Aqueles Universais, e Sinais sam coizas indignas de se-lerem: o menos

que neles acho, é a inutilidade: o pior é o metodo: parecem a mesma

confuzam: e de talsorte embrulham a mente, de um pobre principiante,

que nam é facil ao despois, intender bem coiza alguma. Em lugar de

facilitarem a um rapaz, a inteligencia das-coizas; o-confundem com uma

quantidade de sofismas, e sutilezas, tam fóra de propozito; que eu nam

sei, como os mestres nam fazem escrupulo, de perderem tam inutilmente

o tempo. Acrecento a isto, a inutilidade: pois para nenhuma parte

das-Ciencias serve aquilo. O mais que se-tira dos-Sinais é saber, que

as vozes servem, para declarar as ideias da-mente, e os afetos da-alma:

e que mediante as vozes comunicamos aos outros, o que intendemos, e

queremos. Que as vozes nam excitam nos-que ouvem, as ideias de quem

as-profere, por-virtude alguma natural, que tenham para iso: mas porque

asim o-determináram, os omens de uma Nasam. Sendo certo que as vozes,

que em Portugal significam uma coiza, em outro Reino significam coiza

diferente, ou nada significam. Esta é toda a noticia util, que se-tira

dos-Sinais: e isto é coiza que se-aprende, em um quarto de ora: tudo

o mais que dizem dos-Sinais, sam arengas ridiculas, que espremidas na

mam, nam deitam uma gota de doutrina. V.P. que perdeo bastante tempo,

com estas arengas; fasa-me a merce de me-mostrar, alguma questam util,

entre tantas que no-tal tratado se-incluem: estou certo que, uzando

da-sua costumada ingenuidade, me-dirá, que nam acha alguma. De que

fica bem claro, que o tal tratado, é somente divertimento de omens

ociozos. Nem me-faz forsa que o P. * * * me-disèse um dia, que os

Sinais eram o _Apex Philosophiæ_: e o seu P. Colegial * * * me-disèse

mui sezudamente, que os Sinais tinham seu uzo na Teologia: poisque na

_Trindade_ se-falava, em _priori signo_ &c. nem um, nem outro sabia o

que dizia, como as suas respostas mostram: e, aindaque fosem leitores

de Filozofia, tinham necesidade, de a-estudar outra vez.

Quanto aos Universais da-Escola, comque se-gasta tanto tempo, nam

sam melhores que os Sinais: todos sam talhados, pola mesma medida.

Pase V.P. ligeiramente com os olhos, por-aqueles tratados; e me-dirá,

o que acha em tantos cadernos. Ali disputa-se mui largamente, se

se-dá _Universal a parte rei_, como eles lhe-chamam: se a Unidade de

precizam, e Aptidam sejam da-esencia do-Universal: e outras coizas

destas, que quando eu as-considero, fico persuadido; que os que falam

nisto, nam intendem iso mesmo que proferem. Que bulha nam se-faz,

sobre a divizam em cinco especies! que arengas, sobre cada especie

em particular! que confuzoens, sobre as precizoens! Ora eu tomára

que me-disesem, o que se-tira de todo aquele negocio; e que noticia

util para discorrer se-colhe, de todas aquelas confuzoens? Achei

muitos, que, despois de alguns anos de Filozofia, e despois de terem

defendido concluzoens publicas, e com grande aceitasam; nam sabiam,

por-qual razam se-introduzîram os Universais, na Logica. O que digo

dos-Universais, deve-se aplicar aos Predicamentos; que uns introduzem

na Logica, outros na Metafizica: e sobre os quais se-disputa, com igual

fervor.

Os omens mais advertidos entre os Peripateticos, reconhecem a

verdade do-que digo, e sinceramente confesam, que se-deviam cortar,

estas longuisimas disputas, que para nada servem. Peripatetico, e

bem Peripatetico, era o Suares Granatense, o Barreto Portuguez &c.

contudo sam do-meu parecer: e o tal Barreto acrecenta[82], que o

aumento que se-deo aos Sinais, é vicio dos-Portuguezes. Mas tornando

aos Universais, de que falavamos, a unica razam que eles alegam,

para introduzirem esta longa arenga de Universais, e Predicamentos;

é, porque as propozisoens de que se-fazem os silogismos, constam de

predicados universais. Digo pois, se aquilo nam tem mais serventia, que

mostrar, que um nome pode ser _universal_, ou _particular_ &c. de que

serve aquela arenga sempiterna, que nam conduz para iso? Certamente

que, seguindo os seus mesmos principios, tudo aquilo se podia reduzir,

a meia folha de papel.

Nem cuide V. P. que eu reprovo, toda a sorte de exame, das-propozisoens

universais, e particulares: conheso, que iso pode ter seu uzo, e tem

utilidade: mas tambem conheso, que se-deve tratar de outra maneira,

como em seu lugar direi. Somente condeno muito, o que dizem os

Peripateticos; porque nem serve para o intento, que eles propoem; nem

para outro algum: confunde as especies, e intendimento dos-rapazes: e

é o mesmo a que nos chamamos, perder tempo sem interese algum, e sem

saber por-qual razam. Mas prosigamos o curso, da-Logica Peripatetica.

Aos Predicamentos, e Sinais, segue-se o enfadonho tratado de

_Enunciatione_, ou Propozisam. Aqui fazem eles infinitas disputas, tam

fóra de propozito; que eu fico pasmado. Confundem a propozisam _vocal_

com a _mental_, ou ato do-intendimento: ora disputam de uma, ora de

outra: desorteque nam se-pode saber, o que eles querem explicar. Sendo

aquele um tratado, que se-deve explicar mui claramente, para intender

os seguintes; eles o-fazem com tal negligencia, e confuzam, como quem

nam cuidáse neste fim. O melhor que eu acho é, que em vez de proporem

as coizas, em que todos convem; disputam tudo o que propoem: e a cada

propozisam acrecentam, uma longa cadeia de argumentos; e às vezes tam

embrulhados, que um omem adiantado teria trabalho, em lhe-responder.

E como á-de o principiante, formar conceito das-coizas, e executar

os ditames que le; se ele nada acha, em que todos convenham: mas

em cada propozisam acha, quem o-contradiga? Isto è o mesmo, que se

um carpinteiro tomáse um aprendiz, e em lugar de lhe-ensinar, como

se-á-de servir dos-instrumentos; fizese longuisimos discursos, sobre a

diversidade de instrumentos de Carpinteiro: contando-lhe miudamente,

que a alguns nam agradam, aqueles instrumentos: que outros escrevem,

que se-deviam fabricar de outra maneira: e todo o tempo pasáse com isto.

Este é o grande defeito que eu acho, nestas Logicas: nam buscarem

aquelas coizas, em que todos convem, para as-explicar aos estudantes.

nam acharem um metodo de ensinar Logica, comesando por-documentos

claros, que todos intendam: fugindo todo o genero de disputas, que

nam servem para principiantes. Pois este devia ser, todo o seu

cuidado: e quem nam pratica este metodo, nam quer ensinar Logica. Isto

conhecerá V. P. melhor, olhando para as longas disputas, que eles

aqui introduzem, sobre os atos verdadeiros e falsos. Nam é crivel, a

confuzam com que aquilo se-trata. nam é menos admiravel, a quantidade

de coizas falsas, que ali se-supoem, como se fosem demonstrasoens

matematicas. Disputa-se com fervor, se o mesmo ato do-intendimento,

posa pasar de verdadeiro, para falso: e outras coizas destas. Isto

supoem manifestamente, que o dito ato dura algum tempo, na alma;

porque se nam duráse, a questam serîa de nada. Mas isto que eles

supoem, é manifestamente falso. Basta olhar, para as muitas distrasoens

involuntarias, que um omem tem; para conhecer, que a nosa alma está

em continuo movimento de conhecimentos: e que devemos dizer, que ela

nam pára em algum juizo, ou ato. Ainda quando nos-parece, que sempre

cuidamos na mesma coiza, creio eu que nam perziste, o mesmo ato: mas

que a alma muitas, e muitas vezes considera, a mesma coiza: que é o

mesmo que dizer, com atos diferentes. A razam disto nam me-parece

oscura: pois vejo a violencia, que é necesario fazer ao intendimento,

para o-fixar no-mesmo objeto: pois um minuto que nos-descuidamos, ja

estamos em outro objeto. E ainda quando nos-parece, que consideramos

um só, v. g. um painel; é certo que fazemos muitos atos: pois nam

vemos só um ponto, mas diferentes pontos, e partes do-mesmo todo: o

que se-faz, com diversos atos. Nam é crivel, com quanta velocidade

a alma conhece, e pasa de um objeto para outro. Fazemos todos os

instantes mil asoens, que nam advertimos: e contudo é certo, que

a alma as-conhece todas: mas falas com tal velocidade, que parece

as-nam-conhece. Deste genero é o continuo movimento de pestanas, que

nós fazemos; e a alma, por-obediencia da-qual se-faz, o-conhece: e

contudo nenhum de nós adverte tal coiza. O que mostra bem, quam veloz é

a nosa alma, em pasar de um conhecimento para outro. E sendo isto tam

claro, os-Peripateticos, sem fazerem cazo disto, introduzem as suas

longas disertasoens, fundadas sobre um suposto falso. Demos-lhe, que

seja materia duvidoza; sempre é coiza ridicula, propor como coiza certa

um fundamento, que tem tantas aparencias de falsidade: e ocupar o tempo

com isto, devendo ensinar outras coizas.

Mas, para abreviar este exame, pase V. P. comigo, ao tratado de

_Priori resolutione_. Na primeira parte se-disputa eternamente, sobre

os termos, e diversos modos, com que significam as coizas. Isto

explicado bem com clareza, e brevidade, podia servir ao estudante de

alguma coiza: mas iso é o que eles nam fazem: e todo o tempo pasam

em disputar, se o verbo _Est_ pode ser termo; e outras galantarias

destas. O que dizem das-Propozisoens, da-sua Conversam, das-Modais,

é tam embrulhado, e tam inutil; que nam sei, que pior coiza se-posa

dizer. Seguro a V. P. que ja achei Peripateticos, que ingenuamente

me-confesáram, que a maior parte daquelas coizas eram inutis.

Mas sem grande trabalho, cuido que mostrarei a V. P. que tudo aquilo,

que nestas escolas se-disputa, se-deve totalmente pór de parte.

apontarei uma unica razam, que compreende o _Priori, e Posteriori_,

da-Logica vulgar. Examine V. P. com toda a atensam, quanto se-disputa

naquelas duas partes da-Logica, e fasa-me a merce de notar mui

distintamente, algumas coizas. 1.^a Se o que ali se-disputa, é materia

inteligivel. Cuido, que a resposta será clara, se olhar-mos para o que

sucede nos-estudantes: pois é certo, que despois de muitas, e muitas

explicasoens, comumente nam intendem, o que ali se-diz. Apelo, para o

que cadaum experimenta em si, e para o que os mestres experimentam,

nos-dicipulos. Sei polo contrario, que os meninos intendem muito bem

as coizas, se lhas-explicam bem: e sabem dar razam do-seu dito. v.g.

se diserem a um rapaz: _Aquele ramo que ves naquela porta, é sinal

que ali se-vende vinho: porque em todas as partes em que se-vende

vinho, se-costuma pòr aquele sinal; porque asim determináram, os nosos

antigos_: estou certo, que á-de intender facilmente, o que lhe-dizem.

Ora fale-lhe V. P. por-estas palavras: _Aquele ramo é sinal ex

instituto do-vinho: que se-constitue na razam de sinal, por-um respeito

de dependencia do-ato da-vontade, que o-deputou para significar vinho:

polo que se-distingue do-sinal natural, que se-constitue, por-um

respeito de independencia_: Despois de toda esta arenga filozofia, o

tal rapaz intenderá muito menos, o que lhe-dizem, doque se lhe-falasem

em Caldeo. De que vem, que ainda as coizas que se-deviam dizer,

se-dizem de um modo tal, que nam se-intendem. Isto é quanto ao modo de

se-explicar: pasemos à materia.

A 2.^a coiza que V. P. deve notar é, a serventia que tem aquelas

regras, para discorrer sem ingano, em toda a materia. Traga V. P. à

memoria, tudo o que tem estudado de _Priori, e Posteriori_, e tenha

o sofrimento de considerar; se lhe-servem, ou nam, para intender, e

discorrer bem em qualquer materia: ou para provar alguma coiza, que

lhe-seja necesaria; nam só nos-atos publicos quando argumenta, ou

defende; mas ainda no-seu bofete, quando compoem em alguma materia:

ou ainda no-discurso familiar. Tenho tantas provas, da-sua candura

de animo, que nam tenho receio que diga, ter experimentado utilidade.

Mas eu nam quero por-agora, um juiz tam alumiado como V.P. contento-me

que me-respondam os mesmos, que perdem os anos com estas arengas. Eu

os-faso juizes nesta disputa: e lhe-deixo considerar, se, quando eles

provam o que lhe-negam, ou discorrem familiarmente; o-fazem porque

se-lembram das-regras; ou se o-fazem, porque asim se-costuma discorrer

no-mundo: e a lisam que tem tido, lhe-suministra os argumentos e meios

termos: e a natural penetrasam que cadaum tem, lhe-mostra, com a maior

promtidam, a conexam das-partes? O que eu poso dizer neste particular

é, que muitos Escolasticos, como ja apontei, me-diseram, que era

inutil toda aquela machina de regras: e li alguns, damesma opiniam. O

P. Arriaga no-prologo da-sua Filozofia diz claramente, que nam ditou

muitas questoens da-fórma Silogistica, porque lhe-parecèram escuzadas:

e que avendo vinte anos que era mestre; nunca vîra, que pesoa alguma

se-servise da-ponte dos-Asnos, para argumentar, ou responder. E quanto

a esta parte da-_Ponte dos-asnos_, achará V. P. muitos, que dizem ser

inutil.

Mas eu paso adiante com o discurso, e creio, que nem menos me-mostrarám

omem, que se-sirva das-Figuras, ou de alguma das-outras regras; quando

quer provar alguma coiza seria. Conheso, que os que argumentam nesta

materia, para mostrarem que a-tem estudado; ou os que nam querem

argumentar com razoens, mas com palavrinhas, àmaneira dos-sofistas;

poderám fazer algum uzo delas: o que digo é, que quando um omem quer

provar, o que lhe-negam, nunca se-serve, de tais arengas. Se ele tem

ingenho, e doutrina, mais de presa se-lhe-oferece o meio termo, e

modo de o-dizer; doque a regra, que o-ensina. Se nam tem ingenho,

estou certo que nem regras, nem figuras, nem modos, nem coiza alguma

lhe-ocorrerá; com que posa discorrer fundadamente. Nunca me-sucedeo

que, discorrendo comigo, me-viese à imaginasam, servir-me do-silogismo.

nunca vi tratar negocio algum grave, com o meio da-Dialetica: ainda

sendo as partes, pesoas de toda a penetrasam; e tendo perdido muito

tempo, com a Dialetica. Isto da-Logica é o mesmo, que a Retorica: os

ignorantes das-regras, se tem ingenho e alguma lisam, oram e provam

melhor o que dizem, doque os Logicos e Oradores da-Escola. O omem

ignorante das-regras, nam perde tempo com palavrinhas, mas vai direito

à razam, e busca aquelas que conduzem, ao seu intento. Ora é sem

duvida, que as razoens, e nam as palavras, sam as que persuadem, e

provam o que se-quer. Poderám as palavras, e modo com que se-diz, dar

mais luz às razoens: mas palavras sem razoens nada provam. E esta é

a razam, porque os Logicos finos discorrem pior, que os que nam sam

Logicos. E esta mesma razam me-dá fundamento para dizer, que é melhor

que nam se-fale, em tais regras.

Acho ainda outra razam, e cuido ser mais forte, para nam seguir este

metodo do-silogismo; vem aser, que o silogismo nam serve em modo

algum, de ajudar a razam, para que aumente os seus conhecimentos,

e neles discorra bem. Quando se-á-de persuadir, e discorrer bem, o

primeiro e principal ponto está, em descobrir as provas: o segundo, em

dispolas com tal ordem, que se-conhesa clara e facilmente, a conexam

e forsa delas: o terceiro, em conhecer claramente, a conexam de cada

parte da-dedusam: o quarto, em tirar uma boa concluzam do-todo. Estes

diferentes graos se-conhecem muito bem, em qualquer demonstrasam

matematica. Uma coiza é, perceber a conexam de cada parte, ao mesmo

tempo que um mestre vai explicando a demonstrasam: outra coiza

diferente, conhecer a dependencia, que a concluzam tem, de todas as

partes da-demonstrasam: terceira coiza muito diferente, conhecer

por-simesmo clara e distintamente, uma demonstrasam: e finalmente uma

quarta coiza, totalmente diferente das-trez, ter achado as provas,

de que se-compoem a demonstrasam. O que suposto, o silogismo nam

faz mais, que mostrar a conexam das-partes, sem ensinar a buscar as

provas: onde fica claro, que nam é de grande socorro à razam. Muito

mais, porque a alma pode conhecer, e conhece, muito mais facilmente

por-simesmo, a conexam das-partes; doque por-nenhum silogismo. Quantos

omens nam vemos todos os dias, que intendem mui bem, toda a forsa de

uma razam; a falacia, e eficacia de um discurso comprido; e discorrem

mui acertadamente; sem terem ouvido falar em silogismos? E nam digo

somente, entre os omens de boa educasam; mas quem quizer considerar,

a maior parte da Africa, e America; achará omens que discorrem tam

sutilmente, como os nosos Europeos; sem saberem reduzir um argumento à

fórma. Achei negros vindos de la, tam maliciozos, e fingidos; que nam

se-pode dizer mais. Ja eu dise a V. P. em outra parte, que me-tem feito

muitas vezes mais forsa, as razoens de muitos rusticos, doque de alguns

Logicos, e Oradores de profisam.

Ainda daqueles mesmos que estudam Logica, rarisimos sam que cheguem a

conhecer, por-que razam trez propozisoens, combinadas de um certo modo,

produzam uma conduzam justa: e que saibam com toda a individuasam,

por-que razam de mais de 60. combinasoens diferentes, só umas 14. sejam

boas. A maior parte destes estudantes contentam-se, com uma Dialetica

tradicional: e nada mais fazem doque crer, o que lhe-dise seu mestre,

que certos Modos reduzidos a certas Figuras, sam bons; outros, sam

maos: sem chegarem a certificar-se, que na verdade asim é. Ora daqui

saie por-legitima consequencia, que, se é verdade o que eles dizem, que

o silogismo é o verdadeiro e unico instrumento da-razam, com o qual é

que se-pode chegar, ao conhecimento das-coizas; antes de Aristoteles,

ninguem raciocinou bem, nem teve conhecimento certo; e despois dele,

entre vintemil omens nam se-achará um, que goze esa fortuna.

Mas eu creio que serîa louco, quem tiráse tal consequencia:

observando-se claramente, que os Omens intendem as coizas bem, sem o

dito socorro. Tomára que me-disesem, com que outra Dialetica conheceo

Aristoteles, que muitos daqueles Modos eram certos, e outros falazes;

senam com a penetrasam da-sua mente, que reconheceo a conveniencia que

se-dava, entre umas ideias, e disconveniencia entre outras? A nosa

mente tem de sua natureza a facilidade, de conhecer a conexam destas

ideias, a polas em boa ordem, e tirar delas concluzoens justas; sem que

para isto a-preparem, com artificio algum. Dizei a uma molher rustica,

convalecente de uma grande infermidade, que asopra um nordeste agudo,

e que o Ceo ameasa grande chuva: ela facilmente perceberá, que nam é

tempo para sair de caza. O seu juizo une com toda a facilidade, estas

diferentes ideias; _Nordeste_, _Nuvens_, _Chuva_, _Umidade_, _Frio_,

_Recaida_, _Perigo de morte_: e isto em um abrir de olhos; sem ter

necesidade daquela fórma artificial, e embarasada de quinze ou vinte

silogismos. Ora é certo, que o silogismo nam suministra esta faculdade

de perceber, e ordenar as ideias; nem suministra as ideias para iso: e

como destas duas coizas dependa tudo; fica bem claro, que nam serve

para discorrer bem.

Se V. P. observa o que dizem os doidos, achará, que eles nam se-inganam

nas consequencias, mas nos-principios: e por-iso discorrem mal.

Unîram-se por-alguma cauza, no-intendimento de um doido, duas ideias;

v. g. a que tem de si, e a que tem de um Rei: postas as quais, discorre

o omem mui bem: quer Magestade: quer gentilomens, e treno de soberano

&c. Estas consequencias decem mui bem, daquele principio: todo o mal

está, nas ideias que ele abrasou, e unio mal. Damesma sorte os que nam

sam doidos: nam consiste o ingano nas consequencias, porque a alma com

toda a facilidade as-infere, e percebe a conexam delas com os meios:

todo o ponto está, nos-principios, e pòr as ideias em boa ordem. Isto

nam suministra a Silogistica, e asim nam me-parece que pode servir,

para o que se-pertende.

A nosa mente naturalmente inclina, para admetir uma propozisam

por-verdadeira, em virtude de outra admetida por-tal; ao que chamam

inferir: e acha com facilidade, uma terceira ideia, que tenha conexam,

com ambas as duas. Progunto agora: ou a mente buscando a ideia

terceira, se-certificou da-conexam dela, com as primeiras, ou nam? Se

a-procurou asim, fez um conhecimento certo: se a nam-procurou, fez

um erro: mas em ambos os cazos fez tudo, sem silogismo. Se o omem

nam tivese conhecido, a conveniencia da-terceira ideia, com as duas

extremas; nunca pudera afirmar, a consequencia. Ora é certo, que o

silogismo em nada contribue a mostrar, e fortificar, a conexam do-meio

com os extremos: ele mostra somente, a uniam dos-extremos entre si, em

virtude da-conexam com o meio, que ja está conhecida. Em uma palavra,

aindaque eu conhesa, a quantidade, e qualidade de duas propozisoens,

nam sei se sam verdadeiras: e a Silogistica somente ensina, a inferir;

nam a conhecer as premisas: se uma delas for falsa, será falsa a

concluzam. Asimque nam é o silogismo o que ensina, a discorrer bem:

antes tudo o contrario; conhece mais facilmente o juizo, a conexam de

muitas ideias, todas as vezes que estam postas em ordem natural; doque

reduzindo-se às embrulhadas do-silogismo: como a experiencia todos os

dias ensina.

Acrecento a isto, que sem a boa ordem das-ideias, nam se-pode dar

boa ordem, aos silogismos. Ponha V. P. um juizo embrulhado, com

mil ideias incoerentes, e verá se pode fazer algum silogismo. Polo

contrario, ponha em boa ordem, as ideias de um silogismo; e verá com

que facilidade se-intendem sem silogismo, que sempre é mais embarasado.

Mais facilmente se-intende a conexam de _omem_, e _vivente_, pondo as

ideias nesta ordem, natural; _omem_, _animal_, _vivente_: doque nesta;

_animal_, _vivente_, _omem_, _animal_: que é a forma do-silogismo.

Quanto aos que dizem, que o silogismo serve, para descobrir os inganos

dos-sofismas, e discursos retoricos; é certo que se-inganam muito. O

motivo por-que nos-inganamos nos-tais discursos é, porque ocupados

da-beleza daquela metafora, ou pensamento delicado, nam examinamos

a conexam das-ideias, de que se-compoem. Explique V. P. o que diz o

sofista, separe umas ideias das-outras; e verá que se-acaba o sofisma,

sem necesidade de silogismo: porque postas elas na sua ordem natural,

intendem-se maravilhozamente, se sam, ou nam coerentes. E que outra

coiza fazem os Dialeticos vulgares, quando respondem a algum sofisma?

V. P. oporá um sofisma; e respondem-lhe logo: _Distinguo minorem, v.g.

materialiter, concedo: formaliter, nego._ pede V. P. a explicasam

dos-tais termos; e eles lha-dam com um discurso longo, ou curto, mas

sem genero algum de silogismo. Onde parece-me que sem injuria podemos

dizer, que os que defendem a necesidade do-silogismo, como de uma

famoza arma contra os sofismas; ou zombam, ou nam intendem o que dizem.

Desorteque examinando bem o silogismo, ele nam dá ideias; que sam os

principios dos-nosos conhecimentos: nam dá a boa ordem das-ideias, e

da-percesám, porque iso faz a alma por-si só. Serve fomente de pór

em certa ordem, as poucas ideias que nós temos: e o maior uzo que

tem é, nas disputas dos-Escolasticos; aonde às vezes dá a vitoria. O

mais informado nesta arte, confunde com eles, e convence o que nam é

tanto: e ainda em tal cazo nam o-reduz ao seu partido: porque nunca

se-vio, que os silogismos produzisem ese bom efeito; que aquele que

fica convencido, pasáse para a opiniam do-contrario. Conhecerá que nam

sabe responder: mas nam receberá tanta luz, que aja pasar para a parte

do-seu adversario. Esta é a natureza do-silogismo.

Mas aindaque esta razam seja mui forte, cuido que dos-mesmos principios

dos-Escolasticos, se-tira nova razam, para se-excluirem, e vem aser;

que as tais regras do-silogismo só servem, para estes silogismos

simplezes, feitos de propozisoens que constam de dois termos, e Verbo:

v. g. _Todo o omem é animal_ = _Pedro é omem_ = _Logo Pedro é animal_.

Quando porem intramos nos-silogismos, compostos de varias propozisoens,

e com mil termos obliquos; é loucura persuadir-se, que neles valham

tais regras, tomadas no-rigor da-Logica. Incontram-se mil discursos de

evidencia tal, que nenhum omem de juizo, pode duvidar da-sua verdade:

vemos cada momento discursos, a que os Logicos chamam _Sorites_,

compostos de dez, e doze propozisoens; tam claros e manifestos; que

todos os-devem admetir, ainda aqueles que nunca lèram Logica: que é a

maior prova da-verdade, e evidencia: e contudo nam pertencem, a Figura

alguma das-ditas. Sei, que alguns destes Logicos antigos se-amofinam,

para lhe-descobrir a Figura, e Modo; mas superfluamente: pois aindaque

dizem muitas coizas, e apontam outras propozisoens, que expoem as

ditas; e nas quais exponentes querem mostrar de alguma maneira, as

regras; nam provam o que dizem, nem respondem ao que se-lhe-progunta:

ficando sempre em pé a dificuldade, que o dito silogismo, do-modo que

se-propoem, nam pertence a Figura alguma: e contudo é verdadeiro, e

todos o-intendem com facilidade. E como nos-discursos familiares,

nos-discursos oratorios, e quando se-impugnam propozisoens ou

concluzoens; somente se-uze destes discursos compostos; fica claro, que

em nenhuma destas partes podem ter lugar, as tais Figuras: e que nam só

sam inutis, mas imposiveis.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 29 / 32 段