Chega uma hora, em que a mulher, esfacelada pelas cordas em que
estrebuxa, quando a mão inexoravel do dever lh’as estira e reaperta,
sente em si a desesperada ousadia de pregoar á face do proprio marido
o seu amor maldito. Se o insulto á moral se não desprende então dos
labios febris da energumena, é porque em todo o coração, congestionado
de sangue peçonhento, como que se abre uma valvula por onde os pulmões
ingerem um oxigenio purificante. Esta lufada de bom ar não tem que vêr
com os orgãos communs das funcções respiratorias. É fluido estranho á
sciencia de Bichat e Orfilla: chama-se _Esperança_.
Foi a esperança que poz mordaça aos delirios de Beatriz. A presença
do marido, em cujo rosto revia o escarneo rancoroso, exagitava-a
em anciadas remettidas contra os braços que sustinham. N’uma
intermittencia de quebranto, a filha de Martinho Xavier tirou da luz
do seu inferno um clarão de duvida, e logo o deleite satanico da
esperança. E surriu, e atirou com aquelle surriso á cara de Nicoláo de
Mesquita.
Avisaram o velho do estado afflictivo de sua filha, pessoas
inteiramente alheias ao complicado enredo do infortunio de ambos.
Martinho mandou dizer a Beatriz que viesse ao seu quarto. A senhora
cobrou forças, e, descomposta de feições, abeirou-se á cama do pae.
--Já não é tempo de evitar o espectaculo da nossa desgraça, Beatriz?
perguntou elle.
--É, meu pae,--disse ella.--Eu vou voluntariamente morrer n’um
convento: mas deixem-me levar o meu filho.
--O convento que significa? Em que se rehabilita a deshonra, fechada
n’um convento? Responde, Beatriz!
--Morre-se... murmurou ella.
--Não morre... desespera-se, e redobram as forças que impellem ao
crime. Não te chamei para te propôr convento. O que eu quero é o
segredo da tua queda. É preciso que mintas ao mundo. Vai com teu
marido para Palmeira. Dilacerem-se a occultas da gente, se não podem
reciprocamente perdoar-se. A tua ignominia é ainda ignorada. Teu marido
sabe-a?
Beatriz fez um gesto negativo, baixando os olhos e escondendo o rosto.
--Nem desconfia? tornou o pae.
--Não sei... murmurou ella.
--Pois salva-me a mim! Emenda-te, desgraçada! Deixa-me morrer, e
depois... depois expõe á sociedade o opprobrio de duas familias, e o
teu filho que receba a herança!
Beatriz ajoelhou, beijando soffregamente a mão do pae.
Nicoláo de Mesquita entrou n’esta conjuncção, e disse tranquillamente:
--Estás melhor, primo Martinho?
--Creio que sim... Podeis ir para vossa casa, quando vos aprouver. Eu
vou sahir de Chaves para uma de minhas quintas, logo que possa.
--Observo que te impacienta a nossa... ou pelo menos a minha
presença...--replicou Nicoláo.--A prima Beatriz, se queres, fica, e eu
irei.
--Vão ambos... Beatriz pertence-te.
No dia seguinte, seguiram para Vidago.
No trajecto de algumas leguas não trocaram palavra. Beatriz ia de
liteira com o filho. O marido cavalgava, e adeantára-se a grande
distancia. Depois, na encruzilhada de duas estradas, avisinhou-se rente
com a liteira, e disse:
--Eu vou á quinta de Valdez e demoro-me lá alguns dias.
Apertou a mão da esposa, beijou o filho, e seguiu outra estrada.
Beatriz exultou.
Chegada a Palmeira, escreveu, e mandou o criado de confiança a Fayões
com uma carta. Era a carta um grito de angustia, uma invocação á
misericordia de Raphael.
O criado foi de Fayões ao Valle d’Aguiar. O morgado estava em casa
de Ricardo. Aqui recebeu a carta, e respondeu que ás onze horas
da seguinte noite estaria em Palmeira. Beatriz, precavida pelas
desconfianças do marido, mandou secretamente indagar, se elle estava
na quinta de Valdez. Soube que d’ali, onde descançára uma hora, se
encaminhára de noite á Ribeira d’Oura. Beatriz exultou ainda. Margarida
Froment abonava-lhe a segurança de uma longa entrevista.
O dia seguinte fôra tumultuoso em duas aldeias proximas do Vidago,
entre as quaes estava situada a casa de Palmeira. Os malhadores de
duas casas, enrixadas desde muito, haviam-se travado na vespera, ao
encontrarem-se as respectivas esturdias ou festas de cada malhada. As
rebecas, violas, clarinetes e bombos, de parte a parte, ficaram pedaços
no campo da sanguinolenta briga. Os dois mais valentes jogadores de pau
tinham mordido a poeira, deslombados pelos formidaveis manguaes, cuja
pancada é mortal.
Os sinos das duas freguezias tangeram a rebate, e os moradores sairam
armados a guardarem as raias do seu territorio.
O dia immediato era santificado, e, na capelinha do cume da serra,
havia romagem. Esperava-se alli desordem que se avantajou á espectativa.
As espingardas retroaram toda a tarde, na quebrada das duas serras
sotopostas á chã da romaria. Alguns bravos tinham por lá expedido a
alma entre as urzes dos matagaes. Os vencedores perseguiram os vencidos
até ás raias da sua freguezia, e ahi, desde o lusco fusco, ficaram
atalaias até alta noite.
Raphael saira ao fim da tarde do dia anterior, caminho de Fayões.
Amelia chorara ao despedir-se d’elle. Laura quizera demovel-o da
partida, sem perceber o intento. Ricardo pedira-lhe que escrevesse a
Beatriz, contando-lhe a morte do seu criado, o dialogo com Martinho
Xavier e a absoluta necessidade de acabarem ou espaçarem-se os seus
perigosos encontros.
--Tudo lhe direi em viva voz--continuou Raphael Garção.--Não ir é
fraqueza e desdouro, sobre ser crueza. Esta mulher, que assim escreve,
é desgraçadissima.
--Melhoras a situação d’ella?--replicou Ricardo.
--Convencel-a-hei a conformar-se. E aqui te dou a minha palavra de
honra que ámanhã terminam as nossas relações. Falla muito em mim a tua
cunhada que eu amo deveras.
Foi Raphael a casa no intuito de armar dois criados de provada coragem,
e cingir ao pulso uma manilha de ouro com um retrato de Beatriz. Esta
prenda lhe déra a prima em Lisboa. O retrato, copiado de outro, que
Nicoláo de Mesquita lhe mandára tirar, era em marfim, admiravelmente
perfeito. Na manilha, em cuja rosca interior estava o cabello de
Beatriz, mandára Raphael abrir as iniciaes de ambos, e gravar a data
d’aquella noite de embriaguez de cabeça e coração. Jurára elle morrer
com a manilha no braço; e, bem que violasse o juramento, depondo-a
como incommoda, e reparavel á cunhada de Ricardo, não quiz apparecer a
Beatriz sem ella.
Depois, com os seus dois valentes a pé, e elle cavalgado no seu garboso
frisão, foram caminho de Palmeira, por caminhos transversaes.
Raphael ia triste. Nunca os prantos de sua mãe o compungiram assim!
O pae descêra ao pateo e dera-lhe um abraço, estando já Raphael com
o pé no estribo. Os criados esperavam-n’o fóra da aldeia, para não
alvoroçarem os velhos.
Ás dez horas e meia da noite, o morgado de Fayões apeou além Tamega,
d’onde se enxergavam alvejantes chaminés e claras-boias da casa de
Palmeira. Raphael esperou o signal convencionado--uma luz na alta
janella d’um mirante acastellado. Ás onze horas illuminou-se o mirante
e elle aproximou-se, entregando o cavallo á guarda dos criados com
ordem de voltarem na noite seguinte. Cingiu-se á fachada do edificio,
d’onde costumava ver Beatriz n’uma janella para lhe indicar qual das
portas estava aberta.
--Espera!--disse-lhe ella--que ainda não pude mandar abrir a porta.
Andam fora dois criados, por causa das desordens da romaria.
Raphael tinha ouvido o tiroteio, de distancia de meia legua, e entendeu
a referencia.
Beatriz continuou:
--Os criados estão ali para baixo com outros homens, e não podem
tardar... A noite está linda... havemos de passear no jardim?
--Sim, filha.
--Amas-me ainda? tens pena da tua desgraçada Beatriz?
--Amo-te, prima; não vejo, porém, motivo de compaixão.
--Se tu soubesses o que eu tenho soffrido... o que eu soffri em Chaves.
Espera!
Ouviram grande fallario.
--São elles que vem ahi, proseguiu ella agitada. Olha, Raphael;
esconde-te alli ao lado da casa... Está lá um aqueducto aberto; entra
para dentro, e deixa-os passar. Logo que os dois criados, em que não
tenho confiança, entrarem, vou eu mesma abrir-te a porta do jardim. Tem
paciencia...
--Sim, filha!... eu espero que elles passem, e aproveito a frescura do
aqueducto, disse surrindo Raphael; e, acostado á parede do jardim, foi
indo até encontrar a bocca da mina.
Os criados pararam ainda, conversando com os seus companheiros sobre a
batalha da tarde. Dizia um d’elles:
--O que eu tenho pena é de levar esta bala para casa na clavina!
--Tambem eu!
--Por hoje não ha mais que vêr! disse um terceiro. Vamos embora.
--Querem vocês que nós dêmos a ultima descarga?
--Valeu! clamaram todos.
--Aqui não! disse um dos criados de Beatriz, que a fidalga toma medo.
Vão descarregar os bacamartes ahi para diante.
Despediram-se dos que ficaram uns quatro que seguiram, aperrando as
armas, e polvorisando as pederneiras.
Quando chegaram a pouca distancia da mina, em que Raphael se escondêra,
disse um:
--Se vocês querem vêr o que é berrar uma clavina, vamos estoiral-as
dentro da mina. Isso faz ahi um trovão, que nem peça de artilheria.
--Está dito.
Raphael devêra ouvir a proposta, se a este tempo não viesse do outro
lado uma estropeada de dois cavallos, que perpassavam deante da mina.
Os cavalleiros, cirurgiões das cercanias, estiveram conversando com
os homens armados, e contando que vinham de examinar os feridos e os
mortos nos montados da romaria.
A este tempo já Beatriz estava á janella, maldizendo a paragem dos
homens n’aquelle sitio. Os cavalleiros seguiram o seu caminho, e os das
clavinas disseram:
--Vá! é agora! os tiros todos a um tempo!
E desfecharam os quatro bacamartes contra a bocca da mina.
Raphael Garção, como empurrado pelas duas balas que lhe entraram no
peito, recuou alguns passos e caiu de bôrco, e os braços cruzados entre
o peito e a terra.
Os lavradores, depois da descarga, levantaram grande grita e apupada.
D’além, dos confins da freguezia, irrompeu medonha celeuma de brados, e
estrondear de tiros.
Observou um dos homens:
--Querem vocês vêr que os patifes entraram na freguezia? Carrega e
avança, rapazes!...
E correram em direitura ao ponto da vozearia.
Beatriz esperou alguns minutos, dizendo entre si:
--Elle agora já podia sair da mina, que por aqui não está ninguem!
Esperou ainda alguns segundos... e disse á sua criada confidente, que
estava com ella:
--Isto que será?! Elle não apparece!... Tu que pensas?...
--Eu não sei, fidalga! respondeu a criada. Terá medo de ser visto, por
alguem, que nós d’aqui não enxerguemos, e o fidalgo veja lá de dentro
da mina...
--Ha de ser isso... mas olha... a noite está tão clara... e eu não
vejo ninguem por alli!... Vamos nós lá?
--Pois vamos, senhora... eu não tenho medo nenhum.
--Nem eu... Estará elle já no jardim?
Desceram de mansinho ao jardim, olharam os recantos sombrios,
descerraram a porta, sairam ao caminho, e paráram á bocca da mina.
--Raphael!... chamou ella, primo Raphael!... Não falla! Onde está
elle?... Ó meu filho!...
Ouviu um gemido no interior da mina.
--Ouviste? perguntou Beatriz á criada, que tremia--ouviste um gemido?
--Ouvi, fidalga!... Santo Deus, misericordia! que será?!
--Raphael! Raphael!... clamou a brados Beatriz, e entrou mina dentro,
chamando sempre, até tropeçar e cair sobre um corpo inerte.
--Uma luz, uma luz!--exclamou ella.--Raphael! tu estás morto?!
--Morto!...--balbuciou elle--Adeus!...
E remexeu-se no vasquejar da suprema agonia.
--Uma luz!... bradou ainda Beatriz.
A criada corrêra a casa, e saira logo com uma vela.
Quando entrou na mina, viu sua ama prostrada sobre o cadaver, e a face
ensanguentada, por havel-a roçado ao cair, nas pedras esquinadas que
saiam das paredes do aqueducto!