Isto digo da-Satira em comum: nam aconselho a ninguem, que fasa Satiras

a pesoas particulares, aindaque sejam viciozas; porque é contra

a caridade. Em Portugal ainda nam li uma Satira bem feita, ainda

das-particulares: as que vi eram afrontas e injurias, nam Satiras.

Conclúo dizendo, que o verdadeiro modo, que os omens inteligentes

tem achado, para compor estes pequenos poemas; é, despois destas

gerais reflexoens, aprezentar-lhe os melhores exemplos na materia:

e mostrar-lhe com o dedo, o artificio, e toda a galantaria. Só asim

se-observa, que coiza é ingenho, e agudeza; como, e quando se-pode uzar

dela.

Finalmente tendo pasado brevemente, polas compozisoens pequenas; direi

alguma palavra da-Epopeia, ou poema Epico. Se ouvèse de falar nisto

como devo, faria um tratado: e asim nam saindo do-meu estilo, farei

somente algumas reflexoens. Este poema, como ja dise a V. P., é a coiza

mais dificultoza, da-Poezia: quer tal ingenho, tal erudisam, tal juizo,

que quem o-considera bem, nam se-atreve a fazèlo: muito mais se observa

os defeitos, em que caîram muitos, dos-que o-tem emprendido. Asima dise

a V. P. qual é o artificio deste poema, que compreende em si, todas as

especies do-Narrativo: e que por-iso pede, grandisimo fundamento de

Retorica, para o-poder tratar bem. Nam é esta a fruta dos-Sonetos, e

Decimas, que nacem a cada canto; é coiza mais dificultoza: as regras

sam tantas, e tam dificultozas, que sam poucos os que se-atrevam,

e rarisimos os que nam pequem, contra algumas. Este é o motivo,

porque nam produzirei muitos testemunhos, principalmente sendo o meu

argumento, conter-me nos-limites de Portugal. Certamente neste Reino,

é rarisimo o poema Epico. O Condestavel de _Francisco Rodriguez Lobo_,

o Macabeo de _Miguel da-Silveira_, a Ulisea de _Gabriel Pereira de

Castro_, por-confisam dos-mesmos Portuguezes de melhor doutrina,

nam merecem este nome: algum outro que posa aver manuscrito, e que

agora nam me-ocorre, pertence à mesma clase. Asim parece, que com

razam se-dise; que a unica Epopeia que apareceo em Portugal, foi a de

_Camoens_. Mas isto mesmo confirma o que digo, da-dificuldade do-poema

Epico.

Se V. P. consulta os seus nacionais, os-achará tam preocupados polo

_Camoens_; que mais facilmente ouvirám dizer mal, da-religiam, doque

do-poema Epico de _Camoens_. Os que deviam fazer a critica do-dito

autor, fazem o elogio. Um destes é _Manoel de Faria e Sousa_, que de

comentador, se-converteo em panegirista: e em vez de explicar, o que

o Poeta quiz dizer, nos-diz o que lhe-parece: vendendo-nos as suas

imaginasoens, polas ideias do-Poeta: e querendo desculpálo ainda nas

coizas, em que é mais condenavel. Com efeito este comentador, mostra

intender pouco, a materia que trata: ao mesmo tempo em que diz mal,

de todos os melhores Poetas Estrangeiros, que certamente ele nam leo,

ou nam chegou a intender; nam obstante que muitos o-louvem, como um

oraculo. _Inacio Garcez Ferreira_, que fez as notas ao _Camoens_,

intendeo melhor a materia. Dos-livros que ele cita, se-conhece logo,

que á-de ajuizar melhor; porque se-servio dos-melhores na Poetica,

tanto Francezes, como Italianos. Alem diso, escreveo em Italia,

onde teve tempo de consultar, os omens mais inteligentes; sobre as

dificuldades, que lhe-ocorresem. E com efeito ajuiza melhor: mas nam

tam bem, que em algumas partes nam se-ingane: como serîa facil mostrar,

se tivese tempo. Contudo este Portuguez sinceramente reconhece, algumas

faltas sustanciais no-_Camoens_. O que basta para me-livrar da-calunia,

dos-que me-quizesem condenar, por-meter colherada, nesta materia.

Mas como eu intendo bem, a lingua Portugueza; parece-me que nam sou

improprio, para julgar.

Avemos de confesar, que _Camoens_ teve muito ingenho, imaginasam

fecunda e grande: e que se-tivese estudado ou tratado, com quem

ensináse bem, as coizas que devia; poderia dezempenhar o argumento

da-Epopeia. Com efeito o que fez de bom, tomou dos-nosos: pois nas suas

obras reconheso eu, que intendia o Italiano, e que se-aproveitou bem

do-_Petrarca_, _Boccaccio_, e outros. Teve finalmente muitas qualidades

de Poeta: e para aquele tempo, em que nam avia, os conhecimentos que

oje á, é maravilha, que escrevèse tam bem. Mas querèlo comparar com

_Omero_, como fazem muitos: ou querèlo colocar, sobre os das-outras

Nasoens todas; com a razam, de que o seu poema o-traduzio um Francez

na sua lingua; e o _Paggi_ na nosa Italiana; iso nam deixa de ser

temeridade, fundada em uma prova fóra do-cazo. Tambem um curiozo

se-divertio, em traduzir o _Vieira_ em Italiano; e contudo ninguem

faz cazo de tal tradusam, e autor: e o mesmo sucede ao _Camoens_; que

a maior parte dos-nosos bons Poetas, nam sabem que o-ouve no-mundo.

Alem diso, serîa necesario provar primeiro, que estes tradutores eram

Poetas, e nam Versejadores: que intendiam bem a materia; e nam se

alucináram na tradusam. As versoens Espanholas nem menos concluem:

porque foram feitas, debaixo do-mesmo clima: Os outros Estrangeiros que

o-louvam, fundam-se no-que dizem os Espanhoes, ou Portuguezes, como V.

P. pode observar: e alguns que chegáram a lelo, nam dizem bem dele.

Na verdade o _Camoens_, entre muito boas qualidades, tem muitos

defeitos, nacidos de dois pontos: o primeiro, falta de erudisam:

o segundo, de juizo e dicernimento. Primeiramente, errou o titulo

da-obra. Os mestres da-arte tomam o titulo, ou da-pesoa, como

_Odyssea_, _Eneide_: ou do-lugar da-asám, como _Iliade_, que é tomado

da-Cidade de _Ilio_ primaria da-Troade. O _Camoens_ em vez de tomar o

dito titulo, de _Vasco da-Gama_ &c. toma-o de todos os Portuguezes:

buscando para isto um termo Latino, que tanto calsa aos Portuguezes

navegantes, como aos que ficáram no-Reino: e o pior é, que o-toma

no-plural, que nam tem exemplo, na boa Antiguidade. Errou a propozisam

do-Poema: pois devendo esta conter, uma só asám principal; ele porem

em vez de propor, a navegasam do-_Gama_, que era a sua _asám_; propoem

todos os varoens illustres, de que se-compoem a inteira istoria de

Portugal; com expresa divizam das-coizas da-Europa, Africa, e Azia:

e deles expresamente promete a El-Rei D. Sebastiam, cantar as asoens

eroicas: o que diz desde a Estancia ou Oitava 12.ᵃ do-primeiro Canto,

para diante. Com efeito executa literalmente, o que promete: porque

no-principio do-Canto III. descreve a Europa: e desde a Estancia 21.

dese Canto, até o fim do-Canto IV. expoem as coizas da-Europa, e Africa

até El-Rei D. Manoel. No-fim do-Canto IV. entra com o descobrimento

da-India; e continua no-V. até o X. em que fala nos-Governadores

da-India: e de-pasagem toca na America. Desorteque este Poeta na

propozisam, inclue todas as partes da-fabula do-poema: que é um erro

masicho. Isto verá V.P. nas-duas primeiras Estancias.

I.

_As armas, e os varoens asinalados,

Que da-Ocidental praia Lusitana;

Por-mares nunca de antes navegados

Pasáram ainda alem da-Taprobana:

Que em perigos e guerras esforsados,

Mais doque pode a natureza umana;

Entre gente remota edificáram

Novo Reino, que tanto sublimáram:_

II.

_E tambem as memorias gloriozas

Daqueles Reis, que foram dilatando

A Fé, e o Imperio: e as terras viciozas

D’Africa, e d’Azia andáram devastando:

E aqueles que por-obras valorozas

Se-vam da-lei da-Morte libertando;

Cantando espalharei, por-toda a parte;

Se a tanto me-ajudar o ingenho, e arte._

Tudo o que se-compreende nestas duas Estancias, é propozisam: e tudo

isto ele promete cantar. Mas aindaque na propozisam de um poema

se-posam acrecentar, alem da-asám, algumas coizas; estas devem ficar

fóra da-fabula, e nam deve o Poeta cantálas; e somente nos-epizodios

do-dito poema, é que se-toca alguma delas. v. g. _O novo Reino que

se-fundou entre gente remota_ &c. é acrecentamento, que rezulta

da-asám; e somente se-canta por-epizodio. O _Camoens_ porem inclue

tudo na propozisam, e asim o-executa: desorteque considerando

os que inculca, na segunda Estancia; bem se-ve que entram, nam

por-acrecentamento, mas direitamente. Contudo os Reis de Portugal, de

que trata no-Canto III., e IV., nada tem que fazer, com a principal

asám, e entram por-epizodio. _Os que por-obras valorozas se-vam da-lei

da-morte libertando_, que sam todos os outros Portuguezes ilustres,

tanto antigos, como modernos; tambem estam fóra da-principal asám,

que é a navegasam do-Gama. Com efeito o Camoens lá os-introduz

por-epizodio, no-principio do-Canto VIII. mas nam obstante iso, na

propozisam do-poema mete-os direitamente, com os outros. Os que foram

governar a India, tambem entram por-epizodio, no-principio do-Canto X.

mas sem reparar niso, ele os-propoem com os outros, no-5. e 6. verso

da-2. Estancia. Asim na primeira Oitava confunde, os que foram com o

Gama conquistar a India, com os que ao despois foram governála: e de

uns e outros diz, que edificáram novo Reino. Este defeito é de toda a

considerasam, nesta materia. _Garcez_ os-reconhece em _Camoens_: mas

querendo desculpar nele, o ter proposto _muitos varoens_, com o exemplo

de _Caio Valerio Flaco_; é mostrar que ignora, o pouco conceito que os

eruditos tem, das-obras de _Flaco_; nas-quais acham mil defeitos contra

a arte; e nenhuma grasa, ou beleza: desorteque os seus erros, nam podem

servir de desculpa, aos de _Camoens_.

Errou alem diso o _Camoens_, em nam sustentar sempre o carater, e

grandeza do-seu eroe: que abaixa sensivelmente no-Canto VIII. do-meio

para diante. Errou, nas enfadonhas digresoens que introduz, por-toda

a parte. Errou, em acabar quazi todos os Cantos, com esclamasoens

mui fóra de propozito, e muito contra o estilo da-Epopeia. Tambem

errou consideravelmente, introduzindo no-seu poema, as Divindades

dos-Etnicos: nam alegorizando a coizas santas, como puerilmente

pertende o _Faria_: nam aos Planetas personalizados, como benignamente

interpreta o _Garcez_; o qual fingio uma nova constelasam para Baco,

que nam se-intende o que é: mas em sentido proprio, damesma sorte que

faláram os-idolatras Romanos; pois mete Venus, e Baco imprudentemente

por-toda a parte. Isto é tam claro no-seu poema, que me-admiro muito,

que aja quem o-queira desculpar, nesta materia. Se nam quizer-mos

dizer, que se-servio de palavras sem significado; que serîa outro erro.

Mas deixando muitos outros erros, em materia do-Epico, que se-podiam

apontar; tem outros nam menos censuraveis, em todo o genero de Poezia.

Muitos versos errados, por-exceso de silabas: outros por-falsidade

das-rimas, que nam sam consoantes &c. muitas palavras Latinas sem

necesidade alguma; vistoque em Portugal á bastantes igualmente boas.

Tem alem diso outros defeitos, comuns neste Reino: entre eles a

prezunsam, de dizer sempre sentensas: o que nam nega o _Garcez_, nega

porem, que _Camoens_ seja oscuro; e afirma, que os seus versos sam

canoros. E eu confeso a V. P. que acho estes dois defeitos expresamente

no-_Camoens_: e que reconheso, que um douto Francez, que o-censura

nisto, tem muita razam. Os versos de _Camoens_ sam languidos, e pola

maior parte sem grasa. Escreve comumente muitas vogais seguidas: e

como os Portuguezes costumam na pronuncia, comer as ditas vogais, umas

com outras; é necesario, para nam errar o verso, tomar frequentes

respirasoens, e fazer muitas pauzas no-meio do-verso: o que faz

perder a armonia. A prova disto é ler o _Camoens_: pois a cada paso

se-incontram os exemplos: que se eu quizese citar, serîa necesario

fazer um livro. Mas deixando outros muitos, observe V. P. estes,

no-principio do-primeiro Canto.

_O quarto, e quinto Afonso, e o terceiro.

Em vós os olhos tem o Mouro frio.

Dai-me agora um som alto, e sublimado.

E costumai-vos ja a ser invocado.

Com uma coroa e cetro rutilante.

Guerra Roma tanto se-afamáram.

Onde o dia é comprido, e onde é breve.

Da-antiga tam amada sua Romana.

E outro polas onras que pertende.

Deitando paratraz medonho, e irado.

Estrangeiros na terra, lei, e Nasam.

A Natura sem lei, e sem rasam._

Quem diser que estes versos, e outros que podia apontar, sam

armoniozos, e enchem bem a orelha; é necesario que tenha orelhas mui

compridas. Sam poucos os versos de _Camoens_, que nam tenham algum

defeito de disonancia. A oscuridade ninguem lha-pode negar, quando

queira examinar, as suas compozisoens. Nace em primeiro lugar, de uzar

de palavras Latinas aportuguezadas, sem necesidade alguma: e isto nam

uma ou outra vez, o que se-podia perdoar, e podia enriquecer a lingua,

multiplicando os sinonimos da-mesma palavra: mas frequentisimamente,

com afetasam manifesta. Nace em segundo lugar, de introduzir palavras,

e frazes, que nada significam; o que é mais frequente na Luziada:

porque no-Lirico explica-se naturalmente. v.g. Estas palavras: _som

sublimado_: _furia grande, e sonoroza_: _esperar jugo, e vituperio_:

_tenro gesto_: _Mouro frio_: _suprema eternidade_: e outras que

se-acham na-invocasam que faz, a El-Rei D. Sebastiam; sam palavras que

nada significam, e cauzam confuzam em quem le. Nace tambem, de certas

aluzoens forsadas, e trazidas de longe, que frequentemente uza. A 6.^a

e 7.^a Estancia, em que comesa o comprimento ao dito Rei, é tam oscura,

que nam se-pode intender sem comentario: e o mesmo podia dizer, de

quazi toda a invocasam. Isto acha-se frequentemente, em todo o poema:

o que unido com a negligencia do-verso, faz, como dise um omem douto,

que cada Estancia seja um misterio: o que é um consideravel defeito,

em um poema Epico: cuja disam deve ser, aindaque nobre, natural,

clara, inteligivel. Onde quando o _Garcez_ quer defender, a clareza de

_Camoens_; mostra que nam está despido, de toda a paixam: e vem a cair

no-mesmo defeito, que ele condena no-_Faria_. Estes defeitos sam mui

consideraveis, neste Poeta; e mostram o pouco dicernimento que tinha,

das-coizas: e quem os-nam-distingue, nam intende que-coiza é Poezia.

Contudo, tirando estes defeitos, nam deixa de ser um, dos-melhores

Poetas Portuguezes.

Quanto ao poema de Filis, e Demofonte, obra do-_Chagas_, de que

asima falei; é ele tal, que eu nam sei como lhe-chame. Pola figura,

parece Epopeia: mas examinado dentro, nam é mais que uma istoria de

amor, mui afetada. Reconheso, que o autor o-deixou imperfeito: como

se-ve do-Canto VIII. que nam tem mais que 5. Estancias; e do-X. que

tem 15. mas o corpo da-obra mostra mui bem, o que o Poeta queria. O

titulo é este: _Filis, ou Poema Tragico de Filis, e Demofonte_. e

nisto se-descobre, que o Chagas nam sabia, que coiza era poema Epico,

nem como dele se-faziam os titulos. A asám do-poema é, a navegasam

de Demofonte, que se-retirava do-sitio de Troia: e o Poeta perde

logo de vista este ponto, e ocupa o poema com amores. No-primeiro e

segundo Canto, em que descreve a guerra de Troia, e o seu naufragio;

imita servilmente _Virgilio_, quazi palavra por-palavra. Somente

o-nam-imita, nas comparasoens: pois sam tam frequentes e enfadonhas,

as que introduz; que nam se-podem ler sem fastio. O III. Canto é uma

disputa escolastica, sobre o amor; com mil conceitos improprios, e de

rapaz. No-IV. em uma casada ajusta-se o cazamento: e copeia fielmente

_Virgilio_, na cova onde se-retiráram os amantes &c. O V. Canto

consiste na descrisam do-lago Averno, caza de Plutam, e outras arengas

mais; em que entra um sacrificio, que nam se-sabe o que quer dizer: e

finalmente Demofonte mata Ardenio. As duas descrisoens do-Palacio de

Plutam, e da-jornada que este fez; sam as coizas mais ridiculas, que eu

ainda vi. O Canto VI. é uma istoria tragica, dos-amores de uma pastora;

que nada tem que fazer, com a asám do-poema. Mas a melhor istoria está

no-Canto VII. em que o Poeta reprezenta o seu eroe mui descansado,

polo espaso de dez mezes; sem que posamos saber, o que fez nese tempo.

Despois, quando ele ja nam cuidava mais em Atenas, o-chama seu pai.

custa-lhe a persuadir a Filis, que o deixe partir: mas finalmente

parte. O VIII. Canto nam diz nada. O IX. é uma embrulhada terrível.

Comesa com as saudades de Filis: esta vai consultar a Sibila Delfica,

sobre os sucesos de Demofonte. Descreve a Sibila e a sua caza mui mal.

Poem na boca da-Sibila um epizodio, da-Geografia de toda a terra; em

que mistura umas coizas, com outras, e comete alguns erros. Mostra-lhe

a Sibila o seu Demofonte, adorando a Florisbe. Filis raivoza rompe o

espelho magico; e sucede um espalhafato orrendo. Filis fica esa noite

no-campo, (nam se-falando mais no-que sucedeo à Delfia) exclamando

contra as ingratidoens de Demofonte: e mata-se com a sua propria mam. E

aqui descreve puerilmente, os efeitos da-sua morte. No-Canto X. torna

Demofonte para Tracia, e sabendo a morte de Filis, que se-convertèra em

arvore, quer abrasála: e sucede milagre, que no-mesmo instante produzio

a dita, folhas, frutos, e aromas: os ramos tangèram, e balháram as

flores.

Esta em duas palavras é a serie, e analize do-poema: na qual verá V. P.

que este Poeta nem menos sabia, o que significava _poema Epico_. Esta

sua compozisam, nam tem unidade de asám: porque toda a asám se-acaba

em poucos dias, com o cazamento: a viagem ultima, foi um divertimento.

Nam tem fabula: porque se-ve claramente, que é uma istoria, sem

enredo, nem solusam. A descrisam da-Terra que faz a Delfia, nam tem

parentesco algum, com a asám. isto é uma embrulhada, que eu nam vi

tal. A transformasam de Filis em arvore, e o milagre das-flores; é

outra parvoice, que ali nam tinha lugar. Só faltou ao Poeta dizer, que

Demofonte se-enforcára na dita arvore: e acabava a tragedia. Tambem

lhe-falta a unidade de tempo &c. Quanto ao modo de dizer; em quazi

todas as partes se-serve de palavras, que nada significam: as frazes

sam afetadas: os conceitos sam pueris: e quando diz alguma coiza mais

estudada, ve-se uma afetasam condenavel em tudo. Ignora totalmente o

_decoro_, e carater dos-sugeitos: o que se-ve, quando introduz no-Canto

III. um guerreiro como Demofonte, disputando uma questam amatoria; como

faria um academico, a quem encarregasem este asumto: ou tambem quando

deixa uma Rainha como Filis, uma noite inteira, no-meio de um bosque

medonho, sem companhia; o que mostra, a suma inverosimilidade: alem de

muitas coizas, que podia notar. Onde torno a concluir, que de poema

Epico, o _Chagas_ nam sabia nada: e que pode V. P. aconselhar ao noso

* * * que nam tenha dificuldade, de emprestar o tal poema; porque se

o-perder, perde pouco.

Outro Portuguez chamado _Francisco Botelho de Morais, e Vasconcelos_,

publicou dois poemas: um intitulado _El Nuevo Mundo_: cujo argumento

é, o triumfo de Osiris, na corte de Atlantide: e este nam pude ver. O

que porem vi averá anos, foi o outro poema intitulado, _El Alfonso_:

em que com XII. Cantos descreve, a primeira conquista de Portugal,

por-Afonso I. Polo que agora me-lembro, cuido que nam se-pode chamar

Epopeia: mas uma simplez îstoria da-dita guerra, alterada com algumas

fabulas: desorteque nam tem artificio algum, de Epopeia. Este Poeta

quiz imitar em tudo, _Lucano_: e nam o-podendo imitar naquilo, que tem

melhor; somente o-imitou, nas enfadonhas digresoens, e exclamasoens,

que às vezes introduz: sendo uma destas tam grande, que ocupa um

inteiro Canto. Tambem o-quiz imitar na afetasam, de mostrar-se

Astronomo, e Fizico: pois nos-ultimos cantos, faz sem necesidade

vários discursos escolasticos, nesta materia: a qual, polo que

mostra, intendia mui pouco. As fabulas sam afetadas, e com bastantes

inverosimilidades: entre estas ponho a da-Deuza que vinha polo ar,

acavalo em um grande leam &c. os versos sam duros: e em todo o poema

reina, uma oscuridade insofrivel: o que creio provèm tambem, de

escrever em Espanhol. Nunca pude intender, por-que razam um Portuguez

deixa a sua lingua, para escrever na Espanhola, que pola maior parte

nam alcansa bem. Mas esta afetasam é mui vulgar, em muitos destes seus

nacionais, que querem parecer eruditos. Isto é o que agora me-ocorre,

sobre este Poema: o que digo, porque nam sei se V.P. tem noticia dele,

por-ser impreso fóra de Portugal. Dos-outros Poetas nam digo nada:

porque sendo uzuais, do-que tenho dito, pode V.P. formar conceito,

das-suas obras.

Os Romances, a que os Portuguezes chamam Novelas, sam verdadeiras

Epopeias em proza; e devem ser feitos damesma sorte. Contudo acham-se

poucos, que meresam este titulo: pois os Portuguezes, e Espanhoes que

se-acham, nada mais sam, que istorias de amor mui inverosimeis. O

Telemaco de _Monsieur de Salignac_ é uma Epopeia das-mais bem feitas, e

escritas, que tem aparecido.

Do-poema Dramatico direi pouca coiza, vistoque os Portuguezes, nam

se-aplicam a ele; por-se-persuadirem que o Drama, nam tem tanta grasa

em Portuguez, como em Espanhol. Mas este prejuizo comum, nam tem sombra

de verosimilidade. Reconheso, que toda a Poezia soa melhor, na lingua

Italiana, que noutra alguma: o que confesam os eruditos das-outras

Nasoens, que chegáram a posuir bem, a lingua Italiana: e ainda alguns

Francezes doutos: nam obstanteque outros queiram, que a Franceza seja

propria, para a Poezia. (no-que, com sua licensa, intendo que dizem

muito mal: porque nam á coiza mais insulsa, que o verso duodecasilabo,

de que uzam comumente os Francezes, e o modo de rimar deles. no-Lirico,

e algumas cantigas, sam mais toleraveis. Mas geralmente falando, a

lingua Franceza é pouco propria, para a Poezia: porque nam tem nervo,

nem armonia) Mas o certo é que, despois da-Italiana, as duas melhores

linguas sam, a Portugueza, e Espanhola. E eu acrecento mais, que a

Portugueza parece-me mais propria, para alguns generos de Poezia, doque

a Espanhola: porque é sezuda e grave, e nam tem aquele falso brilhante,

que muitos loucamente admiram, na Espanhola. Se tiramos as terminasoens

em _aõ_, _ou am_; e _aons_, e _oens_ &c. nam sei que melhoria tenha a

Espanhola, sobre a Portugueza; para dizerem, que aquela é propria para

o Drama, e esta nam. Muito mais grave que a Espanhola, é a Latina;

e contudo ninguem lhe-nega, o poder servir no-Drama. Onde, os que

por-este principio deixam de compor Dramas, em Portuguez; vivem mui

preocupados, e nunca consideráram bem a materia. Mas a razam ultima é,

porque a estes modernos nam agrada, o modo de compor, a Comedia antiga:

e só se deleitam, com esta moderna: (de que parece ter sido inventor,

_Lope de Vega_) e como esta é composta de mil sutilezas, e coizas

semelhantes; por-iso gostam das-Espanholas, que abundam disto. Mas como

este estilo é muito mao, e se-deve praticar outra coiza diferente;

daqui vem, que devem reconhecer, que a lingua Portugueza é tam capaz

para o Drama, como a Espanhola.

O Drama, ou seja Tragedia, ou Comedia, nam é mais que uma instrusam,

que se-dá ao Povo, em alguma materia. A Tragedia trata, de algum cazo

extraordinario, sucedido a pesoa grande. Com isto se-modéra, a grande

ambisam dos-Omens, ensinando-lhe a conhecer, que as condisoens desta

vida estam sugeitas, a todas as infelicidades. Alguns defeitos se-tem

introduzido, na-Tragedia moderna: pois devendo ela conter somente,

coizas eroicas; introduzîram muitos, imitando aos Espanhoes, eroes

amantes. E ainda os nosos Italianos, para agradarem ao Povo, que tem

secreta inclinasam, para ouvir estes enredos amantes; o-praticam:

aindaque os omens inteligentes desprezem este estilo, que só é proprio

da-Comedia. Nam é crivel, que arte particular se-requer na Tragedia,

para ser boa. Nela se-á-de ver, um enredo bem ideiado: um argumento

digno e nobre: uma elevasam de pensamentos grande: uma particular arte

de excitar as paixoens, com pinturas exatas, e discursos proprios

das-pesoas que falam: finalmente tudo á-de ser animado, grande,

singular, sem ser afetado: O que na verdade é mui dificultozo: e ainda

muitos omens grandes, em algumas destas qualidades; nam conseguîram,

unilas todas.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 26 / 32 段