VIII

Ricardo de Almeida sentiu no seu braço o tremor do braço de Margarida,

quando, por noite de lua cheia, passeiavam á Beira-Douro, no sitio de

Sovereiras, em S. João da Foz. N’aquelle relanço perpassára por elles

um encapotado.

A franceza vira uns olhos faiscantes por sobre a fimbria avelludada

da capa: eram os olhos de Nicoláo de Mesquita. Voltára o pescoço para

observar-lhe o andar: reconheceu-o.

--É o Mesquita! murmurou ella assustada, amiudando o andar.

--Devagar! disse o fidalgo do Pontido. Que importa que seja?!

--Dizes bem... Que importa que seja?

Nicoláo voltára no encalço d’elles apertando o pé. Ricardo de Almeida

deu tino d’isto, e affroixou o passo. Margarida tirava por elle com

força.

--Que significa este medo? perguntou o moço, offendido da inquietação

da franceza.

--Nada, meu amor, disse ella.

Ricardo parou, e Nicoláo foi ávante.

--Queria vêr-te indifferente á apparição d’este homem! observou Ricardo

com intenção, e gesto magoado.

--Creança! ciciou ella com encantador sorriso. A indifferença é o

despreso, e eu odeio.

Entraram silenciosos em casa, e viram ao longe o vulto na esplanada que

entesta com a fortaleza. Ricardo saiu rebuçado e armado. O do Vidago já

lá não estava. Deteve-se o indiscreto cioso nas travessas visinhas de

sua casa.

Eram onze horas.

A franceza abriu as janellas, sentou-se ao piano, e cantou uma romança

franceza. As vibrações da voz eram desnaturaes. Havia a paixão da

saudade n’aquelle cantar.

Nicoláo de Mesquita escutava-a da janella do hotel, e Ricardo da

escuridão de uma viella intransitada.

Calou-se a voz.

O marido de Beatriz sentou-se a escrever a quinta folha de uma carta a

Margarida. O castellão de Aguiar foi de manso, por sobre tapetes, até

ao piano de Margarida, e surprehendeu-a com os cotovellos apoiados no

teclado, e o rosto entre as mãos. Tocou-lhe no hombro: ella expediu um

grito argentino como a mais alta das notas que acabava de cantar, e

surriu-se por lhe ser mais prompto o riso que as lagrimas.

--Tu amas Nicoláo? perguntou Ricardo com uma precipitação infantil.

--Que semsaboria! disse Margarida, e abaixou a fronte carregada.

--Porque estás triste? Que recordas?

--O tempo em que eu era feliz, meu amigo.

--Com Nicoláo?

--Não: com minha mãe, com meu marido, com a estimação propria, e com a

estimação do mundo.

--E é Nicoláo quem te desperta essas recordações?

--Naturalmente... Foi elle quem tudo me roubou.

--Então não o amas? voltou elle com muita ternura, beijando-lhe as mãos.

--Nem que elle me restituisse tudo o que perdi.

No dia seguinte, o jockey de Nicoláo apresentou a Margarida, na

ausencia do amo, uma carta volumosa.

--Quem te deu isto? perguntou a franceza.

--Um criado do hotel inglez.

Margarida leu as vinte laudas; quando a vista se lhe turvava, depunha

a carta e enxugava os olhos. Finda a leitura, escreveu na margem da

ultima folha: _Esta carta é o prefacio da minha vingança_. Lacrou-a e

devolveu-a pelo jockey, dizendo:

--Se trouxeres outra, envio-te com ella a teu amo.

Assim que Ricardo entrou, Margarida foi cariciosamente aos braços

d’elle, e disse:

--Vamos. Tens medo de fraquear, Margarida?

--Não. Se eu podesse fraquear, a mudança de terra seria debilitar-me,

em vez de robustecer-me.

Na tarde d’este dia, Nicoláo de Mesquita viu passar em carro Margarida

e Ricardo, caminho do Porto. Esperou-os no regresso até noite alta.

Era uma cabeça perdida, a esta hora, a do miserando homem! Sabia que

tinha duas pistolas entre mãos, e que sobre sua cabeça ia estalar a

maior e ultima tempestade. O alvor da manhã bruniu-lhe o rosto livido

de um verniz embaciado de cadaver. Ao raiar do sol foi para casa, que

Margarida e Ricardo não voltaram.

Ás dez horas, estava febril no leito. Na sala do hotel, proximo do seu

quarto, conversavam algumas vozes. Eram cavalheiros da provincia. Dizia

um:

--O Ricardo e a franceza embarcaram para Lisboa ás nove horas.

--Gasta como um principe o transmontano!

--Que fortuna tem elle?

--Dizem que está vendendo.

--A mulher vale bem a pena de gastar-se a fortuna, e ficar a gente com

a doce recordação de a ter tido a ella.

--Não pensou assim Nicoláo de Mesquita, o antigo possuidor.

--Nunca vi esse leão.

--Conheci-o eu. Foi elle quem a tirou ao marido. Teve-a por ahi com

modesto recato. Depois, foi casar-se na provincia com a mais bonita

creança que os meus olhos viram em Chaves, e nas primeiras cidades da

Europa. Aquillo é que é saber viver!

--Mas a Margarida Froment é uma grande mulher!... confessem!...

--Confessamos, mas quem a faz maior é o patavina do Ricardo! Estas

_soirées_ que elle dá são de um ridiculo monumental! Apresentou-m’a

como sua hospeda! Que baboseira! A gente faz-se tola, e vae ser

apresentado á hospeda...

--Assim é que se faz o escandalo por grosso.

--Quando elle tiver vendido as ameias de um castello, que tem na

provincia, a hospeda muda de hospedaria.

--Tomáras tu que ella mandasse preparar aposentos em tua casa...

--Pagando-m’os.

--Maganão! por tua vontade não espera ella que o Ricardo venda os

torreões do solar dos _Almeidas por quem sempre o Tejo chora_...

--Era publica e notoria a tua paixão.

--Gostava d’ella: não ha nada mais humano.

--Mas parece que não mareaste bem n’aquelle rumo... Foste a pique, eim?

--Ha derrotas que são triumphos. Fez-me o favor de me offerecer a sua

amisade fraternal.

--Que irmã! É uma honra ser irmão d’aquella Margarida...

--Confessemos que a mulher é leal. Ave rara n’esta terra!

--E mais rara nas aves arribadas de França.

O fallarío proseguiu. Nicoláo ouvira tudo encostado aos alisares da

porta.

Entrou um novo interlocutor, que foi muito festejado. Era Raphael

Garção que chegava de Chaves.

--Aqui está quem conhece Ricardo de Almeida... Sabes que elle foi hoje

para Lisboa com a franceza?

--Foi! ó diabo! eu vinha conquistar a franceza! disse Raphael. Nunca a

vi! E eu não posso ser mais que Cesar. É preciso vêr para vencer; por

em quanto, apenas fiz o que pude: cheguei.

--Vens mal informado! É de uma fidelidade, que toca o limite do

escandalo. Vinhas a isso?

--Algum de vossês conhece Nicoláo de Mesquita? perguntou Raphael.

--O antecessor de Ricardo?...

--Como antecessor de Ricardo?! Que tem a franceza com o Mesquita?

--Estás em dia!... Pois não sabes que o Mesquita veio de França com

esta mulher?

--Na provincia ignora-se essa coisa... Pois... Vocês teem a certeza...?

--Vi-os eu no Porto, em 1834 até 1839. Isto é do dominio universal

desde a rua da Reboleira até á viella de Fradellos, na cidade invicta!

--Sabem se elle está por ahi, o Mesquita?

--Não.

--Deve estar, e eu vim procural-o. Saí de Chaves a buscal-o em casa.

Disseram-me que elle tinha saído para Villa Real. Em Villa Real tive

noticias que elle passára em Amarante. Em Amarante disseram-me que o

tinham encontrado em Baltar. O homem está aqui e agora me convenço de

que a franceza não é estranha a esta mysteriosa jornada. Pobre Beatriz!

Lembras-te d’aquella minha prima que te mostrei em Chaves, Albuquerque?

--Ainda ha pouco falei d’ella. Que linda mulher! Já sei que ella casou

com o Mesquita. Não lhe fazias tu a côrte n’aquelle tempo?

--Amei-a com o unico amor nobre e santo que tenho experimentado; mas,

como tudo que é nobre e santo não apega n’esta lama do mundo, assim que

a vi despregar o vôo para as serenas regiões do matrimonio, agarrei-me

ao pandeiro de uma andaluza, e fui terras de Castella dentro, em

conquista d’aquelle gallego coração, que só me comprehendeu, depois que

eu lhe mostrei um _porte-monnaie_ maior que o coração. Quando voltei,

achei minha prima casada com o primo Nicoláo. As melhores flores

d’aquelle rosto estavam amortecidas; mas ainda assim, não sei de outra

mais linda. Ha de haver seis dias que cheguei a Chaves, e encontrei

grande agitação em casa do tio Martinho Xavier. Era Beatriz que estava

em perigo de vida a lançar golphadas de sangue...

Abriram-se de golpe as portas de um quarto, e appareceu Nicoláo de

Mesquita, com as faces incendidas e os cabellos descompostos. Volveram

todos áquelle ponto os olhos, e Raphael Garção vacillou em reconhecel-o.

--O sr. Raphael Garção pode entrar no quarto de Nicoláo de

Mesquita--disse o morgado n’um tom solemne, que pareceria ficção

theatral, se elle não estivesse febricitante.

O de Fayões entrou como espavorido d’aquelle aspecto esgazeado.

--Minha mulher que tem? perguntou Nicoláo com a respiração anciada.

--Não a vi. Encarregou-me o tio Martinho de procurar o senhor Mesquita,

e dizer-lhe que a prima Beatriz estava em perigo. Quiz desempenhar o

recado, e vim dar-lh’o ao Porto.

--Eu parto sem demora. O senhor Raphael Garção vae dar-me sua palavra

de honra de occultar de minha prima que me encontrou aqui?--disse

solemnemente Nicoláo.

--É escusada a solemnidade do juramento, senhor Mesquita.

--Dirá que me foi procurar á quinta da Murça.

--O que vossa excellencia quizer que eu diga.

--E, se ella tiver morrido, meu Deus! exclamou o morgado. Pois o ceu

ha de castigar-me assim, por eu não saber esconder n’este perdido

coração aquelle anjo! Oh!... que infernaes abysmos eu tenho cavado em

redor de mim!... Hei de afinal despedaçar-me, como aquella maldita

vaticinou!... Alli fóra, senhor Raphael, contaram-lhe o meu opprobrio!

Não sabe, não sabe que aviltada alma é a minha!... Eu vim aqui por amor

de uma mulher perdida, que passeia orgulhosamente a sua devassidão á

luz do sol. É uma condemnação de que não póde salvar-me a mulher sem

nodoa, a doce e celestial creatura, que eu amo tanto!... Deus não

m’a ha de levar! Tão nova e tão linda!... Como eu a adoro, senhor

Garção!... Creia que eu amo minha mulher com o ardentissimo fogo de um

remorso, que me está sendo a tortura dos reprobos!...

Raphael ouvia-o espantado. A gesticulação e o cavernoso do clamor

impressionavam; mas Raphael era futil de mais para ponderar a ingente

dôr, que se desentranhava em termos de tragedia velha.

O leitor naturalmente faz o que não fez o frivolo morgado de Fayões; é

capaz de rir-se, e perguntar-me que especie de doidice é a de Nicoláo

de Mesquita.

É uma especie de doidice, que se chama a razão humana. Á gente de juizo

pode offendel-a a resposta paradoxal; mas os philosophos, que tambem

são uma especialidade de doidos, hão de admittir-m’a em sã e escorreita

dialectica.

Levantemos o véu, onde elle não estiver roto, de sobre o coração do

morgado da Palmeira.

Chegára elle da Foz com a alma lanhada de remorsos, e a cabeça

estonteada de uma vertigem de amor. Estas duas paixões exacerbavam-se

uma á outra. Sem a saudade o remorso seria chimera.

Margarida, era, ou parecia, feliz: despontaram-se logo os espinhos do

remorso. Ficou o amor. Repelliu-o Margarida devolvendo-lhe a carta com

um sarcasmo: esvaiu-se o amor. Logo, nem amor, nem remorso.

Outras duas paixões o assaltearam logo: o orgulho e o rancor.

Estas paixões queria Nicoláo de Mesquita desabafal-as pelas boccas

das pistollas; porém como as victimas se furtaram á hecatomba,

sobrevieram as agonias da vingança mallograda, e logo a febre.

Ora, desde que as doenças moraes se consubstanciam no corpo e se

submettem ás prescripções da pathologia medica, a individualidade

da alma anniquila-se, e a paixão, degenerada em desconcerto dos

systemas sanguineo e nervoso, ou se cura medicinalmente, ou mata,

com o pseudonymo de congestão cerebral, febre typhoide, ou qualquer

nomenclatura significativa de que a pessoa sem duvida nenhuma, está

bem morta. Os convalescentes d’estes ataques--e raros são os que

succumbem--assim que o sangue lhes funcciona normalmente, sentem-se

por egual alliviados de alma e corpo. A vertigem, que os quebrantou,

deixa leves estragos no espirito, remediaveis com a mera acção do

tempo. Nicoláo de Mesquita, agudissimamente affectado, como se viu,

fez crise em menos de vinte e quatro horas, porque a seu favor

conspiraram calmantes muito efficazes. A palestra dos provincianos,

desdourando Margarida embaciara-lhe o prestigio. Bem sabem que

thermometro é este do prestigio para graduar a temperatura do coração

humano. Ao mesmo tempo, os encarecimentos á formosura de Beatriz, sem

palavra que a desairasse, sobredouravam a aureola na fronte da esposa

virtuosa. Depois, n’este conflicto, entre o odio a Margarida, e o amor

escandecente a Beatriz, chega a nova da perigosa enfermidade. Nicoláo,

se podesse escrever o relatorio das suas sensações e revoluções

sanguineas e um medico as pozesse em termos de se lerem com um

embrechado de nomes gregos, a gente não entendia nada; mas acreditava

que se deram grandes phenomenos no coração do morgado. O capitalissimo

de todos é que elle, depois da explosão que lhe ouvimos, não fallou

mais em Margarida Froment, e galopou noite e dia arrebentando cavallos,

até chegar a Chaves.

Beatriz estava á janella, quando seu marido e Raphael apearam.

Nicolau expediu, ao vel-a, um grito de jubilo. No topo da escada

tomou-a nos braços, e beijou-a soffregamente. Era um phrenesi de

ternura assustador!

Estava ella encantadoramente desmaiada. As mulheres assim pallidas, se

a pallidez é symptoma de irem breve a outros mundos, devemos crer que o

seu creador começa então a namoral-as para depois as levar para si.

O esqueleto: Romance · 第 26 / 62 题