ensina mil coizas aos ouvintes, mostrando de nam-querer ensinar, mas
somente divertir: porem nese mesmo divertimento, está o ensino: porque
ela pinta desorte, os defeitos dos-Omens; que quem os-ve, ou ouve, nam
pode menos, que envergonhar-se deles, e condenálos. Este é o segredo
da-Comedia, saber imitar bem a natureza; porem em modo que o-vejamos,
sem advertir-mos o artificio. Convem pois com a Tragedia, em tudo: só
diversifica no-argumento. E asimcomo na Tragedia nam basta, enredar
bem um suceso; mas é necesario observar, a verosimilidade; desfazer
naturalmente, o nó do-argumento, observando escrupulozamente, os
carateres das-pesoas; asim tambem a Comedia: na qual deve reinar em
tudo a naturalidade, mas judiciozamente disposta: porque daqui rezulta,
aquela particular galantaria e sal, que os omens de juizo acham, nas
boas Comedias. quando entra nelas afetasam, acabou-se a grasa.
Por-este principio digo a V. P. que nunca achei Comedia Espanhola,
que se-pudese sofrer. Raras vezes o Espanhol imita a natureza:
reina a afetasam, e as sutilezas em tudo. O mesmo bobo, que deveria
reprezentar, a figura de um louco; fala com tanta descrisam, como o
omem mais eloquente, e judiciozo: as molheres todas sam doutoras: todos
dizem grasas, e agudezas: e asim nam se-observa, a verosimilidade
dos-carateres. Querendo afetar tanta grasa, sam os omens mais insulsos,
que ainda vi. Porque a grasa deixa de o-ser, todas as vezes que aparece
o artificio, e nam nace das-entranhas da-materia. A nosa Comedia
Italiana é mais natural: e aindaque alguns tenham introduzido, outro
estilo florido, os omens mais doutos o-tem desprezado. A nosa lingua
é propria para galantaria, e dosura da-Comedia. O ingenho do-Poeta
prepára a materia, para fazer rir: e a galantaria da-expresam, ajuda
esa mesma materia, para agradar mais: o que se-acha frequentemente,
na nosa lingua. Na verdade é dom da-natureza, saber inventar materias
agradaveis, e expolas em modo que agradem: mas alem deste ingenho
requer-se juizo, para saber distribuir as galantarias, onde devem
intrar. Parece facil, o argumento da-Comedia: contudo é dificultoza a
execusam: e sendo tantos os que compoem, sam poucos os que o-fazem com
felicidade. A maior parte daquelas Comedias, que em Cidades inteiras
tem tido, grandes aplauzos; examinadas de perto, merecem compaixam. Os
Poetas ajuntáram muitas ideias ridiculas, com que pudesem divertir os
ignorantes, e adular as suas inclinasoens: e como estes sam os mais,
daqui nace, que se-dam aplauzos a coizas, que os-nam-merecem. O omem
de juizo vai à Comedia, com outros olhos, que nam o ignorante, e rude.
Este pára na superficie do-que ouve: aquele penetra com a considerasam,
a intensam do-Poeta: e quando nam acha o que deve, em vez de rir,
vem-lhe vontade de chorar.
Alem do-que asima disemos, acha-se outro defeito, no-material das-obras
de teatro, quero dizer, na sua reprezentasam: vem aser, quererem unir
em tudo a reprezentasam, com o original. Alguns, para inspirarem
orror, reprezentam nas Tragedias, a morte de um omem, e outras coizas
improprias. Era melhor, que o-matasem detraz dos-bastidores, para
poupar esta descortezia aos ouvintes: bastando que expuzesem, o
corpo morto. Vi algumas vezes nas Comedias, intrar omens acavalo em
verdadeiros cavalos: vi carros triunfais tirados por-quatro cavalos
brancos; com perigo de darem quatro coices, e deitarem abaixo os
bastidores; ou fazerem alguma porcaria no-teatro: vi arrebentarem
bombas, e foguetes: vi dar fogo a uma Cidade, e uma Armada: e muitas
coizas semelhantes. Mas isto é uma impropriedade, indigna de omens
prudentes. A Comedia é imitasam do-natural, e todos sabem isto: e
asim nam se-devem introduzir coizas, que desmintam o que é Comedia.
Muitas vezes ve-se voar um omem, na Comedia: outras vezes um diabrete
vivo dece do-teto, prezo por-uma corda: parecem-me os bonifrates
do-Prezepio, que tem um arame na cabesa. Tambem aquilo de introduzir um
Rei, e Rainha em uma camera, rodiados de soldados armados; ou aquilo
de dar uma batalha sobre o teatro, nada tem de verosimel: Porque nem
o Rei, quando está falando com a Rainha, tem as guardas de corpus na
mesma sala: nem uma batalha se-pode dar, em quatro palmos de terra. Um
bom Poeta dará melhor ideia de uma Armada, ou batalha, com uma famoza
descrisam; e poderá com ela inspirar, sentimentos mais grandes, e
nobres; doque com aqueles acidentes exteriores, e improprios daquele
lugar. Mas o Povo vai à Comedia, para a-ver, e nam para ouvir: e só
fica satisfeito, com estas coizas. Nam asim os omens que podem julgar,
do-merecimento das-obras: estes nam podem deixar, de condenar isto; e
sugerir ao Poeta, que disponha melhor as suas figuras. Isto é o que
agora me-ocorre. Acrecento somente, que as Comedias de _Camoens_ nam
me-agradam; aindaque uma delas parece mais sofrivel. Outras que vi
modernas em Portuguez, tinham mais artificio: e na verdade eram menos
más.
Tendo pois apontado a V. P. os defeitos mais comuns dos-seus Poetas;
segue-se examinar, se estas reflexoens podem ser utis, e como o-podem
ser aos rapazes. E quanto à utilidade, é sem duvida, que a noticia
das-regras é necesaria, para intender os autores: e a dos-versos, para
intender a diferente armonia das-suas obras: especialmente na lingua
Latina, porque a beleza dos-versos consiste, na sua cadencia. Alem
diso, a leitura dos-bons Poetas, eleva o intendimento para perceber,
e ajuizar nobremente; e ajuda muito a Eloquencia: e como nam se-posam
intender os Poetas, sem saber as regras; é necesario ter, alguma
noticia delas.
Quanto ao modo, ja dise em outra carta a V. P. que é loucura obrigar
os rapazes, a fazerem versos: e misturar os versos, com as outras
compozisoens; como se fose coiza necesaria, para intender o Latim:
os que fazem isto, nam intendem a materia: parece-me que o modo mais
natural é este. A Poezia deve-se ensinar, em uma escola separada, em
que nam se-trate outra coiza. Examinando primeiro o rapaz, se tinha
ou nam genio para a Poezia; lhe-proguntaria expresamente, se a-queria
seguir: e quando ele me-disèse, que sim; e eu com a experiencia vise,
que tinha propensam para iso; lhe-daria uma arte Poetica Portugueza,
feita por-este modo. Na primeira parte devem-se conter, as regras
gerais da-Poezia, e a diversa noticia de poemas: vistoque as regras
sam as mesmas, em todas as linguas: e isto istoricamente, porem
ornado com algum exemplo. Na segunda parte, deve-se primeiro tratar,
das-diferentes compozisoens Portuguezas, e algumas particulares
do-Reino: e aqui explicar, como se-fórma a Decima, Soneto &c.
apontando um exemplo, em cada coiza: notando especialmente, a cadencia
dos-versos, e estilo da-fraze poetica. Isto nam parece coiza de
momento, aos que nam sam da-profisam: mas é de infinito preso, aos
que entram em semelhante estudo, e o-profundam. Acham-se mil Poetas,
que tem veia; mas porque lhe-falta a doutrina, pecam contra as leis
da-arte, e nam brilham.
Neste tempo deve-se propor-lhe uma Decima, ou Soneto escrito &c.
que ele nunca vise; e obrigálo a que em escrito, fasa a analize
da-dita obra, se é boa, ou má; que defeitos, ou belezas encerra. Este
estilo de mandar pór a lisam por-escrito, serve infinitamente, para
a inteligencia das-coizas que estudam; e para a memoria: e repetido
varias vezes, quando ja tem noticia das-regras, poupa infinitas
explicasoens, e faz-se com toda a felicidade: e tem o rapaz tempo de
considerar, e emendar.
Desta primeira parte, deve pasar à segunda, tambem em Portuguez; em que
se-trate, das-particulares compozisoens Latinas, e sua versificasam.
Aqui deve-se repetir o mesmo, que disemos da-lingua Portugueza. Notará
especialmente, as diferentes fórmas de versos, de que se-formam as
diferentes compozisoens Latinas, como a Elegia, Epigrama, Ode, Idilio
&c. Despois a cadencia do-verso, tanto a simplez, que é comua a todo
o poema, como as particulares: as suspensoens, elizoens &c. e as
que sam proprias, de varias paixoens do-animo. Despois o estilo e
fraze poetica; que é aquele particular idiotismo, de que se-servem
os Poetas: que se-compoem de expresoens elevadas, com que se-vareia
muito o discurso; expondo as coizas grandes, com muita nobreza; e as
pequenas, com muita galantaria. Finalmente aqueles epitetos proprios,
tam belos no-verso, como afetados na proza: e mil outras coizas, que
sam particulares do-estilo poetico, e que constituem a sua beleza.
Estas coizas a um rapaz, que lè um poema, somente para intender a
Latinidade; nam sam necesarias: mas a um que quer compor, sam sumamente
importantes: e sem elas fará versos, mas nam-será Poeta.
A Compozisam serîa a ultima coiza, que eu mandáse fazer aos rapazes:
porque pede uma memoria, cheia de muitas especies: o que nam pode
ter um rapaz. Deve-se comesar, polas compozisoens Portuguezas: dando
asumtos facis, e nam mandando compor, senam obras breves; para terem
ocaziam, de as-emendar. E nesta ocaziam pode o mestre explicar-lhe
melhor, quais sam as expresoens proprias, para expremir o que quer:
e dar-lhe por-este meio, uma boa noticia da-sua lingua. Com o tempo,
e observando a capacidade do-estudante, pode ir aumentando, o numero
das-compozisoens: sendo sempre melhor, mandar compor uma obra boa,
a um certo asumto, doque muitas más, a diferentes. Feito isto, nam
é crivel, quanto se-facilita a compozisam no-Latim. Será pois esta
a ultima parte da-compozisam: tendo a mesma advertencia, de comesar
por-Disticos, Epigramas &c. asumtos brevisimos: pois nam enfastiam os
rapazes; antes com eles se-dezembarasam muito, para as outras obras. E
aqui, quando o mestre lhe-ensina, a compozisam Latina; lhe-deve ensinar
tambem, o modo de pronunciar o Latim. Certo é, que a Lingua Latina,
despois da-Grega, excedeo muito as modernas todas, na armonia das-suas
expresoens: a qual coiza como nós nam sabemos, por-iso nam achamos
nela a beleza, que achavam os Antigos. Contudo devemos procurar de
imitar, a boa pronuncia: o que principalmente é necesario, no-verso.
Quanto aos exemplos, devem eles ser poucos, e bons: e deve o mestre
fugir de _Regia Parnasi_, e outros livros destes, que estragam o bom
gosto da-Eloquencia, e Poezia: porque na leitura dos-melhores autores,
aprende-se melhor. Asimque, nam achando isto feito, pode o mestre
nos-mesmos autores mostrar os lugares, que sam necesarios: e encomendar
muito aos rapazes, que os-leiam, e decorem: pois só asim se-faz algum
progreso, na Poezia. Desta sorte pode ser, que ouvesem mais Poetas
bons, doque nam á; entre tantos mil versejadores, que V.P. está ouvindo
todos os dias.
A Poezia nam é coiza necesaria, na Republica: é faculdade arbitraria,
e de divertimento. E asim nam avendo necesidade de fazer versos,
ou fazèlos bem, ou nam fazèlos: por-nam se-expor às rizadas,
dos-inteligentes. Se eu vise que o estudante, nam tinha inclinasam à
compozisam, explicaria brevemente, as leis poeticas; que é uma erudisam
separada da-compozisam, e que todos podem aprender; ao menos para
intenderem as obras: e o-deixaria empregar, no-que lhe-parecèse. Desta
sorte, livres os estudantes daquele cativeiro, podiam empregar-se em
coizas utis, e dar outro lustre à Republica. Sei, que nem todos os
mestres sam capazes, de escreverem semelhante arte: mas se alguem
a-fizese, e se-imprimise; podia ajudar muito a todos. Certo amigo meu,
omem mui douto, me-dise um dia destes, que um seu conhecido, avia pouco
tempo tinha acabado um manuscrito, polo estilo que dizemos. Eu ainda
o-nam-vi: mas formo tal conceito de quem mo-dise, que julgo nam será
mao: se o-puder conseguir, nam deixarei de avizar a V. P.
Finalmente com isto acabo esta carta, que ja me-parece longa: aindaque
se olho para o que devia dizer, é curta. Tenho dito nela a V.P. o que
me-ocorreo sobre uma materia, que averá bastantes anos que deixei: e
conseguentemente nam sei se terei satisfeito, a sua expetasam, sobre
a Poezia Portugueza: da-qual, como ja protestei, tenho pouca noticia.
Mas V.P. que me-obriga a falar, em todas as materias; deve estar
preparado, para ouvir coizas boas, mediocres, e algumas mal ditas. E
asim agradesa-me somente a boa vontade, e promtidam com que obedeso, ao
que me-manda. Deus Guarde &c.
[Illustração]
[Illustração]
CARTA OITAVA.
SUMARIO.
_Trata-se da-Filozofia. Mao metodo com que se-ensina, em Portugal.
Advertencia das-outras Nasoens, em procurar a Ciencia. Necesidade
da-istoria Filozofica, para se-livrar de prejuizos. Ideia da-serie
Filozofica. Danos, e impropriedades da-Logica vulgar. Da-se uma ideia,
da-boa Logica._
Meu amigo e senhor, Dirá V. P. que eu sou mui preguisozo em responder,
e conservar a conrespondencia, com os amigos: mas se-soubèse como eu
tenho estado, reconheceria, que nam falto, senam com justificada cauza.
Eu sou filho da-obediencia; e esta me-ocupou bastantes dias: a isto
se-seguio, a minha costumada indispozisam da-cabesa, que me-impedio
ler coiza alguma. Tambem me-lembrou, que tinha remetido a V. P. um
proporcionado livro, com o titulo de carta; e que nam lhe-faltava que
ler. Agora livre de algum modo, de um e outro impedimento; pego na pena
para continuar, o noso comercio literario.
Nas duas ultimas me-pede V. P. com instancia, que me-dilate bem sobre a
Logica, e que nam me-poupe, a nenhuma outra parte da-Filozofia. Eu nam
sei, se poderei dignamente satisfazer, a curiozidade que V. P. mostra,
nestas materias: porque finalmente á muito que dizer nelas; e muitas
coizas, que nam am-de agradar: mas finalmente direi. Lembro-me, que na
nosa ultima conversasam me-dise V. P. que as escolas de Filozofia deste
Reino, necesitavam ainda maior reforma, que as outras: porque o mao
metodo das-escolas baixas, alguma coiza se-pode emendar com o tempo:
porem uma vez que o estudante comesou a provar, o _ergo_, e _atqui_, e
a brincar com eles, e excogitar sofismas, e metafizicas oscuras; de tal
sorte se-ocupa, com aquele negocio, que nam é posivel por-lhe remedio:
de que nace, a confuzam na Medicina, Teologia, e mais Ciencias.
Como V.P. reconhece de antemam esta verdade, me-animo a dizer-lhe
sinceramente, o meu parecer.
Eu verdadeiramente nam sei, se as escolas de Filozofia deste Reino, tem
pior metodo, que as escolas baixas: sobre iso avia muito que dizer:
o que sei porem é, que nestes paîzes nam se-sabe, de que cor seja
isto, a que chamam boa Filozofia. Este vocabulo, ou por-ele intendamos
_ciencia_, ou com rigor gramatico, _amor da-ciencia_; é vocabulo bem
Grego nestes paizes. Verá V. P. que se-dá este nome, a coizas bem
galantes: Universais, Sinais, Proemiais, e outras coizas destas. Os
pobres rapazes pasam os seus trez e quatro anos, lendo arengas mui
compridas: e saiem dali, sem saberem o que lèram, nem o com que se
divertîram. Falo do-estilo das-Universidades: porque o das-outras
escolas é o mesmo, quanto à materia; e ainda pouco diferente, quanto à
dispozisam.
No-primeiro ano se-pasa com dois tratados, a que chamam _Universiais,
e Sinais_; cadaum dos-quais terá quando pouco, os seus 20. cadernos,
de duas folhas: e ja vi mestre, que ditou 40. cadernos, somente de
_Universais_. No-segundo ano acabam-se os _Sinais_: e parte do-ano
fala-se muito, em _Materia Primeira_, e _Cauzas_; ao que chamam Fizica.
No-terceiro ano estudam-se _Intelesoens_, _Noticias_, _Topicos_,
e algumas questoens de _Metafizica_, digo do-Ente em comum: e com
estas quatro, e as duas do-primeiro ano, se-faz o Bacharel. No-quarto
explica-se um tratado, a que chamam _Gerasam e Corrusam_: e avendo
tempo, outro a que chamam de _Anima in communi_. Despois fazem
concluzoens, nas ditas materias, ou semelhantes: que é um ato em
que muitas vezes sucede, que o defendente nam tem, argumento algum.
Segue-se o Licenciado, que é um exame sobre as 6. materias do-Bacharel,
com mais outras que apontamos: e temos o omem graduado, Filozofo.
Se isto pode ser bom metodo; se tais materias podem formar, um bom
Filozofo; eu o-deixo considerar, aos pios leitores. Progunte-lhe V.
P. aqueles Universais, e Sinais, de que coiza servem, quando se acaba
a Filozofia. Diga-lhe que lhe-apontem, em que parte da-Teologia sam
necesarios: que dogma se-explica com tal doutrina: fasa-lhe outras
proguntas destas, e verá que limpamente lhe-confesam, que tudo aquilo
morre com a escola. Se repetir a progunta em outras materias,
concluirá o mesmo. E eisaqui tem V.P. o que significa Filozofia, nestes
paîzes.
Mas isto serîa nada: o melhor da-festa está, na satisfasam com que
ficam, de terem estudado tudo aquilo. Se alguem lhe-contradiz um ponto;
se alguem quer tomar o trabalho de lhe-mostrar, que nada daquilo
vale um figo; ou que Aristoteles nam falou naquele sentido; ou que a
Filozofia se-deve tratar de outra maneira; e que asim a-tratam naqueles
paîzes, que dam leis ao mundo, em materia de erudisam; e ainda em
Roma, nas barbas do-Papa &c. acabou-se tudo, e vem o mundo abaixo com
gritarias. A tal propozisam é uma erezia, contraria diametralmente
à Escritura, e às definisoens dos-Concilios, e Padres; e ao costume
da-Igreja Catolica; que canonizou as obras de Aristoteles, e tambem
a doutrina dos-Arabes. Galilei, Descartes, Gazendo, Newton, e outros
destes que a-nam-seguîram, cheiram a Ateistas; ou polo menos estam um
palmo distantes, do-erro. Estas Filozofias só reinam, em paîzes de
Erejes. Os estrangeiros que defendem isto, sam quatro bebados, que
impugnam o que nam intendem, e nam intendem o que proferem. Isto, e
outras coizas semelhantes, tenho eu ouvido algumas vezes.
Proguntava eu em certa ocaziam a um mestre, que me-parecia bom omem;
e cujo defeito cuido que era, nam malicia, mas ignorancia: Tem V.P.
lido nos-originais, a doutrina de Descartes, Galilei, Gazendo, Newton
tem examinado fundamentalmente, os que explicáram melhor, a doutrina
do-primeiro; como o P. Malebranche, o Baile, o Regis, o Le Grand: ou
os que expuzeram a de Gazendo, como o Saguens, Maignan &c.? diz, Nam
senhor. Observou, continuei, polo menos as objesoens, que o P. Genari
Dominicano propoz ao Saguens, e Monsieur Arnaldo ao P. de Malebranche
em outro sentido; com as respostas destes ultimos? diz, Nem menos.
Muito bem: pois diga-me, intende V.P. na sua conciencia, que pode ser
juiz nesta materia, sem ter examinado, as razoens de ambas as partes: e
muito mais formar uma censura tam rigoroza, como é condenar a religiam,
dos-que seguem esta Filozofia? Respondeo o omem: Na verdade eu nam sou
informado, da-materia: mas tenho ouvido dizer muito mal dela, a outros
mestres, de quem eu formo conceito. Maravilhozamente: mas diga-me,
continuava eu, tem V.P. certeza, que eses tais examinasem o que digo;
ou, aindaque o-examinasem, que julgasem sem paixam, e fosem capazes de
decidir o ponto: porque sem isto deve-me conceder, que nada provam?
Diz, Eles alegavam certas palavras, de que eu inferi, que os-tinham
visto. Mas, proseguia o dialogo, poderá V. P. mostrar-me, que dogma
se-destrue, com esta nova doutrina? Os acidentes Eucaristicos, e todo o
sistema da-Grasa. Muito bem: vistoiso temos, que as _fórmas acidentais_
no-sentido de Aristoteles, sam de fè? diz, sem duvida. Vistoiso, ou
na Escritura, ou por-tradisam nam interrompida, digo, polo consenso
de todos os Padres, definisoens de Concilios, ou Igreja Romana,
estará determinado isto: porque eu nam reconheso outros principios,
para fundar propozisam de fé. Mas atreverseá V. P. a mostrar-me, esa
declarasam? Declaro, que eu tambem sou catolico Romano, e creio que na
Eucaristia está Cristo, debaixo dos-acidentes de pam, e vinho: o que
digo é, que os tais acidentes nam sam fórmas, no-sentido peripatetico:
e disto é que peso, esa declarasam de fé. Concluio ele dizendo: Iso
nam poso eu fazer, porque nam tenho visto a materia. Bem, respondi eu,
pois pesa V. P. a um dos-seus amigos, que lhe-descubra esta revelasam,
ou decreto; e entam falaremos sobre o particular: porque agora tem
pozitivo impedimento.
Este dialogo podia-se repetir, com mais alguns acrecimos; e executar-se
com algumas pesoas, que ouso falar nestas materias, com tanta
satisfasam; como se soubesem o que dizem, e intendesem a materia,
de que falam. Eu tive alguns ratos de divertimento, conversando com
alguns destes mestres. Eles confundem, todos os autores modernos; e
sem mais exame os-acuzam, dos-mesmos erros: e com estranha dialetica
os-condenam, de ignorancia. Como se um omem doutisimo, nam pudese uma
vez, dizer um despropozito! Os que tem erudisam exquizita, sabem que
no-mundo ouve um Descartes: e algum deles, mais raro que mosca branca,
leo alguma coiza, dos-_Principios_, ou _Meditasoens Metafizicas_. E
aqui é ela: sobe à cadeira, e vomita mais decizoens, contra o pobre
Descartes; doque ele nam dise palavras: E sem examinar, se ele é
seguido em tudo, intende que tudo o que Descartes dise, foi, e é
recebido, com a mesma venerasam; e sam todos obrigados, a seguilo. Em
certa jornada que eu fiz, incontrei em uma estalagem um Religiozo *
* que tivera a felicidade, de ler Descartes: o qual, conhecendo que
eu era Estrangeiro, introu logo na materia: e todo o tempo que durou
á ceia, empregou ele em provar, que, segundo os principios do-tal
Filozofo, a Eucaristia estava somente, nos nosos olhos. Veja V. P. como
este intendia bem, a doutrina dos-Cartezianos! Mas eu que vinha cansado
do-caminho, e com fome; para abreviar a disputa concedi tudo, e meti-me
na cama. Nam acho melhor modo de responder, a esta sorte de gente.
Eu certamente nam sou Carteziano, porque me-persuado, que o tal sistema
em muitas coizas, é mais ingenhozo, que verdadeiro: mas confeso a V.
P. que nam poso falar no-tal Filozofo, sem grandisima venerasam. Este
grande omem, na Matematica foi insigne, e inventou algumas coizas,
até ali ignoradas; e promoveo outras com felicidade. Em materia de
Filozofia, acho que foi inventor, de um sistema novo. Isto nam parece
nada, aos ignorantes: mas aos omens que intendem, qual é a dificuldade
de inventar, e inventar com tanta propriedade; que ainda despois de
descubertas as machinas, grande parte das-experiencias esteja da-sua
parte; é sinal de um ingenho elevadisimo, e de grande criterio. Alem
diso ele foi o primeiro, que abrio a porta, à reforma dos-estudos:
pois aindaque Bacon de Verulamio, e Galileo Galilei, tivesem indicado
o metodo, de fazer progresos na Fizica; e alguns outros os-fosem
imitando; é certo porem, que Descartes foi o primeiro, que fez um
sistema, ou inventou ipoteze; para explicar todos os fenomenos
naturais: e por-este principio, abrio a porta aos outros, para a
reforma das-Ciencias. E aindaque em tudo nam acertáse; é tambem certo,
que se ele nam fose o primeiro, os outros nam teriam cuidado, de
emendar os seus erros, e de adiantar os estudos, como estam oje.
Onde com todos estes principios, nam poso sofrer, que omens totalmente
ignorantes da-materia; e que nam sabem de Descartes mais, que o nome;
e aindaque o-leiam, nam tem olhos para o-intender: ainda asim tam
indignamente o-tratem; e injuriem um omem, de quem eles nam seriam
capazes, de serem amanuenses. Se estes censores tivesem lido, a istoria
das-Ciencias, e do-restablecimento delas, desde o Concilio de Trento a
esta parte; formariam diverso conceito destas coizas: e nam vomitariam
tantos improperios, contra os modernos Filozofos: como eu vejo todos
os dias, em varios autores, que podendo mostrar, o seu merecimento;
o-perdem todo, quando entram a falar nestas materias, com tanta
seguransa, como os que as-tem bem estudado. Dizem mil falsidades, que
nunca sucedèram: fingem definisoens, que nunca se-sonháram: confundem
a doutrina revelada, com as opinioens da-Escola: e querem que os
SS. PP. aprovasem profeticamente, a Escolastica; que se-inventou
alguns seculos, despois d’eles mortos. Esta é a celebre cantilena
destes mestres, principalmente deste Reino: A qual provèm, da-grande
ignorancia em que se-vive, da-Istoria antiga, e moderna, e dos-estilos
dos-outros paîzes: do-pouco conhecimento que tem, de livros: e
finalmente de quererem ser mestres, em uma materia, em que ainda nam
foram dicipulos.