[2] O _Ferro_ era por aquelle tempo, no Porto, um recolhimento, ou
carcere, paradeiro das adulteras.
X
Á hora da ceia, faltou Raphael Garção.
Nicoláo soube que elle estava no seu quarto, e pedia desculpa de não
comparecer á mesa. Foi elle buscal-o: encontrou-o emmalando o fato.
--Isso é que é pressa de entroixar, primo Raphael!--disse o
morgado,--deixe isso, que tem tempo. Nós só vamos ámanhã por tarde.
--Mas eu vou partir esta noite, primo Mesquita.
--Como assim? Venha contar-nos essa aventura á mesa, que está Beatriz á
espera. Temos empreza! não póde deixar de ser...
Travou-lhe do braço, e levou-o, exclamando, ao entrar na casa da ceia:
--Fui encontral-o a dobrar a roupa, e saberão que se despede á meia
noite!
Beatriz encarou-o com affectuosa melancolia. Martinho Xavier fitou a
filha. Raphael não poz olhos em nenhum.
O morgado proseguiu em tom de galhofa:
--É negocio de damas! Alguma victima saudosa que, do leito dos
paroxismos, chama o seu algoz querido para perdoar-lhe!
Confrangia-se o animo de Martinho. O sorriso de Beatriz era um
partir-se-lhe a alma, forçada a fingir-se estranha á saida do primo, e
arrependida de lhe ter aconselhado a ausencia.
--Agora acredito, minhas senhoras e senhores, tornou o morgado, que
é séria e respeitavel a magua do nosso Raphael! É a primeira vez que
o vejo quebrado de cores e cabisbaixo! Então, primo, se a jornada é
longa, cumpre comer. Coração a um lado e estomago a outro. D. João
de Marana e o amado de Clarisse comiam ás horas, e o Byron ceiou
optimamente no dia ou na noite em que uma das suas martyres se afogou
no canal de Veneza!... Então, Beatriz, não te serves de nada? Primo
Xavier, ordena a tua filha que coma... Com que então, á meia noite,
primo Garção?
--É verdade...--respondeu Raphael, affectando com violento artificio, o
seu natural alegre.
--E quando volta a Chaves?
--Não sei, primo.
--Não sabe?! Agora vejo que a façanha é complicada de incidentes e
estranhos casos!... Pois bem, meu amigo, permitta-me fallar-lhe com
sisudesa... A melancolia do seu ar faz-me desconfiar da importancia do
passo. Reflexione, primo. Se é um presagio que o quebranta, escute-o.
Se o pundonor o não impelle, fique. Distinga entre dever e dever.
Olhe que nós pomos na balança das obrigações, muitas vezes, a nossa
deshonra. Nem sempre as mulheres devem obrigar-nos a tudo, que uma
errada consciencia nos aconselha.
Martinho Xavier morria de abafos, se não exclamasse:
--Que discurso tamanho para tão pequeno assumpto! Ora, primo Mesquita,
não pregues aos peixes. Deixa-o ir para onde elle quizer!
--Pois eu decerto o deixo ir para onde elle quizer; mas o admoestal-o
como amigo e parente entendo eu que é um dever tão meu como teu, primo
Xavier. As nossas idades e sobretudo a minha experiencia...
--Pois sim, de accordo--replicou o pae de Beatriz amaciando a voz,
receoso de denunciar a causa da sua colera--farto de admoestal-o
estou eu, e estão todas as pessoas de bem... É malhar em ferro frio.
Deixal-o, deixal-o, que o mundo ha de ensinal-o. Quando chegar aos meus
annos, elle chorará os que desbaratou na libertinagem.
Correu breve e triste a ceia. Ao levantarem-se da mesa, Raphael
despediu-se de Beatriz, sem atrever-se a olhal-a em rosto, porque o
pae, á beira da filha, não o desfitava. Beatriz articulou umas palavras
banaes, sêccas e tão contrafeitas, que por si mesmas, á custa de muita
arte, a denunciariam a um marido precatado. Do tio Martinho, não
pôde despedir-se, que, a disfarce, saíra da sala. Nicoláo seguiu-o
ao quarto, offereceu-lhe dinheiro, se o necessitava, e conseguiu
arrancar-lhe um imaginoso segredo da sua aventura. Pelos modos, uma
menina de Basto, não podendo occultar dos pais o testemunho de sua
desgraçada paixão, fugira de casa, e invocava o pae do filhito que lhe
estremecia no seio. Mentir como o diabo, tinha dito Raphael pela bocca
de Voltaire.
Á meia noite saiu o pae do menino, que estremecia no seio da tão
coitada de Basto, e Nicoláo, em termos patheticos, foi contar a Beatriz
a revelação do primo. A senhora fingiu compadecer-se das calamidades da
menina do filhinho, e aproveitou o ensejo para chorar as suas saudades
na presença do marido, que se desentranhou em consolações distractivas,
que não fosse ella perigar por demasia de sensibilidade. A sorte de
tantos maridos espertos! Faz pena vêr a despotica ingerencia que tem
a comedia nos lances mais graves! A humanidade a chorar e um histrião
a cobrir a toada do choro com o tilintar do barrete! É triste, mas
necessario isto ao regimento da sociedade.
Saíram para Chaves no dia seguinte.
Beatriz ia triste, e recolhida. As caricias do esposo enfastiavam-n’a.
O pae, nada blandicioso, fazia-lhe mal com o seu olhar, e dizia-lhe á
puridade umas phrases amphibologicas de que ella ficava sentida, sem
ousar pedir esclarecimentos.
As palavras que mais a pungiram e intimidaram foram estas:
--Ai, de ti se teu marido se me queixa da tua frieza! Terás em mim um
verdugo, e não um pae.
A ameaça logrou menos do que devêra esperar-se. Beatriz desconfiava que
o pae lhe surprehendesse o coração n’algum descuidoso olhar ou gesto a
Raphael; porém, quando assim fosse, as provas contra a sua honestidade
eram nenhumas, e ella facilmente se defenderia das suspeitas
calumniosas.
Era de vêr que a retirada de Raphael havia de ser descontada na
affeição ao marido. A esposa criminosa, ou propensa ao crime, costuma
dar, pelo menos, ao marido um millesimo do amor que prodigalisa ao
amante. Se, todavia, o amante lhe foge, nem o quinhão diminutissimo do
marido lhe deixa. Isto tambem é triste, e atroz!
Nicoláo attribuia as securas e enojos de sua mulher aos mysterios
phenomenicos da geração. Tambem elle tinha accessos biliosos de
impaciencia, irritados pelos caprichos de Beatriz; mas soffreava-se,
affastando-se. Queixar-se é que não. No entanto, Martinho Xavier,
lendo-lhe no rosto alquebrado o desgosto da má vida intima da casa,
abstinha-se de interrogal-o, e dizia á filha:
--Tu não me attendeste; mas afinal será tarde, quando caires em ti.
Já te disse que, em te faltando a estima do marido, não contes com a
estima do pae, Beatriz?...
--Que quer isso dizer, meu pae? atalhou ella. Tantas ameaças, tantas
ameaças! Que crimes tenho eu?
--As mais criminosas intenções!... Silencio! silencio!... ouviste
Beatriz! Muito juizo para remediar o mal feito... Se assim não fôr...
* * * * *
Raphael Garção estava na sua casa de Fayões. Quizera distanciar-se de
Chaves, sair a uma viagem longa, distrahir-se, esquecer-se; mas não
pudera. Estava alli preso pela corrente de um grande amor a sua prima.
Era o primeiro, o unico, porque não amára outra, desde que nos labios
d’ella, ainda solteira, depozera, como n’um altar, as primicias do
seu coração. Sem os estorvos, póde ser que outra mulher o roubasse ás
froixas glorias de uma facil proesa; mas depois do aviltante castigo
do tio, e da vergonha com que saiu da Palmeira, queria elle superar as
difficuldades para sentir-se remunerado do seu vilipendio. Era isto
a um tempo galardão ao amor, e galardão á vingança. Eram os vinte e
dois annos, e a má índole, acerada pela educação que tivera, á lei da
natureza bruta. Não sei tambem se eram o Lovelace, e o Saint-Preux, e o
D. João Tenorio. Era tudo, incluindo n’esta mistura o elle ser homem,
feito á similhança e imagem de... Fóra com a blasfemia!
Empenhou-se Raphael, mediante os serviços de algum amigo de Chaves, em
fazer entregar a Beatriz uma carta explicativa da sua rapida saída de
Palmeira, o degredo que se elle impozéra na triste soledade de Fayões.
Uma dama das mais acreditadas de Chaves foi a portadora da carta.
Então sómente comprehendeu Beatriz o valor das ameaças de seu pae, e o
gume do perigo em que estava sua honestidade, e talvez sua vida, se á
mão do marido passasse a carta de Raphael.
Nicoláo ganhou com este descobrimento por um lado, e perdeu pelo outro.
Os ganhos eram os exteriores affectuosos com que a mulher o indemnisava
dos desdens passados. As perdas foram restabelecer-se a correspondencia
epistolar entre Beatriz e o primo.
A illustre alcôfa d’esta correspondencia andava espiada por Martinho
Xavier, á conta de ser irmã de um particular amigo e contubernal
parasita de Raphael. D’esta espionagem, confiada á aia de Beatriz,
velha de rija tempera de virtude, resultou ser a correctora cupidinaria
avisada para não voltar a casa de Nicoláo de Mesquita, sob pena de
ser publicada como negociadora de amores adulteros. O aviso foi dado
face a face por Martinho Xavier, que tinha brutalidades de fidalgo
montezinho.
O que elle não podia era contraminar a corrupção dos criados. Beatriz
continuou a receber cartas do primo; e Nicoláo a experimentar as
caricias de sua senhora. Ó Azaïs!...
Decorreram uns seis mezes de vigilancia assidua do fidalgo. Rondava as
portas do genro até alta noite. Assalariára olheiros em Fayões para lhe
segredarem os passos do morgado. Espicaçava o zelo da velha covilheira
de Beatriz para a não largar de vista; quando o marido saísse a
fiscalisar o grangeio das quintas.
Por este tempo deu Beatriz um menino aos carinhos doidos de seu pae.
Em honra do menino, volvidos quinze dias, encheram-se as salas de
mulheres, de musica, de poetas, de flores, e de alegria cerimoniosa.
Esta segunda era coadjuvada pela garrafeira. A commissão de parentes,
encarregados dos convites, incluira as senhoras Almeidas do Castello de
Aguiar. Com muito sacrificio foram de liteira as velhinhas, amolgadas
por grandes desgostos. Nicoláo, quando as viu, teve arrepios de espinha
dorsal. Interrogou a commissão, a qual respondeu que os Almeidas do
Valle de Aguiar eram os mais preclaros parentes de ambas as familias.
Hospedaram-se estas senhoras em casa de Martinho Xavier, que acinte as
levou para obstar a que palavreassem na presença de Beatriz ácerca de
Margarida Froment e Ricardo de Almeida. Isto, porém, não tirou que a
dama, assim que esteve a sós com ellas e o capellão adjunto, lhes desse
azo á expansão das lastimas.
Disse D. Sancha que o sobrinho estava em Lisboa, desbaratando os bens e
que os livros todos tinha vendido, e já havia antecipado rendas de trez
annos.
Ajunctou D. Simôa que uma só esperança tinham de o resgatarem da
escravidão do demonio, desfigurado na franceza, e vinha a ser o
patrocinio de um santo, parente da familia, que tinha sido grande
peccador como Ricardo, e depois, tornára sobre si, e acabára a vida
santamente: o qual santo era S. Gil de Santarem.
Que S. Gil de Santarem era parente das senhoras D. Sancha e Simôa não
ha duvida nenhuma, e vae demonstrar-se para confusão dos praguentos.
Estamos em tempo do senhor rei D. Affonso Henriques, que santa gloria
haja.
Depois da milagrosa victoria de Ourique, os barões da comitiva do rei
conquistador recolheram a suas terras, ganhadas a montante, e Deus
sabe como. O bravo rico-homem de Galliza, Fernão Martins de Almeida,
despediu-se com um aperto de guante dos seus primos e amigos Lourenço
Viegas e Martim Moniz, e foi-se a matar corças e ursos nas suas tapadas
do Valle de Aguiar. Fatigado de matar e comer ursos, cuidou em casar-se
com a filha de D. Payo Mendo Gil, senhor das terras de Cavallaria,
termo da cidade de Vizeu junto á villa de Vouzella. Preferiu o
castellão residir no solar de sua mulher, e deixou as suas terras a
cargo de irmãos. D’este consorcio nasceu D. Tareja Gil, a qual casou
em 1184 com Ruy Paes de Valladares, do conselho d’el-rei D. Sancho I,
seu mordomo-mór, e alcaide-mór do castello de Coimbra. Estes são os
bem-aventurados paes de Gil Rodrigues, conhecido e venerado do leitor
pio por S. Gil de Santarem, ao qual o divino Garrett denominou o Fausto
portuguez.
Nada menos que este santo, inquestionavel parente das senhoras
Almeidas, estava empenhado em arrancar o seu consanguineo dos braços
satanicos da franceza. No entanto, alguns mezes haviam passado, depois
do voto das senhoras a seu tio frei Gil, sem que o energumeno voltasse,
cumprido o seu fadario. Sem embargo, ellas esperavam, e razão era que
esperassem. Alguem faria o milagre, se não fosse o santo feiticeiro,
antigo pactuario do demonio: que estes milagres, nos tempos correntes,
bastam a fazel-os algumas lettras a vencer na mão de um usurario. A
onzena tem convertido mais perdularios do que a vida mirifica de S. Gil.
O certo e naturalissimo era que Ricardo de Almeida tinha esbanjado
metade dos seus haveres, e perto iria n’aquelle desperdicio. Sustentava
em Lisboa a lauta vida do Porto, e redobrava de extremos com Margarida
a cada requestador que lhe varava ao coração o stylete do ciume. Os
galãs lisboetas eram mais arrojados e tentadores, mais ociosos e
pertinazes que os do Porto. Ricardo via isto pelos seus olhos de amante
desconfiado, e de são juizo para entender que o facil para elle não
seria extremamente difficil para o restante da humanidade.
Este receio era injurioso a Margarida Froment: era sinceramente; mas
o não menor castigo das mulheres na condição da franceza é inspirarem
suspeitas aviltadoras áquelles mesmos que as estremecem, e authorisarem
o galanteio de quem quer que meramente as deseja.
Seja como fôr, as senhoras D. Sancha e Simôa choravam lagrimas como
punhos, quando Martinho Xavier saiu do salão do baile a procurar
Beatriz que tambem chorava com as velhas.
Uma paixão explora veios de lagrimas desconhecidos. Chorava, porque
amava, a mal-sorteada senhora!