Era uma mescla de verso e prosa, consoante o gosto dos litteratos
amphibios d’aquelle tempo. Começava assim n’este estylo fraldoso e
apopletico, vulgarmente chamado biblico:
«.........................................
«E o teu cantar é saudoso como o das filhas de Israel ás abras das
aguas plangitivas do Euphrates.
«E as harpas eolias gemem bafejadas por teus labios, como a cythara de
Saul.
«Oh Agar, sentada nas areias estuosas do deserto de Berzabé! Canta,
canta, oh filha das lagrimas!
Ai! quantas vezes, ó triste,
Esse teu amargo pranto
Desafogaste no canto!
Ai! quantas vezes sentiste
Mais precisão de chorar!...
Ai! canta, canta, que ha lagrimas
No teu dorido cantar!
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Ao cantar te acode a infancia
Com seus sorrisos e flores;
Feres notas que te falam
Como falavam amores,
Outras são gemidos d’alma;
Mas todos teem seu gozar!
Ai! canta, canta, anjo triste,
Quando quizeres chorar!
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«E o archanjo d’aquelles hymnos tem sobre a terra um nome. Na
linguagem de homens chama-se _Margarida Froment_; mas, nos archivos do
céu, o nome que tem é _Martyr do Coração_.
«Por que o teu seio foi alanceado fibra a fibra pelo primeiro precito,
que te esculpiu um anathema na fronte, onde os raios fulgidos do sol
desciam a roubar seu esplendor!
«E esse maldito de Deus feriu-te na aza de anjo, ó pomba dos paramos
olympicos, e tu caiste ao tremedal da humanidade.
«Ó Margarida! quem sabe ahi dizer sobre a terra a alegria das tuas
angustias!
«E eu vi-te por uma d’essas noites esplendidas, como as sonha o arabe
no dulcissimo torpor dos seus magicos narcoticos!
«Illuminava o inferno d’este mundo, oh houri, enviada pelo Deus dos
ismaelitas.
«A tua belleza era o arrebol matutino.
«E os teus olhos afuzilavam torrentes electricas como os relampagos
abertos da mão de Jehovah nas cumiadas do Sinay.
«E os teus labios desprenderam um cantar, cuja maviosidade fazia
chorar os anjos no ceu, e os demonios no inferno.
«E o homem, que te havia roubado aos braços do esposo, esse não
chorava, porque uma aragem da região glacial das trevas lhe tinha
congelado as glandulas, e o sangue nos pulmões, e fizera d’aquelle
coração um cinerario hediondo, como os pomos de Pentapolis!
«Oh Margarida, que dôr será a tua, insondavel e immensissima, quando o
coração te paira por terras de França, e vês a mãe que te carpe, e o
marido que aperta ao seio o inutil punhal de sua vingança!...
«Ai! canta, canta, que ha lagrimas
No teu dorido cantar!
Ai quantas vezes sentiste
Mais precisão de chorar...
Ai! canta, canta, anjo triste!»
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Seria crueza dar a copia integral do folhetim, que ao deante, era muito
mais puxado do peito, e menos intelligivel.
O poeta datara-o na Foz em outubro de 1840.
Uma local do mesmo numero da gazeta, dizia:
«_Á beira-mar._ Com este titulo publicamos hoje um folhetim de um
nosso amigo, que tão brilhantemente se estreia. As letras patrias
devem esperar d’este mancebo fructos tão sasoados quanto as flores
são bellas. Á parte o talento senão genio, do mavioso poeta, devemos
confessar que o motivo de sua inspiração não podia sair com menos
de uma obra prima. Tambem nós tivemos a honra e o jubilo de escutar
hontem á noite a voz melodiosissima de mad. Margarida Froment, dama já
conhecida por sua belleza e intelligencia. Agradecemos cordealmente
ao cavalheiro Ricardo de Almeida o convite que nos proporcionou
ajuntarmos o nosso brado de admiração ao de tantos, que se gosaram o
prazer de ouvir a hospeda de sua excellencia. Do folhetim do nosso
jovem amigo infere-se que ha profundas e ao mesmo tempo sublimes dôres
no coração d’esta senhora. Ai da consciencia do refalsado caracter que
privou a sociedade de uma gloria!
«Que o mundo é inexoravel com as desgraçadas, que, ainda abatidas do
ceu, roçam as nuvens com a fronte. Silencio! Saudemos o formoso anjo
da harmonia, e não perguntemos a Deus por que não teve mão d’esta
filha querida, ao despenhar-se!»
Nicoláo de Mesquita leu a chorar as ultimas linhas d’esta noticia.