a disputas de toda a considerasam; nam vi ninguem, que se-servise
da-dita Fórma. Nunca vi converter Ereje algum com fórma Silogistica,
nem Ebreo, ou Ateista. E contudo tenho-me achado em algumas partes, com
estas trez sortes de pesoas, e conversado com eles larguisimamente.
Eles me-respondèram sempre com razoens ou boas, ou más; mas nunca
com fórma Silogistica: e quando alguma vez sucedia, que o discurso
caîa em questam de nome; logo me-advertiam, que deixase a Dialetica,
e argumentáse com razoens. Nem menos falei com algum, que me-disese,
ter-lhe sucedido o contrario: nem acho dogma algum, que necesite
da-fórma Silogistica, para se-poder intender, ou explicar. Nam leio
que Cristo, ou os Apostolos se-servisem do-silogismo, para persuadir
as verdades, que defendiam; e propunham: nem acho que a Igreja Romana,
ou os Concilios uzasem desta fórma, para declarar alguma materia
controversa: antes tudo o contrario. Vejo que os SS. PP. encomendam
muito, que os Dogmas se-próvem com razoens solidas, fugindo de todas as
sutilezas da-Dialetica: e que eses mesmos Padres praticam muito bem, o
que encomendam. O que mostra bem, a nenhuma necesidade, ou utilidade
destes termos da-Escola, na Teologia.
Alem disto acho outra nova razam, para desprezar totalmente estas
doutrinas: vem aser, o enfadonho metodo que introduzem, em todo o
genero de discursos. Nam á coiza mais dezagradavel e confuza, que um
longo discurso Dialetico: e nam á discurso, que, reduzido ao metodo
da-Escola, nam seja longuisimo. Um paragrafo de discurso familiar
mui breve e claro, reduzido a silogismos, enche boa meia folha de
papel. Ouvem-se cem vezes os mesmos termos: porque cada silogismo
deve repetir, uma das-propozisoens do-antecedente. E tudo aquilo
se-pode dizer, em breves palavras, e com muita clareza, sem nem menos
introduzir um silogismo. Polo contrario, quando entra o silogismo, é
necesario recorrer, a propozisoens gerais, que nam toam bem, nem provam
muito: e tem mais aparencia de declamasam, que de prova filozofica, e
discurso sensato.
Esta simplez propozisam: _Quero-vos bem, pois vos-tenho obedecido, e
nam podeis duvidar, da-sinceridade comque vos-sirvo: porque tendes
experiencia constante, deque a nenhum outro o-faso_: pode dar de si
bastantes silogismos, se ouver quem a-dilate. v. g. _Quem faz a outro,
tudo o que lhe-pede; dá sinal certo, de lhe-querer bem. Eu tenho-vos
feito, quanto me-tendes pedido: logo tenho-vos dado um sinal certo,
deque vos-quero bem. O sinal certo do-querer bem, nam pode separar-se,
do-mesmo querer bem: logo se eu vos-dou um sinal certo, deque vos-quero
bem, obedecendo ao que me-ordenais; é certo, que vos-quero bem. Provo
a maior. Quem faz a outro, tudo o que lhe-pede, e o outro nam pode
duvidar, da-sinceridade com que lhe-obedece; dá-lhe um sinal certo,
de lhe-querer bem. Eu tenho-vos feito quanto me-pedistes, e alem diso
vós nam podeis duvidar, da-sinceridade do-afeto, com que vos-sirvo:
logo fazendo-vos o que me-pedis, dou-vos um sinal certo, de vos-querer
bem. Provo esta maior. Quem tendo uma experiencia constante, deque um
sugeito que conhece, a ninguem costuma servir; nam obstante iso tem
outra experiencia constante, deque este mesmo sugeito o-serve a ele;
recebe um sinal certo, da-sinceridade com que lhe-obedece. Vós tendo
constante experiencia, deque eu nam sirvo a ninguem; nam obstante
iso tendes outra experiencia constante, que eu sempre vos-sirvo, e
obedeso: Logo tendo vós estas duas experiencias, recebeis um sinal
certo, da-sinceridade com que vos-obedeso._ Nam quero continuar mais,
os silogismos da-_maior_: e nem menos quero continuar, as provas
da-primeira _menor subsumpta_: o que dise basta para provar, que
qualquer pequena propozisam composta, pode produzir mil silogismos.
Ora é certo, que a primeira propozisam é clara, e todos a-intendem: e
aquela longa enfiada de silogismos é oscura, e só a-intendem, os que
sabem a fórma Silogistica: e contudo iso nam diz mais, doque dizia
a primeira propozisam. Do-que se-conclue, que o dito metodo se-deve
desprezar, quando nam fose por-outra razam mais, que por-ser enfadonho,
e cauzar molestia sem utilidade.
Dirmeá V. P. que este meu discurso tem por-fim, condenar todo o
silogismo: e desterrar do-mundo todos os livros, que se-explicam
por-silogismos: e mostrar, que nam só sam inutis, mas prejudiciais:
como ja me-respondeo um Dialetico. Mas a isto respondo, que nam é esa
a minha intensam. Confeso, que todos os nosos discursos, se-podem
reduzir em silogismos: um sermam, um discurso familiar, uma escritura
que persuade, um inteiro livro, pode-se chamar, silogismo composto
de infinitos termos obliquos: nas mesmas demonstrasoens matematicas,
se-podem descobrir silogismos. Ainda digo mais, nam á discurso que
persuada, que nam seja em vigor de um silogismo, ou claro, ou oculto.
Contudo iso defendo, que de pouca ou nenhuma utilidade é o silogismo,
para quem á-de discorrer bem. Nam é o mesmo intervir o silogismo em
tudo, que ser a unica arma, com que se-discorre bem; desorteque quem
nam tem esa noticia, seja obrigado a discorrer mal. Quando Aristoteles
escreveo, as suas reflexoens sobre o silogismo; nam nos-quiz ensinar,
a fazer silogismos; porque iso fazemos nós sem reflexam, nem estudo
algum: quiz somente mostrar-nos, em que se-fundava, a verdade dos-nosos
conhecimentos discursivos: e como procedia o intendimento, quando
consentia em algum objeto. Porem nam devemos daqui inferir, que sem
praticar advertidamente, tudo o que ele propoem, nam posamos discorrer
bem: nam senhor: a dita noticia é mais especulativa, que pratica.
Abráse V. P. bons principios, e evidentes; e verá que perfeitos
raciocinios fórma, sem noticia alguma da-Silogistica: explicarmeei com
um exemplo. Para comer alguma coiza, e com iso sustentar-se um omem,
é necesario mover uma grande quantidade de musculos, que se-movem
matematicamente. Quer-se uma particular dispozisam da-lingua, para
empurrar o comer para os-dentes, e despois para a goela: quer-se
a saliva, para ajudar a triturasam, e o fermento no-estomago: e
finalmente mil outras coizas, que agora me-nam-ocorrem. Tudo isto é
tam necesario, e estas coizas estam tam unidas, que faltando uma, nam
sucederia o cazo. Seria porem louco quem, ouvindo isto, nam quizese
comer, sem saber primeiro tudo, quanto tem dito os Matematicos, sobre
as leis do-movimento, e sobre a Mecanica: como tambem tudo o que tem
dito os Anatomicos; sobre os ditos musculos, umores, fermentasoens &c.
Este omem morreria de fome, no-mesmo tempo que outro, rindo-se da-sua
loucura, comeria mui descansado, e com muito gosto. A razam disto
é: porque sem tanta erudisam, a machina do-noso corpo está disposta
em modo, que metendo o comer na boca, e querendo mastigar, (fóra
dos-impedimentos) tudo aquilo se-faz, sem estudo ou reflexam alguma.
Damesma sorte a machina espiritual da-nosa alma, (se me-é licito,
servir-me desta expresam) recebeo tal faculdade de Deus, que conhece
todas as coizas evidentes, e especialmente a conexam de umas ideias
com outras, sem estudo ou artificio algum: aindaque nese mesmo ato de
conhecer, pratique aquilo, que superfluamente aprenderia de outro.
Daqui fica claro, que servindo-nos do-silogismo para persuadir, nem
por-iso somos obrigados, a saber estas coizas. Contudo aprovo que
se aprenda, alguma noticia mais geral: o que se-pode fazer em duas
palavras. Pode alem diso o silogismo ter seu uzo entre aqueles, que
desde rapazes estam acostumados a ele. Quizera porem que a gente
reconhecèse, que o silogismo vale dez, e nam cem, nem mil: e que nam
nos-quebrasem a cabesa com o silogismo, como uma invensam singular,
para conhecer a verdade, e aumentar os conhecimentos, nas Ciencias.
Explico isto com outro exemplo, de que ja se-servio um grande omem,
do-seculo pasado. Vemos omens de vista tam curta, que nam podem
ver distintamente os objetos, em alguma distancia, sem uns oculos
sumamente concavos de uma, ou de ambas as partes. Mas porque eles nam
vem sem eles, nem por-iso devem julgar o mesmo, dos-outros: porque á
muitos, que vem maravilhozamente, sem tal socorro. Damesma sorte a
alma dos-Escolasticos, nam ve sem os oculos do-silogismo: que lhe-fasa
muito bom proveito, e se-sirvam deles quanto quizerem: a alma porem
dos-outros omens, exercitando-se em discorrer com advertencia, pode
ver a conexam das-ideias, sem aquele socorro. Sirva-se cadaum do-que
quizer, e mais lhe-convier: o que importa é, que os Peripateticos nam
julguem todos, pola mesma medida: e da-falta de oculos nos-outros, nam
infiram, que todo o mais mundo anda às cegas.
Conheso, que algumas vezes se-pode uzar do-dito metodo, com utilidade;
quando se-quer introduzir um dialogo, para evitar os discursos
compridos, e oratorios. Mas em tal cazo sam necesarias varias cautelas,
para ser util o dito metodo: porque se deixamos provar a cadaum o que
quer; caimos no-defeito, que queria-mos evitar. Deve pois evitar-se
toda a superfluidade, e tocar unicamente o ponto da-questam. Mas
neste cazo, nam é tanto estimado o tal metodo, por-ser Escolastico,
mas por-ser metodo de dialogo: no-qual se-propoem a dificuldade,
por-uma parte, e da-outra se-lhe-dá a resposta. Temos um belo exemplo,
no-Concilio geral Florentino, congregado por-Eugenio IV. Como nele
se-avia tratar, da-uniam da-Igreja Grega, com a Latina; sobre alguns
pontos em que diversificavam; escolhèram-se seis omens de cada parte,
para examinarem a questam, e dizerem o que se-avia propor, por-uma e
outra parte: e lhe-ordenáram, que, deixados os discursos compridos,
seguisem um metodo breve, e dialetico. Mas quem examina nos atos do-tal
Concilio, que coiza era este metodo dialetico, acha, que nada mais era,
senam um dialogo sem rodeios, nem prolixidades: no-qual de uma parte,
um punha a dificuldade: e da-outra, o seu opozitor respondia sim, ou
nam: ou brevemente dava a razam, porque duvidava &c. Esta foi toda
a Dialetica, que se-praticou na dita disputa: o que bem mostra, que
muitas vezes se-chamou dialetico, o estilo de falar concizo e breve;
sem aquelas Figuras que constituem, o estilo retorico: e isto é o mesmo
que eu digo, ser muito util. Mas nam achará V.P. que se-fizese cazo,
das-ridicularias da-Logica vulgar: ou que, fazendo-se, rezultáse daî
utilidade alguma: que era o que eu asima dizia.
Nem cuido que V. P. me-mostrará, que às Ciencias rezultase utilidade
alguma, do-uzo do-silogismo. A falar verdade, nenhum omem douto cuidou
nunca nestas ridicularias: os sofistas sim. Os seculos do-silogismo
foram os mais barbaros, e ignorantes. Ele comesou cá no-Ocidente
no-IX. seculo: aumentou-se com muito mais exceso no-XI. e durou até o
meio do-XVI. E que coiza boa acha V.P. neses tempos? Polo contrario,
desde o principio do-XVII. em que o silogismo se-comesou a deixar, e
se-procurou outro metodo; o aumento é tam sensivel, que serîa loucura
mostrálo: muito mais neste ultimo seculo, em que os olhos estam mais
abertos. Asimque, com estes exemplos à vista, nam parecerá maravilha
que eu diga, que o silogismo vale pouco, e tem servido de muito pouco:
e que avendo outra ideia melhor, é loucura, demorar-se com ele. De tudo
isto concluo, que a Logica que pode servir no-mundo, é mui diversa,
desta chamada Logica das-escolas: a qual por-muitos principios nem
menos se-deve ler. Creio que V.P. me-perdoará esta digresam, com que
interrompi, o que lhe-queria dizer da-Logica; se-quizer refletir, que
nam é alheia do-meu argumento: antes justifica o que abaixo lhe-direi,
e me-poupa algumas repetisoens. Torno à ideia, que lhe-queria dar
da-Logica.
Digo pois, que o metodo de filozofar nam se-deve seguir, porque o
diz este, ou aquele autor: mas porque a razam e experiencia mostram,
que se-deve abrasar. Isto é o que eu nam poso meter em cabesa, a
muita gente: porque a maior parte do-mundo, nam examina os principios
das-coizas; mas vam uns detraz dos-outros como carneiros; sem mais
eleisam, que o costume: e antes querem errar, por-cabesa alheia, que
acertar pola propria. Persuadem-se, que os velhos nam podem ensinar,
coiza alguma má: e recebem os tais ditames, com a posivel venerasam.
Nenhum toma o trabalho de examinar, se a opiniam é boa, ou má: uma vez
que a-diseram os antigos mestres, é o que basta. De que nace, que omens
de ingenho mui perspicaz, seguem doutrinas contrarias a toda a boa
razam; e que eles mesmos dezaprovam, quando lhas-explicam bem. Entre
tantos Peripateticos, que V.P. conhece, nam achará algum que duvidáse
uma só vez, se Aristoteles na sua Logica dise bem, ou mal: como conste
que o-dise Aristoteles, é o que basta: nam faltará modo de explicar,
a dita doutrina, ou texto. E deste principio nacem, aqueles grandes
comentarios, com que amofinam a paciencia ao mundo; e fazem perder o
tempo, nas escolas.
Bem claro é que um omem, que escrupulozamente comenta um autor,
supoem ser verdade, quanto ele diz: pois de outra sorte, devia fazer
um rigorozo exame, na materia que comenta. E eisaqui tem V.P. que
estes tais, querendo ensinar aos outros a discorrer bem, eles sam os
primeiros, que discorrem muito mal. Falava eu em certa ocaziam, com um
mestre Peripatetico, e caindo o discurso sobre uma destas materias,
me-produzio ele um texto do-Filozofo, em uma questam bem controversa.
Respondi eu, que nam me importava, o que dizia o Filozofo, mas o que
ele na dita conversasam me-provava. Aqui admirado o omem clama logo,
V.P. nam pode negar o texto: deve explicálo. ao que eu pontualmente
respondi: Quem lhe-dise a V.P. que eu nam poso negar o texto? dise-lho
algum concilio Ecumenico, ou algum texto da-Escritura? Se V.P.
me-citáse, alguma propozisam de Euclides; em tal cazo lha-admetiria;
nam porque Euclides o-dise, mas porque a evidencia mostra, que dise
bem; e todos reconhecem a verdade, das-ditas propozisoens: fóra daqui
nam admito senam aquilo, que me-provam com clareza, e verdade. Onde
é necesario que V.P. primeiro que tudo, me-prove trez coizas. 1. Que
Aristoteles nam podia dizer uma parvoice, advertidamente. 2. que nam
podia inganar-se. 3. que o que nós oje achamos nos-seus escritos,
seja verdadeiramente o que ele dise: postas estas circunstancias
considerarei entam, o que ei-de responder ao texto. Até aqui o
discurso, que eu tive com o dito Padre. Agora acrecento, que o dito
mestre, ouvindo estas minhas razoens, nam se-aquietou: mas continuou
de admirar-se damesma sorte, que se nam lhe-tivesem respondido coiza
alguma.
Concluo pois, que é necesario seja bem louco, quem nam conhece, quam
grande impedimento seja, para discorrer bem, seguir as pizadas de um
autor só, ou seja Aristoteles, ou algum moderno. A Verdade, e a Razam
é uma só. Todos podemos discorrer, e intender o que nos-dizem: e quem
fala em maneira que melhor o-intendam, e prova melhor o que diz,
ese é que se-deve seguir, com preferencia aos outros. Se acazo nam
prova o que diz, antes o que diz nam parece bem, ou á razoens para
se-intender, que é mao; nam se-deve fazer cazo, de tais discursos. Esta
é a pedra de toque, nam só da-Logica, mas de qualquer outra Faculdade:
tomar por-principios coizas tais, que as-intendam todos, os que dam
alguma atensam às ditas regras: mas principalmente é necesario, na
Logica. Certamente que a Logica nam foi feita, para Clerigos, ou
Frades, ou pesoas de uma exquizita erudisam: deve servir a todos os que
falam, e raciocinam: e nam só em discursos estudados; mas em qualquer
sorte de discurso, publico ou particular; serio ou agradavel. Se ela
serve, para ensinar a discorrer bem, deve dar ditames, que posam servir
em toda a parte, em que se-discorre, e se-deve discorrer bem. Importa
pouco, o que dise este ou aquele, da-Logica: o que importa é, facilitar
os meios, para nam se-inganar: e buscar para isto um metodo, que a boa
razam persuade ser util, e os omens que tem voto na materia, reconhecem
com razam, e experiencia, ser o unico meio, para conseguir aquele fim.
Alem diso propolo de um modo, que qualquer pesoa de juizo, se-capacite
da-dita verdade. Isto suposto, farei a V.P. algumas reflexoens, sobre
o metodo de dirigir o juizo. Mas devo supor, que falo com um omem, sem
nenhuma preocupasam: e que nam tenha lido Logica alguma: ou, se a-tem
lido, que procure esquecer-se de tudo: mas no-mesmo tempo que tenha
juizo claro, para conhecer as coizas. a este omem farei, as seguintes
reflexoens.
_IDEIA DA LOGICA_
Nós temos uma alma capaz de conhecer, todas as coizas deste mundo.
Recebemos do-Criador esta alma, dotada de maior perspicacia, doque
oje nam temos. O pecado de noso primeiro pai, nos-trouxe por-castigo,
sermos sugeitos ao ingano: e por-pena do-mesmo pecado se-nos-limitou,
a esfera da-nosa perspicacia: nam conhecemos tam bem como ele, e somos
mais sugeitos, a conhecer mal. Contudo a alma é a mesma, que era ao
principio: foi criada para conhecer a Verdade, e ficou-lhe sempre a
propensam para ela: em modo que, quando a alma ve uma verdade clara,
nam pode deixar de conhecèla, e abrasála. Nenhum omem de juizo duvîda,
se é omem: nenhum duvîda, se fala, ou está calado; se está em pé, ou
asentado: por-forsa á-de admetir uma destas coizas, porque sam mui
claras; e uma delas á-de ser verdade. Por-iso nós pecamos, e pecando
nos-desviamos da-verdade da-lei divina, que é tam conforme à boa
razam; porque nam damos atensam, à dita verdade: que se a-desemos, sem
duvida ficariamos persuadidos, que se-devia praticar, o que ela diz.
Mas a rebeldia que experimentamos, no-noso corpo, que com dificuldade
se-sugeita, aos ditames d’alma; é a cauza deste mal. Ele nos-inclina
sempre, para a parte contraria, com a isca de coizas agradaveis: e a
alma, divertida com outras considerasoens, dificultozamente volta os
olhos para a verdade: e por-iso a-nam-recebe: e por-iso peca. Esta é a
origem, de todos os nosos inganos, e de todos os nosos danos. Se a alma
nam fose arrastada, polos tumultos da-fantezia, que comumente a-ingana;
conheceria mui bem toda a verdade: nam só aquelas que conduzem,
para posuir um bem eterno; mas tambem, estas verdades indiferentes
das-coizas naturais: e discorreria sem ingano, em toda a materia: mas
as cauzas dos-inganos sam tam frequentes, nesta vida mortal; que nam é
maravilha, se os omens ajuizam tam mal: e ajuizando asim, obrem em tudo
mal.
Isto suposto, a unica medicina que se-tem achado, para ajuizar bem,
é desviar as cauzas, que nos-conduzem ao ingano. Ponho de parte, o
ajuizar bem para conseguir, a bemaventuransa sobrenatural: (aindaque
daqui posa receber muita luz; contudo como necesita de outras coizas, e
nam é ese o meu argumento; por-iso o-deixo) e falo somente do-discorrer
bem, em todas as outras materias. Digo pois, que o verdadeiro segredo
de ajuizar bem, é desviar as cauzas que nos-inganam, e fazem julgar
mal. Para fazer isto, é necesario examinar os modos, com que a alma
conhece; e meios de que se-serve, para se-explicar.
Nós nam trazemos da-barriga da-maen, conhecimento algum: todos
os-adquerimos despois de nacidos. Basta olhar, para o que faz um
menino; para ver a sua ignorancia, e que nace despido de todo o
conhecimento. Ele aprende a sua lingua, como nós aprendemos uma
lingua estrangeira: quero dizer, asimcomo nós, aprendendo uma lingua
estrangeira, só formamos ideia dos-nomes que vamos aprendendo, e nam
daqueles que ainda nam ouvimos: asim tambem um menino, só tem ideia
das-palavras que ouve, e nenhuma das-outras, que nunca ouvio. Mas alem
diso nem menos tem ideia das-coizas, que significam os tais nomes,
senam das-que ve, ou ouve. Um menino nam profere, senam as palavras
que ouve: só intende e fala daquilo, que lhe-tem dito, ou visto. o
que mostra claramente, que nam tem outros conhecimentos, senam os que
entram polos sentidos. Os que defendem ideias inatas, que mostrem
alguma, que nam entre polos sentidos; ou nam se-deduza das-ideias, que
intráram por-eles: estou certo, que nam aparecerá alguma, a que nam
posamos descobrir, esta origem.
Sam pois os sentidos, as principais portas, polas quais entram as
ideias, na alma. Umas destas ideias entram, por-um só sentido: v. g. a
_Solididade_ dos-Corpos, que entra polo tato: outras entram por-dois
sentidos: v. g. a _figura_, que pode intrar polo tato, e juntamente
polos olhos. Algumas ideias originam-se em nós, com a meditasam, ou
reflexam: deste genero é a _vontade_, _percesam_ &c. Outras entram umas
vezes por-_sensasam_; outras, pola _reflexam_: v.g. o _gosto_, _dor_,
_existencia_, _unidade_, _potencia_, _sucesam_. Finalmente muitas
ideias simplezes, se-originam em nós, por-meio das-cauzas privativas;
tais sam as ideias que nós temos, das-qualidades dos-corpos: v.g. a
ideia de _negrura_ &c. O exame dilatado deste negocio, pertence a outro
lugar: basta por-agora que o Logico conhesa, que por-todas estas vias
podemos receber, ideias simplezes.
Admiravel é a virtude que a alma tem, para unir, e combinar estas
diferentes ideias simplezes, que por-este modo recebe. Verdade é, que
alma nace despida, de todo o conhecimento atual: mas fica mui bem
recompensada, com a virtude de-que Deus a-dotou, de poder conseguir
muitas, e novas ideias, com diferentes combinasoens. Unindo as ideias,
que intráram polos sentidos, fórma a alma muitas outras ideias: outras
vezes examinando as proprias ideias, nacem diferentes ideias na alma.
Desta diferente combinasam de ideias, nacem todas as ideias compostas,
que nesta vida experimentamos.
Mas aindaque sejam infinitas as ideias compostas, que a alma fórma,
podem-se reduzir, a trez sortes de ideias: que sam as ideias
dos-_Modos_, das-_Sustancias_, e das-_Relasoens_. As ideias dos _modos_
sam aquelas ideias que nós formamos, de diversas coizas que nam existem
por-si, mas sam dependencias de outras coizas. v.g. a ideia que eu
tenho de um _triangulo_, de uma _coluna_, de um _circulo_ &c. Estas
ainda sam de duas maneiras: ou sam ideias de _modos simplezes_, ou
de _modos mixtos_. Chamo modos simplezes, às ideias dos-modos, que
sam compostas, de duas ideias damesma especie: v.g. a ideia que eu
tenho de _doze_, de _cem_ &c. que é composta das-ideias, de muitas
unidades juntas: a ideia de _imensidade_, que é composta, da-repetisam
de diferentes ideias de distancia, repetidas sem fim: e como cada
distancia se-supoem ser, uma modificasam de espacio; a dita ideia é
uma ideia composta. Chamo _modo mixto_, uma ideia composta, de modos
de diferente especie: v. g. a ideia de _beleza_, que é um composto
de diferentes cores, e proporsoens, que dá gosto vendo-se. tambem
a idea de _amizade_, _mentira_, _obrigasam &c_. Estas ideias une o
intendimento, sem examinar se existem, ou nam: e a estas dá o nome, que
lhe-parece. Os omens porem comumente, recebem estas ideias dos-outros,
que lhe-explicam o significado, de muitos termos. Desorteque ou
por-aplicasam, ou por-experiencia recebemos as ideias, dos-_modos
mixtos_.