e singularidades do-seu paîz: mas nam sei, se á quem requinte este
prejuizo com tanto exceso, como os Espanhoes, e Portuguezes. Observo,
que os Francezes, Inglezes, Olandezes, que nam sam dos-que tem pior
opiniam, e com razam, de si; aproveitam-se com todo o cuidado,
dos-excesos que lhe-levam, as outras Nasoens. Os Francezes, mandam
muita gente a Roma, para se-aperfeisoarem na Architetura, Escultura,
Pintura; e em tudo o que pertence, às antiguidades Romanas. Sabem
que estas artes, se-conserváram sempre em Roma, com distinsam:
reconhecem, que os Romanos posuem o melhor, que neste genero
nos-deixou a Antiguidade; e pode fugir à barbaridade, dos-incendios
de Roma: e asim mandam lá os omens mosos e inteligentes, para beberem
o bom gosto, da-Antiguidade. Muitos Senhores Inglezes, Olandezes,
Francezes, Alemaens, que correm o mundo, para formarem os costumes;
demoram-se tempo bastante em Roma, e nas principais Cidades de Italia;
para observarem escrupulozamente, todas as antiguidades Romanas: e
verem com os seus olhos aquilo, de que estam cheios os livros. Eu
acompanhei alguns deles, que faziam estas observasoens; e os-achei
sumamente instruidos, nas antiguidades Gregas, e Romanas: e com dezejo
exorbitante, de verem com os seus olhos, e aprenderem o que nam
sabiam: e faziam gloria de estudar, o que ignoravam. Polo contrario
vejo, que os nosos Italianos se-aproveitam bem, das-belas edisoens de
livros, e outra erudisam exquizita, que se-acha nos-livros, destas
nasoens Ultramontanas: e que ainda em materias de Ciencias, se-regûlam
polo metodo, das-Universidades de Sorbona &c. das-Academias Regias
de Londres, Pariz, S. Pietroburgo, &c. por-conhecerem, que ali
se-exercitam melhor; e dali saiem as melhores obras.
Isto é verdadeiramente conhecer, o merecimento de cada coiza. Mas
observo tambem, que este metodo é ignorado nas Espanhas, e mui
principalmente em Portugal: onde vejo desprezar, todos os estudos
Estrangeiros, e com tal empenho; como se fosem maos costumes, ou coizas
muito nocivas. Lembro-me a este intento, da-istoria do-Espanhol de
Amsterdam. Nela viviam em uma estalagem, um Espanhol, e um Cavalheiro
Florentino. Retirando-se este um dia a caza, proguntou ao Espanhol, que
lhe-parecia Amsterdam: a belisima dispozisam da-Cidade no-material,
e formal: a liberdade do-trato, contida dentro dos-limites do-justo:
emfim ia-lhe repetindo uma por-uma, todas as singularidades de
Amsterdam; e sobre cada uma lhe-proguntava, o que lhe-parecia. Mas
o Espanhol, abanando a cabesa, nam respondia palavra. Até que o
Florentino enfadado lhe-dise: Valha-me Deus, só vosé a-de ser singular
neste mundo, nos-seus gostos; e só a um Espanhol nam á-de agradar,
uma Cidade como Amsterdam, em que todos tem tanto que admirar? A isto
respondeo o Espanhol mui laconico: _Vaya, para pintada_. Esta mesma
resposta, com pouca diferensa, me-tem dado alguns, em outras materias.
Quando se-vem obrigados com exemplos a reconhecer, que os Estrangeiros
lhe-levam, consideravel exceso; respondem rindo, que asim é: mas que
somente é, em coizas inutilisimas.
Isto suposto acho, que o melhor modo de dezinganar esta gente, e
mostrar-lhe os seus prejuizos; é, por-lhe diante dos-olhos, uma breve
istoria, da-materia que tratam: e persuado-me, que este é o mais
necesario prolegomeno, em todas as Ciencias. Creia V. P. que com
esta noticia, poupa-se muito trabalho, e muito estudo: adianta-se
um omem muito, na inteligencia da-materia: e só asim fica capaz, de
ouvir o que deve, e dezinganar-se por-simesmo. Asimque intendo, que
por-esta istoria se-deve comesar. Nam digo, que o estudante deva
saber, as opinioens de todas as setas de Filozofia; mas ao menos
quando comesáram: quais foram as mais famozas: em que coiza comumente
se-distinguiam: e como se-continuáram.
A Filozofia é o conhecimento das-coizas, que á neste mundo; e
das-nosas mesmas asoens, e modo de as-regular, para conseguir o seu
fim. Em todos os Povos do-mundo, e em todos os tempos achamos omens,
que mais ou menos se-aplicáram, a estas coizas. Mas o noso estudante
nam é necesario, que suba tam alto: basta que conhesa, os Filozofos
da-Grecia. Toda a Filozofia Grega se-dividio ao principio, em duas
setas; de que nacéram. todas as outras: estas duas sam a _Jonica_,
e _Italica_. A Jonica fundou Thales Milesio, um dos-sete Sabios
da-Grecia; o qual, como diz Diogenes Laercio, naceo 640. anos antes
de Cristo. Foi grande Astronomo, Geometra, Filozofo, e escreveo muito
de Fizica. Teve varios dicipulos, que se-ensináram sucesivamente:
Anaximandro, Anaximenes, Anaxagoras, Archelao, e Socrates. Este
Socrates foi aquele grande omem, que encheo de admirasam a Antiguidade:
e alguns dos-nosos SS. PP. se-empregáram, na sua defeza. Socrates teve
muitos dicipulos, que fundáram escolas separadas. Aristipo fundou a
escola _Cirenaica_, Phedo a _Eliaca_, Euclides a _Megarica_, Antistenes
a _Cinica_: da-qual naceo a _Estoica_, que foi famoza: porque Menedemo
ultimo profesor da-Cinica, foi mestre de Zenam, que fundou a Estoica.
Damesma escola de Socrates tendo saido Platam, fundou a _Academica_.
Cadauma destas escolas se-diversificava nas opinioens: o que é
necesario, que o estudante advirta.
Platam foi o mais insigne discipulo, de Socrates: naceo 428. anos
antes de Cristo: e foi o primeiro que compreendeo, as trez partes
da-Filozofia. Na Fizica seguia os sentimentos, de Eraclito, que
se-reputava o melhor Fizico: na Metafizica seguia em tudo, a Pitagoras:
e no-Moral, e Politico seguia a doutrina, de Socrates; poisque
somente ao Moral, este se-aplicára. A escola de Platam se-dividio em
duas, _Academica_, e _Peripatetica_. A primeira continuou os dogmas
de Platam: donde vem, que Platonicos, e Academicos significam a
mesma coiza. Nela sucedeo a Platam, seu sobrinho Speusippo; a este
Xenocrates, Polemon, Crantor, e Crates. A Crates sucedeo Archesilao
dicipulo de Crantor, e tambem de outro Filozofo chamado Pyrrho: do-qual
Pyrrho aprendeo, um novo metodo de filozofar; com o qual fundou a
_Academia Media_, que durou até Carneades. Este ultimo, fazendo nela
alguma reforma, instituio a _Academia Nova_; que durou até Antioco:
que foi o ultimo dos-Academicos, e foi mestre de Marco Tullio Cicero.
A _Peripatetica_ fundou Aristoteles, dicipulo de Platam. Diz
Cicero, que somente se-diversificava da-Platonica, nas vozes; mas
nam nos-sentimentos e opinioens. Dava Aristoteles as suas lisoens,
no-Liceo: e continuou a escola nos-seus sucesores, até Diodoro; que
se-conta por-ultimo Peripatetico: desorteque ja nos tempos de Cicero,
esta escola se-achava mui descaida.
A outra seta de Filozofia, a que chamam _Italica_, foi fundada
por-Pitagoras, naquela parte de Italia, a que chamáram _Magna Grecia_.
Este Pitagoras florecia 564. anos antes de Cristo: e despois de
longuisimas perigrinasoens, para aprender; se-estableceo em Crotona
Cidade de-Calabria: e ensinou com grande aplauzo, a Filozofia. Esta
seta foi famozisima, pola frequencia dos-ouvintes, e pola sua durasam.
Dela nacèram varias: a _Eleatica_, que uns atribuem a Xenocrates,
outros a Democrito. Anaxarcho ultimo dos-Filozofos Eleaticos, foi
mestre de Pyrrho, que fundou a seta _Pyrrhonica_, ou _Sceptica_.
Tambem da-_Eleatica_ saio a _Epicureia_, uma das-mais celebres setas
da-Antiguidade; e talvez a que durou mais: pois no-segundo seculo
da-Igreja, ainda estava em flor. Estes sam os diversos ramos, da-seta
_Italica_. Tambem um seculo despois de Cristo comesou outra, a que
chamáram _Ecletica_, a qual teve bastantes dicipulos. O seu principal
instituto era, nam jurar nos-dogmas de nenhuma seta: mas tirar de
todas, o que parecia melhor. De alguns destes ainda temos as obras: o
ultimo foi Damascio. Esta seta agradou muito aos Padres, dos-primeiros
seculos da-Igreja; porque parecia a mais racionavel.
Estas sam as diferentes setas, da-antiga Filozofia. Destas a Academica,
Estoica, Pyrrhonica, Epicureia, e Peripatetica, duráram na Grecia com
pouca diferensa, até o tempo de Augusto, quero dizer, até Cristo.
Nos-ultimos dois seculos da-Republica Romana achamos, que os Romanos
comesáram a estudar, a Filozofia. Nam que eles fundasem setas, como os
Gregos; mas iam estudar à Grecia: ou serviam-se em Roma dos-Gregos,
que vinham à Italia: e seguiam quem uma, quem outra seta de Filozofia
Grega. Pola maior parte eram Academicos, e Estoicos: alguns foram
Epicureos: rarisimo Peripatetico. Os livros de Aristoteles, que
ele deixára a Theophrasto seu discipulo, este os-deixou a Neleo:
os erdeiros do-qual, para os-roubar à curiozidade d’El-Rei de
Pergamo, de quem eram suditos; o qual procurava livros, para a sua
Biblioteca; os-enterráram: d’onde foram cazualmente tirados, polos seus
decendentes; que os-vendèram a Apellico Ateniez, quazi todos comidos
da-umidade. Onde, para se-copiarem, foi necesario encher, todos os
vazios da-corrusam: com o que sensivelmente se-alteráram, as opinioens.
Despois da-morte de Apellico, Silla Ditador Romano os-transportou
de Atenas, para Roma; e se-entregáram a Tirañio, para os-emendar,
e dispor em melhor ordem. E tendo-se feito muitas copias, sem as
conferir com os originais; foi pior o suceso em Roma, que nam tinha
sido em Atenas. Comesou entam a ser conhecido melhor, este Filozofo:
e os Romanos comesáram a fazer uzo, principalmente das-suas doutrinas
politicas. Entre os Filozofos Romanos singularizou-se Cicero; ouveram
tambem alguns outros, de que ainda temos as obras. Até que finalmente,
com a ruina do-Imperio no-Ocidente, se-arruinou tambem, a noticia
das-Ciencias.
Nos-principios do-VIII. seculo de Cristo, os Principes Arabes dicipulos
de Mahomet, os quais uzurpáram grande parte da-Africa, Azia, Grecia,
Espanha, e Sizilia; nas invazoens que fizeram, nas Cidades da-Grecia,
entre os roubos com que se-recolhèram, foram alguns dos-livros dos-seus
autores. E agradando-se destes estudos, fizeram em modo, que Almanon
Califfo ou Imperador Saraceno, no-ano 820. mandou pedir ao Imperador de
Constantinopoli, aonde as Ciencias ainda se-conservavam; os melhores
livros Gregos; os quais se-mandáram traduzir em Arabio. Nam sendo o
genio dos-Arabes inclinado a Poetas, Istoricos, e Oradores; somente
se-aplicáram aos Filozofos, e Matematicos: e entre eles escolhèram
trez, que foram, Aristoteles, Ipocrates, e Galeno. Aplicáram-se a
estas Ciencias; e principalmente à Chimica, Magia, Geometria, Algebra,
e Fizica. Fundáram Universidades em Tuniz, Tripoli, Fez, Marrocos,
e algumas partes da-Espanha: d’onde saîram alguns omens insignes,
para aquele tempo: Entre os quais se-singularizou Averroes; o qual na
Universidade de Cordova, fez o seu grande comento, sobre Aristoteles,
no-meio do-seculo duodecimo.
Neste meio tempo a fama de Aristoteles, que estava tam bem establecida,
entre os Arabes; comesou a divulgar-se, entre os Cristaons. A
comunicasam que os Napolitanos tinham, com os Sizilianos, lhe-deu
noticia dos-estudos, establecidos entre os Arabes da-Sizilia. Tambem
a vizinhansa da-Fransa com a Espanha, abrio a comunicasam aos
estudos: e se-cre, que por-este meio pasáram a Fransa, os livros de
Aristoteles; e intráram na Universidade de Pariz. Ja lá sabiam, que
avia Dialetica, e a-estudavam: mas da-Fizica Aristotelica, nada sabiam.
Finalmente ou para poderem disputar com os Judeos, e Maometanos, como
fundadamente suspeita Monsieur de Fleury; ou por-outra razam que nam
se-sabe; os Teologos recebèram benignamente Aristoteles, e pouco a
pouco o-introduzîram, na Teologia. Os primeiros foram introduzindo as
Dialeticas, como Abellardo, Roberto Pullo, Pedro Poitiers, e alguns
outros no-duodecimo seculo. Daqui pasáram a introduzir, as doutrinas
Fizicas: o que sucedeo, no-seculo decimoterceiro. Os primeiros foram
Alberto Magno, Alexandre de Ales: despois Tomaz de Aquino, e alguns
mais. Despois de S. Tomaz veio Escoto, que fundou escola separada: e
despois deste, seu dicipulo Okam tambem Franciscano, fundador da-seta
dos-Nominais. Demodoque despois do-seculo XIV. a Filozofia se-dividia
em trez setas, Tomistas, Escotistas, e Okamistas: as quais com alguns
mudansas duráram, atè o Concilio de Trento, celebrado no-meio do-seculo
XVI.
Nam falo no-metodo de Raimundo Lullo de Maiorca, porque pola sua
oscuridade, nam teve sequazes: excetuando alguns Maiorquinos, mais
loucos que ele. No-ano 1565. Bernardo Telesio de Cosenza em Italia,
publicou a sua Filozofia, que teve alguns sequazes. Pouco despois
Jordano Bruno Dominicano, publicou muitos livros, em que, entre algumas
coizas boas, dise muita estravagancia; sobre o Universo infinito, e
diversos mundos. Despois deste, Tomaz Campanela, tambem Dominicano
Calabrez, publicou algumas obras de Filozofia, quazi segundo os
principios do-Telesio.
Neste mesmo seculo XVI. do-meio para diante, quero dizer, polos
tempos do-Concilio de Trento, comesou a establecer-se o sistema
Fizico-celeste, de Nicolao Copernico: que resucitando a opiniam de
Filolao, e Eraclides Pontico, sobre o movimento da-terra arredor
do-Sol; teve muitos sequazes, que asentáram, ser um sistema preferivel
aos outros. No-fim do-seculo XVI. saio à luz o sistema de Tico Brahe,
que tambem teve sequazes. Mas ninguem mais deo tanta luz à Fizica,
quanta Francisco Bacon de Verulamio Chanceler mór de Inglaterra: o qual
no-fim do-mesmo seculo, e principio do-seguinte, apontou o verdadeiro
metodo de adiantar a Fizica, em belisimas obras que a este intento
nos-deixou; principalmente de _Augmentis Scientiarum_, e de _Novo
Organo_. Eu considero as especulasoens deste grande omem, como a mais
famoza epoca, da-verdadeira Filozofia: porque observo de entam para
diante, uma total mudansa, e adiantamento sempre para o melhor. morreo
polos anos 1636. de anos 66.
No-mesmo tempo de Bacon, no fim do-XVI. e principios do-XVII. floreceo
o insigne Galileo Galilei Florentino; que seguindo os ditames de Bacon,
uzou da-Matematica, para explicar a Fizica: e aumentou sensivelmente
a _Mecanica_: a qual desde Archimedes até o seu tempo, quazi nada
se-tinha adiantado. Ele descobrio muitas leis, do-movimento dos-corpos,
tanto solidos, como fluidos; e tambem da-Gravidade, e da-Luz, e do-Som
&c. desorteque pode-se dizer, que ele foi o que comesou a servir-se,
da-boa Fizica. morreo em 1642. de anos 78. Comesado o seculo XVII.
florecèram Descartes, e Gazendo: que dando um paso mais adiante,
descobriram mais terra, e comesáram a abrir os olhos ao mundo. Ja
se-sabe as disputas, que os Peripateticos tiveram, com estes novos
Filozofos; e as injurias, que contra eles vomitáram. Desde o fim
do-Concilio de Trento, em que os melhores Teologos tinham aberto os
olhos, sobre a Teologia; e comesado a intender, que nam se-devia
misturar com ela, a Peripatetica; tinha esta descaido muito: mas nam
tanto, que muitos Regulares nam intendesem, que devia ser a mimoza
entre as mais. De que nacia, que com todo o empenho a-defendiam:
porque, a falar verdade, nam intendiam mais, nem tinham outras
noticias. Mas despois que se-viram atacados, por-estes modernos
Filozofos; os quais nos-principios deste seculo conspiráram todos, para
abrir os olhos, ao mundo Literario; nam querendo os velhos, perder as
suas conquistas, fizeram um espalhafato orrendo: e o menos que diseram
foi, que se-tinha levantado uma nova perseguisam, na Igreja Catolica;
com a publicasam destas Filozofias. Mas como isto eram balas de lan, e
palavras sem fundamento, nem verosimilidade; nam faziam brecha. Polo
contrario os Modernos despediam, constantes experiencias, que eram
balas eficazes. Em modo tal que a dita Filozofia foi-se continuando, e
com forsa: e só os Regulares, e nem todos, seguiam a Peripatetica.
A introdusam das-Academias Experimentais, deu novo esforso, a esta
Filozofia. Despois da-morte de Cartezio no-ano 1640., e a de Gazendo
no-de 1655.; tinham comesado as ditas Filozofias, a aquistar credito:
mas ainda com algum medo; pois nam tinham toda a necesaria protesám,
que tiveram pouco despois. Nam foi senam despois que se-abrio, a
Academia de Londres no-ano 1662. ou 63. e a de Pariz no-1666., que
as Ciencias naturais se-continuáram, com empenho: asistindo-lhe os
Reis, com o dinheiro e protesám. Dilatou-se aindamais este costume,
porque o Imperador Leopoldo no-ano 1670. movido do-bom suceso das-duas
Academias; fundou tambem, ou, melhor direi, protegeo uma Academia ja
comesada, com o nome de _Academia dos-Curiozos da-Natureza_. El-Rei de
Prusia em 1700. fundou tambem a sua Academia experimental. Os nosos
Italianos fizeram o mesmo. O Conde de Marsilli em 1712. instituio uma
em Bolonha, que tambem é famoza: em Padua e outras partes abrîram-se
outras. Em 1725. a Imperatriz Catarina abrio em S.Petroburgo em
Moscovia, outra famoza: deixando por-agora outras muitas, que
se-abriram em diferentes partes da-Europa.
Esta dilatasam de estudos naturais chamou a si, todos os melhores
Filozofos, principalmente os Seculares. Tambem alguns Regulares,
nos-fins do-pasado seculo, comesáram a deixar, as sutilezas de
Aristoteles. Porem neste XVIII. seculo infinitos se-tem declarado,
contra o antigo estilo; e ensinam publicamente, a Filozofia moderna.
Em Italia, e ainda em Roma, por-toda a Fransa, Alemanha &c. se-tem
divulgado este metodo: e os mesmos Regulares, que ao principio o-tinham
proibido, nam tem oje dificuldade alguma, em defendèlo. Verdade é,
que algumas Religioens anda o-nam-aprováram: mas tambem é certo, que
muitos leitores delas sam declaradamente, Filozofos modernos. Os
doutisimos Dominicanos, e Jezuitas, que pareciam os mais empenhados,
polo antigo metodo; comesáram a admetir, a nova Filozofia: nam só em
Fransa, mas ainda em Italia. E eu sei de certo, que em algumas partes
de Italia os Jezuitas, vendo que nas suas escolas e colegios, faltavam
consideravelmente os estudantes, que concorriam a outros estudos
publicos; se-vîram obrigados, a reformar o antigo metodo, e introduzir
os estudos novos. Tam persuadidos estam todos oje, que o antigo metodo
nam serve, para coiza alguma.
Esta, em poucas palavras, é a serie da-Filozofia: na qual se-compreende
mui bem, com quam pouca razam estes mestres de Portugal, condenem uma
coiza; que está tam bem introduzida: e nam entre Erejes, como eles
dizem, mas entre Catolicos mui pios, e doutos. E tambem se-conhece,
com quam pouca razam queiram persuadir-nos, que os SS. PP. aprováram,
a doutrina de Aristoteles: pois nam sendo ela, ou polo menos esta que
pasa, com o nome de Aristoteles; conhecida antes do-seculo XIII. é bem
claro, que os PP. nam podiam aprovar uma coiza, que nam conheciam,
nem intendiam, que naceria no-mundo. Seguro a V. P. que se estes
mestres, que oje exaltam tanto Aristoteles, conhecesem os PP. nam polo
sobrescrito, mas por-dentro; e tivesem bem examinado as suas obras;
ficariam envergonhados, da-sua grande ignorancia, e talvez temeridade:
pois veriam nos-escritos dos-Padres, que nada mais encomendam,
que deitar fóra das-escolas Aristoteles: evitar todos os sofismas
da-Dialetica: e propor as suas razoens, com a maior clareza posivel.
Aprovavam na verdade, a boa Dialetica; mas despida totalmente de
arengas. E nesta paz se-continuou, até o undecimo seculo: no qual, como
asima digo, introduzîram nas escolas, estas embrulhadas. Desorteque
a examinar bem o negocio, Aristoteles é mui moderno, nas escolas
Catolicas: e ainda nesas nam durou, senam até o Concilio de Trento:
pois de entam para cá pouco a pouco se-abrîram os olhos ao mundo: e oje
todos os-tem mui bem abertos.
Intendido isto muito bem, com o que se-poupam mil respostas, e
embarasos a cada momento; deve o estudante pasar, para a Filozofia.
Mas é necesario, que primeiro intenda, que coiza ela é; para nam
se-embrulhar, com as costumadas confuzoens da-Escola. Eu suponho
que a Filozofia é, _Conhecer as coisas polas suas cauzas_: ou
conhecer, a verdadeira cauza das-coizas. Esta definisam recebem os
mesmos Peripateticos, aindaque eles a-explicam, com palavras mais
oscuras: mas chamem-lhe como quizerem, vem a significar o mesmo. v.
g. Saber qual é a verdadeira cauza, que faz subir a agua na siringa,
é Filozofia: conhecer a verdadeira cauza, porque a polvora aceza em
uma mina, despedasa um grande penhasco, é Filozofia: outras coizas a
esta semelhantes, em que pode intrar, a verdadeira noticia das-cauzas
das-coizas, sam Filozofia.
Mas como no-conhecer as cauzas das-coizas, principalmente naturais,
pode aver ingano; e muitas vezes nos-inganemos, tomando uma coiza
por-outra: alem diso como nos-mesmos discursos, com que nos-querem
persuadir alguma coiza, suceda frequentemente ingano, cuberto com
aparencia de verosimilidade; ao que chamam _Sofisma_, ou _Paralogismo_:
daqui vem, que cuidáram os omens, em fugir estes inganos, e descobrir
o vicio do-discurso, paraque nam caisemos nele. Isto primeiro comesou,
sem arte alguma: mas cazualmente um omem descobrio um erro, outro
descobrio outro, e asim os mais. Alguns dos-quais, fazendo uma colesam
destas observasoens, fizeram tratados, em que se-pudese aprender, o
modo de nam se-inganar. A isto chamáram Logica ou Dialectica: que é
muito mais antiga que Aristoteles: mas ele foi o que a-compilou com
melhor metodo, a respeito do-seu tempo: aindaque muito imperfeita,
se olhamos para o noso. Quem fose o autor desta colesam, notará o
estudante, quando ler a istoria da-Filozofia. Os Antigos dizem, que
foi Zenam Eleates, que a-ensinou a Socrates: este a Platam: do-qual a
recebeo Aristoteles. Mas esta Logica Socratica, era por-outro estilo, e
convencia com proguntas. Platam era um pouco mais dogmatico. Comumente
se-cre, que Speusippo, e Aristoteles, ambos dicipulos de Platam,
guiados polos discursos dele, fizesem no-mesmo tempo, e cada um parasi,
esta nova colesam, e acrecentasem muita coiza sua: os Estoicos com
o tempo, acrecentáram muitas mais. Seja como for, o cazo é, que os
Antigos reconhecèram, que para conhecer, e discorrer sem ingano, sobre
as cauzas de todas as-coizas; é necesario observar algumas regras,
a que quizeram chamar, _Logica_. Desorteque esta chamada _Logica_,
nenhuma outra coiza é mais, que um metodo e regra, que nos-ensina
a julgar bem, e discorrer acertadamente. Asimque establecido este
importante ponto, fica claro, que se-deve abrasar aquela Logica, que
conduz a este fim: e fugir qualquer outra, que nos-desvia dele.
Tendo percebido este ponto, nam pode aver duvida, sobre o cazo que
devemos fazer, desta chamada Logica dos-Escolasticos: basta examinar,
se o que se-ensina com este nome, é util, ou prejudicial, para julgar,
e discorrer bem. Porque se achamos, que nam conduz; saie por-legitima
consequencia, que se-deve deixar, e estudar outra coiza mais util. Ora
eu creio, que sem grande trabalho se-conhece, que esta Logica vulgar,
nam dá nenhuma utilidade, antes cauza suma confuzam. Os Proemiais
sam a coiza mais inutil do-mundo. Com a simplez explicasam, do-que é
Logica; sabe um estudante quanto basta, para intrar nela, e ser um
grande Logico: toda a outra noticia util se-pode aprender, em uma
advertencia, a que chamam _notando_. Que a Logica tenha por-objeto, os
atos do-intendimento, ou as coizas, ou os modos de saber; nada serve
para discorrer bem: o que importa é, ter boas regras, e sabèlas uzar
bem.