Saiu a criada á bocca da mina, no desvariado intento de chamar quem
levasse d’ali a fidalga.
Suspendeu-a a lembrança de fazer publica a desgraça de sua ama. Voltou
com a vela, que lhe caiu das mãos convulsas, e se apagou. Aterrada
e cega nas trevas, invocou a Santa Virgem, e pediu logo perdão da
parte intermediaria que lhe fizeram tomar, desde Lisboa, n’estes
desventurados amores; tinha sido ama do menino esta criada, que se
affeiçoara, como usam affeiçoar-se estas mulheres a suas senhoras. Não
obstante, em conflicto de tanta angustia, a sua idéa, quando se viu no
escuro, foi fugir da terra, e mudar para outra onde a não conhecessem.
N’esta perplexidade, ouvia gemer sua ama, e proferir expressões n’uma
toada medonha.
Avisinhou-se ás apalpadelas, e tirou por ella de sobre o cadaver;
mas os braços de Beatriz estavam empedernidos ás ilhargas do morto.
Chamou-a, agitou-a, sacudiu-lhe a face: baldaram-se vozes e esforços.
Cresceu o terror da mulher: decidiu-se pela fuga, sem já dar tento, nem
importar-se da crueldade e desamor do acto. Foi ao seu quarto, embolçou
os valores que tinha; e, tirante esta ultima prova de bom senso, no
mais parecia doida a correr por aquella estrada fóra sem destino.
Por volta de uma hora da manhã, Beatriz espertou da lethargia, e
sacudiu os membros para espancar a visão horrenda, o sonho de se estar
abraçada no cadaver do amante. A visão teimava em atirar-lhe ao seio o
corpo glacial de um morto, e ella esfregava as palpebras, e arrefecia
as mãos na testa.
--Que horror de sonho!...--exclamava suffocada--e, apalpando as costas
de Raphael, continuava a dizer em sua alma:--Parece que o sinto debaixo
das mãos!... Que horror, Virgem Santissima!...
Bracejou, e deu com os braços nas paredes humidas da mina. Então é que
foi o supplicio indescriptivel do completo despertar. Ergueu-se de
salto. Vibrou um agudissimo grito. Rojou-se ao longo do cadaver com
frenetica ternura. Beijou-lhe o perfil do rosto: levantou para si a
cabeça como hirta; apertou-a convulsamente á face d’ella; correu-lhe a
mão pelo seio, e ensopou-a em bulhões de sangue, ainda quente. Refugiu,
levantou-se, bateu com a face nas asperezas da saibrada angulosa de
seixos, gritou por luz, chamou a criada, e correu ao longo da mina de
encontro ao clarão da abertura. Quando saiu de rosto ao ar livre, e se
viu sósinha, e não soube compreender que profundezas de abysmo eram
aquellas; e que circo de chammas havia de abranger-lhe o espirito; e
que infanda agonia se passava debaixo dos olhos do Senhor... a perdida,
a torturada por tormentos, não sabidos de nome n’este mundo, caiu, a
poucos passos da mina, caiu como pregada em terra pela flecha de um
raio.
Ás trez horas, rompia a manhã. Uns carreteiros, que passavam, ergueram
aquella mulher, envolta n’um manto branco, ferretado de sangue.
Reconheceram a fidalga, e chamaram a grandes brados os servos da casa.
Acudiram todos, e levaram em braços Beatriz.
No mesmo ponto, saiu um criado para Valdez, e outro para a Ribeira
d’Oura a chamar Nicoláo de Mesquita. Estendeu-se uma rede de homens
a procurarem não sabiam elles quem; viam a fidalga ensanguentada, e
julgaram-n’a ferida. As criadas examinaram-n’a, e apenas lhe viram o
rosto escalavrado. Vieram cirurgiões, e decidiram que os ferimentos
visiveis, a não existirem outros, eram resultantes de uma queda com o
rosto sobre a pedra.
O sangue das mãos entenderam que rebentára da face, quando ella se
apalpou.
Beatriz abriu os olhos, na presença de muitas pessoas circumpostas ao
leito. Despediu gritos consecutivos, sem intermissão de socego. Rasgou
as vestes interiores, e as faces de quem lhe retinha os braços. Cessou
de gritar, e interrogava os espavoridos circumstantes, perguntando
quem matára Raphael Garção. Os ouvintes encaravam-se e não respondiam.
Embravecida pelo silencio, a esposa de Nicoláo de Mesquita atirava-se
do leito fóra, arrepelando-se, e lacerando as macerações e feridas do
rosto com as unhas. Tingiu-se-lhe de um escarlate de fogo a cara e
testa. Relumbravam-lhe os olhos. O arquejar do peito resoava como em
paroxismos.
A congestão cerebral declarou-se. Soccorreram-se das copiosas sangrias
os facultativos; porém, no momento em que o intenso afogo do rosto
parecia esfriar, Beatriz abriu os olhos, encontrou os do filho que
chorava, sacudiu os braços com vibrações de metal electrisado, e caiu a
um lado sobre o seio do cirurgião, que a relancetava.
Nem um monosillabo! Nem o nome do filho! Nem o nome do amante!...
Morrêra.
Ao anoitecer, chegou Nicoláo de Mesquita. Já desde o alto da serra
eminente a Palmeira ouvira o dobrar dos sinos. Tangiam as torres das
irmandades de todas as freguezias proximas.
Apeiou, correu ao quarto de sua mulher, e viu-a, na ante-camara,
amortalhada, com Martinho Xavier á cabeceira do esquife.
--Que é isto!--exclamou elle--expliquem-me esta horrenda desgraça!...
Martinho Xavier não respondeu. Nicoláo instou pela resposta com
gesticulação de furioso, guinando os olhos ameaçadores a todos os lados.
Saiu ás salas, cheias de gente. Ergueu um brado, pedindo a historia da
morte de sua mulher.
--Ninguem sabe responder--disse uma voz.
Acercaram-n’o os cirurgiões, e contaram o que sabiam: os criados
depozeram lealmente o que tinham visto, e accrescentaram que a ama do
menino desapparecera.
--Vão buscal-a! vão prendel-a!--rebramiu Nicoláo.
Martinho Xavier acompanhou o cadaver da filha até ao jazigo da capella,
depois de ter assistido aos responsorios. Saiu da capella; e, sem
entrar a despedir-se do pae do seu neto, tomou a creancinha nos braços,
e accelerou o trote do cavallo, caminho de Chaves.
Nicoláo de Mesquita perguntou pelo filho. Responderam-lhe que o avô o
levava ao collo, á saida da capella.
Saltou furioso d’entre os cavalheiros que o rodeavam, e quiz ir na
pista do sogro. Retiveram-n’o, lembrando-lhe que ainda estava quente o
cadaver de Beatriz.
No outro dia, por noite, chegaram á vista de Palmeira os criados
de Raphael Garção com o cavallo, na fórma das ordens de seu amo.
Esperaram-n’o a noite inteira. De manhã, repentinamente, viram-se
cercados de regedor e cabos que os interrogavam sobre o que faziam
parados n’aquelle sitio. Como gaguejassem, foram presos; e, timoratos
entre ferros, declararam a que fins tinham vindo.
Nicoláo de Mesquita ordenou que os trouxessem á sua presença.
Atterrados pelo apparato, contaram tudo. O morgado suppoz, um momento,
que Raphael Garção fôra o motor da morte de sua mulher ou com suas
proprias mãos a estrangulára, e fugira para Hespanha. O boato
correu assim, e a opinião publica deu-lhe peso. Os paes de Raphael,
surpreendidos por esta nova, sairam caminho de Palmeira. Ricardo de
Almeida appareceu ao mesmo tempo nos arredores de Palmeira, e defendeu
o seu amigo com a eloquencia da verdade e da angustia, na presença de
numeroso publico, exclamando:
--O assassino de um, ou de ambos foi Nicoláo de Mesquita!
Enganavam-se todos.
Os paes de Raphael Garção escutavam as differentes vozes com um spasmo
e silencio, que fazia chorar. Não sabiam dizer ao que tinham vindo;
procuravam o seu filho! Voltaram para casa. A mãe esperou dois mezes.
Apagada a esperança de tornar a vel-o, foi procural-o n’outros mundos.
O velho, menos feliz que a esposa, ficou-se espantado a olhar contra o
jazigo em que lh’a fecharam, e d’alli saiu idiota para a escuridade de
uma camara, onde agonisou dez annos.
Ricardo de Almeida, convicto de que seu primo Raphael tinha sido
assassinado por ordem de Nicoláo, não podia soffrer que a voz publica
infamasse a memoria do desgraçado, poupando o assassino. Como já não
podia com o silencio desinfamar a honra de Beatriz, foi a Chaves, e
contou a Martinho Xavier os pormenores dos amores de Raphael com sua
prima, e as intenções com que elle saira de casa d’elle para Palmeira.
O velho achou rasoavel a supposição do morgado do Pontido; mas a sua
angustia já não tinha respiradouro. A indignidade da filha culpada e
morta enleava-lhe os braços para a vingança. Com que direito iria elle
vasar uma bala no peito do homem, que barbaramente se desultrajára!...
Pediu elle a Ricardo de Almeida que se calasse para que o tempo levasse
a lembrança da horrivel tragedia na sua onda de sangue.
Cançaram-se os pregoeiros da desgraça. Ao fim de um mez os processos
começados estagnaram-se, á mingua de indicios. Martinho Xavier, instado
para restituir o neto, desappareceu com elle, e com boa parte dos seus
cabedaes. O menino tinha quatro annos, n’aquella época. Seu avô dizia
que o queria roubar ás reminiscencias do opprobrio e da morte de sua
mãe. Refugiára-se com o seu thesouro em Londres.
Nicoláo de Mesquita foi para a Ribeira d’Oura buscar as consolações
de Margarida Froment. Enganara-se. O aspecto moral d’esta mulher
figurou-se-lhe um demonio, que o escarnecia na sua ignominia, a
ignominia de ser deshonrado, como suppunha dos boatos propalados pelo
Almeida, no intuito de o condemnar a elle como homicida de Raphael e
Beatriz.
Era uma figuração meramente este reparo no escarneo de Margarida. A
franceza ageitou as feições á magua do seu amigo: interiormente é
que ella se deleitava atrozmente, vendo-se no juizo do mundo e de
Nicoláo tão deshonrada como a mulher purissima, por amor de quem fôra
abandonada á generosidade do primeiro homem que quiz acoital-a da
vergonha de pedir ella um amante em troca de um jantar e de um vestido.
Os exteriores da franceza eram, pois, uma chimera do morgado de
Palmeira. O que lhe dava estas visões era a interna dilaceração, que
todo o repouso e esperança lhe convertia em raiva e desalento. A
publicidade da sua ignominia, aggravada com a hypothese de ter sido
elle o assassino, afóra o perdimento do filho, ao qual a Providencia
lhe suscitára no coração um amor incendiario, estas angustias,
centuplicadas pela dolorosa travação de todas, fizeram da vida d’este
homem um espectaculo aborrecido ás raras pessoas que o tratavam, e,
mais que a todas, a Margarida Froment.
Assim que ella proferia uma palavra de banal consolação, Nicoláo
enfuriava-se, e dizia que o seu vilipendio não transigia com os factos
consummados, com a deshonra de muitos homens.
Margarida, injuriada assim na pessoa de seu marido, abria uma das
valvulas do seu fel--o fel que o desprezo da sociedade emborca
violentamente na consciencia das mulheres despreziveis--e rebatia-lhe
as injurias com aviltamentos.
A repetição d’estes conflictos disparou na ameaça de rompimento por
parte de Margarida. O atormentado homem, irado pela ameaça, bramiu:
--Pois vae-te, mulher fatal! vae! que a tua expiação ainda não começou!
Uma adultera lá está na sepultura! Eu estou aqui n’esta agonia, que tu
vês!... Tu, maldita, ousas ainda espremer a peçonha nas minhas chagas,
quando devias laval-as com lagrimas! Tu, por amor de quem eu deixei que
Beatriz fosse victima da seducção! Tu, que interiormente exultas com
o meu opprobrio, e com a queda de uma perdida na tua voragem!... Pois
vae-te, vae, maldita, e deixa-me morrer!
Margarida preparava os seus bahus, para ausentar-se; e Nicoláo
lançava-se-lhe de joelhos aos pés, exclamando:
--Não me deixes n’esta solidão! bem vês que todos fogem de mim! Não
tenho ninguem! ninguem! até o filho me roubaram!...
A franceza condoia-se; estendia-lhe compadecidas mãos; acolhia-o nos
braços com ficticia ternura, e desprezava-o tanto quanto elle mais se
envilecia.
As maviosidades momentaneas de Nicoláo pareciam ridiculas caricias
de velho idiota: os exasperos, interpollados com as caricias,
afeiavam-n’o horrivelmente.
Margarida pensou em fugir-lhe, receiosa de algum accesso de furia
sanguinaria.
Induziu-o a sair da quinta da Ribeira d’Oura para Lisboa. Nicoláo
recebeu jovialmente o alvitre; mas d’ahi a nada, rompia em exclamações
contra a mulher, que lhe aconselhava dar maior publicidade á sua
deshonra.
--Está mentecapto!--dizia entre si a franceza.--O diabo que o ature!...
Nicoláo de Mesquita foi ao solar de Palmeira, passados dois mezes,
abrir as janellas e arejar o palacete que nunca mais se abrira.
Meditava em transferir para alli a franceza, desejo que ella
manifestára por lhe haverem dito que a casa e bosques e jardins de
Vidago eram magnificos.
Deteve-se a revolver as commodas e bahus de Beatriz, onde não encontrou
papel suspeito. O mordomo fez-lhe saber que as caixas da ama ainda
estavam fechadas no quarto, porque ninguem dava noticia da paragem que
ella tinha.
Nicoláo fez arrombar as caixas, e encontrou alguns massetes de cartas,
e uma medalha de oiro com o retrato de Raphael Garção, e uma manilha
com cabello identica áquella com que o amante de Beatriz morrêra.
O morgado leu as cartas, sem excepção d’aquella em que Raphael alludia
galhofeiramente ao episodio burlesco da casa das primas Camaras em
Bemfica.
Nicoláo sentiu o feroz impulso de ir insultar o cadaver de Beatriz ao
jazigo, como a inquisição fazia aos monarchas. Tinha exemplo de boas
fontes. Desistiu da lamentavel inepcia, e fugiu como de si mesmo para
a Ribeira d’Oura. Quando chegou, não encontrou Margarida Froment.
Sobre um piano viu um papel fechado, com estas breves linhas:
«Já não podemos ser senão muito desgraçados um em presença do outro. A
mulher fatal não quer fazer mais victimas. Adeus.
«MARGARIDA ESPOSA DE E. FROMENT».
Nicoláo, corridos trez minutos de estupefacção, exclamou:
--Pois ha Deus que castigue assim!?