V.P. pode fazer uma experiencia, que eu ja fiz, e vem aser: quando

ouvir a um destes, gabar muito o Vieira, e louválo com alguns dos-ditos

epitetos; fasa-me a merce de lhe-proguntar primeiramente, emque

consiste ser grande Orador: despois, que lhe-explique, que qualidades

oratorias sam, as que excedem no-P. Vieira. Se lhe-responder bem ao

primeiro ponto, estou certo, que nam responderá ao segundo: mas a

experiencia mostrará, que o primeiro nam terá resposta. Eu aindaque nam

costumo ofender ninguem, e muito menos na sua cara; achando-me porem

com certa pesoa, que me-dise maravilhas do-tal autor, rezolvi-me a

fazer-lhe esta progunta. Leu V.M. bem as obras de Lysias, Isocrates,

Iseus, Demostenes, Eschines, Teofrasto, e Cicero, e tudo o que á de bom

na Antiguidade? observou miudamente as delicadezas, e singularidades

daqueles; e a diferensa que se-acha entre eles, e Plinio, e alguns

outros mais inferiores, como Nazario, Auzonio, Pacato &c.? leu os

antigos Retoricos, Aristoteles, Cicero, Quintiliano &c. ou algum destes

modernos, que deram belisimos preceitos, como Vossio, Cavalcanti, e

Platina: e outros que nas suas orasoens os-executáram, como Policiano,

Mureto, Vavaflor, Cuneo, Gravina, Paolino, Politi &c.? Diz, nam senhor.

Pois sem tais preparasoens, conclui eu, nam entro em discurso com V.

M. sobre estas materias, porque nos-nam-intenderemos. Onde vem V. P.

a conhecer, que as aprovasoens destes omens, nam devem fazer forsa a

ninguem, para reconhecer por-grande Orador, o P. Vieira.

Eu que tenho visto mais algum mundo: e falado com bastante gente douta:

e conhecido em Roma omens, que tinham tratado, com os que ouviram o

P. Vieira: nam achei nada doque ouso dizer dele. Bem sim, que foi

um Religiozo estimavel, polas suas prendas, e virtudes: o que tudo

pode estar, sem ser mestre dos-Oradores. Falei com muitos Religiozos

da-Companhia, que tinham dele perfeita noticia; e me-faláram como de

um omem, que era estimado em Portugal, mas nam em Roma. Acrecente V.P.

a isto, que muitos opusculos do-Vieira, foram compostos em Italiano: e

até os mesmos sermoens se-acham traduzidos nele, por-um seu apaixonado,

ao menos um tomo que vi á anos: e asim pode-se julgar, com todo o

conhecimento da-materia. Vejo sim, que os mesmos Jezuitas, e todos os

omens doutos, reconhecem o merecimento, do-P.Paulo Segneri Jezuita, e

de varios outros Oradores damesma, e de diferente Religiam; que sam

reconhecidos e venerados, como Oradores da-primeira esfera: e que tanto

se-distinguem dos-sermoens do-Vieira, como o dia da-noite. De que

venho a concluir, que quatro Portuguezes, ou Espanhoes, que dizem o

contrario, nam podem fazer mudar de conceito, ao mundo inteligente.

Ainda nas suas mesmas cartas, que louvo, acho coizas que reprovar.

Deste numero é a afetasam, de repetir em cada regra, o tratamento

da-pesoa, com quem fala. Pois aindaque nos-discursos familiares,

posa ter às vezes lugar iso; nas cartas, é enfadonho: e as pesoas, e

Nasoens cultas, fogem todas dese vicio. Nem vale o-dizer, que em Latim

se-costuma: porque na tal lingua, nam ofende os ouvidos; vistoque

o tratamento comumente nam se-distingue, das-diversas inflexoens

do-Verbo. Os nosos Italianos, que participam mais do-Latim, uzam

da-palavra _Ella_, para evitarem aquela repetisam: e ainda esta com

moderasam. E oje os que escrevem melhor, despois de darem o tratamento,

uma ou duas vezes, ou em carta particular, ou prologo de livro;

servem-se da-palavra _Vostra_, que se-refere a _Alteza_, _Eminencia_,

_Santidade_, _Excelencia_ &c. nam só porque esta Elipsi, nam prejudica,

ao respeito que se-deve, aos Senhores grandes; mas porque sendo mais

simplez e natural, é tambem mais nobre; e se-evita a ridicula afetasam

de alguns modernos, chegando-se mais ao estilo, da-Antiguidade. E,

valha a verdade, este periodo: _Excelentisimo senhor, a excelentisima

pesoa de Vosa Excelencia guarde Deus, como Portugal, e os criados de

Vosa Excelencia avemos mister_: com que o Vieira fecha muitas cartas,

ao Marquez de Gouveia, e outras pesoas; nam se-pode ler sem nauzea:

achando-se muitas vezes, em quatro regras das-suas cartas, cinco vezes

_Vosa Senhoria_ &c.

O segundo reparo caie, sobre a fetasam de muitos periodos, e cartas

inteiras. O que o mesmo coletor delas nam oculta, quando diz, que

muitas nam publicára, por-nam serem tanto naturais. De que eu

cuido, nam se-pode produzir melhor prova, que a carta que o P.

Argote publicou, nas suas Regras Portuguezas; e que é escrita ao

Cardial Lancastro: a qual é composta naquele estilo, que chamamos

_dos-Seicentos_. Basta ler o primeiro periodo: _Com melhor saude que

o ano pasado; e com menos vida, porque ele pasou_: a segunda parte

do-qual, é noticia mui digna, de se-mandar a um Cardial, porque

é coiza mui recondita. O que se-segue no-segundo paragrafo, sam,

_Sepulturas do-segredo: resurreisoens da-confiansa: exequias no-templo

do-dezingano: estatuas da-ingratidam_, e coizas semelhantes, que oje

tem ranso. E nam sei se se-pode perdoar, a um omem douto como o P.

Argote, o trazer a tal carta, para exemplo de construsam facil, e boa

locusam. Conheso, que muitas vezes as cartas damesma pesoa, nam sam

iguais: ou porque algumas escreveo, quando era moso, e sabia pouco; ou

porque as-fez muito em presa. Conheso isto, e o-perdoo: o que reprovo

é, que o coletor nam soubèse separar umas, das-outras, impremindo as

melhores.

E aqui noto incidentemente, que o que fez o prologo da-colesam, que eu

ignoro quem fose, dise uma falsidade, quando afirmou; _Que nas linguas

vulgares, tem todas as Nasoens escritores, mas nam em grande numero,

deste estilo_. Eu lhe-poso nomiar, somente na Italiana, nam digo

duzias, mas centos: publicadas muitos e muitos anos antes, que saisem

à luz, as do-Vieira: e entre estes escritores, muitos de purisima

locusam, e estilo inimitavel. E o que mais é de admirar, omens que

tratáram as Ciencias, mas principalmente todas as partes da-melhor

Filozofia; com tal clareza, propriedade, e metodo, que envergonham

os Filozofos da-Escola: os quais, empregados toda a sua vida nela,

explicam-se muito mal. Na lingua Franceza, á infinitos tomos de cartas,

em todas as materias; e alguns famozos. Deixo a Ingleza, e Olandeza,

nas quais sei que se-tem seguido, este estilo. Onde, nam avendo coiza

mais uzual, que estes escritores; mostra-se o tal coletor, mui pouco

informado do-mundo.

O terceiro reparo que faso é, sobre a Ortografia, que nada me-agrada.

Nelas acho mui praticado aquele estilo, que se-deve desterrar,

da-lingua Portugueza; e vem aser, a duplicasam escuzada, de muitas

consoantes; e mil outras, que na minha primeira carta mostrei a V. P.

que nam deviam seguir, os omens doutos. Onde persuado-me, que neste

particular, tam longe está de ser omem insigne, que eu o-nam-porei

por-exemplar, a um principiante.

Ora eisaqui tem V. P. que as mesmas cartas do-Vieira, que eu julgo

serem a sua melhor obra; aindaque tenham muita coiza boa, sejam facis,

e as palavras nam sejam más; contudo, nam merecem aqueles cegos, e

encarecidos louvores, que lhe-dam estes apaixonados: os quais ou estam

preocupados, polas mesmas opinioens; ou julgam por-cabesa alheia;

e nunca tiveram a paciencia, de examinar bem a materia. Defeito

mui antigo nestes censores: que aprovam os livros comumente, sem

os-lerem: e nam se-contentam de aproválos, mas os-elogiam, e tam

encarecidamente, que perdem toda a fé. Deixo aos omens de melhor juizo,

fazer a analize das-tais obras, com mais tempo, que eu nam tenho.

Mas eu ja vejo, que me-tenho aberto muito com V.P. o que fiz, confiado

na nosa amizade. Certamente nam disera tanto com outro: pois sei

certamente, que quem nam tiver examinado isto, me-terá quazi por-louco.

Eu sempre fugi, desta sorte de conversasoens, com pesoas que sabem

pouco: porque me-ensina a experiencia, que se-perde o tempo, e o

conceito. Mate-me Deus com gente, que me-intenda: e que me-nam condene,

sem perceber as minhas razoens, e responder a elas. Porque aquilo de

reprovar um escritor, somente porque impugna os defeitos, de que eu

gosto; sem ter o sofrimento de examinar, as dificuldades que propoem;

aindaque seja uzo mui comum, nam sei porem se é concludente. Emfim com

V.P. nam á este perigo: porque eu sei muito bem, que ao seu talento,

nada se-encobre: e que mais para exercitar o seu juizo, doque para

aprender alguma coiza nova, é que tem a bondade, de me-consultar.

Mas sempre devo declarar-lhe, que o juizo que formo das-obras,

do-P.Antonio Vieira; deve ser intendido, com todo o respeito devido,

à sua memoria. Eu estimo muito este Religiozo, polas suas virtudes,

e capacidade. Vejo nas suas cartas retratado, um animo grande: um

dezinterese nobre: uma viva paixam polos aumentos do-seu Reino: e

ardente dezejo de se-sacrificar por-ele: e, para nam ocultar coiza

alguma, vejo a suma ingratidam dos-seus nacionais, que conrespondèram

a tantas finezas, com asoens indignas: e nam só nam souberam estimar,

tam grande omem, mas pozitivamente o-opremîram, e a sua familia. Estas

circunstancias todas mo-pintam, mais estimavel: e se eu vivèse no seu

tempo, serîa o seu maior amigo. Deve tambem o que digo intender-se, sem

a minima ofeza da-Religiam da-Companhia: a qual tem produzido, tantos

omens grandes neste genero; que sem dor alguma pode ouvir declarar,

que um dos-seus Religiozos, nam iguala, nem chega, à gloria de muitos

outros: o que provèm menos do-talento, que do-infeliz estilo daquele

tempo, que nam conhecia, outro gosto de Eloquencia. Damesma sorte que

Plinio Cecilio, aindaque tivese talento, e indole insigne; nam pode

menos que participar, do-estilo do-seu seculo; que degenerava muito,

da-magestade da-primeira Eloquencia. Unicamente devo advertir isto

a V. P., para justificar o meu proceder, contra aquela acuzasam, que

me-podiam fazer aqueles, que, ouvindo-me falar d’eloquencia Portugueza,

visem que nam citava, o P. Vieira.

O conceito que formo, dos-sermoens e orasoens do-Vieira, com mais razam

se-deve aplicar, a todos os outros sermonarios; que V. P. conhece,

estarem muitos furos abaixo do-Vieira. Digo pois, que o Orador, que

quer avultar no-mundo literario, deve deixar todos os sermonarios

Portuguezes, ou Espanhoes; e seguir a estrada que asima lhe-abrimos:

que parece ser, a verdadeira estrada da-Eloquencia: e isto parece-me

que basta, para regular o metodo da-Oratoria. Deve a isto ajuntar, o

continuo exercicio de compor: e exercitar-se juntamente em particular,

para poder falar em publico: sendo certo que o exercicio de compor,

e falar conduz muito, para beber os principios, e sabèlos uzar a seu

tempo, com dezembaraso. Perdoe-me V. P. a extensam desta, que desde

o principio eu prevî, que serîa comprida: e conserve-me muito na sua

memoria. Deus guarde etc.

[Illustração]

NOTAS DE RODAPÉ:

[41] _Sic igitur dicet, ut proponat quid dicturus fit: ut cum

transegerit jam aliquid, definiat: ut se ipse revocet: ut quod dixit

iteret: ut argumentum ratione concludat: ut interrogando urgeat: ut

rursus quasi ad interrogata sibi ipse respondeat: ut contra, ac dicat,

accipi & sentiri velit: ut addubitet quid potius aut quomodo dicat: ut

dividat in partes: ut aliquid relinquat ac negligat: ut ante præmuniat:

ut in eo ipso, in quo reprehendatur, culpam in adversarium conferat.

Ut sæpe cum his, qui audiunt, nonnunquam etiam cum adversario quasi

deliberet: ut hominum sermones moresque describat: ut muta quædam

loquentia inducat: ut ab eo quod agitur avertat animos: ut sæpe in

hilaritatem risumve convertat: ut ante occupet quod videat opponi: ut

comparet similitudines: ut utatur exemplis: ut aliud alii tribuens

dispertiat: ut interpellatorem coerceat: ut aliquid reticere se dicat:

ut denuntiet, quid caveant: ut liberius quid audeat: ut irascatur

etiam: ut objurget aliquando: ut deprecetur, ut supplicet: ut medeatur,

ut a proposito declinet aliquantulum, ut optet, ut execretur: ut fiat

iis, apud quos dicet, familiaris. Atque alias etiam dicendi quasi

virtutes sequatur: brevitatem si res petet: sæpe etiam res dicendo

subjiciet oculis: sæpe supra feret, quam fieri possit: significatio

sæpe erit maior, quam oratio: sæpe hilaritas, sæpe vitæ, naturarumque

imitatio_ =. Cicero. Orat. n. 40.

[42] _Nec umquam is, qui audiret, incenderetur, nisi ardens ad eum

perveniret oratio._ Cicer. Orat. n. 38.

[43] _Sic igitur dicet ille, quem expetimus, ut verset sæpe multis

modis eandem, & unam rem: & hæreat in eadem, commoreturque sententia

&c._ Cicero.Orator.n.40.

[44] _Hoc (genus dicendi) vehemens, incensum, incitatum, quo caussæ

eripiuntur: quod cum rapide fertur, sustineri nullo pacto potest._

Idem, ibid.n.37.

[45] _Is ergo erit eloquens, qui ad id, quodcumque decebit; poterit

accomodare orationem. Quod cum statuerit, tum, ut quidque erit

dicendum, ita dicet; ut nec satura jejune, nec grandia minute, nec item

contra: sed erit rebus ipsis par & æqualis oratio._Cicer.Orat.n.36.

[46] _Quam enim indecorum est de stillicidiis cum apud unum judicem

dicas, amplissimis verbis,-& locis uti communibus: de maiestate populi

Romani summisse, & subtiliter?_ Cicer. Orat. num. 21.

[47] _Omnino duo sunt quæ condiant orationem: verborum numerorumque

jucunditas. In verbis inest quasi materia quædam, in numero autem

expolitio._ Cicer. Orat. num. 55.

[48] _Sed quia rerum verborumque judicium prudentiæ est: vocum autem, &

numerorum aures sunt judices: & quod illa ad intelligentiam referuntur,

hæc ad voluptatem: in illis ratio invenit, in his sensus artem._ =

Ibidem num. 49.

[49] _Nam circuitus ille, quem sæpe jam diximus, incitatior numero ipso

fertur & labitur, quoad perveniat ad finem, & insistat. Perspicuum est

igitur, numeris astrictam orationem esse debere, carere versibus....

Inculcamus autem per imprudentiam sæpe etiam minus usitatos, sed tamen

versus: vitiosum genus, & longa animi provisione fugiendum._ = Ibid. n.

56.

[50] _In historia & narratur ornate, & regio sæpe aut pugna

describitur: interponuntur etiam conciones & hortationes. sed in his

trata quædam & fluens expetitur, non hæc contorta & acris oratio._

Cicer. Orator. num. 20.

[51] _Mollis est enim oratio Philosophorum & umbratilis nec

sententiis, nec verbis instructa popularibus, nec juncta numeris,

sed soluta liberius. Nihil iratum habet, nihil invidum, nihil atrox,

nihil miserabile, nihil astutum. Casta, verecunda, virgo incorrupta

quodammodo._ Cicer. Orator. n. 19.

[52] _Pag. 27._

[53] _Pag. 46._

[54] _Pag. 55._

[55] _Pag. 57._

[56] _Pag. 66._

[57] _Pag. 53._

[58] _Pag._ 49.

[59] _Pag._ 47. 48. 49. 50. 51.

[60] _Ego hanc vim intelligo esse in præceptis omnibus, non ut ea

secuti oratores, eloquentiæ laudem sint adepti: sed quæ sua sponte

homines eloquentes facerent, ea quosdam observasse, atque id egisse.

Sic esse non eloquentiam ex artificio, sed artificium ex eloquentia

natum._ Cicer. l. I. de Orat. num.32.

[61] _Scripsit artem Rhetoricam Cleantes, sed sic, ut siquis

obmuttescere concupierit, nihil aliud legere debeat._ Cicer. lib. I. de

Orat. num. 7.

[62] _Judicium igitur adhibebit: nec inveniet solum quid dicat, sed

etiam expendet. Nihil enim est feracius ingeniis iis præsertim,

quæ disciplinis exculta sunt. Sed ut segetes fœcundæ & uberes, non

solum fruges, verum herbas etiam effundunt inimicissimas frugibus:

sic interdum ex his locis aut levia quædam, aut caussis aliena, aut

non utilia gignuntur: quorum ab oratoris judicio delectus magnus

adhibebitur alioqui._ Cicer. Orator. num. 15.

[63] _Volo enim prius habeat orator rem, de qua dicat, dignam auribus

eruditis; quam cogitet, quibus verbis quidque dicat, aut quomodo._

Idem. ibid. num. 34.

[64] _Esse igitur perfecte eloquentis puto, non eam solum facultatem

habere, quæ sit ejus propria, fuse lateque dicendi; sed etiam vicinam

ejus atque finitimam, dialecticorum scientiam assumere._ Cicer. Orat.

n. 32.

Et infra = _Nec vero dialecticis modo sit instructus, sed habeat

omnis philosophiæ notos & tractatos locos .... nihil, inquam, sine ea

scientia, quam dixi, graviter, ample, copiose dici & explicari potest._

[65] _Fra Gianangelo Serra, Capucinho de Faenza, na sua Retorica &c._

[66] _Conficitur autem genus hoc dictionis narrandis exponendisque

factis, sine ullis argumentationibus; ad animi motus leniter tractandos

magis, quam ad fidem faciendam, aut confirmandam accommodate. Non enim

dubia firmantur: sed quæ certa, aut pro certis posita sunt, augentur._

Cicero de Partit.Orat.n.21

[67] _Deinde est ad facta, veniendum: quorum collocatio est triplex:

aut enim temporum servandus est ordo: aut inprimis recentissimum

quodque dicendum: aut multa & varia facta in propria virtutum genera

sunt dirigenda._ Cicero ibidem n.23.

[68] _De Doctr. Christ. lib._2. _n._60.

[69] _Orat._ 3.

[70] _Cicer. de Orat. n._ 37.

[71] _L._ I. _Antidot. in Pog._

[72] Imprimio-se este autor, _Grace & Latine, cum notis Tanaquilli

Fabri, Salmurii anno 1663. in 8._

[73] _Istoria do-Futuro Cap. III. num._ 27.

[74] _Ibidem, num._ 32.

[75] Sermam da-_Palavra de Deus desempenhada_. §. VIII.==Sermam

da-_Palavra do-Pregador empenhada, e defendida._ §. II.

[76] _Istoria do-Futuro. C. VIII. nu._122.

[77] _Palavra de Deus empenhada. §.VIII. num._4.ᵒ = _Sermam da-Palavra

de Deus dezempenhada. §. II._

[78] _Palavra do-Pregador empenhada, e defendida. §. III._

[79] _Hæc vitia unus aliquis inducit, sub quo eloquentia est: ceteri

imitantur, & alter alteri tradunt._ Seneca Epist. 115.

[80] _Quintiliano._

[81] _Aprovasam do-primeiro tomo das-Cartas do-Vieira, por Alexandre

Ferreira._

[Illustração]

CARTA SETIMA.

SUMARIO.

_Fala-se da-Poezia. Os Portugueses sam meros versejadores. Prejuizos

dos-mestres, de nam poetarem em Vulgar. Que coiza seja ingenho

bom, e mao. Especies de obras de mao ingenho, em que caîram alguns

Antigos, mas principalmente os Modernos. Necesidade do-Criterio, e

Retorica, em toda a sorte de Poezia. Primeiro defeito de Poezia, a

inverosimilidade: exemplos. Segundo defeito, os argumentos ridiculos.

Reflexoens particulares, sobre as compozisoens pequenas Portuguesas;

que nam podem dar nome, a um omem: defeitos da-Nasam, provados com

exemplos. Reflexoens sobre o Epigrama Latino, Elogios, inferisoens

Lapidares, Eglogas, Odes, Satiras, poemas Epicos. Que os Portugueses

nam conhecèram as leis, do-poema Epico: prova-se com Camoens, Chagas,

Botelho de Morais. Aponta-se o metodo, com que se-devem regular os

rapazes, no-estudo da-Poezia. Nova ideia de uma Arte Poetica, util

para a Mocidade._

A carta que V. P. me-mandou nesta semana, deu-me particular consolasam;

porque vi nela a imagem, da-sua soberana prudencia, do-seu criterio

exatisimo, e da-sua inimitável ingenuidade. Mas isto é pouco: vi

nela executado, tudo o que este genero pode permetir, em materia de

Retorica. V. P. quiz dar-me _dois contra_: e mostrar-me, que as minhas

reflexoens eram superfluas: pois avia um omem neste mundo, que sabia

executar primorozamente, tudo aquilo. Mas diso mesmo me-rezulta, grande

gloria. Ou V. P. o-fez, porque eu lho-avizei; e neste cazo, que gloria

nam será a minha, de ter um dicipulo desta qualidade? ou o-fez porque

asim o intendia, sem que lhe-avizáse; e fico igualmente gloriozo,

vendo que as minhas reflexoens se-conformam, com as de uma pesoa, que

eu estimo tanto. Ponho de parte os outros comprimentos, que me-faz:

porque nam quero uzurpar, o que nam mereso. O que eu escrevi, nam é

meu, mas o que ensináram os omens mais insignes, nesta faculdade: de

cuja lisam eu o-tirei. a estes é, que V. P. o-deve agradecer: e a mim,

só a boa vontade que tenho, de o-servir.

No-fim da-sua carta, repete V. P. uma circunstancia, que ja me-pedio em

outra sua: vem aser, que diga alguma coiza, da-Poezia. Eu me-lembro mui

bem, da-sua petisam: a qual nam deixei por-esquecimento, mas com suma

advertencia: vistoque só despois da-Retorica, se-deve tratar da-Poezia:

a qual nada mais é, que uma Eloquencia mais ornada. Só me-resta uma

dificuldade, quero dizer, se poderei eu dezempenhar, o que V. P.

me-encomenda. Eu tenho pouca noticia de Poetas Portuguezes: ou nam

tenho toda, a que é necesaria, para formar juizo exato deles. Desde que

li alguns, os-desprezei quazi todos, porque me-nam-agradáram. Contudo

lembrando-me, que a medida do-verso Portuguez, é a mesma do-Italiano;

e que as regras em todo o mundo culto, sam as mesmas; direi alguma

coiza que me-ocorre: se errar, deverá desculpar-me; lembrando-se que só

o-faso, para lhe-obedecer.

Digo pois, que o estilo dos-Poetas deste seu Reino, e desta sua lingua,

pouquisimo me agrada: porque é totalmente contrario, ao que fizeram

os melhores modelos da-Antiguidade, e ao que ensina a boa razam. A

razam disto é, porque os que se-metem a compor, nam sabem que coiza é

compor: onde, quando muito sam Versificadores, mas nam Poetas. E disto

nam queira V. P. melhor prova que ver, que nenhum até aqui se-rezolveo

a escrever, uma boa arte Poetica Portugueza: todos se-remedeiam com

esta Espanhola, que é muito má fazenda. Certo meu conhecido me-mostrou

á tempos, uma manuscrita: mas nada mais era, que um compendio

da-dita Espanhola; em que somente se-trata, das-medidas dos-versos,

e combinasoens de consoantes: o que está mui longe de se-chamar,

arte Poetica. Onde concluo, que ainda nam vi livro Portuguez, que

ensináse um omem, a inventar, e julgar bem; e formar um poema como

deve ser. De que nace, que os que querem poetar, o-fazem segundo a

forsa da-sua imaginasam: e nam produzem coiza, digna de se-ver. Com

efeito verá V. P. muitos, que quando escrevem dez versos, lhe-chamam

_Decima_: e quando unem quatorze, chamam-lhe _Soneto_: e asim das-mais

compozisoens. Desorteque compoem antes de saberem o que devem dizer, e

como o-devem dizer: e quando tem formado uma caraminhola, em trajes de

Poezia, ficam mui satisfeitos; e comesam a dizer mal, de tudo o que nam

intendem. Destes se acham, nam duzias, mas centos.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 21 / 32 段