Acabaram-se os festejos no Vidago.
Principia a vida serena, que Nicoláo de Mesquita anhelára.
Está a casa de Palmeira sósinha, em meio da sua muralha de cedros
e alamos. Rodeiam-n’a por mais longe extensos almargeaes, relvas
amenissimas, montados crespos de sovereiros. A estrada passa arredada.
Nenhuns rumores do mundo alli vão quebrar os scismadores silencios.
Este é o éden, qual preluzira ao morgado nos entresonhos, que lhe
adoçavam os aborrimentos do seu viver com a franceza nos arrabaldes do
Porto.
Anciára elle então um enlace honesto, uma virgem transferida do
resguardo da pureza á adoração da vida conjugal, uma companheira para
todas as horas da vida pacifica, doirada de alegrias innocentes,
honrada na consciencia propria e no conceito do mundo.
Parece que a Providencia déra tudo, e mais ainda, ao homem que não
esperava o minimo das suas modestas, mas tardias ambições.
Para os quarenta annos, uma menina com dezeseis.
Para o coração escalavrado, um coração em flôr apenas desabrochado ao
inculpavel beijo de um primo.
Para uma _fortuna_ desfalcada por grandes desbarates, um grande
patrimonio de filha unica.
Nicoláo subjugára a mais liberal das fadas, ou pactuára com o anjo das
trevas a felicidade d’este mundo a troco da eterna perdição da alma?
Nada d’isto. Era a natural absurdeza das coisas sub-lunares, como ellas
se nos figuram quando as encaramos superficialmente e pela rama.
Em harmonia com o seu ideal de felicidade domestica, o morgado
restringiu ao minimo a sua convivencia, não pagando as visitas, e
faltando aos convites. Apenas Martinho Xavier ás temporadas vinha de
Chaves ver a filha, ou algum velho parente, que se retirava anojado da
insipida existencia dos senhores do Vidago.
Martinho Xavier encarava na filha, e perguntava-lhe, a occultas do
marido:
--Tu és feliz?
E ella, com os olhos assaltados de lagrimas, respondia, n’um tom de
amarga ironia de si mesma:
--Sou...
O pae contristava-se; mas dissimulava. Se a occasião lhe dava uma
aberta dizia ao genro:
--Vocês vem a enfastiar-se d’este modo de viver!... Por que não vens
estar com tua mulher em Chaves alguns dias, primo Nicoláo?
--Porque nos sentimos completamente felizes no nosso paraizo
terreal--respondia o morgado.
--E receiaes ser desgraçados lá?
--Não, primo Xavier; porém, a nossa casa é aqui; e o entrarmos nos
vãos prazeres da sociedade corre perigo de acharmos depois monótona a
solidão. Deixa-nos assim estar, que Beatriz sente como eu; affeiçoou-se
á quietação d’este viver, que te parece melancolico, e, se me não
engano, prefere-o aos bailes da tua Chaves.
--Não sei... murmurou Martinho.
--Por que dizes que não sabes?
--Porque ella tem dezesete annos, e foi creada com as inoffensivas
regalias da sociedade culta.
--Bem sei; mas uma senhora, que toma este sério e melindroso estado,
renuncía ás regalias frivolas e chimericas de um baile, e de um
conciliabulo de murmurações com as outras mulheres.
--Não me pareces o homem que viveu em França, na Belgica, na
Inglaterra...
--É por lá ter vivido que penso assim, primo Xavier.
--Não é isso...
--Então que é?
--É o estares gasto, primo.
--Estarei para as impressões stultas e prejudiciaes, mas para amar tua
filha tenho a energia d’alma dos vinte annos. Desmente-me Beatriz?
--Não: pelo contrario, diz que tu a adoras.
--Pois bem: que outro galardão querias tu como pae?
--Nenhum outro, primo Mesquita. O que eu receio, repito, é que esta
serenidade desfeche em fastio...
--Não receies, meu amigo. Eu sinto-me ditoso n’este sequestro da
sociedade, e encho do meu contentamento o coração de minha mulher.
Temos horas de passeio, de conversação e de leitura. E depois, ajuntou
Nicoláo sorrindo, possuimos bons estomagos, e dormimos muitas horas, e
accordamos alegres. Esta é que é a verdadeira, a legitima, a sadia, a
patriarchal existencia de nossos avós, primo Martinho Xavier.
--Está bom...--murmurou o pae de Beatriz, concluindo com erguer os
hombros, fechando as palpebras.
Passaram seis mezes. Voltou Martinho Xavier, e attentou no rosto
desbotado da filha.
--Tu padeces, Beatriz? perguntou o pae fagueiramente.
--Não, senhor: vivo triste. Que oito mezes tão vagarosos! Parece
que estou ha oito annos a olhar para estas arvores. Passam-se dias
e semanas que eu não saio de casa! Onde hei de eu ir? Ver correr a
agua do Tamega? Estou farta de ver o Tamega. D’antes ia á missa aos
domingos, mas o primo Nicoláo está a dormir até tarde, e nem á missa
vae. Eu deito-me ao escurecer, e elle fica a jogar o voltarete com o
reitor e com o administrador do concelho até ás onze. Depois vae cear,
e obriga-me a cear tambem. Que vida, meu pae!... Eu sou realmente
muito amiga de meu primo, mas não sei de que nos serve a riqueza aqui
mettidos n’este ermo, sem ver ninguem! Tenho tantas saudades do papá,
e da nossa casa, e das minhas amigas! A Therezinha Pizarro fala de
mim! Que mais feliz foi a Laura Canavarro, que me escreveu de Lessa
da Palmeira, onde está a banhos, e já foi a dois bailes no Porto! E a
Francisquinha de Villalva casa com o primo Raphael?
--Ora, menina! o primo Raphael está cada vez mais azougado d’aquella
cabeça! Chegou de Hespanha ha dois mezes, esteve em casa uns quinze
dias a recompôr a saude, pediu a Francisca de Villalva, e lá foi levado
para Basto porque viu nas aguas de Verim uma menina da casa de Viade,
e de Basto irá atraz de outra menina de qualquer casa. É um doido
desmarcado!
--Elle falou-lhe de mim?
--Falou; perguntou-me se estavas contente.
--E o pae que lhe disse?
--Que havia de eu dizer-lhe?! que estavas contentissima.
--Fez bem. Não quero que elle se vingue.
--Vingar-se de quê? Pois tu deste-lhe motivo de odio?
--Não... mas...
--Explica-te.
--O pae bem sabia que elle me fazia a côrte.
--Uma brincadeira...
--Pois sim, mas, se eu fosse constante... vinha a casar com elle.
--Deus te livre, filha! Aquelle homem hade ser o flagello da mulher com
quem casar...
--Quem sabe!...
--Sei-o eu. Antes infeliz com teu primo. Este, ao menos, é um esposo
leal, inseparavel de ti, bom administrador de casa, e respeitado de
todos. O outro vem a dar cabo do que tem, e está-se deshonrando
todos os dias com toda a casta de extravagancia. O que lhe vale é ter
pae, que vae tendo mão na manta, e a grande herança que teve de uma
tia; senão a grande casa de Fayões estava espatifada. Minha filha, dá
louvores a Deus por teres casado com um homem, que te livra de casares
com Raphael. Quando mais não seja, só por isto fizeste um optimo
casamento.
Beatriz calou-se. Vinha entrando o marido com uma enorme pêra de sete
cotovellos.
--Veja que prodigiosa pêra, primo Xavier! disse elle.
--É admiravel!
--Tenho magnificas fructas! Mandei fazer enxertos de pereiras
francezas. D’aqui a dois annos o pomar mais rico de Traz-os-Montes
ha de ser o nosso. Tu verás, Beatriz! Em França ha, no genero pêra,
duzentas e tantas variedades.
--Porque não vaes mostrar Paris a tua prima? atalhou Martinho.
--Ora essa!--acudiu Nicoláo.--Se deixavamos a nossa casa para ir ver as
paredes das casas dos outros!... Beatriz está farta de ver Paris nas
estampas, que eu lhe explico perfeitamente. Pois toda a terra é mais
para se ver na copia que no original!
--Ao menos vae até Lisboa ver a parentella que lá temos--replicou o
fidalgo flaviense.
--Peior! redarguiu o genro. Minha mulher dispensa ver o _D. José_, da
memoria do Terreiro do Paço, e as parentas contemporaneas da memoria.
Quando cheguei de Bruxellas em 1834, fui procurar os numerosos
Mesquitas que por lá estão em Lisboa, e achei uma gente exquisita,
que me perguntava se nós cá na provincia tomamos chá. As mulheres
pareciam girafas empalhadas. Pelos modos e edade, creio que desde minha
bisavó as nossas parentas de Lisboa embalsamaram-se em vida, e ficaram
repimpadas nas suas poltronas, á espera da trombeta do juizo final.
Querias tu que eu fôsse mostrar essa parentella gothica a minha mulher?
Deus a livre, que a pobresinha havia de cuidar que a mettiam n’um salão
subterraneo de Pompeia a conversar com as mumias de alguma familia,
surprehendida, em oração mental aos deuses, pela onda do betume.
--Está decidido que não saes de Vidago--retorquiu Martinho.
--Isso não sei; mas por emquanto a necessidade não obriga, salvo se
Beatriz o exigir.
--Eu queria, ao menos, ir estar em casa do pae algum tempo...--disse a
senhora.
Nicoláo involuntariamente franziu o sobr’olho, e disse:
--Já se vê que não estás o melhor possivel com teu marido...
--Falsa interpretação, acudiu o pae. A menina não dizia isso, primo.
Saudades da casa paterna implicam o bem-estar com o marido?
--É conforme...--atalhou Nicoláo.--Pois sim, iremos a Chaves.
--Não vamos, não, primo, atalhou Beatriz despeitada, simulando
conformidade.
--Então vamos ou não vamos? perguntou o marido, entre risonho e
contrariado.
--O que fôr da tua vontade--respondeu ella affavelmente, sopesando o
despeito, como quem, apezar do melindre maguado, queria ir.
De feito, ao outro dia partiram para Chaves.
Beatriz cobrou as côres e a alegria dos olhos, assim que viu a janella
do seu quarto, e os craveiros em flor, que ella cultivára. Parecia-lhe
a ella que amava mais seu marido alli. Appareceram-lhe as amigas da
infancia, alegres, buliçosas, esplendidas de vida, contando-lhe os seus
amores, as suas esperanças, as venturas de outras amigas. E Beatriz
escutava a chilreada d’estas avesinhas com os olhos aguados, e o
coração cerrado. Por supremo esforço, desprendia um sorriso, e então
era peior, que as lagrimas rebentavam para afogar a falsa expressão do
seio angustiado.
Correu logo a noticia da vida desventurosa de Beatriz. Os tios d’ella
afoitamente invectivaram Nicoláo pela reclusão e estiolamento em que
tinha os dezoito annos da pobre menina; accrescentando que para escura
sorte a havia creado o pae com tanto mimo.
Isto agastou grandemente o morgado. A resposta foi asperrima, e
contraditada com assomos de ira e excessos de palavras. O resultado foi
Nicoláo, ao fim de quatro dias, ordenar a sua mulher que se despedisse,
para no dia seguinte voltar a Palmeira.
Beatriz obedeceu silenciosamente. Desde este momento, a casa dos Vahias
parecia de lucto. Nicoláo deixou ir sua esposa despedir-se em companhia
do pae, pretextando impedimento de saude.
Estava Beatriz em casa de suas primas Canavarros, quando Raphael Garção
entrou, vindo de Basto.
Viu Beatriz, fez pé atraz, e não teve mão de si, exclamando:
--Como está mudada, prima!
Beatriz abaixou os olhos com immensa dôr.
--E eu que a considerava tão afortunada!--tornou Raphael.
--E quem te disse a ti que ella o não é?!--interveiu Martinho Xavier,
de má sombra.
--Diz-m’o aquelle rosto, que era formoso e ridente como o do anjo da
alegria!--respondeu impavidamente o leitor de Richardson e Byron.
--Pode-se padecer do corpo, e ser-se feliz da alma...--contrariou
Martinho.
--Isso não sei--contraveio o morgado de Fayões.
--Sei eu.
--Pois muito estimo que a mudança de rosto de minha prima seja uma leve
doença, tornou Raphael.
Martinho Xavier levantou-se, dando signal de saida á filha, que abraçou
tristemente as primas, e estendeu a mão a Raphael, sem o fitar no rosto.
Ao outro dia, partiram para o Vidago aquellas duas almas que
providencialmente se tinham unido por occultos designios, que me não
edificam, nem provam o bom regimento e ordenação d’este globo. Seja
perdoada esta mingua de admiração ao mal afiado acume do meu espirito.
O ver successivamente a desgraça propria e as alheias dispara afinal
n’uma cegueira de entendimento. É o que eu penso de mim, sem com isto
me querer ingerir n’um cantinho d’este romance.
Nicoláo de Mesquita sentia-se mudado. Via-se interiormente. Ha uma
visão interior, intuspecção dolorosa em que a gente vê estar-se-lhe
a alma enrugando, apanhando e envelhecendo. Queria desabafal-a em
caricias á mulher; mas faltava-lhe o ar expansivo, aquelle dilatar-se o
coração para receber as lagrimas refrigerantes da mulher que nos ama,
e perdôa as faltas, o desamor e as iniquidades.
Concentrou-se.
Póde ser que ella o divertisse da sua introversão, se o acariciasse,
mas Beatriz soffria mais que o marido, e começava a detestal-o. A
precisada de caricias era ella, que duas angustias apertavam: a
saudade, e o terror do porvir: o passado amor, renascido com a presença
de Raphael: e o supplicio adveniente com o rancor, que ella sentia
empeçonhar-lhe o intimo d’alma e a consciencia de sua irremediavel
desgraça.
Sem embargo d’isto, os dois esposos viam-se a todas as horas, e
trocavam expressões vãs.
--Porque soffres, prima?--perguntava elle.
--Eu não soffro.
--Mas que tristeza é essa?
--Sinto-me adoentada. E tu que tens, Nicoláo?
--Nada, Beatriz.
--Mas estás tão pensativo!...
--Medito na nossa sorte, e vejo que nos enganámos. Esta vida solitaria
não quadra ao teu genio. Tu querias os brinquedos de solteira; e eu
casei tarde para lhes achar prazer.
O silencio de Beatriz irritava-o; mas a delicadeza continha-o.
E, por este theor, travavam curtos dialogos, que rematavam em raiva
suffocada.
Um dia, Beatriz não saiu do leito para a mesa do almoço. Nicoláo
mandou-lhe a bandeja ao quarto pela criada. D’ahi a pouco foi elle, e
viu intacto o almoço.
--Porque não comes?--perguntou elle.
--Não posso--respondeu seccamente a senhora.
--Queres que chame um cirurgião?
--A minha doença não a curam cirurgiões: ha de curar-m’a... bem cedo a
morte.
Nicoláo riu-se sarcasticamente.
Sentou-se Beatriz no leito, e escondeu entre as mãos o rosto, para
abafar soluços.
O marido contemplou-a com azedume, affastou-se.
Saiu; foi emboscar-se no arvoredo da quinta; e meditou meia hora.
Quando cessou de meditar, sentia saudades de Margarida Froment!