desorte se-exercitavam nisto, que tomavam lisoens dos-Comediantes;
como o mesmo Cicero de si confesa. E com efeito, nam podiam tomar
melhores mestres: porque os Comicos eram tam insignes nisto, que
falavam somente, com as asoens. Nos-ultimos tempos da-Republica,
se-introduzîram nos teatros, os Pantomimos: que era uma especie de
Comediantes, que com as asoens somente explicavam, o que outro,
que estava imovel no-fim do-teatro, dizia. Desorteque um falava;
e o Pantomimo animava com a asám, a expresam do-outro. Tal era a
diligencia, com que sabiam com a asám, acompanhar os movimentos
do-animo! Isto faziam aqueles que sabiam, que coiza era Retorica: e
isto deve fazer qualquer omem, que á-de orar em publico.
Os nosos Italianos sam os unicos, entre todas as Nasoens, que melhor
exprimam com a asám, o que dizem: e nam só quando oram, mas tambem
quando recîtam versos. Os Inglezes nam se-movem, quando recîtam: os
Francezes esfogueteiam, e cantam: os Espanhoes choram: outros tem
outros defeitos. Mas pola maior parte convem todos, que os Italianos,
sam os mais expresivos: e um grande ingenho Francez, do-seculo pasado,
chegou a dizer, que os nosos Italianos naturalmente eram, Comediantes.
Porem em Portugal, á muita falta disto. Dos-Pregadores é notorio,
que nam só lhe-falta a asám, mas até o tom da-voz, que nam acompanha
com a asám. Confeso a V.P. que nunca pude sofrer a afetasam, com
que muitos pregam a Paixam, ou as Lagrimas. Estudam uma voz flebile,
mas com modo tal, que em lugar de fazer chorar, provoca o rizo:
muito mais se consideramos o que dizem, com a dita voz flebile. Eles
circunscrevem o estilo patetico, na dita voz: e asentam que ela basta,
para mover. Loucuras! O mesmo digo, quando fazem a exclamasam para
o Sepulcro, nos-sermoens de Quaresma. todo o ponto está, em gritar
muito: pedir mil mizericordias: e com isto se-contentam. Mas a falar
a verdade, estes nam sabem o seu oficio. O estilo patetico, é a coiza
mais dificultoza, da-Retorica, como confesa Cicero[70]: e nele é que
consiste o triumfo, e aplauzo da-eloquencia. Nam é pequena dificuldade,
ou para melhor dizer, é coiza admiravel, que as palavras que profere um
omem, ajam de mover em mil ouvintes, os mesmos sentimentos, que quer
o Orador: amor da-Virtude: odio do-Vicio: aborrecimento de si mesmo!
Que cuida V.P. que será necesario, para conseguir isto? É necesaria
doutrina admiravel: particular conhecimento das-paixoens umanas; como
se-excitam, e adormecem: asoens proprias: e em uma palavra, saber uzar
das-Figuras, na ultima perfeisam: e isto nam se-faz com voz flebile,
nem com gritarias, mas com outras virtudes oratorias. Nam digo, que
quem prega estes sermoens, esteja rindo: digo sim, que deixe aquelas
afetasoens, e reconhesa em que consiste, o mover os animos: qual é a
asám, qual a voz proporcionada.
Mas pior que tudo é, quando recîtam versos: rarisimo vi, que
pronunciáse verso bem. Comumente vam detraz do-consoante, e fazem
pauza, nam no-fim do-sentido, mas no-fim do-verso: o que é erro
manifesto. Parece isto pior, quando recîtam versos Latinos, nos-quais
nam á consoante: de que vem, que um _carmen_ pronunciado por-um deles,
e por-outro que o-saiba animar com a voz, e asám, parece diferente.
Este defeito deve emendar o omem, que quér ser perfeito. deve
exercitar-se em caza, diante de algum amigo bem informado; para ver, se
expremio bem, a asám que quer. Só asim conseguirá, ser ouvido com gosto.
Mas eu quero parar, neste ponto: porque se deixo correr a pena, em
lugar de reflexoens, escreverei um tratado de Retorica. Reconheso que
já caî, no-mesmo defeito que condeno: mas a materia é tam fecunda, e as
reflexoens ocorrèram-me, com tanta promtidam, que nam pude deixar, de
as-admetir. Direi porem a V. P., que lendo o que tenho escrito, acho
que é suficiente, para introduzir um moso no-estudo, da-verdadeira
Eloquencia. e quem se-capacitar bem destas reflexoens; e comesar
a ler os bons autores, tanto Latinos, como Vulgares; e observar
neles, o artificio das-orasoens; sem ler mais outra Retorica, pode
sair gravisimo Orador. Esta prezunsam nam nace de mim, mas damesma
qualidade dos-preceitos: os quais sam tam antigos, como os Oradores:
que é o mesmo que dizer, sam os mesmos que executou Demostenes, e
Eschines, e Isocrates: que nos-deixou escritos Aristoteles, Demetrio, e
Longino: que praticou e ensinou com tanto louvor Cicero, M. Seneca, e
Quintiliano, e outros autores antigos. As Retoricas comuas nam apontam,
senam alguns nomes, que eu aqui nam quiz apontar: sem saber os quais,
pode um omem ser, muito bom Retorico, se souber imitar estes treslados.
Como tambem pode um omem, com exata lisam de bons livros, discorrer
bem, sem saber as especies de silogismos, que apontam os Logicos.
Neste pouco que tenho proposto, cuido que cheguei, ao verdadeiro
principio da-Eloquencia. Nam apontei o artificio, dos-diversos estados
de controversias oratorias; porque nam era ese o meu argumento; nem
tambem se-acha, nas Retoricas ordinarias: e somente se-pode aprender,
nos-mesmos autores originais. O meu Religiozo que asima aponto, explica
muito bem estes artificios, dando os exemplos originais: mas tambem
se-demora com minucias: e como escreve em lingua estrangeira, nam é
para o cazo. Outros, de que eu me-aproveitei mui bem, tambem escrevem
em linguas estrangeiras, ou sam difuzisimos. Neste cazo para dizer a
V. P. o meu parecer, aconselho ao estudante Portuguez, que nam tem
alguma boa Retorica Portugueza; que, despois de intender bem, o que
aqui lhe-aponto, tome alguma ideia, da-distribuisam da-orasam; a
saber, exordio, narrasam, provas, epilogo: que leia brevemente, o nome
das-figuras das-palavras, e do-animo: o que o mestre facilmente podia
explicar. Posto isto, segue-se ler um autor Portuguez, no-qual posa
fazer, as reflexoens necesarias. Mas aqui esta a dificuldade: e eu
que nam costumo inganar ninguém, devendo dizer-lhe sinceramente o que
intendo; digo, que nam acho algum, que posa ser modelo.
Dos-sermoens nam tenho que dizer, sendoque ja expliquei, o que eram.
As orasoens Academicas, que se-lem nos-Anonimos &c. nam merecem que
se-leiam. Algum elogio da-Academia Real, que é mais toleravel, peca
por-outro principio: porque é mera istoria, sem artificio algum
retorico. * * * E aos que respondem, que tambem os Francezes praticam
o mesmo, nos-elogios dos-seus Academicos; respondo o mesmo: que os
ditos elogios sam istorias, e nam panegiricos: e asim o-julgam todos,
os que tem voto na materia. Li nam á muitos dias o do-Cardial _de
Polignac_, que teve ultimamente seus aplauzos: e achei que o autor, se
ouvèse de escrever a istoria do-dito, nam se-serviria, nem de outras
palavras, nem pensamentos, nem frazes. Com efeito eu julgo, que aqueles
omens nam querem fazer outra coiza, que explicar em breve, a vida,
e merecimentos dos-seus Academicos. Onde como eles nos-dispensem,
de lhe-chamar orasam, ou panegirico; concedemos-lhe tudo o mais: mas
devemos porem reconhecer, que nam sam obras no-genero Oratorio: e que
nam sam para se-imitarem. Onde neste cazo deve o mestre, tomar sobre
si o trabalho, de explicar tudo em Cicero: servindo-se para isto do-P.
_Cigne_ Jezuita: o qual, seguindo o metodo de um certo Inglez, faz a
analize das-orasoens de Cicero. E asim nelas deve o mestre, mostrar o
artificio da-Oratoria, fazendo as seguintes reflexoens. Notar primeiro
a forsa das-razoens, dispostas com boa ordem, unidas naturalmente, e
amplificadas com artificio. Notar a verosimilidade das-ideias: a pureza
e elegancia das-palavras: a moderasam e propriedade dos-epitetos: o
numero oratorio, que consiste em certa colocasam armonioza de palavras,
mas que nam degenere em verso: a introdusam das-figuras, quando é
necesario excitar as paixoens: as precausoens que observa, para nam
dezagradar. Observando bem isto, na lisam dos-autores, bastava para
conseguir, o bom gosto da-Eloquencia.
Deve porem unir-se com isto, o exercicio. Onde o mestre comporá, uma
breve orasam Portugueza, segundo as regras da-arte: e mostrará nela
aos dicipulos, o artificio e galantaria dela. Fazendo-se isto em
Portuguez, facilmente se-aprende: e só asim podem eles, intender bem
os preceitos, e executálos. Isto nam fazem em Portugal os mestres, e
quazi se-envergonham, de escrever em Portuguez: sem advertirem, que a
Retorica nestes paîzes, mais se-exercita em Vulgar, que em Latim. Mas
por-esta razam sucede, que saiem todos da-Retorica, sem saberem dela
mais, que o nome. Porem, tornando ao estudante, tendo-lhe proposto um
modelo, de fazer uma breve orasam; será necesario exercitálo. Isto
facilmente se-faz, propondo-lhe na escola um asumto, e proguntando-lhe,
o que eles diriam em tal cazo, para defender v.g. ou acuzar aquela
pesoa. Certamente um rapaz com a logica natural, dirá algumas razoens,
que lhe-ocorrem: pois vemos, que a nenhum rapaz faltam razoens, para
se-desculpar dos-erros que faz, quando o-querem castigar. A um rapaz
pode dar, a incumbencia de acuzar, e a outro de defender. Despois que
ambos tem dito o seu parecer, deverá o mestre, suministrar alguma razam
mais; e ordenar aos rapazes, que as-escrevam, e fasam as suas orasoens,
do-melhor modo que puderem. Isto feito, deve o mestre emendar os erros,
tanto de lingua, como de Retorica; dando-lhe razam, de tudo o que
faz: e variando sucesivamente os asumtos. Desta sorte aprende-se mais
Retorica, em uma semana; doque polo metodo vulgar, em dez anos.
Quando o estudante sabe bem, que coiza é Retorica, no-resto do-ano
se-pode empregar, em compor Orasoens Latinas: ou traduzindo, as
que compoz em Portuguez, o que é mais acertado ao principio: ou
compondo outras novas. Para quem ja intende Latim, e sabe compor bem
em Portuguez, isto é um divertimento, sem ter dificuldade alguma.
Terá pois o mestre cuidado, de lhe-encomendar, que leia os trez
livros _de Oratore_ de Cicero, e _Orator ad M. Brutum_, como tambem
_o de Oratoriis Partitionibus_: os quais dois ultimos sam a quinta
esencia, de toda a Retorica. Encomende-lhe que se-familiarize, com as
Orasoens de Cicero, para aprender os seus modos de explicar. As outras
reflexoens sam iguais, em ambas as linguas, com sua proporsam: e tambem
o modo de emendar os defeitos, que os estudantes cometem. Desta sorte é
sem duvida que em um ano, podiam saber muito facilmente Retorica, e mui
solidamente.
Quanto aos mestres, sou de parecer, que leiam atentamente, nam só os
ditos livros, que apontamos de Cicero, e alguns outros, pertencentes
também à Retorica; mas os de Quintiliano, em que faz belisimas
reflexoens, sobre ela. Valla diz[71], que ninguem pode, intender
bem Quintiliano, sem primeiro saber bem Cicero: nem menos seguir
perfeitamente Cicero, sem obedecer aos preceitos, de Quintiliano. O
certo é, que Quintiliano é um Retorico insigne, e um grande Critico,
que toda a sua vida empregou em refletir, e ensinar: e tem maravilhoza
eloquencia: e dele podem tirar os mestres, as necesarias reflexoens,
para comunicar a seu tempo, aos rapazes. Se o mestre quizese, mais
alguma noticia particular, e ver as fontes, de toda a Retorica; devia
ler os livros Retoricos de Aristoteles, que é o mestre nesta materia,
e os ditos sam a sua melhor obra: nela bebèram todos. Podia servir-se
da-versam Latina, se nam intendèse o Grego. A este ajunto um famozo
Critico, e Retorico, que é Dionizio Longino, no-seu tratadinho de
_Sublimi stilo_: em que faz admiraveis reflexoens, servindo-se tambem
da-Versam[72]. E quem quizese mais, podia ler o Demetrio Falereo:
aindaque nos-outros acha-se tudo. A estes quatro, Aristoteles,
Cicero, Quintiliano, e Longino, se-reduz tudo o que á melhor na
Antiguidade, sobre a Retorica. Aconselharia tambem ao mestre, que lese
os panegiricos Latinos, que temos dos-Antigos, comesando em Plinio,
e pasando aos outros que se intitulam, _Panegyrici Veteres_; que
cuido sam uns quinze, compostos no-quarto, e quinto seculo: nam para
os-seguir em tudo: mas para os-conferir com os antigos, ver em que
diferem, e aproveitar-se deles, em alguma coiza menos má. Advertindo
nestes ultimos, que o que aconselhamos nam é a lingua, que tem seus
defeitos; mas algum pensamento &c. Retoricas modernas nam aconselho
nenhuma, nem a dicipulos, nem a mestres: tirando o Vossio, nas suas
Instituisoens Oratorias, que é famozo: o qual podiam ler uns, e outros,
quando quizesem particularizar, alguma noticia. Aindaque quem le, e
intende bem, o livro _Orator_ de Cicero, nam necesita mais: mas como é
breve, pode-se permetir, ler alguma coiza mais.
Aconselharia tambem, que aprendesem bem a lingua Italiana, para lerem
as famozas tradusoens que se-acham, dos-Antigos Oradores Gregos, e
Romanos, feitas por-omens insignes: como tambem para lerem as belisimas
obras, em materia de Eloquencia; que os nosos Italianos tem produzido,
e produzem todos os dias. Ninguem nos-disputa a prerogativa, de que
a Eloquencia sempre se-conservou, em Italia. Os Francezes, que nam
cedem facilmente, no-particular de literatura, fazem-nos este elogio.
E aindaque eles abundem de omens doutos, nesta faculdade; vemos que
na Italia se-conservou sempre, com mais extensam, e pureza. Quem le
o P. Paulo Segneri Jezuita, o Cardial Cassini Capucinho, e ainda o
mesmo Monsenhor Barberini, tambem Capuchinho, e mil outros de diversas
Religioens, e Seculares sem numero; parece-lhe que conversa, com o
mesmo Cicero: porque formados sobre estes antigos modelos, em nada
se-distinguem, dos-originais. Acrecenta-se a isto a lingua, que,
despois da-Latina, é a mais bela, e armonica, para a Eloquencia. Tem
mais os Modernos, outra circunstancia; vem aser, que tendo-se aplicado
a diversas materias, nam só profanas, mas sagradas, de que nam á
vestigio, nos-antigos Retoricos; fizeram aos nosos olhos mais familiar
esta faculdade, e mais facil de se-imitar: porque dam belisimos
exemplos, em tudo. Desta sorte familiarizando-se muito, com os Antigos,
e Modernos; observando em que diferem, e em que sam louvados; se-pode
conseguir, a verdadeira Eloquencia.
Conheso, que se eu faláse com outra pesoa, que nam fose V. P.
se-escandalizaria muito, que eu nam aconselháse aqui, a leitura do-P.
Vieira, do-Baram Conego Regular, do-Bispo de Martiria, do-Arcebispo
de Cranganor, e de alguns outros, que nam aponto; persuadindo-se,
que estes omens sam originais, de toda a estimasam. E nam sei se
V.P., aindaque superior no-criterio aos outros, intende, que algum
deles podia ter lugar, entre outros que louvo. Mas eu, meu amigo e
senhor, nam tenho nisto parcialidade alguma; e julgo, segundo o que
intendo, na minha conciencia. Verdadeiramente é coiza indigna, de todo
o omem ingenuo, quanto mais de um Religiozo; desprezar autores, que
o-nam-meresam, e sejam em simesmos dignos, de todo o louvor: mas nam
é menos indigno, aprovar um escritor, contra aquilo que intendo. Eu
ja fiz a minha solene protesta, na primeira carta, e nesta da-Retorica
tambem; que nam pertendia defraudar ninguem, da-sua justa estimasam:
e novamente aqui repito, que estimo infinitamente qualquer destes
Religiozos: mas eu os-distingo muito das-suas obras, que nada estimo.
E comesando polo mais famozo, o P. Vieira teve mui bom talento; grande
facilidade para se-explicar; falou mui bem a sua lingua; e nas suas
cartas é autor, que se-pode ler com gosto, e utilidade. Quanto aos
sermoens, e orasoens, deixou-se arrebatar, do-estilo do-seu tempo; e
talvez foi aquele que com o seu exemplo, deu materia a tanta sutileza,
que sam as que destruem a Eloquencia. Nos-seus sermoens, nam achará V.
P. artificio algum retorico, nem uma Eloquencia que persuada. Muitos,
que gostam daquelas galantarias, lendo-o sairám divertidos: mas nenhum
omem de juizo exato, sairá persuadido delas. Sam daquelas teias de
aranha, bonitas para se-observarem, mas que nam prendem ninguem. Eu
comparo esta sorte de sermoens, aos equivocos: que parecem bonitos,
quando se-ouvem a primeira vez; mas quando se-examinam de perto, nam
concluem nada. Porque finalmente se V. P. le os tais sermoens, e
examina as provas e artificio delas; verá muitas coizas, que cheiram a
Metafizica das-escolas: mas nam achará alguma, das-que asima aponto,
como necesarias. Os exemplos que asima apontei, sam comumente tirados,
dos-seus sermoens: e com eles à vista, poderá V. P. conhecer, quantas
coizas eu deixei, que podia apontar. Se pois isto se-chama pregar, e
pregar bem, eu o-deixo considerar, aos dezapaixonados.
O dezejo que o P. Antonio Vieira, em quazi todos os sermoens mostra,
de agradar ao Publico, ainda quando às vezes o-critica; deixa bem
compreender, que se-conformava muito, com o estilo corruto do-seu
seculo. Tinha ingenho, imaginasam fecunda, e deixando-se conduzir,
do-impeto do-seu fogo, ou talvez procurando de excitar em si, uma
especie de entuziasmo; rompia nas primeiras ideias, que lhe-ocorriam;
que sempre eram sutis, polo costume que tinha, de ideiar asim. Eu falo
com V.P. que tem grande noticia dos-ditos sermoens, em virtude da-qual
conhece, com que razam eu-digo isto: que se-faláse com outro, serîa mui
facil, provar tudo quanto escrevo. Mas nam poso deixar de insinuar,
que a maior prova do-que proponho, é a sua decantada obra, _Clavis
Prophetarum_: de que nos-dá uma ideia, no-livro que intitula, _Istoria
do-Futuro_. Neste livro acha V.P., uma chimera mui bem ideiada, e que a
ninguem mais ocorreo. Promete provar primeiro, que á-de aver no-mundo,
um novo Imperio: mostrar, que Imperio á-de ser: determinar, as suas
grandezas e felicidades: explicar, por-que meios se-á-de introduzir:
individuar, em que terra, em que tempo, e em que pesoa á-de comesar
este Imperio[73]: o qual á-de ser tam grande como todo o mundo, sem
iperbole, nem sinedoche[74]. Prova isto, segundo diz, com uma profecia
de S. Frei Gil: com o juramento d’El-Rei D. Afonso: e com outras provas
deste calibre. Diz tambem, que a maior parte, á-de sair da-Escritura;
na qual estam reveladas, todas estas coizas. Quanto ao Imperador,
aindaque claramente o-nam-explica, dá muito bem a intender, que sairá
de Portugal; porque aos Portuguezes é que propoem, estas felicidades.
Alem disto em outra parte[75] declara mui bem, que este Imperador
será o filho primogenito, do-Serenisimo Rei D. Pedro II. e pretende
proválo com os mesmos fundamentos, com que prova o Imperio, na Istoria
do-Futuro. E nas cartas que escreve, a algumas pesoas, lhe-explica, que
as felicidades de Portugal, estam muito vizinhas.
Eu nam entro aqui a disputar, se estes fundamentos, (nam falo
das-Escrituras, pois é loucura persuadir-se, que falam em tal materia)
sejam bastantes, para afirmar tal paradoxo: é bem claro, que isto tem
aparencias de comedia; e bem parece obra feita, para divertir o tempo.
Mas aindaque fose verdade, que as conquistas feitas, estivesem tam
distintamente profetizadas, na Sagrada escritura; e despois do-suceso
se-intendesem; fica em pé a dificuldade, de tirar da-Escritura, as
conquistas futuras, deste novo Imperador. E quanto aos expozitores
que ele aponta, e às profecias destes modernos, em que se-funda;
creio nam faremos injuria ao P. Vieira, se nos-rirmos de todas estas
provas, esperando, que as-procure mais fundadas. Mas o que digo a
V.P. é, que na dispozisam deste livro preambulo, se-ve o estilo do-P.
Antonio Vieira: porque tudo prova com a Escritura. Ainda as coizas
mais triviais, as profanas, e a mesma justisima exaltasam de D. Joam
IV. ele as-quer provar aos Espanhoes, com as Escrituras. O pior é, que
pola major parte, funda-se em palavrinhas da-Vulgata. E este é mui mao
modo de interpretar: porque nam tendo Deus falado em Latim, mas em
Ebraico, Caldaico, e alguma coiza em Grego; é necesario saber estas
linguas, para alcansar, a verdadeira inteligencia do-original. Sem
estas preparasoens, nenhum interprete se-mete a dizer, coizas novas:
mostrando a experiencia, que comumente se-inganam, e só podem dizer,
sutilezas pouco sofriveis.
E eu creio que nam sam mui toleraveis, as que ele aqui escreve:
observando-se suma contrariedade, na interpretasam que dá, aos seus
mesmos fundamentos. Umas vezes, a decimasexta gerasam, é o Cardial
Rei D. Enrique:[76] e ainda lhe-faz a merce, de nam contar a vida
d’El-Rei D.Alfonso I. que cuido devia ser o primeiro, no-catalogo.
Outras vezes, a decimasexta gerasam é D. Joam IV.; e D. Pedro II. é a
prole atenuada[77]: e como ao dito Rei nam se-pode aplicar, a palavra
_atenuada_; procura aplicála a seu filho, o Principe entam nacido.
Eisque morre o tal Principe ainda menino: Neste cazo o noso interprete
excogita a saida, de lhe-ir dar no-Ceo, a investidura do-Imperio[78]:
e comesa com outra metafizica pior, que a primeira. Finalmente despois
de muitas observasoens, fica desmentida a verdade, do-juramento
d’El-Rei D. Alfonso: e o Imperio do-mundo, que tam claramente estava
profetizado, e prometido ao tal Principe, lá vai polos ares: e nem
menos á aparencia, que se-torne outra vez a restablecer: pois do-tempo
em que ele escrevia até este, vam bons 80. anos; e ainda nam vemos
aparencias diso. Eisaqui tem V. P. o que sam todas estas chimeras,
da-Istoria do-Futuro; e das-coizas que tem parentesco, com ela.
Ora estas sutilezas do-P. Vieira, cuido que tem arruinado, muita gente:
porque formando grande conceito, do-seu talento; o-imitáram tanto à
letra, que nada agradou, que nam cheiráse ao mesmo estilo. Ja é coiza
muito antiga, que em materia de literatura, um omem seja o treslado,
para que olhem os outros do-seu tempo. Quando em uma Cidade um sugeito
consegue, fama de eloquente, os outros o-imitam; e às vezes por-seculos
inteiros, se-conserva o mesmo estilo[79]. Aquele Seneca a quem chamam
o Filozofo, nam se-duvida, que tinha grande ingenho, e doutrina:
mas querendo-se singularizar; entre os antecedentes, comesou a fazer
um estilo tam florido; que foi a primeira cauza, de se-perder o bom
gosto da-Eloquencia, que reinára no-tempo de Augusto. _Multæ in eo
claræque sententiæ_: (diz um Orador grande) _multa etiam morum gratia
legenda: sed in eloquendo corrupta pleraque: atque eo perniciosissima,
quod abundant dulcibus vitiis. Vettes eum suo igenio dixisse,
alieno judicio. nam si aliqua contempsisset, si parum concupisset,
si non omnia sua amasset, si rerum pondera minutissimis sententiis
non fregisset; consensu potius eruditorum, quam puerorum amore
comprobaretur_[80]. Palavras que me-parecem cortadas, para o P. Antonio
Vieira: do-qual creio que se-pode dizer, que se, servindo-se do-seu
ingenho, seguise outro estilo; serîa um grande omem: quando porem nam
se-ocupáse com o argumento, da-Istoria do-Futuro.
E daqui compreenderá V.P. que conceito se-deve formar, daqueles
muitos epitetos, com que os apaixonados o-louvam. Chamam-lhe, _Mestre
do-pulpito: Principe dos-Oradores: Mestre universal de todos os
declamadores Evangelicos: Aguia Evangelica_: e mil coizas destas.
Outros lem as suas obras de joelhos, em sinal de respeito: e á omens
de tam pouca considerasam, que imprimem estas noticias[81]; e nam
se-envergonham de dizer, _Que o mundo sem contradisam, lhe-deo a coroa,
de Principe dos-Oradores_. Mas este censor, que nam fez maior jornada,
que de Lisboa a Madrid; nam era juiz competente, nesta matéria: nam só,
porque tinha visto pouco mundo; mas porque tendo somente conversado,
com os que liam o Vieira de joelhos; e nam sendo a Eloquencia, e belas
Letras profisam sua, segundo mostra; tinha impedimento dirimente,
para votar com acerto. Isto pois que digo destes, aplico a todos os
outros. Criados com o prejuizo, de que o Vieira foi, um grande Orador;
e ouvindo sempre repetir isto aos velhos, que bebèram aquela doutrina;
nam é maravilha, que digam tantas coizas dele, e que o-imitem tam
cegamente.