Pois êste scéptico, êste civilizado, êste homem forte, conqu

ALBINO FORJAZ DE SAMPAYO

_Crónicas

imorais_

«O que melhor se ria será

o último a rir-se.»

F. NIETZSCHE.

3.º MILHAR

[Illustration]

EDITORES--~SANTOS & VIEIRA~

EMPREZA LITTERARIA FLUMINENSE

125, RUA DOS RETROZEIROS, 125

LISBOA

CRÓNICAS IMORAIS

_Editores--SANTOS & VIEIRA--LISBOA

TYP. DA EMPREZA LITTERARIA E TYPOGR.

(Officinas movidas a electricidade)

R. Elias Garcia, 184 PORTO MCMXV_

OBRAS DO MESMO AUTOR:

PALAVRAS CÍNICAS, 7.º milhar 1 volume

LISBOA TRÁGICA, 4.º milhar 1 »

PROSA VIL, 2.º milhar 1 »

GENTE DA RUA, 3.º milhar 1 »

No prelo:

GRILHETAS 1 »

ALBINO FORJAZ DE SAMPAYO

Crónicas

imorais

«O que melhor se ria será

o último a rir-se».

F. NIETZSCHE.

3.º MILHAR

[Illustration]

EDITORES--SANTOS & VIEIRA

_EMPREZA LITTERARIA FLUMINENSE_

125, Rua dos Retrozeiros, 125

LISBOA

AO

DR. BRITO CAMACHO

Crónicas imorais

Os artigos, crónicas ou antes as impressões que hoje se reúnem em

volume são já do domínio público. Todavia devo declarar que não foi

nele que pensei, quando as escrevi. Os quatro géneros de criaturas que

há no mundo, «criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas

como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas

insensíveis, como as pedras», como quere Vieira, só mediocremente me

interessam. Publicam-se hoje porque isso me apraz, e se são más ou

boas, tal não me fará doer a cabeça. Nunca mais as lerei. São cousas

que passaram, notas à margem dum acontecimento, comentários a uma

leitura, impressões de momento, fumo, cinza, terra, nada. Viveram um

dia. Hoje reúne-as um certo egoismo. Vivi com elas. Acharia a algumas,

se as voltasse a ler, uma ingenuidade primitiva; a outras uma piada

estupenda. Pensadas e escritas à hora em que o chefe da tipografia

vem pedir original, só para mim terão valor. No emtanto marcam cousas

curiosas e são um depoimento pessoal não falho de interêsse. Umas são

indignadas, outras biliosas, algumas pândegas. Não admira. Filhas do

momento que as inspirou, devem tambêm ter o seu grão de incoerência,

de petulância, de atrevimento. Que importa? Não as renego. Chamei-lhes

imorais, porque algumas tiveram o condão de irritar muita gente boa,

que ainda tem moral. Ah! abjecta gente a que ainda tem moral! Muitas

mereceram acres censuras e outras ainda despertaram louvores. As que

despertaram louvores tive o cuidado de não as juntar aqui. Devem ser

más por fôrça.

Vivendo a vida do jornal, perdendo-se no arquivo do esquecimento que o

jornal é, em pouco tempo estariam esquecidas. Em livro, não será mais

longa a sua vida, mas sempre o entêrro é melhor engendrado. Imorais

disse eu. Imorais sim porque quási sempre estão em desacôrdo com a

moral do meu parceiro. Que devo confessar-lhes, não me dou nada bem com

os que estão de acôrdo. Quem está de acôrdo não sabe ter razão. Porque

a razão não é dos que a teem, é dos que teem talento para a ter. Devo

tambêm confessar-lhes, que estas crónicas são inofensivas. A ninguêm

fazem mal. Não passam dum bom riso, um grande riso. Tolice seria tomar

tudo isto a sério. O mundo é uma espécie de revista e quem se mata

morre cedo. Se alguma vez, leitor, te interessares, olha que tudo isto

é ilusão. Não vale a pena, em verdade te digo. Ilusão, ilusão sómente.

A comoção, a ironia, o riso, a tristeza, tudo isto que vês reunido,

tudo isto, não é mais do que cousas que já passaram, recordações, notas

breves, leves apontamentos, terra, pó, nada, cinza.

E não se comovam que se acaba o prólogo.

Juízo do ano

O ano que começou ontem será um ano igual aos outros. Igual, sem

tirar nem pôr. Haverá nele, como já houve o ano passado, como houve

em todos os anos que passaram e como haverá em todos os anos que

vierem, tolos que enriquecem e tolos que cavam pés de burro, asnos

que se suicidam e asnos que acham isto uma cousa óptima. Continuará a

haver uma ignorância formidável da multidão dominada e uma patifaria

criminosa da minoria dominante; continuará a haver homens cavalos e

homens cavaleiros; sábios que são burros e burros que são sábios; muita

maldade nas mulheres--a maldade nas mulheres é um pleonasmo!--e muita

estultícia nos homens. Haverá côres para todos os gostos, acepipes para

todos os paladares e partidos para todos os cidadãos. Não sucederá

nada de novo, porque nada é novo debaixo do sol, diz a voz grave do

vélho Eclesiastes, um mágico que sabia muito mais da patifaria humana

do que o snr. Civinini das mulheres que usam bigode e pêra.

O novo ano será um ano feliz para quem jogar e lhe sair «el prémio

gordo». Para os que joguem e lhes sair branco será um ano de azar.

Quem trabucar, manduca, a não ser que perca o apetite. Quanto ao resto,

o que êste ano será, é fácil de adivinhar.

Para os tolos, uma felicidade, porque êsses banabóias são felizes todos

os dias; para os que não sejam, nem eu mesmo sei.

Quanto ao ano artístico, será deplorável, porque o que terá menos é

arte, e de artistas nem sombra. Haverá vários quadros assinados por

estes e aqueles fulanos. Se é paisagem, já sabemos o que é: «Macieira

em flor», «Um trecho da Tapada» ou a «Ribeira de Algés». Se é retrato,

um cavalheiro ou uma cavalheira de cara lambuza e desconfiada, olhos de

goraz do vapor, ou então um ar bonacho de quem diz à gente: «Então que

tal? como passou? estou catita, heim?»

Em arquitectura, continuarão a aparecer projectos... do Palácio da

Justiça, de várias saladas de cal e areia para projecto ou para

habitar, e de «artes várias».

Os nossos escultores continuarão fazendo Senhoras da Conceição, cruzes

para jazigos, e «muchas cosas más» dum «salero» infinito.

Das finanças: «_finanças_ se chamam as rendas públicas quando Portugal

está a _finar-se_». É de Camilo o dito. Das finanças dizia eu... mas em

finanças não sou muito forte. Adiante.

O ano literário... Continuará a haver literatura, literatos vulgares

de Linneu, literatos abezelgados e chués, porque, irmãos caríssimos,

«todo o homem tem em si uma porção de inépcia, que há de sair em prosa

ou verso, em palavras ou obras, como o carnicão dum furúnculo». Homens

de génio não haverá, mas em compensação abundosos se prognostica os

homens de génio mau ou de bom génio, porque cada um é como o pai o fêz.

A crítica continuará a ser como foi sempre: De mostarda, de manteiga, e

de àgua e sal.

E, tenho dito.

Quanto a ti, leitor molesto, eu não tiro o teu horóscopo nem te leio

as ruins tenções de que porventura estejas cheio. Mas é sempre bom

conversar, uma conversa de amigos vélhos e inseparáveis. Não sei se

és rico, se pobre, se alto, se baixo. Se rico, guarda a bôlsa que não

preciso dela; se pobre, tem paciência porque não te posso valer.

Dito isto, em verdade te digo que tens um ano diante de ti. Emprega-o

bem. Lê a vida do bom homem Ricardo, regula as tuas digestões, não

tenhas excessos e deita-te cedo. A isto se chama em bom português fazer

pela vida.

Faze pois pela vida. Lembra-te que «os mortos caem fácilmente no

olvido», como dizia Bürger na balada de _Leonora_, traduzida por

êsse tristonho Gerard de Nerval que se enforcou num candieiro da Rue

Vieille-Lanterne, numa manhã gelada de janeiro em que um corvo, que

parecia fugido ao «Never more!» de Poe, lhe crocitava satânico e

lúgubre a sua elegia de tímido, de sonhador e de incompreendido. ¿E

quem hoje, no aniversário da sua morte, se lembra dêsse pobre Gerard,

que trazia sempre os bolsos cheios de livros, como o Schaunard da

_Bohème_, que traduziu Goethe e visitou o Oriente? Ah! é bem certo que

«os mortos caem fácilmente no olvido!»

Faze por ter dinheiro. O Dinheiro, alêm de ser tudo o que tu sabes, é

ainda aquilo com que se compram os melões. Se o tiveres não o emprestes

nem o dês. Se precisares não peças, porque ninguêm te vale. Gritar é

inútil tambêm, para que não chames curiosos à tua desventura.

Prefere «um pássaro na mão a dois voando» e não te fies na Virgem.

Porque se te fias na Virgem e não corres não tarda o fatal e bem

merecido pontapé.

Se és casado não leves amigos a casa. Isto não é para que te ofendas,

é por uma cousa que eu cá sei. Se tens filhos, ao menos um filho só,

que é cousa que tôda a gente tem, seu ou alheio, faz do teu filho um

homem forte. Bom estômago, bons nervos, bons músculos. Antes o obrigues

à frequência do mestre Raku, um sujeito que ganha a vida a deitar os

outros ao chão, do que à de Félix Pereira, que lhe ensina que meter os

dedos no nariz é porcaria. É preferível ser forte a ser bem-criado. É

mesmo preferível ter fôrça a ter direito, «porque se vai mais longe com

a mão cheia de fôrça do que com um saco cheio de direito», ensina a

experiência dos homens e a sabedoria das nações.

Podes ensinar-lhe muitas mais cousas que tu saibas. Não o queiras nem

artista, nem literato, nem jornalista. Vê se o podes fazer par do

reino, que o pariato é uma cousa que se está dando ou se vai dar a tôda

a gente, exactamente como o hábito de Cristo ou de S. Tiago. «Dizem

que até há barbeiros...» como já o suspeitava o Baptista dos _Maias_.

Se o fizeres par, porque êle não tenha geiteira para outra cousa,

recomenda-lhe que se cale. «O silêncio é de ouro» e um tolo calado,

conquanto não deixe de ser tolo, passa por homem sisudo. Porque se êle

assim não fôr, tanto pior para êle. Os que assim não são, nada teem

a esperar do ano novo. São e serão sempre escarnecidos, ridículos e

pobres. E o pior mal dum homem é ser pobre. Ninguêm lhe vale. Ser pobre

é...

Não continuo porque um cavalheiro que está vendo o que eu escrevo,

refila, em ar de resposta:

--«Mas há a Caridade. A Caridade, homem!»

--«A Caridade? Ah! sim.»--As misérias do próximo comovem muito a

caridade de cada um. E eu, que tambêm me vou tornando azêdo como o

senhor Silva Pinto, resmunguei e recordei-me. Devia ser uma caridade

como a daquele barão da Falperra que o nosso Alfredo Mesquita conheceu:

Um homem tão caridoso que, depois de ter ouvido um pobre contar-lhe as

suas misérias, a ponto de o fazer chorar, chamava sempre o criado e,

com a voz entrecortada de soluços, ordenava:--«João, ponha êsse homem

no ôlho da rua; parte-se-me o coração de o ouvir...»

E para os que lhe dissessem que êle lhe não dera nada, retorquia, que

sim, que dera. Dera-lhe... atenção.

E estava certo, como diz ainda o senhor Silva Pinto.

Artistas

A morte recente dêsse desventurado Augusto Santo, escultor do Pôrto,

veio avocar com amarga intensidade a malfadada sorte que está guardada

a todos que teem a suprema desventura de ter nascido artistas em

Portugal. Augusto Santo foi discípulo de Falguière, de Rodin e de

Soares dos Reis. Ouviu as lições de Taine, e expôs no _Salon_. Era

quási um desconhecido e morreu na maior miséria, num catre humilde de

hospital.

Ser desconhecido em Portugal é um caso banalíssimo. Herculano, e êsse

Garrett que «num dia de apuro por cem ou duzentas moedas seria capaz

de tôdas as porcarias menos de pôr num papel a trôco de todo o ouro do

mundo uma linha mal escrita» são, ainda que isto pareça um paradoxo,

quási desconhecidos. O grande público não tem ideia dêles e ainda hoje

uma das suas edições leva uma eternidade para se esgotar.

A indiferença do público pelos artistas é absoluta, e não vai longe

ainda o tempo em que literato era sinónimo de vadio. Camilo no Pôrto,

ao tempo, era sómente um janota que para ali quebrava esquinas, um tal

que não avezava com que mandar cantar um cego. Quando, pelos romances,

ganhava com que forrar de cuidados o passadio de dois meses, não se

imagina o escândalo que aquilo produzia nos Antónios Josés da Silva e

na rua das Congostas. O Pôrto de então tinha ideias seguras e via as

cousas como devia ver. Literatos neste país?! hum! e torcia o nariz

como quem dizia que aquilo não era prático, nem por aquele caminho se

chegava a ter um rolosito de inscrições, um prédiosito, ou uma velhice

sossegada. Era a vida prática, o balcão é que era o caminho. Por

isso, quando Camilo, já no apogeu de glória, em cartas duma dolorosa

humildade, quási esmolava, para comer, a compra de pratas que os seus

admiradores lhe ofereciam, o Pôrto mui devia rir. Êle bem lhe dizia!

Não era aquele o caminho...

A Soares dos Réis para lhe fazerem justiça foi preciso que a morte

o tomasse. Em vida foi um obscuro obreiro sem amigos, ou quási, e

teve uma existência bastante precária. Basta dizer que em tôda a sua

vida de trabalho não conseguiu mais do que 4:764$500 réis segundo a

autobiografia do artista, que o snr. Joaquim de Vasconcelos, em 1905,

confidenciou ao público por intermédio da _Revista_. Para ganhar essa

importância confessa Soares dos Réis que esteve «algumas vezes em

relação com a _arte industrial_». Mesmo assim quem a achar exagerada

deduza-lhe o custo do material e de auxiliares indispensáveis e verá

quanto fica. O _Artista na Infância_ vendeu-o por 600$000 réis e foi o

máximo preço que levou por uma obra sua, se exceptuarmos, é claro, o

monumento ao Conde de Ferreira.

Em vida ninguêm o auxiliou, ninguêm o encorajou para prosseguir. Muito

ao contrário perseguiam-no, sitiavam-no, roubavam-no, fechavam-lhe

tôdas as portas com intrigas soezes, com indróminas de sabidos e ronha

de marotos. Concurso a que fôsse, vaga a que concorresse, plano que

tentasse viabilizar, certo era a mediocridade arranjista, por portas

travessas, frustrar-lhe tôda a ambição e todo o Sonho.

Emquanto o homem viveu não puderam os amigos, êsses amigos do diabo,

atormentá-lo mais, nem mais o perseguirem. Depois de morto não houve

lamúria que não chorassem e não houve adjectivo sonoroso e amelaçado

que a criatura não tivesse. A justiça chega sempre depois da morte, é

certo, mas pela injustiça dos vivos.

Com Augusto Santo o caso é o mesmo. Augusto Santo era, antes de tudo,

um impersistente. Não possuía a tenacidade avara, fria e reservada, a

confiança absoluta dêsses brocadores do Ideal, fadados para o êxito.

A menor contrariedade o exasperava. E como se não fôsse bastante

a execução perra, o sonho nebuloso, a vida material e a falta de

tudo, ainda a minar-lhe a existência a agressividade constante dos

outros,--os colegas os primeiros,--não fôsse o pobre diabo roubar-lhes

a glória, e numa avidez de faminto a guardasse tôda para si. Augusto

Santo foi um perseguido desde que expôs êsse _Ismael_, a sua única obra

a valer, mas ainda assim uma promessa do que o seu temperamento de

artista poderia dar.

Como vêem, eu não quero dizer que Augusto Santo era um génio e que a

sua morte abre uma clareira formidável entre os Teixeiras e os Lopes

da pedra portuguesa. Não. Augusto Santo não deixou _fauteuil_ vago.

O que eu quero precisar é que era Augusto Santo um artista a valer,

que noutro meio floresceria, um meio que lhe não fôsse hostil como

o seu,--tão hostil que até o deixou morrer de fome numa enxêrga de

hospital. Com esta hostilidade e com esta ingratidão a arte perdeu,

mas ganharam os escultores portugueses. Podem agora catrapiscar a

imortalidade à vontadinha, que ela não esperará que êles morram para

vir, ou o seu cão, sevandijar-lhes em cima da _obra_.

Alguns gazeteiros ou gazetíferos, com as palavras de louvor do cliché,

justificam porque Augusto Santo não teve carruagem às horas, mesa lauta

e colchão fôfo. Foi, dizem êles reprimendando os restos do escultor,

porque era um inadaptado, porque desprezou sempre a arte de engorda, a

que dá lucros e considerações, e preferiu correr atrás dum sonho que o

exauria e que o matava, um sonho de arte irrealisável e irrealisado,

arte verdadeira que não tem preço, embora às vezes se venda, e que

não se compra, embora às vezes se adquira. E com um desdêm olímpico,

absoluto, ditatorial, chamam-lhe... sonhador. Sonhador!... como se

isto fôsse o sumo desprêzo ou a máxima compaixão. Deve ser bem triste

morrer, assim!

Ao menos se essa turba se calasse e governasse vida, vá; mas vir

babujar a sua irresponsabilidade desvergonhada no momento em que o

pobre vencido solavancava a caminho do cemitério, é intolerável. Não

se justifique, que ninguêm lhe tira o ganho: ela tem a sua utilidade.

¿Quem é que nos havia afinal de fazer os fretes?

Augusto Santo, não reste dúvida, foi um atormentado da forma. Quando a

concepção, megalomania conceptiva era nele, lhe fabulava maravilhas,

logo o barro, parece que conluiado com os homens, debaixo dos gadanhos

convulsos e nervosos tinha formas brutais, aduncas e agressivas. E a

sua frialdade viscosa logo ali abafava o delírio artístico do pobre

impotente e lhe dava crises de desânimo capazes de vergar um atleta.

Todo o Pôrto cabareteiro e intelectual conhecia estas torturas do

artista. Sem fôrças para opôr uma resistência, êle consumia-se em

desolações. Cada tentativa malograda deixava-o mais exausto de

fôrças do que uma noite perdida a caminhar. O Sonho vampirizava-o e

exigia-lhe uma impossível produção de calorias. Todavia nada resta

dele, decorrendo como decorreu intramuralhas do seu crânio. Após a

criação dêsse _Ismael_, que noutro meio mais acarinhante, se o não

celebrizasse, o evidenciaria, Augusto Santo criara, para si mesmo,

responsabilidades. Ficaram por cumprir. A quantos artistas não sucede

outro tanto?! Todos o sabem, Portugal artísticamente é um país morto.

Capaz duma ressurreição? Certamente. Desde que os poderes públicos

olhem com atenção para a Arte, desde que a percentagem assustadora

dos analfabetos diminua e desde que o público manifeste interêsse por

estas cousas. Arte em Portugal? Os pintores é que sabem o que isso

é. Êles bem vêem que não é de sonhos e de belos quadros que se vive.

O que dá são as lições, que é como quem diz os quadros que fazem e os

discípulos assinam. É uma arte de opereta, de muito riso, com sinfonias

de Offenbach e de que só vai mal a quem a toma a sério. Êsses são os

vencidos, os Soares dos Réis e os Augustos Santos.

Ê pois mais um artista que sucumbiu em luta inglória com o Destino.

Consagrado ou desconhecido, não há dúvida que era um artista. O

_Ismael_ o atesta. E já que ninguêm teve que o auxiliasse e que no

meio da indiferença geral da gente que escreve e do regosijo da gente

que escultura, êle deixou a vida, justo é que eu o admire, ao seu

exemplo de intransigência, à luta que sustentou e à tragédia da vida

que sofreu. E ninguêm se lembrou dele senão a Morte, que se amerceou de

tanto sofrimento. Ó morte remediadora e sacratíssima, amiga dos pobres,

remidora dos desventurados e consoladora dos aflitos, eu te bemdigo.

O Jettatore

Teófilo Gauthier, o Benvenuto Cellini da prosa francesa, segundo

Camilo, consagrou um dos seus volumes à _Jettatura_, ou mau olhado,

condão funesto do _Jettatore_. Nesse volume, obra prima do lapidário

precioso a quem já Baudelaire havia chamado «poeta impecável, mago e

mestre», se romantiza a vida dum _jettatore_ e se dá conta de todos

os malefícios que o seu olhar causou. Paulo d’Aspremont, francês, é

o protagonista do romance, e, sem o saber, possui o _fascino_, que,

traduzido em vulgar, significa mau olhado. O seu olhar fatal onde pousa

é nefasto. A pata do cavalo de Attila não teve tanta crueldade. Se se

debruça na amurada dum barco, para olhar a água mansa e tranqùila, logo

o mar se encapela e enfuría; se entra num teatro e fita um actor que

ri, logo o espectáculo se interrompe e a própria Troça fica séria; se

olha uma bailarina que rodopia, um bico de gás incendeia a gaze e a

bailarina morre. Quando fita a sua própria noiva, o pobre _jettatore_

mata-a. Uma roseta escarlate assoma às faces da condenada inglêsa,

um escarro de sangue vem da goela à bôca, e dali à morte é um ai.

Nápoles inteiro o odeia. «Tôdas as vezes que parava junto duma loja,

o dono parecia assustado, murmurava algumas imprecações a meia voz,

e alongava os dedos como se quisesse apunhalá-lo com o auricular e o

índex; as vendedeiras mais ousadas, acabrunhavam-o de impropérios e

mostravam-lhe o punho.» Por fim cega-se e suicida-se, arremessando-se

ao mar. O seu corpo nunca se encontrou. Quando êle morreu,--oh meu

adorável Gauthier!--quando êle morreu «a tempestade desencadeou-se

então com tôda a fúria: as ondas assaltaram a praia em filas compactas,

como guerreiros correndo ao assalto, e lançando a cincoenta passos ao

ar jactos de espuma; as nuvens negras alagartaram-se como paredes do

inferno, deixando entrever a ardente fornalha dos relâmpagos; luzes

sulfurosas iluminaram a extensão; o cume do Vesúvio avermelhou-se e

um penacho de sombrio vapor, que o vento impelia, ondulou na fronte

do vulcão. Os barcos amarrados entrechocaram-se com lúgubre ruído e

as cordas muito apertadas gemeram dolorosamente. Daí a nada a chuva

começou a cair em enormes bátegas sibilando como flechas,--parecia que

o cáos queria reapossar-se da natureza, confundindo-lhe de novo todos

os elementos».

* * * * *

Mas, há realmente _jettatori_? ¿Há alguêm que acredite nisso, no século

das maravilhas? ¿Não será a _jettatura_ como o rabinho no remate do

espinhaço por onde se conheciam os judeus, segundo aqueles Pedro Lobo e

Bartolomeu Lobo, que Camilo tomou à sua conta no _Judeu_, o romance da

vida de António José da Silva? Talvez. O que é certo, porém, é que esta

superstição abracadabrante tem muitos crentes. E o Destino, às vezes,

quando se quere divertir ou mostrar o seu poder, encarrega os factos de

lhes dar razão.

¿Mas não haverá olhares carregados de desconhecidos gérmens morbíficos,

de elementos malfazejos, funestos e ameaçadores?

Abro o último número do _The Strand Magazine_, recentemente chegado

a Lisboa. É o número de Agosto. Aí a página 233 a focinhuda e grave

revista inglesa relata o estranho caso do presidente do conselho

de Itália, Giovanni Giolitti, um dos mais funestos _jettatori_. O

artigo chama-se «The Evil Eye» e é interessante e certo, porque a

revista inglêsa não iria turvar a sua gravidade protocolária com

uma invencionice de tal responsabilidade. As vítimas de Giolitti

são, na sua maioria, os seus próprios colegas do ministério, a quem

repentinamente sucede alguma cousa de grave. Foi a insistência

dêstes incidentes, sucedendo sempre em pessoas ligadas a Giolitti,

que pôs de alarme tôda a Itália e fundamentou o artigo do _Strand

Magazine_. Os ministros Majorama, Marquês Prinetti, Balenzano, De

Broglio, Wollamborg, Rosano, Tittoni, Massimini e Gallo foram os

que mais sofreram da influência funesta da _jettatura_ Giolitti. Um

deles suicidou-se, outro endoideceu, e ainda outro sofreu um insulto

apoplético na própria Câmara. Os restantes foram atingidos pelas

doenças mais graves e mais exquisitas; um ataque de reumastismo,

doenças de coração, apoplexias, etc. O olhar de Giolitti é pois uma

verdadeira cornucópia de desgraças, e como se vê não se pode atribuir

à imaginação dramatizadora de qualquer banabóia em cata de assunto

o artigo em questão. Se o magazine inglês alviçarou ao público o

condão fatal do estadista, é porque o caso tinha tôdas as provas de

veridicidade.

Giolitti inspira já um verdadeiro terror. O seu olhar fantasmático e

fixativo tem a mais terrível lenda que pode ter um homem, especialmente

em Itália, o país do mau olhado, por excelência. Quando êle passa, os

_lazzaroni_ entre-olham-se aflitos, os transeuntes involuntáriamente

fazem-lhe figas e todos fogem dele como dum leproso. As companhias de

seguros de vida, baseando-se nos acontecimentos e factos, reputam o seu

olhar um grave risco e não efectuam os seus contratos com ministros do

gabinete _jettatura_ senão a prémios absurdamente compensadores.

Oh! o mau olhado! o mau olhado!

Na _jettatura_ acredita muita gente boa. As _montres_, em Nápoles,

cercam-se dum preventivo cordão de amuletos protectores, e os espíritos

mais fortes não se desdouram de trazê-los na algibeira. Filipe

d’Altavila, aquele conde inventado por Gauthier, era civilizado.

Fôra educado em Paris, falava inglês e francês; lêra Voltaire; cria

nas máquinas a vapor, nos caminhos de ferro, nas duas câmaras,

como Stendhal; comia _macarroni_ com garfo; e, como se todos estes

argumentos não bastassem, é êle ainda quem confessa que usa «de manhã

luvas de Suède; de tarde luvas escuras, à noite luvas côr de palha»,

prova incontestável de civilização.

Pois êste scéptico, êste civilizado, êste homem forte, conquistador

e espadachim--acreditava. ¿Porque não havemos nós de acreditar? Êle,

porêm, parece que tinha razão para isso, visto que, sendo um dos

melhores esgrimistas, tendo morto em duelo três homens e ferido

gravemente cinco ou seis, ninguém se batendo com êle pela fama terrível

que tinha, veio a morrer, estúpidamente, cravando-se no punhal do

_jettatore_.

¿Mas será o mau olhado incombatível? Não. O nosso homem acredita tambêm

que «com os chifres, as figas e os ramos de coral bifurcado, se pode

destruir ou pelo menos atenuar a sua influência».

* * * * *

¿Já repararam na série de desgraças que tem pesado sôbre o país desde

que é presidente do conselho o snr. João Franco? Pois, caso singular,

as desgraças sucedem-se e pode dizer-se que nunca houve tantas.

Os políticos não andam seguros. Deu o filoxera, ou a formiga branca com

êles, desde que é presidente do conselho, etc, etc. Já a gentana das

ruas lhe vai atribuindo dotes maléficos e quando êle passa, se lhe não

chamam _jettatore_, vão-lhe fazendo figas.

Não tarda que, à semelhança do _Strand Magazine_, as gazetas vulguem o

caso ao falario dos seus leitores. E é caso para pensar, acreditem!

Um dia, na Câmara, no acêso duma discussão, Hintze tem uma síncope. Ao

acompanhar o entêrro dum amigo e político, Hintze morre repentinamente,

e os médicos gaguejam vagas cousas... farda vélha... o calor do

chapéu... insolação. José Dias Ferreira, rijo ainda apesar dos

seus setenta anos, faz uma conferência desafecta ao govêrno e é

repentinamente atacado duma paralisia. Quando menos se espera, morre.

O que mais assombra é o imprevisto com que a Morte tombou êsses dois

monarquistas de vélha rocha, que, apesar de pontapizados no seu orgulho

e nos seus anos de trabalho, ainda resistiam, cheios de vida e de

crença.

A revista inglêsa veio fazer luz. ¿Terá o snr. presidente do Conselho o

fatal condão? Será _jettatore_? Tudo faz crer que sim. D’Aspremont, o

_jettatore_ do romance de Gauthier, uma vez que tocou num cocheiro com

uma leve bengala, matou-o instantâneamente.

O nosso estadista, nos seus tempos de Coimbra, não podia acariciar um

gato, que o animal não morresse logo. Hão-de concordar que é já ter mau

olhado.

Nenhuma dúvida resta. É _jettatore_. Os políticos entre-olham-se

finados de mêdo e com terror secreto pensam em quem irá agora. Os

indiferentes pensam em que novo desastre estará guardado à nação sob o

influxo funesto de tão funesto dom.

Não há dúvida. É necessário pôr um chifre atrás da porta e trazer na

algibeira os ramos de coral bifurcados, e as figas de azeviche. Nada,

que o seguro morreu de vélho.

Senhores da política, vamos.

Os mineiros

Les mineurs chamou Roll, o poeta do carbonoso, a uma das suas mais

amadas telas.

«Les Mineurs» é o poema da gente que trabalha. Um crepúsculo à hora do

levantar da faina. A retirada dos mineiros, uma longa bicha de gente

taciturna e acabrunhada que regressa do interior da terra. Ao fundo as

altas chaminés vomitam fumo, o seu fumo espesso e enovelado, carvão que

o vento desfaz. E, sob o céu que o vento escurece, a retirada vai-se

fazendo lentamente, como um exército estropeado que sai finalmente duma

praça há meses sitiada. E não tem fim, a escura procissão que sai da

bocada negra dos poços. Parece que nunca mais terminará.

O assunto que tentou a Roll e que a sua tela exprime com a fidelidade

duma fotografia, tem seduzido a muitos artistas. Constantin Meunier

consagrou-lhe um baixo relevo. Severine escreveu as mais belas

páginas sôbre «le pays noir» e Zola dedicou-lhe um dos seus livros,

êsse romance-estudo, brutal e flagrante, cheio de verdade e cheio de

observação, que é o _Germinal_.

Porêm, de tôdas as composições artísticas que eu conheço, um quadro

há, que, nas minhas horas de scismar, se desenrola e vivifica, e ante

os meus olhos passa como uma scena da vida real. A tela desapareceu,

apagou-se suavemente e só ficaram as figuras e o scenário. É um cortejo

que passa. São rudes operários tisnados, a pele encoirada de suor,

caras sombrias de miséria e de sofrimento. Abrem a marcha de mãos dadas

cantando o _Çá ira_. Um operário vélho, de blusa e boné, dá o braço à

sua companheira, uma envelhecida, que traz na mão um ramo de flores. Um

garôto traz às costas um tambor. O cortejo avança. Algumas das mulheres

trazem os filhos ao colo, outras, bandeiras de revolta. Mas a procissão

não tem ar insubmisso, tem um ar de protesto taciturno. Um céu de bruma

espesso e calado alumia a scena com os seus tons mais lúgubres e na

sua luz morrinhosa sinistríza os contornos, e veste tudo, as figuras,

a rua, os rostos, e até os petizes do bando, com um ar de sofrimento

intenso, de agonia intraduzível. É seu autor Jules Adler. O quadro

chama-se _A greve_.

A greve recente da mina de S. Domingos veio canalizar atenções para

o assunto. E S. Domingos, que aparecia entre brumas de mistério, dá

notícias suas. S. Domingos é uma feitoria inglêsa. Tem polícia própria,

armada de belas carabinas, carabinas último modêlo para, emquanto os

mineiros se estorcem de fome, ela patrulhar, na soturnidade da noite,

de dedo no gatilho, o sono dos senhores.

Os mineiros são 3:000. Trabalham uma infinidade de horas e o salário é

pouco. Como o salário é pouco e o trabalho muito, a alimentação é má. E

como a alimentação não presta, a saúde é péssima.

Que querem êles? Melhoria de salário e um pouco menos de trabalho. O

mineiro, por via de regra, é sóbrio. Não tem desejos, não tem ambições.

É um animal de carga, pobre bêsta suada e indefesa, e as minas são uma

nova escravatura. Duvidam? Muito embora. São ainda as gazetas que nos

informam que essas reclamações foram recebidas ... a tiro. Se isto não

é escravatura, então...

A canalha revolta-se? Muito bem. Espingardeia-se. A canalha parlamenta?

Acutila-se. A canalha não tem nome, a canalha não tem voz. A canalha é

a canalha, nada mais.

¿Que ela um dia virá, quando o ódio se fizer avalanche, reclamar o seu

quinhão na festa? ¿Que ela virá escrever nas paredes da sala o _Mane_,

_Thecel_, _Phares_ dos grandes cataclismos? Pura imaginação! A canalha

não virá. E se por acaso vier, sim! se vier, encontrará uma muralha de

baionetas e um cordão de metralhadoras. «La force prime le droit!», não

é verdade? Sejamos positivos. Mais uma vez o direito ficará vencido.

¿Que a greve colheu a Emprêsa de improviso? De-certo. Pois a Emprêsa

julgava lá que êles soubessem pedir, que êles soubessem falar!

O que a Emprêsa sabia era a média de produção diária por cada animal

daqueles, por cada escravo, a que pomposamente persistimos em chamar

mineiros. A Emprêsa só tinha um fito: Que cada homem trabalhasse o

dôbro.

Que êles tinham Direitos? Que êles tinham estômago? Que queriam

Justiça? Deixem-me rir. ¿Que diabo se importa a Emprêsa com isso?

A Emprêsa explora-os; os capatazes, seus mandatários, esbofeteiam-nos.

Oh! filantrópica Emprêsa! Pois êles só esbofeteiam? Vamos lá. Podiam

muito bem açoitá-los, crucificá-los e esfolá-los. Só esbofeteiam!!!!

Se na acta da assembleia geral lhes não fôr exarado um voto de louvor,

por tanta humanidade, hão de concordar que é uma refinadíssima pouca

vergonha.

¿Mas, realmente, os mineiros revoltam-se? Pior para êles. ¿Esquecem-se

então de que a Emprêsa tem pelo seu lado a fôrça, e que os esmagará

irremediávelmente? Fazem greve? Mas a greve termina aonde a fome

principia. Quem ficará por baixo? O mais fraco.

Ora quem capitula não impõe condições, aceita-as. A fome principia e

ei-los novamente escravizados. Então, como um exército vencido que

entrega os seus troféus e as suas bandeiras, os grevistas entregam os

seus direitos, os seus sonhos, as suas utopias, as suas ambições. E

voltam novamente ao escuro da mina, ao ar irrespirável, à meia-fome,

ao trabalho extenuante, emquanto os directores da Emprêsa recomeçam a

partida de bilhar interrompida.

Courrières fêz 1:200 vítimas.

¿Sabem o que mais comoveu a Companhia exploradora? Não foi a ceifa de

mil e duzentos homens válidos, de mil e duzentos cérebros e corações,

de mil e duzentas vidas. Não foram os lamentos de mil e duzentas

famílias que se carpiam, que ficavam na ruína e na mendiguez. O que a

comoveu foi a ruína, a perda dos poços, o ruir das galerias, os motores

paralisados e torcidos, as máquinas destruidas. Foram os lucros que não

se realisaram, os dividendos que não se distribuiram.

Um homem a quem roubaram a bôlsa pode lá preocupar-se com a morte em

casa do vizinho!

Oitenta por cento dos desastres é culpa das Emprêsas, que não teem

outro fito senão roubar à terra a matéria que as há de enriquecer.

A segurança dos operários só é assegurada quando a falta dela pode

prejudicar interesses de senhores. Os acionistas, emquanto o dividendo

corre, claqueam. E êsse rega-bofe é às vezes interrompido pelo

estalar dos travejamentos, pelo ruído das derrocadas, pela grita dos

feridos e pela lembrança dos que lá ficaram no silêncio das galerias,

irremediávelmente.

Pois apesar de tudo, possível é que os mineiros não sejam atendidos.

Para admirar será se o forem. Apesar do perigo que correm, a doença

à espreita, a morte perto, a velhice impossível, as suas reclamações

parecem absurdas aos Directores.

Se, como no _Germinal_, algum Maheu ignorado levanta a voz para dizer

«a sua miséria, a miséria de todos, o duro trabalho, a vida de brutos,

a mulher e os pequenos gritando de fome em casa»; para dizer que é uma

iniqùidade uns morrerem de fome e outros de indigestão; para dizer que

é uma torpeza uns morrerem de trabalhar tanto emquanto outros bocejam

à regalona, a Direcção promete estudar. Não estuda nunca. Mas a voz

dêsse Maheu, dêsse Maheu ignorado, ficará no espaço acusando, e marcará

com um ferrete de infâmia o crime, êsse crime inaudito ratificado

em uníssono por três mil peitos; o crime deles andarem ali a 800

metros debaixo da terra, arquejantes, famintos e ignorantes, para que

Calígula, o doido, ponha freio de ouro ao seu «Incitatus» e Nunes, o

patife, mate cães a tiro na quinta da Formiga.

O mesmo devia pensar aquele Suvarine, o russo, que nos aparece como um

herói, quando nas trevas, alta noite, suspenso sôbre a fundura do poço,

armado de trado e serrote, começa no revestimento da mina a sua obra de

destruição.

Um sábio português

Era inquestionavelmente um sábio êste pobre Ferraz de Macedo _dos

crânios_, sôbre quem o dr. António Aurélio da Costa Ferreira vem de

tratar num opúsculo sentido e sincero. Um sábio a valer, com amor

quintessenciado aos seus crânios, às suas medições, e a sua admiração

pelos snrs. Quatrefages e Manouvrier. Não vai o tempo para sábios

e êle ressentiu-se disso. Faltou-lhe a atmosfera de carinho a que

todo o homem tem direito. Em vida foi um misantropo vivendo a vida

sonhada de todo o cerebral que se sente distanciado da sua época, um

século adiante, perdido da sua tríbu e tendo só a confortá-lo os seus

cadernos de notas e uma fé, uma vontade, mui digna de encomiar-se. De

resto nem a atenção dos poderes públicos lhe deu audiência senão à

pressa, nem êle teve nunca geito para o palavrear solerte dos vivedores

profissionais.

Fortuna, emquanto a teve, houve por bem desbravá-la em todos os justos

e generosos empreendimentos. Publicou o _Cancioneiro da Vaticana_ e

amorosamente coleccionou bem um milhar de crânios sôbre que deixou

curiosas notas e estudos preciosamente documentados. Que, já Fialho de

Almeida o disse, no seu artigo dos _Serões_, não seria êle um sábio

que farolizasse ignotas brumas da sciência, mas foi um documentador

paciente, um consciencioso observador, cuja rigorosa análise tem

crédito no mundo scientista e profissional. Ribot confirma. Abaixo dos

grandes criadores, dos que descobrem, dos que trazem novos horizontes

à humanidade, há os talentos que explicam comentam e desenvolvem as

verdades descobertas e que pela sua experiência analítica são os que

rotulam com exactidão a categoria da descoberta e muitas vezes tambêm

a anulam. Seria um dêstes talentos Ferraz de Macedo. Mas que robusta

energia, que frondosíssima tenacidade a enchia! Só isso o faria grande

se êle já o não fôsse por trabalhos que tinham merecido de Manouvrier

a opinião de ser «um homem conscienciosíssimo, um pesquisador

infatigável e instruidíssimo, dotado de notável tenacidade» (_Progrès

médical_--15-VI-1889), e de Quatrefages os melhores elogios na sua

_História geral das raças humanas_. É inútil dizer o resto. Morreu

pobre, esquecido e crente. Nenhuma indiferença, nenhuma ingratidão,

nenhum desdêm pôde soterrar-lhe a crença. Quem nos déra a todos nós a

tranqùilidade espiritual e o desdêm bondoso da sua alma. E tiro o meu

chapéu. Não há impugnadores de que êle fôsse um sábio, um verdadeiro

sábio.

* * * * *

Esta separata agora publicada pelo dr. Costa Ferreira é uma bela

obra. Os nomes dos grandes mortos são como as plantas. Precisam

de jardineiros, cultores apaixonados, tratadores conscienciosos e

dedicados, senão breve vem a delir-se na memória das gerações e o seu

derradeiro pouso é nas páginas dos livros especialistas a que lá de

vez em quando um ou outro compulsor estudioso sacode o pó e afugenta a

traça. Precisam de quem buzine ao vulgo, para escarmento duns e exemplo

doutros, a sua vida e as suas obras. Sempre assim se tem feito.

O nome de Ferraz de Macedo não podia encontrar mais piedoso cultor

do que o seu discípulo e médico Costa Ferreira. Possuido do mesmo

acendrado amor aos estudos antropológicos, amando o mesmo ideal, Costa

Ferreira dele recebeu as últimas vontades. Foi êle o testamenteiro

de «mil e tantos crânios, trezentos e tantos esqueletos, de origem

conhecida, reproduções estereográficas de crânios célebres dos

principais museus da Europa, tudo medido e rigorosamente observado

e, com êle, arsenal antropológico e livraria» que Ferraz destinou ao

Museu da Escola Politécnica. É êle tambêm que, cumprindo um último

prometimento, tomou à sua conta o não deixar esquecer o nome do mestre

e continuar-lhe a obra apoteotizando-lhe o nome numa contínua e modesta

memoranda dos seus trabalhos.

Piedosa homenagem esta, tanto mais para encarecer quanto é certo que,

dada a indiferença geral e oficial, ninguêm tal encargo tomaria.

Morreu, acabou-se. Trate cada um de si e já não é pouco! Auscultem um

milhar de criaturas e digam-me se não é assim que elas pensam!

Falho de senso prático como todo o cerebral, êle só tinha uma única

paixão: a sciência. Só ela o vulnerabilizava, babando-se diante duma

esquírola do homem terciário. Fora da sciência, não vivia. Nada sentia

que não fôsse passado pelo crivo dos seus apontamentos e pela ideia

dos seus crânios. E tão afastado o traziam os seus estudos, da vida

vívida, que breve iria à mendiguez se mão provedora e amiga não fôsse,

acordando o sábio do seu reino encantado, cuidar-lhe da mantença.

Nessa abstracção tão funda viveu, com seus canários os pequenitos

da vizinhança, os seus crânios «como num celeiro o grão que espera

embarque», medidos, e, ensacados por êle, com mão reminiscenciada

dos seus tempos de aprendiz de alfaiate, e os seus gatos, que morreu

sonhando. «Depois de morto é que eu viverei... Para os novos é que

eu apelo. Êles que me continuem e me vinguem». Tais foram as suas

últimas palavras, erguendo-se num repelão e visionando ainda uma visão

acariciadora. Não voltou a falar. Costa Ferreira tomou o encargo

piedoso de o lembrar, de o não deixar morrer de todo, na ingratidão

indígena. Tal disse e tal cumpriu.

O sábio morreu. Os jornais titubiaram, os amigos escapuliram-se e, mais

tombo menos tombo, lá ficou no seu coval, talvez ainda com saudade

dos seus crânios e dos seus apontamentos. Solitário como foi em vida,

assim o foi na morte. A sua apoteose não chegara ainda. Os gazeteiros

não carrilhonaram às multidões cretinizadas nem sequer o «ilustre e

o distinto» da cozinha trivial. E como morrera pobre e modestamente

se enterrou, tambêm não panegirizaram a criatura com girândolas de

adjectivos surrados pelo uso e abuso da pindarização de todo o fiel

bigorrilhas que morre e deixa ôsso que roer.

Depois talvez fôsse assim melhor. ¿Que tinham que ver com êle os

adjectivos?

* * * * *

Se agora a matula egoísticada bichanava sempre que o via um apodo

desdenhoso, que resvalava do seu arnez de indiferença pelo que diriam,

tão longe andava dos que com êle se acotovelavam, em tempos idos não

faltaria o ingranzeu das turbas e o rumor falaz das vélhas macbéticas

do sítio, taxando de pacto diabólico o seu estudo, qual outro Cláudio

Frollo.

Todavia êle sem se agastar da indiferença duns, da parranice doutros e

do criminoso egoísmo de todos, contente se dava com a sua estreiteza

e, não requerendo melhoria de sorte, cada vez mais se apartava do

mundo real para o mundo de sonho. O trabalho para êle era tudo.

Confinava a sua casa com as estrêlas, vista cá debaixo, da cidade,

sitando lá no alto, ponto negrusco zimboriando o alto do monte. Uma

árvore anciã, fronteiriça, foi sua companhia e só ela talvez cogitou

na sua labuta interior. Ventos brigosos sinfonizavam óperas de

tormenta, numa orquestração como só a tem o infinito. Tudo as sentia.

A árvore vélha bracejava agitada e angustiosamente. A cidade lá em

baixo era um torvelinho de cousas indistintas. Só êle prosseguia,

medindo, classificando, registrando. E podia um vento mau terremotar

a casa. Podia um tufão furioso ir desmoronar as sacas de crânios e

formar no adro a pilha de crânios que é o quadro de Verestchaguine,

aquele pintor russo que morreu na guerra russo-japoneza a bordo do

_Petropavlosk_,--_Après la bataille_. Êle não sentiria, êle continuaria

as suas notas, e só as terminaria quando nada mais, nenhuma sutura,

nenhuma bossa, nenhuma asimetria, houvesse a notular.

Se nunca foi aos cornos da glória é porque lhe faltava a destridade

dos malabaristas do reclamo. A sua tratabilidade de sábio raso, sem

alardos de sciência, nem emprenhidões de basófia, contumaz em lusas

celebridades, de todos o tornaram querido. Depois um quási nada de

antropófobo, a antropofobia do sábio que se ensimesma em lucubrações

profundas, e gasta a vida à _luz estudiosa_. Era esta que, pelas

negridões da noite, brilhava sempre no seu gabinete, como na sua

mente brilhou sempre a fé, a fé numa perfectibilidade do homem e uma

consolação no estudo, que, estou certo, afinal talvez nunca chegasse a

encontrar, que o tornavam quási um estranho a tudo, a todos os arruídos

e quermesses que lá ao fundo convulsionavam a cidade.

E quem sabe lá, a esta hora talvez êle esteja ainda contando ao verme

as palavras enternecidas dos snrs. Manouvrier e Quatrefages e as

saudades dos seus crânios muito amados.

Então da outra vida, pensam as almas crentes, o sábio abençoará

de-certo e tarefa bondosíssima, devotada e carinhosa do Dr. Costa

Ferreira.

Emigrantes

Paro diante da reprodução dum quadro. É do Salon dêste ano, intitula-se

«Émigrants» e assina-o Paul Sieffert. Eu não conheço o pintor. O

assunto conheço demasiadamente. Se não viram o quadro, eu conto. O

quadro do sr. Paul Sieffert é uma gare ou cousa que o valha. Cai neve.

O horizonte é longínqùo e a perspectiva monótona. Nem uma árvore, nem

uma planta. Neve, montes ao longe, neve sempre. Á direita vagons.

Vagons de mercadorias, vagons que esperam tempo de seguir, levando não

se sabe o quê, ocupam quási tôda a tela. No primeiro plano uma mulher

sentada no chão estende um peito à voracidade do petiz que manduca. O

macho, dorme ao lado, cabeça sôbre uma perna sua, braço estendido ao

longo do corpo. A mão é primorosa. O busto bem estudado. Na cara--a

cara é tôda uma psicologia--mostra a estereotipia de inumeráveis

privações. Parece repousar, ou sonhar, cavada a face, bem vincadas as

rugas que a angústia marca a baixo relevo no rosto dos que sofrem. A

mulher ao lado cogita. Parece olhar-nos. Não olha. Ela não vê. Scisma!

Em quê? Só ela o poderá dizer. Uma trouxa mísera, junto, é tôda a

bagagem. Êle tipo de operário, ela de fêmea resoluta e sofredora. Vão

partir. Vencerão? Quem o saberá?

Não sei porquê, são-me simpáticos estes tipos. Se pudesse, protegia-os.

Sucede muitas vezes a minha piedade ir de preferência para os tipos

que os meus pintores ou os meus artistas me entremostram--tão pouco

a merecem, os que a gente topa todos os dias. Ao lado uma ranchada

manduca, ainda. Mais longe, pequenos ranchos, trocam esperanças. Um

vulto, ao fundo ou quási, remexe a maleta. E, como se o pintor os

quisesse destacar, aparece-nos, quási escondidamente, um vélho que

sonha, pelas costas um vélho capote, no olhar uma nostalgia feroz,

contrastando com um homem que, de bruços, rosto apoiado na palma,

scisma. Não scisma em sonhos. Scisma em realidades. A energia da sua

expressão traduz-se assim. É amargo. Êste homem sabe da vida. Há

combates no seu cérebro. Vencerá? Todos êles vão partir. Ilusões,

quimeras, esperanças, é a bagagem. Sabe-se lá quem vence?

Até aqui o quadro. Se a agente quiser realidade, apesar da tela ser

de Paris, temo-la bem perto. Nós somos do país da emigração. O quadro

de Sieffert é tambêm nosso, com a diferença de o nosso ser de mais

recrudescível agonia. O português é mais triste.

Todos os dias desembarcam nas estações, mangas de gente engajada que

sonhou e ainda vem sonhando. Vão até ao Brasil e são o que se chama

emigrantes. Então pagam a patente à realidade. O emigrante, por via

de regra, não sabe escrever. Soletra às vezes, mas é mais frequente

não saber. Não sabendo ler, não tendo a confidência muda da escrita

por derivativo, estes cérebros deitam-se a sonhar como nunca sonhou

ninguêm. As histórias das princesas encantadas, as mágicas, os contos

da carochinha e mil belezas populares foram criadas de-certo por quem

não sabia ler nem escrever. O Sonho é a válvula. Ai daqueles pobres

cérebros se não tivessem o Sonho! Terminariam no suicídio. Mas o Sonho

é a miragem. Acreditou alguêm no Sonho? Sempre êsse alguêm pagou caro

a sua confiança. Porque é certo: Só quem teve pesadelo acordou em

realidade. Quem sonhou delícias acorda mais brutalmente--como alguêm

que tendo vivido dois meses em quarto escuro o trouxessem de repente

para a alacridade duma paisagem batida da soalheira.

Sonham em Portugal, na solidão tranqùila da sua choça e quási sempre

vão acordar em longínqùas e estranhas terras. Olham em volta. Quem?

Ninguêm amigo. Indiferentes, criaturas a quem a dôr alheia, à força de

vista e assistida, embotou tôda a sensibilidade. A saudade é o pior

inimigo do emigrante. «Saudade gôsto amargo de infelizes, delicioso

pungir de acerbo espinho», diz Garrett. Mas a saudade é tudo. Se se

vê o mar, é um vapor que vem, porque vem; se um vapor parte, ai quem

déra ir com êle, partir tambêm com êle. São os poentes, duma melancolia

infinita, são as noites estreladas e tropicais, são nuvens que passam

correndo, farrapos de sonho, recordações da infância, cousas dispersas.

Tudo é saudade. E o pobre animal, bêsta de carga, gaguejando comoções,

tem nos olhos uma angústia latente, uma tristeza intraduzível, mixto

de resignação, de sofrimento e dum consuntivo mal. Mas, parte.

Armazenam-o a bordo, num dêsses casarões flutuantes, âmbito estreito,

muito desabrigo, trato mercenário e uma grade que os enjaula num

restrito círculo de vida. Ali dormem, comem e sonham promíscuamente.

E naquelas longas noites de travessia, enxugadas as lágrimas da

partida, estranguladas as saudades da largada, só o mugir surdo das

vagas lambendo o casco e os ronquidos surdos da máquina cumprindo o

seu fadário. Pobres almas divagantes, vão tambêm embaladas no sonho,

confiadas, e não escutando, no marulho do oceano, a sua raiva fria e

hostil, mas um cântico embalador, que traz de onda em onda, de vaga em

vaga, as recordações distantes, a misteriosa correspondência dos entes

queridos que ficaram em terra.

* * * * *

Crónicas imorais · 第 1 / 11 段