XXI

Chegaram os fidalgos ao Vidago. Beatriz entrou contente na enorme gruta

de arvores seculares, que emboscavam a casa de Palmeira.

Quinze dias depois, Margarida Froment, com o seu mordomo e criadas,

aposentavam-se na quinta da Ribeira d’Oura. Nos arredores corria que

esta dama, com suas aias, e mordomo, vestidos á bizarra, era uma

illustre estrangeira, que viajava, e parára alli, embellesada nos

encantos do sitio.

Martinho Xavier não visitou a filha, e, respondendo ao genro, que

lhe annunciava a chegada, nem promettia ir vel-o, por estorvo de

enfermidades, nem o convidava a ir a Chaves. Nicoláo de Mesquita

azedou-se da indelicadeza, e disse á mulher que o pae era uma creatura

intractavel.

Informou-se o morgado do viver de Raphael. Colheu que vivia muito

no Pontido com Ricardo, e com os amores começados de uma cunhada de

Ricardo, dotada com duzentos e cincoenta mil cruzados. Varreram-se-lhe

as suspeitas do pensamento. Foi á Ribeira d’Oura; deteve-se oito dias,

e voltou forçado pelas conveniencias, e já não pelo ciume.

N’este espaço de tempo, Raphael Garção passou trez dias no palacete

de Palmeira, e revistou com Beatriz, nas cálidas horas das noites de

julho, os maciços das murtas, os alegretes das flores almejadas em

Lisboa, os arvoredos cerrados, as margens do Tamega rumoroso. Noites

lindas, scismadoras como as do tempo ido, mas que differentes ao

espirito de Raphael! Poesia espontanea, essa fenecêra como as flores de

então. A poesia de agora, tirada á força da fantasia, era toda arte de

coração fatigado. Beatriz é que era sinceramente ditosa.

Raphael estava alli e pensava em Amelia, irmã de Laura, trigueira como

sua irmã, olhos mais ardentes, espiritos mais scintillantes, cheia de

graça na conversação, e de meigas puerilidades no seu amor.

Acontecia, porém, que o pae de Amelia desconfiava do caracter de

Raphael. Repugnava-lhe o tom galhofeiro do primo de Ricardo de Almeida.

Achava-o mundano de mais; bom para as salas; verde de mais para a vida

intima. Não obstante, ligeiramente contradizia a propensão da filha.

Raphael não podia romper de vez o enlace com Beatriz; promettia, porém,

ser forte e honrado, assim que o casamento se tratasse.

Aqui o temos, pois, transtornado, e seduzido pelo exemplo da felicidade

do primo. As differenças de genio, que mezes antes observára elle,

entre si e Ricardo, tornaram em identidade de aspirações. Dizia-lhe

o castellão de Aguiar que principiasse a sua reforma, renunciando ás

abominaveis intelligencias com a esposa de Nicoláo de Mesquita. Raphael

mentiu, protestou despedir-se d’ella cavalheiramente, recolheu-se a

Fayões; e assim que houve nova da segunda ida de Nicoláo á quinta da

Ribeira d’Oura, voltou para Vidago.

Martinho Xavier sabia os passos do genro, e os do sobrinho. Ao genro

perdoára; ao sobrinho não pudera. Um dia, chamou dois valentes filhos

de um caseiro das suas terras de Barrozo. Deu a cada um seu bacamarte;

e, ao cerrar da noite, ordenou-lhes que o esperassem fóra de Chaves,

com um cavallo á redea. No sellim iam afivelados coldres de pistolas de

alcance.

Á meia noite, haviam caminhado quatro leguas. A casa acastellada de

Fayões negrejava como um morro de fragas, a um oitavo de legua distante.

Martinho parou e disse:

--Á uma hora devem aqui passar dois homens a cavallo. Se o que vier á

rectaguarda fizer algum movimento com armas, atirem a matar. Ao que

vier na frente não lhe ponham mão. Se acontecer matar o criado, fujam,

e esperem-me além Tamega. Eu lá irei ter.

Antes da hora marcada aos criados, que se embrenharam n’uma bouça,

ouviu-se perto o strupido de cavallos no declive pedregoso da calçada.

A estrada achanava-se ao cimo da ladeira.

Raphael Garção viu ante si um cavalleiro, quedo e immovel como estatua.

--Quem é?--perguntou engatilhando uma pistola.

--Sou Martinho Xavier, pae de Beatriz.

--Meu tio!--exclamou Raphael, abaixando o braço da pistola.

--Arreda lá com o parentesco, infame villão!--bradou o velho.--Vae

perguntar a tua mãe que lacaio te deu o sangue plebeu que te gira nas

veias!

--Essa affronta não fere minha mãe, senhor Xavier! respondeu o de

Fayões erguido nos estribos.

O criado de Raphael, seu companheiro e guarda desde os quinze annos,

esporeou o cavallo com um bacamarte em punho.

--Alto ahi!--ordenou Raphael ao seu valente criado.

O homem susteve o impeto do cavallo, e recebeu no mesmo ponto, duas

balas em cheio peito. Oscilou sobre a sella, inclinou a cabeça ao

pescoço do empinado cavallo, e, destribado caiu morto em terra.

--É uma espera de assassinos?--exclamou Raphael, abocando a pistola ao

peito do tio.

--Como quizeres, canalha! Vaes agora morrer tu, ás mãos de um velho,

que deshonraste. Desfecha, corôa a tua vida com o homicidio! Mata quem

te vae varar esse perverso coração!... O pae de Beatriz deve morrer ás

tuas mãos!

Raphael abaixou a arma apontada, e disse:

--Atire! aqui me tem mais perto!...

E impelliu a trancos o cavallo para a frente, e quasi ao alcance do

braço de Martinho.

O velho retirou o dedo convulso, que premia o gatilho.

--Antes quer que os seus criados me assassinem?--exclamou

Raphael.--Pois então que atirem elles! Um homem innocente está alli

morto no chão; matem agora o criminoso; desculpem-se de uma barbaridade

com um acto de justiça. Salvem a honra de seu amo, que o sangue do meu

criado não lhe póde lavar as nodoas!

Martinho Xavier fraquejara. Aquelle silencio era uma estrangulação que

lhe afogava na garganta a voz. Contara comsigo para uma desaffronta,

que, nas cogitações do seu quarto, lhe parecêra heroica. A presença do

cadaver, e o animo frio de Raphael conturbaram-n’o.

--A deshonra de minha filha!...--balbuciou elle. E as lagrimas

romperam-lhe em torrentes, e a pistola caiu-lhe da mão.--A minha

amada filha... prostituida... por um sobrinho de seu pae... pelo

companheiro da sua infancia, que eu tinha em meus braços, quando

ambos se beijavam... E pudeste, Raphael, tu, pudeste perdel-a, quando

devias guardar a dignidade dos teus, respeitar a esposa de um amigo,

a filha de um velho, que te estremecêra como pae... Tu, filho de uma

irmã de minha mulher!... Maldito sejas!... Deus não quer que eu possa

castigar-te... Divina Providencia, eu vos entrego este criminoso!...

Castigae-o vós!

Martinho Xavier desandou o cavallo, e partiu vagarosamente. Carecia de

forças, para accelerar a carreira.

Raphael desmontou, ergueu pelos hombros o criado, quiz acostal-o á riba

da estrada; mas o corpo inerte resvalava com a cabeça pendida, e os

braços desarticulados. O collete e a camisa fumegavam ainda queimados

pelas buchas dos bacamartes. O morgado tirou as mãos ensanguentadas; e

desistiu de esperar signal de vida.

Voltou a Fayões a chamar criados com uma maca de carregar.

Transportou-o a casa, e não deixou que fosse avisada a justiça.

Amortalhou-o e depositou-o na capella do palacete. Foi suffragado com a

decencia das pessoas da sua familia, e distinctamente sepultado ao pé

do jazigo dos Cogominhos Garções.

Quinze dias depois d’este successo, Martinho Xavier enfermou

gravemente, e prohibiu que Beatriz fosse avisada. Sem embargo, chegou

a Palmeira a nova da perigosa doença do fidalgo. Nicoláo de Mesquita,

sopesando o despeito, foi com a esposa e o filho a Chaves.

Era irrecusavel o accesso ao quarto do enfermo. Sentou-se com

transporte de ira o velho, quando viu a filha. Contemplou-a com os

olhos arraiados, e acovados nas orbitas azues. Apontou-a com o braço

tremente e murmurou:

--O crime!... a lividez patibular do crime!... A maceração da

consciencia no rosto que foi tão bello!... Vae-te, amaldiçoada!... Olha

que pesa sobre ti uma vida innocente, que eu fiz matar!

Nicoláo, que se detivera consultando os medicos, acudiu aos brados

roucos de Martinho, e viu sua mulher ajoelhada aos pés do leito, e

lavada em lagrimas.

Assim que o intreviu no reposteiro, o velho carregou a fronte, e bradou:

--Quem te chamou aqui, devasso? Vae para as vergonhosas delicias da

mulher, que achaste mais digna quando era mais perdida. Vae cumprir

a tua expiação, e não venhas ser testemunha da minha. Dei-te essa

desgraçada, que ahi está, cuidando que a guardarias no santuario de um

amor digno. Não podeste, porque vinhas do crime sordido, havias de

voltar ao mesmo abysmo, e arrastal-a comtigo! Vão-se ambos da minha

presença, e... despedacem-se!

Nicoláo estava corrido na presença das pessoas que o acompanharam ao

quarto. Retrocedeu taciturno, perguntando aos medicos se seu sogro

estava doudo. Os medicos, suspeitosos da justa supposição do morgado,

entraram ao quarto a examinar-lhe os olhos e os movimentos. Martinho

compreendeu-os, e disse placidamente:

--Eu não estou doudo, meus amigos. Escusam de examinar-me. Se vêm

lagrimas, são de desgraça, e não de demencia. Peço-lhes o favor de me

deixarem repousar... E, se ahi está alguma senhora, queiram pedir-lhe

que venha transportar d’ahi essa creatura.

E apontou para Beatriz, que desfallecêra.

Levada nos braços de duas damas, a filha de Martinho Xavier cobrou o

alento, e, expediu, com vibrantes gritos, repetidos golfos de sangue.

O marido sentou-se ao lado do leito onde a depuzeram, e encarou-a com

feroz catadura. É que das palavras de Martinho se convencêra que a

filha fôra accusar a ligação com Margarida Froment. Como os deixassem

breve tempo sósinhos, o marido acurvou-se ao ouvido da esposa, e

disse-lhe:

--Que esperavas lucrar tu com a denuncia, desgraçada?

--Qual denuncia, miseravel?--perguntou ella, erguendo-se de salto.

--Falla baixo! e responde: que lucraste?...

--Sae dos meus olhos, que te detesto!--exclamou Beatriz voltando-se de

repellão.

Replicou Nicoláo com uma convulsão de riso sarcastico, e saiu da

alcôva. Entraram senhoras a rodearem o leito de Beatriz. Encararam

n’ella com assombro, sem ousarem interrogal-a.

--Meu pae?--perguntou ella.

--Está socegado.

--Morrerá?!--tornou Beatriz muito commovida.

--Talvez não: os doutores dizem que a molestia é moral; mas a causa

toda a gente a ignora. Sabe-se que saiu á noite, ha quinze dias; voltou

de madrugada; fechou-se no quarto; e adoeceu, como se vê.

Uma das melhores amigas de Beatriz inclinou-se-lhe ao ouvido, e,

pedindo venia ás outras, perguntou-lhe:

--Tu sabes da morte do criado de teu primo Raphael?

--Não--respondeu Beatriz agitada.

--Pois mataram-n’o na mesma noite em que teu pae saiu; meus irmãos

dizem que a doença do tio Martinho está ligada a este acontecimento.

A senhora concentrou-se, e não respondeu nem esclareceu a tal respeito

coisa nenhuma.

Reinou de novo um silencio de pesames mortuarios no quarto; porém, na

saleta proxima, alguns cavalheiros conversavam com Nicoláo.

Dizia um d’elles.

--Este anno tem sido fertil em casamentos. As melhores herdeiras foram

empalmadas; mas o melhor dote, que veiu para estes sitios, entre Chaves

e Villa Real, foi o de Ricardo de Almeida. Cem contos em moeda!

Revelava outro:

--Cem contos de réis a cada filha, sendo trez as que tem o tal ricaço

de Mirandella, negreiro segundo dizem. Sabem vossês que uma das filhas

vae casar... com quem imaginam?

--Isso é sabido, acudiu outro. Casa com o Raphael Garção...

Um estridente grito de Beatriz agitou de encontro á porta do quarto os

cavalheiros. Nicoláo entrou com elles, e viu sua mulher debatendo-se

freneticamente nos braços de duas senhoras. Erguia-se ella a prumo,

estorcendo-se e inteiriçando-se em afflictivas ancias. Depois, ao

recair, quebrada de forças nos braços amparadores, bolçava sangue, e

recurvava as unhas sobre o peito, como se quizesse arrancar um cauterio

do coração.

Uma só pessoa compreendia cabalmente aquella agonia. Era o marido.

O esqueleto: Romance · 第 41 / 62 题