Que seria do-mundo Retorico, se todos os omens um dia, abrisem os

olhos! Eu seguro a V. P. que de cemmil livros, que se-acham nesta

materia, pouquisimos se-poderiam conservar; e alguns deles, só

por-fazer favor, aos seus autores. Pois aquilo que entam fariam todos,

devem oje fazer os omens, que se-querem aproveitar a si, e aos outros.

Quando eu era rapaz, e somente conhecia os autores polo sobrescrito,

considerava mais felizes, e doutos aqueles omens, que posuiam mais

livros, doque os que tinham menos: porque, dizia eu, aqueles gozam

a lisam, de mais autores, e de mais omens insignes. Naquele tempo,

_Escritor_, e _Doutor_, eram sinonimos no-meu Vocabulario. Eu era um

daqueles, (que por-nosos pecados, ainda vemos oje tantos) que medîa

a Ciencia a palmos: quanto mais livros, mais ciencia: e o livro

maior sempre me-parecia, tezoiro mais preciozo. Mas despois que

me-familiarizei, com aqueles mortos: que revolvi muitas, e grandes

livrarias: que consultei omens doutisimos: que li atentamente os

Criticos: e finalmente que tomei o trabalho de examinar, com os

proprios olhos, o merecimento de muitas das-ditas obras: transformei-me

neste particular: e formo tam diferente conceito do-mundo; que se

explicáse tudo o que intendo, nam conservaria tam boa conrespondencia,

com tanta gente. Ora isto que se-pode dizer, de toda a sorte de livros,

aplico eu oje aos sermonarios, e outros que tratam de Retorica: e

conclûo, que pouquisimos destes livros se-podem ler, e ainda eses com

cuidado.

É coiza digna de observar, que nestes paîzes, a maior parte dos-que

estudam, confundem o _Ingenho_, com o _Juizo_: o _Juizo_, com a

_Doutrina_: esta, com o _Criterio_: sendo coizas na verdade bem

diferentes. Pode um omem ser ingenhozo, porque pode unir diferentes

ideias que elevem, ao que chamamos _Ingenho_; e nam ter uma oitava

de _Juizo_: porque finalmente o _Juizo_ é aquela faculdade da-alma,

que sepára uma coiza da-outra, e conhece cadauma, como é em si. Pode

este omem ter _Juizo_, e nam ter _Doutrina_, porque nam tem estudado.

Pode ter alguma _Doutrina_, e nam ter aquela que é necesaria, para

formar bom _Criterio_. Isto parece-me bem claro. Mas nam o-intendem

asim aqueles, que por-verem um, que ideiou varias chimeras, e formou

algumas ideias sutis, mas ridiculas; logo o-batizam, por-omem de

juizo, e grande doutor. E daqui entam nace, que as ideias daquele tal

omem, sam recebidas com mais respeito, doque nam eram as respostas, em

Delfos. Mas, tornando ao argumento.

Para persuadir, quer-se em primeiro lugar, boa Logica, que dè os

verdadeiros ditames, para julgar bem[64]: em segundo lugar, um juizo

claro, que os execute. Sem estes primeiros principios. sam superfluos

todos os ditames. Da-Logica em seu lugar falaremos. Decendo pois ao

particular digo, que só a _verdade_ ou _verosimilidade_, é a que pode

persuadir um omem; e é aquela valente arma, com que nos-acomete a

_razam_. Ninguem deixa de se-persuadir, de uma verdade clara. Verdade é

que muitos se-persuadem, da-aparencia: mas tambem é certo, que os-move

a verdade, que nela imaginam. Asimque só a verdade é a que persuade,

quando se-lhe-dá atensam. A forsa que os omens fazem, para divertir

os olhos do-intendimento, para outra parte; é a que impede, que a

verdade nam triumfe, produzindo o seu efeito, que é a persuazam. Nisto

é que está o empenho do-Orador, em descobrir a verdade: mostrála em

toda a sua clareza: e manifestar o erro oposto. Nisto se-distingue o

verdadeiro Orador, do-Declamador. Este, contentando-se das-aparencias,

veste o _erro_ com a mascara da-_verdade_: o Orador porem descobre e

manifesta o _erro_, e poem a _verdade_ em toda a sua luz.

Orar nam é inganar, é sim introduzir no-animo, alguma verdade

importante. Mas muitas vezes os Oradores, tem mais necesidade, de

convencer o erro, doque establecer alguma verdade notoria. Ninguem

toma o trabalho de persuadir, que Deus castiga, e premeia: isto sabem

todos os ouvintes: o ponto está em mover os omens à penitencia,

mostrando o grande erro, de a-deferir para a ora da-morte. Em descobrir

o erro, é que deve cuidar muito o Orador. Os omens nam se-inganam

nas consequencias, porque comumente deduzem-nas muito bem: o em que

se-inganam é, nos-principios; porque, por-falta de exame, recebem

uns falsos, como se fosem verdadeiros. Deve pois o Orador, mostrar

a falsidade destes principios. deve mostrar-lhe em que diseram bem,

e em que faláram inganados. Desta sorte mostrando-lhe a verdade,

se a materia o-pede; ou, se é notoria, descobrindo-lhe bem o erro,

se-consegue o fim da-persuazam.

Mas nam basta isto, para persuadir: e sam necesarias outras

circunstancias, para introduzir no-animo, a verdade. A primeira é, a

atensam. Que importa, que o Sol alumeie o Mundo, se eu depropozito

me-retiro em uma caza oscura; ou polo menos, nam dou atensam aos

objetos, que se-me-propoem? Damesma sorte importa pouco, que a verdade

seja notoria, e o erro muito bem convencido; se eu nam faso atensam

para uma, nem para outra coiza. Deve pois com cuidado o Orador,

excitar a atensam: e como as coizas ordinarias, nam conseguem isto,

mas sim a singularidade e novidade; deve o Orador, vestir iso mesmo

que diz, de uma certa novidade, que o-reprezente singular. As Figuras

dam esta novidade às coizas: e por-iso elas sam, as que movem muito a

atensam: dando a intender, que o objeto é novo, é grande, é singular.

Certo amigo meu, descrevendo a cara de uma molher, igualmente feia, e

desvanecida; soube dar tal novidade a este asumto, que é bem umilde,

e esteril; que com gosto se-lia a descrisam, do-principio até o fim.

Porei aqui um soneto, que fez ao dito asumto, e que tem o mesmo

artificio.

_Es feia: mas desorte, que orroroza

À tua vista é bela a feialdade.

Mas tens fortuna tal, que a enormidade

Te-consegue os tributos de formoza.

Cara tam feia, coiza tam pasmoza

Todos observam, e move a raridade.

Nam desperta o comum, a curzidade:

Ser rara, é que te-adûla vaidoza.

Ama-se o Belo, e cega o mesmo afeto.

O Feio, pois nam liga o pensamento,

Deixa miudamente ver o objeto.

Iso faz, que se-observe ese portento.

Quanto estás obrigada, a ese aspeto;

Se no-enorme te-dá merecimento!_

O outro importante ponto, de excitar a atensam é, nam mostrar o

objeto, que se-propoem, senam quando a atensam, ja nam é necesaria.

Embebido o omem da-curiozidade, de saber o que se-propoem, vendo

sempre coizas novas, e que prometem despois de si, outras maiores; vai

seguindo com a considerasam o Orador, atéque lhe-explique, a inteira

sustancia do-negocio. Asim se-conserva o ouvinte atento; e, estando

atento, se-lhe-introduzem, as verdades que se-querem. Nos-Poetas de

algum nome verá V. P. este artificio, bem executado: e tambem em

muitos Prozadores. O mesmo Gracian no-seu Criticon, ingenha desorte

a narrasam, das-figuras que introduz; que acaba o capitulo, quando

se-á-de explicar, algum grande fato: e rezervando a solusam, para o

seguinte, conduz o leitor, desde o principio até o fim, sempre com

curiozidade de ler. Este tambem é o artificio mais comum, das-orasoens

de Cicero, e de alguns Oradores modernos, que o-souberam imitar: como

eruditamente adverte, um grande Retorico da-minha Religiam[65]. E nisto

é que se-distingue o Orador, do-Filozofo. Ambos tem por-objeto, a

Verdade: mas o Filozofo nam costuma, mover a vontade: contenta-se, de

expor as razoens: porem se acazo nam acha um leitor, sem prejuizos e

preocupasoens nam conclue nada. Mas o Orador move as paixoens: excita a

curiozidade: mostra a verdade de tantos modos, com tanta clareza, com

tanta eficacia: desfaz os prejuizos com tanto estudo; que finalmente

convence o ouvinte.

O 3.^o ponto importante é, saber ganhar a vontade, ou insinuar-se,

no-animo dos-ouvîntes. A Verdade, diz o proverbio, é amargoza: e uma

verdade nua e crua, proposta a uma pesoa, que as-nam-coze bem, é dura

de digerir. Deve pois o Retorico, insinuar-se galantemente, no-animo

dos-ouvintes: propondo-lhe a verdade, vestida de um tal modo, que

ele a-admita, quazi sem advertir. V.P. ja sabe, que as pirolas de

quinaquina, e outras tais amargozas, se-cobrem com marmelada, ou obreia

branca, para se-engulirem sem dificuldade. Eu sei muito bem, que este

negocio, nam está na esfera, de todos os Pregadores. Requer grande

pratica do-mundo: grande-conhecimento dos-omens: do-modo com que obram,

e com que se-excitam as paixoens: finalmente uma Filozofia particular,

que descubra a origem de todos os movimentos do-animo: lisam de bons

autores: e perfeita sagacidade: qualidades todas que pouquisimos chegam

a conhecer, quanto mais posuîr.

Julga-se comumente, e nam sem razam, que o conceito que os ouvintes

tem, da-virtude e merecimento do-Pregador; conduz muito, para

se-persuadirem. Quem vai ouvir um omem, de quem é fama comua, ser

muito santo, ou muito douto; vai meio convertido, ou persuadido. Em

todas as Aldeias, á-de aver um barbeiro, que julgue de sermoens: o

qual é estimado, como o omem mais inteligente. Os Aldeioens talvez nam

ouvem, o que diz o Pregador; mas estam atentisimos aos movimentos,

que faz o barbeiro: se este aprova o discurso, o Pregador é famozo.

Asim se-vive nam só nas Aldeias, mas tambem nas Cidades. Sam poucos

os omens capazes, de julgarem por-si: mas vem, ouvem, e julgam, polos

sentidos dos-outros. A prevensam pois com que se-ouve um omem, é

aquela que, entre a maior parte dos-omens, decide do-seu merecimento:

e esta tal opiniam de merecimento, é a que faz receber com agrado, os

discursos: os quais, quando nam acham opozisam no-animo, produzem todo

o seu efeito. E asim deve o Pregador, mostrar-se digno de o-ser: deve

pregar primeiro com as obras, que só entam os seus discursos, seram bem

recebidos, e os seus ouvintes ficarám persuadidos, do-que lhe-propoem.

Mas devem estas virtudes ser verdadeiras, porque sem iso, nada conclûem.

Em 4.ᵒ lugar, deve cuidar muito o Orador, em nam ofender com palavras,

os seus ouvintes. Os Omens nam gostam, de repreensoens publicas:

e parece que com razam. Tudo se-pode persuadir, com bom modo: e

facilmente concordamos no-que nos-dizem, se ouvimos as razoens,

propostas com amizade, e com brandura: e propostas por-um omem, que nam

faz vaidade da-Eloquencia: que nam ostenta triumfos: mas que utilmente

se-serve dela, para nos-inclinar, para onde devemos.

Em quinto lugar, é necesario tambem, mostrar aos ouvintes a utilidade,

daquilo que lhe-propoem: mostrar-se parcial dos-seus intereses,

para os-poder trazer, para a parte contraria. Nós facilmente damos

orelhas àqueles, que intendemos obram, polo noso mesmo motivo; e estam

persuadidos, da-mesma paixam. Por-iso é muitas vezes necesario, nam

condenar tudo quanto eles dizem: louvar alguma parte, para podermos

condenar a outra, com mais eficacia, e efeito. É necesario, saber

dizer mal nas ocazioens, modificando a censura, com alguns elogios.

Observei sempre, que um omem que nega tudo, ou concede tudo, nam

conclûe nada. Devemos dar lugar à prevensam; e algumas vezes dar tempo

à colera: esfogada a qual, entam é que pode ter lugar, a persuazam.

Para isto requer-se doutrina, prudencia, afabilidade, e outras muitas

virtudes.

Deve em 6.ᵒ lugar, saber excitar propriamente, as paixoens; e inspirar

aquelas que sam proprias, para mover o Omem. Sam as paixoens as

que nos-movem: e nam á coiza, que nam posa fazer um omem, se-acazo

se-lhe-excitou, a paixam proporcionada. Nisto pois é que deve estudar o

Orador: inspirando aquelas, que sam necesarias, para abrasar a verdade

que propoem. Para isto é necesario, estudar bem as paixoens do-animo;

porque, sem estas machinas, é certo, que nada obram os Omens. Isto que

até aqui temos dito, abrasa todo o genero de orasoens, e sermoens:

mas especialmente se-devem notar algumas coizas, para a eloquencia

do-pulpito: que compreende duas sortes de orasoens, Panegiricas, e

Morais.

Em primeiro lugar é uma ridicularia e impropriedade, tomar um texto

da-Escritura, para fazer um panegirico Funebre. Nam é o asumto,

explicar a Escritura: mas sim engrandecer, as virtudes todas daquele

omem; paraque todos o-imitem: e consolar o auditorio da-sua perda, com

a vista dos-monumentos, das-suas singulares prerogativas. Onde deve-se

descrever a vida dele; tomando as asoens mais famozas, e deixando

menudencias ridiculas, que nam dam maior ideia, da-dita pesoa. Devem-se

narrar, e engrandecer as asoens: deve-se na exagerasam empregar todo o

artificio da-Retorica; sem degenerar naquelas ridicularias, que todos

os momentos vemos: a Istoria, o exemplo pode dar novo lustre, às mesmas

virtudes. Mas sempre devemos ter diante dos-olhos, que uma coiza é

orasam, em que se-persuade, a execusam da-virtude; e outra panegirico:

naquela tem lugar, os textos da-Escritura; nesta de nenhuma sorte.

Em uma palavra, todo o artificio que se-deve praticar, em todas as

orasoens exornativas, que ou louvam, ou vituperam; consiste em narrar,

e amplificar. Desorteque, para nam fazer istoria, deve nam só narrar;

mas de tal sorte distribuir a narrasam, que despois de narrar um fato,

ou uma serie de fatos, que pertensem ao mesmo ponto; os-amplifique:

e asim mostre o seu juizo, na narrasam; e a sua eloquencia, na

amplificasam[66]. Como todas as orasoens do-_genero demonstrativo_,

tenham estado de comparasam, porque nam se-disputa, _an res sit_, mas

_quanta sit_: deve ser o principal artificio do-Orador, introduzir

a controversia conjetural; com que manifeste, a grandeza da-asám,

considerando miudamente todas as coizas, que a-podem relevar. Despois,

conjeturar das-virtudes pasadas, o que ele faria nestas, ou em outras

circunstancias &c. Podem tambem nestes panegiricos ter lugar, diversos

outros artificios, de controversia Definitiva, Translativa, e Judicial;

praticados polos antigos Retoricos: os quais conduzem muito, para este

mesmo fim.

Quanto à dispozisam dos-argumentos, aconselha Cicero, que primeiro

se-toquem, os bens externos, quero dizer, da-gerasam: despois, os

do-corpo, e os do-animo. Quanto às asoens, que ou se-siga a ordem

dos-tempos, ou se-reduzam a diversos titulos de virtudes[67]. Desta

sorte narrando, e amplificando, se-poderá formar, um panegirico

perfeito.

Pasando daqui aos panegiricos de Santos, em quanto se-puderem evitar

temas, será mais arrezoado: mas quando ou o costume, ou o genio

obrigue, a tomar algumas palavras da-Escritura; nam é necesario,

esquadrinhar profecias, nem procurar de acomodalas literalmente: basta

que as ditas tenham alguma analogia, com a materia de que se-trata.

Pode-se seguir a sentensa da-Escritura, para comesar o sermam; sem

a-introduzir novamente, no-corpo dele. Isto tenho visto fazer, a omens

muito grandes: e parece-me que um tal exemplo, se-deve preferir aos

outros. No-corpo da-obra, deve-se seguir o mesmo estilo, das-outras

orasoens laudatorias; narrar, e amplificar. Mas como a vida dos-Santos,

principalmente antigos, é ja nota a todos; para evitar o fastio a

estes delicados, pode escolher uma, ou duas asoens mais famozas, e

delas formar o seu panegirico. E este metodo é o mais frequente,

quando se-fala em Santos antigos: cujas asoens todas ou sam bem notas,

ou deles somente sabemos, uma ou outra virtude, mas publica a todo o

mundo: ou algum grande privilegio, concedido por-Deus ao dito omem: e

este o-engrandecem, com todo o artificio da-Retorica. Mas nos-modernos,

cuja vida nam é mui notoria; é melhor, seguir a ordem dos-tempos, ou

virtudes, e explicar toda a vida do-Beato. O grande Orador _Paulo

Segneri_, pregando de S.Estevam, engrandece a virtude deste Martir,

com varias considerasoens. 1.ᵃ ser S.Estevam o primeiro, que dèse a

vida pola Fé. 2.ᵃ tela dado por-uma fé, que entam comesava, e era ainda

desconhecida. 3.ᵃ tela dado nam só sem esperansa, de receber aplauzos,

mas com certeza moral, de experimentar oprobrios e derrizoens. 4.ᵃ

ter dado o proprio sangue por-um, de quem nam tinha recebido, tam

privilegiados favores, como recebèram os Apostolos. 5.ᵃ porque uma tal

asám mereceo, comunicar a Paulo, e outros que o perseguiam, a sua mesma

fé. Com este exemplo, se-podem tecer mil panegiricos: advertindo muito,

que estes pontos, nam se-devem provar separadamente, como fazem neste

Reino; porque este metodo destrue, a uniformidade do-sermam, e impede o

exercicio oratorio: mas de um se-deve pasar a outro, de modo tal que,

sem advertir o ouvinte, se-veja introduzido na considerasam, de uma

nova prerogativa; com que o Pregador vai requintando, as virtudes que

narra; e seguidamente o-conduz ao fim, de o-persuadir, que é grande o

sugeito, de que se-trata. E nisto se-compreende tudo, o que pertence

ao genero laudatorio, quero dizer, aos sermoens em que se-louva alguma

pesoa, ou alguma asám de piedade.

A outra especie de sermoens, a que chamam _Morais_, podem em certo modo

pertencer, ao genero demonstrativo: o qual nam só compreende, os que

louvam alguma asám, mas os que vitupèram outras: como sam os morais,

que pintam o _Vicio_ mui feio, para mover os Omens, a que abrasem a

_Virtude_ oposta. Mas como nisto entra a persuazam, e admoestasam,

que sam proprias do-genero deliberativo; podemos chamar-lhe, mixtos

de ambos os generos. Mas chamem-lhe como quizerem, o mesmo artificio,

que asima disemos, se-pratica nos-outros; deve praticar-se nestes,

com sua proporsam: quero dizer, que se-tome um asumto singular, e

proprio do-que se-quer dizer; e que se-busquem argumentos, e se-dilatem

demaneira, que sempre se-vá subindo; para chegar a persuadir-se, o

que se-quer. Isto suposto deve o Pregador, fugir de dois extremos:

um, de querer agradar muito, dizendo galantarias, e enchendo a

orasam de pensamentos sutis, de aplicasoens chimericas, e outras

coizas destas: outro, de nam querer agradar coiza alguma, como fazem

certos misionarios, que propoem as verdades tam nuas e cruas, que

infinitamente dezagradam. Contra os primeiros, ja asima dise alguma

coiza, repreendendo as afetasoens, onde nam entram: sendo certo que

nam entram tais coizas, em materias tam sezudas e graves. Mas porque á

muita gente, que, querendo fugir do-primeiro defeito, caie no-ultimo;

e para cubrir a propria ignorancia, despreza todos os ornamentos

da-Retorica; é necesario mostrar a estes, o seu ingano, com o exemplo

dos-omens doutos, e pios.

O Pregador Evangelico deve instruir, e mover: e nam se-insinuando,

no-animo dos-ouvintes, nam conseguirá o persuadilos. Onde, diz com

muita razam S. Agostinho[68], que o Orador Cristam, deve saber uzar,

dos-livros dos-Etnicos; principalmente dos-Retoricos, para agradar, e

persuadir: o que prova com exemplos, de muitos Padres, que fizeram o

mesmo. Semelhante pensamento expoem S. Jeronimo, escrevendo a Magno

Orador Romano: e S. Gregorio Nazianzeno diz mui claramente[69], que

todos os seus estudos profanos tinha deixado, menos a Retorica: na

qual experimentava todos os dias, infinitas utilidades; e que dela

se-servîra, e servia sempre. S. Bazilio, S. Ambrozio, e outros SS.

mui doutos nas letras profanas, praticáram o mesmo: e nas suas obras

conhecemos nós, como podemos uzar, dos-tais autores. Onde deve o

Pregador, ter sempre na memoria, aquelas palavras de S. Agostinho

no-lugar citado: _Volumus non solum intelligenter, sed libenter

audiri_. e em outra parte: _Nolumus fastidiri etiam quod submisse

dicamus ..... Illa quoque eloquentia generis temperati, apud eloquentem

Ecclesiasticum, nec inornata relinquitur, nec indecenter ornatur._ Deve

alem diso o Pregador, nam só instruir, e agradar; mas principalmente

mover: o que conseguirá por-meio do-genero sublime, e patetico,

quando se-trata de persuadir, as obras boas: porque no-saber mover é

que consiste, o verdadeiro triumfo da-eloquencia. E para fazer isto,

nam se-requerem, como jà dise, sutilezas, mas razoens fortes, e bem

dispostas, e exageradas. &c.

Isto é obrigasam. Quanto ao meio de o-conseguir, deve, despois de

bom fundamento, nas letras umanas, ter grande lisam da-Escritura, e

dos-Padres que apontamos: cujas homilias ensinam, como se-deve pregar,

para tirar fruto. Nam creio, que aja Pregador ou Misionario, que queira

ser mais santo, mais douto, e mas zelante, da-onra de Deus; que os

que apontamos, e outros semelhantes, como S. Joam Crizostomo &c. e

tendo eles praticado isto, com tanto louvor; eles tambem devem ser, os

nosos mestres. Especialmente se-deve ler S. Agostinho, nos-livros de

_Doctrina Christiana_, onde explica bem a materia.

Mas porque a maior parte destes, prezados de Criticos, e Retoricos,

que nam sabem a istoria Ecleziastica, nem Literaria; intenderám, que

estes Padres só cuidavam na virtude, e nam sam bons para se-imitarem,

na eloquencia &c. será necesario explicar-lhe em breve, quem eles

eram. _Bazilio Cesareense_, ou Magno, de quem aqui falamos, estudou

muitos anos, na mais famoza escola, que era Atenas. foi um dos-mais

famozos Filozofos, Gramatico, e Retorico insignisimo. as suas homilias

sam um perfeitisimo modelo de eloquencia: e o grande Photio chega a

dizer, que se-podem igualar, a Demostenes. Leva a palma principalmente,

nos-Panegiricos. _Gregorio Nisseno_ seguio as pasadas, de seu irmam

_Bazilio_. foi publico profesor de Retorica, e insigne Filozofo: e

tam amante das-letras profanas, e especialmente da-Retorica, que S.

Gregorio Nazianzeno, amigo comum de ambos, na carta 43. condena, este

seu nimio estudo. O estilo dele é sublime, e juntamente agradavel.

_S. Gregorio Nazianzeno_ foi condicipulo, e amigo de S. Bazilio. Na

eloquencia querem muitos, que exceda ao mesmo Bazilio. finalmente é

tam sublime na pureza, e elegancia; que o grande Erasmo diz, que nam

se-pode traduzir bem em Latim, por-cauza da-magnificencia &c. _S.

Ambrozio_ era eruditisimo em Grego, e Latim, mais doque comumente

se-nam-cre. o seu estilo é concizo, e agudo, e quazi semelhante ao

de Seneca; aindaque melhor. Nam era grande Retorico: mas é fluido, e

proprio para convencer os erros com doutrina, piedade, e gravidade.

_S. Jeronimo_ todos sabem que era um omem eloquentisimo, em Latim,

e Grego &c. e mui versado nos-livros dos-Etnicos, e na Filozofia

Grega, e Istoria; e sumamente veemente: Onde pode-se aprender nele,

muita coiza boa. _S. Agostinho_ aindaque nem na pureza da-lingua, nem

no-estilo seja igual a Jeronimo, e outros asima; contudo na sutileza,

e no-mesmo tempo na profundidade do-juizo, talvez o-excede. Certamente

que aindaque fose, profesor de Retorica, nam fez grande aproveitamento;

nem chegou à erudisam dos-outros. Mas dele se-pode aprender muito:

principalmente nos-ditos livros de _Doctrina Christiana_, emque

ensina que dotes se-requerem, para interpretar bem as Escrituras;

e fazer as outras obrigasoens de um Ecleziastico. Asimque dele

se-podem aprender, muitos ditames. _S. Joam Crizostomo_ tambem era

doutisimo. Alem da-pureza da-lingua, que parece um verdadeiro Atico,

une trez coizas admiravelmente; que sam a facundia, a erudisam, e a

facilidade: desorteque ninguem tratou as materias, com mais clareza, e

naturalidade. Alem diso é singular nisto, que acomodou a sua doutrina,

à capacidade dos-ouvintes; e por-iso agrada a todos: em modo que para

pregar ao povo, as suas obras ensinam muito. Estes sam os Santos, que

propomos ao estudante; e nam só porque sam santos, e mui versados

nas doutrinas sagradas; mas especialmente porque o-sam nas profanas:

com as quais formáram o bom gosto, e intendèram melhor as sagradas.

Porque muitos nam tem, estes principios de letras umanas, aplicadas

às divinas; por-iso vemos tantos Pregadores, que nam sabem abrir a

boca. E porque nas mesmas letras umanas, muitos as-nam-estudáram como

deviam, nem chegáram a conhecer, qual era o bom gosto, da-Eloquencia;

por-iso tambem V.P. ve todos os dias omens, que nam só nam sabem,

fazer um papel sofrivelmente; mas nem menos conhecer nos-outros, as

delicadezas da-Oratoria. Desorteque se acazo lhe-mostram, uma orasam

bem feita; nam lhe agrada: ou só vam buscar nela, as coizas menos

sofriveis; palavrinhas, e coizas semelhantes: sem olharem para o todo

da-orasam, para a proporsam, e dispozisam das-partes, o modo de dilatar

os argumentos, de aclarar uma verdade; a verosimilidade dos-mesmos

argumentos, e outras particularidades, em que consiste a eloquencia. A

este modo pois de examinar, como eles fazem, chamo eu, julgar com os

cotovelos: e tudo isto nace, de terem estudado mal.

Tambem outra coiza importante, deve advertir o Pregador, que sam as

asoens. parece isto nada, e é uma principal parte na Oratoria. Nisto

pecam bastantemente em Portugal. Vemos Pregadores, que peneiram

no-pulpito, movendo os brasos e maons orizontalmente, com afetasam

vergonhoza. vemos outros, que amasam, e dam estocadas com os brasos,

arregasando as mangas, e fazendo mil coizas e posturas improprias.

Nam pode V.P. crer, quanto isto desfigura o Orador, e esfria o animo

dos-que o-ouvem. Um papel bom, quando é mal reprezentado, nam vale

nada: o que todos os dias experimentamos. Bem nota é a istoria de

Demostenes, o qual tendo ja dezesperado, de poder orar em publico, pola

infelicidade da-sua pronuncia; um Comediante o animou, com a esperansa

de reprezentar bem: e deo-lhe tais lisoens, que foi a cauza principal,

do-grande nome, e aceitasam que ao despois teve.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 19 / 32 段