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APONTAMENTOS
SOBRE A VIA DE COMUNICAÇÃO
DO
RIO MADEIRA
PELO
_Engenheiro Antonio Rebouças_
_
MEMORIA ESCRIPTA EM SANTIAGO DO CHILE EM 1868, E OFFERECIDA AO CONSELHEIRO
FELIPPE LOPES NETTO, ENTÃO MINISTRO PLENIPOTENCIARIO DO BRASIL NA BOLIVIA.
RIO DE JANEIRO.
TYPOGRAPHIA NACIONAL.
1870.
ADVERTENCIA.
Quando, em 1868, achando-me em Santiago do Chile, emprehendi os estudos
que derão em resultado a presente Memoria, tinha em vista requerer dos
governos do Brasil e da Bolivia o privilegio para a construcção e
custeio de uma estrada, transitavel a vehiculos de rodas, ligando a
navegação do baixo á do alto Madeira e para o trafego por meio de
vapores do Mamoré, e Guaporé e dos outros rios dessa região.
Esse intento, porém, frustou-se por causa de meu regresso ao Brasil em
Abril do mesmo anno e ter seguido logo, em meiados de Junho, para a
provincia do Paraná a dirigir a exploração de uma estrada de rodagem com
destino a Matto Grosso, commissão que tive a felicidade de concluir no
fim do anno passado.
Achava-me pois distrahido inteiramente de meus planos sobre a via de
communicação do rio Madeira, quando vi publicado o Decreto de 20 de
Abril do corrente anno, concedendo ao coronel George E. Church o
privilegio para uma ferro-via lateral ás cachoeiras e para a navegação a
vapor da parte superior daquelle rio.
Congratulando-me por ver em caminho de realização um projecto de tanto
alcance politico, commercial e civilisador, a bem do Brasil e de uma
Nação vizinha e amiga, pareceu-me não ser inopportuno dar à luz da
imprensa uma Memoria, onde eu demonstrára os elementos com que podia
contar para fundar-se e progredir a empreza que tomasse a si levar a
effeito a mesma obra.
Oxalá possão os factos confirmar minhas esperanças sobre tão auspiciosa
communicação, a cujo emprezario, desejo, sobejem os meios de executal-a
promptamente.
Rio de Janeiro, 18 de Julho de 1870.--_Antonio Rebouças Filho_,
Engenheiro.
I.
Opportunidade de leval-a a effeito.--Tratado do Brasil com a
Bolivia--Abertura do Amazonas.--Navegação a vapor no baixo Madeira
até a primeira das Cachoeiras.--Falta transpol-as para lançar o
vapor no alto Madeira e nos seus affluentes navegaveis da Bolivia e
do Brasil.
Dous grandes acontecimentos, desses que fazem época na historia das
nações, se realizárão no decurso do anno de 1867, ambos de influencia
transcendente no sentido de estreitar as relações amistosas de dous
estados sul-americanos, resolvendo as divergencias, que por acaso entre
elles existissem, e predispondo a communidade dos interesses
commerciaes, que no estado da civilisação actual é o mais seguro penhor
da paz e da amizade dos povos e tambem dos governos que a estes
representão.
Um foi o tratado de amizade, limites, navegação e commercio entre o
Imperio do Brasil e a republica da Bolivia, celebrado em La Paz aos 27
de Março e definitivamente concluido pela troca das ratificações dos
dous governos a 22 de Setembro do anno passado; o outro o decreto do
governo imperial de 7 de Dezembro de 1866 abrindo as aguas do Amazonas
aos navios mercantes de todas as nações, o que já se verificou no
memoravel dia 7 de Setembro daquelle mesmo anno.
Corollario de tão importantes factos será sem duvida o desenvolvimento
rapido das transacções commerciaes entre o Brasil e a Bolivia, as quaes,
iniciadas desde muitos annos, têm sido até hoje peadas em seu incremento
pela barreira ingente, que intercepta a via de communicação natural
existente entre os dous paizes. São as cachoeiras, que obstruem o curso
dos rios Madeira e Mamoré entre os 8 1/2 e 11 gráos de latitude sul,
oppondo difficuldades quasi insuperaveis ao transito do commercio da
Bolivia para o Atlantico pelas aguas francamente navegaveis do baixo
Madeira e do grandioso Amazonas.
Romper este obstaculo ou desvial-o, é abrir as portas da vasta bacia do
alto Madeira; é juntar a navegação do immenso valle do maior dos rios,
cujo tronco se estende desde o centro do Perú até o Oceano, abrangendo
por seus innumeraveis ramos terras do Equador, da Colombia, de Venezuela
e do Brasil, desde seus confins septentrionaes e occidentaes até o
proprio coração, com a navegação do Mamoré e seus affluentes, que de um
lado tambem se interna no territorio brasileiro até encontrar na serra
dos Parecis as vertentes do rio Paraguay, e d'outro irradia em diversas
direcções até ás encostas, e inda além até aos cumes dos Andes, regando
com placida corrente as dilatadas planicies da parte mais rica da
Bolivia; finalmente, é completar praticamente o grande pensamento de paz
e de união internacional, ha pouco formulado e consagrado no referido
tratado de navegação e commercio e no decreto da abertura do Amazonas.
Desde muito o governo e o povo da Bolivia mirão a navegação a vapor dos
tributarios do Alto Madeira e a communicação facil d'ahi com o Atlantico
como uma necessidade indeclinavel do progresso moral e material da
republica e como a base da prosperidade futura de suas ferteis
provincias do Oriente.
Já nos fins do seculo passado, em 1792, quando ainda dominava o regimen
colonial, o sabio naturalista Tadeu Haenke, apresentou ao governo
hespanhol o projecto de navegar os rios da Bolivia. Em 1833, o governo
da republica instituia premios para os primeiros barcos a vapor que
sulcassem seus rios; em 1843 e 1851, o congresso autorisava o poder
executivo a despender até a somma de 200.000 pesos nos serviços
concernentes á mesma navegação e em 1853, declarando-a livre ao
commercio e aos navios de todas as nações, renovava a offerta de premios
aos que primeiro a emprehendessem, accrescendo a isto largas concessões
de terras.
A opinião publica, manifestada quér na imprensa periodica e nos
escriptos dos homens mais illustrados da Bolivia, quér por meio de obras
praticas, tem sempre acompanhado neste assumpto ás vistas do governo.
Assim é que não faltão memorias e outras publicações demonstrando as
innumeras vantagens da communicação do Madeira e muitas explorações e
até alguns trabalhos de construcção hão sido executados tanto nos rios
que della fazem parte, como nas vias terrestres que a elles conduzem.
Testemunhão-n'o, entre muitos outros factos, as explorações do
naturalista francez Alcide d'Orbigny, patrocinadas pelo governo da
Bolivia; as do parocho de Exaltacion, Dr. D. Ramon Eustaquio Duran e de
D. José Agustin Palacios, governador de Mojos, que ambos navegárão as
cachoeiras do Madeira; a tentativa do cidadão Tudela para abrir um
caminho breve de Cochabamba ao Beni e recentemente, em 1864, os
trabalhos da companhia Securé, a fim de realizar o mesmo objecto ligando
aquella capital ás margens do affluente do Mamoré, cujo nome a sociedade
tomou.
Estes poucos factos bastão para provar que a idéa da utilisação
effectiva da via do Madeira tem sido a aspiração constante da Bolivia
desde os primeiros annos de sua independencia e parece indubitavel que,
se o vapor já não cursa hoje as aguas de seus rios, é porque seria quasi
impossivel transportal-o subindo as 17 arriscadas cachoeiras, que os
separão das aguas accessiveis do baixo Madeira.
De sua parte o Brasil, de alguns annos a esta parte, não tem poupado
trabalho e capital a fim de chegar á realização da mesma idéa. Desde
1851 que a companhia do Amazonas, generosamente subvencionada pelo
governo imperial, percorre as aguas do maximo rio, cruzando em seu
trajecto a embocadura do Madeira.
Em 1864, o engenheiro J. M. da Silva Coutinho chegou em um vapor
brasileiro ao pé da cachoeira de Santo Antonio e dahi, embarcado em
canôa, explorou na subida e na descida este e todos os outros empecilhos
que se succedem até chegar ao de Guajaramirim no rio Mamoré.
No anno proximo findo, por decreto de 22 de Junho, o governo imperial
subvencionou a uma companhia que se propõe estabelecer uma linha regular
de vapores no baixo Madeira até áquella primeira cachoeira[1], e quasi
ao mesmo tempo mandava uma expedição scientifica, dirigida por dous
distinctos engenheiros, no intuito de averiguar, por meio de medições
hydrographicas exactas, a possibilidade de canalisar a secção das
cachoeiras, ou, em caso negativo, de abrir-lhes um desvio por terra.
[1] Estamos scientes pelos ultimos jornaes do Brasil que o Sr. Brito
e Amorim, concessionario desta navegação, já conseguiu reunir na
praça do Pará o capital necessario á mesma empreza.
Ha pois, tanto na Bolivia como no Brasil, o mais vivo empenho de
communicar-se facil e effectivamente pela via do Madeira, e ainda
que lentamente, a execução desta empreza vai caminhando a seu desejado
fim.
Os successos do anno de 1867 tendem sobretudo a imprimir-lhe mais
vitalidade. A politica e a diplomacia a estipulárão por actos solemnes e
a iniciativa individual, auxiliada pelo governo do Brasil, promette que
em breve o vapor percorrerá todo o baixo Madeira e aportará junto ao
degráo inferior da região das cachoeiras.
Conseguido isto, restará sómente franqueal-as artificialmente por agua
ou por terra, a fim de ir tambem lançar o poderoso motor nas aguas
superiores do Madeira.
Esta é a obra, que cumpre atacar com vigor desde logo, não deixando
escapar a opportunidade presente em que acontecimentos diversos parecem
promovel-a e apressal-a.
A utilidade, que della resultará no sentido de crear e desenvolver a
industria e o commercio nos paizes a que vai servir, é incontestavel.
Não ha que discutil-a quanto a seus effeitos sociaes e civilisadores.
Falta sómente apresental-a por sua face pratica, propagal-a como empreza
lucrativa, revelar suas vantagens economicas, demonstrar sua
exequibilidade immediata e attrahir sobre ella a attenção de
emprehendedores e capitalistas. É sob tal ponto de vista que nestes
apontamentos nos propomos estudal-a, posto que baldos de informações
sufficientes e conscios de nossa incapacidade para preencher a tarefa
que emprehendemos como conviria á importancia subida do assumpto.
II.
Idéas geraes sobre a bacia do rio Madeira.--Seu curso e seus
affluentes.--Rio Mamoré, rio Grande ou
Guapay.--Piray.--Chaparé.--Securé.--Guaporé ou
Itenez.--Beni.--Situação e comprimento da estrada das Cachoeiras.
A torrente, que baixa do nevado de Chacaltaya e corta a cidade de La
Paz, a mais populosa e importante da Bolivia, é uma das nascentes mais
remotas do Mosetenes, cujo nome se troca pelo de Beni desde o salto de
Ictama[2]. Na propria cidade de Cochabamba e em suas vizinhanças se
encontrão varios cursos d'agua, que por duas vias differentes vão
despejar ao rio Mamoré, cujo prolongamento é o Madeira. De um lado são
as nascentes do Paracti e do Colomi, que são ambos affluentes principaes
do Chaparé ou rio de S. Matheus; do outro lado é o rio Rocha, que tambem
tem o nome de Sacaba, e é um dos numerosos tributarios do Calauta,
confluente do rio Grande de Chayanta, que mais abaixo se chama
simplesmente rio Grande ou Guapay e é o braço mais caudaloso do rio
Mamoré.
[2] Estes e os seguintes dados são, em geral, extrahidos da
excellente obra--Bosquejo estadistico de Bolivia--por José Maria
Dalence. Chuquisaca, 1851.
A cidade de Sucre ou Chuquisaca está situada na ramificação dos Andes,
que fórma na Bolivia o _divortium aquarum_ entre o Amazonas e o Prata.
Assim as aguas, que a banhão, de um lado se dirigem para o Sul pelo
alveo do rio Pilcomayo, emquanto que do outro fluem para o já citado
Guapay ou rio Grande.
Emfim, a cidade brasileira de Mato Grosso, antiga capital da capitania,
hoje provincia do mesmo nome, demora ás margens do Guaporé ou Itenez, o
mais poderoso dos affluentes do Madeira, que procedem das bandas do
oriente, principalmente da famosa serra dos Parecis, onde se entrelação
tantos rios que engrossão as aguas do Amazonas e do Prata.
O Beni, o Chaparé, o Guapay e o Guaporé são os ramos mais importantes,
que compõem o volumoso tronco, que toma o nome de Mamoré desde a
confluencia do Chaparé com o Guapay; recebe o de Madeira quando se lhe
junta o Beni, e o conserva até que desemboca no Amazonas com um cabedal
de aguas tamanho, que o classifica como um de seus maiores affluentes,
senão o maior.
Assim em longinquas origens de seu curso o Madeira rega as tres cidades
mais consideraveis da Bolivia, assim como á de mais valor que o Brasil
possue em sua fronteira desse lado.
O Guapay ou rio Grande, tronco principal do Mamoré, se torna um rio
notavel desde que se reune o Calauta, que vem de Cochabamba, ao rio
grande de Chayanta. Nessa paragem, que se acha proximamente aos 19° de
latitude, entre o povo de Uricari e o de Poroma, tem como 3 pés ou cerca
de 1 metro de profundidade[3].
[3] O pé usado na Bolivia é igual a um terço de vara. Esta sendo
igual a 0^m,8359, o dito pé vale 0^m,278.
O pé inglez é equivalente a 0^m,3048. O pé portuguez tem 1 1/2 palmos
ou 0^m,33, conforme o valor de 0^m,22, adoptado como o padrão do
palmo. É com pequena differença igual ao pé francez, que tem 0^m,324.
Em geral se póde tomar approximadamente o metro por 3 pés.
Contada dahi até á foz no Amazonas, a navegação da arteria mãi do
Madeira abraçaria mais de 900 leguas.
O rio, que a principio seguia o rumo de norte a sul, na dita latitude e
na longitude de 68° O. de Paris, pouco mais ou menos, dirige-se para
leste em linha quasi recta, costeando o grande esporão dos Andes, cujas
contravertentes dão para o Pilcomayo. Chega assim aos 60° de longitude,
perto de Abapó, onde se lhe incorpora o caudaloso rio Azero, e livre já
dos obstaculos da Cordilheira torce de repente para norte, cujo rumo em
geral conserva para diante nas innumeraveis sinuosidades de seu leito.
Antes de receber o Azero, já tem o Guapay duas varas ou 1^m,66 de
profundidade, e, ainda que seja pouco conhecida sua navegabilidade
nestes lugares, ha quem assegure que elle não tem empecilho algum, pois
collocão no rio Azero uma cachoeira que consta por ahi existir.
Passa o rio Grande ou Guapay a 10 leguas de Santa Cruz de la Sierra, a
cidade campestre, como a appellida d'Orbiguy, interessante capital do
departamento de igual nome; e mais abaixo recolhe pela margem esquerda
as aguas do rio Piray, que banha os arrebaldes da mesma cidade e é
navegado até cerca de 30 leguas a jusante della, em um porto chamado
Cuatro-Ojos.
É depois de receber o Piray que alguns geographos dão ao Guapay o nome
de Sara, que guarda até se lhe reunir o Chaparé, que, recebendo perto da
boca um rio denominado Mamorechico ou Mamoré[4], transmitte este nome ao
Sara, antes Guapay ou rio Grande.
[4] _Mamoré_ significa em lingua indigena _mãi dos homens_. O rio
recebeu este nome porque em sua fonte ha um rochedo pyramidal
formado de tres pedras sobrepostas, que se erguem á altura de mais
de 20 metros, e coroado por uma gigantesca arvore de quina. Este
rochedo é adorado pelos indios dessas paragens, porque é crença
entre elles que devem sua origem aos amores dessa pedra com um tigre
das selvas.--Podia julgar-se, acrescenta o autor de quem copiamos
estas linhas, que semelhante origem devia tel-os feito selvagens e
ferozes: são ao contrario meigos, humildes e serviçaes.
(Favre--Apuntes sobre la navegacion de los rios de Boliyia.
Cochabamba. 1858).
O Chaparé é digno de menção não tanto pelo avultado cabedal de suas
aguas como pela navegação franca que offerece quér em seu proprio
curso, quér no de seus numerosos tributarios, entre outros o Mamoré
chico, o Chimoré e o Coni.
Trazendo, como ficou dito, suas nascentes dos arredores de Cochabamba,
tem a 35 leguas[5] desta cidade o porto de Vinchuta, junto á embocadura
do Coni, d'onde é possivel navegar a vapor até a sua foz no Mamoré; pois
neste espaço, que regulará em 200 milhas[6], o rio nunca tem menos de 2
metros (6 pés) de fundo nem correnteza superior a de 1 1/2 milhas por
hora ou 0,77 metros por segundo.
[5] Alguns autores que consultamos dizem ser de 30 leguas a
distancia de Cochabamba a Vinchuta; outros fazem-n'a de 40.
Decidimo-nos pela media dos dous algarismos, approximando-nos muito
da opinião de Gibbon, que attribue 34 leguas ao mesmo caminho.
[6] As distancias em milhas que citamos são extrahidas da obra de
Gibbon ou fundadas no seu mappa. Suppomos ser a milha maritima de 60
ao gráo, equivalente a um terço de legua de 20 ao gráo e a 1.852
metros. Esta legua tem pois 5.556 metros e é pouco differente da
boliviana, que é igual a 5.564 metros.
No rio Grande ou Guapay o mesmo systema de navegação talvez possa, na
estação das aguas, começar desde muito arriba no seu curso; e não é
duvidoso que alcançará ao lugar chamado Paylas, situado mais ou menos
fronteiro a Santa Cruz. Dahi para baixo a navegação seria desimpedida em
todo o anno, se na secca não se formasse um rapido ou uma cachoeira, que
difficulta a subida além de um porto conhecido pelo nome de Bivosi.
Entre este e a foz do Chaparé não consta que o Guapay tenha empecilhos e
dessa foz até Trinidad, capital do departamento do Beni, foi averiguado
por Gibbon que a profundidade d'agua na secca nunca é inferior a 7
metros, 21 pés, e a correnteza por hora não passa de 1/2 milha.
Proseguindo em condições de prestar transito a vapores sem necessidade
de obras d'arte, o Mamoré passa perto de Exaltacion, outra cidade do
Beni, e cada vez com mais fundo e corrente menos rapida, chega á
confluencia do Guaporé ou Itenez, proximamente a 120 milhas da cidade de
Trinidad.
Este ultimo rio, que reune a maior massa, que engrossa o Mamoré pela
margem do Oriente, é formado pelo concurso de muitos mananciaes que
descem da serra dos Parecis, com outros que provêm da de Aguapehy e das
vertentes e lagôas da provincia de Chiquitos. Tendo, porém, as fontes de
seu tronco principal na serra dos Parecis, aos 14^o 42' de latitude e a 2
leguas das do Juruema, braço importante do rio Tapajoz, outro grande
affluente do maximo Amazonas, o Guaporé, se precipita pelas
encostas das montanhas, d'onde se origina, em saltos a cachoeiras
repetidas, que não facultão senão mui embaraçada á navegação até cidade
de Mato Grosso. Corre primeiro a SO até os 15^o, 10' de latitude,
seguindo parallelo ao curso do Jaurú, tributario do rio Paraguay, e
depois volta bruscamente tornando o rumo de nordeste, que conserva até
desembocar no Mamoré, aos 11^o 54' 46" de latitude é 68^o 1' 30" de
longitude oeste de Paris.
Seus confluentes mais notaveis são na margem direita o Sararé e o
Galera; e na esquerda o Barbados, o Verde, o Branco ou Baures e o
caudaloso Magdalena ou Itonama.
É pelo rio Barbados e seu affluente, o rio Alegre, que cruza as
nascentes com o Aguapehy, tributario do Jaurú, que o é do Paraguay, que
será possivel estabelecer o mais curto canal de união entre as aguas do
Amazonas e do Prata, cortando o isthmo que separa o Alegre e o Aguapehy
e que se estreita a ponto de reduzir-se á largura de 5.280 metros ou
2.400 braças do Brasil.
O Guaporé, desde a povoação de Mato Grosso até a sua boca, na extensão
de 205 leguas[7], não tem saltos nem grandes cachoeiras, mas sómente
alguns rochedos e muitos baixios, estes produzidos pelo excessivo
espraiamento do seu alveo e que no tempo da secca não permittem chegar
áquella cidade embarcações de mais de 1 metro ou tres pés de calado.
[7] Esta distancia é tirada do roteiro da commissão portugueza de
limites, que cursou o Madeira e seus affluentes nos annos de 1780 e
seguintes. Si a legua desta medição não fôr a maritima de 20 ao
gráo, deve ser a de 17 1/2 ao gráo, que parece foi a estipulada nos
tratados de então entre Portugal e Hespanha.
Na enchente porém, que se eleva de 10 metros ou 30 pés, como não ha
correntezas fortes, navios de maior porte e movidos a vapor até lá
poderão ir; e suppõe-se que em qualquer tempo navegarião sem estorvo,
pelo menos até o forte do Principe da Beira e mesmo talvez, segundo
outra opinião, até defronte das serranias de S. Carlos, a 70 leguas
proximamente a jusante da dita cidade de Mato Grosso.
Depois de receber o Guaporé ainda corre o Mamoré sem embaraço algum por
espaço de 26 leguas, no fim das quaes apresenta-se a corredeira de
Guajaramirim, o primeiro da longa serie de obstaculos, que interrompem a
continuidade da navegação entre o alto e o baixo Madeira.
Até ao ponto em que o Mamoré, assoberbado com as aguas do Beni,
adopta o nome de Madeira, elle contém, n'uma distancia de 18 leguas, 5
cachoeiras, denominadas na ordem da descida Guajaramirim, Guajaraassú,
Bananeiras, Páo Grande e Lagens.
O Beni, que como vimos, vai buscar sua origem dos picos nevados vizinhos
de La Paz, ou mais longe ainda, conforme affirma Dalence, de perto de
Oruro nos altos de Pongo e Calliquiri, aos 18^o de latitude, se une ao
Mamoré aos 10^o, 22', 30", tendo então a largura de 640 metros e a
profundidade de 18^m ou 54 pés (Gibbon). Consta que seu curso é obstruido
por muitos bancos, saltos e cachoeiras, dos quaes são nomeados o salto
de Ictama, onde o Beni deixa de chamar-se Mosetenes, e dous que se
encontrão a poucas leguas acima da confluencia com o Mamoré, o Salto de
Yata e a Cachoeira de Borda, tão temiveis que impedirão o passo á
expedição do boliviano D. Agustin Palacios, quando em 1846 pretendeu
subil-os para explorar o mesmo Beni. É sabido, porém, que os indios de
suas margens viajão-n'o em balsas desde o Povo de Reyes e outros muito
arriba no seu curso, e diz-se não ser impossivel levar a navegação pelo
seu ramo, o rio Coroico, até o lugar deste nome, pouco distante da
cidade de la Paz. Faltão, comtudo, dados exactos sobre a navegabilidade
do rio Beni, que até hoje carece de uma exploração scientifica.
O Madeira, ao formar-se pela juncção do Beni ao Mamoré, tem a largura de
uma milha ou 1.852 metros e profundidade que attinge a mais de 30.
Prosegue ainda ao rumo de norte, em que vinha o Mamoré, e não corre
grande trecho antes de despenhar-se em uma cachoeira, que leva seu
proprio nome e dá principio á serie das 12, encadeadas por espaço de 65
leguas (de 20 ao gráo) até alcançar as aguas placidas do baixo Madeira,
que sem mais tropeço algum conduzem ao Amazonas e dahi ao Oceano.
Os 12 degráos, que interceptão o leito do Madeira formando outros tantos
obstaculos, são conhecidos pelos seguintes nomes de cima para baixo:
Madeira, Misericordia, Ribeirão, Araras, Pederneiras, Paredão, Tres
Irmãos, Giráu, Caldeirão do Inferno, Morrinhos, Salto Theotonio e Santo
Antonio, d'entre os quaes os de passagem mais difficultosa são os saltos
Ribeirão, Giráu e Theotonio.
Gibbon avalia em 250 milhas a distancia occupada tanto por estes
impecilhos como pelos do rio Mamoré e nota que na parte correspondente
os dous rios descrevem uma curva, que tem a concavidade voltada para
leste e cujos ramos, um mede 190 milhas em rumo geral de norte,
desde Guajamirim até ás immediações da cachoeira das Pederneiras, ou
melhor até á ponta do Abuna, como denominarão os geographos portuguezes
este ponto, um dos mais occidentaes do territorio brasileiro; e o outro
ramo tem 150 milhas dahi á cachoeira de Santo Antonio, em rumo de ENE.
A linha recta, que fórma a corda da mesma curva, se estende toda em
terras do Imperio e mede proximamente 180 milhas de extensão, seguindo a
direcção de NE--SO.
Desde o pé da cachoeira de Santo Antonio, que se entra na região do
baixo Madeira, o qual se desenvolve por 170 leguas mais ou menos, sempre
com grande fundo e velocidade de aguas muito moderada, até que desemboca
no Amazonas, na latitude de 3^o 23' 43" e longitude de 61^o 37' 55", O de
Paris e na distancia approximada de 270 leguas do Atlantico, pelo canal
do grandioso rio.
Portanto, o unico obstaculo que se oppõe á communicação do Oceano com o
vasto paiz banhado pelo Mamoré e seus tributarios, o qual se póde
designar como a bacia do alto Madeira, são as 17 cachoeiras, que se
succedem no espaço de 250 milhas, desde a de Guajaramirim no Mamoré ate
á de Santo Antonio no Madeira.
Não resta duvida que ellas interpõe uma barreira invencivel a qualquer
genero de navegação regular; pois assim não se póde qualificar a que
hoje atravez dellas tem lugar, correndo innumeros riscos e pesadissimos
trabalhos, descarregando a cada passo as embarcações e levando as cargas
por terra e por vezes arrastando os proprios vehiculos por caminhos
marginaes em longos trechos. Para dar idéa das contrariedades que
encontra esta viagem, basta mencionar que as canôas de commercio gastão
até 5 mezes em subir as cachoeiras, entretanto que a descida se póde
realizar em 12 dias, como a fez Gibbon, e até em 7 1/2 como aconteceu ao
engenheiro brasileiro Coutinho.
A exploração profissional, que ora devem estar levando a effeito por
ordem do governo imperial os illustrados engenheiros Keller, resolverá
com dados positivos--si essas cachoeiras podem ser canalisadas para
prestar navegação desimpedida, quaes as obras necessarias a este effeito
e emquanto importaráõ. Á vista, porém, das noticias de expedições
anteriores, desde a da commissão portugueza demarcadora dos limites de
1777 até ás modernas do boliviano Palacios, do norte-americano Gibbon e
do brasileiro Coutinho, nada ha de temerario em assegurar que a
canalisação das cachoeiras do Madeira, sem ser um projecto inexequivel,
é obra de tal magnitude e por conseguinte exigirá tão enormes capitaes,
que não é para ser tentada no presente, nem está em relação com a
grandeza dos interesses, que por meio della se pretende promover.
Para suppril-a de prompto e quiçá preparar as cousas para sua futura
execução, a opinião geral propende para uma outra empreza, que evitará a
travessia das cachoeiras em vez de removel-as, sendo mais realisavel por
ser menos custosa. É a de abrir uma via terrestre desde Santo Antonio
até Guajaramirim, seguindo mais ou menos a corda do arco que descreve o
rio, cujo comprimento Gibbon avaliou em 180 milhas isto é, 60 leguas de
20 ao gráo[8]. Esta estrada, que toda ficará em territorio do Brasil,
tem segundo o mesmo viajante todas as probabilidades de percorrer um
terreno livre de inundações, sem ser muito accidentado.
[8] O distincto engenheiro Coutinho e com elle o Dr. Tavares Bastos
e outros illustres brasileiros, que modernamente se hão occupado da
communicação do Madeira, dão á mesma linha o comprimento de 50
leguas. A differença deste numero para o que apresentamos e que em
diante adoptaremos, provém da especie de legua considerada. Assim a
extensão de 180 milhas, reduzida a leguas de 20 ao gráo ou de 5.555
metros, produz 60 leguas; ás de 18 ao gráo ou de 6.173 metros
sómente 54 e ás de 3.000 braças ou 6.600 metros apenas 50. Sem
duvida o engenheiro Coutinho considerou as leguas desta ultima
especie, que são as mais usuaes no Brasil. Se não o seguimos nesta
parte, é porque adoptando a legua de 5.555 metros reduzimos
facilmente as medições de Gibbon, avaliadas em milhas maritimas, e
sobretudo porque, referindo-nos frequentemente aos roteiros da
Bolivia, era a que mais convinha por ser a de valor mais aproximado
ao da boliviana, que como já foi dito tem 5.564 metros.
Os que fazem a estrada das cachoeiras sómente de 32 leguas,
provavelmente suppõem-n'a começando não de Guajaramirim, mas da boca
do Beni, conservando a navegação das 18 leguas do Mamoré, onde ha
cinco cachoeiras.
É por tal meio que nos parece se devem unir os valles do alto e do baixo
Madeira, abrindo assim caminho franco ao commercio da Bolivia com o
Atlantico pelas aguas do Amazonas. Conjunctamente com o beneficio desta
estrada, o vapor sulcará as aguas do Mamoré e de suas grandes
ramificações, e aproveitando-se da navegabilidade que estes rios
offerecem nas extensas planicies de Mojos, Santa Cruz e Chiquitos,
irradiará em todos os sentidos e irá fecundar com a industria e com o
commercio a um vasto paiz, que para desenvolver-se e prosperar sómente
aguarda a possibilidade de exportar o seus productos. É a extensão
do seu territorio, sua população e seu commercio e os recursos que
contem em si o que revistaremos em seguida, a fim de deduzir os
elementos com que se póde contar para retribuir os capitaes necessarios
á empreza de tornar regulares e expeditos os transportes por toda a via
do Madeira.
III.
Região boliviana da bacia do Madeira.--Sua extensão e
população.--Condições de seu commercio.--Estado
presente.--Conjecturas sobre seu futuro.--Contingente do Brasil para
o trafego da via do Madeira.
O systema orologico da Bolivia divide physicamente o seu territorio em
quatro grandes regiões, cada uma das quaes verte as aguas que as regão
com destino diferente:
1.^o A região situada ao occidente da Cordilheira dos Andes, a qual as
despeja no oceano Pacifico.
2.^o A região da elevada altiplanicie entre as duas ramificações da mesma
Cordilheira, que quasi toda desagua no lago Titicaca, o qual--na opinião
dos naturalistas mais seguida--não tem sahida nem para o Pacifico nem
para o Atlantico.
3.^o A região da bacia do Madeira, que occupa o nordeste da republica,
comprehendendo um immenso territorio desde as vertentes da Cordilheira
Oriental e de seus ramos, que ao norte separão esta bacia da do Purús e
ao sul da do Pilcomayo, até as fronteiras do Brasil e á linha das contra
vertentes do rio Paraguay.
4.^o Emfim a região da bacia do Prata, que em sua maior parte fica ao sul
da precedente em posição symetrica, regada por affluentes do Pilcomayo e
do Vermejo e á qual tambem pertence a zona da extrema oriental da
Bolivia, que contém o rio Otuquis e deslinda com o Brasil pela série de
lagôas, que acompanhão a margem direita do rio Paraguay.
Se é uma verdade irrecusavel, como os factos sempre comprovão, que as
correntes d'agua são as directrizes naturaes de quaesquer vias de
communicação, se são ellas que apontão a vereda das estradas e dos
caminhos terrestres, assim como a dos canaes artificiaes, quando em seu
proprio alveo não prestão navegação ou sem auxilio do trabalho do homem
ou com elle, as sahidas do commercio da Bolivia estão de antemão
designadas pelo curso de seus rios.
As da região das vertentes do Pacifico devem ser os portos de Arica,
Cobija e outros da costa deste mar.
As da bacia do Madeira os portos do Beni, do Chaparé, do Guapay, do
Mamoré, do Guaporé e de seus respectivos affluentes, d'onde as
mercadorias seguindo a correnteza das aguas chegaráõ ao Atlantico,
através do Madeira e do Amazonas.
Os productos da bacia do Prata buscaráõ os portos do Otuquis, do
Paraguay, do Pilcomayo e do Vermejo, por cujos canaes se encaminharáõ
para a arteria principal do Prata, que tambem os levará ao Atlantico.
Quanto á bacia do lago Titicaca, ella será uma especie de territorio
neutro, cujo commercio se distribuirá parte para o Pacifico e parte para
o Atlantico, como o determine a lei economica dos fretes.
Considerando particularmente a região boliviana da bacia do Madeira,
nota-se que é a mais vasta e importante das quatro em que a natureza
dividio essa republica. De facto ella comprehende os departamentos de
Cochabamba, do Beni e de Santa Cruz em sua integridade e uma boa parte
dos de La Paz e Chuquisaca. Seu perimetro do lado occidental abrange as
tres capitaes mais ricas e populosas da Bolivia; e duas outras de grande
porvir, Santa Cruz e Trinidad, achão-se em posições mui favoraveis para
colherem grandes vantagens da navegação effectiva da rede fluvial do
Madeira.
Calcula-se que a região de que se trata mede 270 leguas de norte a sul e
110 de leste a oeste, naquella direcção desde os confins da altiplanicie
dos Andes até ás fronteiras do Brasil, nesta desde as serranias, que
dividem o valle do Madeira do do Purús, até ás que fazem o mesmo effeito
para o do Pilcomayo. A superficie que lhe pertence se estima em mais de
20.000 leguas quadradas, quasi metade da da Bolivia inteira, avaliada em
53.200.
Em 1864, a população total da republica era computada em 2.155.329
habitantes[9]. Destes 584.914 pertencião aos tres departamentos de
Cochabamba, do Beni e de Santa Cruz, cabendo 379.783 ao primeiro, ao
segundo 60.447 e ao terceiro 144.684.
O departamento de La Paz por si só continha 519.465 habitantes e o de
Chuquisaca 193.124.
[9] Estractos do--Guia Geral de Rúck--Sucre--1865.
Dando que sómente um terço da povoação de cada um destes departamentos
viva na bacia do Madeira, serão mais 230.000 almas pelo menos a
acrescentar á somma daquelles tres departamentos, resultando um total de
mais de 800.000 para o numero dos habitantes da Bolivia existentes na
região dessa bacia.
As circumstancias especiaes, em que se acha este paiz, tornão difficil
senão impossivel computar com exactidão a grandeza do commercio, que
elle póde entreter com o exterior. Segregada por longas e invias
distancias das transacções com os outros povos, a mór parte de sua
população vive quasi exclusivamente de sua propria industria, permutando
mui pouco com o estrangeiro.
Um tal estado de cousas, porém, não póde servir de norma para o futuro.
Elle é a consequencia da difficuldade das communicações, originada
sobretudo pelo obstaculo formidavel das cachoeiras do Madeira, que,
cerrando o caminho natural desta região para o Atlantico, obriga seus
habitantes a commerciar a grande custo pela costa do Pacifico, vencendo
enormes distancias, aggravadas demais pela trabalhosa travessia de duas
cordilheiras e seus frequentes ramaes, na qual sahindo de climas
tropicaes se galga á altitude das neves perpetuas para depois baixar aos
portos daquella costa, d'onde para chegar aos emporios do commercio do
mundo é ainda necessario navegar quasi até o polo austral, a fim de
effectuar a volta do continente sul americano pelo tormentoso cabo de
Horn. Quando, porém, se desembaraçar a via directa para o Atlantico,
seguindo as aguas do Madeira e do Amazonas, uma nova éra principiará
para a Bolivia oriental, cujo trafego com o interior, mudando de
direcção, soffrerá uma revolução essencial, que, reproduzindo a phrase
de um distincto escriptor moderno[10], ser lhe ha tão importante e
benefica: «como a que no commercio do mundo operou a descoberta da
passagem para as Indias pelo Cabo da Boa Esperança ou a que ha de fazer
no seculo actual a navegação directa pelo isthmo de Suez e o Mar
Vermelho».
[10] O Dr. A. C. Tavares Bastos em sua excellente obra--O valle do
Amazonas.--Rio de Janeiro.--1866.
Então a producção desse paiz, que hoje se reduz ao consumo dos proprios
habitantes, dará abundantes sobras que serão levadas aos mercados
estrangeiros, d'onde em retorno viráõ as manufacturas da industria
a mais aperfeiçoada, que alli chegaráõ por tão baixo preço que as
grosseiras do paiz não poderão com ellas competir. Conhecidas as
vantagens da permuta interior, habituados os individuos ás commodidades
que ella proporciona, creadas todas as necessidades de uma civilisação
mais refinada, crescendo a producção conjuntamente com o consumo, não ha
duvidar que o movimento commercial augmentará progressivamente em
avultada proporção tirando partido da feracidade proverbial destas
terras dotadas dos mais variados fructos, correspondentes aos
differentes climas que nellas se encontrão, desde o gelido das Punas até
o mais calido da zona intertropical. Assim os departamentos de
Cochabamba, Chuquisaca e La Paz, em suas provincias que gozão de um
clima temperado, poderão exportar os cereaes e os fructos proprios do
mesmo clima, os quaes sem irem mais longe, acharáõ consummidores em todo
o valle do Amazonas e no norte do Brasil; entretanto que do Beni e do
Santa Cruz sahiráõ para os mercados da Europa e de Norte-America o café,
o algodão, o cacáo, o fumo e os demais artigos tropicaes, que nos
terrenos destes departamentos se crião tão excellentes como os melhores
do mundo.
Por outro lado a mineração inexplorada das encostas orientaes dos Andes,
dos depositos ferruginosos de Mojos e de Chiquitos, tão preconisados
pelo sabio d'Orbigny[11], e das minas de ouro da ultima provincia, que
agora estão attrahindo exploradores, proporcionaráõ outras tantas fontes
de riqueza e de commercio; assim como tambem a extracção dos productos
silvestres, da quina, da borracha, das raizes, drogas, especiarias e
madeiras preciosas, que abundão sem conta nas florestas do Beni, do
Mamoré e do Itenez ou Guaporé. Nos espaçosos campos de Mojos e Chiquitos
a criação de gado vaccum, cavallar e lanigero, que nelles já se acha
estabelecida, póde muito augmentar e, uma vez que ahi se obtenha o sal
por baixo preço, o charque e outras carnes salgadas passaráõ a ser
objecto de exportação mui lucrativa, mesmo para a parte superior do
valle do Amazonas, que carece destes generos e os compra por elevado
preço.
[11] Alcide d'Orbigny em sua viagem ás provincias de Mojos e
Chiquitos trata mais de uma vez dos grandes depositos de ferro
hydratado, que constituem todo o sólo da missão de Sant'Anna e dos
plainos de Concepcion no paiz de Chiquitos, de Mojos e nos arredores
da missão de S. Joaquim, que está a beira do rio Machupo, tributario
do Magdalena ou Itonama, que desagua oo Guaporé, quasi defronte do
forte do Principe da Beira. O mesmo naturalista mostra as immensas
vantagens da exploração deste minerio pelo methodo Catalão, não
faltando combustivel nas florestas vizinhas e dispondo-se de rios
navegaveis para levar o ferro a lugares da Bolivia e do Brasil em
que elle tem grande valor.
É pois de toda a probabilidade que, logo que seja franqueada a estrada
das cachoeiras e introduzido o vapor nos rios da Bolivia, cerca de
800.000 de seus habitantes se utilisaráõ destes meios de communicação
para chegar ao Atlantico e ahi entabolar transacções com os principaes
centros do commercio do mundo. A corrente dos negocios infallivelmente
deve encaminhar-se a este mar seguindo o curso dos rios, e não deixará
de crescer rapidamente, quando a facilidade e presteza dos transportes,
juntamente com a modicidade dos fretes, tiver induzido a ser productora
e commerciante uma população numerosa, que para exercitar suas forças e
sua intelligencia possúe uma natureza uberrima, onde não ha industria
que não ache seu lugar.
O commercio existente da Bolivia pela via do Madeira, insignificante
como é, já revela a propensão, por assim dizer innata, dos povos do Beni
e de Santa Cruz, de pratical-o por ahi. Em 1865, o valor da exportação e
importação foi de 64:000$ ou cerca de 32.000 pesos[12], sendo de 32.000
arrobas a quantidade das mercadorias. Este reduzido commercio occupou 98
embarcações, tripoladas por 1.276 indios, que de certo na viagem redonda
não gastaráõ menos de seis mezes![13]. Estes algarismos, melhor que
quaesquer ponderações, demonstrão cabalmente que só um vehemente desejo
de commerciar levaria a empregar tanto material, tantos braços e tanto
tempo, para conseguir resultado tão exiguo, correndo demais os riscos
inherentes á perigosa travessia de 17 cachoeiras.
[12] No correr deste trabalho avaliaremos sempre o peso em dous mil
réis de moeda brasileira. O conto de réis vale 500 pesos na dita
hypothese.
[13] Dados do relatorio da companhia do Amazonas no anno de 1866,
citados na obra--O valle do Amazonas--do Dr. Tavares Bastos.
Entretanto o mesmo commercio tem feito notavel progresso nos ultimos
tempos, pois Dalence diz que em 1864 seu valor não passava de 1.000
pesos[14].
[14] Bosquejo statistico de Bolivia, por D. José Maria
Dalence--Chuquisaca--1857.
Seria gravemente erroneo ajuizar do trafego futuro da via do
Madeira pelo que é e tem sido até o presente. Por ora elle apenas
representa as transacções excepcionaes de um povo isolado, que restringe
sua producção e a seu consumo por não ter meios de exportar
vantajosamente e que só por vezes se aventura com grandes sacrificios a
trocar com seus vizinhos o pouco que lhe sobeja pelos artigos que de
todo não póde fabricar.
Mas depois que os transportes para o exterior se tornarem expeditos e
baratos, o estimulo do lucro promoverá a producção, o consumo
acompanhal-a-ha em progressão corelativa e a circulação commercial, que
se deriva da troca dos generos de consumo pelos de producção, adquirirá
a importancia que sóe ter nos paizes que se achão no gremio do movimento
industrial e civilisador das nações mais adiantadas.
A deducção do valor do futuro commercio da Bolivia pelo Madeira,
partindo da importancia total do que esta republica faz actualmente com
o exterior, na mór parte pela via do Pacifico, vai fornecer-nos
conjecturas, mais ou menos acceitaveis, a fim de dar idéa de sua
grandeza; as quaes, porém, antes ficaráõ aquem do que ultrapassaráõ da
realidade, porque, graças ás facilidades da nova communicação, o paiz
entrará em condições de exportar e importar muito mais favoraveis do que
as tem tido até agora.
A exportação de toda a Bolivia foi, em 1864, avaliada em 2.539.956
pesos[15]. A cifra exacta da importação nos é desconhecida. Vimol-a em
um diario de La Paz estimada aproximadamente em 3.700.000 pesos, valor
que nos parece verdadeiro, pois é pouco superior ao que se deduz pela
consideração do numerario exportado no mesmo anno, o qual, segundo a
distribuição das parcellas da exportação acima citada, figura pela
quantia de 1.057.543 pesos, sem duvida remettida ao estrangeiro para
saldar o excesso da importação. Dahi se conclue que esta provavelmente
deveria ter subido a mais de 3.500.000 pesos; e portanto os valores da
exportação e importação reunidos seguramente excederão de 6.000.000 de
pesos, ou 12.000 contos de réis em moeda brasileira.
Si se reparte a cifra deste commercio exterior por toda a população da
Bolivia, supposta de 2.000.000 de almas em numero redondo, caberia tres
pesos por cabeça e aos 800.000 habitantes da região do Madeira
2.400.000 pesos, ou 4.800 contos de réis entre exportação e importação.
[15] Guia General de Ruck. 1865.
Do mesmo artigo, em que achamos estimada a importação da Bolivia em
3.700.000 pesos, era esta somma repartida como segue pelos departamentos
da republica:
Cochabamba $ 1.000.000
Oruro 100.000
Chuquisaca 500.000
La Paz 1.000.000
Potosi e Tarija 1.000.000
Santa Cruz 100.000
Somma $ 3.700.000
Não se menciona o departamento do Beni, porque seu consumo de
mercadorias estrangeiras é fornecido de La Paz e Cochabamba.
Si com estes algarismos se faz a conta da importação da bacia do
Madeira, incluindo nella toda a dos departamentos de Cochabamba e Santa
Cruz e um terço dos de La Paz e Chuquisaca, á semelhança do que
praticamos no calculo da população, acha-se o valor de 1.600.000 pesos.
Seguramente esta quantia não é agora retribuida no todo com productos
exportados, mas sel-o-ha infallivelmente e quiçá com demasia, logo que o
commercio para o exterior tomar o seu curso normal pela via dos rios,
removidos os empecilhos que hoje a difficultão e aproximadas as
distancias com o auxilio do vapor. Então a importação e exportação
sommadas montaráõ a 3.200.000 pesos ou 6.400 contos, quantia, que é de
esperar, não tardará em ser excedida em virtude do incremento rapido das
transacções, que em toda a parte é consequencia immediata das
communicações regulares.
Assim, por meio de raciocinios differentes, chegamos aos algarismos de
2.400.000 pesos e 3.200.000 pesos como representando os valores do
futuro commercio exterior da parte da Bolivia, pertencente á bacia do
Madeira; attribuindo-lhe talvez no primeiro resultado uma parte maior no
commercio geral da republica, do que a que presentemente lhe compete; no
segundo considerando mais o que será aquelle commercio no futuro, e em
tal caso, a nosso ver, avaliando-o antes modesta do que exageradamente.
É o que se confirma de um modo positivo conjecturando sobre o progresso
do mesmo commercio por comparação com o que se tem observado em
outros paizes, cujas circumstancias são muito semelhantes ás da região
de que se trata. Referimo-nos ás provincias do Perú, situadas no valle
do alto Amazonas, não ha muito vivificadas pela navegação a vapor e que,
quanto á distancia em que se achão do oceano, quanto á indole de seus
habitantes, gráo de sua civilisação e artigos que produzem e consomem,
apresentão numerosos pontos de contacto com os departamentos bolivianos,
ribeirinhos do Madeira.
Em 1855, pouco depois de iniciada a communicação a vapor daquellas
provincias com o porto do Pará pelo curso do Amazonas, a importancia
total do seu commercio nascente não excedeu durante o anno, de 180
contos ou 90.000 pesos.[16].
[16] Este e os seguintes dados sobre o commercio da provincia de
Loreto e, em geral, do valle do Amazonas, são tirados da obra já
citada do Dr. Tavares Bastos,--que de muito prestimo foi para a
nossa instrucção no assumpto destes apontamentos.
Em 1865, dez annos mais tarde, elle passava de 1.100 contos ou 550.000
pesos, numero mais de seis vezes superior ao primeiro!
Já em 1857, só a exportação das mesmas provincias, quasi subia a 500
contos, ou 250.000 pesos, e embora a mór parte da importação ainda se
effectuasse então pelos portos do Pacifico, o commercio exterior nos
dous sentidos já equivalia neste anno a mais do triplo do que fôra em
1855!
Entretanto pouco excede de 50.000 almas a população da provincia de
Loreto, que é a parte do Perú que concorre effectivamente para alimentar
esse commercio!
Só nos dous departamentos do Beni e de Santa Cruz, ha mais de 200.000
habitantes, população quadrupla da que tem a provincia de Loreto; e é 16
vezes maior do que a desta toda a que vive na região da Bolivia, cuja
sahida natural são as aguas do Madeira!
É, pois, presumivel que, logo depois de melhorada a via deste rio, o
commercio que a Bolivia venha a fazer por meio delle seja quatro vezes
maior do que era em 1855 o da provincia de Loreto, ou de 360.000 pesos
mais ou menos, ainda na supposição de que a principio não seja fornecido
senão pelos departamentos do Beni e de Santa Cruz.
Dentro de dous annos, se crescer na mesma proporção que o do Perú,
poderá triplicar como lá aconteceu, elevando-se a mais de 1.000.000
pesos; somma que subiria de um modo espantoso, caso já então
entrassem com algum contingente Cochabamba, Sucre e La Paz, cujos
departamentos no todo ou em parte estão destinados a ser tambem
tributarios da linha do Madeira.
No termo de 10 annos, se continuar a progredir como o commercio da
provincia peruana, sómente o dos departamentos de Santa Cruz e do Beni
montará ao sextuplo de 360.000 pesos ou a mais de 3.000.000, e o
commercio geral da via do Madeira attingirá a avultada cifra de
$8.640.000 ou mais de 16.000 contos, se neste periodo de tempo, como é
de todo provavel, já fôr alimentado pela producção e pelo consumo dos
800.000 bolivianos, que bebem das aguas do Madeira.
Isto em nada parece inverosimil quando se reflecte que hoje o commercio
interior do porto do Pará, que é o emporio do valle do Amazonas, se
eleva a 15.000:000$000 ou 750.000 pesos[17], provindo entretanto de uma
população, que mesmo reunindo os contingentes do Perú, de Venezuela e
até da propria Bolivia, que nelle têm parte, é inferior a 400.000 almas.
[17] Estes algarismos representão o resultado do anno financeiro de
1864-1865. No de 1851-1852, que precedeu ao estabelecimento da
navegação a vapor do Amazonas, o valor do mesmo commercio não
alcançou a 5.000:000$. Por conseguinte em menos de 15 annos
elevou-se a mais do triplo, graças ao melhoramento dos meios de
transporte!
Se se estabelece a proporção entre o valor do commercio e a população,
chega-se a conclusão de que a Bolivia poderá vir a exportar e importar
pelo Amazonas o duplo do que hoje corresponde a todo o valle, isto é, 15
milhões de pesos ou 30 mil contos, o que tem muitas probabilidades de
verificar-se com o correr dos annos, pois que os bolivianos da bacia do
Madeira não são menos activos e industriosos do que a generalidade dos
productores do valle do Amazonas e porque tambem, ao passo que aqui os
artigos de exportação consistem quasi exclusivamente nos productos da
industria extractiva, lá podem abranger, além dos desta, os da mineira,
agricultora e criadora, accrescendo sobre isto que haverá a permutar não
sómente os fructos da zona intertropical, como tambem os de todos os
climas, que se succedem nos degráos dos Andes desde suas fraldas até
seus elevadissimos planaltos.