intender, como as ideias simplezes existam por-si só, nos-acostumamos
a supor alguma coiza, que as-sustenta: ao que damos o nome, de
_Sustancia_. Digam o que quizerem, os que falam de _Sustancia_, como
de uma coiza, que eles intendem bem o que é; certo é, que nam tem
os omens, mais clara ideia de sustancia. Onde ideia de sustancia,
é ideia de uma certa coiza incognita; a qual, quando nós queremos
explicar, nam sabemos dizer o que é: mas somente dizemos; que é uma
coiza, que nós supomos ser a baze, daquelas ideias que vemos. E esta
ignorancia é aplicavel, a qualquer sorte de ideia de sustancia.
Quanto às ideias das-particulares sustancias, esas formamos nós,
unindo quantas ideias podemos ter de uma coiza. v.g. unindo a ideia
de _cristalino_, _durisimo_ &c. formamos ideia, do-diamante. Mas alem
destas, devemos unir-lhe, a ideia confuza que nós temos, de uma coiza
que as-sustenta: e daquelas ideias, e desta, rezulta a ideia composta,
que nós temos neste mundo, da-sustancia do-diamante. Do-que se-segue,
que tam clara ideia temos nós, da-sustancia do-Corpo, como do-Espirito:
pois nenhuma outra ideia temos mais, que dos-modos ou efeitos, que
se-observam; unidos à dita ideia de uma coiza, que supomos sustantála:
cujos efeitos tam claramente se-conhecem do-Espirito, como do-Corpo.
Alem destas ideias de sustancia, formamos outra ideia composta, ou
complexa de sustancia, unindo diferentes ideias de sustancias. v. g.
unindo diferentes ideias de naos, pesas de artilharia, marinheiros,
almirante &c. fazemos a ideia complexa de _armada_: e damesma sorte de
_exercito_, _mundo_ &c. A estas damos um só nome, porque na verdade é
uma só ideia.
A terceira sorte de ideias, sam as _Relasoens_. Estas fórma a alma,
comparando uma coiza com outra: de que nacem mil denominasoens, que
tem proprios nomes, e nos-conduzem a conhecer, outra coiza: e sem os
tais nomes, nam conhecemos muitas relasoens. Estes nomes só se-podem
dar, quando se-poem o fundamento deles. v. g. Pedro é omem: mas se
ele se-caza, este contrato serve para lhe-dar o nome, de _marido_.
Estas ideias de relasoens, sam muitas vezes mais claras, que as ideias
das-coizas, que estam sugeitas às ditas relasoens; ou das-sustancias.
A ideia de _pai_, e _irmam_ é mais clara, que a ideia de _omem_: e
com muita mais facilidade eu intendo, que coiza é um _irmam_; doque
intendo, que coiza é um _omem_. Conhece-se mais claramente, que coiza
é um _amigo_, doque que coiza é _Deus_. Porque o conhecimento de uma
asám, ou de uma simplez ideia, basta muitas vezes, para me-dar o
conhecimento, de uma relasam. Polo contrario, para conhecer um ser
sustancial, é necesario um exato conhecimento, de uma colesam de
ideias. Devemos porem advertir, que todas estas relasoens se-terminam,
em ideias simplezes: aindaque nos-paresa, tudo o contrario: e os nomes
que conduzem a mente, para conhecer outra coiza, alem do-sugeito
da-denominasam; sempre sam relativos. Que todas as _relasoens_ sejam
compostas, de ideias simplezes, é coiza para mim certa: mas para
o-provar, serîa necesario, fazer um longo discurso, sobre todas as
especies de relasoens: para mostrar, donde vem a ideia de _Cauza_,
_Efeito_, _Lugar_, _Extensam_, _Identidade_, _Diversidade_ &c. como
tambem as relasoens morais: v. g. _Bem_, _Mal_, _Crime_, _Inocencia_
&c. Mas rezervo-me para explicar iso a V. P. em outra ocaziam: e agora
continuo as minhas reflexoens. Esta em breve é a origem, de todas as
nosas ideias.
Daqui fica claro, que das-nosas ideias umas sam simplezes, outras
compostas: umas _adventicias_, que entram polos sentidos, e outras que
a mente faz, a que chamam _faticias_. Destas umas sam claras, outras
confuzas; umas adequadas, e outras inadequadas. Finalmente reais, e
chimericas; singulares, particulares, e universais.
De todas as ideias, as que mais frequentemente faz a alma, sam as
_universais_. Estas fórma a alma, considerando uma coiza, que tem
outras semelhantes: onde considerando todas em uma masa, sem considerar
diferensa alguma particular, formamos ideia universal. v. g. Temos trez
sortes de triangulos: um se-chama _Equilatero_, outro _Isosceles_,
e o terceiro _Escaleno_: cada um dos-quais tem suas particulares
propriedades. Mas considerando os ditos triangulos somente, como uma
figura de trez angulos, sem determinar as propriedades de cadaum,
formamos uma ideia universal, que se-pode aplicar, a cada triangulo
de per-si. Este modo de considerar, se-chama nas escolas _precizam_:
palavra tirada do-verbo _Præscindo_, ou _Præcido_, que é o mesmo que
cortar, separar: porque separamos os triangulos, das-suas propriedades.
Estas ideias universais tem entre os Logicos, diversos nomes. Chamam a
uma, _Genero_: a outra, _Especie_, _Diferensa_, _Proprio_, _Acidente_.
Basta intender brevemente, o significado destas vozes, para poder
servir-se na ocaziam; e intender o que os Logicos, querem dizer com
elas: nam considero outra utilidade, nestes cinco Predicaveis. Polo
contrario, tudo quanto deles dizem os Logicos, comumente é falso: pois
supoem claramente, que nós temos perfeito conhecimento, das-Esencias: o
que é manifesta falsidade.
Sendo pois, que as nosas ideias, só se-podem comunicar aos outros,
por-meio daqueles sinais, a que chamamos vozes; devemos fazer alguma
reflexam, sobre esas mesmas vozes, ou palavras: o que pode conter,
alguma coiza util. As palavras nam significam os pensamentos,
por-virtude natural; mas porque asim o-determináram os Omens. A maior
parte das-palavras sam gerais, quero dizer, significam ideias gerais:
porque serîa imposivel, e inutil, que cada coiza particular, tivese um
nome distinto: o comercio umano farseia insuportavel, e os Omens nam
aumentariam os seus conhecimentos. Acostumando-se os Omens, a fazerem
ideias abstratas, deram-lhe nomes, a que chamam gerais, ou universais.
Á nomes para as ideias simplezes, para os-modos, e relasoens &c.
e todos estes é necesario saber, como se-formam, e que coizas
particulares tem. Sucede às vezes, que se-introduzam imperfeisoens nas
palavras, por-cauza que as ideias que significam, sam mui complexas, e
sam cauza que os nomes fiquem duvidozos. Sucede tambem, que os Omens
abuzem das-palavras, servindo-se de umas, a que nam dam significado
certo, ou lho-dam mui oscuro &c. Devem-se remediar estes defeitos:
tendo prezente a origem deles, e o modo com que se-remedeiam: o que
se-observa nos-autores, que explicam isto. Isto é o que pertence, à
_Percesam_.
Alem da-faculdade que a mente tem, de formar ideias, a cuja damos o
nome de _Percesam_; tem mais outra faculdade, de comparar uma ideia
com outra, e reconhecer a conveniencia, e disconveniencia delas: ao
que chamamos _Consentimento_, ou _Juizo_. Asimque o julgar nada mais
é, que certificar-se a mente, que uma coiza convem a outra, ou nam
convem: e comparando ela uma ideia com outra; reconhece, e se-certifica
da-conveniencia, ou disconveniencia. Se o juizo se-explica, com as
vozes; chama-se _Propozisam_, ou _Enunciasam_: e em tal cazo, tanto
aquilo a que convem uma coiza, como as vozes porque se-explica;
chama-se _sugeito_ da-propozisam: e o que convem, chama-se _predicado_.
Decendo pois à diversidade de juizos, digo, que se a mente
se-certifica, da-conveniencia entre duas propozisoens, chama-se _juizo
afirmativo_; se da-disconveniencia, chama-se _negativo_. Nam digo, que
aja juizos negativos, no-sentido em que o-tomam os Logicos vulgares:
mas chama-se afirmativo, ou negativo, segundo a coiza que afirma. Esta
diversidade de propozisoens, ou juizos, alcansa-se do-sentido, nam
das-palavras: as quais sendo negativas, podem ter sentido afirmativo. O
que muitos nam advertindo, fazem mil disputas, e arengas sobre coizas
bem claras.
Qualquer dos-nosos juizos, (o mesmo digo das-propozisoens, que sempre
correspondem aos juizos) afirmativo, ou negativo, ou explica o nome; ou
explica as nosas ideias; ou explica alguma outra coiza que existe: ao
primeiro chamamos, juizo _Nominal_: ao segundo, _Ideial_: ao terceiro,
_Real_. v.g. Quando eu digo: _O oiro nam é pedra_: este juizo é _real_.
quando digo: _A ideia que eu tenho de pedra, é diferente da-ideia, que
tenho de oiro_: este juizo é _ideial_. quando digo: _Este nome Amor
significa, um afeto da-alma, ou um juizo que formo, da-excelencia de
uma pesoa em algum genero, e utilidade que me-pode rezultar dela_:
este juizo chama-se _nominal_. Do-conhecimento destas trez sortes
de juizos, depende o bom ou mao uzo, que fazem os Omens, das-suas
faculdades, em qualquer materia que se-lhe-propoem. A maior parte
das-disputas nace, de que nam intendemos bem, as definisoens dos-nomes:
e cadaum as-toma, no-seu sentido. O mesmo digo das-definisoens, que
explicam as ideias dos-outros, principalmente dos-mortos. Atribuimos
aos autores que lemos, mil coizas que eles nunca diseram. Servimo-nos
dos-Dicionarios, como de oraculos: sem advertir, que aqueles que
os-compuzeram, podiam sofrer o mesmo ingano, procurando a verdadeira
inteligencia deste nome. O mesmo sucede nas definisoens reais, tanto
nas da-esencia, como de algum acidente ou modo. Persuadimo-nos,
que sempre sam verdadeiras: e deste modo abrasando-as sem exame,
establecemos um principio, que por-forsa nos-á-de conduzir ao ingano.
Sobre isto das-definisoens, é bem vulgar o erro dos-Logicos comuns,
que dizem, que a definisam se-pode fazer por-uma ideia, ou simplez
percesam, a que eles chamam, _Apreensam_. Isto é falso por-muitos
principios: nem se-pode fazer definisam alguma, que nam seja,
reconhecendo a conveniencia dela, com o seu objeto. Quando dizemos,
_Animal racional_: (suponho agora, que esta seja a verdadeira definisam
do-Omem: de que duvido muito, e com razam) ou a mente conhece a
conveniencia daquela ideia, com a ideia de Omem; ou nam. Se a-conhece,
define: mas em tal cazo produz um conhecimento, ou consentimento, a
que chamamos _Juizo_: porque o expremir, ou nam expremir, com a boca o
_Est_, nam faz ao cazo. Se a-nam-conhece, nam define; mas profere duas
ideias separadas. É necesario intender, e advertir tudo isto muito bem,
para nam se-inganar, com o que eles dizem.
Alem destes juizos, fórma a mente infinitos outros, damesma sorte, que
disemos das-ideias. Temos juizos simplezes, compostos, singulares,
e universais. A estas se-reduzem todas as sortes de juizos, ou
propozisoens vocais. Conhece-se a especie a que pertence, pola
qualidade do-sugeito.
Faz tambem a mente juizos verdadeiros, e falsos. E aqui é necesario
o criterio, para nam se-inganar. Consiste o criterio da-verdade, na
evidencia com que se-propoem uma coiza, desorteque nam deixe duvidar,
de ser asim. Nisto se-inganavam manifestamente os Pirronicos; que
chegáram, ou fingîram de duvidar daquilo mesmo, que viam com toda a
evidencia. Sobre isto da-evidencia, á diversos graos: se a propozisam
é evidente sem prova, chama-se axioma: se em vigor das-provas se-faz
evidente, chama-se ilasam, ou concluzam evidente. Tambem estas
concluzoens evidentes, segundo as materias recebem diversos nomes:
umas vezes dizemos, que tem evidencia _metafizica_; outras _fizica_;
e outras _moral_; as quais sem muito trabalho se-intendem. Finalmente
acham-se juizos duvidozos, verosimeis, e inverosimeis: cuja natureza
se-intende, com a simplez explicasam, e um breve exemplo.
Estas sam as duas operasoens diferentes da-mente, Percesam, e Juizo.
nem á alguma outra de diferente especie. Tudo o que a mente faz é,
variar estas duas em diferentes maneiras: fazendo de muitas ideias, uma
composta: e reconhecendo a conveniencia ou disconveniencia, de uma com
outra: e pondo-as em ordem proporcionada, para se-conhecerem. Quando os
Dialeticos dizem, que nestas trez afirmasoens.
_Todo o omem é animal.
Pedro é omem.
Logo Pedro é animal._
a ultima propozisam é de diferente especie, das-primeiras; dizem
uma coiza, que nam poderám nunca provar. O que eu acho é, que tanto
a ultima, como as primeiras, sam juizos, com que o intendimento
reconhece, a conveniencia de duas ideias. Se o estar em ultimo lugar,
ou reconhecer esta, porque ja tenho reconhecido as outras, faz
mudar de especie; serîa necesario admetir, outras muitas operasoens
do-intendimento.
Isto suposto, a principal operasam livre da-mente, é o Raciocinio,
ou Discurso. Consiste ele em que, dadas duas, ou trez, ou dez, ou
vinte ideias, se a primeira convem à segunda; e esta à terceira; e
esta à quarta &c. a primeira á-de convir à ultima. Desta sorte o
intendimento corre da-primeira, para a segunda: desta, para a terceira
&c. E ao juizo com que reconhece, a conveniencia da-primeira com a
ultima; se-dá o nome, de _raciocinasam_, _inferencia_, _concluzam_,
_discurso_, e alguns outros nomes: o que nam faz mudar a especie: pois
na verdade é um juizo, com que eu afirmo esta coiza, porque tenho
afirmado, as antecedentes. Onde pode a consequencia ser boa, e ser
falsa, se uma das-premisas é falsa: e somente será verdadeira, se as
premisas o-forem tambem. O que importa pois é, julgar primeiro bem, e
nam se-inganar nas premisas: porque só asim é, que nam se-inganará na
concluzam. Para fazer isto, é necesario notar, com infinita diligencia,
as cauzas e ocazioens dos-nosos erros, para os-poder evitar.
A primeira ocaziam de ingano, sam as nosas mesmas ideias. Nós
percebemos mal, e contudo queremos discorrer com seguransa: os nosos
sentidos sam falazes, e suministram-nos frequentes ocazioens de ingano,
em materia fizica. O notar estes erros, pedia uma longa disertasam.
Basta notar, que nos-inganamos nas ideias de _gravidade_, _levidade_,
_aspereza_, _gosto_, _cheiro_, _e som_ &c. Cuidamos que estas coizas
existem nos-objetos, quando na verdade nada mais sam, que modificasoens
do-noso corpo, e espirito. As ideias que recebemos polos olhos, tem
mais outra razam, para serem falsas: pois segundo a diversa figura
dos-olhos, de diferentes pesoas, devem reprezentar os objetos ou
majores, ou menores doque sam. E asim nam nos-devemos fiar sempre
delas, para julgar.
A segunda cauza, sam as ideias que formamos: em virtude das-quais
mil vezes nos-inganamos. Chamo aqui ideias, àquelas supozisoens que
fazemos, para explicar os efeitos da-natureza. Uma vez que nos-ocorre,
uma supozisam ou sistema, que nos-parece racionavel, sem demora
alguma o-abrasamos como verdadeiro; sem advertir, que muitos sistemas
diferentes, podem explicar provavelmente, a mesma coiza. Outra especie
de ideias que fazemos, sam as abstrasoens: seguindo as quais, muitos
julgam imprudentemente. Atribuimos a diversos efeitos, diversas cauzas:
sem advertir, que a mesma cauza pode produzir diferentes, e às vezes
incontrados efeitos. Daqui nacem, mil inganos na Fizica, v.g. as
virtudes que atribuimos, a muitos medicamentos, que nunca sonháram
telas.
A terceira cauza de ingano, sam as palavras, de que nos-servimos.
Intendemos, que muitos termos significam o mesmo, quando na verdade
nam sam sinonimos. As vozes servem, para explicar os pensamentos: e
como nem todos intendem o mesmo, nem todos vem a explicar o mesmo.
Das-sustancias inviziveis, nem todos sentîram o mesmo: temos o exemplo
nestas vozes, _Deus_, _Animus_, _Spiritus_, _Angelus_ &c. às quais
alguns antigos unîram certas ideias, e outros unîram diferentes. O
que intende um Deus, de figura umana: o que supoem, um Deus igneo: o
que o-julga, de um corpo sutilisimo: o que o-cre espiritual: todos
se-servem do-mesmo nome: o mesmo digo de outros nomes. Tambem os
Omens se-diversificam, na ideia das-sustancias corporeas: uma ideia
fórma o ignorante, do-_Corpo_: e outra mui diferente, o Filozofo.
Tambem nas definisoens de _Vicio_, _Virtude_, _Piedade_, _Santidade_,
_Justisa_, _Obrigasam_ &c. se-diversificam muito os omens: de que a
Istoria suministra, famozos exemplos. Os mesmos Dicionarios apontam
vozes, a que nós oje damos um sentido; e antigamente tinham outro: v.
g. _Navis_, _Triremis_ &c. Onde quem nam distingue com cuidado isto,
frequentemente se ingana, e discorre mal.
A quarta cauza dos-nosos inganos, sam os afetos do-animo; que produzem
infinitos erros. Eles impedem-nos muitas vezes, examinar bem as
materias, e por-consequencia, julgar bem. E muitas vezes fazem-nos
amar, ou dezejar o duvidozo por-certo. Os que abrasáram de todo o seu
corasam, uma doutrina; nam só nam se-cansam em examinar, as razoens
contrarias; mas nem o-podem fazer, porque as-nam-vem. Acrecento a
isto, que nem menos as-querem ver, aindaque lhas-oferesam: nem ainda
outras obras indiferentes, que saiem damesma pena, _in odium auctoris_.
Este justamente é o cazo que sucedeo neste Reino, a um Teologo meu
conhecido, que tinha abrasado a Ciencia media. Introu em uma livraria,
onde cazualmente abrio um livro, que tratava dos-prolegomenos
da-Escritura: lidos alguns paragrafos, louvou muito a materia, e o
metodo; e proguntou quem era o autor: e quando ouvio dizer, que era um
Dominicano, fechou logo o livro, e nam dise mais palavra. Comque, será
necesario despir-se, de todos os prejuizos; para intender as coizas
bem, e poder discorrer com acerto.
Conhecidos os erros, é necesario evitalos, procurando a verdade. Para
o-fazer, é precizo observar algum metodo. É pois o metodo aquela
operasam do-intendimento, tam necesaria em todo o genero de Ciencias:
e sem a qual nam se-pode discorrer bem. O discurso é aquele progreso,
que o intendimento faz, de um conhecimento para outro: o metodo
é o que prepara a materia, ao discurso. Desorteque a mente com o
metodo dispoem as ideias, em boa ordem: e com o discurso reconhece a
conveniencia delas. De duas sortes é o metodo. Dispomos as vezes os
nosos conhecimentos, de uma tal maneira, que dividimos a coiza que
queremos conhecer, nas suas partes: paraque asim as-posamos conhecer
todas, e consequentemente o todo. Este metodo chama-se rezolutivo,
ou _analitico_, que vale o mesmo. Emprega-se comumente, para
reconhecer a verdade de muitas questoens, e para descobrir, e adquerir
conhecimentos. A outra sorte de metodo é, quando devendo ensinar uma
doutrina aos outros, detal-sorte dispomos, os nosos conhecimentos; que
intendendo cada um deles, venha o dicipulo a conhecer, todo o corpo
da-Ciencia, que se-compoem, daquelas particulares doutrinas. Este
metodo chama-se compozitivo, ou _sintetico_, que sam sinonimos: ou
tambem metodo de _doutrina_, ou _didatico_, ou _didascalico_: que vale
o mesmo. E deste uzam comumente os bons mestres, quando ensinam alguma
materia.
Para nam nos-inganarmos no-metodo, é necesario ter diante dos-olhos,
que nós ignoramos a esencia, de todas as coizas. Onde ignoramos,
a esencia da-_Materia_, do-_Corpo_, das-_Fórmas_, do-_Espirito_,
e das-_nosas mesmas ideias_: é necesario antes de tudo, pór esta
advertencia. Isto suposto, fazem-se questoens indisoluveis, a que nam
podemos responder: que sam as que dependem, do-conhecimento da-esencia
das-coizas: e destas nam falamos. Temos alem diso questoens soluveis,
que se-dividem em trez especies: I. posto um atributo, progunta-se
qual é o sugeito que lhe-compete. II. posto o sugeito, progunta-se
qual atributo determinado lhe-compete. III. dado o atributo e sugeito,
progunta-se se um compete a outro. Trez sam as fontes donde se-tiram,
as solusoens de todas as questoens: Razam, Experiencia, e o Testemunho
dos-autores.
As leis do-metodo Analitico sam estas. Intender os vocabulos:
determinar as questoens: separar as partes delas: fugir de todo o
genero de equivocos: fugir das-oscuridades: establecer termos comuns,
e claros: intender os testemunhos e autoridades, em que se-funda.
Alem diso, saber os requizitos que sam necesarios, para intrar em uma
questam: v.g. para a Istoria, as Antiguidades, Cronologia, Geografia
&c. para a Fizica, a noticia das-melhores experiencias &c. Ler o
contexto, e ver as mais coizas que apontam os outros, para nam errar
no-criterio. Ter prezentes os canones, que comumente se-asinam, para
distinguir as obras supostas, das-verdadeiras.
O metodo Sintetico, ou metodo de mostrar a verdade, tem estas leis.
Nam admetir voz sem a-explicar: nam mudar o significado das-vozes: nam
concluir sem evidencia: nam inferir senam de principios provados. Quem
observa estas regras, pode ter a consolasam, que tem boa Logica.
Tendo visto o modo, com que o estudante se-deve regular, no-metodo
das-Ciencias; fica claro, como se-deve conter nas disputas publicas,
tanto argumentando, como respondendo. Deve pois argumentar com razoens,
e nam com palavras: fugindo de sofismas, como indignos de um Filozofo,
que sinceramente ama a verdade. Se quizer servir-se do-silogismo para
argumentar, pode fazèlo. Digo porem, que muitas vezes sem silogismo,
exporá melhor as suas razoens: servindo-se de um metodo de dialogo
curto, e claro.
No-que toca a responder, se o arguente se-servir de silogismos,
com boas razoens, pode seguir o mesmo metodo: se pois ele comesar
com o sofisma, é melhor reduzilo fóra da-Fórma, para lhe-ensinar a
argumentar. Em todo o cazo nam se-deve deixar pasar propozisam oscura,
que nam se-explique. Se V.P. obriga a explicar-se um sofista, e pòr
em pratos limpos, o que quer dizer nesta, ou naquela propozisam;
acabou-se o sofisma. Esta nam é ideia nova, de que se-devam admirar os
Dialeticos: eles o-praticam todos os dias argumentando, e respondendo.
Se o que distingue uma propozisam, uza de termos incognitos; ou se o
que argumenta, se-serve de semelhantes propozisoens; verá V. P. que
os mais advertidos Peripateticos, sam os primeiros a dizer-lhe, que
explique a propozisam, ou distinsam. Julgo pois, que o mesmo deve
fazer qualquer defendente, que tem a infelicidade, de ter um Dialetico
por-arguente. Ponha-se o estudante neste primeiro principio, de nam
deixar pasar palavras confuzas, como fazem os Geometras; e verá que
se-acabam, todas as disputas: as quais comumente versam, sobre a
diversa inteligencia dos-termos; e nam tem mais forsa, que aquela que
lhe-dá, a dispozisam artificial do-silogismo. Desorteque reduzido a
proza corrente, o que estava armado em silogismo, nam tem forsa alguma.
Tenho dado em breve a V.P. uma ideia da-Logica, que pode ser util
neste mundo, para todos os empregos. Isto necesitava ser provado, com
mais extensam; mas iso excede o metodo de uma carta. Do-que aponto,
compreende V. P. muito bem, como se-deve dispor a Logica, para servir
em todo o genero, de bom discurso. Digno é de admirasam, que aja quem
intenda, que a Logica somente deve servir, para a Teologia: e que
por-iso a-encham, de todos aqueles termos, que se-acham na Escolastica
comua: e fasam uma Logica, que nam serve para coiza alguma. Como se
os omens somente na Fizica, ou Teologia devesem discorrer bem; e nas
outras coizas mal! Persuado-me, que importa igualmente discorrer
bem, em todas as materias da-vida civil, que naquelas duas. A maior
parte dos-Omens, nam seguem aquela profisam, mas outras diferentes,
e nam menos utis à Republica; tanto nos-empregos altos, como baixos;
e asim é necesario, que tenham regras, para se-regular em todos os
seus empregos; quero dizer na politica publica, e privada, a que
chamam vulgarmente Economia. Cuido, que a Logica que apontei a V. P.
suministra meios proprios, para nam se-inganar em ideia alguma, quanto
é posivel ao Omem evitar os inganos, nesta vida mortal: e que por-este
principio se-deve preferir, a todas as outras. Toda a dificuldade oje
consiste em determinar, qual destas modernas, (porque das-Peripateticas
nenhuma se-deve ler) posa suministrar, as ideias que procuramos.
Nisto direi a V. P. o meu parecer, no-qual tenho alguns companheiros:
vem aser, que ainda até aqui nam tem aparecido alguma, que satisfasa
inteiramente, ao que dezejamos. Tenho lido quazi todas as modernas
impresas, algumas bem raras, e tambem algumas manuscritas: e achei que
muitos copiáram-se fielmente. Dos-outros que podemos chamar autores,
todos tem coizas boas, e deles se-pode tirar muito; mas nem tudo neles
é bom: alem diso algum deles é só para omens consumados, e nam para
rapazes: e sam mui difuzos. Onde para os principiantes, asento, que
ainda nam apareceo, a Logica dezejada. E asim será necesario, servirse
de alguma das-melhores, emendando-lhe os defeitos. Chegando eu aqui,
veio vizitar-me o Senhor * * * e proguntando-lhe com confiansa de
amigo, se sabia de alguma boa Logica; me respondeo, que o * * compoz
ultimamente toda a Filozofia, por-um modo excelente, que ele tinha
visto. Proguntei-lhe que me-explicáse, o metodo da-Logica: e despois de
o-ouvir, e considerar, asento que se-uniforma muito, à minha opiniam: e
pode ser que seja ainda mais claro, e mais util para os principiantes,
que este que asima apontei. Comque tem V. P. a Logica que dezejava:
sabe V. P. mui bem, de que pezo é o juizo deste amigo. Dise-me que
vencidas certas dificuldades ** faz conta impremila. Deus o-permita.
Isto é o que me-ocorre por-agora dizer a V. P. pedindo ao Senhor,
o-conserve por-muitos anos.
FIM DO PRIMEIRO TOMO.
NOTAS DE RODAPÉ:
[82] _In Logica, de Signis disp._ I. _in Prooemio_.
ERROS
Tendo achado que estes erros sam mais frequentes nesta edisam; por iso
dou uma regra geral, para se-emendarem: os outros notam-se abaixo.
Achando-se Leia-se
engano, dezengano, enganar, ingano, dezingano, inganar,
dezenganar. dezinganar.
comprimir, imprimir, oprimir, compremir, impremir, opremir
admitir, permitir, e outras &c.
vozes, que se-formam destes
Infinitos: tirando algumas, que
o autor excetua.
diminuir &c. deminuir &c.