Saudades de Margarida Froment?
A pergunta póde abonar a candura, mas não abona a experiencia de quem
se dignou fazer-m’a.
Saudades de Margarida, porque havia sido amada apaixonadamente.
Porque era ainda bella, quando foi abandonada.
Porque houvera um homem que a tomára despresada nos braços, e a
mostrava ao mundo com soberba de a possuir.
Porque esse homem era moço, gentil, fidalgo, e requestado das mais
extremadas formosuras da provincia.
Porque esse homem, em vez de escondel-a nas sombras d’umas arvores,
galeava pomposamente com ella, offuscando os olhos pavidos da moral
publica.
Porque Margarida tinha prodigiosas graças, de que Nicoláo se estava
lembrando agora.
Porque Margarida, sobre ser espirituosa, era um talento que bastava a
entreter e lisongear o mais cubiçoso espirito.
Porque Margarida lhe havia sido leal até o momento de ser
grosseiramente repellida.
Porque chorava, quando elle cruamente a odiava.
Porque era bella, digamol-o segunda vez, porque era bella.
E mais que tudo, porque era de outro.
Aqui estão os _porquês_ da miseria do coração de Nicoláo de Mesquita,
barro commum da humanidade, miseria deploravel, que importa chorarmos
todos, por ser nossa a miseria, e não sabermos como se póde com lodo e
lagrimas reconstruir uma coisa melhor do que a fez o Creador.
Peregrina belleza era Beatriz; esposa casta e paciente nenhuma se
lhe avantajava; mulher para o ideal, e anjo para a sensação, nenhuma
como ella; virtudes, graças, lagrimas do seio sem macula: tudo que
mais prende o amor, e a misericordia quando o amor se extingue; tudo
superabundava na esposa de dezesete annos; mas Beatriz era de Nicoláo
indissoluvelmente, e Margarida estava sendo de Ricardo.
Que repulsivo confronto entre as duas mulheres!
Que mal premiada a honra, sujeita a comparações tão aviltantes!
Ora, a saudade do morgado da Palmeira excruciava-o. Era um ferro
candente a fistular-lhe as entranhas. Da quinta do Porto, onde se
anojára cinco annos, recordava-se como Lucifer do ceu. Parecia-lhe
que Beatriz era o archanjo do montante de fogo, a repulsal-o
eternamente das delicias do coração. Fugia de si mesmo como corrido
de sua ignominia. Punha os olhos supplicantes no oratorio de sua mãe.
Apertava ao seio a esposa, como se esperasse apagar a flamma infernal
em contacto da mulher pura. Margarida arrancava-o pelos cabellos
dos braços da esposa, arrastava-o até se assentar com elle n’alguma
amenidade das florestas, e ahi lhe dizia as phrases embriagantes dos
primeiros mezes da sua paixão em Bruxellas, ou, debulhada em lagrimas,
se queixava da ingratidão com que elle desamparára a mulher, por amor
d’elle perdida, sem amigos, sem marido e talvez sem pão.
Era um supplicio expiador! Nicoláo conheceu que era preciso Deus para
a misericordia, logo que lhe reconheceu a mão no peso do castigo. Não
bastava o amor desesperançado: cumpria que o remorso lhe envenenasse o
sangue: remorso de infamar um amigo e de lhe atirar ao gozo dos homens
a mulher infamada!
Tinha momentos de contemplal-o com pavor Beatriz. Falava-lhe, e elle
estremecia, articulando desatinos. Punha-lhe a mão no rosto abrazeado,
e elle repellia os afagos, e voltava depois a procural-os, chorando.
Beatriz mandou secretamente chamar o pae.
Assim que Nicoláo presentiu Martinho Xavier no pateo de sua casa, saiu
enraivecido, e voltou depois envergonhado da sua raiva, sem dar tino da
razão da fuga nem da vergonha.
A attribulada senhora contára ao pae a incomprehensivel agitação do
marido. Martinho chorava abraçado á filha, quando Nicoláo entrou. O
lance foi acerbo! Nicoláo acercou-se de ambos, abraçou-os, e disse com
voz balbuciante:
--Eu fiz a vossa desgraça e a minha. Perdoae-me!
Beatriz condoeu-se. O pae levou-o nos braços á sala immediata,
gesticulando á filha que os não seguisse, e perguntou:
--Isto que é, primo Mesquita? Que mal te fazemos nós?
--Queixei-me eu de ti ou de Beatriz?--disse maviosamente o morgado.
--É arrependimento de te haveres casado?
--É... Arrependimento de infelicitar a tua filha digna de uma alma
estranha aos vicios e ás villanias atrozes.
--Pois bem, Nicoláo... remediemos o remediavel. Se a presença de minha
filha te atormenta, eu levo-a para minha casa, que tambem é tua e
d’ella. Se o amor tornar, vae buscal-a; se, sem Beatriz, viveres mais
tranquillo, ella que fique em Chaves.
--Não!... atalhou o morgado.--A minha desgraça não se remedeia assim,
nem d’outro modo. É um anathema! e um calix intransitivo. Hei de
bebel-o trago a trago!...
--Santo Deus!--acudiu Martinho Xavier--que segredo é esse da tua vida?
Se eu te visse na sociedade, cuidaria que te apaixonaste, primo! E
então appellaria do teu coração para a tua honra.
--E se eu não tivesse honra!...--exclamou Nicoláo, e saiu
impetuosamente da sala.
Martinho perguntou á filha:
--Teu marido recebe cartas suspeitas?
--Não, que eu saiba, meu pae. Recebe jornaes, e raras vezes tem cartas
de França.
--E essas cartas sabes o que ellas conteem?
--Sei, porque são de um portuguez, e nada dizem de suspeito. Só, aqui
ha tempos, li uma, que falava n’uma Margarida, e entendi que era a
franceza do Ricardo de Almeida. Vim a saber que ella era casada, porque
diz assim, pouco mais ou menos: «o marido de Margarida está gordo e
devasso; e desforra-se.» Não percebi isto, nem me importou. Perguntei
ao primo se a tal franceza era casada, e elle respondeu-me bruscamente
que não sabia, nem eu me devia importar com as cartas que elle recebia.
Porque me pergunta o pae se elle recebe cartas suspeitas?
--Nada, filha.
--Desconfia que elle ame outra mulher!--instou ella alvorotada.
--Desconfiei.
--É impossivel! exclamou Beatriz--Quem hade ser? Aqui ninguem vem; nós
não vamos a parte nenhuma.
--Então que suppões tu d’esta pasmosa torvação de teu marido?
--Que me aborrece.
--Não é assim.
--É, meu pae. Elle não póde deixar de sentir por mim o que eu sinto por
elle.
--Pois não o amas, Beatriz?
--Como hei de eu amal-o n’este martyrio? Sabe lá o que eu soffro ha
dez mezes! E então, nos ultimos tres, não tenho refrigerio... Uma hora
abraça-me, outra repelle-me. Já temi que elle endoudecesse... Meu
pae,--proseguiu ella com vehemente fervor de supplica--tire-me d’aqui,
leve-me para si, restitua-me uma parte da satisfação que eu tinha de
viver, antes d’esta fatalidade!
--Paciencia por alguns dias, filha!--replicou o pae enternecido
a pranto.--Isso não póde ser assim. O mundo assacaria aleivosias
deshonrosas para todos. Já agora tem força por mais algum tempo; é o
teu bom pae que t’o pede.
--Terei--disse resignada Beatriz.
Martinho deteve-se alguns dias no Vidago e saia com frequencia a longos
passeios de cavallo com o genro. Da mesmeidade dos annos, da amizade
da infancia e sobre tudo da necessidade da expansão, resultou que o
morgado da Palmeira, n’um d’aquelles passeios, communicasse ao primo
os pormenores todos da sua angustia. O assombro de Martinho Xavier foi
afflictivo. Pôde muito comsigo que não lançasse em rosto ao marido de
sua filha a protervia, a perfidia, a villania com que tramára o engano,
do encontro com a franceza em Villa Pouca; e mais ainda o villipendio
do emparelhar o amor de sua filha com o de uma collareja transmissivel
de homem para homem. Era santa a indignação do pae!
Ouviu-o silencioso, e apenas lhe disse:
--Vence-te, se poderes; se te não poderes vencer, dá-me minha filha,
e vae disputar essa mulher a teu primo Ricardo, que eu creio que lh’a
tiras; e elle ou outro, quando estiveres saciado, t’a virão tirar.
Nicoláo pungiu-se e arrependeu-se da revelação.
Exigiu-lhe o juramento de calar o segredo a sua mulher. Martinho Xavier
respondeu:
--Quando se trata de affrontar minha filha, escuso de jurar que não hei
de affrontal-a. O que te peço é que a deixes ir estar quinze dias em
minha companhia.
--Pois sim, mas dispensa-me de acompanhal-a. Espero que a solidão e
meditação me curem. Logo que eu me sinta mais tratavel, irei buscal-a,
e passarei comtigo algumas semanas. Iremos todos a Madrid; eu mudarei
de vida, entrarei outra vez no mundo; e darei á minha pobre Beatriz o
contentamento que lhe roubei.
--Deus te ouça!--exclamou jubilosamente Martinho Xavier.
Beatriz cuidou de abafar de alegria, quando o pae lhe noticiou a ida.
Tratou de emmalar os seus adornos com tal prestesa, e de tamanho
afogadilho, que de sobra denotava a levesa dos dezesete annos, e a
facil transposição do seu espirito da dôr para o contentamento. Nicoláo
despediu-se d’ella com os olhos a reverem lagrimas. Os de Beatriz nem
de leve se marejaram. Partiram.
N’este mesmo dia abriu Nicoláo de Mesquita a _Coalisão_, jornal
portuense, e, acaso, relanceando a vista ao folhetim, depararam-se-lhe
as palavras _Margarida Froment_. Leu o folhetim, que se intitulava: