E esta é a razam; porque vemos todos os dias, que muitos, querendo ser

Poetas, sam uns ridiculos: porque lhe-falta o principal fundamento;

que é, saber pezar as coizas, e dar a cada uma o seu preso. observando

aquilo, a que os Latinos chamam, _decorum_: que consiste no-introduzir

cada um, a falar segundo o seu carater. Todos os defeitos apontados,

sam esenciais, e frequentes: mas este ultimo da-inverosimilidade, é

mais geral, doque se-nam-intende. Acham-se poucos Poetas, que nam

pequem contra isto: pecam no-Drama, e pecam no-Epico: aindaque neste

menos; porque sam rarisimos os que compoem, poemas Epicos. Mas em toda

a outra sorte de poema Narrativo, sam mui frequentes em Portugal. Nas

Comedias pouco caiem os Portuguezes, porque nam se-aplicam a elas:

raras vi, fóra das-de Camoens: mas os Espanhoes caiem muito nisto. Verá

V. P. um pastor, que fala com mais filozofia e prudencia, que um Cipiam

Nasica, ou Catam Uticense. Acham-se relasoens, com encarecimentos

tam despropozitados, que nam merecem outro nome, que uma enfiada de

manifestas mentiras. Algumas vezes, um omem vulgar faz uma Decima, ou

Oitava derepente: outras vezes, dá melhores conselhos, que um consumado

Jurisconsulto. Finalmente em tudo se-ve pintada, a inverosimilidade.

Nam digo eu só _Calderon_, mas o mesmo _D. Antonio de Solis_; que em

outras coizas mostrou mais juizo, que _Calderon_; nesta o-perde. E

finalmente todos os Espanhoes sam o mesmo: porque tropesam a cada paso

na sutileza, que é impropria na boca, de semelhantes pesoas: e tambem

impropria da-Comedia: que nada mais é, que uma imagem da-vida, proposta

aos olhos dos-omens, para repreender as asoens ridiculas dos-mesmos.

Dos-Espanhoes o-aprendèram os Portuguezes: e comumente se-persuadem,

que quem sutiliza melhor, e diz coizas menos verosimeis, é melhor

Poeta. Metaforas mui fóra de propozito, encarecimentos inauditos, sam

os seus mimozos. Ouvi gavar muito um Soneto do-_Chagas_, feito a um

cavalo do-Conde de Sabugal, pola metafora da-Muzica, e comesa asim:

_Galhardo bruto, teu acorde alento

Muzica é nova, com que aos olhos cantas:

Pois na armonia de cadencias tantas,

É clave o freio; é solfa o movimento._

Mas eu considerando o tal Epigrama acho, que é uma completa parvoise,

desde-a primeira palavra, até a ultima. Nam acho nele, conceito algum:

as palavras sam improprias: e muitas nam tem significasam certa: e nam

conclue com pensamento que eleve, que é a obrigasam do-Epigrama. Nam

sei como o dito Poeta nam fez outro, a um burro de Valada, ou macho

de Almagro; pola metafora da-Logica, ou Geometria. Podia descobrir na

seriedade destes animais, semelhansas de um omem que filozófa: no-seu

paso grave, o fundado do-juizo: tambem nas suas orelhas, semelhansas

de uma sesam conica: no-corpo, vestigios de um paralelogramo:

no-movimento, a ideia de varias linhas: e nas unhas, uma porsam de

circulo: com outras ridicularias destas. As metaforas podem ter lugar;

mas nam devem ser estas, que sam arrastadisimas. Isto nam intendem os

que o-louvam: mas isto deviam intender, os que prezumem ser Poetas.

O outro ponto dos-encarecimentos, é frequentisimo nestes paîzes. Nam

á coiza mais comua, entre estes chamados Poetas, doque encarecimentos

incriveis; e servir-se de palavras, que nam significam nada. E sem saîr

do-_Chagas_, que parece a muitos, que é bom Poeta; considere V. P., o

que ele diz neste Soneto, feito a um pé pequeno de uma Dama.

_Instante de jazmin, concepto breve,

Atomo de azuzena presumido;

Pues os juzgam las ancias del sentido,

Sospecha de cristal, susto de nieve.

Nó pie, mentira sois: pues como aleve,

Ni verdad en un punto aveis cumplido.

Antes creo que escrupulo aveis sido:

Pues de ser, o nó ser, la duda os mueve.

Como, si idea sois de ojos tan claros,

Hazeis los ojos fé para creeros,

Y hazeis la vista fé para miraros?

Yo me resuelvo en fin que he de perderos.

Pues si el veros es solo imaginaros;

Siendo imaginacion, como he de veros?_

Este Soneto tem tido mil aplauzos: e ja achei quem me-disese, que era

onde podia chegar, o ingenho umano. Contudo iso eu defendo, que os que

o-louvam, proguntados polas palavras do-Soneto; ám-de confesar, que

o-nam-intendem. Primeiramente estas palavras, _instante de jazmin_,

_concepto breve_, _atomo presumido_, _sospecha de cristal_, _susto de

nieve_, _ancias del sentido_: sam frazes que nada significam: e nam

só em Portuguez, mas em nenhuma lingua. Dezafio todos estes poetas

Portuguezes, paraque me-digam, se ouvisem um omem falar em proza

daquela sorte, se o-intenderiam: pois é bem claro, que o que nada

significa em proza, muito menos significa no-verso. E temos, que o

primeiro quarteto nada significa: porque querendo ele significar, um

pé pequeno; serve-se de termos, que nam significam iso. Na segunda

quadra sobe de ponto o encarecimento: e nam se-contentando de dizer,

que é pequeno, e é um ponto; acrecenta, que nam á tal pé no-mundo; pois

somente fica a duvida, se o-ouve, ou nam ouve. Nos-tercetos desfaz,

quanto tinha dito. Primeiro asenta, que o pé se-ve: despois diz, que

nam é asim, e que somente se-pode saber por-tradisam, que á tal pé:

e conclue, que nam existe senam na imaginasam, e nam é posivel que

se-veja. Esta é a analize do-dito Soneto. Ora diga-me V.P. polo amor de

Deus, se intende o que quer dizer, este Poeta. Primeiramente, ele nam

conseguio o seu fim, que era mostrar, que o pé da-sua Dama era pequeno:

provou mais doque queria; e mostrou, que nam avia tal pé. Alem diso nam

adverte, a inverosimilidade do-conceito. Nam consiste a beleza de uma

figura, em ter um ponto por-pé; antes isto é deformidade: consiste, em

ter um pé proporcionado: e nas-molheres, a sua proporsam é, que o pé

seja mais pequeno. E eu intendo, que a Dama ficaria mais contente, de

ter um pé grande; doque de nam ter pés, e necesitar de moletas.

Dirmeá V. P. que o Poeta deve fingir, e inventar alguma coiza, para

louvar: concedo: mas nam devem ser semelhantes parvoices, que em vez

de agradar, fazem nauzea. Podem-se dizer muitas coizas daquele pé:

mostrar, que para o complemento da-beleza, nam á proporsam melhor, que

um pé pequeno: que nisto excede ela muito, todas as mais senhoras: que

a sua brancura, e delicadeza é inimitavel: que tem toda a grasa que

se-pode imaginar, em semelhante parte do-corpo. Isto, quanto ao serio.

Pasando ao burlesco, podem-se dizer mil outras coizas: e pode o Poeta

inventar, alguma coiza galante; com que adorne estes conceitos. Asim

torno a dizer, que os que louvam o Soneto, sem considerarem isto, nam

o-intendem.

Se V.P. examina o motivo, de todos estes encarecimentos; achará que

provèm, do-que no-principio apontamos. Todo o ponto destes Poetas

está, em singularizar-se, seja como for: e asim buscam argumentos

esquipaticos, os quais obrigam a procurar, conceitos despropozitados.

E unido a isto, que eles sabem pouco, o que quer dizer _elogiar_;

daqui vem, que amontoam conceitos inverosimeis; e servem-se de

expresoens, que nada significam: as quais ou por-forsa do-consoante,

ou da-novidade, agradam aos ignorantes. Que o Poeta disèse maos

conceitos; aindaque fose um grande defeito, era mais toleravel:

mas que, por-querer dizer coizas peregrinas, diga parvoices, e

contrariedades; e fale em uma lingua, que ninguem intende; isto sim

que se-chama, grande defeito de Poezia. Conheso, que os sinonimos sam

às vezes necesarios: que os epitetos dam muita galantaria, nos-poemas:

mas com algumas condisoens. 1.^o ám-de ser coizas, que signifiquem.

2.^o distribuidos com moderasam. Mas estas duas coizas sam, as que

pola maior parte ignoram, estes Poetas: e com tantoque consigam o

consoante, nam reparam, em tudo o mais. Mas sobre todos, este tal _Frei

Antonio das-Chagas_, caio nisto: quazi todas as suas obras, consistem

em palavras, sem conceito, e sem significado. Os Romances sam menos

maos: tambem o Saco da-Jeruzalem Celeste, aindaque cheio de aluzoens

mui destemperadas, pode pasar: os Sonetos quazi todos sam peste: e o

mesmo digo da-Filis, que muitos louvam, porque a-nam-intendem. Sei que

se V. P. ler isto ao P. * * * me-terá por-um Cafre, que nam intende,

que coiza é Poezia: mas eu nam falo sem prova: e quando ele me-souber

responder, entam lhe-darei razam.

Basta que V. P. leia os titulos, de muitos Sonetos; para conhecer o

que digo. Quando eu leio estas inscrisoens:==_Achando na beleza de

Filis, razam para deixála_==_aos olhos de Filis com nevoas_==_fineza

de nam amar a Filis_==_fazendo merito da-ouzadia_==_duvidas de

declarar-se_==_fazendo razam do-atrevimento_==_confuzam do-seu

amor_==_saindo Filis de noite ao campo_==: e outros asumtos

semelhantes; ja sei, que as compozisoens sam parvoises: e com efeito

compare V. P. os do-_Chagas_, com estes titulos; e veja se concordam,

e se os-intende. O mesmo lhe-digo do-_Pina_, e outros semelhantes.

Persuada-se V. P. que um asumto mao, á-de produzir más obras: porque

se um argumento fecundo, tratado por-um omem que sabe, às vezes nam

saie bem; que fará um infecundo, principalmente tratado, por-quem

nam sabe elogiar? É necesario ter muito ingenho, e juizo, para saber

tratar bem, semelhantes argumentos. E porque muitos nam tem, estas duas

circunstancias; por-iso nacem estas compozisoens, de que nós nos-rimos.

Mas pasemos dos-Sonetos, ao poema Epico, à famoza Filis do-dito

_Chagas_; e verá V. P. que nada mais é, que uma enfiada de antitezes,

que nada significam: e que só agradam a estes, que se divertem com

consoantes Gregos, sem intenderem o que lhe-agrada. Tudo isto se-ve,

no-principio do-poema: ousa V.P. a primeira Oitava.

_Yo que en la flor de mis primeros años

Cantè de Amor, las dulces tiranias;

Y en los echizos de agradables daños

Menti las horas, y engañè los dias:

Aora en numerosos desengaños,

Si llanto son las consonancias mias;

De la beldad que fue de Grecia espanto,

Lloro el amor, y la tragedia canto._

Nesta oitava acham-se mil coizas galantes: _dulces

tiranias_==_agradables daños_==_menti las horas_== e outras coizas

destas, que jogam os murros. Especialmente considero, a estrutura

da-Oitava. Na primeira quadra diz isto: _Que ele, que no-principio

da-sua idade, fizera versos amatorios, e asim pasára os dias_: Esta

parte pedia outra segunda, em que disèse: _Que agora, dezinganado

daquelas puerilidades, se-ocupava em fazer, um poema Epico, e serio._

Asim comesa _Virgilio_ a sua Eneide, e outros Poetas: mas isto é o

que nam diz o noso _Chagas_. Parece-me, que na palavra _numerosos_,

queira significar _metricos_: e iso cuido que nam significa, mas

que só significa _muitos_: porem isto nam é nada. A parentezis==_Si

llanto son las consonancias mias_== nam tem conexam, com o que asima

dise: as consonancias, ou os versos podem ser _choro_, e _canto_;

quero dizer, _alegria_. Mas nem menos concorda com o que abaixo diz,

o que asima dise: porque nam é boa opozisam esta: _Tendo até aqui

feito versos amatorios; agora com muitos dezinganos, (se é que os

meus versos sam choros) chóro o amor, e canto a tragedia._ A palavra

_canto_ na primeira quadra deve significar, nam quem canta cantigas,

mas quem faz poemas: e neste sentido a-tomam todos os Poetas, e o

_Chagas_ tambem: pois o que quer dizer é isto: Que tendo feito muitos

versos, na sua mocidade; agora se empregava em outros asumtos. O que

suposto, opondo-lhe na segunda quadra, o _choro_; diz uma parvoice:

pois o contrario a poezias amatorias, é cantar coizas graves. Onde

contrapondo-lhe o choro; vem a tomar a palavra _canto_, como equivoca;

que é coiza indigna de um poema Epico. Tambem aquela antiteze

ultima==_lloro el amor, y la tragedia canto_== é uma puerilidade.

Bem se-mostra que o Poeta, novamente quer introduzir por-equivoca, a

palavra _canto_. Alem diso, se o argumento da-sua obra, é uma tragedia

amatoria; separando o amor da-tragedia, diz outra parvoice. Pasemos à

segunda Oitava.

_Musa que cultamente amaneciste

Candida en las auroras de mi oriente;

Y al alma tantas vezes me infundiste

Tu divino furor, tu afecto ardiente:

Si dignos son de tu concepto triste,

Numeros tiernos de una voz doliente;

Mi afecto inflama, harè que en dulce rima

Cante el dolor, la consonancia gima._

Tem V. P. nesta Oitava, quazi as mesmas incoerencias. _Musa candida_,

eu nam sei o que quer dizer. _Amaneciste en las auroras de mi oriente_,

sam trez sinonimos viciozos: _amanhecer na aurora_, é uma parvoice:

_aurora do-oriente_, é ainda maior parvoice. Aquela repetisam==_Tu

afecto ardiente_== nam tinha lugar despois de _furor_: porque a Muza

comunica o seu furor, ou veia; quero dizer, dirige o Poeta no-canto:

mas nam comunica o seu afeto. _Concepto triste_, impropriamente

se-aplica à Muza: a qual nam é triste: e muito menos, quando inspira

Epopeia. Finge-se que a Muza seja uma Deuza, toda ocupada em alegrias;

a quem o Poeta invoca, paraque lhe-conceda um espirito, digno

do-Parnazo. _Una voz doliente_, supoem, que o Poeta está aflito: e

isto é improprio em um Poeta, que nam escreve os seus tormentos, mas

os alheios. Que outra coiza avia dizer Demofonte, se compuzese a sua

istoria? O ultimo verso é uma antiteze ridicula, e verdadeiramente

coiza de rapaz: novamente opoem aqui o Poeta o _choro_, ao _canto_;

sendo coizas, que no noso cazo nam sam opostas: porque _canto_ aqui

nam significa cantar. O que diz o Poeta, se-reduz a isto: _Que a dor

á-de cantar, e a consonancia, ou o verso á-de gemer_: e quem pode ler

isto sem rizo?

Finalmente eu paro aqui: porque se quizese examinar todas as Oitavas,

comporia um volume. Basta que V. P. o-leia, e examine, e achará que

todo o livro se-compoem disto; e de palavras que nam se-intendem; e

epitetos que nam significam nada. Confeso, que ainda nam vi Poeta, que

escrevendo tanto, disèse tam pouco, como o _Chagas_. Estas reflexoens

que faso a V. P. sobre o _Chagas_, poso fazer em outras obras; nam só

de autores das-duzias, mas ainda daqueles que se-acham joeirados, na

_Fenix Renacida_; e em outras colesoens de poemas. Mas escolhi este

autor, porque é mui conhecido, e louvado, e procurado de muitos: e asim

quiz apontar um, para exemplo. O que porem digo dele, deve-se aplicar

a todos os outros, que seguem o mesmo estilo. O ponto está ter bem

na cabesa, as regras da-Poezia; e examinar sem paixam, as obras; que

facilmente se-descobrirám, os defeitos.

Se V. P. com estes principios, toma o trabalho de examinar, muitos

dos-seus Poetas, ou a maior parte deles; achará, que tropesam no-mesmo

defeito do-_Chagas_; com a unica diferensa de mais, ou menos: e ainda

muitos dos-que tem bom ingenho; porque lhe-falta o juizo, para saberem

examinar as materias. A regra que eu observo neste particular, é esta:

quando vejo um Poeta destes, que se-serve de expresoens, que nada

significam; ou que compoem de sorte, que o-nam-intendem; asento que nam

quiz ser intendido; e em tal cazo, procuro fazer-lhe a vontade, e nam

o-leio. Com esta sorte de omens faso o mesmo, que com os laberintos,

e enigmas &c. os quais nunca me-cansei em decifrar. eles que o-fazem,

que se-divirtam com iso. Se todos asentasem neste principio, veria V.

P. como se-mudava a Poezia nestes paîzes: porque seriam obrigados os

Poetas, a lerem somente as suas obras: e asim, ou se-dezinganariam

eles mesmos com o tempo; ou, nam inganariam os outros: e poderseîam

achar Poetas, de algum merecimento: principalmente se chegasem a

conhecer, quais sam os requizitos necesarios, para a Poezia. A razam

destes inconvenientes é, porque se-persuadem comumente, que para

ser Poeta, basta saber a medida de quatro versos: e saber ingenhar

conceitos exquizitos. Quem se-funda nisto, nam pode saber nada: sam

necesarias muitas outras noticias. É necesario doutrina, e intender

bem as materias que se-tratam. é necesaria a Filozofia, e saber

conhecer bem, as asoens dos-Omens, as suas paixoens, o seu carater:

para as-saber imitar, excitar, e adormecer. Aqui entra novamente a

Retorica, que supoem todas aquelas coizas: entra uma pouca de istoria,

para nam dizer parvoices: entra a istoria da-Fabula &c. Tudo isto

se-mostra manifestamente, nos-melhores poemas que temos da-Antiguidade.

_Virgilio_, e _Oracio_ &c. eram omens que intendiam perfeitamente, o

que tratavam: e sabiam muita coiza, que introduziam proprisimamente,

nos-seus poemas; de que se-compoem, o ornamento deles. O mesmo digo,

de outros Poetas modernos, e insignes. Onde, quem nam tem estes

fundamentos, é versejador, mas nam Poeta: e necesariamente á-de dizer,

muita parvoice.

Seguia-se despois destas reflexoens gerais, falar especialmente,

nos-defeitos das-particulares: mas nem eu tenho tempo para isto, nem

o-permite, a brevidade de uma carta. Onde, somente direi alguma coiza

mais geral, que compreenda as compozisoens pequenas; e tambem alguma

coiza do-poema Epico; vistoque o Dramatico nam tem uzo, em Portugal.

Digo pois, que nestes paîzes vejo, mui radicada certa opiniam,

de chamar Poeta, a quem o-nam-é: e dar estimasam a poezias, que

a-nam-merecem. Uma vez que um omem faz um Soneto, com algum conceito;

ou Decimas, com alguma naturalidade; acham-se logo mil admiradores,

que dizem, ser famozo Poeta. V. P. terá ouvido frequentisimamente, que

quando em um Oitero se-gloza um mote, com facilidade; estam promtos

mil aplauzos, para o Poeta: eu o-prezenciei muitas vezes: e esta é a

comua opiniam. Mas na verdade é um ingano comum, porque aquilo nam é

ser Poeta, nem para lá vai. Semelhantes sortes de compozisoens, nam

dam credito a ninguem: isto persuade a boa razam, e a experiencia:

Quanto à experiencia, progunte V. P. (o que eu ja fiz) a um destes

Glozadores, qual é o artificio da-Poezia; e verá que nam sabe de que

cor é: e nam digo só destes das-duzias, mas ainda dos-que glozam

felizmente: e conseguentemente nam é Poeta. A razam confirma o mesmo:

porque o artificio destas obras nam é nenhum: a sua contextura é

tam facil, que por-mao que seja o Poeta, sempre acerta com elas. A

Decima, a Quintilha, o Madrigal, as Liras, a Silva, o Romance lirico,

Quartetos puros, e de pé quebrado, Tercetos &c. nada mais pedem, que

a naturalidade-do-conceito, e expresam: quando muito, algum bocadinho

daquele _ingenho mixto_; que consiste, em ter no-fim algum pensamento

meigo; explicado com alguma fraze agradavel, e delicada, ou coiza

semelhante. Isto nam pede talento, mas somente alguma imaginasam: a

qual nam se-acha omem tam desgrasado, que a-nam-tenha. Onde, posto isto

em trages de Poezia, saie uma Decima, ou coiza semelhante.

Nam digo, que um bom Poeta, nam posa fazer estas coizas tam bem; que

agradem aos omens, de melhor penetrasam: sendo certo, que quem tem

juizo o-mostra, ainda nas coizas pequenas; como fizeram os Antigos: o

que digo é, que explicando um pensamento, polo modo que aponto, pode

qualquer fazer Decimas &c. que agradem. Antes é muito de advertir,

que quando estes poemas pequenos se-estudam muito, e neles querem

mostrar muito estudo; cheiram a Filozofia, e perdem toda a grasa.

Este defeito tenho observado, em muitos Espanhoes, e Portuguezes; que

se-preparam para fazer uma Decima, a uns olhos azuis; ou a uma Dama

que deixou cair, uma luva em terra; ou a um sinal que se-despegou

do-rosto; e outros semelhantes asumtos; como se ouvesem de cantar a

guerra dos-Romanos, com Mitridates, ou com Cartago. Isto é um defeito

esencial: e é nam saber aplicar o poema, ao asumto: sendo certo, que

semelhantes compozisoens só se-inventáram, para asumtos ou burlescos,

ou amatorios; ou de coizas domesticas, que nam permitem estudo

particular: e asim todo o merecimento de semelhantes obras consiste,

n’um conceito delicado, e natural. O Poeta perde a naturalidade, todas

as vezes que procura, com grande estudo, mostrar ingenho: e nunca

dezagrada mais, que quando procura agradar muito: porque o conceito

a-de aprezentar-se, e nam procurar-se.

Por-este motivo sam dignos de rizo certos Poetas, e Poetezas, que fazem

Romances, e coizas semelhantes; com tal estudo, que nam se-intendem sem

comentario. A _Madre Joana de Mexico_, é uma delas: tambem _Gongora_

nos-seus Romances: e dos-modernos _Eugenio Gerardo Lobo_: que tem

alguns, que, ainda despois de muito estudo, nam se-percebem. Finalmente

isto é defeito geral dos-Espanhoes: e dos-que eu li, nam achei algum,

que nam pecase nisto. Dos-Espanhoes o-recebèram os Portuguezes, e

poucos sam os que se-excetûam. O _Chagas_ nos-seus Romances, tirando

em certas partes, é dos-mais naturais: tambem o _Camoens_ no-lirico.

Vi tambem neste genero alguma coiza do-_Conde de Tarouca_, morto

no-Imperio; que me-agradou pola naturalidade, e imaginasam: e algum

outro, mas raro. Dos-oscuros nam cito exemplos, porque nam á coiza mais

comua que isto: e neles poderá V. P. reconhecer, este defeito. O pior

é, que se um omem faz uma Decima, ou coiza semelhante, como deve ser;

nam agrada a esta sorte de Poetas, e chamam-lhe coiza trivial: querem

ideia mais superlativa: e sempre o oscuro, inverosimel, arrastado,

lhe-parece que encerra, melhor doutrina. Mas o sal do-negocio consiste,

em mandar isto à sua Dama, ou a um amigo, que o-nam-intende: e

ficarem lambendo os beisos, dos-aplauzos. Isto vale o mesmo, que se

lhe-mandasem uma Ode de Pindaro, ou Anacreonte; porque umas e outras

foram Gregas. Nam é crivel, quanta gente padece esta infermidade: que

para mostrarem ou doutrina, ou ingenho; procuram nam serem intendidos,

nam só nas compozisoens, mas ainda nos-discursos familiares. Achei-me

em uma Prosisam de Freira, onde vi certo *** que sendo dezafiado

por-uma Freira, despois de falar muito, lhe-falou nas _precizoens

objetivas_ dos-Logicos, e repetio muito verso Latino. Mas a Freira nam

cedeo: porque se ele falava Latim, ela falava uma lingua, que ninguem

intendia. Despois de falar muito tempo, com um profluvio de palavras

incrivel; juro a V. P. que nam pude perceber, o que ela queria dizer:

pois aindaque as palavras eram Portuguezas, a fraze porem era tal, que

nam se-podia decifrar. Esta Freira tem muitos parentes neste mundo.

Conclûo pois, que esta sorte de poemas, que pedem somente naturalidade,

e alguma imaginasam; a ninguem podem dar nome, de Poeta.

O Soneto tambem pertence a esta regra: mas é certo, que pola qualidade

do-verso, admite mais elevasam de expresoens, que os outros poemas

nomiados. Contudo iso defendo, que o conceito deve ser natural: deve

ter verdadeiro ingenho: e só na maneira de explicar-se, é que está a

galantaria do-Soneto. Consiste pois a obrigasam do-Soneto, em propor

na 1.ᵃ quadra o asumto: na 2.ᵃ explicálo com algum conceito: de que

se-tire o argumento, para os tercetos. Os Poetas, que tem mais cabedal,

expoem o asumto nos-primeiros dois versos: nos-dois segundos comesam a

discorrer. Tal é o Soneto feito à morte de uma Senhora, cuido que polo

Bacelar, e diz asim:

_Venceo a Morte, o Fabio, a Formozura.

Amarilis a bela é cinza fria.

Procura Amor fazer, que o-nam-sabia,

E esconde o cazo, nesta pedra dura &c._

Outras vezes o Poeta expoem na primeira palavra, o asumto: e desta

sorte é o Soneto, que citei a V. P. em outra carta, feito a uma cara

mui feia. Mas nem todos os asumtos, se-podem propor asim; e podendo,

nem todos os Poetas sam capazes, de o-fazerem. Porem é grande beleza

do-Soneto, que na primeira quadra diga algum conceito; que dè materia

a todo o discurso da-segunda; e encadeie naturalmente com os tercetos.

E sem sair do-tal Soneto, o-repitirei novamente; porque me-parece que

prova, o que digo:

_Es feia: mas desorte, que orroroza

À tua vista é bela a feialdade:

Mas tens fortuna tal, que a enormidade

Te-consegue, os tributos de formoza.

Cara tam feia, coisa tam pasmoza

Todos observam, e move a raridade.

Nam desperta o comum a curzidade:

Ser rara, é que te-adûla vaidoza.

Ama-se o Belo, e cega o mesmo afeto.

O Feio, pois nam liga o pensamento,

Deixa miudamente ver o objeto.

Isto faz que se observe ese portento.

Quanto estás obrigada, a ese aspeto;

Se no-enorme te-dá merecimento!_

Neste Soneto, que em tudo é natural, o conceito dos-dois ultimos versos

da-primeira quadra, prova-se na segunda, e se-confirma nos-tercetos:

dando materia ao conceito do-fecho, que é nobre e natural, e diz mais

doque soa. Mas nem todos seguem este parecer: e verá V. P. infinitos

Sonetos, ainda de omens que prezumem ser Poetas, que pecam contra

tudo isto. Eles tem dois extremos: ou dizem conceitos inverosimeis,

e encarecimentos tam fóra do-escolio, que ninguem os-pode sofrer; ou

dizem frioleiras; ou finalmente servem-se de conceitos, que nam é

fácil intender: e o melhor da-galhofa está, em que ornam tudo isto com

frazes, que nam se-percebem. De tudo achará V. P. exemplos, sem sair

do-_Chagas_: o qual tem Sonetos em que se-acham, estas trez coizas:

inverosimilidades, oscuridades, e frialdades.

Quanto às inverosimilidades, nam queira V. P. melhor prova, que o

Soneto Espanhol, feito ao pè pequeno d’aquela Senhora &c. mas ainda á

outros. Faz ele alguns Sonetos, a que chama _Eroicos_, e entre eles

algum _ao Conde da-Torre_, que matou de um golpe um toiro. Asumto

mui mimozo dos-Portuguezes, ao qual tenho lido infinitos Sonetos, de

diferentes autores. Intende V. P. que este titulo _Eroico_, promete

um pensamento nobre e admiravel? asim devia ser; mas nada menos é: e

nestes eroicos entram igualmente as sutilezas, e impropriedades. Se

me-nam-dá credito, ousa o primeiro, que diz asim:

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 24 / 32 段