IV

Margarida, na volta de Villa Pouca, reparou no castello, e pensou no

descendente dos ricos-homens de Aguiar, dizendo em sua consciencia:

«Amal-o-hia eu, se podesse... O coração da mulher não se engana...

Aquelle moço amava-me hontem...»

Custa a crêr o soliloquio!

Ainda não ha meia hora que ella viu, ennovelados em poeira, o

cavalleiro e o cavallo sumirem-se para sempre, e já tão cedo se

preoccupa do affecto inspirado a um estranho, que hontem vira! Que

coração e juizo tem esta creatura! É um coração e juizo exoticos:

coisas de França; que em Portugal--terra onde mais sinceramente

e ajuizadamente se ama e morre d’amor--nenhuma senhora, em caso

similhante, faria monologos d’aquelles.

Ao mesmo tempo, Ricardo de Almeida, empinado sobre uma pinha de rochas,

contiguas ao castello apontava um oculo á estrada que descia de Villa

Pouca, e monologava tambem: «É ella... e vem sósinha...»

O cavallo estava sellado, ao sopé dos rochedos. Ricardo desceu do

miradouro, cavalgou, e foi sair ao caminho na encruzilhada onde se

despedira. A franceza reconhecera-o a galopar na clareira de uma agra.

Fez-se um brilhante dia no seu espirito! Ia alegre como bem póde ser

não fosse, ainda que arrancasse o homem amado ás presas da menina de

Chaves. A alvorada de um amor novo é uma aurora de junho perfumada

de flores, gorgeada de passarinhos, sonora de murmurios no coração

ennoitecido, e regelado pela borrasca de uma paixão infeliz. Era uma

alegria que a vingava! Na infancia do seu amor de donzella, nenhuma

hora sentira de tão excitante e alvoroçada felicidade!

Ricardo apeou, atirou as rédeas á mão do lacaio, e adeantou-se ao

encontro da franceza, dizendo com a voz tremula do sobresalto interior:

--É tarde para vossa excellencia ir pernoitar a Villa Real. No espaço

de tres grandes leguas não encontra pousada. Venho offerecer-lhe a

minha casa, onde tenho minhas tias para a receberem.

--Acceito muito agradecida--respondeu Margarida, estendendo o braço

á mão convulsa do fidalgo. Ainda mesmo que sobejassem hospedarias na

estrada, eu acceitaria a sua hospedagem, senhor Ricardo.

O mancebo cavalgou, e deu o passo a Margarida no estreito caminho que

levava ao Pontido.

Iam ambos concentrados: ella, no enlevo da consideração que recebia;

elle, no seu amor. Devemos cuidar assim da franceza; porque não ha

contentamento comparavel ao da mulher desestimada da sociedade,

quando se lhe depara prova de respeito, urbanidade sem mescla de amor

aviltante. Parecia-lhe á dama que estava no tempo em que a respeitavam,

e talvez a amavam os amigos da sua familia, sem exclusão dos amigos

de seu marido, facto que nos escandalisa muito a nós, e medianamente

agastaria a esposa de Ernesto Froment.

Quanto ao enlevo amoroso de Ricardo de Almeida, havemos de inferil-o

naturalmente de um successo, que prende com esta historia. Fôra o

caso que elle, por veredas transversaes, no dia anterior, chegara,

primeiro que Margarida, a Villa Pouca. Alojára-se na unica estalagem da

terra, e no quarto immediato ao que devia occupar a franceza. Ouvira-a

fallar de um portador que fosse de noite a Chaves. Desvelára a noite,

espiando a resposta. Dera tento da chegada de seu primo Nicoláo. Ouvira

o dialogo na alcôva e na saleta. Até os soluços da franceza ouvira,

quando o morgado, fóra do quarto, expedia uns sons roucos da colera

que o afogava. Assim que Margarida desceu ao pateo, Ricardo saira pelo

quintalejo da estalagem, e fôra montar o cavallo, que tinha acautelado

de suspeitas em outra casa. Desgarrando da estrada, voltou ao Pontido,

e subiu á crista das fragas com o oculo, tremendo que a reconciliação

se fizesse entre Nicoláo e Margarida. Ora isto, se não era amor, e amor

á antiga, coevo talvez do castello senhorial do rico homem, não sei

dar-lhe nome, a não querer o leitor que isto fossem ciladas do demonio,

em conformidade com as interpretações de santos e doutissimos sujeitos.

Quer anjo, quer demonio que lhe instillasse no peito o nectar ou a

peçonha, o exacto é que Ricardo de Almeida apresentou a suas venerandas

tias D. Margarida Froment, sem dizer quem era, d’onde vinha, e para

onde ia. Caso unico no solar dos Almeidas.

Perguntava D. Simôa ao sobrinho, em quanto D. Sancha entretinha a

hospeda suspeita:

--Mas onde conheceste, menino, esta dama? Como veio ella parar aqui lá

d’esses mundos de Christo?

--Sei que é um anjo: viria do ceu!--respondeu Ricardo.

--Do ceu?!... Vê lá bem, menino! Olha que teu tio avô, o senhor bispo

de Coimbra, dizia que as mulheres assim galantes eram mensageiras do

inimigo.

--Ora minha tia...--volvia o moço afagando-a.--Receba sem escrupulos a

pobre senhora, que é tão galante como desgraçada.

--Então que tem ella, menino?--instava D. Simôa com malicia.

--A sua alma pura, minha tia, não póde comprehender o mal que fizeram

a esta senhora. No entanto, eu responderei ás perguntas de vossa

excellencia assim que ella sair ao seu destino.

--Mas...--redarguiu a velha--o mal que lhe fizeram has de remedial-o

tu?...

Esta interrogação abona a sagacidade de D. Simôa; a innocencia não

direi, com medo de errar. As Sanchas e Simôas dos solares provincianos,

por via de regra, tinham tempo para tudo: tempo para Deus e tempo

para os primos. Cada uma tinha o seu frade que a absolvia e lhe dava

noticias de todas as devoções com indulgencia plenaria. A balança de

S. Miguel estava sempre no oiro fio com estas damas, que mortificavam

Deus e o demonio ao mesmo tempo. A Deus, sophismavam as velleidades com

as indulgencias do Espirito Santo; ao demonio faziam figas por sobre

as espaduas anchas dos frades respectivos. Se as donas do castello de

Aguiar tinham sido d’esta laia, não sei; asseveraram-me, porém, que

ellas foram enterradas de palmito e corôas de rosas brancas: isto diz

muito em credito d’aquellas senhoras. No tocante a cheiro de santidade,

as opiniões na freguezia divergem.

Como quer que fosse, D. Simôa, n’aquella noite, inventou uma enxaqueca,

e recolheu-se á sua alcova. D. Sancha saiu da sala para ir ver a mana,

e voltou á sala com outra cara. O certo é que a franceza achou-se

sósinha á ceia com Ricardo, que estava odiando as velhas.

Margarida sem presumir de aguda, entendeu tudo e condoeu-se do mal

abafado soffrimento de Ricardo.

--Não se afflija por amor de mim--disse ella. Eu acceito o menos preço

de suas tias, sem azedume. Com que titulos se apresenta á estima de

duas senhoras desconhecidas uma mulher que viaja sósinha!?... Muito

sentida vou, se as delicadas attenções do cavalheiro o fizeram cair no

desagrado de suas tias!...

--Eu sou independente, minha senhora--respondeu Ricardo.--Minhas tias,

n’esta casa, teem um pequeno patrimonio, e o direito de se retirarem

com elle. A minha emancipação começa de hoje.

--Por Deus!--atalhou Margarida, simulando pesar.--Não dê desgostos

ás pobres senhoras! Olhe que ellas não fizeram mais do que fariam

quaesquer outras. Eu conheço um pouco a vida de provincia em França,

e creio que em Portugal é identico o modo de sentir. Recebem-se

sempre desconfiadamente as forasteiras, que se não recommendam logo

com appellidos heraldicos, nem denunciam pela libré de seus criados

procedencia illustre. Ambos peccamos por leviandade, mr. Ricardo de

Almeida: vossa excellencia errou em convidar a mulher que não póde

explicar honestamente a sua vida, e eu pequei em acceitar o convite,

como se a consciencia de maior dignidade me habilitasse a relacionar-me

com duas damas da alta nobreza e, a meu ver, das primeiras virtudes.

A essencial feição da indole de Margarida Froment era a ironia; mas, a

compostura de rosto com que desfechava os remoques, não lh’a deixava

entre-vêr facilmente. Ricardo, pelos menos, recebeu como ingenua

a phrase laudatoria das virtudes de suas tias; e, sorrindo com um

tregeito especial de beiços, deu vislumbres de incerteza em quanto á

primazia das mesmas virtudes.

O fidalgo ergueu-se de golpe, e tangeu uma campainha.

Entrou á sala um escudeiro.

--A criada de sala?--perguntou Ricardo.

--Está no quarto das fidalgas.

--Que venha aqui.

Entrou a criada.

--Conduza esta senhora ao seu aposento--disse Ricardo--e conserve-se no

quarto proximo, esperando as ordens que a sr.ᵃ D. Margarida lhe der.

--Mas as fidalgas...--balbuciou a aia.

--Ordenei!--atalhou o moço--e, voltando-se a Margarida, disse:--Quando

vossa excellencia quizer recolher-se...

--Irei já; mas dispenso os serviços da sua criada--observou a franceza.

Ao romper da manhã, Margarida estava preparada, como se recolhêra á

alcôva. Parecia ter chorado, e velado o restante da noite. Á mesma

hora, Ricardo mandava preparar os cavallos, e enfardar a sua bagagem.

Quando sentiu movimento no quarto da franceza, esperou-a na ante-camara

e disse-lhe:

--Resolvi ir ver o Porto. Se vossa excellencia me consente, irei em sua

companhia.

--Que mais posso eu desejar?--disse Margarida--Mas... eu vim trazer a

desordem a esta casa... Que pesar, meu Deus!

--Veio apenas trazer uma noite de amargura a um homem que a présa

deveras, minha senhora. De resto, eu vejo melhor o mundo depois que

vossa excellencia aqui entrou.

As velhas tinham sido avisadas dos preparativos do sobrinho.

Ergueram-se espavoridas e tresnoitadas a procurarem Ricardo.

Pediram-lhe contas da sua inesperada resolução, e elle respondeu-lhes

com uma mesura de cabeça, e passou. D. Sancha exclamou, e D. Simôa

quiz ir á sala dos retratos accusar a degeneração do neto. Os retratos

teriam medo, se as vissem com os josésinhos côr de cidra enfiados pelas

mangas, e as estrigas do cabello estupentudas. D’ahi a pouco, ouviram

a estropeada dos cavallos no pateo, e o rugido do alteroso portão

rodando nos gonzos. Foram á janella e viram a franceza de par com o

sobrinho, e uma carga de bahus no seguimento da escandalosa cavalgada.

Desmaiaram-se reciprocamente nos braços uma da outra, e assim estiveram

até horas de almoço, depois do qual mandaram chamar os parentes

circumfusos nas proximas seis leguas.

Lembrou D. Sancha que o primo Nicoláo de Mesquita, como homem que tinha

visto muito mundo, seria o mais habil para convencer Ricardo a fugir

dos braços da aventureira franceza, com quem se fôra por essas terras

fóra. Foi chamado o capellão para notar e escrever a carta e assignal-a

em nome das senhoras que não sabiam escrever. O egresso franciscano

fez uma exposição pavorosa do escandalo, citando, com referencia á

franceza, todo o mal que Santo Agostinho e S. João Chrysostomo haviam

dito das mulheres.

Este periodo é notavel:

.................................................

«Aqui tendes, caro sobrinho, o desdouro que a vontade do Senhor nos

reservava á nossa velhice. Uma forasteira, vinda de França, por

instigação de Satanaz, rouba-nos a menina dos olhos, o nosso Ricardo,

que tão humilde nos tinha sido até agora, e tão bem comportado, que

não consta em todas estas freguezias que elle botasse a perder filha

de caseiro. Suppõe a gente que elle arranjou esta tentação lá por

Villa Real, onde esteve quatro dias. Mas clama justiça do céo vir

elle com ella para esta casa, onde não ha memoria de entrar mulher

desconhecida! Chama-se ella Margarida, e pelo donaire e modos bem se

vê que é mulher affeita a correr mundo. Nunca vimos creatura com tanto

palavriado! Aqui ninguem nos póde valer como o nosso parente Nicoláo.

Lembrae-vos que sois do mesmo sangue do nosso Ricardo; pois que vossa

bisavó era irmã do bisavô do nosso sobrinho. Elle dizia que vós sois

um homem de grande entendimento e sabedoria, porque tendes experiencia

do mundo. Se estimaes esta familia, que tambem é a vossa, fazei-nos o

favor de ir a Villa Real, ou onde elle estiver com a tal aventureira,

e despersuadi-o do peccado e da loucura. Lembrae-lhe a honra da sua

linhagem, e trazei-o para sua casa antes que a franceza lhe derranque

a alma, etc.»

Este é o periodo em que Sancha e Simôa choraram torrencialmente, e o

egresso tambem.

Partiu um criado com a carta para o Vidago, ou para onde Nicoláo de

Mesquita estivesse. Do Vidago passou a Chaves, a procural-o em casa de

Martinho Xavier. Foi entregue a carta ao morgado de Palmeira, a tempo

que elle estava amollentando os asperrimos ciumes de Beatriz, informada

do encontro em Villa Pouca, pelo espião que mandára. Nicoláo tinha

inventado não sabemos que romances á conta da mulher, que o criado de

Beatriz affirmára ser linda como as estrellas e mocetona de uma vez,

modo seu de exprimir a maxima perfectibilidade da belleza mulheril.

A prima repellia desabridamente as humilimas explicações, que reviam

absurdeza, e deficiencia de estudo previo. Chegou, porém, a carta, com

a indicação de onde vinha.

--Que me quererão estas serêsmas do Pontido? disse Nicoláo.

Leu, e no decurso das duas primeiras paginas fradescas, resadas em voz

alta, interrompeu-se exclamando:

--Que vem a ser isto?!

Relanceou os olhos sobre a terceira pagina, e viu as palavras

_franceza Margarida_. Mudou de côr, e leu d’ahi em diante mentalmente.

Beatriz desconfiou, e foi, irreflectidamente, com liberdade de noiva,

e indelicadeza de menina que não ganhou no collegio premios de

civilidade, espreitar o dizer da carta. Nicoláo furtou-se á curiosidade

e augmentou a suspeita. A menina saiu da sala com arrebatamento, e foi

dizer ao pai:

--Já não quero casar com o tio Nicoláo. (Já era tio!)

--Porque, menina?!

--Porque sim... É um infiel!

--Ora, creança!... Saibamos isso por miudos.

Beatriz contou o encontro com uma mulher em Villa Pouca, e o

recebimento da carta, que elle escondêra, depois de ter lido uma porção

d’ella a dizer mal das mulheres.

Martinho Xavier riu-se dos amuos da menina, e foi entender-se com o

primo.

Nicoláo, depois de se ficar pasmado uns tres minutos no periodo que

transladamos, quiz dispor as suas idéas, em ordem a conjecturar o

abstruso enlace de Margarida com Ricardo de Almeida, duas pessoas que

nunca se tinham visto. Este reparo denota que Nicoláo não conseguira

coordenar as suas idéas. Pois as duas pessoas não se haviam de ter

visto, ao menos quando uma era roubada pela outra?

Respondia elle a esta pergunta do siso-commum, quando Martinho Xavier

entrou, dizendo:

--Que vem a ser isto, primo Mesquita? A Beatriz está zangada. Que lhe

fizeste? que mulher é essa com quem estiveste em Villa Pouca? E essa

carta, em que se diz mal das mulheres que vem a ser? A pequena foi

dizer-me que não quer casar comtigo!

Nicoláo reflectiu, e achou um miraculoso expediente de justificação.

Deu a carta a ler ao primo dizendo:

--Eu duvidei contar a tua filha uma historia de honestidade muito

equivoca. Ahi verás que me chamam as tias Almeidas para reduzir o

sobrinho a deixar uma mulher que o perde. Esta mulher é a mesma que

veiu a Villa Pouca para captar a minha estima, e mover-me a induzir meu

primo Ricardo a casar com ella. Aqui tens, primo Xavier, como eu me

vejo enredado n’uma teia, que me faz malquisto de tua filha. Se queres,

explica-lhe tu o que é isto. Eu não sei fazel-o sem cuidar que ultrajo

o seu pudor.

Martinho expediu uma sincera gargalhada, e exclamou:

--Dá-me a carta, que eu vou pacificar a pobre menina.

D’ahi a pouco, Beatriz entrou muito agraciada á presença de Nicoláo, e

disse, toda affagos:

--O primo perdoa-me, pois não perdoa?

--E, por amor do seu ciume, cada vez a adoro mais, Beatriz!--respondeu

o morgado ternamente.

V

Nicoláo respondeu ás tias Almeidas que as suas occupações o estorvavam

de ir moralisar o primo Ricardo. Consolava-as, porém, com a certeza de

que o sobrinho prodigo voltaria cedo curado da sua hydropisia amorosa,

depois de algumas sangrias copiosas nas algibeiras. O egresso, lendo

este paragrapho, exclamou:

--Isto que elle diz é assim, fidalgas. O senhor Nicoláo bem se vê que

andou muito mundo!

As velhas sentiram-se alliviadas, e accenderam velas de arratel a Santo

Antonio, e outros bem aventurados que privam na côrte celestial.

Este acontecimento estupendo, passada a rija impressão do choque, deu

largas ao espirito do morgado. Mulher que tão facil e estupidamente

passára ao dominio d’outro homem, estava definida. Espinho de remorso

de havel-a abandonado seria baixesa e indignidade consentil-o na alma.

Arrependido estava elle de a não ter abandonado ha muito, por umas

verduras de pundonor, em que elle victimára seis escuros e dissaboridos

annos de sua vida. Tudo pelo melhor! Azavam-se-lhes as coisas para um

viver tranquillo e desapertado de responsabilidades e reminiscencias

perturbadoras.

Cuidaram logo em tirar dispensa de parentesco para o casamento. Nicoláo

andava alegremente na faina de renovar as alfaias da casa de Palmeira,

e lustrar as velhas, que provavam as antigas pompas do solar dos

Mesquitas. N’este lidar, em que o coração tomava a melhoria do seu

cargo, o morgado remoçava, puerilisava-se, tinha tolices perdoaveis,

que Beatriz era digna de enlouquecer qualquer homem amado. As mulheres

lindas confessavam que ella era formosa: as mulheres são evangelhos,

quando tal dizem d’outra. E, alem de formosa, rica. Fidalga, está dito

tudo, se o timbre das armas de Fayões e de Palmeira, e das Olarias,

é o mesmo timbre dos Sousas Vahias cuja representante é Beatriz. Em

quanto a puresa, não ousariam os serafins esquadrinhar-lh’a. É o

elo interposto á flor e á estrella em materia de innocencia. Tivera

escassamente uma sombra de cortejo de seu primo Raphael Garção

Cogominho, decimo quarto senhor de Fayões. A bonina da serra não fica

mais pura, quando um cordeirinho a bafeja, do que ficou Beatriz com uns

beijos que lhe havia dado o primo nas faces purpurejadas. Afóra isto,

que é nada, o maná dos israelitas não choveu mais candido e impolluto

das amphoras do ceu. Assim se desculpa a exultação de Nicoláo nos

preparativos para os esposorios mais fallados e invejados d’aquella

redondeza.

As pessoas que tinham visto os requebros de Beatriz por seu primo

Raphael maravilharam-se da transferencia, e mais ainda da conformidade

do moço de Fayões.

Era este mancebo filho unico de paes opulentos, e o mais galhardo e

galan rapaz d’aquellas terras. Tinha peccados grandes, que os invejosos

das suas proezas desejariam esconder, se podessem. A humanidade, sua

conhecida, dividira-se em dois bandos: os homens contra, as mulheres

por elle. Raphael não se queixava; punha peito aos adversarios, excepto

o coração que esse andava repartido e desfibrado pelas defensoras.

Era coisa de prodigio a paz em que tantas odiando-se reciprocamente,

viviam com elle, e saiam a enristar, não lanças, mas linguas--as mais

perfurantes e contundentes armas conhecidas--em honra de Raphael Garção

Cogominho, quando algum barbaro desdenhoso lhe desluzia no garbo com

que esporeava o ginete a galões e trancos, ou na adamada denguice com

que requestava toda a mulher indistinctamente.

E muitas o amavam, áquem e além Tamega, por essa Gallisa dentro. No

entender dos sisudos censores de seus maus costumes, faltava-lhe a

fibra susceptivel do coração que se doe das inconstancias d’uma mulher.

Em confirmação d’este juizo, depunha o ter ido Raphael para Hespanha em

seguimento de uma andaluza, que apparecêra na feira de Santo Antonio

em Villa Real, tocando pandeiro e castanhetas. Alguem conjecturou

que Beatriz accedêra a casar com o tio por despique do primo; varias

senhoras, no proposito de desdoural-a, affirmavam que ella optára

pelo mais rico, sem levar em conta a differença das edades, e os

dissabores futuros. Tudo isto eram vozes do mundo, que se banqueteava

em casa de Martinho Xavier e se enfrascava nos melhores vinhos a

brindar o prospero enlace do extremado cavalleiro de Palmeira com a

encantadora Beatriz. A verdade, porém, das rompidas intelligencias da

menina e de Raphael já está dita: fôra um brincar da borboleta com uma

flôr de madre-silva; mais lyrismo não tem anachreontica nenhuma, se a

anachreontica fôr das mais honestas.

O morgadinho de Fayões nunca pensára em casar-se. Tinha então vinte

e quatro annos; muito dinheiro, muita saude, leitura de _Clarisse

Harlowe_, da _Nova Heloisa_, do _D. João_, e outros modelos de algozes

de corações. É o que elle tinha lido em dois annos que estivera em

Coimbra.

Não obstante, a pureza da filha de Martinho Xavier enfreou-lhe a

indole; póde ser tambem que a desconfiança do pae lhe contraminasse

algum intento menos honroso. Disputal-a a Nicoláo de Mesquita, sem o

proposito de desposal-a, era um desaire; soffrer era uma semsaboria

indigna dos Tenorios e Lovelaces e Saint-Preux das suas leituras.

Felizmente que a andaluza lhe barateou um sorriso, e encareceu um

beijo na feira de Villa Real. Este duro osso do officio irritou-lhe a

vaidade. A hespanhola pareceu-lhe uma Esmeralda, como Victor Hugo a

encontrára inventada por um escriptor castelhano. Alli por Villa Real

andavam uns Claudios Froulos a quererem seduzir-lh’a. Esporearam-lhe

o ciume. Não havia que vêr. Seis mulheres bonitas de Chaves, dezenas

d’ellas do alto da provincia, duzias de galanteios incipientes e

decadentes, todas foram sacrificadas á funambula do pandeiro e das

castanhetas.

Varias pessoas lamentaram a sorte d’este mancebo no banquete nupcial

de Beatriz e Nicoláo. Os mais penetrativos convivas olhavam de esconso

a noiva, e o marido tambem; todavia a menina escutava as lastimas como

se as não comprehendesse. O anjo estava como estrangeiro entre aquelle

gentio, que fallava a linguagem barbaresca das paixões deshonestas.

No dia seguinte, os esposados foram para o Vidago, com grande comitiva.

No trajecto de tres leguas estoiraram constantemente bombardas e

foguetes. As festas continuaram na casa de Palmeira tres dias e tres

noites. A grandeza de quinze leguas ao sul, e tres ao norte, a entestar

com a Galliza, confluiu com suas librés a honrar a mais cheia lua

de ambrosia, que ainda tiveram noivos desde que as luas se ingerem

ridiculamente nos noivados.

As senhoras do Castello d’Aguiar, tias de Ricardo, saiam da liteira a

visitarem o seu parente de Vidago, e a senhora D. Beatriz que ainda era

parente d’ellas, em razão de haver casado Mem de Sousa, em 1410, com D.

Briolanja de Almeida. Além da etiqueta, moveu-as ao sacrificio poderem

fallar do sobrinho Ricardo, e pedirem consolações ao homem experiente.

D. Sancha, assim que o ensejo se lhe ageitou, rompeu em pranto desfeito

n’estes termos:

--A felicidade que estaes gosando, sobrinhos, perdemos a esperança de

que o nosso Ricardo a venha gosar!

--Que noticias tem vossa excellencia de Ricardo?--atalhou Nicoláo.

--Não nos escreve o ingrato! Ha tres mezes que foi, e não voltou.

--Pois não sabem onde elle foi parar com essa mulher?

--Sabemos, sabemos... Estão no Porto. Ricardo tem escripto aos feitores

das quintas, a mandar ir dinheiro. Não fazeis uma idéa, sobrinho, do

dinheiro que tem ido!... Se assim vae, Deus nos feche os olhos antes de

o vermos empenhar os vinculos. Agora soubemos que elle mandou vender os

foros de Barroso por quatro mil cruzados, e a melhor quinta da Terra

quente! Haverá um mez que o senhor padre Ambrosio, nosso capellão, foi

de nosso mando ao Porto a ver se o convertia. Quereis vós saber, meus

sobrinhos, o que elle viu? Elle aqui está que o conte. Diga lá, senhor

padre Ambrosio.

O egresso sibilou uma pitada, assoou-se, dobrou o lenço de

quadradinhos, embolçou-o na algibeira da batina, compoz o rosto,

ageitou as mãos sobre a proeminencia do estomago, e tirou estas

palavras do peito:

--Assim que cheguei ao Porto, fui a casa das senhoras Noronhas, primas

de suas excellencias, para o fim de me ellas mandarem ensinar as ruas,

e a morada do fidalgo. Saíu comigo o capelão a indagações, e soubemos

que elle estava a banhos de mar na Foz, com a maldita estrangeira.

Aluguei um jumento, com o devido respeito, e puz-me a caminho para

a Foz. Eis que, á saída do Porto, vejo vir o senhor Ricardo n’uma

carroça descoberta, com a franceza á sua direita, e dois lacaios, um

adeante e outro atraz, sentados na dita carroça. Fiquei passado. Quiz

chamal-o, grudou-se-me a lingua ao ceu da bocca! Elle passou sem dar

tino de mim; e eu fiquei perplexo, verdadeiramente perplexo! Que hei

de eu fazer? Deixei ir o jumento, com o devido respeito: fui á Foz,

resolvido a esperar que elle voltasse. Teria eu andado obra d’um quarto

de legua, eis que ahi torna a carroça n’uma galopada, que parecia um

esquadrão de cavallaria. Parei. O senhor Ricardo viu-me, a carroça

pára, e elle diz: «Por aqui, padre Ambrosio? Isso que é?»--«Venho em

cata de vossa excellencia»--disse eu.--N’isto, saltou elle á estrada,

e apropinquou-se de mim, ajudando-me a desmontar, e perguntou-me: «Ha

novidade em casa? Morreu alguma das tias?»

--Vejam que perverso aquelle!--interrompeu D. Sancha.

--A perguntar se morremos!--accrescentou D. Simôa, com uma visagem de

quem promette viver muito.

--Se vossas excellencias permittem, disse o padre Ambrosio, continuarei

a minha exposição.

--Póde continuar, disseram unanimemente as velhas.

--Não, excellentissimo senhor, não morreu, graças a Deus, nenhuma de

suas tias. Teem padecido muito, mas vivem para honra da familia dos

Almeidas. Temos que fallar largamente, senhor Ricardo.

«Pois bem, padre Ambrosio», disse elle, entre na minha

carruagem.--«Muito obrigado, muito obrigado», disse eu. «Ha de

entrar»--teimou o fidalgo; e, pegando-me d’este braço, fez-me subir,

e sentar mesmo ao lado da franceza hombro com hombro. O senhoras e

senhores! eu suava por todos os orificios!

Beatriz soltou uma convulsão de riso indomavel, Nicoláo de Mesquita

cravou os dentes nas borlas do chambre. As senhoras Almeidas pasmaram

do descôco de Beatriz. O narrador abriu a bocca, e ficou-se espantado.

Esse silencio, e estas visagens eram cócegas a nova casquinada de

Beatriz. A senhora ergueu-se de salto, e fugiu sala fóra com as mãos

nas ilhargas.

--Ella de que se riu, sobrinho?! perguntou D. Sancha.

--É flato, respondeu Nicoláo.

--Ah! coitadinha! disse D. Simôa. Mandae-lhe fazer um chá de ortelã e

tilia.

--Aquillo passa-lhe, tornou o morgado. Queira continuar, senhor padre

Ambrosio.

--Vinha eu dizendo que...

--Entrou no carro...--lembrou Nicoláo.

--Justamente, e alli vamos nós por aquella estrada além, que eu não

sei para onde me levavam, nem dava tino de mim. Ia afflicto! Aquella

mensageira de Satanaz ao pé de mim! Nunca volvi o rosto para a ver! Que

diria o mundo, vendo um homem com estas vestes sacerdotaes, sentado á

beira d’aquella mulher! Eu levava o meu capote de camellão, puxei-o

para deante afim de esconder a batina, mas a cara havia de denunciar a

minha vergonha: eu ia como um pimento em toda a extensão da palavra! O

fidalgo perguntou se eu gostava de andar em carruagem. Respondi-lhe que

não e o demonio da franceza disse não sei que, lá na sua amaldiçoada

linguagem, e o senhor Ricardo riu-se. Eis que chegamos ao portão da

casa do senhor Ricardo. A mulher do peccado deu um salto para fóra,

que parecia um passaro a saltar, deixando ver os laços dos sapatos, e

umas fitas pretas encruzadas nos artelhos! Assim a vestira o inferno

para perdição das almas. Assim apparecia o demonio entrajado aos santos

da Thebaida! Porque a verdade ha de dizel-a minha bocca indignada:

Satanaz nunca fez mulher mais guapa para recrutar almas n’este mundo!

Eu tinha-a visto de passagem na casa do Pontido, quando ella pernoitou

lá, e achei que era bem composta de feições; mas agora d’esta vez

pareceu-me muito mais galharda. Nunca vi outra nem espero que os meus

olhos tornem a ver mulher assim!... Santa Maria Egypcia, e Santa

Margarida de Cortona, que eu já vi pintadas, quando eram peccadoras,

dou-lhes a minha palavra que não tinham tantos adornos infernaes!...

Vamos adeante. O senhor Ricardo levou-me a uma sala espaçosa, e toda

adornada de cadeiras de almofada, e ricos escabellos de seda. Fez-me

sentar n’um, em que cuidei que ia por elle dentro, e o fidalgo riu-se,

e explicou-me o caso, dizendo que o assento era de molas.--«Tudo

delicias do peccado!»--exclamei eu, erguendo-me; e elle, o perdido,

exclamou tambem: «delicias da civilisação, padre Ambrosio!» Então,

comecei eu o meu discurso, que levava meditado, e que não repito,

para não enfadar vossas excellencias. O meu discurso foi attinente ao

proposito de o accordar do seu lethargo. Citei-lhe o divino e o humano.

Invoquei as sombras illustres dos Almeidas, dos Mesquitas, dos Coelhos,

dos Pizarros, todos ascendentes d’esta nobilissima familia. Ouviu-me em

silencio. E quando eu esperava que dos olhos lhe rebentasse o pranto

da contricção, ouviu-se uma campainha, e elle, cortando-me o final do

discurso, disse: «padre Ambrosio, vamos jantar, que está na mesa.»

Escandalisei-me d’esta especie de mangação; e disse: «--Na casa do

impio não comerás nem beberás!»--São palavras da biblia santa. Peguei

na bengala e no chapéu para saír. Eis que elle me enrosca o braço no

pescoço, e diz: «Ha de jantar, que tenho que lhe dizer.» A resistencia

era impossivel, que o senhor Ricardo, desde menino, foi sempre despota.

E de mais a mais, eu estava a cair de debilidade, porque não tinha

comido ao almoço. Deixei-me levar. Eis que vejo a estrangeira sentada

á mesa! Vieram-me outra vez os suores. Fiquei sentado defronte d’ella.

Foi ella que me fez o prato, e me perguntou se eu queria mais. Comi

iguarias que nunca vi na minha vida! A sôpa não a pude levar. Tinha uns

pedacitos de animalculos, que lá chamam camarões. A maldita comia uns

bichos crus com sumo de limão!

--Credo! exclamou D. Sancha.

--Creio que se chamam ôstras!--continuou o padre, e teve logo de se

interromper, porque D. Simôa, engulhada com a descripção infanda dos

bichos crus, estava a luctar com o vomito.

Passado o incidente enjoativo da senhora, mediante um copinho de licor

de amendoa, padre Ambrosio continuou:

--Omitto a descripção dos outros horrores, que presenciei n’aquelle

jantar de canibaes. Eu apenas comi d’uma peça de carne assada, e de

um pato, ou coisa que o parecia. No fim do jantar, o senhor Ricardo

levou-me para o seu quarto, e perguntou-me por vossa excellencia.

--Por mim! disse Nicoláo.

--Sim, senhor. Quiz que eu lhe dissesse se vossa excellencia tinha

casado, ou estava para casar. Respondi-lhe que vossa excellencia andava

n’esses preparativos. Ora agora, o que eu não sei é porque elle deu

uma grande risada, quando lhe eu disse que as fidalgas tinham mandado

pedir ao senhor morgado que empregasse todos os meios para salvarem o

sobrinho das garras da franceza! Isso foi um rir, que não tinha fim.

Depois, quiz saber o que vossa excellencia tinha feito. Eu contei-lhe

a resposta que o senhor morgado dera ás excellentissimas senhoras suas

tias, e elle então disse umas palavras, que eu não me atrevo a repetir.

N’este momento entrou Beatriz á sala, e Nicoláo ergueu-se ao encontro

da senhora. Visivelmente queria elle rematar alli a exposição do padre;

mas o narrador repetiu ainda:

--Palavras, que eu não me atrevo a repetir.

--Vinde cá, sobrinho, ouvide isto...--disse D. Sancha.

--Dispenso saber o que Ricardo disse, atalhou precipitadamente Nicoláo.

Em summa, o que eu infiro da narrativa do senhor padre Ambrosio é que

meu primo Ricardo resistiu á sua eloquencia.

--Mas que rasão, tornou o clerigo, teria elle para dizer que vossa

senhoria é um... não ouso dizer.

--Pois digo eu, ajuntou D. Simôa. O que elle disse foi que o nosso

sobrinho Nicoláo era um infame... Vêde vós!

--E que havia de pagar dente por dente, e olho por olho...--ajuntou o

capellão.

--Basta! interrompeu o morgado com desabrimento. Eu despreso o que esse

miseravel disse!

--Mas que mal lhe fizeste tu a elle, primo? perguntou Beatriz.

--Nenhum, minha querida. Que mal poderia eu fazer-lhe?! Agastaram-n’o

contra mim as expressões que escrevi a minhas tias com referencia

ao desatino d’elle. Bem! prohibo que em minha casa se deprima ou

se louve o homem que me insulta. Préso muito vossas excellencias,

minhas senhoras, mas não sei que lhes faça, nem ha que fazer contra

os desvarios de seu sobrinho. Quando elle voltar, eu irei pedir-lhe

explicações do epitheto com que me brindou. No entanto, peço que me não

perturbem a felicidade que devo a este anjo.

E, dizendo, aconchegou do seio Beatriz, e ella, encostando o ouvido ao

seio esquerdo, disse admirada:

--Com que força o teu coração palpita, primo!

O esqueleto: Romance · 第 22 / 62 题