dous vapores; um destinado a cursar o Mamoré e o Chaparé, com escalas em
Exaltacion, Trinidad e Loreto, até o Porto de Vinchuta; outro a seguir
sempre o tronco principal do Mamoré o Sara e o Guapay, seus
prolongamentos, até o porto fronteiro á Santa Cruz de la Sierra. A estes
dous vapores se juntarião as duas lanchas já referidas, que servirião
para suppril-os e coadjuval-os nas respectivas carreiras e para entreter
uma communicação periodica pelo Guaporé acima, que chegaria pelo menos
até o forte do Principe da Beira, em qualquer estação do anno e na
enchente quiçá até á cidade de Matto Grosso, recolhendo no trajecto os
productos das missões de Chiquitos e Guarayos, que existem ás margens
dos tributarios meridionaes do dito Guaporé.
Com estes quatro barcos a vapor e mais o numero conveniente de barcaças,
canôas e embarcações proprias para andar a reboque, a companhia teria o
material sufficiente para ensaiar o seu primeiro trafego.
Este material, avaliado com largueza, não excederá de 300 contos ou
150.000 pesos, distribuidos como se segue:
Dous vapores de calado de menos de dous metros, machina de 50 a 80
cavallos, capazes de conduzir no casco ou a reboque de 150 a 200
toneladas, comprehendido o respectivo transporte até o porto superior
das cachoeiras 100.000 pesos.
Duas lanchas a vapor com os mesmos gastos de transporte 30.000 »
Embarcações diversas proprias para andarem a reboque, etc.,
etc 20.000 »
Somma 150.000 »
Sobre esta somma deverá a companhia ter á disposição mais uns cem contos
ou 50.000 pesos para construir pontes de embarque e desembarque, com
armazens, etc., nos pontos principaes, e crear factorias ou agencias de
deposito na embocadura do Beni e de alguns confluentes do Mamoré e do
Guaporé, em cujo curso haja povoados donde convenha facilitar as
transacções com o interior por meio dos vapores. Serião por conseguinte
400 contos de réis ou 200.000 pesos no todo, o capital preciso para
organisar as primeiras linhas de paquetes no alto Madeira.
Addicionando a mesma quantia á de 1.500 contos ou 750.000 pesos, importe
da estrada das cachoeiras, acha-se a somma de 1.900 contos ou
950.000 pesos; a que acrescentando mais 100 contos ou 50.000 pesos para
despezas geraes e imprevistas, deduz-se a final a cifra redonda de 2000
contos ou 1 milhão de pesos, como sendo capital necessario para levar a
effeito a communicação expedita pela via do Madeira; não, por certo, de
um modo perfeito, mas como convém que principie, nas proporções de um
ensaio dos mais modestos, porém em sua essencia adequado a
transformar-se progressivamente, aperfeiçoando-se na razão do incremento
que o trafego tiver.
Resta agora, partindo dos fretes admittidos em um dos capitulos
precedentes, deduzir-se a quantidade do trafego que deve circular
annualmente na via de que se trata, para que não só se consiga renda com
que cobrir as despezas do custeio, como tambem sobra capaz de compensar
os interesses do capital, no valor qne vimos de fixar-lhe.
VI.
Que circulação é necessaria para retribuir ao capital da
empreza--Deducção do trafego de que precisa a estrada das
cachoeiras.--O mesmo trafego é mais que sufficiente para sustentar a
navegação a vapor.--Probabilidades de que elle se verifique na linha
do Madeira.--Necessidade de auxilios á empreza por parte dos
governos interessados.--Em que podem consistir.--Solução a mais
simplificada do melhoramento da communicação do Madeira.--Conclusão.
Das duas obras, que tem de effectuar a empreza da communicação regular
do Madeira, a de mais monta e cujo valor é menos susceptivel de reducção
é a estrada das cachoeiras. Para ser viavel por carros, ella
difficilmente poderá ser mais barata do que foi avaliada, e a condição
de prestar-se ao transporte sobre rodas é imprescindivel para obter-se o
baixo preço dos transportes e para que a via possa aperfeiçoar-se para
diante sem mudar de direcção, mas sómente por modificações mais ou menos
profundas em seu estado primitivo.
A navegação a vapor, ao contrario, exigindo para seu estabelecimento
sómente um terço da importancia da estrada, sem haver tamanha
desigualdade entre os fretes respectivos, evidentemente poderá
sustentar-se e até auferir lucro de um trafego menos avultado do que o
que aquella necessita para os mesmos effeitos. E quando tal não
acontecesse, a empreza da navegação, não tendo como a da estrada a
necessidade forçosa de construir e conservar uma via apropriada a seu
serviço, pois que aproveita a natural dos rios, gosa da faculdade de
proporcionar até certo ponto seus gastos á grandeza do trafego,
reduzindo o numero dos seus vapores ao estrictamente preciso ou mesmo
estabelecendo que, em vez de serem as viagens mensaes ou em curtos
periodos, tenhão lugar sómente quando haja carregamento completo para os
barcos, n'um ou n'outro sentido.
É, pois, presumivel que o trafego, que bastar para cobrir o custeio e o
interesse do capital da estrada, em todo o caso chegará para as mesmas
despezas concernentes á navegação a vapor; asserto que se evidencia
melhor dos calculos em que vamos entrar, principiando por deduzir a
quantidade de mercadorias, que deve transitar na estrada das cachoeiras
para cobrir a despeza annual que lhe compete, e mostrando em seguida que
a mesma frequentação dá tambem rendimento sufficiente para equilibrar as
despezas das carreiras de vapores, organisadas no pé em que as
suppozemos.
A despeza annual de uma empreza qualquer de viação, em estado de serviço
normal, consta em geral de duas parcellas em que se podem incluir todos
os differentes desembolsos.
Uma é a do custeio, comprehendendo quaesquer quantias que se empreguem
na direcção e administração da empreza, na conservação e reparação da
via e do material de transporte, nos salarios do pessoal e em outros
fins semelhantes.
A outra parcella é a do serviço do capital, que consiste na importancia
de seu juro, á qual se junta ordinariamente uma quota, ou para fundo de
reserva, a fim de occorrer a futuras reformas ou melhoramentos na via ou
no material, ou para a amortisação progressiva do capital desde que se
decide começal-a. A esta parte deve satisfazer a renda liquida da
empreza, que não é senão a differença entre a renda bruta ou o
rendimento total dos transportes e as despezas do custeio.
Se, como é de crer, sendo uma companhia que tome a si estabelecer a
estrada e a navegação do Alto Madeira, attenta a escassez de capitaes e
ao pouco espirito emprehendedor que ha nos paizes mais interessados
nessas obras, ella se constituir com capitaes europeus, o juro de 7% ao
anno, póde ser considerado como bastante remunerativo.
Suppondo que alem deste interesse se destine annualmente 1% do capital,
seja para sua amortisação paulatina, seja para fundo de reserva, vem a
ser de 8% do mesmo capital a quantia a que deve montar a renda liquida
da empreza ou a sobra de sua renda bruta, feita a deducção das despezas
do custeio.
Quanto a estas despezas, para cada especie de caminho, evidentemente
varião com a quantidade do trafego; porém, tem-se observado que nas
emprezas de viação, administradas regular e economicamente, e onde a
circulação não é inferior nem excede á capacidade do systema de
transporte, dá-se uma certa relação entre o importe do custeio e a renda
bruta, a qual não varia notavelmente embora o trafego cresça ou decresça
dentro de certos limites.
Assim é que em todas as vias férreas, em estado de exploração normal,
cujo trafego é bastante avultado para tirar um partido proficuo da
locomoção a vapor, o importe do custeio oscilla nas immediações do valor
de 50% ou metade da renda bruta, sendo por conseguinte igual á renda
liquida que a outra metade representa.
Este dado nos servirá de fundamento para arbitrarmos um valor
approximado á despeza do custeio do madeiro carril das cachoeiras, onde
em razão de ser mais onerosa a conservação do que numa via férrea, assim
como a tracção de animaes relativamente á de locomotivas, é razoavel
suppor que o custeio absorverá, em vez de 50% ou metade, 66,6% ou 2/3 do
rendimento total do trafego.
Em tal hypothese, o terço restante será a quantia correspondente á renda
liquida, igual por conseguinte á metade do importe do custeio.
E, pois que a dita renda liquida equivale, como suppozemos, a 8% do
capital, e sendo elle no caso presente de 1.500 contos ou 750.000 pesos;
eis como se comporá a renda bruta annual:
Renda liquida, 8% do capital de 750.000 pesos $60.000
Despezas do custeio $120.000
Renda bruta $180.000
Ora, ficou dito que o frete de uma arroba de carga em todo o trajecto
das 60 leguas do madeiro-carril das cachoeiras pagaria 60 centavos ou
1$200, á razão de 20 réis ou um centavo por legua.
Como o trafego em geral cursará toda a linha, não levando em conta senão
o de mercadorias, facil é deduzir sua grandeza em arrobas dividindo a
importancia do rendimento total pelo preço do transporte da mesma
unidade de carga.
Deste modo acha-se que é necessaria a circulação de 300.000 arrobas de
mercadorias nos dous sentidos do trajecto, para que a empreza do
madeiro-carril em questão consiga manter-se com sua propria renda, dando
demais o lucro liquido de 8% do capital empregado em sua fundação.
Agora na condição de ser de 300.000 arrobas o trafego do desvio das
cachoeiras, é possivel averiguar por meio de uma estimativa aproximada
que é sufficiente a quantia de 120.000 pesos ou 240 contos de réis para
cobrir as despezas annuaes do custeio. Com effeito, a nosso ver, estas
despezas podem ser orçadas da fórma que se segue:
_Conservação da via._
Em 60 leguas á razão de 1.000 pesos ou 2 contos de réis por
legua 60.000
_Serviço dos transportes, etc._
100 jornaleiros, carroceiros, carregadores, serventes, etc., pagos
á razão do preço medio de 200 pesos ou 400$000 por anno 20.000
Conservação, reparo e renovação de todo o material, carros, estações,
etc., 10 por cento de seu valor orçado em 50.000 pesos 5.000
Sustento de 200 animaes á razão de 100 pesos por anno para
cada um 120.000
Remonta dos mesmos de 5 em 5 annos, 20 por cento de seu custo
avaliado em 10.000 pesos 2.000
Somma 107.000
Saldo para gastos de administração 13.000
Total 120.000
quantia que, portanto, satisfaz a todas as exigencias do custeio.
Cumpre em seguida ver como o mesmo trafego de 300.000 arrobas tambem
será lucrativo para a navegação a vapor.
Não levando em conta senão as duas carreiras principaes que propuzemos;
a 1.^a que, servindo a Exaltacion, Trinidad e Loreto termina em Vinchuta,
porto que será a sahida da cidade de Cochabamba e por ella do centro e
do norte da Bolivia; e a 2.^a, que fazendo escala tambem naquellas
povoações, se destina a conduzir o commercio da cidade de Santa Cruz de
la Sierra e por intermedio della o de Sucre, capital da republica, e a
de suas provincias meridionaes, supporemos que em cada uma das citadas
linhas haja movimento igual de negocios, e recordaremos que de
Guajaramirim, termo da estrada das cachoeiras, a Vinchuta o frete foi
avaliado em 25 cents. ou 500 rs. e que o daquelle porto ao do Rio
Grande, fronteiro a Santa Cruz, o foi em 45 cents. ou 900 rs.
O termo medio destes fretes sóbe a 35 cents. ou 700 rs., preço que na
hypothese que indicamos de haver trafego igual nas duas linhas,
representa o valor medio do frete da navegação a vapor.
Reduzil-o-hemos porem a 30 centavos ou 600 rs. attendendo que na
frequentação, quer da linha de Guajaramirim a Vinchuta, quer na que vae
a Santa Cruz, terá alguma parte o commercio de Trinidad, Loreto,
Exaltacion etc., cujos fretes rasoavelmente devem ser inferiores aos
citados, de cuja fusão resultou aquella media.
Sendo pois de 30 centavos ou 600 rs. o frete geral de cada arroba de
carga na navegação do alto Madeira, o trafego annual de 300.000 arrobas
vem a produzir a renda bruta de 90.000 pesos ou 180 contos de réis,
somma que facil é demonstrar, excede á necessaria para equilibrar o
custeio e deixar o lucro liquido de 8 por cento ao capital, applicado no
material da navegação e em todos os seus accessorios, que admittimos
fosse quando muito de 250.000 pesos ou 500 contos.
De facto, subtrahidos os 8 por cento desta somma, que montão a 20.000
pesos ou 40 contos, de 90.000 pesos ou 180 contos, total do rendimento
dos transportes, sobrão 70.000 pesos ou 140 contos para cubrir as
despezas do custeio.
Na supposição de que se faça uma viagem redonda por mez em cada uma das
linhas referidas, estimamos como segue os gastos respectivos:
1.^a Linha de Guajaramirim a Vinchuta.
Distancia 500 milhas. Subida em 72 horas.
Descida em 48. Viagem redonda 120 horas.
Despeza mensal de um vapor da força de 50 cavallos e porte de 150 a 200
toneladas:
Tripolação[23] $ 750
Combustivel[24] $ 300
Despezas diversas $ 200
Somma $ 1250
[23] Consideramos a tripulação de cada vapor composta como segue e
tendo os soldos designados;
1 mestre $ 100; 1 piloto $ 50; 1 machinista $ 150; 1 foguista $ 50;
16 homens de tripulação a $ 25 pesos por mez--$ 400. Somma $ 750;
como foi adoptado acima.
[24] A despeza de combustivel fui calculada sobre a base da media de
alguns dados relativos ao consumo de lenha dos vapores da companhia
do Amazonas. Deduzimos assim que uma machina de 50 cavallos
consumiria, na media, 125 achas por hora, cujo valor foi calculado
pelo preço commum no Amazonas, isto é $ 20 ou 40$000 rs. por
milheiro.
2.^a linha.--De Guajaramirim ao porto de Santa Cruz. Distancia 870
milhas. Subida 130 horas. Descida 90. Viagem redonda 220 horas.
Despeza mensal para um vapor nas condições precitadas:
Tripolação $ 750
Combustivel $ 550
Despezas diversas $ 200
Somma $ 1.500
Logo nas 12 viagens redondas do anno se despenderia:
Na 1.^a linha $ 15.000
Na 2.^a » $ 18.000
Total $ 33.000
Confrontada esta somma com a de 70.000 pesos, que, como se vio acima,
fica disponivel para o custeio, deduz-se o excesso de 37.000 pesos por
anno, quantia mais que sufficiente para occorrer aos gastos do serviço
das lanchas a vapor e das embarcações menores, conservação e renovação
do material, manutenção dos armazens e agencias e a todos os mais
desembolsos concernentes á navegação.
Em summa, em resultado do que fica exposto, se deprehende que a empreza
da estrada das cachoeiras e da navegação do alto Madeira poderia
subsistir por si só e realizar um beneficio razoavel se pudesse contar
annualmente com um trafego effectivo de 300.000 arrobas, tanto de
exportação como de importação.
Probabilidades bem fundadas existem de que o commercio desta
communicação attinja de principio a esta quantidade e depois progrida
cada dia consideravelmente, quanto permittão a producção e o consumo
crescentes dos numerosos habitantes da Bolivia e do Brasil, que nella
vão achar um conducto livre de embaraços para fomentar as relações com o
exterior de que até hoje têm estado privados.
Na parte terceira destes apontamentos apreciamos o valor que um tal
commercio alcançaria, a julgar pelo que hoje faz a Bolivia inteira pelos
portos do Pacifico, e comparativamente ao actual da provincia peruana de
Loreto, situada em circumstancias muito parecidas ás das provincias
bolivianas da bacia do Madeira. Então vimos que, a julgar pela população
dos departamentos de Santa Cruz e do Beni unicamente, sem tratar da de
outros, que no todo ou em parte movida pela razão decisiva da economia
dos fretes, adoptará a via do Amazonas de preferencia a qualquer outra,
população aquella que é quadrupla da da provincia de Loreto, o commercio
dos mesmos dous departamentos poderia adquirir em curto prazo o valor de
360.000 pesos ou 720 contos de réis, quatro vezes tambem o que era em
1855 o da provincia peruana, pouco depois de favorecida com a linha de
vapores da companhia do Amazonas.
Para avaliar o peso de mercadorias correspondente a este valor, não
possuimos mais do que um dado, que é porém digno de toda a confiança por
ser tambem referante ao commercio da Bolivia pela via do Madeira.
No anno de 1860, como já foi dito, a quantidade de 32.000 arrobas de
exportação e importação correspondeu a um valor de pouco mais de 32.000
pesos ou 64 contos, ou cêrca de 1 peso ou 2$000 por cada arroba.
A continuar, sendo este o preço medio dos artigos de commercio, a somma
de 360.000 pesos representará o valor de mais de 300.000 arrobas,
quantidade em que, segundo os calculos precedentes, foi orçado o trafego
capaz de compensar vantajosamente o estabelecimento e o custeio da
estrada e da navegação do alto Madeira.
Se ainda nos reportamos a outras apreciações, anteriormente apresentadas
sobre o desenvolvimento progressivo do commercio da Bolivia pela mesma
via, os resultados dos annos seguintes não deixão duvidar que a empreza
com o tempo prosperará enormemente. Em verdade, quando o valor de seu
trafego montar a mais de 1 milhão de pesos, como póde acontecer em
2 annos, ou a mais de 2 milhões, como póde ser em 10, conforme
conjecturamos somente sobre os dous departamentos de Santa Cruz e do
Beni, ainda por comparação com o progresso observado no commercio da
provincia de Loreto pelo Amazonas, então será infallivel que a
quantidade de mercadorias, correspondente aos ditos valores, não só
alcançará a 300.000 arrobas, como excederá de muito, por mais valiosos
que sejão os objectos de permuta.
E que proporções não tomará o trafego da via do Madeira, quando ella
tornar-se o caminho da exportação e importação da metade, pelo menos, da
população da Bolivia, não isolada do resto do mundo, pouco productiva e
menos consumidora, como hoje se acha, mas aproximada pelo vapor dos
grandes centros commerciaes do Atlantico, laboriosa pela certeza de
obter larga recompensa dos esforços que empregar na producção,
civilisada e industriosa pelo trato e pelo exemplo dos estrangeiros
activos e emprehendedores, que de toda a parte viráõ a explorar e
cultivar regiões quasi desconhecidas, que occultão immensos thesouros em
seu solo!!
Quando se recolhão em profusão os fructos das sementes ahi depositadas
desde o começo do novo estado de cousas, que a empreza do Madeira vai
crear, temos confiança que não bastará o tosco _plankroad_ primitivo nem o
reduzido numero de vapores, que propuzemos, para dar vasão ao commercio
que então existirá. Elle exigirá para seu escoamento um ferro-carril ou
um canal artificial de grandes dimensões, auxiliado com muitos vapores;
e tamanho engrandecimento de meios de viação se effectuará nessa
occasião na escala conveniente com plena segurança de que a circulação
produzirá renda sufficiente para remunerar com usura quaesquer
melhoramentos.
Para aquelles, que têm estudado os verdadeiros milagres operados pelas
vias de communicação, expeditas e baratas, em todos os paizes do mundo,
onde hão sido introduzidas, não póde haver temor algum de que a empreza
que advogamos careça de elementos para fundar-se, subsistir e prosperar.
Talvez em seus primeiros passos haja alguma cousa de incerto; porém sua
prosperidade no porvir é segura e infallivel como é o progresso dos
povos da Bolivia e do Brasil, quando sejão vivificados pela sciencia e
pela industria, que lhes hão de vir dos paizes mais adiantados através
dessa communicação, cujo projecto tentamos esboçar.
Os governos do Brasil e da Bolivia, directamente interessados nas
consequencias fecundas da empreza do Madeira, não devem poupar esforços
para fundal-a e promovel-a.
Talvez parecesse vantajoso que de accordo mutuo, ambos por si mesmo
abrissem a estrada das cachoeiras e lançassem os primeiros vapores nas
aguas do alto Madeira. A nós, porém, parece esta medida a menos
conveniente e efficaz, e que não deve ser adoptada senão no caso de se
frustarem todas as tentativas para organisar uma companhia particular
que se incumba de effectuar taes melhoramentos. Se está reconhecido
geralmente a inferioridade da administração de emprezas destas pelo
Estado, comparativamente á de associações particulares, nas condições
presentes apparece ainda menos contestavel este facto, attenta a
desmesurada distancia em que se acha o lugar da obra a emprehender dos
centros dos governos nella interessados.
A acção destes, em nossa opinião, não deve pois estender-se aos cuidados
do estabelecimento e do custeio dos meios de transporte projectados, mas
reduzir-se a facilitar e acoroçoar a creação da companhia, que disto se
encarregue, e depois a protegêl-a por todos os meios opportunos.
A semelhança de todas as emprezas, que têm de operar em paizes novos e
pouco conhecidos e carecem de fundar-se com capitaes angariados nos
mercados estrangeiros, a da estrada e navegação do alto Madeira, não
obstante seu futuro esperançoso, não póde prescindir de garantias
effectivas, capazes de inspirar confiança mesmo aos mais timoratos ou
incredulos.
A melhor fórma para conseguir tal effeito seria, a nosso ver, garantir
uma certa quota de juros annual, que désse um interesse razoavel aos
capitaes engajados na empreza, até um maximo de antemão fixado. Um tal
favor junto com o privilegio do transito na estrada e nos rios por um
largo prazo, concessões de terras com liberalidade, direito de
exploração de minas numa certa zona e outras concessões semelhantes, das
que sóem fazer-se ás emprezas de viação mais favorecidas, não deixarião
de actuar no sentido de alcançar a incorporação de uma companhia.
Em taes concessões os governos do Brasil e da Bolivia tomarião a parte
que naturalmente a cada um devesse competir; este promovendo sobre tudo
a navegação de seu systema fluvial, aquelle, com especialidade, a
abertura da estrada das cachoeiras, que toda deve estender-se em
territorio brasileiro. Mas si, contra nossa spectação, de todo não fosse
possivel constituir-se uma companhia para realizar na via do
Madeira os melhoramentos concebidos, seria como já indicamos, o caso de
tomarem a si a empreza os governos do Brasil e da Bolivia. Então não
aconselhariamos se pozesse em obra um projecto nas proporções do que
deixamos esboçado, mas outro muito mais simples e barato, porém capaz
todavia de attrahir e fomentar o trafego da vasta região do alto Madeira
para o Atlantico seguindo o curso de seus rios.
Com taes vistas, proporiamos que nas cachoeiras do Madeira, para tornar
menos difficultosa e demorada sua travessia, se fizessem algumas obras
de pouca monta a fim de desobstruir os canaes que quasi todas têm; que
se abrissem caminhos marginaes regulares nos passos mais trabalhosos
para facilitar o serviço da halagem a sirga dos barcos e mesmo para
servir ao transporte das cargas e até das proprias embarcações, quando
isto fosse de todo indispensavel, e que se fundassem de distancia em
distancia á beira do rio nucleos coloniaes, situados adequadamente no
intuito de protegerem a passagem das mesmas cachoeiras não só com
reforço de gente, como tambem com mantimentos e outros soccorros.
Caso porém não fossem efficazes expedientes semelhantes para
desembaraçar e abreviar de um modo sensivel a navegação das cachoeiras,
sobretudo na subida, e houvesse que recorrer necessariamente a um desvio
terrestre, então em vez de abril-o como uma estrada de carros, poderia
não passar-se de um simples trilho para animaes de carga, a cujos lados
se collocarião os estabelecimentos coloniaes, de que atraz fallamos, a
fim de ahi serem do mesmo prestimo que lhes destinamos na travessia das
cachoeiras.
Entretanto em qualquer alternativa, quer se tenha de levar a effeito a
empreza da utilisação da via do Madeira nestas reduzidas proporções ou
nas que anteriormente delineamos, ha que fazer um trabalho preliminar de
uma utilidade incontestavel, cuja execução recommendamos instantemente
aos governos do Brasil e da Bolivia para ser emprehendido sem detença.
Por parte do primeiro é proseguir nas explorações que por sua ordem
presentemente estão em actividade no curso do Madeira, applicando-as não
só á secção das cachoeiras, na idéa de desobstruil-as ou canalisal-as,
como tambem á linha terrestre que póde desvial-as; e além disto ao curso
superior do Mamoré, do Guaporé e dos affluentes destes rios que regão o
territorio brasileiro.
Ao governo da Bolivia compete mandar explorar scientificamente a
magnifica rede dos affluentes do alto Madeira, que banha suas ricas
provincias do oriente; a importante arteria do Beni com seus braços, a
do grande Mamoré no seu dilatado curso e em seus numerosos tributarios e
a de todos esses caudalosos rios, que desaguão no Guaporé ou Itenez pela
margem meridional e que consta offerecem navegação tão facil quanto
extensa.