grandeza do futuro commercio da região boliviana do Madeira, se bem
que não passem de meras conjecturas, comtudo merecem alguma confiança,
pois se baseão em dados irrecusaveis e dos mais competentes para
fornecerem apreciações aproximadas do que esse commercio poderá ser,
quando tornar-se uma realidade pratica a facilidade e a barateza dos
transportes do mesmo paiz para o Atlantico pela via do Madeira.
Tambem do territorio brasileiro, ainda que em muito menor escala do que
da Bolivia, procederão elementos para engrossar a circulação da mesma
via. Toda a região da margem direita do Mamoré e do Guaporé até ás
vertentes da serra dos Parecis e a da margem esquerda do ultimo rio
pertencente ao Imperio, para cima da foz do rio Verde, escondem em suas
virgens florestas riquezas vegetaes e mineraes, que não deixaráõ de ser
exploradas logo que houver meio regular de commercio dahi com os
mercados estrangeiros.
A população da provincia brasileira de Matto Grosso será no maximo de
100.000 habitantes, dos quaes talvez não passem de 20.000 os que existem
na região mencionada. Mas a riqueza aurifera e diamantina de seus
terrenos, que para ahi attrahio da beira do Oceano, através de
centenares de leguas de desertos e de mil perigos, os primeiros
povoadores portuguezes, quiçá volva a ser a causa de sua moderna
colonisação, levando os novos colonos para a exploração das minas a
sciencia e as machinas aperfeiçoadas com que a industria actual sabe
economisar o trabalho e multiplicar o rendimento. Seja, pois, de tal
origem ou antes da colheita dos productos silvestres ou dos da
agricultura, ha razões para prognosticar que o territorio do Brasil no
alto Madeira não deixará de contribuir com variados artigos de permuta
para augmentar a importancia do trafego da communicação de que nos
occupamos.
IV.
Até onde economicamente se póde estender na Bolivia o trafego pela
Via do Madeira.--Preços a adoptar na via de navegação a vapor e nas
secções de caminhos terrestres.--Frete de uma tonelada da Europa ás
principaes cidades da Bolivia pela via do Madeira.--Confrontação com
o frete de igual peso pelos portos do Pacifico.--Quadro synoptico
comparativo.--Conclusões.
O curso dos rios, considerado como a directriz de qualquer genero de
vias de communicação, marcou, como vimos, os limites naturaes da
região boliviana, que deve levar ao Amazonas o tributo de seu commercio,
como leva o das aguas que a fertilizão.
A economia dos fretes, motivo de influencia preponderante para dirigir a
corrente do trafego pelo caminho, que a produz em gráo mais alto, de
preferencia a qualquer outro, não só não restringe aquelles limites,
como ao contrario alarga-os consideravelmente, acrescentando novas
provincias á parte da Bolivia, que tem de ser tributaria da via do
Madeira.
É o que vamos evidenciar por um estudo comparativo dos preços dos fretes
por esta via, em relação aos que têm lugar pelas dos portos de Arica e
Cobija, os principaes que agora servem ás transacções da Bolivia com o
estrangeiro.
Neste intuito, começaremos por estabelecer os preços dos transportes,
que razoavelmente poderão ser adoptados na communicação fluvial e
terrestre do Madeira, valendo-nos para isto da experiencia adquirida na
navegação a vapor do Amazonas e na exploração de algumas estradas
regulares do Brasil.
Uma arroba de carga dos artigos de pouco valor paga do Pará a Manáos, na
subida do Amazonas 300 rs., 15 centavos,[18] sendo a distancia de 862
milhas ou 287 leguas. De Manáos a Tabatinga, que são 859 milhas ou 286
leguas, o frete augmenta-se com mais 270 rs. ou 13,5 cents. Emfim de
Tabatinga a Yurimaguas, no Huallaga, distancia de 709 milhas, 263,6
leguas, o transporte do mesmo peso custa 792 rs., quasi 40 centavos.
Deduz-se, portanto, á vista destes algarismos, que o frete entre o Pará
e Tabatinga regula em menos de 1 real ou 1/20 do centavo por legua e por
arroba e que entre Tabatinga e Yurimaguas no alto Amazonas e no seu
affluente o Hullaga, elle monta a mais de 1 real por milha, 3 réis ou
3/20 do centavo por legua[19].
[18] Devemos estes dados, como tantas outras informações,
aproveitadas neste escripto, á preciosa obra do Dr. Tavares
Bastos--O valle do Amazonas.
[19] A arroba portugueza, usual em todo o Brasil e a que se referem
os preços citados, é superior em peso á arroba hespanhola, usada na
Bolivia e em geral nas republicas da mesma origem.--Aquella tem 32
libras ao passo que esta só tem 25.--Quanto ás libras, portugueza e
hespanhola, a differença entre ellas é mui pequena, sendo a primeira
equivalente a 458,928 grammos e a segunda a 460 grammos--do systema
decimal francez.
A arroba, que para adiante adoptaremos nos calculos, será a
boliviana de 25 libras--; não levando porém em conta, na maioria dos
casos a differença entre ella e a brasileira, embora isto aggrave
notavelmente o preço dos fretes estabelecidos sob a base de dados
procedentes do Brasil.
As condições da navegação do Madeira até o pé da cachoeira de Santo
Antonio são semelhantes ás que existem do Pará a Tabatinga. Por
conseguinte é natural que os preços dos fretes nas duas linhas tenhão
valores analogos, proporcionalmente aos respectivos comprimentos. Ora,
sendo a distancia do Pará áquella cachoeira de 440 leguas mais ou menos,
a saber 270 no curso do Amazonas e cerca de 170 no do Madeira, tomaremos
o custo do transporte de uma arroba entre os dous pontos valendo 500
réis ou 25 cents., custo que evidentemente contém um excesso de 60 réis
ou 3 cents. sobre o preço proporcional á distancia na razão de 1 real
por arroba e por legua.
Atravessada a secção das cachoeiras pelo caminho terrestre, que suppomos
se construa para evitar o seu trajecto, chega-se a Guajarámirim, donde
deve começar a navegação a vapor nas aguas do alto Madeira.
Consideraremos que d'ahi os vapores se dirijão de um lado a Vinchuta,
ultimo porto do rio Chaparé, accessivel a grandes barcos, tocando em
Exaltacion, Loreto e Trinidad, e de outro lado, feitas as mesmas
escalas, prosigão pelo alveo principal do Mamoré e aportem em Bivosi,
Paylas ou melhor no porto a que possão chegar mais proximo da cidade de
Santa Cruz de la Sierra.
A primeira destas linhas tem o comprimento de 500 milhas, segundo a
opinião de Gibbon, e admitte até o ponto terminal vapores de 6 pés,
quasi 2 metros de calado. Suas condições a assemelhão á carreira dos
vapores peruanos, que funcciona entre Tabatinga e Yurimaguas, onde o
frete, como ficou dito, regula de 1 real ou 1/20 do centavo por milha e
por arroba. Admittindo-se este frete no trajecto de Guajaramirim a
Vinchuta, o transporte de uma arroba importará em 500 rs. ou 25 cents.
Na tinha de Guajaramirim á Santa Cruz a distancia é muito maior do que
na precedente. Os roteiros bolivianos attribuem-lhe 190 leguas ou 570
milhas, viajando sempre pelo tronco do Mamoré, tambem appellidado neste
intervallo Sará, Guapay e Rio Grande, sendo menor o trajecto pelo rio
Piray, seu affluente. Este, porém, por causa dos baixios e corredeiras,
que tem durante a secca, não é praticavel senão nas enchentes e só
até o porto de Cuatro Ojos, a 30 leguas a jusante de Santa Cruz;
emquanto que o rio Grande o é em todo o anno e por elle é possivel
aportar a uma distancia menor da mesma cidade, a qual avalião em cerca
de 10 leguas.
Dando, pois, que seja preferida a navegação do rio principal, acha-se o
comprimento total da linha de Guajaramirim a Santa Cruz, addicionando a
referida distancia de 190 leguas ou 570 milhas á de 300 milhas, que
tanto ha de Trindade a Guajaramirim. Deste modo obtêm-se 870 milhas para
a distancia que os vapores terão de percorrer desde a estação terminal
da estrada das cachoeiras até o porto do Guapay, fronteiro a Santa Cruz.
Por conseguinte, o transporte de uma arroba entre os dous portos sahirá
por 870 rs. ou melhor 900 rs., ou 45 centavos em cifra redonda, na
hypothese já feita de custar 1 real ou 1/20 do centavo por cada milha.
Quanto ao transporte no desvio das cachoeiras, adoptaremos o preço geral
de 1 centavo ou 20 rs. por legua e por arroba boliviana de 25 libras,
frete correspondente com pequena differença ao de 25 rs. por arroba de
32 libras, que é o maximo mais em voga nas tarifas das vias ferreas do
Brasil e um preço que nos parece modico e ao mesmo tempo remunerativo ás
emprezas de transporte, sobretudo quando este se effeitúa em vehiculos
de rodas por estradas regulares. Sendo de 60 leguas a extensão da mesma
linha, o transporte da arroba custará 1$200 ou 60 cents.
Addicionando as differentes parcellas supraditas, o transporte de uma
arroba entre o Pará e Vinchuta importará em 2$200 ou $1,10 a saber:
Do Pará a Santo Antonio 500 rs. $0,25
A Guajaramirim 1$200 0,60
A Vinchuta 500 0,25
Somma 2$200 $1,10
O mesmo transporte até o porto da cidade de Santa Cruz compôr-se-ha das
seguintes parcellas:
Do Pará a Guajaramirim (ut supra) 1$700 $0,85
De Guajaramirim ao porto de Santa Cruz 900 0,45
Somma 2$600 $1,30
A esta somma ha que ajuntar o valor do transporte terrestre na distancia
de 10 leguas, que, consta, separa a margem do Guapay da cidade de Santa
Cruz. Orçando em dez cents. ou 200 rs. por arroba, fórma-se em
definitiva o total de 2$800 ou $1,40 para o frete de uma arroba entre o
Pará e a mesma capital.
Calculando o frete da tonelada metrica de 1000 kilogrammas ou 80 arrobas
bolivianas proximamente, achão-se os seguintes preços:
Do Pará a Vinchuta 176$000 $88
Do Pará a Santa Cruz 224$000 $112
Vinchuta, no estado dos conhecimentos que possuimos sobre a
navegabilidade dos affluentes do alto Madeira, é o porto accessivel a
barcos de vapor, mais proximo da cidade de Cochabamba, capital do
departamento de igual nome, da qual apenas dista 35 leguas pouco mais ou
menos[20]. Esta capital, que conta 45.000 habitantes, dos mais
intelligentes, civilisados e emprehendedores da republica, situada no
centro de um paiz tão fertil e abundante nas producções da agricultura,
que mereceu o nome de--celleiro da Bolivia--reune muitas condições para
vir a ser o entreposto principal do commercio exterior do centro e do
norte da republica pela via do Madeira.
[20] Temos noticia das tentativas feitas para communicar Cochabamba
com a navegação do Mamoré por via do Securé e de seu tributario, o
Isiboro; tentativas em que d'Orbigny tomou parte em 1832, cuja
iniciativa Dalence attribue ao boliviano Tudela, e que em 1863 a
companhia Securé, organisada em Cochabamba, pretendeu levar a
effeito. Não estamos informados se esta companhia logrou abrir o
caminho projectado. Sabemos, porém, que seu comprimento era avaliado
de 40 a 45 leguas, superior por conseguinte ao que se dirige a
Vinchuta. Demais, sobre a navegabilidade a vapor do Isiboro e do
Securé faltão-nos informações autorisadas como as que Gibbon deu
sobre o Chaparé.
Presentemente convergem a Cochabamba caminhos, que a ligão a todas as
povoações da Bolivia, que d'ahi tirão os cereaes e outros productos de
que carecem: e já existe aberta e utilisada uma vereda que conduz da
mesma cidade a Vinchuta, descendo rapidamente as ingremes ladeiras da
Cordilheira Oriental, pois Cochabamba demora n'um valle elevado, a 2.478
metros sobre o nivel do mar (Dalence).
O melhoramento de tal vereda para tornal-a um caminho regular será uma
consequencia necessaria da abertura effectiva da linha do Madeira,
pois com toda a probabilidade ella tem de ser uma das grandes arterias,
por cujo conducto a altiplanicie dos Andes e os ricos valles de sua
ramificação oriental entraráõ em relação com as aguas que fluem para o
curso do Amazonas e por elle com o Atlantico.
Em 1851, quando Gibbon desceu de Cochabamba a Vinchuta, gastou 10 dias
na viagem (35 leguas), e pagou 8 pesos pela carga de cada mula,
ordinariamente de 10 arrobas de 25 libras; o que vem a dar em pouco mais
de 2 1/4 centavos ou 45 rs. por legua e por arroba e em 64 pesos ou
128$000 por tonelada metrica. Este preço exorbitante era devido á
inviabilidade do caminho, que consistia em uma tosca picada, estreita e
mal traçada, atravancada de arvores a cada passo e com declives
inadmissiveis. Beneficiada que seja esta senda de modo a dar passagem
franca a animaes de carga, os fretes entre Cochabamba e Vinchuta poderão
baixar ao preço medio de 20 rs. ou 1 centavo por legua e por arroba, e
talvez a muito menos, a julgar pelo que de ordinario custão as
conducções em outros caminhos da Bolivia, que tambem descem a encosta
oriental da Cordilheira, e que, não sendo tão máos como o de que se
trata, todavia longe estão de serem bons.
Assim, por exemplo, no de Sucre á Santa Cruz de la Sierra, cuja
differença de nivel entre os pontos terminaes é maior do que a de
Cochabamba para Vinchuta, na distancia de 127 leguas a carga de 10
arrobas não paga senão seis a sete pesos, o que vem a ser no caso mais
caro menos de 12 reis ou 0,6 do centavo por legua e por arroba, e por
tonelada em todo o trajecto 48 a 56 pesos[21]. Ainda n'um outro caminho,
que consta ser dos mais ruins e que desce a cordilheira de um dos
povoados mais elevados do seu plató superior[22], o frete é inferior a
um centavo ou 20 reis por legua e por arroba.
[21] Os preços dos fretes que transcrevemos, são colhidos de varios
documentos sobre a Bolivia, que temos revistado, e principalmente do
interessante opusculo de Favre,--Apuntes sobre la navegacion de los
rios de Bolivia.
[22] Taes são as altitudes em metros das principaes cidades da
Bolivia. La Paz 3705,2^m; Potosi 4416,5^m; Sucre 2787,3^m; Cochabamba
2478,0^m; Oruro 4819,0^m.
Referimo-nos ao caminho de Potosi a Tarija, onde se paga sete pesos por
10 arrobas na distancia de 80 leguas, regulando por conseguinte em menos
do 18 réis ou 8,9 cents. por legua e por arroba.
Os fretes para os portos do Pacifico, que depois apresentaremos, são em
geral muito mais caros do que os já citados, em razão, sobretudo, da
aridez e soledade da maior parte dos caminhos junto ás difficuldades dos
passos da cordilheira occidental que elles atravessão. Nos que cruzão a
cordilheira oriental, sobretudo no de Sucre a Santa Cruz, ao contrario,
a linha é quasi sempre povoada e cultivada, nunca faltando boas pousadas
com pasto e agua para os animaes; o que acontecerá tambem entre
Cochabamba e Vinchuta, logo que o respectivo caminho seja melhorado e
frequentado.
É pois justificavel, relativamente aos fretes costumados na Bolivia,
estabelecer neste caminho o preço de um centavo por legua e por arroba.
Nesta hypothese, a arroba de carga pagará entre Vinchuta e Cochabamba,
distancia avaliada em 35 leguas, 35 cents. ou 700 réis, e a tonelada $28
ou 56$000.
E do Pará a Cochabamba será o frete de uma arroba $1,45=2$900, e o de
uma tonelada $116,0=232$000.
Para obter o preço do transporte da Europa a Cochabamba ou vice-versa,
ha que ajuntar á estas sommas o frete ordinario do Pará para os portos
daquelle continente. Para Liverpool ou para o Havre elle commummente não
passa de 16$000 ou oito pesos por tonelada.
Por conseguinte, uma vez regularisada a communicação do Madeira, um tal
peso de mercadorias, pagará, em termo médio, entre os portos principaes
da Europa e Cochabamba, ou vice-versa, o frete de $124 ou 248$000.
Confrontemos agora este preço com o que actualmente custa igual
transporte pelos portos do Pacifico.
Por onde elle é menos dispendioso para Cochabamba é pela via de Arica e
de La Paz:
Da Europa a Arica o frete usual por tonelada é $21 42$000
De Arica a La Paz a carga de 10 arrobas paga entre 16 e 20 pesos ou na
média $18 sendo por tonelada $144 288$000
Somma da Europa a La Paz $165 330$000
De La Paz a Cochabamba, seguindo o frete normal de 1 cent. ou 20 rs.
por legua e arroba, importa na distancia de 80 leguas em 8 pesos por
carga; por tonelada $64 128$000
Frete total de uma tonelada da Europa a Cochabamba pela via de Arica e
La Paz $229 458$000
Idem pela do Pará e de Vinchuta $124 248$000
Differença $105 210$000
Haverá, portanto, a poupança desta avultada quantia na conducção de cada
tonelada, fazendo-se o commercio de Cochabamba com a Europa pela via do
Madeira.
Sucre, capital da Bolivia, demora a 65 leguas de Cochabamba e a 127 de
Santa Cruz; e por intermedio de qualquer destas cidades póde commerciar
com o Atlantico de preferencia á via usada hoje de Cobija.
Com effeito, a tonelada de mercadorias paga presentemente:
Da Europa a Cobija $21 42$000
De Cobija a Sucre, 187 leguas, paga-se de 24 a 40 pesos por carga de mula;
192 a 320 pesos por tonelada, em termo médio $256 512$000
Somma $277 554$000
Se Sucre supprir-se por intermedio de Santa Cruz, o frete da tonelada
compor-se-ha da seguinte fórma:
Da Europa a Santa Cruz $112 224$000
De Santa Cruz a Sucre paga-se agora de 6 a 7 pesos por carga ou por
tonelada 48 a 56, seja 56 112$000
Total $168 336$000
Frete pela via do Pacifico $277 554$000
Differença a favor da via do Amazonas $109 218$000
No caso de tomar-se o frete de 1 centavo por legua e por arroba entre
Santa Cruz e Sucre, vem a sahir o transporte de uma tonelada entre os
dous logares por $101,6 203$200
E de Europa a Sucre $213,6 427$200
Economisando todavia em cada tonelada sobre o frete actual por
Cobija $66,4 132$800
Finalmente, si se adoptar o caminho que passa por Vinchuta e Cochabamba,
o frete da tonelada será:
Da Europa a Cochabamba $124 248$000
De Cochabamba a Sucre, 65 leguas a razão de 1 centavo ou 20 rs. por
legua e por arroba, por tonelada $52 104$000
Somma $176 352$000
Frete por Cobija $277 554$000
Differença a favor da via do Amazonas $101 202$000
Destes algarismos evidencia-se que a capital da Bolivia auferirá
vantagens consideraveis commerciando com o exterior pela via do Madeira
de preferencia á costumada de Cobija, quer faça seu entreposto em Santa
Cruz de la Sierra, quer em Cochabamba, cidades estas que poderão
disputar entre si os beneficios de servil-a. O natural, porém, é que,
respeitando a corrente dos negocios já estabelecida, Santa Cruz com seu
porto no Guapay seja a primeira escala para o Atlantico do trafego de
Sucre, de seu departamento e tambem de toda a parte meridional da
Bolivia, ao passo que Cochabamba com o porto de Vinchuta sel-o-ha para o
centro e norte da republica.
Applicando calculos analogos ás capitaes dos outros departamentos,
chega-se aos resultados, que vão consignados no adjunto quadro synoptico
e que demonstrão com o argumento incontestavel dos algarismos toda a
amplidão, que é capaz de alcançar em virtude da economia dos fretes o
commercio da Bolivia por meio das aguas do Amazonas, quando o vapor
sulcando as vias navegaveis encurtar todas as distancias e uma estrada
de rodagem supprimir o transito difficultoso das cachoeiras do Madeira.
Quadro synoptico, comparativo dos fretes da Europa ás capitaes dos
departamentos da Bolivia, pela via do Pacifico e pela do Amazonas.
Frete de uma tonelada Differença.
Nomes Por Arica Pela + favoravel - favoravel
das ou por via do á via do á via do
capitaes. Cobija. Amazonas Pacifico. Amazonas
Trinidad. $268,20(1) $76,00 - $ 192,20
Santa Cruz. 333,00(2) 112,00(3) - 221,00
Cochabamba. 229,00(4) 124,00(5) - 105,00
Oruro. 243,40(6) 156,80(7) - 68,60
Sucre. 277,00(8) 168,00(9) - 109,00
Potosi. 223,40(10) 191,20(11) - 32,29
Tarija. 279,40(12) 244,80(13) - 34,60
La Paz. 165,00(14) 188,00(15) + 23,00
(1) Caminho de La Paz, Cochabamba, Vinchuta e d'ahi descendo os rios
Chaparé e Mamoré.
(2) Via de Cobija e Sucre com o modico preço d'ahi a Santa Cruz de 7
pesos por carga de 10 arrobas.
(3) Pela navegação dos rios até o porto do Rio Grande, a 10 leguas da
cidade de Santa Cruz.
(4) Via de Arica e La Paz.
(5) Navegação fluvial até Vinchuta. Caminho melhorado d'ahi a
Cochabamba, Frete de 1 centavo por legua e por arroba.
(6) Via de Arica e La Paz. Fretes actuaes.
(7) Por Vinchuta e Cochabamba. Frete por terra de 1 centavo por legua e
por arroba.
(8) Pelo porto de Cobija com os fretes usuaes.
(9) Via de Santa Cruz e porto fronteiro do rio Mamoré. Transporte de
Santa Cruz a Sucre a 7 pesos por 10 arrobas.
(10) Pelo porto de Cobija. Fretes costumados.
(11) Via de Santa Cruz e Sucre.
(12) Por Cobija e Potosi. Entre Potosi e Tarija 8 pesos por carga de 10
arrobas.
(13) Pelo caminho de Sucre a Tarija. Frete de 1 centavo por legua e por
arroba.
(14) Via de Arica.
(15) Via de Vinchuta e Cochabamba.
Os algarismos, confrontados no quadro precedente, patenteião que ha
vantagem economica de commerciar pela via do Madeira, para 7 dos 9
departamentos em que a Bolivia se acha dividida.
Os que restão, para que apparece preferivel a via do Pacifico, são: La
Paz pelo porto Peruano de Arica, e Cobija que pelo facto de ficar a
beira mar está fóra de questão.
Comtudo, posto que a via de Arica se avantaje á de Cochabamba e Vinchuta
para o trafego de La Paz com o exterior, fica ainda por decidir se o
mesmo acontecerá, dada a possibilidade de navegar-se o Beni e algum de
seus affluentes até o pé da Cordilheira.
Em tal caso, La Paz possuiria um porto fluvial com sahida para o
Atlantico em posição analoga á de Vinchuta relativamente a Cochabamba, e
não necessitando o seu commercio de fazer o longo rodeio por esta cidade
para chegar ao principio da navegação fluvial, provavelmente poderia
conseguir pelas aguas do Madeira fretes menos elevados do que os que ora
lhe faculta a via do Pacifico.
Entretanto, independente disto, para as provincias do departamento de La
Paz comprehendidas n'um circulo de 30 a 40 leguas traçado com o centro
em Cochabamba, o calculo dos fretes ainda leva a preferir o commercio
pela via do Madeira, passando por esta cidade, ao que se faz pelo
Pacifico; assim como para as provincias, situadas nas encostas e nos
plainos baixos a leste da Cordilheira, o caminho natural é o curso do
Beni.
Nestas e naquellas provincias certamente o departamento de La Paz contém
um terço de sua população total, que foi a parte que suppozemos
concorreria nelle para o trafego da linha do Madeira.
Portanto, pela consideração dos fretes não só subsistem a extensão e a
população, attribuidas em virtude da distribuição dos rios á região
boliviana, tributaria do futuro commercio do Madeira, como ellas se
augmentão consideravelmente apropriando-se das que pertencem ao
departamento de Oruro, á parte excluida do de Sucre e até aos de Potosi
e Tarija; apezar de que este ultimo já esteja nos valles do Pilcomayo e
do Vermejo, tributarios que são do Prata; e o de Potosi, tanto pela
vizinhança com o de Tarija, como tambem pelo escoamento de suas aguas,
pareça dever adoptar para permutar com o estrangeiro os canaes que
conduzem a esse grande rio.
Certamente assim deverá ser, quando a navegação do Pilcomayo e do
Vermejo for um facto consummado. Por emquanto, admittido que tal
navegação seja praticavel por vapor sem prévias obras d'arte, o que é
questionavel sobretudo quanto ao Pilcomayo, ella é uma empreza por crear
e effeituar como é a do lançamento do vapor no Mamoré e seus ramaes e a
construcção da estrada das cachoeiras do Madeira.
Parece, porém, fóra de duvida que este ultimo projecto conta mais do que
o outro com motivos capazes de fazel-o nascer e prosperar; pois na
Bolivia interessa directamente a um territorio muito mais vasto e a uma
população mais numerosa; e além disto tem a seu favor o concurso do
Brasil, a quem cabe fazer a parte da obra mais difficil, a estrada das
Cachoeiras, e que tem o maior empenho em ver expedita a communicação do
Madeira para desenvolver sua provincia de Matto Grosso e colher os
immensos beneficios, que podem provir do transito em seus portos do
Amazonas do valioso commercio da Bolivia. Se, pois, como tudo induz a
crer, a linha do Madeira for a primeira a receber os melhoramentos de
que carece, a lei efficiente dos fretes determina que por ella se
encaminhe o movimento de permuta com o exterior não só dos cinco
departamentos da propria bacia do Madeira, como tambem de quasi todas as
provincias da altiplanicie dos Andes e até mesmo das dos valles
tributarios da bacia do Prata. Assim não serão sómente, como suppozemos,
800.000 habitantes os que se utilisaráõ daquella via de communicação,
mas pouco menos da totalidade da população boliviana.
Vinchuta e o porto do Rio Grande, correspondente a Santa Cruz, passarão
a ser na navegação interior da republica o que hoje são Arica e Cobija
no litoral do Pacifico, um o emporio do commercio do norte da republica,
o outro o do sul; e as já importantes cidades de Cochabamba e Sucre,
collocadas a meia altura dos Andes e a beira de sua ramificação
oriental, prosperarão immensamente permutando no exterior os productos
de seu delicioso clima e sendo demais os entrepostos da exportação e
importação de todo o paiz circumvizinho.