De nam terem profundado a materia, nacem todos os defeitos da-Poezia:

de que se-acham infinitos na Espanha, e tambem em Portugal. Geralmente

intendem, que o-compor bem consiste, em dizer bem sutilezas; e inventar

coizas, que a ninguem ocorresem: e com esta ideia produzem partos,

verdadeiramente monstruozos; e que eles mesmos, quando os-examinam

sem calor, dezaprovam. Os mestres de Retorica, em cujas escolas é que

se-faz algum poema, e que deviam ensinar estas coizas; sam os primeiros

que se-calam, e deixam fazer, o que cadaum quer. Envergonham-se, de

poetar em Portuguez: e tem por-pecado mortal, ou coiza pouco decoroza,

fazelo na dita lingua. Imaginasoens, e prejuizos ridiculos! A Poezia

nam é pecadora: a aplicasam é a que a-pode fazer condenavel, se nam

é reta: e como iso pode suceder tanto na proza, como no-verso; daî

vem, que estes que julgam asim, nunca deviam escrever em Portuguez. Em

todos os tempos os omens de virtude, se aplicáram a este exercicio. Os

Santos Padres mais doutos, compuzeram muita coisa em verso. S. Bazilio,

S. Gregorio Nazianzeno foram grandes Poetas. O primeiro, compoz

expresamente um tratado, no-qual ensinava o modo, de ler os Poetas com

utilidade. O segundo, vendo que Juliano Apostata Imperador Romano,

proibîra aos Cristaons, ler os Poetas Etnicos; compoz algumas poezias,

imitando Omero, Pindaro, Euripides, Menandro &c. para instrusam

da-mocidade Cristan. E isto nam o-fizeram em Persiano, ou Arabio; mas

na sua lingua materna, que era a Grega. O mesmo fez Apolinario Bispo

de Laodicea, e alguns outros. S. Inacio de Loyola, e outros modernos

tambem fizeram, versos vulgares. Se damos um paso atraz, acharemos,

que muitos escritores Sagrados, escrevèram em verso. O que é tam

claro, que ninguém pode menos que rir-se de ver, que um Portuguez

se-envergonhe de poetar na-sua lingua, fazendo-o em Latim. Como se na

lingua Latina, nam se-pudesem dizer todas as loucuras, que se-dizem na

Portugueza! De que vem, que, segundo o estilo das-escolas, um Portuguez

é obrigado a nam saber, que coiza é Poezia. Alem disto, aquilo que

lhe-ensinam de Latim, nada mais é, que a medida de quatro versos; e

fazer alguma breve compozisam. Desorteque em nenhuma lingua se-fazem,

as reflexoens necesarias, para ser bom Poeta. Antes praticando-se na

Latina, uma sorte de versos feitos à moderna, com muitas sutilezas, e

conceitozinhos; este estilo se-difunde, nas compozisoens Portuguezas,

com geral dano da-Poezia.

Duas sam as partes, que compoem o Poeta, _Ingenho_, e _Juizo_. Ingenho

para saber inventar, e unir ideias semelhantes, e agradaveis: Juizo

para as-saber aplicar, onde deve. E nestas duas partes pecam, nam

só os modernos, e mediocres Poetas; mas pecáram ainda os antigos, e

grandes omens; nos-quais nem tudo é igual: como mostram, aqueles, que

criticáram com juizo, os Antigos. Achamos omens com muito ingenho,

e com pouco juizo: porque estas duas coizas, podem-se unir muito

bem: e para nam parecer falsa, a minha propozisam, permita-me V. P.

que me-explique melhor. O Ingenho consiste, em saber unir ideias

semelhantes, com promtidam, e grasa; para formar pinturas que agradem,

e elevem a imaginasam: desorteque nam basta que sejam semelhantes; é

necesario que divirtam, e arrebatem. v. g. Quando o Poeta diz, que a

garganta da-sua amada, é branca como a neve: nisto nam aparece ingenho:

se porem acrecenta, que é igualmente fria; nisto está o ingenho. Polo

contrario o Juizo, é aquela faculdade da-alma, que peza exatamente

todas as ideias: sepára umas das-outras: nam se-deixa inganar

da-semelhansa: e atribûe a cada uma, o que é seu. Isto, pede uma exata

meditasam, e prudencia fundada: aquilo, só pede uma memoria cheia de

muitas, e diferentes ideias. E daqui vem, que vemos frequentemente,

omens de imaginasam fecunda, e ingenho vivo; sem um escrupulo de juizo:

antes comumente tem menos juizo, os que tem mais ingenho: motivo

polo qual produzem obras, que merecem rizo. Os que nam distinguem

isto, confundem _Ingenho_, e _Juizo_: e chamam omens de juizo, aos

que dizem mil ridicularias, e produzem infinitas monstruozidades, e

despropozitadas imaginasoens.

O verdadeiro ingenho pois, é uma semelhansa de ideias, que diverte,

e eleva. Polo contrario o falso ingenho consiste, na semelhansa de

algumas letras, como os _Anagramas_, _Cronogramas_ &c. às vezes na

semelhansa de algumas silabas, como os _Ecos_, e alguns consoantes

insulsos: outras vezes na semelhanzas de algumas palavras, como os

_Equivocos_ &c. finalmente consiste tambem, em compozisoens inteiras,

que aparecem com diferentes figuras ou pinturas, como abaixo diremos.

Destas duas especies de ingenho bom, e mao, se-compoem uma terceira,

que participa de ambas, a que alguns doutos chamáram _Ingenho mixto_:

que consiste, parte na semelhansa das-ideias, e parte das-palavras.

v. g. Imagina o Poeta, que o Amor tem, semelhansas de fogo: e une

estas duas ideias, na sua imaginasam. Serve-se das-palavras de

_fogo_, e _chama_; para explicar esta paixam do-animo: e como elas

tem significasam incerta, rezulta daqui um todo, que tem parte de

ingenho, e parte de aparencia: o qual é mais ou menos estimado, segundo

que domina mais ou menos, um que outro: quero dizer, segundo que a

semelhansa caie mais, sobre as ideias, que sobre as palavras. Na idade

de oiro da-Latinidade, apenas se-acha vestigio diso, tirando em Ovidio,

que tem alguma coiza: na idade de prata, Marcial cuido que foi o

inventor: e nestes ultimos seculos, nam se-ve outra coiza.

Mas a verdade é, que um conceito que nam é justo, nem fundado sobre

a natureza das-coizas, nam pode ser belo: porque o fundamento de

todo o conceito ingenhozo, é a verdade: nem se-deve estimar algum,

quando nam se-reconhesa nele, vestigio de bom juizo. E como os Antigos

observáram muito isto, por-iso neles se-observa, certa maneira

natural de escrever, e certa simplicidade nobre, que tanto os-faz

admiraveis. Polo contrario, os que nam tem ingenho para fazerem:, que

um conceito brilhe, com a sua propria luz, sem a-pedir emprestada;

vem-se obrigados, procurar toda a sorte de ornamentos, e apegar-se

a quaisquer agudezas boas, ou más; para com elas fazerem figura, e

parecerem ingenhozos. Nas obras dos-Antigos nam distinguem o bom, nem o

mao: abrasam os mesmos erros, como se fosem maravilhas: sem advertirem,

que aindaque fosem nosos mestres, nam os-devemos seguir, com os olhos

fechados; mas abrasar neles, o que nam repugna à boa razam.

Deste principio naceram, aquelas ridiculas compozisoens, que tanto

reináram, no-seculo da-ignorancia, digo no-fim do-seculo XVI. de

Cristo, e metade do-XVII. e desterradas dos-paîzes mais cultos, ainda

oje se-conservam em Portugal, e nas mais Espanhas. Os omens daqueles

seculos ignorantes, nam observáram nos-Antigos o bom, mas o mao.

Vîram, que neles se-achavam vestigios, de um mao ingenho; e ese foi o

que abrasáram: de-sorteque ainda oje tem os doutos grande trabalho, em

desterrar isto, da-mente dos-omens. Alguns Poetas Gregos ridiculos,

autorizáram este uzo. Atribue-se a _Theocrito_, mas falsamente,

uma especie destes poemas, a que nós podemos chamar _pintados, ou

figurados_. Reprezenta um, o Ovo; outro, uma Machadinha; outro, um

Altar &c. Isto é uma puerilidade, indigna de um Poeta tam grande, como

_Theocrito_. Certamente para fazer semelhantes versos, deve o Poeta

andar detraz, nam do-bom conceito, mas da-palavra longa, ou curta:

vistoque os versos nam sam, de igual medida e grandeza. Este pesimo

gosto se-restableceo, no-seculo pasado, nam só no-verso, mas tambem na

Proza. Eu vi um _Ecce Homo_, feito de letrinhas miudas, que continham

o testamento Novo. vi um retrato do-Imperador Jozé, cuja cabeleira, e

vestido era feito de versos. finalmente acha-se muito disto, nos-Poetas

tolos do-seculo XVI. e XVII.

O que me admira neste particular é, que o Padre Bluteau, que nacèra

em um Reino, no-qual se-sabe, que coiza é Eloquencia, e bom gosto;

quizese introduzir tambem isto, em Portugal. Li averá anos um papel

avulso, que ele compuzera nas exequias, da-Rainha D. Maria de Saboia,

molher d’El-Rei D. Pedro II. e o-intitulou _Protheus doloris_; em

que se-continha bastante disto. Avia um _epitafio piramidal_, cujo

artificio consistia, em ter algumas regras mais compridas que outras.

Avia tambem variedade de disticos, em que se-aludia às letras todas

do-A. B. C.: e muita desta ridicula fazenda. Tinha tambem uma enfiada

daqueles titulos, que ele costuma pór nos-seus prologos, e que

embrulham o estomago, aos leitores de perfeito juizo. Com efeito eu ja

dise a V.P. que este era o estilo, do-tal Religiozo: metodo, criterio,

bom gosto, nam sabia de que cor era. é o mais cansado escritor, que eu

tenho visto. Na verdade era infatigavel, em algumas coizas: mas nam era

autor para se-imitar: porque bebèra desorte, este estilo de Portugal;

que até em Pariz quiz defender a um Cardial, que o estilo de pregar

dos-Portuguezes, era excelente: o que cuido ter lido, em uma das-suas

obras predicaveis. Emfim tudo isto é efeito, de mao gosto, e nenhum

criterio.

Daqui tambem nacèram, as outras compozisoens mais ridiculas. Conta

a Istoria, de um certo _Tryphiodoro_; que compoz uma Ode, sobre os

trabalhos de Ulizes; e dividio este poema em 24. livros, a que deo

o nome das-24. letras do-Alfabeto, pola razam contraria: vistoque

no-primeiro livro, faltava o _A._ no-segundo, o _B._ &c. e em nenhum

se-achava a palavra, que tivese a dita letra do-titulo. Eu vi uma

compozisam moderna, que seguia o mesmo metodo. Certamente nam á coiza

mais ridicula, que estes _Lipogramas_. Serîa um belo divertimento,

observar este Poeta, empenhado a revolver todos os Dicionarios; só para

deitar fóra, a letra escomungada. Serîa necesario, desprezar a voz

mais propria, e mais elegante; somente por-ter a desgrasa, de se-achar

nela, a dita letra. Mas que coiza serîa a tal compozisam! que palavras

ridiculas! que fraze inaudita! que conceitos improprios! Foi fortuna,

que o tal autor teve poucos sequazes, na Antiguidade.

Dos-Enigmas de palavras, entre os Povos do-Oriente achamos muito. Era

entre eles, uma principal parte da-sabedoria; saber propor, e decifrar

os Enigmas. Os mesmos Reis se-divertiam, em propor uns a outros, estas

advinhasoens: e às vezes nos-convites, este era o ultimo prato. Mas

destes omens nam falamos, porque ignoráram, o que era bom gosto. Mas

ainda entre os Gregos ouve algum, que fez algum enigma: mas foram

raros, como mostra o noso Lilio Gregorio Gyraldi, nos-seus Opusculos.

Os Romanos mais advertidos, fugîram disto. Sobre a outra sorte de

Enigmas pintados &c. algum vestigio vemos, nos-Antigos: mas eles tinham

outro diferente motivo. Em Roma era proibido, que um particular puzese

a sua efigie, que era o mesmo que a sua arma, no-dinheiro corrente.

Caio Cezar, que era o Provedor da-Caza da-moeda, mandou esculpir nelas,

a figura de um Elefante: porque a palavra _Cezar_ em lingua Punica,

significa Elefante. Tambem entre os Gregos, principalmente Ateniezes,

era proibido severamente, que os estatuarios, e artifices puzesem o

seu nome, nas estatuas &c. Mas dois Architetos, tendo feito um grande

palacio, esculpiram em varias partes, uma _Lagartixa_, e uma _Ran_,

que eram os seus nomes. Observei eu tambem muitas vezes, na famoza

estatua equestre de bronze, do-Imperador Marco Aurelio, que se-acha em

Roma na prasa do-Capitolio; que as crins do-cavalo entre as orelhas,

reprezentavam uma coruja: que sem duvida era o nome do-autor: que

verosimelmente era Ateniez, vistoque em Atenas avia grande abundancia

delas. Mas isto que os Antigos fizeram, por-necesidade, alguns

Modernos o-fazem, por-eleisam: e se-cansam em inventar um enigma,

como em fazer alguma obra eloquente. Nam poso deixar de escrever

aqui um epitafio, que cita um autor de bom juizo, que se-poz na

lapide sepulcral. O morto chamava-se: _Nicolao Antonio Simeoni_: e

querendo-lhe fazer um epitafio ingenhozo, escrevèram isto: _Hic jacet

Barium, Patavium, de Nunc dimittis._ _Barium_ aludia a S.Nicolao

Arcebispo de Bari: _Patavium_ a S.Antonio de Padua: _e Nunc dimittis_

ao canto do-velho Simeam. Veja V.P. que tal era o enigma, e que tal

serîa o autor! Disto ainda oje se-acha muito, entre os ignorantes: e

eu tenho visto bastante, em Portugal. Intrei uma vez na caza, de certo

cavalheiro Portuguez, que estava lendo um livro de Epigramas Latinos,

in 4.ᵒ proguntei-lhe, que coiza lia: e respondeo-me, Que lia o melhor

Epigramatista, e o melhor Enigmatico. Que o autor era um Portuguez

moderno, o qual em cada Epigrama ocultára um enigma, com tanto estudo;

que toda aquela menhan procurára decifrar um, sem o-conseguir. Que ja

tinha alcansado, o segredo de outros: e que reconhecia, que neles avia

muito ingenho. Ofereceo-se para me-emprestar o livro, e decifrar algum.

Eu agradeci a atensam: e respondi-lhe, que tinha mais que fazer: e que

nam queria priválo do-gosto, de se-ocupar em coizas tam ingenhozas. E a

isto chama-se ingenho! e á quem publique tais livros, neste seculo!

Ponho na mesma clase os _Ecos_, _Equivocos_, _Anagramas_, _Acrosticos_,

_Cronogramas_, _Consoantes forsados_, _Laberintos_ &c. Tudo

isto aindaque tivese seus vestigios, em alguns menos advertidos

da-Antiguidade; resucitou, ou se-inventou, nos-seculos da-ignorancia.

Eu sei que Ovidio, em uma parte das-suas Metamorfozes, quando fala

da-Ninfa _Eco_, antes de ser mudada em puro eco, introduz algum.

Mas alem de que o-pedia, a necesidade da-materia; visto ser ela

o argumento, da-sua descrisam; os omens de juizo rim-se, da-sua

puerilidade: sendo certo que Ovidio, caio em muitos defeitos, e

escreveo com mais facilidade, que reflexam. Mas nam se-pode sofrer, que

omens modernos, e que mostráram doutrina em muitas coizas, caisem nesta

rapaziada, condenavel ainda em um rapaz: e que fizesem compozisoens,

expresamente para mostrar, que sabiam fazer eco. Eu vi ecos, que

respondiam em Latim, e outras linguas: e tive compaixam do-Poeta, que

se-cansára com aquilo. Os _Equivocos_ nam os acho na Antiguidade,

separados dos-Enigmas, tirando rarisimo, que em outra parte direi:

sam invensam moderna. V. P. sabe muito bem, que só reináram, no-tempo

da-ignorancia; e que os Espanhoes, e Portuguezes mais advertidos, fogem

oje deles. Com efeito nam á coiza mais ridicula, que chamar conceito, a

um ingano: e procurar aquilo, que se-devia evitar. Quando eu li algumas

das-Jornadas, de _Jeronimo Baîa_, tive compaixam do-dito Religiozo: e

asentei, que a jornada que devia fazer, era de sua caza para o Ospital.

Esta sorte de Poetas sam doidos, aindaque nam furiozos. Mas nam cuide

V.P. que isto está totalmente reprovado: eu ainda conheso, quem

o-pratica: e quando se-lhe-oferece ocaziam, de dizer um equivocozinho,

banham-se em agua de Cordova. Nam falo dos-idiotas, porque estes nam

cuidam niso: mas destes chamados doutos, Frades, Seculares, Sacerdotes,

Estudantes &c. entre estes acha-se muito disto: porque nam se-incontra

uma alma cristan, que dezinganadamente lhe diga, que aquilo é uma

parvoice.

Mas o pior é, que ja o Equivoco pasou do-Portuguez, para o Latim: e

muitos que deviam saber, que coiza era Latim, nam fazem escrupulo, de

introduzirem nele equivocos; compondo um Latim novo, cheio de todas

estas arengas. Um autor de credito, a quem eu estimei muito, pola

sua doutrina, e piedade, tambem tropesou nesta materia; compondo uma

descrisam do-Ceo, por-equivocos. Esta obra, que fora prometida anos

antes, com diferente titulo; teve muita gente em grande esperansa; e

eu fui um deles: mas despois que a-li, confirmei-me no-conceito em que

estava, de que nam é obra para este seculo; mas cento cincoenta anos

antes, serîa um prodigio. Todo o artificio consiste, em ter buscado

nomes de Santos, que signifiquem varios oficios da-Republica, de que

se-acham carros nos-martirologios &c. e descrever uma Cidade ideial,

introduzindo em seus lugares, os ditos nomes. Contudoiso esta obra teve

mil adoradores, e apologistas; que mostram abrasar, a mesma opiniam.

Eu porem que dezejo cooperar, para o credito deste omem, quizera que

se-nam-tivese publicado: porque me-parece, que nam é digna de estar

ao pè, de outras obras do-mesmo autor: e que defender o contrario, é

mostrar mais paixam, que dicernimento: e deste meu parecer foram, os

Estrangeiros de juizo, a quem a-mostrei. Mas o que este fez em uma só

materia, fazem outros em toda a ocaziam: e desculpam-se com um ou

dois Estrangeiros, que sam os gavadinhos. Como se os Estrangeiros,

nam fizesem tambem parvoices! ou como se naquelas Nasoens nam ouvese,

quem abomináse tal metodo! Com efeito o _Tezauro_, mas principalmente

o _Juglar_, de quem se-servem neste genero de equivocos, e agudezas; é

insoportavel: e tem sido o que arruinou muita gente, que nam peza bem o

que abrasa. Ele compoz uma certa coiza, a que chama _Elogios_: feitos

em um Latim, que nam se-sabe de que seculo é; porque é todo cheio

de sutilezas, e equivocos; e cada palavra se-deve tomar, em sentido

diferente doque soa. O primeiro Elogio feito ao Verbo Eterno, comesa

asim:

_Amicus silentii Deus est.

Semel in tota æternitate locutus Deus,

Uno omnia dixit in Verbo.

Prima sui fecunditate facundus,

Ipsa sui conceptione fit parens_;

Veja V. P. o que aqui vai! A palavra _silentium_ é aqui tam impropria,

que nam pode ser mais: porque _silentium_ é um termo relativo, que

significa estar calado, ou quieto; quem primeiro falou, ou fez rumor:

e isto nam se-pode aplicar ao P. Eterno, o qual sempre fala a mesma

palavra, que entam falou. Onde nam á coiza mais contraria ao silencio,

que o falar do-Eterno Pai: e, seguindo a sutileza do-_Juglar_, deve-se

dizer, que nam á quem seja, mais amigo de falar, porque nunca se-cala.

A palavra _semel_ tambem é impropria. Ela nam significa uma coiza,

que sempre se-faz: mas que se-faz uma vez só: e no-noso cazo, que já

é pasada: e isto nem menos se-pode aplicar, ao Padre. Tambem o nome

_locutus_, rigorozamente falando, nam significa, quem pronuncîa uma

palavra, como ele supoem; mas quem faz um discurso. _Uno omnia dixit

in Verbo_, nam é fraze Latina, no-sentido em que ele a-toma: porque

_uno verbo_, ou _verbo dicere_, de que uzam os Latinos; nam significa,

pronunciar uma voz, como supoem o elogio; mas dizer poucas palavras, e

explicar muito em pouco: a palavra _Verbum_, aqui é rigorozo equivoco.

_Prima sui fecunditate_, nam sei o que quer dizer: porque eu nam acho,

que o Padre Eterno geráse mais, que um filho: e a palavra _prima_ é

relativa. Alem diso a palavra _fecunditas_, nam significa, gerar uma

só vez; mas muitas, e ser fertil: e nem menos isto se-aplica, ao P.

Eterno. O mesmo digo da-palavra _facundus_, que nam significa, quem

pronuncia uma só palavra; mas quem é eloquente, e sabe fazer muitos

e bons discursos: e tudo isto está longe do-sentido, em que o-toma

_Juglar_. A palavra _conceptio_, é outro equivoco. Ela nam significa,

conhecer e intender alguma coiza; mas compreender, como um vazo

compreende o licor, que lhe-deitam: e neste sentido se-transfere,

para explicar o modo, com que o utero das-molheres, recebe a semente;

de que rezulta a gerasam. Significa tambem, excogitar: e em nenhum

destes sentidos se-pode aplicar, ao P. Eterno: pois nem o Pai excogita

o Filho; nem se-concebe a si, mas ao Filho. Asimque toda esta arenga

se-reduz, a um trocadilho e jogo de palavras: como V. P. poderá

reconhecer, se quizer ler o dito autor.

E que diriam os nosos antigos Romanos, se visem abuzar da-magestade

dos-Elogios: destruir a naturalidade, e simplicidade da-lingua Latina:

perverter a propriedade das-suas expresoens: somente para dizer quatro

sutilezas, que nam concluem nada? Contudo iso este autor, bandido

de outros Reinos, achou muitos imitadores, e idolatras neste: aos

quais será mais facil persuadir, que os antigos Romanos nam souberam,

escrever com elegancia; doque que o _P. Juglar_ nam seja, um milagre de

doutrina, e facundia. Mas permita-me V. P. repetir o versinho, _quisque

suos patimur manes_: o certo é, que este estilo, com mais razam se-deve

evitar no-Latim, que no-Portuguez.

Os _Anagramas_ sam invensam nova, e tambem agradam muito, nestes

paizes. Que divertimento nam é, ver um perfeito anagramatista,

dezentranhar daquela palavra, mil coizas diferentes! Eles convertem

o branco em negro; o dia em noite; o omem em besta. Se o tempo que

aplicam, a esta rapaziada, o-aplicasem a coiza seria; podiam fazer um

poema Epico bem grande. Acham-se alem disto mestres, que fomentam isto;

dando premios aos rapazes, que nas escolas, ouvindo alguma palavra,

descobrem nela um anagrama puro. Serîa isto nada, se se-contivese

dentro das-escolas: mas o mao é, que saie para fóra, e se-introduz

nos-discursos graves. Asisti uma vez a um sermam da-Conceisam,

pregado polo P. * * * o qual fora muitos anos mestre, e tinha fama de

grande Teologo; que provou o que dise, com anagramas, tirados do-nome

da-Senhora, e de algumas palavras do-Evangelho. Creio que é necesaria

mui pouca reflexam, para conhecer o ridiculo, deste estilo. Os

_Acrosticos_ sam primoscomirmaons dos-Anagramas, e nacèram no-mesmo

seculo. Acham-se ingenhos mariolas tam infatigaveis, que no-mesmo

Soneto poem trez vezes, o mesmo nome: duas nas extremidades, e uma

no-meio. Para fazer isto ja V. P. sabe, quantas palavras é necesario

voltar, e revoltar. E como as palavras se-buscam, polo comprimento, &c.

segue-se que se-ám-de desprezar as melhores; só para achar aquela, em

que esteja aquela letra inicial, e aquele numero de silabas. E daqui

fica claro, que coiza pode ser, a dita compozisam. Os Ebreos despois

do-Talmud, sam os que se-aplicáram a estas ridicularias, de _Anagramas_

&c. mas fomente para achar misterios, nas Escrituras. Porem estes

modernos, procuram somente o divertimento.

Dos-_Cronogramas_ vi algum em Portugal, mas raro. Os Tudescos sam

insoportaveis nesta materia, e tambem os Ebreos modernos. Consiste pois

o _Cronograma_, em pòr no-principio, ou fim de um livro, ou em alguma

inscrisam, certas palavras; parte das-quais letras sejam maiusculas:

as quais juntas declarem a era, em que foi feito o livro. Omens á, que

perdem mezes, para buscar as ditas palavras. Onde, quando V. P. vir

algumas destas inscrisoens, em medalhas, ou livros; nas quais entre

letras miudas se-achem majusculas; nam se-canse em buscar o conceito,

que nam á: busque o ano, do-milezimo corrente.

Mais vulgar é em Portugal, outra sorte de ingenho falso, a que

chamam _Consoantes forsados_. Quando querem experimentar um omem, se

tem ingenho; dam-lhe consoantes estramboticos, paraque complete os

versos: e como isto seja o mesmo, que obrigar um omem, a que diga

despropozitos; ja se-sabe que saiem compozisoens, indignas de se-verem.

Se um omem quando quer fazer um Soneto, polos consoantes de outro,

ao mesmo asumto, e sem se-incontrar no-mesmo conceito; lhe-custa: se

despois que um Poeta faz, uma boa quadra de um Soneto; nam acha às

vezes os consoantes proprios, para a segunda; e para explicar o que

tem ideiado: considere V. P. que coiza poderá fazer, quando o-obrigam,

a dizer despropozitos? O mesmo digo, quando dam os motes com finais

dezuzados, e que nam tem outras vozes consoantes. Sempre me-pareceo

ridiculo este estilo: e nunca pude sofrer, que vindo quatro amigos,

elogiar outro em um oiteiro; lhe-ajam de dar motes, para os-tormentar.

isto é recompensar uma fineza com uma injuria; e querer uma satira, em

lugar de louvor. Deviam dar ao Poeta, somente o asumto; e deixar-lhe

a liberdade, de fazer a Decima como quizese: porque o entuziasmo

deve ter, liberdade na expresam: sem a qual nam é posivel, deixar de

dizer parvoises. Ou, em cazo de lhe-darem o mote, devia ser com algum

final, que tivese muitas vozes consoantes da-lingua: paraque pudese

contrafazer-se menos, e produzir coizas dignas. Porem sempre direi, que

é efeito de um ingenho mui mao, dar consoantes estramboticos: e que

todo o omem de juizo deve fugir, desta rapaziada.

Em outros Reinos, sempre se-deixa a liberdade, a quem gloza: e na minha

Italia, onde sabem que coiza é Poetar; a estes glozadores, a que la

chamam _Improvizadores_, nunca dam motes, mas só o asumto. E por-iso á

alguns, e vi tambem molheres, que discorriam prodigiozamente: e cujas

obras escritas, mereceriam grande louvor. Especialmente incontrei um

omem, de mente tam fecunda, que polo espacio de trez oras despois

de jantar, fez continuamente versos; variando eu sempre os asumtos.

Versejava em oitava rima, conforme o costume dos-versejadores de

Italia: e com tanta promtidam; que cheguei a suspeitar, que as-trazia

estudadas: desorteque me-vi obrigado, a variar infinitamente os

argumentos: mas o omem sempre era o mesmo: e o profluvio de palavras

nam tinha limite. Notei especialmente duas coizas singulares: nunca

errou verso, ou na quantidade, ou no-consoante: e nam uzava de palavras

sem significado, de que frequentemente uzam os Poetas; mas dizia coizas

bem ditas, e de sustancia. Mas este grande omem, querendo-lhe eu dar

um mote, nam se-quiz sugeitar a glozálo. Nele fiz algumas reflexoens,

das-que a V. P. aponto.

Vemos ainda outra coiza pior, que é, introduzir os consoantes, ou

rimas, no-verso Latino. Nos-seculos da-ignorancia, ouve um Poeta

destes, que reduzio a metade da-Eneida, em verso Latino rimado.

Acham-se ainda alguns Imnos ecleziasticos, feitos no-undecimo,

duodecimo, e seguinte seculo, com consoantes e toantes. vi alguns

Portuguezes, que gostavam disto. Mas tudo é efeito de suma ignorancia;

e é nam conhecer, qual é a beleza, e armonia da-lingua Latina. Ingenhos

ordinarios, que nam podem chegar à galantaria, dos-antigos e bons

Poetas; querem-se singularizar, com tal estilo: e por-iso se-devem

desprezar.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 22 / 32 段