compreender d’Annunzio? ¿O poeta do

amor subtil, dos perfumes, dos lilazes, da volúpia perene, capitosa e

aristocrata; o prosador imaterial, cheio de doçura, magistral, ilustre,

divino, mirífico; a pena de ouro que traçou o _Fuoco_, o _Crime_, as

_Virgens_? Eu sei lá! Mas é um crime! E estou repêso de confessar o

meu pecado. Eu não sabia... E ponho-me a querer entender d’Annunzio.

Tomarei um explicador. Porfiarei. A minha ignorância é lamentável.

Mas, quando estou envergonhado e confuso um diabinho irónico vem e

segreda-me ao ouvido que os outros, que o adoram, que o admiram,

percebem-no tanto como eu.

Compreendo agora. É uma «ideia feita», o culto de d’Annunzio. E como

o desgraçado Cornuski, eu, torcendo as mãos, na minha impotência de

o compreender terei que murmurar desconsoladamente o meu:--«Como é

belo!»

Um poema

(Carta ao general Henrique das Neves)

Meu amigo:

Já lá vai mês e meio de silêncio sôbre o recebimento do poema _Apoteose

Humana_, que o meu amigo teve a gentileza de me ofertar em nome do

autor. Só hoje lhe escrevo, mas lá diz o ditado... O amigo sabe o que o

ditado diz. Pediu-me a minha opinião. Sem embargo dela ser uma opinião

a pé, uma opinião infantaria, pacata, modesta e de bons costumes, vou

dar-lha. Sou pouco amigo de dar, mas emfim...

Eu podia dizer-lhe cousas muito lisongeiras do poema do seu amigo.

Podia dizer-lhe mesmo que ambos eram talentosos, modestos, bem criados,

que recolhiam a horas, não fumavam, etc., etc. Mas não. Prefiro

dizer-lhe abertamente o que penso, brutalmente, sem transigências nem

banalidades. Portanto o que aí vai é rude, com a rudeza dum homem que

não precisa para nada dos seus confrades em letras, consagrados, e não

consagrados, e que vive «achando a quàsi todos os deuses pés de barro,

ventre de gibóia a quàsi todos os homens e a quàsi todos os tribunais

portas travessas» como já nos _Gatos_ escrevia Fialho.

Bem se vê que o seu poeta, o sr. M. Joaquim Dias, nunca saiu do Faial.

Se saisse não fazia poemas a uma cousa que não conhece senão em

teoria:--O Homem. Mantegazza, que o estudou a fundo, sabe o que êle é;

eu que lido com êle, ha muito sei o que êle vale. O que lhe digo em

verdade é que êle nunca mereceu os versos do seu amigo.

O poeta julga o Homem pelos livros. Livros são, quàsi sempre,

gramofones de ideias. Deixe-os cantar. Valia-lhe mais um ano de viagens

do que ler todos os livros que tratam do Homem. É o seu amigo, médico?

É teólogo? É psicólogo? É legista? Só assim se compreendia que êle

conhecesse o assunto do seu poema. Porque o médico conhece o homem

em tôda a sua miséria; o teólogo em tôda a sua estupidez; o legista

em tôda a sua maldade, e o psicólogo em tudo isto junto. Mas o seu

amigo é sómente poeta? Poeta, nada mais? Sim, isso vê-se logo. Poeta

é sonhador. Os poetas teem ideias muito diversas de todos os outros

mortais. São poetas e basta.

Pediu-me uma carta. A carta aqui vai. Se lha não envio particular, pelo

correio, é porque receio que lhe introduzam algum décimo da lotaria

espanhola e o amigo sofra transtornos por minha causa. Mais nada.

* * * * *

Logo no prefácio diz o seu poeta: «...Fiz, pois, uma apoteose ao Homem,

a êsse ser que triunfou nas lutas terríveis do passado, que compreende

os fenómenos e as leis e progride». Ora eu não admiro o Homem. Se algum

sentimento tenho por êle ou é desconfiança ou desprêzo.

Deus, criando o homem à sua imagem e semelhança, foi um escultor

bem medíocre. E pode limpar a mão à parede, se é essa a suprema

manifestação do seu génio. Depois, maravilhosa forma de reclamo, deu às

criaturas o poder de reproduzirem infinitamente a sua obra prima.

Ora diga-me, meu caro amigo: ¿Em que devemos admirar essa obra, essa

vil e miserável máquina de ossos, nervos, músculos e tendões? ¿Que

criou, que inventou ela de produtivo? ¿Inventou a dinamite, a melinite,

a himalaíte? ¿Canhões que arrasam cidades, projécteis cataclísmicos,

blindagens pavorosas? ¿E isso que vale? ¿Inventou os deuses, os reis,

as religiões, os ritos e os dogmas? ¿E isso para que serve?

Antigamente, nos tempos primitivos, o Homem trocava um machado de pedra

pela pele dum urso. Agora troca a mesma pele por umas pequenas rodelas

de ouro, de prata ou de cobre, com uns números, a que chamou dinheiro,

que são tudo, valem tudo e tudo podem.

Antigamente não pagava décimas, nem contribuições, nem impostos. Era

senhorio da sua caverna e não necessitava de tomar óleo de fígado de

bacalhau. Não tinha botas, mas não sofria dos calos. Com a invenção das

botas vieram os calos, e com os calos o rifão que diz «quem tem calos

não vai a apertos». Parece que o general vae concordando? Apenas falei

em calos, pareceu-me ouvir dizer o meu amigo: «Diga-me cá a mim o que

isso é!»

A mulher era nua e mentirosa. O homem era quási urso, porque o urso era

quási homem. Ainda não havia médicos, nem boticas, nem literatos, e a

poesia, meu caro amigo, tinha muito menos pau de campeche. O ar era de

todos, a terra de todos era e cada um fazia o que muito bem queria.

Depois é que veio essa pouca vergonha de arregimentar a gente, sob o

nome de famílias, tríbus, nações, etc., que fêz com que viesse a praga

dos chefes, chefes e mandões de tôdas as castas e feitios, qual deles

mais nocivo e funesto: chefes de família, chefes de repartição, chefes

de polícia, chefes de estado e até generais, meu caro amigo.

Os enterros eram todos iguais. Não havia enterros de primeira classe.

Desconhecia-se o espartilho, a sobrecasaca, o chapéu alto, e as

vantagens do algodão, que impinge por boa mulher o arenque mais

chupado. Veja lá que temposinho!

Se os povos estavam em guerra era tareia bruta, mòcada de criar bicho.

Mas não metia tiros. Era tudo a cacete. Ainda se não tinha inventado a

metralhadora, o leque da Morte, nem a baioneta, uma navalha que por não

se poder trazer na algibeira do fato, se traz pendurada à cinta, numa

algibeira de lata.

Os deuses eram muitos, mas todos súcios, todos pândegos. E apesar de

não haver jornais, todos sabiam perfeitamente o que se fazia no Olimpo.

Se chovia é que Baco se empiteirara e que o vinho era branco,--que é

bebida diurética. Vá vendo!

Caminhamos pois da liberdade para a servidão. ¿Onde está êsse progresso

de que fala o seu poeta? Se êle me quere impingir que progredimos,

porque mais isto, mais aquilo... temos conversado!

Quere um exemplo? ¿O general não padece de apertos de uretra? Ora

suponha que padecia. Se fôsse no tal tempo vertia onde muito bem

desejava, que ninguêm tinha nada com isso. Mas nestes tempos de

progresso, vá o general fazer isso na rua, e verá o que lhe sucede. São

dez tostões de multa. Vá vendo que progresso tão catita!

Mas que o progresso é indubitável... sim... não digo que não. Veja lá

se nos tempos em que o homem se cobria de peles podia haver gatunos de

carteiras! Isso podia êle. Ainda não havia bolsos! E se antes de se

inventarem as casacas se corria perigo de confundir um criado de mesa

com um conselheiro de estado!

Eu embirro com o meu semelhante. É, por via de regra, cínico,

trapaceiro, mentiroso e velhaco. Li algures que êle era meu irmão... em

Cristo. Deve ser intrujice, porque eu não conheço Cristo nem seu irmão.

Quando me estende a mão lá tem a sua fisgada. E eu desconfio logo que,

se já me não embarrilou, está para me embarrilar.

Nestes tempos de progresso, tenho pena de não ser troglodita. Teria

tudo que não tenho e sobejar-me-ia muito do que tenho. Seria feliz.

Dir-me-há o general que hoje se sabe. ¿Mas que diabo de felicidade dá

o saber que êles foram muito mais felizes do que nós? Olhe que saber

alguêm feliz faz sangue mau. ¿E pode por acaso ser-se feliz, hoje? Não.

E então podia.

Aí tem. Antigamente havia liberdade. A de hoje é só poética. O homem

de hoje é um escravo e a sua carta de alforria é a morte. Se o general

contesta lembro-lhe se não tem por desventura alguma décima relaxada.

Não tem? Não tem, mas pode ter.

Como vê, não concordo com o tema da _Apoteose Humana_. Êle é de tal

ordem que, se o poeta não merece que o general lhe dê oito dias de

detenção, tambêm não é caso para louvor na ordem do dia.

Eu não concordo. Sou novo e conheço já um número avultadíssimo de

patifes. O general é velho, deve conhecer muitos mais. O diabo então,

que é velhíssimo, deve conhecer um pavor deles.

Já vai longa esta. Eu não sou maçador de profissão e já me ia tornando

impertinente.

Desculpe-me e creia-me

um soldado raso de letras, bastante

insurreccionado.

Oriente

O trabalho é afinal uma cousa consoladora. Talvez a única felicidade

que a vida tem. Trabalhar, trabalhar muito, o trabalho tornado ideia

fixa, sem dar logar a outras ideias, sem dar logar ao sonho, sem deixar

que a Fantasia arquitecte os seus castelos dourados em douradas bolas

de sabão! Invejo os que assim trabalham. Zola invejava o trabalho rude

dos operários. Ser marceneiro, ser carpinteiro, chegar a noite, ter a

sua cadeira ou a sua cómoda pronta, e descansar! Todavia Zola era como

poucos um trabalhador.

Lembro-me de Zola sempre que olho para a estante da minha livraria,

onde se enfileira a obra vasta de Blasco Ibáñez. Eu, algures, já

lhe chamei o Zola da Espanha. Cada vez que vejo a sua obra me

convenço mais de que não errei. Sómente Zola era um rude e esforçado

trabalhador, vindo ainda com um plano que nada conseguiu fazer mudar e,

à semelhança de Balzac, pondo-o em prática numa série interminável de

volumes. Blasco não. É um Zola sem plano. Talento robusto e pasmoso,

não tem de Zola a testarudez orientadora nem o gigantesco e sintético

sôpro insuflador. Mas para Zola espanhol está bem. Um admirável e

correntio estilo, uma ironia às vezes contundente, amável outras

vezes e sobretudo um poder pictural assombroso. Colorista intenso são

verdadeiramente zolaescas as suas descrições. E até no aspecto humano

se parece com Zola. Como Zola êle é um homem de bons músculos, nervos

sólidos e uma pertinácia que chega a assombrar.

Vem isto a propósito do novo livro de Blasco. Intitula-se _Oriente_

e é a reunião de crónicas suas publicadas em jornais espanhóis e

sul-americanos. Tem êste volume na sua obra um número bastante elevado.

No seu género é porêm o segundo ou terceiro. Blasco tem um livro

adorável que intitulou _Nel pais del arte_ e o _Paris_, reunião de

artigos. O primeiro da sua viagem à Itália, crónicas maravilhosas de

leveza e de transparência; o segundo das suas impressões da capital do

universo, como os franceses pomposamente chamam à sua feia cidade.

Êste, são impressões da sua estada em Vichy, estação de água célebre,

e da sua visita ao Oriente das mil e uma noites, das princesas

encantadas, das mulheres de véu na cara, dos serralhos, dos rajás, dos

sultões, onde há _sublimes portas_ e séquitos maravilhosos, pedrarias,

lendas, desconhecidas floras, mulheres desconhecidas, sensações nunca

experimentadas. É por isso que dentro da alma de cada artista uma

mulher velada se debruça segredando-lhe--Ao Oriente! Ao Oriente! O

Oriente é o desconhecido, será sempre o desconhecido.

Leiam-se embora tôdas as descrições desde as _Cartas que os padres

jesuitas escreveram do Japão no ano_..., e das _Peregrinações_ de

Fernão Mendes Pinto até aos mais recentes trabalhos; leiam-se os

autores franceses e inglêses que se esforçam por mostrar-nos o Oriente

scientífica, artística e mentirosamente; leia-se tudo, leiam tudo o

que quiserem, que sempre êsse desejo lhes empeçonhará a existência.

Quem não foi a Paris anseia por ir lá. Depois quere ir mais longe.

Mas emquanto não foi, Paris é tudo. Há criaturas debruçadas sôbre

esta palavra: _Paris_, a Babilónia, onde a Arte é grande, onde tudo

é grande, porque tudo é grande na fantasia. A cidade enorme, onde há

esplêndidas mulheres, equipagens faustuosíssimas, nababos, banqueiros,

artistas ante os quais o mundo inteiro boquiabre a sua admiração.

Porque a criatura que sonha não sonha que as esplêndidas mulheres são

ambiciosas vulgares onde só a _toilette_ é alguêm, que as equipagens

conheceram e conhecerão múltiplos donos, que os nababos são às vezes

postiços, que os banqueiros são quási sempre _escrocs_, e que os

artistas são sempre uns pobres diabos que se matam, que se arruinam,

que se gastam a correr atraz duma quimera que com êles se encafua

quási sempre dentro do caixão de chumbo ou de casquinha que os leva

direitinhos, com a guia de marcha para a Imortalidade, a dormir no

_Père-Lachaise_.

Ao Oriente! Ao Oriente! Chateaubriand foi ao Oriente. Foi lá tambêm

Flaubert. Foi lá Maxime du Camp. Gomez Carrillo então quintessencia

o maravilhoso nas suas impressões da viagem encantada--_blagueur_

eterno, mixto risonho de fanfarrão espanhol e jornalista parisiense. Já

Amicis, êsse Amicis, ultimamente morto, traçara as páginas adoráveis da

_Constantinopla_. Pierre Loti então, postiço, sonhador e desdenhoso,

contava as cousas com um ar de quem tinha o Oriente na algibeira. E

para dizer que tinha, fizera da loucura realidade. Os seus salões eram

orientais. E se alguêm duvidava, êle, correcto oficial de marinha,

ciceronando, mostrava um Pierre Loti vestido de Buda, um Pierre Loti

vestido de bonzo, ora hierático, ora pontifical, ora mandarinado, ora

em uma cabaia de vulgar mortal.

Blasco Ibáñez escutou tambêm a mulher velada.

Tinha lido alêm de tudo isto aquele imortal louco que se chamou Julio

Verne. Acreditava pois em maravilhas. Foi, viu e escreveu um livro, o

que é uma linda vingança. Antigamente dizia-se chegou, viu e venceu.

Daqui os amorudos lamechas fizeram o incomparável--chegar, ver e ser

vencido. Isto é de molde dizer-se de joelho em terra, a mão no peito

e assim um certo ar patético. Assim um certo ar bironiano, como se o

pobre _lord_ tivesse que ver com estas tolices. O escritor, porêm, lê,

acredita, faz as malas, compra o bilhete, vai, roubam-no descaradamente

em tôda a parte, é comido de percevejos cosmopolitas, percevejos que,

tendo vindo da Cochinchina no _couvre-pieds_ dum inglês, embarcam

no outro dia na manta de viagem dum tirolês, encontra por tôda a

parte caminhos de ferro, patifes, estradas reais intransitáveis, uma

ignorância pasmosa e um fedor humano?! Que faz para se vingar? Puxa da

caneta, uma caneta com depósito de tinta, puxa dos linguados e zás--sai

livro. Em logar de contar o que passou, o que sofreu, as suas aventuras

e os seus arrependimentos, as saudades que teve da sua casota e as

vezes que torceu a orelha e ela não deitou sangue, não senhor! Conta

cousas maravilhosas, fantasia, intruja e passa a balela aos outros. De

tudo isto resulta um pouco: que todos os livros de viagem se parecem,

exactamente como as cartas de amor, cujo fundo amoroso passional e

estilístico está nesse livro de génio que se chama o _Secretário dos

amantes_, tão genial que devia ser obrigatório, e que se não existisse

se tornaria patriótico inventá-lo; e que as viagens me são extremamente

aborrecidas, com o que ninguêm tem absolutamente nada.

Se o _Oriente_ não trouxesse a etiqueta de Vicente Blasco Ibáñez, eu

diria encolhendo os ombros e parodiando o verso célebre de Espronceda:

«que haya un libro más que importa al mundo!» Mas não. Tive que o

ler, e declaro que não perdi o tempo. O _Oriente_ é curiosamente

interessante, e interessantemente curioso. Há nele de tudo. Descrições

maravilhosas, ironia fácil, graça, e de vez em quando até gravidade,

uma gravidade nada protocolária, porque eu não sei o que isso seja em

Espanha, quando me lembro da _Marcha da Cadiz_ e do _Morrongo_.

Crónicas imorais · 第 2 / 11 段