conhece V.P., que estimou mais um laberinto que fez, doque se fizera
alguma famoza compozisam. Outros tem por-coiza grande, fazer laberintos
de quartetos, dispostos em certa figura, de-sorteque se-lem por-todas
as partes; e sempre conservam, a mesma consonancia. Outros fazem
versos, que se-lem para diante, e paratraz: de uma parte, fazem um
sentido: da-outra, outro contrario: empregam nisto tempo consideravel,
nam só em fazèlo, mas em decifrálo: e chamam a isto, emprego de sublime
ingenho. Que omens! O simplez nome de laberinto basta, para desprezar
esta sorte de compozisoens: olhar para eles, deve confirmar este
propozito. Decifrado um laberinto de letras, comumente acha-se o nome
de uma pesoa, e nada mais: e onde está aqui o ingenho? Custa às vezes
ao Poeta, fazer um laberinto de um quarteto, um mez; e como nam pode
chegar a encobrir a compozisam, de modo que outro em um abrir de olhos,
a-nam-decifre; todo o ingenho do-Poeta, que lhe-custou um mez, excede
outro, com um abrir de olhos. Os outros laberintos de quartetos &c.
nenhum tem conceito: porque nam podem unir-se duas coizas, poetar bem,
e poetar em laberinto. E asim com muito trabalho consegue o Poeta, que
os outros conhesam; que ele nam sabe fazer, versos bons.
Igualmente é estimada neste paiz, uma especie de Sonetos, em que
se-repete a mesma palavra, em todos os versos: que é o mesmo que
a galantaria, dos-consoantes forsados. Porque obrigado o Poeta, a
introduzir a dita palavra em cada verso, nam pode ideiar livremente;
nem unir um verso com outro; nem sair com alguma compozisam, que seja
digna. Podia citar mil exemplos: mas nam queira V. P. nenhum melhor;
que o Soneto que se-atribue ao _Chagas_, e comesa:
_O tempo ja de si me-pede conta._
Em todos os versos entra, a palavra _tempo_: que é uma embrulhada
terrivel: e o conceito do-fim consiste nisto:
_E que se-chega o tempo de dar conta._
que é em carne o mesmo primeiro verso. E onde acha V. P. a galantaria?
o mesmo digo dos-outros. E tudo isto provèm, de que tais Poetas
intendem, que o-fazer um Soneto segundo as leis comuas, é coiza
ridicula: e asim querem, esquipasam particular.
Se os omens considerarem, que coiza era a Poezia: se tivesem bem
intendido, os principios dela: se quizesem decifrar, em que consiste
a beleza e armonia, que nos-eleva, quando ouvimos um bom poema: nam
podiam menos, que desprezar todas estas compozisoens; que sam indignas,
até dos-proprios rapazes. Só os que nam sabem, que coiza é ingenho,
se-aplicam a estas ridicularias. Dezesperando de chegar, à magestade
dos-antigos compozitores; nam acháram outro meio de serem atendidos,
que fazendo ridicularias. Sucedeo-lhe o mesmo, que aos Godos, com
a Architetura: nam tendo sido instruidos nas boas artes, como foram
os Gregos, e Romanos; e nam podendo chegar, à nobre simplicidade
da-antiga Architetura: ornáram as suas fabricas, de tudo o que
lhe-ofereceo, a sua mal regulada imaginasam. Desorteque os omens, que
no-seculo prezente observam, os monumentos que nos-ficáram, destes
barbaros; nam cesam de admirar, a pouca proporsam que se-descobre, em
todas as suas fabricas: e o mao gosto que aparece, em todos os seus
ornamentos. Muitos deles viviam em Roma: tinham debaixo dos-olhos,
as famozas fabricas dos-Romanos: e desprezando tudo isto, produziam
monstruozidades. Asim sam os autores destas Poezias: tem os bons
livros: podiam neles observar, o que devem: e desprezam tudo isto, para
seguirem fantasticas imaginasoens. Onde dise com galantaria, um autor
moderno; que se a gloria de belo ingenho, se-conseguîra somente, com o
trabalho que empregam, naquelas ridicularias; ele nam queria ser belo
ingenho: pois era melhor, ser forsado da-galè, que conseguilo com tanto
custo. E eu acrecento, que se estivese na minha mam, condenaria estes
tais Poetas, a pasarem a sua vida fazendo _Acrosticos_, _Anagramas_,
_Laberintos_; retirados do-comercio dos-omens; e felicitar-se com os
seus inventos.
Tenho ainda outra coiza que advertir, que tambem é efeito, de mao
ingenho; e sam aqueles ditos, que chamam _agudos_, e jogos de palavras;
que se-acham frequentemente nos-Prozadores, e frequentisimamente
nos-Poetas. Verá V. P. pesoas, que cuidam dizer grasas, e coizas
ingenhozas; e dizem insipidas ridicularias. Outros, servem-se de
uma palavra com um _c_, que posta com um _l_, significa coiza
diferente: e daqui formam uma caraminhola, a que chamam ingenho; e
ficam mui satisfeitos, da-sua agudeza. O pior está, em que á omens
que escrevèram, sobre a agudeza; e quizeram ensinar isto, aos
leitores. Li á anos um livrinho pequeno, de um Espanhol, que cuido
era Gracian; e se-intitulava _Tratado de la Agudeςa_: lembro-me que
o autor no-prologo, dezejava ao livro a boa fortuna, de cair em
maons, de quem o-intendèse. Polos meus pecados eu fui um, dos-que
nam se-cansáram em intendèlo: porque logo intendi, que o livro nam
merecia que se-lese. Querer ensinar a dizer grasas, e agudezas; é o
mesmo que querer ensinar, a mudar a natureza: quem nam é proprio para
estas coizas, nam as-pode aprender. As grasas, pola maior parte, tem
beleza respetiva: em boca de uns, tem grasa; na dos-outros, nam: a
agudeza quando nam é pura, é o mesmo. Pola maior parte, as que pasam
com este nome, nam meresem este titulo: sam meros jogos de palavras,
que agradam infinitamente aos ignorantes. Neste particular a verdadeira
regra é esta: Se o conceito traduzido em outra lingua, conserva a
mesma forsa; pode-se chamar pensamento ou agudo, ou ingenhozo, segundo
as circunstancias: se a-perde, pronuncie V. P. livremente, que é uma
ridicularia: e que só pode ter lugar, entre gente que gosta daquilo.
Acham-se, é verdade, nos-Antigos muitas, e mui insulsas. Aristoteles
na sua Retorica aponta algumas, a que chama _Paragramas_. Cicero
no livro 2.ᵒ _de Oratore_, tratando das-facecias do-Orador, indica
outras muitas: e ele mesmo em varias partes das-suas obras, serve-se
delas: porque este era o seu defeito, ser mui faceto: e com as suas
facecias aquistava, perigozos inimigos. Mas devo dizer, em obzequio
da-verdade, que as que ele aponta, quazi todas sam frioleiras, e
ridicularias; que nam merecem nome, de pensamento ingenhozo: e se V. P.
me-nam-cre, leia o dito livro, e achará que lhe-digo a verdade. Estas
venialidades em que caîram estes grandes omens, sam recompensadas com
infinitas boas qualidades, que neles vemos: e sam tambem desculpaveis,
por-outro principio; que é a falta de Critica, que tiveram os Antigos.
Aqueles ingenhos elevados dos-primeiros autores, nam faziam todas as
reflexoens necesarias, para procederem com exasam: polo contrario, os
que os-seguîram, aindaque inferiores na grandeza de ingenho, excedem
no-metodo, e na critica: e souberam evitar, os defeitos dos-primeiros.
Omero é grande, é natural, tem pensamentos elevadisimos, e excede nisto
a Virgilio: contudo este, que escreveo despois, aindaque tenha menos
natureza, mostra mais arte que Omero: pois soube evitar um defeito,
que frequentemente se-acha em Omero, que é, amontoar superfluos
epitetos, e às vezes insulsos: como tambem as digresoens, e coloquios
insipidos, sem necesidade alguma. Cicero no-seu livro de _Claris
Oratoribus_, em que censura, tudo o que ouve de bom na Antiguidade;
traz belisimas reflexoens, sobre os defeitos de alguns Oradores: e bem
procurou nas suas obras, fugir dos-tais defeitos. Contudo Quintiliano,
que floreceo um seculo e meio despois, aindaque muitos furos abaixo,
do-merecimento de Cicero; advertio coizas, que a Cicero tinham fugido.
A verdade é, que os escritores que escrevèram, despois dos-primeiros;
refletindo sobre as primeiras obras, examináram melhor, que coiza era
bom ingenho; e deram regras, que os primeiros ignoravam. Quintiliano
é um destes: mas sobre todos Dionizio Longino, que floreceo no-meio
do-3.ᵒ seculo cristam. Este omem, que alem de Filozofo, e Retorico,
era um perfeitisimo Critico; ensinou no-tratado, que nos-deixou _de
Sublimi stilo_, como se-devia julgar nestas materias: e que coiza
se-devia chamar _Ingenho_: e todo o mundo douto, concordou com ele. A
ignorancia, que pouco despois se-introduzio no-Imperio; fez com que
se-esquecesem, deste metodo de julgar: o qual se restableceo nos-fins
do-seculo XVI. mas principalmente no-pasado, e no-prezente; em que as
coizas se-estimam, nam polo que parecem, mas polo que sam. Mas como nem
todos tem juizo, para intenderem as coizas; daqui nace, que neste mesmo
seculo XVII. e ainda prezente, se-acham pesoas, que confundem as ditas
coizas: e que, se acazo chegam a ler os Antigos, nam sabem advertir, o
que neles se-deve imitar, ou desprezar: e por-iso chamam pensamentos
ingenhozos a coizas, que estam mui longe diso: o que frequentisimamente
se-incontra, neste Reino.
Um destes Poetas, observando as desprezantes maneiras de olhar, da-sua
Dama; e convencido no-mesmo tempo, da-eficacia que os seus olhos
tinham, para inspirar-lhe amor; os-considera como espelhos ustorios,
feitos de caramelo: mas podendo ele viver, nos-maiores ardores que
o-abrazavam; conclue, que a zona torrida é abitavel. Quando a sua
Dama tem lido a carta, que lhe-escreveo, com sumo de limam, posta ao
calor do-fogo; lhe-pede, que a-torne a ler, à luz das-chamas de amor.
Quando ela chora, dezeja que um suave calor, excitado polo amor, fasa
destilar aquelas lagrimas, pasadas polo alambique do-seu corasam.
Quando ela está auzente, acha-se alem do-oitentezimo grao de latitude;
quero dizer, quarenta graos mais vizinho do-Polo, doque quando se-acha
com ela. O seu amor ambiciozo é um fogo, que sobe naturalmente para
sima: o seu amor afortunado, parece-se com os raios do-Sol: e o
seu amor dezafortunado, asemelha-se às chamas do-inferno. Quando o
amor lhe-tira o sono, é uma chama, de que nam saie fumo: e quando a
prudencia o combate, é um fogo asoprado polo vento. O seu corasam é um
Etna, que em vez da-oficina de _Vulcano_, oculta aquela de _Cupido_.
Às vezes, o corasam do-Poeta acha-se nevado, no-peito de todas as
belas: outras vezes asado, na vizinhansa dos-seus olhos. Umas vezes,
afoga-se dentro das-lagrimas; e no-mesmo tempo arde, entre os brasos
de amor: semelhante a estes foguetes de nova invensam, que ardem, e
estoiram debaixo da-agua. Em todo este discurso vé V. P. que o Poeta
supoem, que o amor é verdadeiro fogo de cozinha; e que une estas duas
ideias, _fogo_, e _amor_; para delas deduzir, todos os seus conceitos;
a que ele chama sutis, e ingenhozos. Isto agrada ao comum dos-omens,
namobstanteque seja uma fantazia impropria, e estravagante. Porem ja
eu lhe-perdoára este ingenho mixto; se uzasem dele com moderasam: o
que nam poso sofrer é, que sem prudencia o-introduzam por-tudo: e
nos-queiram persuadir, que é grande ingenho, chamar a uma coiza com
diverso nome: e que a dita coiza é tal, como a-pintam.
Acho tambem mui radicado nestes paizes, (aindaque tambem em alguns
estrangeiros) aquilo de servir-se sem reflexam, das-divindades
dos-Pagaons, em toda a sorte de poemas, Sagrados, e Profanos: e cuidam
muitos, que fazendo ao principio a solita protesta, de que os-nomeiam
no-estilo poetico; tem feito a sua obrigasam. Pode-ser que a-tenham com
a religiam: mas certamente nam a-tem, com os bons Poetas. Com grasa
dise um omem douto, que toda a ciencia de muitos modernos Poetas,
nam pasava, das-Metamorfozes de Ovidio. A verdade é, que os Poetas
modernos, sam prodigos desta mitologia. Se louvam uma molher formoza,
ocupam-se mais em descrever Elena, ou Venus; Leda, ou Europa; doque
a dita beleza. Se elogiam um eroe, entra logo Mavorte, e Alcides; e
pola maior parte nam saiem daquî. Mas isto é sem duvida ridicularia.
Em um poema burlesco, tem grasa a dita mitologia, porque só se-trata
de divertir, com a aplicasam: mas em um poema serio, é fantazia
condenavel. Que o-fizesem os Etnicos, tinham desculpa na sua cegueira:
mas que o-fasa um Catolico, em cuja religiam nada significam, tais
nomes: que introduza _D. Joam de Castro_, como grande amigo de Marte;
e establesa boa conrespondencia, entre Belona, e _Diniz de Melo_; é
um erro que nam se-pode perdoar a um Poeta, que pasa de 15. anos. Os
que nam sabem engrandecer, as verdadeiras virtudes; é que recorrem às
fabulas, para ornamento do-seu poema.
Nunca pude sofrer um Poeta, no-principio de um poema moderno, invocar
as Muzas, e Apolo; para lhe-inspirarem os pensamentos: mandar Mercurio,
com algum despacho de importancia: obrigar Minerva, a que tome a
figura, de algum conselheiro: chamar do-Inferno Plutam, para excitar
discordias, entre algumas pesoas: nam permetir tempestades, semque
Venus vá pedir a Eolo, que fasa das-suas: nam consentir perda de
batalha, semque o Destino atire alguma, das-suas solitas pedradas. Isto
é uma afetasam, digna de compaixam. Nós temos na nosa religiam coizas,
que podem suprir, a todas as ideias dos-Antigos. Temos Deus, temos
Anjos, temos Santos, que nos-podem inspirar o bem: e temos Diabos,
para inspirar o mal. O Poeta mostraria mais ingenho, se ele fizese os
seus versos; doque pedindo a Apolo, que lhos-inspire. Um furiozo vento
excitado polo Diabo, pode fazer o mesmo espalhafato, em uma armada;
que Eolo, com todas as suas Furias. Para dar razam de uma batalha
perdida, é mais natural e verdadeiro, recorrer à polvora, balas, e
prudencia do-General; doque ao Destino, ou Fado, que sam palavras
sem significado. O Diabo nam é menos prejudicial, à paz e quietasam
dos-Omens, que pode ser Plutam, com Cloto, e as suas companheiras. Quem
dece ao Inferno, para tirar de lá Lachesis, e outras destas Furias;
nam lhe-era mais barato, tirar um diabrete, para concluir tudo aquilo?
Os Gregos nam se-servîram das-divindades dos-Ebreos, ou Sirios, para
explicarem as suas coizas; mas daquelas que estavam establecidas,
no-seu paîz: E porque avemos nós servir-nos das-Gregas, tendo outras
melhores? O que suposto, merecem rizo os Poetas, que se-ocupam com
estas ridicularias: porque ou querem significar com aqueles nomes,
alguma coiza; e isto é sacrificar o seu catechismo, à mitologia
dos-Antigos: ou nam significam coiza alguma; e novamente merecem rizo,
por-falarem em coizas, que nam pode aver: e é perder a verosimilidade
do-poema, servindo-se de coizas, e vozes, que ninguem pode intender.
Que o Poeta em uma metafora, em uma semelhansa, ou em alguma breve
aluzam, tocáse algum destes pontos; poderseîa alguma vez perdoar: mas
introduzilos em todo o corpo do-poema, como faz o _Camoens_ na Luziada,
que introduz Venus, e Baco por-toda a parte, sem descrisam alguma; ou
tambem o _Chagas_, e o comum deste Reino; isto é mostrar; que nam tem
juizo ou dicernimento, na aplicasam dos-ornamentos poeticos. E é muito
de admirar, que os que sabem tambem descrever Venus, e Baco; nam saibam
descrever, um omem seu contemporaneo, sem recorrer à Antiguidade.
Pode-se porem sofrer, que o Poeta fale com as coizas inanimadas, como
com pesoas: v. g. com os Ceos, Terra, Elementos, Morte &c. e fasa
outras destas figuras de Retorica: isto nam ofende nem a religiam, nem
a boa razam: aquilo, ofende ambas as coizas.
Estes defeitos nos-Poetas sucedem, porque lhe-faltam os dois principais
requizitos, Criterio, e Retorica. Chamo Criterio, a uma boa Logica
natural, exercitada na lisam de bons autores: Retorica ja se-sabe, que
é a arte de persuadir, sem a qual nam se-pode ser bom Poeta: a qual
supoem Juizo, e Criterio. A simplez propozisam destes dois requizitos
basta, para atarantar estes Poetas ordinarios: os quais se-rim de todo
o corasam, quando ouvem dizer, que sem ter singular Retorica, nam
se-pode ser bom Poeta; ou ao menos intender, o artificio da-Poezia.
Estes ingenhos das-duzias, páram na superficie das-coizas. Julgam
que Retorica, é falar em proza; Poezia, falar em verso. Mas os omens
que intendem a arte, rim-se ainda mais, da-sua ignorancia. Cuido
que facilmente persuadirei a V.P. o que digo, se lhe-puzer diante
dos-olhos, que coiza é Poezia; e isto a que chamamos, arte Poetica.
A Poezia é uma viva descrisam das-coizas, que nela se-tratam: outros
lhe-chamam pintura que fala, e imita o mesmo que faria a natureza, e
com que agrada aos omens. O artificio da-Poezia tem por-fim, agradar: e
por-iso só se-emprega em dar regras, com que posa ocupar gostozamente
um ingenho. A isto consagram os Poetas, todo o seu ingenho, e juizo.
Se buscam argumento elevado, é para agradar, com a ideia de grandeza:
se procuram imitar a verdade, é para agradar, com a galantaria
da-imitasam: se nam dizem coizas contrarias às nosas inclinasoens,
isto mesmo é para agradar: se propoem movimentos apaixonados, com
que pintam ao vivo, diferentes afetos da-alma; tambem iso é para
agradar: desorteque este é o idolo, do-artificio poetico. E como isto
nam se-pode conseguir, sem saber procurar pensamentos, ou argumentos
proprios, para mover as nosas paixoens: saber servir-se de palavras
proprias, para pintar aquela coiza que se-quer; o que encerra as
Figuras da-voz, e do-animo: Fica bem claro, que para fazer tudo, o
que pede a arte, se-requer boa Retorica. Mas esta razam se-intenderá
melhor, se-observarmos as diferentes especies, de Poezia.
Todo o Poema se-divide em Dramatico, e Narrativo. Compreende o
Dramatico, a Comedia, Tragedia, e tudo o mais em que os que entram
no-poema; reprezentam com a viva asám, tudo o que se-diz: o Narrativo
compreende, todas as mais especies de poemas, em que se-faz discurso,
sem asám viva. Estas sam infinitas; mas ainda se-reduzem, a duas
principais especies: uma, compreende as poezias, que se-cantam:
outra, aquelas que se-lem. Na primeira, entram as Odes, Imnos, e
todas as especies de cantigas: na segunda, entram todas as outras
compozisoens: que ainda se-dividem em trez, Doutrinais, Istoricas, e
Oratorias. Nestes trez generos se-tem composto, famozisimos poemas.
v.g. O poema de Lucrecio, é um tratado em que expoem, a Fizica de
Epicuro: os Fenomenos de Arato, que Cicero traduzio em Latim, sam um
tratado de Astronomia; o mesmo digo do-Poeta Manilio: as Georgicas de
Virgilio, sam um tratado de _Re rustica_: os Fastos de Ovidio, sam a
istoria das-antiguidades Romanas: e o poema de Lucano, é uma istoria
das-guerras civis. O que suposto, quem pode negar, que um tratado de
Doutrina, ou de Istoria, pede uma exata noticia de Retorica? E com
efeito para escrever semelhantes tratados em verso, nam dezejam os
mestres outra erudisam; senam a que é necesaria, para escrever em
proza; tirando alguma expresam metrica.
Pasando ao 3.^o genero, tudo o que os Oradores fazem, no-genero
demonstrativo; que compreende os louvores, e vituperios, de uma
determinada pesoa, ou asám; fazem tambem os Poetas. Os Epitalamios sam
louvores, que se-dam a uma pesoa, no-dia do-matrimonio: os Epicedios
sam louvores, despois de morto: as Apoteoses sam quando se-louvam
desorte, que se-finge colocárem-se, entre os Deuzes: e tudo isto é em
carne, um panegirico. As Satiras sam repreensam do-vicio; e tambem
pertencem ao genero demonstrativo. as mesmas cartas se-escrevèram
antigamente, em verso: de que nos-deixou bons exemplos, Ovidio &c.
Nam ignora V. P. que a estes trez generos se-reduzem, todas as
compozisoens, nam só Latinas, mas Vulgares. Fazem-se Sonetos, Silvas,
Quintilhas, Elegias &c. em louvor, e vituperio: escrevem-se Cartas em
Silvas, Decimas, Tercetos, Quartetos, Romances &c. finalmente todos os
discursos de proza, se-podem reduzir em verso. E asim a mesma Retorica
que é necesaria, para regular os nosos discursos, na proza; o-é tambem,
no-poema. Onde vem, que a Poezia, é uma Retorica mais florida: e a
quem falta esta, nam pode ser bom Poeta. Como é posivel, que o Poeta
exprima na Elegia, a sua paixam, desorteque mova; se ele nam sabe, a
arte de mover? como pode nos-dialogos expremir, o que cadaum quer, e
deve dizer; se ele nam sabe o que deve, e como o-deve dizer? Torno às
Comedias, e Tragedias, e delas progunto o mesmo: Como pode o Poeta
fazer, que cadaum dos-reprezentantes exprima, a paixam de que está
posuido; se ele nam sabe, que coiza é paixam, nem como se-move? nam
pode ser que um omem, que ignore isto, fasa uma Comedia boa. Tambem a
Tragedia nam consiste somente, em inventar um argumento nobre: em saber
embrulhar uma quantidade de sucesos, que cauzem maravilha, quando se
dezintrigam: mas sobre tudo é necesaria a propriedade, e carater, em
cada parte; para mover o animo: o que pede, particular Retorica.
Quanto ao poema Epico, é certo que compreende, todas as outras especies
de poemas narrativos: e nele se-pode empregar, tudo o que á de fino
na Retorica. O principal asumto dele é, um panegirico. Nele se-acham
arengas famozas: algumas sam deliberativas, outras judiciais. acham-se
acuzasoens &c. acha-se a istoria do-eroe. acham-se muitos conceitos de
doutrina, e outra erudisam. entram nele cartas, epigramas, dialogos:
e finalmente tudo o que á melhor, na Poezia. Motivo porque se-dise,
que era a coiza mais dificultoza, da-arte Poetica. Onde, compreendendo
todas as outras especies de Poezia, se cada uma delas pede Retorica,
que fará o poema Épico?
Daqui fica claro, que conceito se-deve formar, destes vulgares Poetas,
que V. P. incontrará todos os dias. Eles nam sabem, que coiza é
Retorica, e bom gosto em materia nenhuma; como lhe-mostrei na minha
ultima carta: e asim que coiza boa podem fazer, na Poezia? Se fazem
alguma coiza menos má, é porque cazualmente sucedeo; ou asim o-lèram em
em algum livro, d’ onde o-roubáram: mas ignoram a razam, porque asim
se-faz. E isto nam é ser Poeta, nem para la vai. E nam cuide V. P. que
falo por-conjetura: mas com experiencias mui certas: e ja me-sucedeo
pedir a um mestre, que explicava um paso de Virgilio a um dicipulo;
que me-explicáse a mim, porque se servîra o Poeta daquelas expresoens:
e nam só nam mo-explicou, mas nem menos me-intendeo. Desorteque
incontrando-se todos os dias, tantos Poetas; nam á coiza mais rara, que
um Poeta.
E com efeito o segredo particular da-Poezia, principalmente Eroica,
nam o-pode conhecer, senam quem é bom Retorico. Consiste ele, segundo
dizem os mestres da-arte, em saber propor desorte, o argumento que
se-escolheo; que só aparesa, o que tem de extraordinario, e nenhum
defeito: e em saber inspirar ao leitor, curiozidade de ler todo o
poema: nam declarando tudo logo, mas confuzamente: fazendo nacer
uma dificuldade da-outra, paraque se-esporeie o dezejo: dilatando
a leitura, e enchendo a istoria, por-meio dos-Epizodios; paraque o
leitor nam perca de mira, o seu principal argumento: e finalmente nam
dezatando o nó da-dificuldade, senam quando tem conduzido o leitor, ao
fim do-poema. Tudo isto pode V. P. observar, na _Eneida_ de Virgilio,
ou na _Jeruzalem_ do-Tasso. Eles propoem ao principio em breve, o
argumento da-sua obra; e prometem coizas grandes. Nam comesam polo
principio da-vida do-eroe; mas por-uma asám famoza, que empreendeo
no-meio da-sua vida: da-qual com artificio particular, fazem recuar o
leitor, até os primeiros trabalhos do-seu eroe. Uma dificuldade excita
outra: demaneiraque o leitor nunca se-cansa, na leitura. E que outra
coiza fazem os Retoricos, quando querem excitar, a atensam dos-seus
ouvintes? Ja eu dise a V. P. que ese era o principal artificio,
das-Orasoens de Cicero, e ainda de muitos Oradores da-Antiguidade.
donde concluo, que só um bom Retorico o-pode fazer. Alem diso os
Retoricos encomendam muito, que o Orador nam diga, senam coizas
verosimeis: porque com falsidades manifestas, ninguem se-eleva. E
isto mesmo dizem, todos os bons Poetas: antes nada mais cuidam, que
representar verosimel, tudo o que propoem. Desorteque quanto mais se
examina a Poezia, tanto mais claramente se-reconhece, a Retorica.