ouvir a um destes, gabar muito o Vieira, e louválo com alguns dos-ditos
epitetos; fasa-me a merce de lhe-proguntar primeiramente, emque
consiste ser grande Orador: despois, que lhe-explique, que qualidades
oratorias sam, as que excedem no-P. Vieira. Se lhe-responder bem ao
primeiro ponto, estou certo, que nam responderá ao segundo: mas a
experiencia mostrará, que o primeiro nam terá resposta. Eu aindaque nam
costumo ofender ninguem, e muito menos na sua cara; achando-me porem
com certa pesoa, que me-dise maravilhas do-tal autor, rezolvi-me a
fazer-lhe esta progunta. Leu V.M. bem as obras de Lysias, Isocrates,
Iseus, Demostenes, Eschines, Teofrasto, e Cicero, e tudo o que á de bom
na Antiguidade? observou miudamente as delicadezas, e singularidades
daqueles; e a diferensa que se-acha entre eles, e Plinio, e alguns
outros mais inferiores, como Nazario, Auzonio, Pacato &c.? leu os
antigos Retoricos, Aristoteles, Cicero, Quintiliano &c. ou algum destes
modernos, que deram belisimos preceitos, como Vossio, Cavalcanti, e
Platina: e outros que nas suas orasoens os-executáram, como Policiano,
Mureto, Vavaflor, Cuneo, Gravina, Paolino, Politi &c.? Diz, nam senhor.
Pois sem tais preparasoens, conclui eu, nam entro em discurso com V.
M. sobre estas materias, porque nos-nam-intenderemos. Onde vem V. P.
a conhecer, que as aprovasoens destes omens, nam devem fazer forsa a
ninguem, para reconhecer por-grande Orador, o P. Vieira.
Eu que tenho visto mais algum mundo: e falado com bastante gente douta:
e conhecido em Roma omens, que tinham tratado, com os que ouviram o
P. Vieira: nam achei nada doque ouso dizer dele. Bem sim, que foi
um Religiozo estimavel, polas suas prendas, e virtudes: o que tudo
pode estar, sem ser mestre dos-Oradores. Falei com muitos Religiozos
da-Companhia, que tinham dele perfeita noticia; e me-faláram como de
um omem, que era estimado em Portugal, mas nam em Roma. Acrecente V.P.
a isto, que muitos opusculos do-Vieira, foram compostos em Italiano: e
até os mesmos sermoens se-acham traduzidos nele, por-um seu apaixonado,
ao menos um tomo que vi á anos: e asim pode-se julgar, com todo o
conhecimento da-materia. Vejo sim, que os mesmos Jezuitas, e todos os
omens doutos, reconhecem o merecimento, do-P.Paulo Segneri Jezuita, e
de varios outros Oradores damesma, e de diferente Religiam; que sam
reconhecidos e venerados, como Oradores da-primeira esfera: e que tanto
se-distinguem dos-sermoens do-Vieira, como o dia da-noite. De que
venho a concluir, que quatro Portuguezes, ou Espanhoes, que dizem o
contrario, nam podem fazer mudar de conceito, ao mundo inteligente.
Ainda nas suas mesmas cartas, que louvo, acho coizas que reprovar.
Deste numero é a afetasam, de repetir em cada regra, o tratamento
da-pesoa, com quem fala. Pois aindaque nos-discursos familiares,
posa ter às vezes lugar iso; nas cartas, é enfadonho: e as pesoas, e
Nasoens cultas, fogem todas dese vicio. Nem vale o-dizer, que em Latim
se-costuma: porque na tal lingua, nam ofende os ouvidos; vistoque
o tratamento comumente nam se-distingue, das-diversas inflexoens
do-Verbo. Os nosos Italianos, que participam mais do-Latim, uzam
da-palavra _Ella_, para evitarem aquela repetisam: e ainda esta com
moderasam. E oje os que escrevem melhor, despois de darem o tratamento,
uma ou duas vezes, ou em carta particular, ou prologo de livro;
servem-se da-palavra _Vostra_, que se-refere a _Alteza_, _Eminencia_,
_Santidade_, _Excelencia_ &c. nam só porque esta Elipsi, nam prejudica,
ao respeito que se-deve, aos Senhores grandes; mas porque sendo mais
simplez e natural, é tambem mais nobre; e se-evita a ridicula afetasam
de alguns modernos, chegando-se mais ao estilo, da-Antiguidade. E,
valha a verdade, este periodo: _Excelentisimo senhor, a excelentisima
pesoa de Vosa Excelencia guarde Deus, como Portugal, e os criados de
Vosa Excelencia avemos mister_: com que o Vieira fecha muitas cartas,
ao Marquez de Gouveia, e outras pesoas; nam se-pode ler sem nauzea:
achando-se muitas vezes, em quatro regras das-suas cartas, cinco vezes
_Vosa Senhoria_ &c.
O segundo reparo caie, sobre a fetasam de muitos periodos, e cartas
inteiras. O que o mesmo coletor delas nam oculta, quando diz, que
muitas nam publicára, por-nam serem tanto naturais. De que eu
cuido, nam se-pode produzir melhor prova, que a carta que o P.
Argote publicou, nas suas Regras Portuguezas; e que é escrita ao
Cardial Lancastro: a qual é composta naquele estilo, que chamamos
_dos-Seicentos_. Basta ler o primeiro periodo: _Com melhor saude que
o ano pasado; e com menos vida, porque ele pasou_: a segunda parte
do-qual, é noticia mui digna, de se-mandar a um Cardial, porque
é coiza mui recondita. O que se-segue no-segundo paragrafo, sam,
_Sepulturas do-segredo: resurreisoens da-confiansa: exequias no-templo
do-dezingano: estatuas da-ingratidam_, e coizas semelhantes, que oje
tem ranso. E nam sei se se-pode perdoar, a um omem douto como o P.
Argote, o trazer a tal carta, para exemplo de construsam facil, e boa
locusam. Conheso, que muitas vezes as cartas damesma pesoa, nam sam
iguais: ou porque algumas escreveo, quando era moso, e sabia pouco; ou
porque as-fez muito em presa. Conheso isto, e o-perdoo: o que reprovo
é, que o coletor nam soubèse separar umas, das-outras, impremindo as
melhores.
E aqui noto incidentemente, que o que fez o prologo da-colesam, que eu
ignoro quem fose, dise uma falsidade, quando afirmou; _Que nas linguas
vulgares, tem todas as Nasoens escritores, mas nam em grande numero,
deste estilo_. Eu lhe-poso nomiar, somente na Italiana, nam digo
duzias, mas centos: publicadas muitos e muitos anos antes, que saisem
à luz, as do-Vieira: e entre estes escritores, muitos de purisima
locusam, e estilo inimitavel. E o que mais é de admirar, omens que
tratáram as Ciencias, mas principalmente todas as partes da-melhor
Filozofia; com tal clareza, propriedade, e metodo, que envergonham
os Filozofos da-Escola: os quais, empregados toda a sua vida nela,
explicam-se muito mal. Na lingua Franceza, á infinitos tomos de cartas,
em todas as materias; e alguns famozos. Deixo a Ingleza, e Olandeza,
nas quais sei que se-tem seguido, este estilo. Onde, nam avendo coiza
mais uzual, que estes escritores; mostra-se o tal coletor, mui pouco
informado do-mundo.
O terceiro reparo que faso é, sobre a Ortografia, que nada me-agrada.
Nelas acho mui praticado aquele estilo, que se-deve desterrar,
da-lingua Portugueza; e vem aser, a duplicasam escuzada, de muitas
consoantes; e mil outras, que na minha primeira carta mostrei a V. P.
que nam deviam seguir, os omens doutos. Onde persuado-me, que neste
particular, tam longe está de ser omem insigne, que eu o-nam-porei
por-exemplar, a um principiante.
Ora eisaqui tem V. P. que as mesmas cartas do-Vieira, que eu julgo
serem a sua melhor obra; aindaque tenham muita coiza boa, sejam facis,
e as palavras nam sejam más; contudo, nam merecem aqueles cegos, e
encarecidos louvores, que lhe-dam estes apaixonados: os quais ou estam
preocupados, polas mesmas opinioens; ou julgam por-cabesa alheia;
e nunca tiveram a paciencia, de examinar bem a materia. Defeito
mui antigo nestes censores: que aprovam os livros comumente, sem
os-lerem: e nam se-contentam de aproválos, mas os-elogiam, e tam
encarecidamente, que perdem toda a fé. Deixo aos omens de melhor juizo,
fazer a analize das-tais obras, com mais tempo, que eu nam tenho.
Mas eu ja vejo, que me-tenho aberto muito com V.P. o que fiz, confiado
na nosa amizade. Certamente nam disera tanto com outro: pois sei
certamente, que quem nam tiver examinado isto, me-terá quazi por-louco.
Eu sempre fugi, desta sorte de conversasoens, com pesoas que sabem
pouco: porque me-ensina a experiencia, que se-perde o tempo, e o
conceito. Mate-me Deus com gente, que me-intenda: e que me-nam condene,
sem perceber as minhas razoens, e responder a elas. Porque aquilo de
reprovar um escritor, somente porque impugna os defeitos, de que eu
gosto; sem ter o sofrimento de examinar, as dificuldades que propoem;
aindaque seja uzo mui comum, nam sei porem se é concludente. Emfim com
V.P. nam á este perigo: porque eu sei muito bem, que ao seu talento,
nada se-encobre: e que mais para exercitar o seu juizo, doque para
aprender alguma coiza nova, é que tem a bondade, de me-consultar.
Mas sempre devo declarar-lhe, que o juizo que formo das-obras,
do-P.Antonio Vieira; deve ser intendido, com todo o respeito devido,
à sua memoria. Eu estimo muito este Religiozo, polas suas virtudes,
e capacidade. Vejo nas suas cartas retratado, um animo grande: um
dezinterese nobre: uma viva paixam polos aumentos do-seu Reino: e
ardente dezejo de se-sacrificar por-ele: e, para nam ocultar coiza
alguma, vejo a suma ingratidam dos-seus nacionais, que conrespondèram
a tantas finezas, com asoens indignas: e nam só nam souberam estimar,
tam grande omem, mas pozitivamente o-opremîram, e a sua familia. Estas
circunstancias todas mo-pintam, mais estimavel: e se eu vivèse no seu
tempo, serîa o seu maior amigo. Deve tambem o que digo intender-se, sem
a minima ofeza da-Religiam da-Companhia: a qual tem produzido, tantos
omens grandes neste genero; que sem dor alguma pode ouvir declarar,
que um dos-seus Religiozos, nam iguala, nem chega, à gloria de muitos
outros: o que provèm menos do-talento, que do-infeliz estilo daquele
tempo, que nam conhecia, outro gosto de Eloquencia. Damesma sorte que
Plinio Cecilio, aindaque tivese talento, e indole insigne; nam pode
menos que participar, do-estilo do-seu seculo; que degenerava muito,
da-magestade da-primeira Eloquencia. Unicamente devo advertir isto
a V. P., para justificar o meu proceder, contra aquela acuzasam, que
me-podiam fazer aqueles, que, ouvindo-me falar d’eloquencia Portugueza,
visem que nam citava, o P. Vieira.
O conceito que formo, dos-sermoens e orasoens do-Vieira, com mais razam
se-deve aplicar, a todos os outros sermonarios; que V. P. conhece,
estarem muitos furos abaixo do-Vieira. Digo pois, que o Orador, que
quer avultar no-mundo literario, deve deixar todos os sermonarios
Portuguezes, ou Espanhoes; e seguir a estrada que asima lhe-abrimos:
que parece ser, a verdadeira estrada da-Eloquencia: e isto parece-me
que basta, para regular o metodo da-Oratoria. Deve a isto ajuntar, o
continuo exercicio de compor: e exercitar-se juntamente em particular,
para poder falar em publico: sendo certo que o exercicio de compor,
e falar conduz muito, para beber os principios, e sabèlos uzar a seu
tempo, com dezembaraso. Perdoe-me V. P. a extensam desta, que desde
o principio eu prevî, que serîa comprida: e conserve-me muito na sua
memoria. Deus guarde etc.
[Illustração]
NOTAS DE RODAPÉ:
[41] _Sic igitur dicet, ut proponat quid dicturus fit: ut cum
transegerit jam aliquid, definiat: ut se ipse revocet: ut quod dixit
iteret: ut argumentum ratione concludat: ut interrogando urgeat: ut
rursus quasi ad interrogata sibi ipse respondeat: ut contra, ac dicat,
accipi & sentiri velit: ut addubitet quid potius aut quomodo dicat: ut
dividat in partes: ut aliquid relinquat ac negligat: ut ante præmuniat:
ut in eo ipso, in quo reprehendatur, culpam in adversarium conferat.
Ut sæpe cum his, qui audiunt, nonnunquam etiam cum adversario quasi
deliberet: ut hominum sermones moresque describat: ut muta quædam
loquentia inducat: ut ab eo quod agitur avertat animos: ut sæpe in
hilaritatem risumve convertat: ut ante occupet quod videat opponi: ut
comparet similitudines: ut utatur exemplis: ut aliud alii tribuens
dispertiat: ut interpellatorem coerceat: ut aliquid reticere se dicat:
ut denuntiet, quid caveant: ut liberius quid audeat: ut irascatur
etiam: ut objurget aliquando: ut deprecetur, ut supplicet: ut medeatur,
ut a proposito declinet aliquantulum, ut optet, ut execretur: ut fiat
iis, apud quos dicet, familiaris. Atque alias etiam dicendi quasi
virtutes sequatur: brevitatem si res petet: sæpe etiam res dicendo
subjiciet oculis: sæpe supra feret, quam fieri possit: significatio
sæpe erit maior, quam oratio: sæpe hilaritas, sæpe vitæ, naturarumque
imitatio_ =. Cicero. Orat. n. 40.
[42] _Nec umquam is, qui audiret, incenderetur, nisi ardens ad eum
perveniret oratio._ Cicer. Orat. n. 38.
[43] _Sic igitur dicet ille, quem expetimus, ut verset sæpe multis
modis eandem, & unam rem: & hæreat in eadem, commoreturque sententia
&c._ Cicero.Orator.n.40.
[44] _Hoc (genus dicendi) vehemens, incensum, incitatum, quo caussæ
eripiuntur: quod cum rapide fertur, sustineri nullo pacto potest._
Idem, ibid.n.37.
[45] _Is ergo erit eloquens, qui ad id, quodcumque decebit; poterit
accomodare orationem. Quod cum statuerit, tum, ut quidque erit
dicendum, ita dicet; ut nec satura jejune, nec grandia minute, nec item
contra: sed erit rebus ipsis par & æqualis oratio._Cicer.Orat.n.36.
[46] _Quam enim indecorum est de stillicidiis cum apud unum judicem
dicas, amplissimis verbis,-& locis uti communibus: de maiestate populi
Romani summisse, & subtiliter?_ Cicer. Orat. num. 21.
[47] _Omnino duo sunt quæ condiant orationem: verborum numerorumque
jucunditas. In verbis inest quasi materia quædam, in numero autem
expolitio._ Cicer. Orat. num. 55.
[48] _Sed quia rerum verborumque judicium prudentiæ est: vocum autem, &
numerorum aures sunt judices: & quod illa ad intelligentiam referuntur,
hæc ad voluptatem: in illis ratio invenit, in his sensus artem._ =
Ibidem num. 49.
[49] _Nam circuitus ille, quem sæpe jam diximus, incitatior numero ipso
fertur & labitur, quoad perveniat ad finem, & insistat. Perspicuum est
igitur, numeris astrictam orationem esse debere, carere versibus....
Inculcamus autem per imprudentiam sæpe etiam minus usitatos, sed tamen
versus: vitiosum genus, & longa animi provisione fugiendum._ = Ibid. n.
56.
[50] _In historia & narratur ornate, & regio sæpe aut pugna
describitur: interponuntur etiam conciones & hortationes. sed in his
trata quædam & fluens expetitur, non hæc contorta & acris oratio._
Cicer. Orator. num. 20.
[51] _Mollis est enim oratio Philosophorum & umbratilis nec
sententiis, nec verbis instructa popularibus, nec juncta numeris,
sed soluta liberius. Nihil iratum habet, nihil invidum, nihil atrox,
nihil miserabile, nihil astutum. Casta, verecunda, virgo incorrupta
quodammodo._ Cicer. Orator. n. 19.
[52] _Pag. 27._
[53] _Pag. 46._
[54] _Pag. 55._
[55] _Pag. 57._
[56] _Pag. 66._
[57] _Pag. 53._
[58] _Pag._ 49.
[59] _Pag._ 47. 48. 49. 50. 51.
[60] _Ego hanc vim intelligo esse in præceptis omnibus, non ut ea
secuti oratores, eloquentiæ laudem sint adepti: sed quæ sua sponte
homines eloquentes facerent, ea quosdam observasse, atque id egisse.
Sic esse non eloquentiam ex artificio, sed artificium ex eloquentia
natum._ Cicer. l. I. de Orat. num.32.
[61] _Scripsit artem Rhetoricam Cleantes, sed sic, ut siquis
obmuttescere concupierit, nihil aliud legere debeat._ Cicer. lib. I. de
Orat. num. 7.
[62] _Judicium igitur adhibebit: nec inveniet solum quid dicat, sed
etiam expendet. Nihil enim est feracius ingeniis iis præsertim,
quæ disciplinis exculta sunt. Sed ut segetes fœcundæ & uberes, non
solum fruges, verum herbas etiam effundunt inimicissimas frugibus:
sic interdum ex his locis aut levia quædam, aut caussis aliena, aut
non utilia gignuntur: quorum ab oratoris judicio delectus magnus
adhibebitur alioqui._ Cicer. Orator. num. 15.
[63] _Volo enim prius habeat orator rem, de qua dicat, dignam auribus
eruditis; quam cogitet, quibus verbis quidque dicat, aut quomodo._
Idem. ibid. num. 34.
[64] _Esse igitur perfecte eloquentis puto, non eam solum facultatem
habere, quæ sit ejus propria, fuse lateque dicendi; sed etiam vicinam
ejus atque finitimam, dialecticorum scientiam assumere._ Cicer. Orat.
n. 32.
Et infra = _Nec vero dialecticis modo sit instructus, sed habeat
omnis philosophiæ notos & tractatos locos .... nihil, inquam, sine ea
scientia, quam dixi, graviter, ample, copiose dici & explicari potest._
[65] _Fra Gianangelo Serra, Capucinho de Faenza, na sua Retorica &c._
[66] _Conficitur autem genus hoc dictionis narrandis exponendisque
factis, sine ullis argumentationibus; ad animi motus leniter tractandos
magis, quam ad fidem faciendam, aut confirmandam accommodate. Non enim
dubia firmantur: sed quæ certa, aut pro certis posita sunt, augentur._
Cicero de Partit.Orat.n.21
[67] _Deinde est ad facta, veniendum: quorum collocatio est triplex:
aut enim temporum servandus est ordo: aut inprimis recentissimum
quodque dicendum: aut multa & varia facta in propria virtutum genera
sunt dirigenda._ Cicero ibidem n.23.
[68] _De Doctr. Christ. lib._2. _n._60.
[69] _Orat._ 3.
[70] _Cicer. de Orat. n._ 37.
[71] _L._ I. _Antidot. in Pog._
[72] Imprimio-se este autor, _Grace & Latine, cum notis Tanaquilli
Fabri, Salmurii anno 1663. in 8._
[73] _Istoria do-Futuro Cap. III. num._ 27.
[74] _Ibidem, num._ 32.
[75] Sermam da-_Palavra de Deus desempenhada_. §. VIII.==Sermam
da-_Palavra do-Pregador empenhada, e defendida._ §. II.
[76] _Istoria do-Futuro. C. VIII. nu._122.
[77] _Palavra de Deus empenhada. §.VIII. num._4.ᵒ = _Sermam da-Palavra
de Deus dezempenhada. §. II._
[78] _Palavra do-Pregador empenhada, e defendida. §. III._
[79] _Hæc vitia unus aliquis inducit, sub quo eloquentia est: ceteri
imitantur, & alter alteri tradunt._ Seneca Epist. 115.
[80] _Quintiliano._
[81] _Aprovasam do-primeiro tomo das-Cartas do-Vieira, por Alexandre
Ferreira._
[Illustração]
CARTA SETIMA.
SUMARIO.
_Fala-se da-Poezia. Os Portugueses sam meros versejadores. Prejuizos
dos-mestres, de nam poetarem em Vulgar. Que coiza seja ingenho
bom, e mao. Especies de obras de mao ingenho, em que caîram alguns
Antigos, mas principalmente os Modernos. Necesidade do-Criterio, e
Retorica, em toda a sorte de Poezia. Primeiro defeito de Poezia, a
inverosimilidade: exemplos. Segundo defeito, os argumentos ridiculos.
Reflexoens particulares, sobre as compozisoens pequenas Portuguesas;
que nam podem dar nome, a um omem: defeitos da-Nasam, provados com
exemplos. Reflexoens sobre o Epigrama Latino, Elogios, inferisoens
Lapidares, Eglogas, Odes, Satiras, poemas Epicos. Que os Portugueses
nam conhecèram as leis, do-poema Epico: prova-se com Camoens, Chagas,
Botelho de Morais. Aponta-se o metodo, com que se-devem regular os
rapazes, no-estudo da-Poezia. Nova ideia de uma Arte Poetica, util
para a Mocidade._
A carta que V. P. me-mandou nesta semana, deu-me particular consolasam;
porque vi nela a imagem, da-sua soberana prudencia, do-seu criterio
exatisimo, e da-sua inimitável ingenuidade. Mas isto é pouco: vi
nela executado, tudo o que este genero pode permetir, em materia de
Retorica. V. P. quiz dar-me _dois contra_: e mostrar-me, que as minhas
reflexoens eram superfluas: pois avia um omem neste mundo, que sabia
executar primorozamente, tudo aquilo. Mas diso mesmo me-rezulta, grande
gloria. Ou V. P. o-fez, porque eu lho-avizei; e neste cazo, que gloria
nam será a minha, de ter um dicipulo desta qualidade? ou o-fez porque
asim o intendia, sem que lhe-avizáse; e fico igualmente gloriozo,
vendo que as minhas reflexoens se-conformam, com as de uma pesoa, que
eu estimo tanto. Ponho de parte os outros comprimentos, que me-faz:
porque nam quero uzurpar, o que nam mereso. O que eu escrevi, nam é
meu, mas o que ensináram os omens mais insignes, nesta faculdade: de
cuja lisam eu o-tirei. a estes é, que V. P. o-deve agradecer: e a mim,
só a boa vontade que tenho, de o-servir.
No-fim da-sua carta, repete V. P. uma circunstancia, que ja me-pedio em
outra sua: vem aser, que diga alguma coiza, da-Poezia. Eu me-lembro mui
bem, da-sua petisam: a qual nam deixei por-esquecimento, mas com suma
advertencia: vistoque só despois da-Retorica, se-deve tratar da-Poezia:
a qual nada mais é, que uma Eloquencia mais ornada. Só me-resta uma
dificuldade, quero dizer, se poderei eu dezempenhar, o que V. P.
me-encomenda. Eu tenho pouca noticia de Poetas Portuguezes: ou nam
tenho toda, a que é necesaria, para formar juizo exato deles. Desde que
li alguns, os-desprezei quazi todos, porque me-nam-agradáram. Contudo
lembrando-me, que a medida do-verso Portuguez, é a mesma do-Italiano;
e que as regras em todo o mundo culto, sam as mesmas; direi alguma
coiza que me-ocorre: se errar, deverá desculpar-me; lembrando-se que só
o-faso, para lhe-obedecer.
Digo pois, que o estilo dos-Poetas deste seu Reino, e desta sua lingua,
pouquisimo me agrada: porque é totalmente contrario, ao que fizeram
os melhores modelos da-Antiguidade, e ao que ensina a boa razam. A
razam disto é, porque os que se-metem a compor, nam sabem que coiza é
compor: onde, quando muito sam Versificadores, mas nam Poetas. E disto
nam queira V. P. melhor prova que ver, que nenhum até aqui se-rezolveo
a escrever, uma boa arte Poetica Portugueza: todos se-remedeiam com
esta Espanhola, que é muito má fazenda. Certo meu conhecido me-mostrou
á tempos, uma manuscrita: mas nada mais era, que um compendio
da-dita Espanhola; em que somente se-trata, das-medidas dos-versos,
e combinasoens de consoantes: o que está mui longe de se-chamar,
arte Poetica. Onde concluo, que ainda nam vi livro Portuguez, que
ensináse um omem, a inventar, e julgar bem; e formar um poema como
deve ser. De que nace, que os que querem poetar, o-fazem segundo a
forsa da-sua imaginasam: e nam produzem coiza, digna de se-ver. Com
efeito verá V. P. muitos, que quando escrevem dez versos, lhe-chamam
_Decima_: e quando unem quatorze, chamam-lhe _Soneto_: e asim das-mais
compozisoens. Desorteque compoem antes de saberem o que devem dizer, e
como o-devem dizer: e quando tem formado uma caraminhola, em trajes de
Poezia, ficam mui satisfeitos; e comesam a dizer mal, de tudo o que nam
intendem. Destes se acham, nam duzias, mas centos.