Na deducção dos resultados referidos, consideramos que de Guajaramirim,

termo superior da estrada das Cachoeiras, sómente partissem duas linhas

de vapores, uma para Vinchuta e outra para o porto da cidade de Santa

Cruz; deixando de tratar da via fluvial do Beni e do Guaporé ou Itenez,

das quaes, sobretudo a primeira, já contém elementos de commercio mui

dignos de serem attendidos.

É que a navegabilidade do Beni para barcos a vapor é ainda problematica

e o uso de tal motor foi condição primordial dos fretes que hemos

applicado.

Entretanto cumpre observar, que a empreza da communicação do Madeira não

póde prescindir do importante contingente, que devem trazer-lhe os

paizes ribeirinhos do Beni; e estes de sua parte têm por ahi o seu

caminho directo, que deve succeder ao retrogrado, hoje praticado,

transpondo enormes distancias através de duas cordilheiras.

A fertil provincia de Campolican possúe rios que desaguão no Beni. O

Taichi, um dos tributarios deste, cruza quasi pelo meio o rico districto

de Apolobamba. Dous outros, o Guanay e o Mapiri, que o sabio Haenke

affirma haver navegado com seguridade, regão os plainos orientaes de

Larecaja; e o Coroico e o Yrupama percorrem a fecundissima provincia de

Yungas e outros districtos do departamento de La Paz, indo buscar aguas

de sua propria capital.

É destas comarcas do valle do Beni que se exporta a preciosa quina ou

_cascarilla_ de que se extrahe a _quinina_, e cujo commercio entra na somma

da exportação da Bolivia como uma das parcellas de mais vulto. Nellas

tambem o cacáu, o café, o fumo, a canna de assucar e todos os fructos da

zona torrida se crião das qualidades mais apreciadas.

Se não fôr possivel que sejão navios a vapor os que um dia conduzão taes

productos até ás aguas do Madeira e em retorno introduzão no paiz as

mercadorias estrangeiras, cumpre acoroçoar e regularisar no Beni o

trafego de canoas e botes, que já existe, quando não seja desobstruindo

o rio e abrindo canaes lateraes, ao menos facilitando o transito dos

rapidos e das cachoeiras por meio de caminhos marginaes, que sirvão para

puxar as embarcações a sirga e mesmo para transportar por terra as

cargas, caso isto seja indispensavel. Com estas e outras medidas

semelhantes, será possivel diminuir em muito os riscos e embaraços que

estorvão a navegação do Beni, dos quaes os de mais valor, consta,

achão-se perto de sua foz, em tal situação que parecem ser formados pela

intersecção com o curso do rio das mesmas jazidas de rochas, que

produzem as cinco cachoeiras do Mamoré, logo antes de confluir com o

mesmo Beni. No caso porém de ser demasiado trabalhoso o transito deste

rio em sua parte inferior, ha como evital-o por meio de alguns

affluentes do Mamoré. São principalmente o Yacuma e o Yrnyane, dos ques

o primeiro é praticavel desde sua embocadura ate o povo de Santa

Cruz, situado a 12 leguas de Reyes, missão que demora á beira do Beni.

A via do Yacuma póde, pois, supprir a navegação do Beni até Reyes, e, se

tornar-se frequentada, é de esperar que no futuro, para salvar as 12

leguas de trajecto terrestre deste povo ao de Santa Cruz, se abra um

canal artificial, a cuja escavação o terreno intermedio deve prestar-se

optimamente, si fôr chato como é em geral toda a zona entre o Beni e o

Mamoré.

Além do commercio, alimentado pela região quente das planicies, que se

estendem nas fraldas e a leste da cordilheira em longas distancias, o

Beni, como já notamos anteriormente, deve ser o meio de transporte para

o curso do Madeira do commercio que póde entreter a cidade de La Paz,

assim como toda a porção da altiplanicie circumvizinha, fertilisada

pelas aguas que confluem a formar o mesmo rio. Para que isto aconteça, a

condição necessaria é que se estabeleça nelle uma navegação desimpedida;

o que feito, a primeira cidade da Bolivia, em população e em commercio,

ficará no caso de commerciar pela via do Amazonas, provavelmente com

mais economia do que pelo porto de Arica, participando assim dos

beneficios que suas irmães, Cochabamba e Sucre, hão de auferir

infallivelmente, logo que se verifique a desejada reversão da corrente

dos negocios do Occidente para o Oriente, abandonando as aridas e

inhospitas costas do Pacifico pelas fecundas e formosas margens dos

tributarios do Madeira.

A navegação do Guaporé ou Itenez póde tambem contribuir com um bom

cabedal de permutas para a circulação da via do Madeira; pois aproveita

ás provincias bolivianas de Chiquitos e Guarayos e tambem ás terras da

bacia do alto Madeira, pertencentes ao Imperio do Brasil. Barcos a vapor

subindo o proprio Guaporé podem chegar nas cheias até á cidade de Matto

Grosso, e pelos afluentes d'elle da margem meridional, o Magdalena ou

Itonama com seus braços o Machupo e o S. Miguel, o Baures ou rio Blanco

e outros, penetrar até muitas missões Bolivianas, que demorão ás margens

e nas proximidades destes rios. Assim a navegação a vapor poderá

expandir-se até mui longe em differentes direcções na bacia do Guaporé,

em cujo solo uberrimo sobejão artigos de permuta, quer nos fructos

silvestres, quer nos que o homem póde conseguir da cultura da terra, da

criação de gados e da mineração.

Em summa, a investigação economica dos fretes alargando

consideravelmente o perimetro da região, que em consequencia do

escoamento das aguas é physicamente tributaria do Madeira, leva a

comprehender nella a maior parte da Bolivia; que entrará em communicação

com a grande arteria do mesmo rio por 4 grandes canaes do modo que se

segue: 1.^o O do Beni, que será o conducto do commercio das provincias de

Caupolican, Apolobamba, Larecaja, Yungas e todos os paizes de sua vasta

bacia, incluindo até a propria cidade de La Paz e por via della grande

parte da altiplanicie do Lago Titicaca.

2.^o O canal do Mamoré, continuado pelo Chaparé, por onde o vapor irá até

o porto de Vinchuta, destinado a ser o entreposto da industriosa cidade

de Cochabamba e por meio della do centro da Bolivia até á cidade de

Oruro e quiçá todo o seu departamento.

3.^o A linha do Mamoré e seu prolongamento, o Sara, Guapay ou Rio Grande,

que vai servir á cidade de Santa Cruz de la Sierra com todo o paiz de

seus contornos e d'ahi tambem a Sucre, d'onde ha possibilidade de

estender-se o commercio da via do Madeira a todo o sul da Bolivia,

inclusive as cidades de Potosi e Tarija e seus departamentos.

No seu trajecto esta linha servirá, assim como a precedente, á Trinidad,

capital do Beni, e ás outras povoações que se achão na ribeira ou a

pouca distancia do rio Mamoré.

4.^o Emfim o canal do Guaporé ou Itenez, que é a sahida natural de uma

grande parte da provincia brasileira de Matto Grosso, e das Bolivianas

de Chiquitos e Guarayos, as quaes para communicar-se com o rio Guaporé

têm excellentes linhas navegaveis no Itonama ou Magdalena e seus braços,

o S. Miguel e o Machupo, no Baures ou rio Branco, no Serre e no rio

Verde.

V.

Esboço do projecto de melhoramento da via do Madeira.--Plankroad ou

madeirocarril das cachoeiras.--Sua construção e seu custo.--Ensaio

da navegação a vapor.--Primeiras linhas a estabelecer.--Orçamento da

despeza respectiva.--Importancia total do capital da empreza.

Do que tem sido mais de uma vez expendido no correr deste trabalho, se

deprehende que consiste em duas obras distinctas o que ha a fazer

para estabelecer na linha do Madeira um systema de meios de transporte,

regular e economico:

1.^o Abrir uma via terrestre para dispensar a navegação trabalhosa das

cachoeiras, que separão o alto do baixo Madeira.

2.^o Crear carreiras de vapores na arteria mãi do alto Madeira, isto é,

no rio Mamoré e tambem em alguns de seus affluentes, as quaes entrarão

em correspondencia pela estrada com a linha que em breve deve funccionar

ligando os portos do Amazonas e o Atlantico a Santo Antonio, ao pé da

primeira cachoeira.

Ficou manifesto que n'um futuro mais ou menos afastado o commercio da

communicação de que se trata, chegará ás proporções mais elevadas; mas

forçoso é confessar que será modesto em seu principio.

A empreza projectada vai descerrar as portas de um paiz dotado de uma

natureza prodiga e já em parte povoado, contendo por conseguinte em si

todos os elementos essenciaes para produzir e consumir em grande escala.

Mas a corrente de suas transações com os outros paizes ou não se acha

estabelecida, ou, onde já existe, se escôa em direcção diversa de

communicação que nos cccupa. Ha, pois, de um lado tudo por crear, do

outro que alterar um antigo estado de cousas, contrariando habitos

inveterados, interesses individuaes arraigados, a que se juntará o

espirito de rotina, que não deixa de despertar-se sempre que se trata de

fazer opposição a qualquer reforma por mais vantajosa que ella seja.

Infallivelmente travar-se-ha a luta do costume entre as novas e as

antigas vias; e em quanto a luz irrecusavel dos factos não esclarecer

aos mais obstinados e não revelar que, se a innovação é prejudicial a

alguns, redunda em proveito do maior numero, emquanto de outra parte, as

fontes de producção não se fundarem e começarem a dar fructos

abundantes, correrá algum tempo antes que a circulação da via do Madeira

attinja a grandeza correspondente á extensão, á fecundidade e ao numero

de habitantes do territorio, de cujo commercio é a sahida natural e a

mais conveniente.

Portanto, no projecto dos melhoramentos, que nella ha que introduzir,

convem não perder de vista, que não se trata de uma communicação de um

trafego existente em altas proporções, mas sómente de um caminho, que se

póde chamar de exploração, pois que é destinado a ser o proprio creador

e promotor da industria e do commercio que ha de sustental-o em

seus primeiros annos e depois pouco a pouco fornecer recursos para

aperfeiçoal-o successivamente, satisfazendo sempre ás exigencias da

frequentação crescente que delle se utilise.

Assim é que o desvio das cachoeiras do Madeira não póde ser de principio

um meio de viação perfeito, senão uma estrada das mais simples, cujo

custo de estabelecimento possa achar compensação lucrativa nos fretes do

limitado trafego, que nos primeiros tempos della se aproveite; e de sua

parte a navegação a vapor do alto Madeira, cingindo-se ás mesmas idéas,

não deve passar de um modesto ensaio.

Entre os systemas de vias terrestres baratas, o mais facil e commum é o

que só dá lugar ao transporte com animaes de carga. Tal systema, em sua

singeleza primitiva, póde não passar de uma estreita vereda mais ou

menos seguindo um rumo certo, de que não se desvia nem por causa de

subidas e descidas ingremes, nem por outros impecilhos naturaes, senão

quando são inteiramente inaccessiveis ao pé seguro da mula ou dos outros

animaes, que habitualmente carregão sobre o dorso.

Sem duvida esta especie de caminhos realisa a extrema barateza, mas em

contraste é tambem do mais insignificante effeito util, quanto ao

trabalho que nelles fazem os motores empregados, comparativamente a

outras vias de transporte menos imperfeitas.

É sabido, com effeito, que o producto do trabalho dos animaes, quando

carregados sobre o dorso, é muito inferior ao de sua força de tracção,

aproveitada em conduzir pesos por meio de vehiculos de rodas, cuja acção

mecanica occasiona a multiplicação da potencia motriz diminuindo

proporcionalmente as resistencias passivas, que se oppoem ao movimento.

Destas resistencias a mais importante é o attrito entre o contorno das

rodas e a superficie do solo, attrito cuja intensidade depende

principalmente do gráo de solidez e de lisura do material sobre que as

rodas girão.

De taes principios, baseados nas leis physicas e confirmados pela

experiencia, procede a superioridade consideravel das estradas de

rodagem sobre os caminhos de cargueiros, e, confrontados entre si os

diversos systemas daquellas, a superioridade das de leito empedrado

sobre as que o tem do terreno natural, a dos madeiro-carris ou

_plankroads_ sobre as empedradas e a excellencia sobre todas as outras dos

carris de ferro ou _railways_.

Se, pois, no projecto da linha do Madeira se pretender, como de razão,

poupar força motriz, e com isto realisar economia e presteza nos

transportes, cumpre prescindir de adoptar ahi um caminho de cargueiros,

preferindo-lhe uma estrada propria para vehiculos de rodas.

E, como, convem reduzir quanto possivel o capital necessario para sua

construcção, a escolha d'entre os differentes systemas de taes estradas

deve fixar-se na que concilie melhor, no caso presente, os requisitos de

viabilidade e barateza.

A estrada das cachoeiras do Madeira, provavelmente virá a ser um

ferro-carril, com o decorrer dos annos, quando já esteja desenvolvido na

grandeza a que póde attingir o commercio da dilatada bacia do Alto

Madeira.

Por ora, porém, o alto preço da fundação deste systema de viação exclue

sua applicação, não só no estado perfeito em que é adoptado á locomoção

a vapor, como mesmo no menos dispendioso em que só serve para a de

motores animaes.

Tambem não é admissivel o emprego das mais baratas d'entre todas as

estradas de carros, quaes as que têm o leito do proprio solo natural,

porque em uma região chuvosa e humida, como é em geral o valle do

Amazonas, ellas serião quasi sempre intransitaveis.

Resta a escolher entre as estradas empedradas e os madeiro-carris.

Partindo de que seja uma companhia que construa e explore a estrada do

Madeira, o monopolio do transito é condição implicita de sua concessão.

Por conseguinte, o movimento do transito póde ser submettido a uma certa

organisação methodica, fazendo-o por combois de carros, que como os

trens das vias ferreas partão a horas fixas, caminhem com uma velocidade

conhecida e se cruzem com os vindos em sentido opposto em lugares de

antemão determinados.

Isto permitte realizar uma economia importante na construcção de

qualquer systema de estrada com fazel-a em quasi toda sua extensão

sómente com a largura indispensavel para a passagem de um vehiculo,

dispondo de distancia em distancia logares com dupla largura, para o

cruzamento dos carros, precisamente como sóe ser nos ferro-carris a

vapor de uma só via; com a differença porém de que empregando-se motores

animaes as collisões são isentas de perigos e por conseguinte o

telegrapho electrico, que nos ferro-carris, é destinado a

prevenil-as, deixa de ser um acessorio imprescindivel.

Dado pois que o leito da estrada das cachoeiras só tenha a largura

necessaria ao transito de um carro, a qual póde não exceder de 3 metros,

a consideração das circumstancias peculiares do terreno que tem de

percorrer e da facilidade de tracção ou viabilidade nos induz a preferir

para sua consolidação uma superstructura de madeira em vez de um

empedramento.

É que nos parece que o traçado da estrada em questão terá de se

desenrolar, parte nos terrenos de alluvião que constituem as immensas

planuras do valle do Amazonas, parte nas fraldas e encostas da cadeia de

montanhas, cujo encontro com o curso do Madeira dá lugar ás cachoeiras

deste rio e que deve ser um prolongamento da serra dos Parecis, onde

consta ser o grèz vermelho a rocha dominante. A ser assim, é de crer que

em grande extensão da linha a pedra seja escassa e até possa faltar, e

na parte em que abunde seja de uma qualidade pouco adequada á

construcção de empedramentos solidos. Entretanto que as grandiosas

florestas, que cobrem o o mesmo terreno, offerecem uma provisão

inesgotavel de madeiras rijas e duradouras, que as mais das vezes nem

será preciso cortar de proposito, mas apenas escolher as mais

convenientes das derrubadas feitas para desassombrar o caminho.

Com troncos falquejados n'uma face compor-se-hão os dous carris

parallelos, sobre que as rodas dos carros devem assentar e que para mais

firmeza serão apoiados em madeiros transversaes enterrados. O intervallo

entre os carris, onde hão de caminhar os animaes no trabalho da tracção,

será consolidado ou tambem com madeira ou com materiaes pedregosos, onde

estes se encontrem mais a mão.

O _plankroad_, executado sob estas prescripções, além de ter a seu favor

mais probabilidades de construcção facil e barata do que a estrada

empedrada, apresenta ainda a vantagem essencial de oppor menos

resistencia á tracção, sendo por conseguinte mais viavel do que ella. Na

verdade, a experiencia tem provado que, ao passo que n'uma via

macadamisada horizontal um cavallo de força média não puxa nos carros

usuaes mais de 2.100 kilogrammas, ou cerca de 175 arrobas de 25 libras,

n'um madeiro carril tambem de nivel, transporta até 4.900 kilogrammas ou

perte de 400 arrobas, sendo que nas declividades sempre se dá vantagem

para esta especie de caminho, embora com menos differença.

Os algarismos adduzidos servem igualmente para dar a medida da grande

superioridade das vias de rodagem a que elles se referem, sobre as que

só prestão para animaes de carga, quando em confrontação se considera

que um cargueiro conduz ordinariamente 10 arrobas, 250 libras ou cerca

de 120 kilogrammas, isto é, menos de 1/18 de peso que o mesmo animal é

capaz de transportar em carro sobre estrada empedrada e 1/40 do que póde

fazel-o sobre carris de madeira, sendo em ambos os casos o terreno

horizontal. Subindo planos inclinados, as ditas relações tornão-se menos

avultadas, porém até os declives de 3 e 5% ainda denotão que é muito

mais vantajoso utilizar os animaes pela força de tracção do que

carregando-os sobre o dorso.

Contra os madeiro-carris não ha que objectar senão a pouca duração do

material de sua structura superficial, sujeito a deteriorar-se

promptamente nas condições em que permanece, exposto á acção simultanea

do calor atmospherico e da humidade perenne do solo. Este inconveniente,

que tambem assiste ás estradas de ferro, onde na generalidade se

empregão dormentes de madeira, não obstante aggravar consideravelmente

as despezas de conservação, decresce de importancia na estrada de que se

trata, porque as madeiras ahi são abundantissimas. Demais ha todo o

fundamento para presagiar que o madeiro-carril será um systema

provisorio, a que succederá um ferro-carril de _sangue_ ou quiçá de vapor

depois de um curto periodo, logo que tenhão fructificado os germens de

industria e civilisação que a abertura definitiva da communicação do

Madeira vai derramar no solo fecundo das provincias da Bolivia e do

Brasil, situadas no valle superior do mesmo rio. E com taes vistas é

mais uma razão para antepôr o madeiro-carril ás simples estradas de

rodagem o elle assemelhar-se na fórma e no serviço ás vias ferreas, cujo

percursor tem de ser, esboçando no terreno o traçado e nivelamento, que

posteriormente só carecerão de aperfeiçoamento nas curvas e nos declives

para receber os _rails_ e dar passo á veloz locomotiva.

Admittido, pois, que a estrada das cachoeiras seja um madeiro carril de

tosca superstrutura, composto como acima foi descripto; suppondo demais

que elle se amolde ás sinuosidades do terreno, quanto seja compativel

com uma tracção regular, adopte pontes e obras de arte, da construcção

mais singela e economica, e emfim cinja-se em todas as suas partes

ás condições menos dispendiosas; porque preço poderá ser construido?

Impossivel é resolver esta questão com exactidão, quando não ha, como

acontece no caso actual, conhecimento completo do terreno, que a linha

tem de percorrer, sendo no emtanto indispensavel para organisar um

orçamento regular de qualquer via estudos previos e minuciosos de seu

traçado e de seu nivellamento longitudinal e transversal. Na falta total

de taes dados, só nos resta o recurso de aventurar uma estimativa

provavel fundando-a no preço médio, que commummente poderá custar um

madeiro-carril em circunstancias naturaes, parecidas ás que attiribuimos

á da linha das cachoeiras, onde não suppozemos que o terreno seja de

todo facil nem tambem que se encontrem obstaculos de grande vulto e em

extremo custosos de vencer.

Nesta conformidade, apoiando-nos na autoridade de engenheiros

competentes e em alguma pratica que temos de obras semelhantes, nos

abalançamos a orçar o preço geral do madeiro-carril das cachoeiras em 20

contos do réis ou 10.000 pesos por cada legua (de 5.555 metros);

importancia que não excederia uma via da mesma especie, através de

florestas, em qualquer parte do Brasil, com o preço dos salarios e dos

materiaes, mais commum no paiz e num terreno da natureza antes

difficultosa do que facil.

Adoptada esta estimativa, as 60 leguas de estrada do Madeira importaráõ

em 1.200 contos de réis ou 60.000 pesos. A este custo, que é o da via

unicamente, ha que aggregar o do material, carros e animaes, o das

estações terminaes com seus armazens de deposito, o das intermedias para

pousadas e casas de posta com os campos e culturas necessarias, e o de

outros accessorios mais, que a communicação exigir. Dando que nisto se

dispenda até 300 contos ou 150.000 pesos, chega-se ao total de 1.500

contos ou 750.000 pesos para a importancia do estabelecimento completo

da estrada em questão.

Falta computar o capital preciso para simultaneamente com a abertura

desta estrada introduzir a navegação a vapor no tronco e nos ramaes do

Mamoré.

Quando se reflecte no processo a seguir na execução da estrada, apparece

o mais conveniente acommetter os trabalhos della a um tempo pelos dous

extremos, por Santo Antonio no baixo Madeira e por Guajaramirim no

Mamoré.

Daquelle lado se receberião para a obra operarios, instrumentos de

trabalho e meios de manutenção de Crato e de Borba no baixo

Madeira, dos portos do Amazonas e até do Pará, aproveitando para isto a

communicação já contractada e que em breve estará funccionando até o pé

da primeira cachoeira. Mas para manter relações promptas e regulares de

Guajaramirim com Trinidad, Exaltacion, Santa Cruz e as demais povoações

da Bolivia Oriental, donde é possivel tirar a maior cópia de recursos,

conviria lançar um ou dous vapores nas aguas dos rios que a ellas

conduzem.

Bastarião para este fim simples lanchas movidas por machinas locomoveis,

com capacidade de rebocar canôas, pranchas e barcas chatas de lotação

moderada.

O casco destas lanchas, se de necessidade devem ser de ferro, poderia

ser transportado através das cachoeiras em secções de pouco peso,

juntamente com os orgãos componentes de suas machinas motrizes, da mesma

fórma por que até agora se levão as cargas que por ahi transitão. Talvez

tambem não fosse impossivel conduzir as mesmas lanchas inteiras, se suas

dimensões e seu peso não excedessem ás dos barcos que desde tempo remoto

sobem o Madeira até Matto Grosso, passando através das cachoeiras, cuja

lotação alcança a 2.000 arrobas de 32 libras, proximamente 30 toneladas

metricas. No caso porém, de não haver inconveniente de serem de madeira

as lanchas a vapor, em vez de transportar os cascos dellas a grande

custo, seria preferivel fabrical-as em Guajaramirim, reunindo ahi para

este fim carpinteiros, seja bolivianos de Santa Cruz ou de Mojos, seja

brasileiros levados do Amazonas com a primeira expedição destinada ao

serviço da estrada. Qualquer porém que seja o meio de obtel-as nas aguas

do alto Madeira, as lanchas de que nos occupamos serão as iniciadoras da

navegação a vapor neste rio e em seus tributarios, servindo a

transportar operarios, animaes e provisões para os trabalhos da estrada,

auxiliando desde logo ao commercio existente e predispondo as populações

ribeirinhas, instruindo-as pela experiencia pratica das vantagens dos

navios movidos a vapor, a se apromptarem a utilisar-se em escala maior

do beneficio completo da estrada e da navegação a vapor definitiva.

Esta não seria inaugurada senão depois de concluida a estrada das

cachoeiras, por onde serião levados sem estorvo os barcos adequados, ou

por partes assim como suas machinas, se é que elles devessem ser de

ferro, ou sómente estas, no caso de serem os cascos de madeira e estes

construidos em Guajaramirim, como acima propuzemos.

Apontamentos sobre a via de communicação do rio Madeira · 第 3 / 5 段