IX

O assustadiço amor de pae encarecêra a doença de Beatriz. O perigo

de vida fôra uma ligeira hemorrhagia nazal, que não deu tempo a

glorificarem-se as sciencias medicas de mais um triumpho.

Observou o morgado um ar de resentimento assim no rosto da esposa como

no de Martinho Xavier. Á cordealidade dos abraços responderam-lhe

glacialmente, e ás perguntas sobre a enfermidade de Beatriz davam umas

respostas ironicas e enfastiadas.

Raphael Garção, no bom intento de conciliar os animos, contou que fôra

á quinta de Murça procurar o primo, e o encontrára doente, com o medico

á cabeceira; e ajuntou que por pouco o não matára com a noticia da

perigosa enfermidade da prima Beatriz.

O mentiroso radiou uma luz nova nos olhos de Martinho Xavier, e

entreabriu nos labios de Beatriz um sorriso de indulto. Nicoláo, assim

que o lanço se lhe ageitou, apertou-lhe a mão e disse:

--Graças, meu bom amigo!

--Mentir como o diabo, diz Voltaire--respondeu o de Fayões.--A verdade

póde ser a ventura dos predestinados; porém nós, miseros peccadores,

carecemos de mentir a torto e a direito, primo Mesquita.

--Sem deshonra propria, nem damno alheio--acrescentou o do Vidago.

--Ah! vossa excellencia quer moralisar-me? O lobo despe a pelle, e

enverga a sotaina? Primo Nicoláo, quem tem uma mulher como Beatriz...

--Cale-se que podem ouvir-nos...

--Deixe estar que eu hei de castigar o Ricardo. Quem lhe ha de empalmar

a franceza hei de ser eu. Assim que me constar que ella está no Porto,

vou lá: quero inscrever o nome de Margarida Froment n’uma casa em

branco, que deixei entre a Aldonza Lourenzo do pandeiro, e uma primeira

tragica do theatro de Amarante. Orçam na moralidade.

Arrugou-se a fronte de Nicoláo de Mesquita. Pezara-lhe o ultrage: é que

elle vira n’aquelle momento Margarida Froment, encostada ao braço de

seu marido, oito annos antes, repartindo recursos e consolações pelos

operarios da sua fabrica de Leão, enfermos, e de mãos postas a orarem

pelo anjo da caridade.

Esbordava-lhe o coração de lagrimas, quando se arredou friamente do

sarcastico mancebo. Foi intermittencia momentanea.

Martinho Xavier abriu as suas salas, n’aquella noite, á sociedade

flaviense. Beatriz dançou com seu marido, como ha vinte annos se

fazia na provincia sem irrisão. Raphael distinguiu-se no solo inglez,

e aprimorou-se n’uma gavota com sua prima. A gentil senhora respirava

a peito cheio o ar tepido e balsamico das salas. O setim da cutis

retingiu-se-lhe. O marido parecia-lhe outro homem e as flores das

jarras figuravam-lhe as primeiras da sua nova primavera. Dava ares de

creança; e o marido consolava-se de vêl-a assim.

Seguiram-se outros bailes, e Nicoláo de boa vontade em todos. Balbuciou

Beatriz o desejo de residir em Chaves. Em poucos dias, se passaram

as preciosas decorações do palacio de Palmeira para outro de Chaves.

Martinho Xavier estava em permanentes acções de graças ao Senhor dos

Milagres! Via a filha feliz e o genro transfigurado.

No viver intimo, a mudança da indole de Beatriz fôra menos sensivel

do que devêra presumir-se. Aquelle temperamento, fóra da quentura dos

salões esfriava. Recebia os affagos do marido, como se elle meramente

fosse o tio Nicoláo. Ella mesma não sabia dar-se conta da atonia

da sua alma. Parecia-lhe que o tinha amado um anno antes, sem dar

tento de uns cabellos brancos, que lhe listravam o bigode, nem da

calvicie incipiente que lhe affeiava um tanto a cabeça. Calculava,

computava os annos, e chegava á exactissima deducção de uma coisa

que a mortificava: e era que o marido havia de ter cincoenta e dois

annos, quando ella tivesse trinta. Nicoláo era intuitivamente advertido

d’estas secretas meditações. Revelava-lhes a razão esclarecida; mas,

assim mesmo, confiava bastante de si para deixar-se avassallar de uma

suspeita indecorosa a sua mulher. Erro palmar dos homens, que foram

muito queridos até aos trinta annos, e se presumem encouraçados e

invulneraveis ás injurias do tempo e ás desgraças, que não pouparam

propriamente os deuses olympicos, e outros mais importantes deuses

terrestres.

Chegado o verão d’aquelle anno de 1841, o morgado da Palmeira foi

passar a sasão estiva no seu solar, convidando a acompanhal-o algumas

damas e cavalheiros parentes, sem olvidar-se de Raphael Garção, por

quem cobrára grande estima. Se alguma hora lhe sombreou o espirito a

lembrança ingrata de que fôra Raphael o espertador do coração de sua

mulher, acudiam-lhe á memoria as palavras ouvidas no hotel da Foz com

referencia ao puro e respeitoso amor que lhe sagrára. As suspeitas

fugiam logo envergonhadas, e a confiança restabelecia-se, cimentada nas

virtudes de Beatriz, e nas mil diversões amorosas do morgado de Fayões.

Por outro prisma via as coisas Martinho Xavier, sem embargo do conceito

que formava da filha. Raphael é que para elle significava o supremo

patife das duas provincias do norte, juizo, a meu vêr, moderado,

attentos os adulterios, seducções e barganterias femeaes, que corriam

por sua conta. Assim, pois, era certo surgir, como por encanto,

Martinho Xavier á beira da filha, logo que Raphael Garção se avisinhava

d’ella sem testemunhas de acrisolada probidade. Este resguardo não o

revelava elle ao genro; porém, visando ao scôpo com a pontaria n’outro

alvo, desfazia nas qualidades do sobrinho, e contava os adulterios com

taes visagens, que um marido cioso, na posição de Nicoláo, teria desde

logo horror do seu proprio infortunio, enforcaria a mulher.

O morgado ouvia as tenebrosas historias, e dizia:

--Ha-de ser a quarta parte do que diz o mundo, primo Martinho. Não

sejamos vulgo. Eu, antes de emigrar, gosei fama de ter um harem na

minha quinta da Ribeira d’Oura, e de ter obrigado cinco paes de familia

a enclausurarem as filhas, e de ser a causa funesta de alguns maridos

aferrolharem as esposas infidas na casa do Ferro[2]. Pois, meu amigo,

sob minha palavra de cavalheiro te assevero, que antes de emigrar,

apenas tinha galanteado uma tecedeira, a qual tecedeira galanteava ao

mesmo tempo o meu padre capellão, e veiu por fim a casar com o meu

lacaio. Eu era isto, quando tu e os outros hypocritas--disse elle

sorrindo--me chamaveis o terror das familias. Pois argumenta de mim

para Raphael Garção. Que sabemos nós positivamente? O que elle nos

conta, com a fatuidade propria da sua edade. As atoardas que correm,

quem as verifica? Os maridos infelizes? Que é d’elles?

--Calam-se--respondeu Martinho Xavier.

--Isso não é nas nossas montanhas, primo. Os maridos ultrajados, quando

se calam, fazem fallar a bocca das clavinas.

A discrição do pae de Beatriz rematava aqui o dialogo. Nicoláo

permanecia alguns minutos pensativo, e ia de um relanço insuspeito

devassar o coração de sua mulher, e espiar os olhos do hospede.

Encontrava-os sempre distraidos um do outro, ou conversando as mais

innocentes praticas, na presença de Martinho.

N’um d’aquelles dias, ergueram-se alegres vozes subitamente na casa

de Palmeira. Foi por que, findo o almoço, Nicoláo de Mesquita,

tartamudeando de commovido, annunciou que sua esposa sentia os

primeiros indicios da maternidade. Foram as senhoras beijal-a nos

braços do pae, e os cavalheiros brindaram clamorosamente o vigesimo

quinto senhor de Palmeira. Ao terceiro dia, ao setimo, e ao decimo

quinto, depois da nova, celebraram o jubilo com trez bailes, e trez

jantares, e trez ceias. Concorreram os poetas de Villa Real, de Chaves,

de toda a terra em que Deus plantára um poeta, com capacidade de fazer

um soneto.

Beatriz era infantilmente amimada por seu marido, que chorava

alvoraçado pela deliciosa expectação da paternidade! Andava elle a

inventar-lhe incommodos, para ter o goso de a desvelar com branduras

e melindres, que excediam a seriedade de um marido. Receava que a

chilreada dos passaros lhe turvasse o somno matutino, e mandava á noite

espancar a passarinhada das copas dos chorões. Cuidou que o aroma das

flores damnificasse á geração e mandou cavar os alegretes e taboleiros

sobpostos ás janellas do seu quarto. Com estas competiam outras

crendices não menos irrisorias.

Assim que as chuvas de outubro ameaçaram, cuidou-se na mudança para

Chaves.

Martinho Xavier contrastava a alegria de todos. Definhava-se a olhos

visto, e respondia com estranho aspeito aos cuidados de Beatriz, e com

rancoroso gesto ás delicadas attenções de Raphael.

Fôra o caso que elle, n’uma ante-manhã, ouvira abrir subtilmente uma

porta envidraçada do quarto de Raphael, e o vira passar ao jardim, e

sumir-se entre uns maciços de murta, e voltar, instantes depois, a

fechar-se no quarto. Isto preoccupou-o em dolorosas conjecturas.

Assim que foi dia claro, desceu Martinho Xavier ao jardim, fez umas

voltas na visinhança dos maciços, e emboscou-se n’elles, sem ser

visto. Examinou os recantos, esquadrinhando algum vestigio. Dois vasos

de porcellana ladeavam a entrada de uma gruta, comada de maracujás e

baunilhas. Meditou, e desistiu de atinar com o intento de Raphael.

Saiu, reflectiu ainda, e retrocedeu. Levantou um dos vasos, e viu que

a terra secca, rebordando-lhe o fundo, indicava que não fôra bulido.

Examinou o outro, e descobriu claros indicios de ter sido deslocado e,

na terra em que elle assentava, o signal de ter alli estado um corpo

mais liso, pois que o restante da terra estava crespo das saliencias do

vaso. Inferiu que estivera alli uma carta. Assim se explica a maceração

do rosto do fidalgo, e a severidade com que tratava a filha, e repulsão

odienta com que afastava de si o sobrinho. Quinze dias se erguêra de

noite, esperando a alvorada, e mallogrando-se-lhe as vigilias.

Ao anoitecer, porém, da vespera da mudança para Chaves, viu elle sair a

filha apressada de entre os maciços, e responder ao marido que chamava

de uma janella. Ao mesmo tempo descobriu a distancia, mal embrenhado

n’um bosquete de amoreiras, o morgado de Fayões, olhando na direcção

das murteiras. Correu Martinho Xavier, encoberto pela ramagem, a

erguer o vaso suspeito. Encontrou uma carta. O papel caiu-lhe das mãos

convulsas. Quiz sair; mas o tremor das pernas forçou-o a sentar-se no

banco de cortiça, que adornava o interior do caramanchel. Cerrára-se a

noite. Ouviu fremir a folhagem perto. Era Raphael Garção, que saltava

por entre uns buxos defesos á observação da casa. Acercou-se o moço

lestamente do vaso, levantou-o, palpou, esteve um instante suspenso,

deixou-o baixar; mas, ao tempo que o pousava, sentiu uma pressão

de ferro nas vertebras cervicaes, e bateu em cheio com o rosto no

gradeamento do caramanchel. Reconheceu a mão que o sopesava, quando

ouviu a palavra:

--Infame!

--Meu tio! murmurou elle--por quem é!...

--A tua morte, villão!--bradou suffocado o pae de Beatriz--a tua morte,

villissimo lacaio, seria um escandalo, quando não, havia de arrancar-te

a collada. Ouve-me bem, canalha! se esta noite não te despedires com

qualquer pretexto, e o sol de ámanhã te vir n’esta casa, maldito seja

eu, se te não matar. Entendeste-me bem, biltre?

--Cumprirei a sua vontade--respondeu Raphael.

--Ámanhã minha filha e meu genro vão para Chaves--tornou Martinho

Xavier.--Se você não quizer ser azorragado debaixo dos olhos d’ella

pelos meus criados, não passe mais debaixo das suas janellas. Martinho

Xavier cumpre o que promette.

Saiu o pae de Beatriz, e encerrou-se no seu quarto. Abriu a carta,

leu-a, e desafogou-se n’uma profunda expiração de contentamento.

Dizia assim a carta:

«Meu pae desconfia. A tristeza d’elle não póde ser motivada por outra

coisa. O ar carrancudo com que me falla é mais uma prova. Reparo que

tambem te encara com maus olhos. Sejamos cuidadosos, meu primo.

Eu amo-te muito; mas não te posso sacrificar mais do que as minhas

lagrimas. Deus me livre que o tio N. suspeite que eu te amo. Se tu vês

que será util conviveres menos em minha casa, poupa-me algum grande

dissabor. Tem sempre comtigo a certeza de que eu te quero muito, e que,

se por agora não posso ser para ti mais que irmã, póde ser que um dia

seja o mais que posso ser, e o que Deus não quiz que fossemos... _tua

esposa_! Quem sabe, meu R!... Ha acontecimentos tão inesperados!...

Lembra-te que tenho dezoito annos, e elle... Adeus, adeus, que o tio

não me deixa uma hora sósinha. Vou ver se ainda posso levar a carta.»

Era rasoavel o contentamento de Martinho Xavier.

O esqueleto: Romance · 第 27 / 62 题