Seguro a V. P. que tendo lido muito, visto, e ouvido muito, e asistido

a disputas de toda a considerasam; nam vi ninguem, que se-servise

da-dita Fórma. Nunca vi converter Ereje algum com fórma Silogistica,

nem Ebreo, ou Ateista. E contudo tenho-me achado em algumas partes, com

estas trez sortes de pesoas, e conversado com eles larguisimamente.

Eles me-respondèram sempre com razoens ou boas, ou más; mas nunca

com fórma Silogistica: e quando alguma vez sucedia, que o discurso

caîa em questam de nome; logo me-advertiam, que deixase a Dialetica,

e argumentáse com razoens. Nem menos falei com algum, que me-disese,

ter-lhe sucedido o contrario: nem acho dogma algum, que necesite

da-fórma Silogistica, para se-poder intender, ou explicar. Nam leio

que Cristo, ou os Apostolos se-servisem do-silogismo, para persuadir

as verdades, que defendiam; e propunham: nem acho que a Igreja Romana,

ou os Concilios uzasem desta fórma, para declarar alguma materia

controversa: antes tudo o contrario. Vejo que os SS. PP. encomendam

muito, que os Dogmas se-próvem com razoens solidas, fugindo de todas as

sutilezas da-Dialetica: e que eses mesmos Padres praticam muito bem, o

que encomendam. O que mostra bem, a nenhuma necesidade, ou utilidade

destes termos da-Escola, na Teologia.

Alem disto acho outra nova razam, para desprezar totalmente estas

doutrinas: vem aser, o enfadonho metodo que introduzem, em todo o

genero de discursos. Nam á coiza mais dezagradavel e confuza, que um

longo discurso Dialetico: e nam á discurso, que, reduzido ao metodo

da-Escola, nam seja longuisimo. Um paragrafo de discurso familiar

mui breve e claro, reduzido a silogismos, enche boa meia folha de

papel. Ouvem-se cem vezes os mesmos termos: porque cada silogismo

deve repetir, uma das-propozisoens do-antecedente. E tudo aquilo

se-pode dizer, em breves palavras, e com muita clareza, sem nem menos

introduzir um silogismo. Polo contrario, quando entra o silogismo, é

necesario recorrer, a propozisoens gerais, que nam toam bem, nem provam

muito: e tem mais aparencia de declamasam, que de prova filozofica, e

discurso sensato.

Esta simplez propozisam: _Quero-vos bem, pois vos-tenho obedecido, e

nam podeis duvidar, da-sinceridade comque vos-sirvo: porque tendes

experiencia constante, deque a nenhum outro o-faso_: pode dar de si

bastantes silogismos, se ouver quem a-dilate. v. g. _Quem faz a outro,

tudo o que lhe-pede; dá sinal certo, de lhe-querer bem. Eu tenho-vos

feito, quanto me-tendes pedido: logo tenho-vos dado um sinal certo,

deque vos-quero bem. O sinal certo do-querer bem, nam pode separar-se,

do-mesmo querer bem: logo se eu vos-dou um sinal certo, deque vos-quero

bem, obedecendo ao que me-ordenais; é certo, que vos-quero bem. Provo

a maior. Quem faz a outro, tudo o que lhe-pede, e o outro nam pode

duvidar, da-sinceridade com que lhe-obedece; dá-lhe um sinal certo,

de lhe-querer bem. Eu tenho-vos feito quanto me-pedistes, e alem diso

vós nam podeis duvidar, da-sinceridade do-afeto, com que vos-sirvo:

logo fazendo-vos o que me-pedis, dou-vos um sinal certo, de vos-querer

bem. Provo esta maior. Quem tendo uma experiencia constante, deque um

sugeito que conhece, a ninguem costuma servir; nam obstante iso tem

outra experiencia constante, deque este mesmo sugeito o-serve a ele;

recebe um sinal certo, da-sinceridade com que lhe-obedece. Vós tendo

constante experiencia, deque eu nam sirvo a ninguem; nam obstante

iso tendes outra experiencia constante, que eu sempre vos-sirvo, e

obedeso: Logo tendo vós estas duas experiencias, recebeis um sinal

certo, da-sinceridade com que vos-obedeso._ Nam quero continuar mais,

os silogismos da-_maior_: e nem menos quero continuar, as provas

da-primeira _menor subsumpta_: o que dise basta para provar, que

qualquer pequena propozisam composta, pode produzir mil silogismos.

Ora é certo, que a primeira propozisam é clara, e todos a-intendem: e

aquela longa enfiada de silogismos é oscura, e só a-intendem, os que

sabem a fórma Silogistica: e contudo iso nam diz mais, doque dizia

a primeira propozisam. Do-que se-conclue, que o dito metodo se-deve

desprezar, quando nam fose por-outra razam mais, que por-ser enfadonho,

e cauzar molestia sem utilidade.

Dirmeá V. P. que este meu discurso tem por-fim, condenar todo o

silogismo: e desterrar do-mundo todos os livros, que se-explicam

por-silogismos: e mostrar, que nam só sam inutis, mas prejudiciais:

como ja me-respondeo um Dialetico. Mas a isto respondo, que nam é esa

a minha intensam. Confeso, que todos os nosos discursos, se-podem

reduzir em silogismos: um sermam, um discurso familiar, uma escritura

que persuade, um inteiro livro, pode-se chamar, silogismo composto

de infinitos termos obliquos: nas mesmas demonstrasoens matematicas,

se-podem descobrir silogismos. Ainda digo mais, nam á discurso que

persuada, que nam seja em vigor de um silogismo, ou claro, ou oculto.

Contudo iso defendo, que de pouca ou nenhuma utilidade é o silogismo,

para quem á-de discorrer bem. Nam é o mesmo intervir o silogismo em

tudo, que ser a unica arma, com que se-discorre bem; desorteque quem

nam tem esa noticia, seja obrigado a discorrer mal. Quando Aristoteles

escreveo, as suas reflexoens sobre o silogismo; nam nos-quiz ensinar,

a fazer silogismos; porque iso fazemos nós sem reflexam, nem estudo

algum: quiz somente mostrar-nos, em que se-fundava, a verdade dos-nosos

conhecimentos discursivos: e como procedia o intendimento, quando

consentia em algum objeto. Porem nam devemos daqui inferir, que sem

praticar advertidamente, tudo o que ele propoem, nam posamos discorrer

bem: nam senhor: a dita noticia é mais especulativa, que pratica.

Abráse V. P. bons principios, e evidentes; e verá que perfeitos

raciocinios fórma, sem noticia alguma da-Silogistica: explicarmeei com

um exemplo. Para comer alguma coiza, e com iso sustentar-se um omem,

é necesario mover uma grande quantidade de musculos, que se-movem

matematicamente. Quer-se uma particular dispozisam da-lingua, para

empurrar o comer para os-dentes, e despois para a goela: quer-se

a saliva, para ajudar a triturasam, e o fermento no-estomago: e

finalmente mil outras coizas, que agora me-nam-ocorrem. Tudo isto é

tam necesario, e estas coizas estam tam unidas, que faltando uma, nam

sucederia o cazo. Seria porem louco quem, ouvindo isto, nam quizese

comer, sem saber primeiro tudo, quanto tem dito os Matematicos, sobre

as leis do-movimento, e sobre a Mecanica: como tambem tudo o que tem

dito os Anatomicos; sobre os ditos musculos, umores, fermentasoens &c.

Este omem morreria de fome, no-mesmo tempo que outro, rindo-se da-sua

loucura, comeria mui descansado, e com muito gosto. A razam disto

é: porque sem tanta erudisam, a machina do-noso corpo está disposta

em modo, que metendo o comer na boca, e querendo mastigar, (fóra

dos-impedimentos) tudo aquilo se-faz, sem estudo ou reflexam alguma.

Damesma sorte a machina espiritual da-nosa alma, (se me-é licito,

servir-me desta expresam) recebeo tal faculdade de Deus, que conhece

todas as coizas evidentes, e especialmente a conexam de umas ideias

com outras, sem estudo ou artificio algum: aindaque nese mesmo ato de

conhecer, pratique aquilo, que superfluamente aprenderia de outro.

Daqui fica claro, que servindo-nos do-silogismo para persuadir, nem

por-iso somos obrigados, a saber estas coizas. Contudo aprovo que

se aprenda, alguma noticia mais geral: o que se-pode fazer em duas

palavras. Pode alem diso o silogismo ter seu uzo entre aqueles, que

desde rapazes estam acostumados a ele. Quizera porem que a gente

reconhecèse, que o silogismo vale dez, e nam cem, nem mil: e que nam

nos-quebrasem a cabesa com o silogismo, como uma invensam singular,

para conhecer a verdade, e aumentar os conhecimentos, nas Ciencias.

Explico isto com outro exemplo, de que ja se-servio um grande omem,

do-seculo pasado. Vemos omens de vista tam curta, que nam podem

ver distintamente os objetos, em alguma distancia, sem uns oculos

sumamente concavos de uma, ou de ambas as partes. Mas porque eles nam

vem sem eles, nem por-iso devem julgar o mesmo, dos-outros: porque á

muitos, que vem maravilhozamente, sem tal socorro. Damesma sorte a

alma dos-Escolasticos, nam ve sem os oculos do-silogismo: que lhe-fasa

muito bom proveito, e se-sirvam deles quanto quizerem: a alma porem

dos-outros omens, exercitando-se em discorrer com advertencia, pode

ver a conexam das-ideias, sem aquele socorro. Sirva-se cadaum do-que

quizer, e mais lhe-convier: o que importa é, que os Peripateticos nam

julguem todos, pola mesma medida: e da-falta de oculos nos-outros, nam

infiram, que todo o mais mundo anda às cegas.

Conheso, que algumas vezes se-pode uzar do-dito metodo, com utilidade;

quando se-quer introduzir um dialogo, para evitar os discursos

compridos, e oratorios. Mas em tal cazo sam necesarias varias cautelas,

para ser util o dito metodo: porque se deixamos provar a cadaum o que

quer; caimos no-defeito, que queria-mos evitar. Deve pois evitar-se

toda a superfluidade, e tocar unicamente o ponto da-questam. Mas

neste cazo, nam é tanto estimado o tal metodo, por-ser Escolastico,

mas por-ser metodo de dialogo: no-qual se-propoem a dificuldade,

por-uma parte, e da-outra se-lhe-dá a resposta. Temos um belo exemplo,

no-Concilio geral Florentino, congregado por-Eugenio IV. Como nele

se-avia tratar, da-uniam da-Igreja Grega, com a Latina; sobre alguns

pontos em que diversificavam; escolhèram-se seis omens de cada parte,

para examinarem a questam, e dizerem o que se-avia propor, por-uma e

outra parte: e lhe-ordenáram, que, deixados os discursos compridos,

seguisem um metodo breve, e dialetico. Mas quem examina nos atos do-tal

Concilio, que coiza era este metodo dialetico, acha, que nada mais era,

senam um dialogo sem rodeios, nem prolixidades: no-qual de uma parte,

um punha a dificuldade: e da-outra, o seu opozitor respondia sim, ou

nam: ou brevemente dava a razam, porque duvidava &c. Esta foi toda

a Dialetica, que se-praticou na dita disputa: o que bem mostra, que

muitas vezes se-chamou dialetico, o estilo de falar concizo e breve;

sem aquelas Figuras que constituem, o estilo retorico: e isto é o mesmo

que eu digo, ser muito util. Mas nam achará V.P. que se-fizese cazo,

das-ridicularias da-Logica vulgar: ou que, fazendo-se, rezultáse daî

utilidade alguma: que era o que eu asima dizia.

Nem cuido que V. P. me-mostrará, que às Ciencias rezultase utilidade

alguma, do-uzo do-silogismo. A falar verdade, nenhum omem douto cuidou

nunca nestas ridicularias: os sofistas sim. Os seculos do-silogismo

foram os mais barbaros, e ignorantes. Ele comesou cá no-Ocidente

no-IX. seculo: aumentou-se com muito mais exceso no-XI. e durou até o

meio do-XVI. E que coiza boa acha V.P. neses tempos? Polo contrario,

desde o principio do-XVII. em que o silogismo se-comesou a deixar, e

se-procurou outro metodo; o aumento é tam sensivel, que serîa loucura

mostrálo: muito mais neste ultimo seculo, em que os olhos estam mais

abertos. Asimque, com estes exemplos à vista, nam parecerá maravilha

que eu diga, que o silogismo vale pouco, e tem servido de muito pouco:

e que avendo outra ideia melhor, é loucura, demorar-se com ele. De tudo

isto concluo, que a Logica que pode servir no-mundo, é mui diversa,

desta chamada Logica das-escolas: a qual por-muitos principios nem

menos se-deve ler. Creio que V.P. me-perdoará esta digresam, com que

interrompi, o que lhe-queria dizer da-Logica; se-quizer refletir, que

nam é alheia do-meu argumento: antes justifica o que abaixo lhe-direi,

e me-poupa algumas repetisoens. Torno à ideia, que lhe-queria dar

da-Logica.

Digo pois, que o metodo de filozofar nam se-deve seguir, porque o

diz este, ou aquele autor: mas porque a razam e experiencia mostram,

que se-deve abrasar. Isto é o que eu nam poso meter em cabesa, a

muita gente: porque a maior parte do-mundo, nam examina os principios

das-coizas; mas vam uns detraz dos-outros como carneiros; sem mais

eleisam, que o costume: e antes querem errar, por-cabesa alheia, que

acertar pola propria. Persuadem-se, que os velhos nam podem ensinar,

coiza alguma má: e recebem os tais ditames, com a posivel venerasam.

Nenhum toma o trabalho de examinar, se a opiniam é boa, ou má: uma vez

que a-diseram os antigos mestres, é o que basta. De que nace, que omens

de ingenho mui perspicaz, seguem doutrinas contrarias a toda a boa

razam; e que eles mesmos dezaprovam, quando lhas-explicam bem. Entre

tantos Peripateticos, que V.P. conhece, nam achará algum que duvidáse

uma só vez, se Aristoteles na sua Logica dise bem, ou mal: como conste

que o-dise Aristoteles, é o que basta: nam faltará modo de explicar,

a dita doutrina, ou texto. E deste principio nacem, aqueles grandes

comentarios, com que amofinam a paciencia ao mundo; e fazem perder o

tempo, nas escolas.

Bem claro é que um omem, que escrupulozamente comenta um autor,

supoem ser verdade, quanto ele diz: pois de outra sorte, devia fazer

um rigorozo exame, na materia que comenta. E eisaqui tem V.P. que

estes tais, querendo ensinar aos outros a discorrer bem, eles sam os

primeiros, que discorrem muito mal. Falava eu em certa ocaziam, com um

mestre Peripatetico, e caindo o discurso sobre uma destas materias,

me-produzio ele um texto do-Filozofo, em uma questam bem controversa.

Respondi eu, que nam me importava, o que dizia o Filozofo, mas o que

ele na dita conversasam me-provava. Aqui admirado o omem clama logo,

V.P. nam pode negar o texto: deve explicálo. ao que eu pontualmente

respondi: Quem lhe-dise a V.P. que eu nam poso negar o texto? dise-lho

algum concilio Ecumenico, ou algum texto da-Escritura? Se V.P.

me-citáse, alguma propozisam de Euclides; em tal cazo lha-admetiria;

nam porque Euclides o-dise, mas porque a evidencia mostra, que dise

bem; e todos reconhecem a verdade, das-ditas propozisoens: fóra daqui

nam admito senam aquilo, que me-provam com clareza, e verdade. Onde

é necesario que V.P. primeiro que tudo, me-prove trez coizas. 1. Que

Aristoteles nam podia dizer uma parvoice, advertidamente. 2. que nam

podia inganar-se. 3. que o que nós oje achamos nos-seus escritos,

seja verdadeiramente o que ele dise: postas estas circunstancias

considerarei entam, o que ei-de responder ao texto. Até aqui o

discurso, que eu tive com o dito Padre. Agora acrecento, que o dito

mestre, ouvindo estas minhas razoens, nam se-aquietou: mas continuou

de admirar-se damesma sorte, que se nam lhe-tivesem respondido coiza

alguma.

Concluo pois, que é necesario seja bem louco, quem nam conhece, quam

grande impedimento seja, para discorrer bem, seguir as pizadas de um

autor só, ou seja Aristoteles, ou algum moderno. A Verdade, e a Razam

é uma só. Todos podemos discorrer, e intender o que nos-dizem: e quem

fala em maneira que melhor o-intendam, e prova melhor o que diz,

ese é que se-deve seguir, com preferencia aos outros. Se acazo nam

prova o que diz, antes o que diz nam parece bem, ou á razoens para

se-intender, que é mao; nam se-deve fazer cazo, de tais discursos. Esta

é a pedra de toque, nam só da-Logica, mas de qualquer outra Faculdade:

tomar por-principios coizas tais, que as-intendam todos, os que dam

alguma atensam às ditas regras: mas principalmente é necesario, na

Logica. Certamente que a Logica nam foi feita, para Clerigos, ou

Frades, ou pesoas de uma exquizita erudisam: deve servir a todos os que

falam, e raciocinam: e nam só em discursos estudados; mas em qualquer

sorte de discurso, publico ou particular; serio ou agradavel. Se ela

serve, para ensinar a discorrer bem, deve dar ditames, que posam servir

em toda a parte, em que se-discorre, e se-deve discorrer bem. Importa

pouco, o que dise este ou aquele, da-Logica: o que importa é, facilitar

os meios, para nam se-inganar: e buscar para isto um metodo, que a boa

razam persuade ser util, e os omens que tem voto na materia, reconhecem

com razam, e experiencia, ser o unico meio, para conseguir aquele fim.

Alem diso propolo de um modo, que qualquer pesoa de juizo, se-capacite

da-dita verdade. Isto suposto, farei a V.P. algumas reflexoens, sobre

o metodo de dirigir o juizo. Mas devo supor, que falo com um omem, sem

nenhuma preocupasam: e que nam tenha lido Logica alguma: ou, se a-tem

lido, que procure esquecer-se de tudo: mas no-mesmo tempo que tenha

juizo claro, para conhecer as coizas. a este omem farei, as seguintes

reflexoens.

_IDEIA DA LOGICA_

Nós temos uma alma capaz de conhecer, todas as coizas deste mundo.

Recebemos do-Criador esta alma, dotada de maior perspicacia, doque

oje nam temos. O pecado de noso primeiro pai, nos-trouxe por-castigo,

sermos sugeitos ao ingano: e por-pena do-mesmo pecado se-nos-limitou,

a esfera da-nosa perspicacia: nam conhecemos tam bem como ele, e somos

mais sugeitos, a conhecer mal. Contudo a alma é a mesma, que era ao

principio: foi criada para conhecer a Verdade, e ficou-lhe sempre a

propensam para ela: em modo que, quando a alma ve uma verdade clara,

nam pode deixar de conhecèla, e abrasála. Nenhum omem de juizo duvîda,

se é omem: nenhum duvîda, se fala, ou está calado; se está em pé, ou

asentado: por-forsa á-de admetir uma destas coizas, porque sam mui

claras; e uma delas á-de ser verdade. Por-iso nós pecamos, e pecando

nos-desviamos da-verdade da-lei divina, que é tam conforme à boa

razam; porque nam damos atensam, à dita verdade: que se a-desemos, sem

duvida ficariamos persuadidos, que se-devia praticar, o que ela diz.

Mas a rebeldia que experimentamos, no-noso corpo, que com dificuldade

se-sugeita, aos ditames d’alma; é a cauza deste mal. Ele nos-inclina

sempre, para a parte contraria, com a isca de coizas agradaveis: e a

alma, divertida com outras considerasoens, dificultozamente volta os

olhos para a verdade: e por-iso a-nam-recebe: e por-iso peca. Esta é a

origem, de todos os nosos inganos, e de todos os nosos danos. Se a alma

nam fose arrastada, polos tumultos da-fantezia, que comumente a-ingana;

conheceria mui bem toda a verdade: nam só aquelas que conduzem,

para posuir um bem eterno; mas tambem, estas verdades indiferentes

das-coizas naturais: e discorreria sem ingano, em toda a materia: mas

as cauzas dos-inganos sam tam frequentes, nesta vida mortal; que nam é

maravilha, se os omens ajuizam tam mal: e ajuizando asim, obrem em tudo

mal.

Isto suposto, a unica medicina que se-tem achado, para ajuizar bem,

é desviar as cauzas, que nos-conduzem ao ingano. Ponho de parte, o

ajuizar bem para conseguir, a bemaventuransa sobrenatural: (aindaque

daqui posa receber muita luz; contudo como necesita de outras coizas, e

nam é ese o meu argumento; por-iso o-deixo) e falo somente do-discorrer

bem, em todas as outras materias. Digo pois, que o verdadeiro segredo

de ajuizar bem, é desviar as cauzas que nos-inganam, e fazem julgar

mal. Para fazer isto, é necesario examinar os modos, com que a alma

conhece; e meios de que se-serve, para se-explicar.

Nós nam trazemos da-barriga da-maen, conhecimento algum: todos

os-adquerimos despois de nacidos. Basta olhar, para o que faz um

menino; para ver a sua ignorancia, e que nace despido de todo o

conhecimento. Ele aprende a sua lingua, como nós aprendemos uma

lingua estrangeira: quero dizer, asimcomo nós, aprendendo uma lingua

estrangeira, só formamos ideia dos-nomes que vamos aprendendo, e nam

daqueles que ainda nam ouvimos: asim tambem um menino, só tem ideia

das-palavras que ouve, e nenhuma das-outras, que nunca ouvio. Mas alem

diso nem menos tem ideia das-coizas, que significam os tais nomes,

senam das-que ve, ou ouve. Um menino nam profere, senam as palavras

que ouve: só intende e fala daquilo, que lhe-tem dito, ou visto. o

que mostra claramente, que nam tem outros conhecimentos, senam os que

entram polos sentidos. Os que defendem ideias inatas, que mostrem

alguma, que nam entre polos sentidos; ou nam se-deduza das-ideias, que

intráram por-eles: estou certo, que nam aparecerá alguma, a que nam

posamos descobrir, esta origem.

Sam pois os sentidos, as principais portas, polas quais entram as

ideias, na alma. Umas destas ideias entram, por-um só sentido: v. g. a

_Solididade_ dos-Corpos, que entra polo tato: outras entram por-dois

sentidos: v. g. a _figura_, que pode intrar polo tato, e juntamente

polos olhos. Algumas ideias originam-se em nós, com a meditasam, ou

reflexam: deste genero é a _vontade_, _percesam_ &c. Outras entram umas

vezes por-_sensasam_; outras, pola _reflexam_: v.g. o _gosto_, _dor_,

_existencia_, _unidade_, _potencia_, _sucesam_. Finalmente muitas

ideias simplezes, se-originam em nós, por-meio das-cauzas privativas;

tais sam as ideias que nós temos, das-qualidades dos-corpos: v.g. a

ideia de _negrura_ &c. O exame dilatado deste negocio, pertence a outro

lugar: basta por-agora que o Logico conhesa, que por-todas estas vias

podemos receber, ideias simplezes.

Admiravel é a virtude que a alma tem, para unir, e combinar estas

diferentes ideias simplezes, que por-este modo recebe. Verdade é, que

alma nace despida, de todo o conhecimento atual: mas fica mui bem

recompensada, com a virtude de-que Deus a-dotou, de poder conseguir

muitas, e novas ideias, com diferentes combinasoens. Unindo as ideias,

que intráram polos sentidos, fórma a alma muitas outras ideias: outras

vezes examinando as proprias ideias, nacem diferentes ideias na alma.

Desta diferente combinasam de ideias, nacem todas as ideias compostas,

que nesta vida experimentamos.

Mas aindaque sejam infinitas as ideias compostas, que a alma fórma,

podem-se reduzir, a trez sortes de ideias: que sam as ideias

dos-_Modos_, das-_Sustancias_, e das-_Relasoens_. As ideias dos _modos_

sam aquelas ideias que nós formamos, de diversas coizas que nam existem

por-si, mas sam dependencias de outras coizas. v.g. a ideia que eu

tenho de um _triangulo_, de uma _coluna_, de um _circulo_ &c. Estas

ainda sam de duas maneiras: ou sam ideias de _modos simplezes_, ou

de _modos mixtos_. Chamo modos simplezes, às ideias dos-modos, que

sam compostas, de duas ideias damesma especie: v.g. a ideia que eu

tenho de _doze_, de _cem_ &c. que é composta das-ideias, de muitas

unidades juntas: a ideia de _imensidade_, que é composta, da-repetisam

de diferentes ideias de distancia, repetidas sem fim: e como cada

distancia se-supoem ser, uma modificasam de espacio; a dita ideia é

uma ideia composta. Chamo _modo mixto_, uma ideia composta, de modos

de diferente especie: v. g. a ideia de _beleza_, que é um composto

de diferentes cores, e proporsoens, que dá gosto vendo-se. tambem

a idea de _amizade_, _mentira_, _obrigasam &c_. Estas ideias une o

intendimento, sem examinar se existem, ou nam: e a estas dá o nome, que

lhe-parece. Os omens porem comumente, recebem estas ideias dos-outros,

que lhe-explicam o significado, de muitos termos. Desorteque ou

por-aplicasam, ou por-experiencia recebemos as ideias, dos-_modos

mixtos_.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 30 / 32 段