_Tam grande golpe, o Conde ilustre, dèstes

Nese amante de Europa que matastes;

Que só o estrago, que ao ferir cauzastes,

Todos os Signos atroou celestes.

Tam veloz, tam bizarro acometestes;

Que, no-impulso menor com que voastes;

Ao golpe orrendo a morte anticipastes:

E por-demais a execusam fizestes.

Faltou emprego à espada, ao braso forte

Lugar: onde aparece a desmedida

Forsa, que enveja Alcides, e Mavorte.

E intendo que ambiciozo da-ferida,

Por-ser o bruto o credito da-morte,

Cauza vos-deu, para tirar-lhe a vida._

Este Soneto que V. P. aqui vè, é mui gavado: mas examinado ele bem, é

parente chegado dos-outros amatorios. Na primeira quaderna se-observa

a puerilidade, de chamar ao toiro, _Amante de Europa_; somente para

dizer, que se-espantáram os mais signos celestes. Tomára que me-disèse,

se se-espantou tambem o signo de _Libra_ &c. Na 2.^a quadra desfaz,

o que dise na primeira: e afirma, que o Conde nam matou o toiro;

mas fez somente a eroica asám, de dar em um corpo morto: e o mesmo

consuma, no-primeiro terceto. O que contem o ultimo terceto, nam

se-pode intender: porque que queira dizer _Credito da-Morte_, eu nam

sei: o que sei é, que para fazer uma antiteze ridicula, de _morte_, e

_vida_: compoem dois versos, que nada significam. Parece que queria

dizer o Poeta, que o bruto, que era inimigo da-morte, fora com

gosto oferecer-se a ela. Mas isto, alemdeque desmente o que primeiro

disera, que ele nam matára o boi; nam se-pode explicar, com o ultimo

verso: porque _dar cauza_ pode alguem, sem se-oferecer à morte. Em uma

palavra, isto é um conceito Grego. E disto achará V. P. frequentemente,

no-mesmo autor. Os seus conceitos eroicos, sam tam superlativos, que eu

os-nam-intendo. Em outro Soneto a _D. Joam de Castro_, sobre o mesmo

asumto, conclue asim:

_Do-valor sorte foi: mas de tal sorte,

Que a sorte foi valor, Castro bizarro:

Sem ser azar do-bruto o dar-lhe a morte.

Antes se-ve, que com feliz desgarro

Lá no carro da-Fama está mais forte,

Que este que foi de Europa amante escravo._

O consoante ultimo parece devia ser _escarro_, e nam _escravo_: mas o

conceito obriga a dizer, o contrario. Porem isto é nada: o que eu digo

a V. P. é, que o que querem dizer estes dois tercetos, confeso a minha

ignorancia, eu nam sei: nem até aqui achei, quem mo-explicáse. V. P.

terá o trabalho de o-consultar, com aquele seu amigo, que louva tanto

este autor: e notar de caminho, se, escrevendo em Tartaro, podia ser

menos inteligivel. Quando estes Poetas, querem fugir da-oscuridade,

declinam para outro extremo; que é, dizer coizas, que nam tem grasa

alguma, a que se-chama frioleiras. E tal é o fecho de outro Soneto,

ao mesmo asumto, e polo mesmo autor: que eu repetirei todo, porque se

no-fim é mais claro, nam é menos galante no-principio.

_Foi, o Conde bizarro, de tal sorte

A vida dese bruto prezumida;

Que o Roxo mar da-mais cruel ferida

Julgava escrito seu alento forte.

Mas só vós, raio ilustre de Mavorte,

Fizereis, com puxansa nunca ouvida,

Que por-onde sair nam pode a vida,

Soberba intrase arrebatada a morte.

Emfim caio o bruto: e parecia,

Que o tom do-golpe, que nos-vales dura,

Em todo o ar exequias lhe-fazia.

Pois foi tal desa espada a forsa dura,

Que ainda a terra parece que lhe-abria,

Com os sobejos do-golpe, a sepultura._

Este Soneto é parente do-antecedente. Esta fraze _vida prezumida_,

nam sei o que significa: muito menos intendo, os dois ultimos versos

da-primeira quadra: é tam sublime o conceito, que creio, que nem menos

o seu amigo * * se-atreverá a explicálo, em boa proza. Tambem aquilo de

chamar _Mar roxo_, ao _Mar vermelho_; nam se-pode perdoar a um omem,

que fez, ou intentou fazer um poema Epico. A antiteze que se-acha na

2.^a quadra, de _Sair vida, e intrar morte_, é outra inglezia. O que

eu acho é, que se o toiro morreo de uma cutilada, pola mesma parte

por-onde introu a morte, saio a vida no-sangue: e isto nam é _puxansa

nova_; mas é coiza bem uzual. O ultimo terceto, tem um conceito bem

ordinario, e em tudo semelhante, ao de outro famozo Soneto ao mesmo

asumto, que comesa:

_Foi para o raio de aso curta esfera_,

e conclue asim:

_Que emprego sofrerá forsa tam dura?

Abra o boi: rasgue a terra: e desta sorte

Saia em sobras da-morte, a sepultura._

Mas eu devo dizer o que intendo: acho que em ambas as partes o Poetas

diseram, o que diria qualquer omem de ganhar. despois de terem

engrandecido tanto o golpe, sam mui frios na concluzam. Para acompanhar

com o Soneto, parece-me que tinham dois conceitos, mais exquizitos. Um

era dizer, que com a forsa da-caida furára o bruto, o globo terraqueo;

e fora parar, no-emisferio dos-Antipodas. O outro era concluir, que

ao toque da-espada, se-_anihilára_ o bruto: tomando esta palavra,

no-sentido filozofico, que supoem uma forsa mais que umana. Cuido

que isto era mais conveniente, ao estilo de Portugal. V. P. diga ao

seu amigo, que fasa nota destes dois conceitos; para se-servir, nas

ocazioens de toiros.

Em outra parte faz o mesmo _Chagas_ dois Sonetos, que acabam com duas

frioleiras insoportaveis. Um é feito, à morte da-Infanta D. Joana, e

conclue asim:

_Transposta quando menos admirada,

Anoiteceo na aurora de uma vida,

E se-eclisou de um Sol na madrugada.

Mas sendo as luzes tantas, quem duvîda,

Se era o viver de muito dezejada,

Que o morrer foi de pouco merecida._

O outro é feito, a outro cavalo do-_Conde de Sabugal_, que campiava

bem. Este autor era tentado com tais asumtos: e creio que na cavalarisa

do-dito Conde, nam deixou animal sem Soneto: finalmente fez um, que

concluîa asim:

_Nó pues de Febo el tiro luminoso,

Nó de Alexandro el Zefiro animado

Rapido se compita, o generoso.

Pues preferiendo a todo lo animado,

Los puso desayrados en lo ayroso,

Corridos los dexò con lo parado._

Estes dois fechos sam as majores frialdades, que eu ainda vi: nam

se-podem ler sem compaixam: e isto alem de terem antitezes, e versos,

que nam se-intendem.

E nam cuide V. P. que isto sucede somente no-_Chagas_, e outros Poetas;

acha-se nos-melhores: e _Camoens_ é um deles. Este omem, que no-Lirico

tinha muita naturalidade; querendo introduzila nos Sonetos, fez a maior

parte deles sem grasa alguma. Ponho neste numero os dois gavadinhos,

que se-tem glozado cem-mil vezes: comesa um:

_Sete anos de pastor Jacob servia:_

e conclue asim:

_Comesa de servir outros sete anos

Dizendo, Mais servîra, se nam fora

Para tam longo amor, tam curta a vida._

outro comesa:

_Alma minha gentil que te-partiste:_

e acaba:

_Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tam cedo de cá me-leve a ver-te,

Quam cedo de meus olhos te-levou._

Considere V. P. sem paixam, estes dois Sonetos; e observe se acha

neles, o carater do-Epigrama. Eu digo que nam: porque o Epigrama deve

concluir, com algum conceito que agrade, e arrebate com a novidade;

e deixe intender mais, doque nam diz: e iso é o que eu nam acho, em

nenhum deles. O primeiro contem uma istoria, sem artificio algum

poetico: e conclue com um comprimento bem uzual. Um amante logrado,

que menos podia dizer que isto: _Mais servîra, se nam fora pouco todo

o tempo, para empregar no-seu serviso?_ Contudo iso, nam obstante ser

uma coiza fria, eu observo outro defeito maior, que é a impropriedade.

Para fazer uma antiteze, de _amor longo_, _vida curta_; serve-se de

uma fraze impropria: pois _amor longo_, é parvoice; porque refere-se

_a tempo_: e aqui deve-de referir a grandeza; e dizer, _amor grande_:

no-qual cazo vai por-terra, o conceito. Do-outro Soneto digo o mesmo:

todo ele se-reduz a isto = _Tu que estás la no-Ceo, pede a Deus, que

me-leve a ver-te depresa_: e que menos se-pode dizer, a um morto amado?

Este é outro fecho semelhante ao do-_Borges_, que fazendo um Soneto, à

morte da-_Infanta D. Francisca_, falando com a Morte, conclûe asim:

_Se nam podes ja ter igual projeto,

Pendura a fouce, e deixa de ser Morte._

Se o-disèse ao principio, e dele deduzise alguma coiza boa; serîa menos

mao: mas rezerválo para o fim, é nam intender este oficio. Esta especie

de conceitos, nam é necesario dizelos: estam ditos por-si, e todos

os-diriam. Neste mesmo fecho do-_Camoens_, noto outra impropriedade.

A palavra _cedo_ no-primeiro verso, refere-se a tempo; e quer dizer,

_depresa e logo_, sem reparar em idade, ou coiza semelhante. O que

posto, compara muito mal o _Camoens_ um _cedo_, com outro cedo,

sendo coizas diferentes; e vale o mesmo que dizer: _Asim como tu

partistes na flor da-idade deste mundo, asim eu parta logo_ &c. a qual

propozisam manifestamente se-ve, ser uma parvoise. Toda a grasa pois

do-dito conceito, se-reduz à palavra _cedo_: que aqui é um rigorozo

equivoco: coizas indignas de um Soneto. Onde conclûo, que no-_Camoens_

nam vejo, o espirito do-Epigrama; porque a sua naturalidade talvez

afetada, o-faz languido: e o Epigrama, aindaque natural, deve ter outra

elevasam. E asim os que querem fazer bem Sonetos, devem evitar nam só a

inverosimilidade, e oscuridade; mas tambem a frialdade.

Muitas coizas reduzidas a Decima, ou outra tal compozisam, parecem

bem; que em Soneto parecem muito mal. No-estado em que está oje a

Poezia; pode intrar no-Soneto, alguma coiza de _ingenho mixto_: porque

estes costumam agradar mais. Creio porem que é melhor, fazer poucos

e bem, que muitos dos-comuns. Esta sorte de poemas imperfeitos valem

pouco, e nam sam capazes de darem nome, a um Poeta. Onde quando nam

sam superlativos, nam se-podem sofrer. Este porem é o defeito, de

muitos Portuguezes; que, fazendo Sonetos mal, ainda asim nam cesam de

fazèlos: faram dez e doze a uma roza, e asumtos semelhantes: outros

em um Oiteiro fazem bastantes glozas, a um só mote: e se os primeiros

sam maos, os ultimos sam peste. Mas, tornando ao ingenho, concluo,

que em toda a sorte de poemas pequenos, deve o Poeta ter sempre

diante dos-olhos; que o esencial deles é, a naturalidade, unida a um

pensamento galante, exposto com delicadeza. Esta pode consistir, em

um sentido oculto, que diz muito, quando parece que nam diz nada: em

alguma pancada picante, coberta com um veo modesto: em uma grasa,

exposta ironicamente com maneira seria: em um pensamento fino, coberto

com uma palavra groseira. No-Soneto porem deve praticar-se isto, com

menos meiguise, e mais elevasam. No-que reprovo o estilo de muitos, que

se-servem dos-Sonetos, ou Romanses Eroicos, para coizas amatorias; nas

quais nam entram bem: porque o verso endecasilabo, pede emprego mais

sezudo: o Lirico é proprio para estas coizas.

O que digo do-Epigrama Portuguez, digo tambem do-Latino, porque as

regras sam as mesmas: e com mais razam se-devem nele evitar, os

equivocos &c. porque a lingua Latina nam sofre, semelhante estilo.

Os Epigramas dos-Gregos eram naturais, aindaque com grasa: este

estilo seguio _Catûlo_. Porem _Marcial_ no-tempo dos-Vespazianos,

principalmente de Domiciano; que era a declinasam da-eloquencia Latina;

e quazi o principio da-idade de bronze, segundo os que intendem melhor;

foi o que comesou a introduzir, ou rafinar as agudezas, e equivocos,

nos-Epigramas: o que agradou entam, porque se-comesava na-Corte

a perder, o bom gosto da-Eloquencia. Com efeito alguns dos-seus

Epigramas podem pasar, em obzequio daquele tempo; e tambem do-nosso,

que ainda está alguma coiza ocupado, com sutilezas: mas sam rarisimos,

e apostarei que nam chegam a quinze, os bons. A maior parte porem

sam frialdades, e parvoises, que os omens de juizo tem desprezado; e

reconhecem estar muito abaixo, da-nobreza de _Catûlo_. Mureto, que

imitou tambem _Catûlo_, que parece o mesmo autor, chama a _Marcial_,

_Bobo de Comedia_: e o noso Lilio Gregorio Giraldo, a quem todos os

doutos reconhecem, por-omem de juizo exatisimo nestas materias; diz

deles com galantaria, que só podem agradar, aos asnos. Temos mais

alguns antigos Epigr. que podem pasar. Dos-modernos acham-se alguns

bonitos: mas incontrei tambem, colesoens de Epigramas modernos,

indignisimos; e a maior parte sam asim: e asim é necesario lelos,

com muita advertencia. O ingenho mixto reina, nestas compozisoens;

principalmente desde o fim do seculo XVI. a esta parte. Chamo

felicidade fazer um Epigrama, que seja bom. Onde diz com grasa o douto

P. Rapin, que o Epigrama se nam é excelentisimo, nada vale: e que tam

dificultozo é, fazer um bom, que se-pode contentar, quem chega a fazer

um, em toda a sua vida.

Esta materia dos-Epigramas, que sam rigorozas inscrisoens funebres

na sua origem; aindaque ao despois se-aplicasem, a outras materias;

me-conduz a falar, nos-Elogios lapidares: que sam um _quid medium_,

entre a proza e o verso; e o _Juglar_ lhe-chama, _libera Poësis_. Nesta

materia tenho pouco que advertir a V. P. porque o-reduzirei a duas

palavras. Nenhum omem de juizo, deve seguir o estilo, do-_Tezauro_,

_Juglar_, _Masenio_, _Labbé_ &c. se é uma rapaziada condenavel,

introduzir na lingua vulgar equivocos, e sutilezas; e que nenhum omem

douto faz; que será introduzilos na Latina, em que nós nam temos

jurisdisam? Alem diso, a lingua Latina nam permite isto. os que estimam

a bela Latinidade, devem escrever, como os da-idade de oiro; ou quando

muito de prata; e nadamais se-deve imitar. Nos-fins da-idade de prata,

é que se-comesáram a introduzir tais agudezas, por-culpa de _Seneca_

Filozofo, e seu sobrinho _Lucano_: mas principalmente de _Marcial_, que

floreceo pouco despois. Motivo porque muitos bons criticos querem, que

a idade de prata acabe com Nero, no-ano 67. de Cristo: vendo quanto

dali para diante, descaio a Eloquencia. Mas ainda nos-fins da-idade de

prata, nam estava o cazo tam arruinado: o que alcanso, das-inscrisoens

dese tempo. Do-tempo dos-Antoninos para diante, quero dizer, desde os

principios do-segundo seculo de Cristo, é que totalmente se-comesou a

arruinar, e intráram as sutilezas: mas pior que tudo, desde a metade

do-dito seculo para baixo. Finalmente arruinou-se a lingua Latina,

com o imperio Romano, no-quinto seculo: daî para diante reinou a

ignorancia, até o meio do-decimoquinto seculo. Contudo atrevo-me a

dizer, que nam só nos-fins do-Imperio, mas nem ainda nos-seculos

da-ignorancia, se-acha muita sutileza, e equivocos; se os-comparamos

com os nosos. Somente nos-fins do-decimosexto seculo, comesáram a

aparecer: mas totalmente se-rafináram, nos-principios do-decimosetimo:

e duráram quazi até os fins do-dito: até que aparecèram omens, que

reprováram este estilo, e seguiram a Antiguidade. Isto basta para

mostrar, que se-deve desprezar esta novidade; que é incompativel, com

a beleza das-expresoens, e magestade da-antiga Eloquencia. Os ingenhos

pobres, é que vam detraz destas ridicularias, para serem estimados;

visto nam o-poderem conseguir, por-outro estilo. No-tempo de Augusto,

em que cozinheiros, pasteleiros, e mosos dos-moinhos, sabiam mais de

Eloquencia, e bom gosto; doque a maior parte destes modernos doutores;

nam se-escrevia asim: as inscrisoens eram naturais, claras, e em poucas

palavras. Abra V. P. o. _Grutero_, _Reinecio_ &c. e verá provado o que

digo. Ainda na idade de prata, e bronze, a maior parte das-inscrisoens

sam naturalisimas: o que eu observei muitas vezes, examinando os

antigos monumentos, que existem em Roma; esculpidos no-quarto, e

quinto seculo: como tambem uma infinidade de sepulturas particulares,

dos-seculos inferiores, escritas com toda a naturalidade, e grasa. E

isto deve fazer, quem quer mereser louvor: e nam seguir os pasos destes

ignorantes, que fazem Latins novos.

Quanto às divizoens de regras em grandes, e pequenas; é certo,

que algumas se-acham na Antiguidade; mas raras: e regularmente

por-necesidade, de comesar outro capitulo &c. Comumente escreviam

sem divizoens, e muito menos divizoens afetadas; como quem escreve

carta. O que eu observei muitas vezes: e nam só nas antiquisimas;

mas ainda nos-monumentos escritos, atè a ruina do-Imperio, e

inferiormente. No-fim do-XVI. seculo, é que comesáram a introduzir,

esta ridicularia. Comesou polos titulos dos-livros: pasou aos arcos

triunfais &c. De entam para cá _estilo lapidar_ significa, um Latim

escrito em diferentes regras maiores, e menores, segundo a eleisam de

quem escreve. Eu certamente nos-principios de livros, &c. deixaria

as coizas como estam: mas nas inscrisoens lapidares, nam me serveria

destas divizoens de regras à moderna: porque se aquilo nam é verso,

que necesidade á, de dispolo daquela sorte? Alem diso, as inscrisoens

lapidares devem ser brevisimas, e clarisimas: e asim nam é necesario

divizam, porque nam á motivo, para se-confundir a gente. Isto é o

que eu nam poso sofrer, nestes modernos pouco advertidos; que fazem

inscrisoens eternas. Mas isto é contra o bom gosto: a Antiguidade

explicava-se em duas palavras: a simplicidade, e brevidade, era toda a

galantaria das-inscrisoens. Li muitas vezes, e sempre com particular

gosto, as inscrisoens que ainda oje vemos, nos-antigos monumentos, que

existem em Roma. No-portico do-Pantheon ainda oje lemos: _M. Agrippa L.

F. Cos. Tertium Fecit_: que quer dizer, _Marco Agripa, filho de Lucio,

terceira vez consul, fundou este portico_. Esta é do-seculo de Augusto.

Mas ainda as inferiores sam asim. Vencèra Tito Vespaziano os Judeos:

demolîra Jeruzalem: concluîra uma das-mais obstinadas guerras, que

tiveram os Romanos: o Senado, levantando-lhe um arco Triumfal perpetuo,

nam dise uma arenga sempiterna; contentou-se de escrever estas

palavras: _Senatus Populusque Romanus Divo Tito, Divi Vespasiani F.

Vespasiano Augusto_. No-frontispicio do-templo consagrado polo Senado,

ao Imperador Antonino, e sua molher; lem-se estas palavras: _Divo

Antonino, & D. Faustinae. S. C._ No-pedestal da-coluna Antonina, le-se:

_M. Aurelius Imp. Armenis, Parthis, Germanisque bello maximo devictis,

triumphalem hanc columnam rebus gestis insignem Imp. Antonino Pio patri

suo dedicavit._ E na coluna Trajana triumfal lemos ainda: _Senatus P.

R. Imp. Cæsari Divi Nervæ F. Nervæ Trajano Aug. Germ. Dacico Pontif.

Max. Trib. Potest. XVII. Imp. VI. Cos. VI. P. P. ad declarandum

quantæ altitudinis mons, & locus tantis operibus fit egestus._ Deixo

de citar outras, porque é coiza bem vulgar. Nestas inscrisoens ve V.

P. a naturalidade, simplicidade, brevidade: sem divizoens, mas com

fraze continuada. Se porem algumas vezes, eram as inscrisoens mais

compridas, provinham dos-titulos dos-Imperadores, que se-costumavam

escrever: ou porque nela se-nomiavam varias pesoas, cadauma com o seu

titulo; que é o mesmo que diferentes inscrisoens: mas isto é raras

vezes: o comum era polo contrario. Nam asim nos-modernos, que fazem

inscrisoens eternas, sem nobreza, ou grasa alguma; e com divizoens

importunas e afetadas. Mas quando quizesem seguir estas divizoens,

pouco importaria; contantoque fugisem, dos-vicios apontados. Uma coiza

porem nam poso sofrer, e vem aser, escreverem livros em estilo lapidar,

com as divizoens ditas. Se eles intendem, que este estilo é tam proprio

das-lapides, que nam pode aver lapide, por-outro estilo; quizera que

me-disesem, porque compoem livros asim: ou é lapide, ou é livro. Nam

á coiza mais ridicula que esta. Mas o que merece mais rizo é ver,

que quando algum compoem um destes livros, saiem logo os censores,

canonizando o dito estilo; e dizendo mal, dos que desprezam estas

rapaziadas. * * * Um bocadinho de melhor gosto na lingua Latina, e um

bocadinho mais de reflexam, pouparia estas criticas injustas.

Pasando agora às compozisoens modernas, pouco me-fica que dizer. As

mais consideraveis entre as pequenas sam, a Egloga, Elegia, Ode. A

Egloga nam tem uzo em Portugal: em que nam se-aplicam a descrever, a

imagem da-vida pastoril, cujo carater é a simplicidade, e moderasam:

nem tambem esta compozisam, pede muito ingenho: basta ser acertado.

_Camoens_ nas suas Eglogas, introduz tanta variedade de versos, que

nam se-pode ler com gosto; porque faz perder, a ideia da-Egloga.

Alguma delas consta de Oitavas, Cansam, Tercetos &c. mas isto nam

se-deve imitar. Pode alguma vez variar-se, a uniam das-rimas: mas

na mudansa de versos, deve-se proceder com cuidado; porque é muito

impropria. As outras duas compozisoens, sim se-uzam em Portugal:

mas comumente debaixo de outros nomes. A Elegia, tem por-emprego,

descrever sentimentos ou amores; ou expremir qualquer paixam amoroza.

Donde vem, que o seu carater deve ser, o enternecido, explicado por-um

modo animado; mas quanto mais pode ser natural: que é o que faz quem

chora, ou ama: e aqui tem lugar, as Figuras proprias desta paixam.

Cuido que para isto é mais proprio, o Romance Lirico, e a Silva;

porque sam compozisoens naturais, e que se-podem animar, como cadaum

quer: o Endecasilabo nam me-parece tam proprio para isto; porque as

de _Camoens_ em Tercetos, nam soam bem. Neste particular acho um

notavel defeito, em alguns Poetas, que querem fazer do-Soneto Elegia:

e afetando um só conceito final, mostram tanto estudo; que destruem

a ideia da-Elegia. Uma paixam nam se-dezafoga, em 14. versos: pede

compozisam mais comprida, e livre de afetasoens: acrecentando a-isto,

que nem menos o verso os-ajuda. Mas ainda o Lirico, se se-compoem

de discursos separados, como sam as Decimas; nam permite liberdade

da-expresam, para dezafogar a paixam. Tambem nam aprovo os quartetos

Liricos, porque mostram afetasam. Com efeito muitas que eu vi, nestes

dois generos, cuido que mais moviam as Damas a rizo, que a compaixam.

A Ode é aquela compozisam, com que se-louvam as asoens dos-Deuzes,

ou omens ilustres. Esta explicasam basta para mostrar, que pede um

grande ingenho, imaginasam elevada, expresam nobre e correta; e toda

a galantaria e vivacidade, que se-acha na arte de persuadir. Quer-se

juizo, para tecer uma Ode com magestade, e sem defeitos. A Antiguidade

nos-propoem _Oracio_, como o melhor exemplo nesta materia: porque

soube unir duas coizas bem dificultozas, a elevasam, com a delicadeza

e dosura. Para isto na lingua Portugueza parece proprio, o Romance

Eroico, a Cansam, Tercetos Eroicos, quero dizer, endecasilabos: mas o

Lirico nam creio que posa satisfazer, toda a grandeza do-argumento.

Sobre tudo reprovo muito, elogiar as asoens de um omem, em um Soneto:

este só pode servir, para uma asám. O verso endecasilabo é sezudo,

grave, e parece proprio, para estes argumentos: mas deve a compozisam

ter, o comprimento necesario, de outra sorte sofóca-se: motivo porque

nunca pude perdoar a _Camoens_; principalmente fazer compozisoens

amatorias, com o titulo de Ode. Estas trez compozisoens, que aqui

nomiamos, reduzem-se ao poema Narrativo Epico, de que sam partes, ou

dependencias.

A Satira é parte da-Comedia, para a qual se-reduz: contudo muitos que

nam fazem Comedias, divertem-se em fazer Satiras. Mas é necesario muita

advertencia, nesta materia. A Satira nam deve repreender, senam o que

verdadeiramente é viciozo; para instruir os Omens, do-que devem fugir:

e para conseguir isto, quer-se muita delicadeza. Quem repreende o Vicio

abertamente com invetivas, conclûe pouco: por-este motivo nam agrada

_Juvenal_, que é um declamador. O melhor é, pintar com galantaria,

o ridiculo do-Vicio, quazi como quem o-nam-quer mostrar. Este foi

o metodo de _Oracio_; que por-iso agradou muito: mas nam foi ele o

inventor; foi o Filozofo _Socrates_, que tinha uma arte particular,

de descobrir as ignorancias dos-Omens, mostrando de o-nam-querer

fazer. Os modernos que seguîram este metodo, conseguîram melhor que

outros, o seu intento. A istoria de D.Quixote, é neste genero famoza,

e galante: gostei muito de a-ler. Polo contrario, os que fazem Satiras

oscurisimas, como _Persio_, e dos-modernos _Gracian_ no-seu Criticon,

e _Barclai_ no-seu Euformiam &c. nam se-podem sofrer: e eu creio,

que eles mesmos em varias partes, nam intendem o que dizem. Os nosos

Italianos tem um gosto particular, para as Satiras; porque em duas

palavras dizem muito, e com galantaria; deixando intender mais, doque

nam explicam. Tenho visto algumas Latinas belisimas, e bem modernas:

como tambem Comedias, no-seu genero famozas.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 25 / 32 段