Os Romanos, que sabiam quanto importava, reprezentar bem o seu papel,

desorte se-exercitavam nisto, que tomavam lisoens dos-Comediantes;

como o mesmo Cicero de si confesa. E com efeito, nam podiam tomar

melhores mestres: porque os Comicos eram tam insignes nisto, que

falavam somente, com as asoens. Nos-ultimos tempos da-Republica,

se-introduzîram nos teatros, os Pantomimos: que era uma especie de

Comediantes, que com as asoens somente explicavam, o que outro,

que estava imovel no-fim do-teatro, dizia. Desorteque um falava;

e o Pantomimo animava com a asám, a expresam do-outro. Tal era a

diligencia, com que sabiam com a asám, acompanhar os movimentos

do-animo! Isto faziam aqueles que sabiam, que coiza era Retorica: e

isto deve fazer qualquer omem, que á-de orar em publico.

Os nosos Italianos sam os unicos, entre todas as Nasoens, que melhor

exprimam com a asám, o que dizem: e nam só quando oram, mas tambem

quando recîtam versos. Os Inglezes nam se-movem, quando recîtam: os

Francezes esfogueteiam, e cantam: os Espanhoes choram: outros tem

outros defeitos. Mas pola maior parte convem todos, que os Italianos,

sam os mais expresivos: e um grande ingenho Francez, do-seculo pasado,

chegou a dizer, que os nosos Italianos naturalmente eram, Comediantes.

Porem em Portugal, á muita falta disto. Dos-Pregadores é notorio,

que nam só lhe-falta a asám, mas até o tom da-voz, que nam acompanha

com a asám. Confeso a V.P. que nunca pude sofrer a afetasam, com

que muitos pregam a Paixam, ou as Lagrimas. Estudam uma voz flebile,

mas com modo tal, que em lugar de fazer chorar, provoca o rizo:

muito mais se consideramos o que dizem, com a dita voz flebile. Eles

circunscrevem o estilo patetico, na dita voz: e asentam que ela basta,

para mover. Loucuras! O mesmo digo, quando fazem a exclamasam para

o Sepulcro, nos-sermoens de Quaresma. todo o ponto está, em gritar

muito: pedir mil mizericordias: e com isto se-contentam. Mas a falar

a verdade, estes nam sabem o seu oficio. O estilo patetico, é a coiza

mais dificultoza, da-Retorica, como confesa Cicero[70]: e nele é que

consiste o triumfo, e aplauzo da-eloquencia. Nam é pequena dificuldade,

ou para melhor dizer, é coiza admiravel, que as palavras que profere um

omem, ajam de mover em mil ouvintes, os mesmos sentimentos, que quer

o Orador: amor da-Virtude: odio do-Vicio: aborrecimento de si mesmo!

Que cuida V.P. que será necesario, para conseguir isto? É necesaria

doutrina admiravel: particular conhecimento das-paixoens umanas; como

se-excitam, e adormecem: asoens proprias: e em uma palavra, saber uzar

das-Figuras, na ultima perfeisam: e isto nam se-faz com voz flebile,

nem com gritarias, mas com outras virtudes oratorias. Nam digo, que

quem prega estes sermoens, esteja rindo: digo sim, que deixe aquelas

afetasoens, e reconhesa em que consiste, o mover os animos: qual é a

asám, qual a voz proporcionada.

Mas pior que tudo é, quando recîtam versos: rarisimo vi, que

pronunciáse verso bem. Comumente vam detraz do-consoante, e fazem

pauza, nam no-fim do-sentido, mas no-fim do-verso: o que é erro

manifesto. Parece isto pior, quando recîtam versos Latinos, nos-quais

nam á consoante: de que vem, que um _carmen_ pronunciado por-um deles,

e por-outro que o-saiba animar com a voz, e asám, parece diferente.

Este defeito deve emendar o omem, que quér ser perfeito. deve

exercitar-se em caza, diante de algum amigo bem informado; para ver, se

expremio bem, a asám que quer. Só asim conseguirá, ser ouvido com gosto.

Mas eu quero parar, neste ponto: porque se deixo correr a pena, em

lugar de reflexoens, escreverei um tratado de Retorica. Reconheso que

já caî, no-mesmo defeito que condeno: mas a materia é tam fecunda, e as

reflexoens ocorrèram-me, com tanta promtidam, que nam pude deixar, de

as-admetir. Direi porem a V. P., que lendo o que tenho escrito, acho

que é suficiente, para introduzir um moso no-estudo, da-verdadeira

Eloquencia. e quem se-capacitar bem destas reflexoens; e comesar

a ler os bons autores, tanto Latinos, como Vulgares; e observar

neles, o artificio das-orasoens; sem ler mais outra Retorica, pode

sair gravisimo Orador. Esta prezunsam nam nace de mim, mas damesma

qualidade dos-preceitos: os quais sam tam antigos, como os Oradores:

que é o mesmo que dizer, sam os mesmos que executou Demostenes, e

Eschines, e Isocrates: que nos-deixou escritos Aristoteles, Demetrio, e

Longino: que praticou e ensinou com tanto louvor Cicero, M. Seneca, e

Quintiliano, e outros autores antigos. As Retoricas comuas nam apontam,

senam alguns nomes, que eu aqui nam quiz apontar: sem saber os quais,

pode um omem ser, muito bom Retorico, se souber imitar estes treslados.

Como tambem pode um omem, com exata lisam de bons livros, discorrer

bem, sem saber as especies de silogismos, que apontam os Logicos.

Neste pouco que tenho proposto, cuido que cheguei, ao verdadeiro

principio da-Eloquencia. Nam apontei o artificio, dos-diversos estados

de controversias oratorias; porque nam era ese o meu argumento; nem

tambem se-acha, nas Retoricas ordinarias: e somente se-pode aprender,

nos-mesmos autores originais. O meu Religiozo que asima aponto, explica

muito bem estes artificios, dando os exemplos originais: mas tambem

se-demora com minucias: e como escreve em lingua estrangeira, nam é

para o cazo. Outros, de que eu me-aproveitei mui bem, tambem escrevem

em linguas estrangeiras, ou sam difuzisimos. Neste cazo para dizer a

V. P. o meu parecer, aconselho ao estudante Portuguez, que nam tem

alguma boa Retorica Portugueza; que, despois de intender bem, o que

aqui lhe-aponto, tome alguma ideia, da-distribuisam da-orasam; a

saber, exordio, narrasam, provas, epilogo: que leia brevemente, o nome

das-figuras das-palavras, e do-animo: o que o mestre facilmente podia

explicar. Posto isto, segue-se ler um autor Portuguez, no-qual posa

fazer, as reflexoens necesarias. Mas aqui esta a dificuldade: e eu

que nam costumo inganar ninguém, devendo dizer-lhe sinceramente o que

intendo; digo, que nam acho algum, que posa ser modelo.

Dos-sermoens nam tenho que dizer, sendoque ja expliquei, o que eram.

As orasoens Academicas, que se-lem nos-Anonimos &c. nam merecem que

se-leiam. Algum elogio da-Academia Real, que é mais toleravel, peca

por-outro principio: porque é mera istoria, sem artificio algum

retorico. * * * E aos que respondem, que tambem os Francezes praticam

o mesmo, nos-elogios dos-seus Academicos; respondo o mesmo: que os

ditos elogios sam istorias, e nam panegiricos: e asim o-julgam todos,

os que tem voto na materia. Li nam á muitos dias o do-Cardial _de

Polignac_, que teve ultimamente seus aplauzos: e achei que o autor, se

ouvèse de escrever a istoria do-dito, nam se-serviria, nem de outras

palavras, nem pensamentos, nem frazes. Com efeito eu julgo, que aqueles

omens nam querem fazer outra coiza, que explicar em breve, a vida,

e merecimentos dos-seus Academicos. Onde como eles nos-dispensem,

de lhe-chamar orasam, ou panegirico; concedemos-lhe tudo o mais: mas

devemos porem reconhecer, que nam sam obras no-genero Oratorio: e que

nam sam para se-imitarem. Onde neste cazo deve o mestre, tomar sobre

si o trabalho, de explicar tudo em Cicero: servindo-se para isto do-P.

_Cigne_ Jezuita: o qual, seguindo o metodo de um certo Inglez, faz a

analize das-orasoens de Cicero. E asim nelas deve o mestre, mostrar o

artificio da-Oratoria, fazendo as seguintes reflexoens. Notar primeiro

a forsa das-razoens, dispostas com boa ordem, unidas naturalmente, e

amplificadas com artificio. Notar a verosimilidade das-ideias: a pureza

e elegancia das-palavras: a moderasam e propriedade dos-epitetos: o

numero oratorio, que consiste em certa colocasam armonioza de palavras,

mas que nam degenere em verso: a introdusam das-figuras, quando é

necesario excitar as paixoens: as precausoens que observa, para nam

dezagradar. Observando bem isto, na lisam dos-autores, bastava para

conseguir, o bom gosto da-Eloquencia.

Deve porem unir-se com isto, o exercicio. Onde o mestre comporá, uma

breve orasam Portugueza, segundo as regras da-arte: e mostrará nela

aos dicipulos, o artificio e galantaria dela. Fazendo-se isto em

Portuguez, facilmente se-aprende: e só asim podem eles, intender bem

os preceitos, e executálos. Isto nam fazem em Portugal os mestres, e

quazi se-envergonham, de escrever em Portuguez: sem advertirem, que a

Retorica nestes paîzes, mais se-exercita em Vulgar, que em Latim. Mas

por-esta razam sucede, que saiem todos da-Retorica, sem saberem dela

mais, que o nome. Porem, tornando ao estudante, tendo-lhe proposto um

modelo, de fazer uma breve orasam; será necesario exercitálo. Isto

facilmente se-faz, propondo-lhe na escola um asumto, e proguntando-lhe,

o que eles diriam em tal cazo, para defender v.g. ou acuzar aquela

pesoa. Certamente um rapaz com a logica natural, dirá algumas razoens,

que lhe-ocorrem: pois vemos, que a nenhum rapaz faltam razoens, para

se-desculpar dos-erros que faz, quando o-querem castigar. A um rapaz

pode dar, a incumbencia de acuzar, e a outro de defender. Despois que

ambos tem dito o seu parecer, deverá o mestre, suministrar alguma razam

mais; e ordenar aos rapazes, que as-escrevam, e fasam as suas orasoens,

do-melhor modo que puderem. Isto feito, deve o mestre emendar os erros,

tanto de lingua, como de Retorica; dando-lhe razam, de tudo o que

faz: e variando sucesivamente os asumtos. Desta sorte aprende-se mais

Retorica, em uma semana; doque polo metodo vulgar, em dez anos.

Quando o estudante sabe bem, que coiza é Retorica, no-resto do-ano

se-pode empregar, em compor Orasoens Latinas: ou traduzindo, as

que compoz em Portuguez, o que é mais acertado ao principio: ou

compondo outras novas. Para quem ja intende Latim, e sabe compor bem

em Portuguez, isto é um divertimento, sem ter dificuldade alguma.

Terá pois o mestre cuidado, de lhe-encomendar, que leia os trez

livros _de Oratore_ de Cicero, e _Orator ad M. Brutum_, como tambem

_o de Oratoriis Partitionibus_: os quais dois ultimos sam a quinta

esencia, de toda a Retorica. Encomende-lhe que se-familiarize, com as

Orasoens de Cicero, para aprender os seus modos de explicar. As outras

reflexoens sam iguais, em ambas as linguas, com sua proporsam: e tambem

o modo de emendar os defeitos, que os estudantes cometem. Desta sorte é

sem duvida que em um ano, podiam saber muito facilmente Retorica, e mui

solidamente.

Quanto aos mestres, sou de parecer, que leiam atentamente, nam só os

ditos livros, que apontamos de Cicero, e alguns outros, pertencentes

também à Retorica; mas os de Quintiliano, em que faz belisimas

reflexoens, sobre ela. Valla diz[71], que ninguem pode, intender

bem Quintiliano, sem primeiro saber bem Cicero: nem menos seguir

perfeitamente Cicero, sem obedecer aos preceitos, de Quintiliano. O

certo é, que Quintiliano é um Retorico insigne, e um grande Critico,

que toda a sua vida empregou em refletir, e ensinar: e tem maravilhoza

eloquencia: e dele podem tirar os mestres, as necesarias reflexoens,

para comunicar a seu tempo, aos rapazes. Se o mestre quizese, mais

alguma noticia particular, e ver as fontes, de toda a Retorica; devia

ler os livros Retoricos de Aristoteles, que é o mestre nesta materia,

e os ditos sam a sua melhor obra: nela bebèram todos. Podia servir-se

da-versam Latina, se nam intendèse o Grego. A este ajunto um famozo

Critico, e Retorico, que é Dionizio Longino, no-seu tratadinho de

_Sublimi stilo_: em que faz admiraveis reflexoens, servindo-se tambem

da-Versam[72]. E quem quizese mais, podia ler o Demetrio Falereo:

aindaque nos-outros acha-se tudo. A estes quatro, Aristoteles,

Cicero, Quintiliano, e Longino, se-reduz tudo o que á melhor na

Antiguidade, sobre a Retorica. Aconselharia tambem ao mestre, que lese

os panegiricos Latinos, que temos dos-Antigos, comesando em Plinio,

e pasando aos outros que se intitulam, _Panegyrici Veteres_; que

cuido sam uns quinze, compostos no-quarto, e quinto seculo: nam para

os-seguir em tudo: mas para os-conferir com os antigos, ver em que

diferem, e aproveitar-se deles, em alguma coiza menos má. Advertindo

nestes ultimos, que o que aconselhamos nam é a lingua, que tem seus

defeitos; mas algum pensamento &c. Retoricas modernas nam aconselho

nenhuma, nem a dicipulos, nem a mestres: tirando o Vossio, nas suas

Instituisoens Oratorias, que é famozo: o qual podiam ler uns, e outros,

quando quizesem particularizar, alguma noticia. Aindaque quem le, e

intende bem, o livro _Orator_ de Cicero, nam necesita mais: mas como é

breve, pode-se permetir, ler alguma coiza mais.

Aconselharia tambem, que aprendesem bem a lingua Italiana, para lerem

as famozas tradusoens que se-acham, dos-Antigos Oradores Gregos, e

Romanos, feitas por-omens insignes: como tambem para lerem as belisimas

obras, em materia de Eloquencia; que os nosos Italianos tem produzido,

e produzem todos os dias. Ninguem nos-disputa a prerogativa, de que

a Eloquencia sempre se-conservou, em Italia. Os Francezes, que nam

cedem facilmente, no-particular de literatura, fazem-nos este elogio.

E aindaque eles abundem de omens doutos, nesta faculdade; vemos que

na Italia se-conservou sempre, com mais extensam, e pureza. Quem le

o P. Paulo Segneri Jezuita, o Cardial Cassini Capucinho, e ainda o

mesmo Monsenhor Barberini, tambem Capuchinho, e mil outros de diversas

Religioens, e Seculares sem numero; parece-lhe que conversa, com o

mesmo Cicero: porque formados sobre estes antigos modelos, em nada

se-distinguem, dos-originais. Acrecenta-se a isto a lingua, que,

despois da-Latina, é a mais bela, e armonica, para a Eloquencia. Tem

mais os Modernos, outra circunstancia; vem aser, que tendo-se aplicado

a diversas materias, nam só profanas, mas sagradas, de que nam á

vestigio, nos-antigos Retoricos; fizeram aos nosos olhos mais familiar

esta faculdade, e mais facil de se-imitar: porque dam belisimos

exemplos, em tudo. Desta sorte familiarizando-se muito, com os Antigos,

e Modernos; observando em que diferem, e em que sam louvados; se-pode

conseguir, a verdadeira Eloquencia.

Conheso, que se eu faláse com outra pesoa, que nam fose V. P.

se-escandalizaria muito, que eu nam aconselháse aqui, a leitura do-P.

Vieira, do-Baram Conego Regular, do-Bispo de Martiria, do-Arcebispo

de Cranganor, e de alguns outros, que nam aponto; persuadindo-se,

que estes omens sam originais, de toda a estimasam. E nam sei se

V.P., aindaque superior no-criterio aos outros, intende, que algum

deles podia ter lugar, entre outros que louvo. Mas eu, meu amigo e

senhor, nam tenho nisto parcialidade alguma; e julgo, segundo o que

intendo, na minha conciencia. Verdadeiramente é coiza indigna, de todo

o omem ingenuo, quanto mais de um Religiozo; desprezar autores, que

o-nam-meresam, e sejam em simesmos dignos, de todo o louvor: mas nam

é menos indigno, aprovar um escritor, contra aquilo que intendo. Eu

ja fiz a minha solene protesta, na primeira carta, e nesta da-Retorica

tambem; que nam pertendia defraudar ninguem, da-sua justa estimasam:

e novamente aqui repito, que estimo infinitamente qualquer destes

Religiozos: mas eu os-distingo muito das-suas obras, que nada estimo.

E comesando polo mais famozo, o P. Vieira teve mui bom talento; grande

facilidade para se-explicar; falou mui bem a sua lingua; e nas suas

cartas é autor, que se-pode ler com gosto, e utilidade. Quanto aos

sermoens, e orasoens, deixou-se arrebatar, do-estilo do-seu tempo; e

talvez foi aquele que com o seu exemplo, deu materia a tanta sutileza,

que sam as que destruem a Eloquencia. Nos-seus sermoens, nam achará V.

P. artificio algum retorico, nem uma Eloquencia que persuada. Muitos,

que gostam daquelas galantarias, lendo-o sairám divertidos: mas nenhum

omem de juizo exato, sairá persuadido delas. Sam daquelas teias de

aranha, bonitas para se-observarem, mas que nam prendem ninguem. Eu

comparo esta sorte de sermoens, aos equivocos: que parecem bonitos,

quando se-ouvem a primeira vez; mas quando se-examinam de perto, nam

concluem nada. Porque finalmente se V. P. le os tais sermoens, e

examina as provas e artificio delas; verá muitas coizas, que cheiram a

Metafizica das-escolas: mas nam achará alguma, das-que asima aponto,

como necesarias. Os exemplos que asima apontei, sam comumente tirados,

dos-seus sermoens: e com eles à vista, poderá V. P. conhecer, quantas

coizas eu deixei, que podia apontar. Se pois isto se-chama pregar, e

pregar bem, eu o-deixo considerar, aos dezapaixonados.

O dezejo que o P. Antonio Vieira, em quazi todos os sermoens mostra,

de agradar ao Publico, ainda quando às vezes o-critica; deixa bem

compreender, que se-conformava muito, com o estilo corruto do-seu

seculo. Tinha ingenho, imaginasam fecunda, e deixando-se conduzir,

do-impeto do-seu fogo, ou talvez procurando de excitar em si, uma

especie de entuziasmo; rompia nas primeiras ideias, que lhe-ocorriam;

que sempre eram sutis, polo costume que tinha, de ideiar asim. Eu falo

com V.P. que tem grande noticia dos-ditos sermoens, em virtude da-qual

conhece, com que razam eu-digo isto: que se-faláse com outro, serîa mui

facil, provar tudo quanto escrevo. Mas nam poso deixar de insinuar,

que a maior prova do-que proponho, é a sua decantada obra, _Clavis

Prophetarum_: de que nos-dá uma ideia, no-livro que intitula, _Istoria

do-Futuro_. Neste livro acha V.P., uma chimera mui bem ideiada, e que a

ninguem mais ocorreo. Promete provar primeiro, que á-de aver no-mundo,

um novo Imperio: mostrar, que Imperio á-de ser: determinar, as suas

grandezas e felicidades: explicar, por-que meios se-á-de introduzir:

individuar, em que terra, em que tempo, e em que pesoa á-de comesar

este Imperio[73]: o qual á-de ser tam grande como todo o mundo, sem

iperbole, nem sinedoche[74]. Prova isto, segundo diz, com uma profecia

de S. Frei Gil: com o juramento d’El-Rei D. Afonso: e com outras provas

deste calibre. Diz tambem, que a maior parte, á-de sair da-Escritura;

na qual estam reveladas, todas estas coizas. Quanto ao Imperador,

aindaque claramente o-nam-explica, dá muito bem a intender, que sairá

de Portugal; porque aos Portuguezes é que propoem, estas felicidades.

Alem disto em outra parte[75] declara mui bem, que este Imperador

será o filho primogenito, do-Serenisimo Rei D. Pedro II. e pretende

proválo com os mesmos fundamentos, com que prova o Imperio, na Istoria

do-Futuro. E nas cartas que escreve, a algumas pesoas, lhe-explica, que

as felicidades de Portugal, estam muito vizinhas.

Eu nam entro aqui a disputar, se estes fundamentos, (nam falo

das-Escrituras, pois é loucura persuadir-se, que falam em tal materia)

sejam bastantes, para afirmar tal paradoxo: é bem claro, que isto tem

aparencias de comedia; e bem parece obra feita, para divertir o tempo.

Mas aindaque fose verdade, que as conquistas feitas, estivesem tam

distintamente profetizadas, na Sagrada escritura; e despois do-suceso

se-intendesem; fica em pé a dificuldade, de tirar da-Escritura, as

conquistas futuras, deste novo Imperador. E quanto aos expozitores

que ele aponta, e às profecias destes modernos, em que se-funda;

creio nam faremos injuria ao P. Vieira, se nos-rirmos de todas estas

provas, esperando, que as-procure mais fundadas. Mas o que digo a

V.P. é, que na dispozisam deste livro preambulo, se-ve o estilo do-P.

Antonio Vieira: porque tudo prova com a Escritura. Ainda as coizas

mais triviais, as profanas, e a mesma justisima exaltasam de D. Joam

IV. ele as-quer provar aos Espanhoes, com as Escrituras. O pior é, que

pola major parte, funda-se em palavrinhas da-Vulgata. E este é mui mao

modo de interpretar: porque nam tendo Deus falado em Latim, mas em

Ebraico, Caldaico, e alguma coiza em Grego; é necesario saber estas

linguas, para alcansar, a verdadeira inteligencia do-original. Sem

estas preparasoens, nenhum interprete se-mete a dizer, coizas novas:

mostrando a experiencia, que comumente se-inganam, e só podem dizer,

sutilezas pouco sofriveis.

E eu creio que nam sam mui toleraveis, as que ele aqui escreve:

observando-se suma contrariedade, na interpretasam que dá, aos seus

mesmos fundamentos. Umas vezes, a decimasexta gerasam, é o Cardial

Rei D. Enrique:[76] e ainda lhe-faz a merce, de nam contar a vida

d’El-Rei D.Alfonso I. que cuido devia ser o primeiro, no-catalogo.

Outras vezes, a decimasexta gerasam é D. Joam IV.; e D. Pedro II. é a

prole atenuada[77]: e como ao dito Rei nam se-pode aplicar, a palavra

_atenuada_; procura aplicála a seu filho, o Principe entam nacido.

Eisque morre o tal Principe ainda menino: Neste cazo o noso interprete

excogita a saida, de lhe-ir dar no-Ceo, a investidura do-Imperio[78]:

e comesa com outra metafizica pior, que a primeira. Finalmente despois

de muitas observasoens, fica desmentida a verdade, do-juramento

d’El-Rei D. Alfonso: e o Imperio do-mundo, que tam claramente estava

profetizado, e prometido ao tal Principe, lá vai polos ares: e nem

menos á aparencia, que se-torne outra vez a restablecer: pois do-tempo

em que ele escrevia até este, vam bons 80. anos; e ainda nam vemos

aparencias diso. Eisaqui tem V. P. o que sam todas estas chimeras,

da-Istoria do-Futuro; e das-coizas que tem parentesco, com ela.

Ora estas sutilezas do-P. Vieira, cuido que tem arruinado, muita gente:

porque formando grande conceito, do-seu talento; o-imitáram tanto à

letra, que nada agradou, que nam cheiráse ao mesmo estilo. Ja é coiza

muito antiga, que em materia de literatura, um omem seja o treslado,

para que olhem os outros do-seu tempo. Quando em uma Cidade um sugeito

consegue, fama de eloquente, os outros o-imitam; e às vezes por-seculos

inteiros, se-conserva o mesmo estilo[79]. Aquele Seneca a quem chamam

o Filozofo, nam se-duvida, que tinha grande ingenho, e doutrina:

mas querendo-se singularizar; entre os antecedentes, comesou a fazer

um estilo tam florido; que foi a primeira cauza, de se-perder o bom

gosto da-Eloquencia, que reinára no-tempo de Augusto. _Multæ in eo

claræque sententiæ_: (diz um Orador grande) _multa etiam morum gratia

legenda: sed in eloquendo corrupta pleraque: atque eo perniciosissima,

quod abundant dulcibus vitiis. Vettes eum suo igenio dixisse,

alieno judicio. nam si aliqua contempsisset, si parum concupisset,

si non omnia sua amasset, si rerum pondera minutissimis sententiis

non fregisset; consensu potius eruditorum, quam puerorum amore

comprobaretur_[80]. Palavras que me-parecem cortadas, para o P. Antonio

Vieira: do-qual creio que se-pode dizer, que se, servindo-se do-seu

ingenho, seguise outro estilo; serîa um grande omem: quando porem nam

se-ocupáse com o argumento, da-Istoria do-Futuro.

E daqui compreenderá V.P. que conceito se-deve formar, daqueles

muitos epitetos, com que os apaixonados o-louvam. Chamam-lhe, _Mestre

do-pulpito: Principe dos-Oradores: Mestre universal de todos os

declamadores Evangelicos: Aguia Evangelica_: e mil coizas destas.

Outros lem as suas obras de joelhos, em sinal de respeito: e á omens

de tam pouca considerasam, que imprimem estas noticias[81]; e nam

se-envergonham de dizer, _Que o mundo sem contradisam, lhe-deo a coroa,

de Principe dos-Oradores_. Mas este censor, que nam fez maior jornada,

que de Lisboa a Madrid; nam era juiz competente, nesta matéria: nam só,

porque tinha visto pouco mundo; mas porque tendo somente conversado,

com os que liam o Vieira de joelhos; e nam sendo a Eloquencia, e belas

Letras profisam sua, segundo mostra; tinha impedimento dirimente,

para votar com acerto. Isto pois que digo destes, aplico a todos os

outros. Criados com o prejuizo, de que o Vieira foi, um grande Orador;

e ouvindo sempre repetir isto aos velhos, que bebèram aquela doutrina;

nam é maravilha, que digam tantas coizas dele, e que o-imitem tam

cegamente.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 20 / 32 段