dos-livros. Estam estes seus autores, tam preocupados polas
esquipasoens, que nam se-contentam, de pór o titulo do-livro claro:
mas ou inventam um estrambotico, ou acrecentam algum epiteto, que
oscurece o negocio. v. g. _Cristais, d’alma, fraze do-corasam: Fenix
renacida: Alivio de tristes, consolasam de queixozos_: e outras coizas
destas, que quando eu as-leio, me-vem à memoria, o _Belorofonte
literario_, _Clypeus Mundi_, e outros titulos ridiculos, que só
estavam bem, na boca de D. Quixote de la Mancha. E isto nam só achará
V. P. entre os Antigos, mas entre estes Modernos. Traduz um Bacharel
os Epigramas do-P. Reis, em verso Portuguez, e dá-lhe este titulo:
_Imagens conceituozas_. Ora, falemos sem paixam, intende V. P. que,
lendo-se estes titulos, poderá um omem advinhar, o que contem estes
livros? Eu nam tenho dificuldade em apostar, que nam: e digo mais,
que este autor nam intendeo, o que quer dizer aquele titulo: pois,
a falar verdade, nam á maior despropozito, que a uniam daquelas
duas palavras, para explicar a dita versam. E ponho agora de parte
a loucura, de traduzir em Portuguez, epigramas destes Latinos, cuja
galantaria nam consiste, em um conceito nobre; mas em palavrinhas,
ou equivocos, que perdem o pico, na tradusam. Mas nam pára nisto o
abuzo: antes chegou a termos, de se-nam-chamarem as coizas, com os seus
nomes, porem com outros muito diferentes. Vi concluzoens de Logica,
que se-intitulavam: _Regnum Algarbiense in quatuor vicos distinctum:
Vicus primus, de Signis: secundus, de Enunciatione_ &c. que se-podia
intender, ser uma carta geografica. Outras de Filozofia intitulavam-se:
_Pigmenta Philosophica_. Finalmente chamavam-lhe como queriam. E
isto é mui frequente, nas escolas da-Companhia: e nam faltou ja quem
me-disèse, que eram titulos ingenhozos. Estes titulos, _Conclusiones_,
_Propositiones_, _Theses_, nam prestam ja para nada: sam coizas
dos-antigos, e nomes mui ordinarios. E que chama V. P. a isto, senam
jurar, de nam dizer as coizas direitas, mas de falar em Persiano, ou
Chinez?
E se V. P. examinar este defeito, achará, que sam poucos os autores,
que nam caiam nele. Outros acrecentam epitetos afetados. v.g. _Regras
da-lingua Portugueza, Espelho da-lingua Latina_: deixando agora
muitos outros, que podia acrecentar. Contudo eu intendo, que era
mais natural, e nobre dizer: _Regras da-Gramatica Portugueza, para
introduzir os rapazes, na Gramatica Latina_: ou ainda mais breve, e
melhor: _Introdusam para a Gramatica Latina_: e falando asim, todos
o-intenderiam. Que fizesem isto nos-dois ultimos seculos, paciencia:
mas agora, que o mundo abrio os olhos, e todos procuram explicar-se
bem; nam se-pode sofrer: e vale o mesmo que mostrar, que nam intendem
em que consiste, a elegancia da-lingua, e a forsa da-eloquencia. Os
_seicentistas_ sam os que caîram, nesta ridicularia: os antigos doutos
todos, a-evitàram: e se algum se-desviou dela, nam teve sequazes,
e deve ser reprovado. Os titulos dos-Antigos, todos sam simplezes:
_Cornelius Celsus, de Re Medica: Caii Julii Cæsaris, de Bello Gallico_
&c. _Ciceronis Orationes, Epistolæ, de Finibus bonorum_ &c. e outros
a estes semelhantes. Estas palavras mostram bem, o de que se-trata:
e aquela nobre simplicidade encanta mais, que todas as afetasoens,
a quem intende, que coiza é Eloquencia. Os Modernos doutos, quando
nam sam anonimos, que querem brincar; servem-se de titulos sezudos,
breves, e claros: e nisto é em que oje se-cuida. Com efeito nos-titulos
se-mostra, o juizo do-autor. Eles sam os que apontam a materia: e devem
nam dizer mentiras, e falar em lingua, que todos intendam.
Pertencem a esta clase, os que nas Concluzoens publicas, poem
por-questam principal uma coiza, que nam significa nada, e nam pertence
à materia. Confeso a V. P. que quando a primeira vez, vi neste Reino
estas concluzoens, fiquei pasmado: e quando vi, que a dita questam nam
se-disputa, nem serve de nada, ainda me-admirei mais. Um destes imprime
umas Concluzoens de Logica: dedica-as a Cristo Crucificado: (porque
estes mosos tem tanta devosam, que em nenhum lugar a-podem encubrir)
e poem por-questam principal: _Se ficou mais gloriozo Cristo na cruz,
que no-Tabor._ Outro faz umas concluzoens de Materia Primeira, e poem
por-questam: _Utrum in Lunæ concavo degant homines?_ Finalmente é bem
raro aquele, que poem questam principal, tirada das-concluzoens: mas ou
da-dedicatoria, ou de outra coiza, que nam significa nada. E estarám
às vezes semanas inteiras, lambicando o ingenho, para excogitar uma
questam sutilisima, que calse bem à dedicatoria. E que chama V. P. a
isto? senam dizer mentiras: servir-se de palavras que nam significam
nada: improprias ao argumento: só para mostrar, que tem ingenho. Saiem
eles logo dizendo, que é um costume antigo: E eu respondo, que é mao
costume: e que se-deve emendar. Na minha Italia poem-se as concluzoens
simplezmente, sem estes rodeios. Se as concluzoens sam dedicadas a
Cardiais, ou Bispos, ou outras pesoas grandes; estes vam asistir
em publico, asentados defronte do-Defendente: o qual porem está na
cadeira: e ali faz ao principio um comprimento Latino, à pesoa a quem
dedica, breve, e claro: e procura falar em lingua, que todos intendam,
e mostrar a sua doutrina sem sutilezas, nem coizas que meresam rizadas.
Nem intenda V. P. que estes defeitos que aqui aponto, sam de um ou dois
autores: nam senhor, sam gerais. Leia V.P. estas obras Portuguezas
modernas, principalmente orasoens Academicas, em que fazem ostentasam,
de toda a erudisam e advertencia; e confirmará o que digo. * * * Entre
os modernos, o Conde da-Ericeira tem muito disto, como ja disemos.
Comesa as suas coizas com uns rodeios, e umas oscuridades, que sem
comentos nam se-intendem. Daqui pasa a acarretar, tudo quanto leo:
e comumente dezempara o asumto, para dizer o que lhe-ocorre. v.g.
No-elogio Funebre de Francisco Dionizio de Almeida diz, que tomava
por-empenho, descrever o elogio de Tito Pomponio Atico, que morrèra
no-dito dia. Mas sem falar em Atico, mete outras noticias estrangeiras,
e diz mui pouco do-defunto. Promete encarecer a perda do-defunto: mas
nada disto faz. O mesmo Conde no-elogio do-Papa Inocencio XIII. declara
logo, que nam seguirá os preceitos da-Retorica, mas da-Istoria: e com
efeito faz um catalogo difuzisimo e insoportavel, da-gerasam do-dito
Papa: e deste nam diz nada. Devendo porem saber, que a obrigasam sua
era, exaltar as virtudes do-seu eroe, e nam as dos-pasados. Pois
asimcomo nenhuma molher feisima merece ser louvada, porque é filha,
de uma molher mui bonita: antes polo contrario, a fermozura da-maen
dá ocaziam, paraque nos-admiremos da-filha: asim tambem as virtudes
dos-pasados, nam servem de panegirico aos prezentes: é necesario
mostrar, que estes excedem os seus maiores, nas mesmas asoens. Do-que
fica claro, que o dito Conde sabia pouco, elogiar. E nam se podia
esperar menos, de um omem que protesta, de nam seguir a Retorica. E
quantos parentes, quero dizer, apaixonados, nam vemos deste fidalgo!
Mas sem nomiar mais ninguem, provarei tudo com outra orasam, feita na
morte, de D. Manoel Caietano de Souza: da-qual porem nam sei quem é
o autor, nem onde foi impresa; porque uma que achei em certa parte, e
ainda conservo, nam tem as primeiras folhas, e comesa na folha 7. Mas
seja quem for, é moderno: vistoque o Souza morreo á pouco tempo: e se
V. P. a-tem lido, achará uma grande prova do-que digo.
Este omem faz uma orasam, que é um groso volume. Primeiro defeito
do-panegirico. Confeso, que asisti a muitas e diferentes exequias,
de Pontifices, Imperadores, Reis, Principes soberanos, Cardiais, e
Senhores grandes: e nunca vi alguma, que chegáse à metade desta. Mas
isto é nada. tudo o que ele diz do-tal Souza, podia-se reduzir à
quarta parte, e ainda serîa longa. Consiste pois este grande volume,
emque o tal Panegirista, para mostrar que era erudito, verteo nela,
quanta erudisam tinha. Explicarmeei se diser, que ali se-acha o
_Teatro de los Dioses_, _e Theatrum Vitæ Humanæ_, em corpo e alma.
Nam diz coiza alguma, para que nam traga um bocado de antiguidade,
comumente arrastada. v.g. Para dizer, que o Souza unia a piedade com
a ciencia[52]; introduz a parentezis de uma pagina, em que entra
Alexandre, Cezar, Cipiam &c. Para dizer, que o dito nam quizera mostrar
a sua ciencia, senam em Lisboa[53]; nomeia Universidades sem tom nem
som: saltando de Bolonha aos Paizes Baixos: de Pariz outra vez a Padua:
de Espanha a Germania &c. e a cada paso mete fabulas, sem pés nem
cabesa. E este justamente é o defeito, que eu asima condenava. Sobre
o que me-lembro das-grasas, de um omem mui douto, que foi Monsenhor
Sergardi: Este quando se-achava em alguma parte, em que algum destes,
que tinham lido alguma fabula, ou istoria, a-queriam introduzir ou bem
ou mal; dizia-lhe galantemente: _Diga, meu senhor, diga tudo o que tem
estudado, esta noite._
Nam falo ja em alguns erros de istoria: como dizer, Que a barca
de S. Pedro navegou polo Tibre: Que por ele tambem intráram, as
Troianas galés de Eneas: e outros semelhantes[54]. Um bocadinho
que estudáse mais de Istoria, e Geografia, lhe-mostraria, como as
coizas ou foram, ou nam foram: e lhe-ensinaria, que o lugar em que
dezembarcou Eneas, nam foi o Tibre, polo qual nunca navegou. Chama aos
Romanos, decendentes de Eneas, e Ascanio. como se Eneas fose o Noé
dos-Lavinios, Albanos, e Romanos! Mas a isto chamo eu venialidades: o
que nam poso sofrer, sam outras falsidades, que diz naquele panegirico;
principalmente quando quer saîr, fóra de Portugal. Neste cazo o omem
transforma tudo. Um comprimento feito a D. Manoel Caietano, uma
carta escrita mais cortezmente, sam autenticas provas, da-sua imensa
literatura. Que pouco informado é, da-politica dos-outros Reinos, este
Panegirista! e quam pouco sabe distinguir, o encarecer uma coiza, e
o inventala! Pode o Retorico dilatar, e exagerar muito um argumento:
mas sempre dentro dos-limites da-verosimilidade. Ora é uma parvoice
manifesta dizer, Que o Souza foi a Roma, _para espantar todo o orbe
literario: Que em todo o mundo se-ouviam, os brados da-sua fama: Que
a Europa suspensa e admirada confesou, que excedia a sua mesma fama
&c._[55]: _Que a Europa confesou, que a sua erudisam era maior, que
todos os encarecimentos, com que o-celebravam no-mundo, as mesmas cem
bocas da-Fama_[56]. Isto sam mentiras mui manifestas: e a isto chama-se
satirizar, e nam, elogiar. Nam pára aqui a galhofa: diz, Que nam
se-sabe em Portugal, que os Reinos estrangeiros desem, nestes ultimos
tempos, um omem, que se-posa comparar ao Souza[57]. Que o-nam-saiba
ele, concedo: vistoque pola sua orasam, mostra saber muui pouco: mas
que o-ignorem outros Portuguezes, nego redondamente. Conheso eu omens,
que sabem distinguir muito bem D. Manoel Caietano, de infinitos omens,
muito mais doutos que ele.
Eu creio que D. Manoel Caietano foi douto, e soube mais, doque o comum
dos-Portuguezes: aindaque eu nam poso julgar por-experiencia, porque
nunca o-tratei: mas polas suas obras o-discorro: mas nam sam elas
tais, que ponham um omem, na primeira esfera dos-doutos. E sei eu
muito bem, que a sua _Expeditio Hispanica_, é mui pouco estimada em
muitas partes: e que nam pode obrigar, os omens mais doutos, e de uma
critica purgada; a que mudasem de opiniam, sobre a vinda de Santiago:
e eu sou um daqueles, que ainda nam se pode persuadir, das-suas
razoens. Mas querèlo comparar, com outros grandes omens da-Europa, é
mostrar, que nam intende este oficio. Que semelhansa tem o P. Souza,
com Petavio, Sirmondo, Launoi, Arnaud d’Andilly, Valois, Morin, Huet,
Bossuet, Tomassin, Noris, Calmet, Mabillon, e outros muitos Catolicos?
ou com algum dos-Erejes, como Grotio, Scaligero, Usserio, Selden,
J. Gerardo Vossio, Daniel Heinsio, Dallé, Samuel Petit, Saumaise,
Bochart, Lightfoot, Hottinger, Joam Gronovio, Luiz de Dieu, e outros
muitos que deixo? os quais todos vivèram no-seculo pasado, e muitos
deles alcansáram D. Manoel Caietano, e morrèram neste seculo? Que
semelhansa, torno adizer, em vastidam de noticias, em antiguidades,
linguas orientais, Teologia &c.? tanta como o dia com a noite. Estes
é que foram conhecidos, em todo o mundo douto, e seram eternamente
venerados. Bem mostra este Panegirista, que nam sabe que coiza é
erudisam, quando fala desta sorte. Nam falo na Filozofia, pois todos
sabem, que omens florecèram, no-fim do-seculo pasado, e no-prezente:
dos-quais a D. Manoel Caietano, (que dizem era Peripatetico, ou
aindaque o-nam-fose) á bem legoas de distancia. Em tudo se-mostra o
Panegirista, pouco informado do-mundo: e, polo que vejo, cuido que era
algum pobre Religiozo, que nunca saîra de Portugal; e asim vivia mui
satisfeito da-sua terra: pois chega a dizer, que as Universidades de
Portugal, até no-edificio, excedem muito, as dos-outros Reinos[58].
No-que mostra intender tanto de Architetura, como de erudisam. Mui
diferentemente me-falou um Portuguez, que estivera em Roma, e tinha
outros conhecimentos: o qual confesou limpamente, que em materia de
bom gosto, valia mais uma só janela da-Sapiencia, ou Universidade
Romana, ou do-Colegio Romano dos-Jezuitas, que todas as Universidades,
e Colegios de Portugal: e nam era encarecida a propozisam. Este é o
motivo, meu amigo e senhor, porque os Estrangeiros nam crem, em nenhum
destes panegiricos: porque dizem, que os Portuguezes, namobstanteque
comumente sejam invejozos, e digam mal uns dos-outros; quando
porem tomam o empenho de elogiar, mentem dezencaixadamente, e tudo
transformam: e até dizem mal dos-outros todos, para elogiar o seu eroe.
Se louvam um Santo, nam só nam á Santo igual ao seu; mas quazi chegam a
dizer mal, dos-outros todos. O mesmo faz o noso Panegirista.
Que um omem fasa uma orasam mui mal: que se-explique infelizmente:
que introduza na-orasam, quantas coizas leo: que ignore o estilo de
elogiar, e amplificar os argumentos: que seja languido e sem grasa na
compozisam: que nam saiba, manejar a sua lingua: que ignore a colocasam
das-palavras, e armonia dos-periodos: como faz este Panegirista; nam
serîa grande coiza: o que nam poso sofrer é, que tenha prezumsam
desmedida, e que diga mal dos-outros, e d’aquilo que nam intende. O
que se-faz nestas orasoens, e com especialidade o autor desta. Para
dizer, que o Souza estudou em Portugal, e nam fóra dele; emprega quatro
boas paginas[59], dizendo mal, dos-que vam estudar fóra de Portugal:
porquanto cá em Portugal, segundo ele diz, tudo se-acha, e muito
melhor, que nos-outros Reinos. Os mesmos livros: omens mais doutos:
Universidades melhores, e mais florentes da-Europa: Portugal é o Reino
da-Sabedoria; do-qual os Estrangeiros podiam participar com mais razam,
doque os Portuguezes deles: e outras semelhantes. E que diz V. P. a
esta propozisam? á coiza mais estupida! E concedem-se licensas, a
semelhantes escritos! Senhor Panegirista, responderia eu, nam basta ter
os livros, é necesario intendèlos: e iso é o que os praguentos dizem,
que muitos cá nam sabem. Todos os Latinos nas escolas lem Cicero; e
poucos o-intendem; e muito menos o-imitam. Mas, suponhamos que o-sabem
alguns; Porventura, sabem-no ou ensinam-no nesas Universidades? nam
senhor, que eu prezenciei tudo o contrario. Alem diso, aqui nam á
exercicio de linguas, Filozofia boa, Matematicas, Teologias Pozitivas
&c. Istoria, Medicina verdadeira, e outras faculdades: se me-nacer
alguma duvida, a quem o-ei-de proguntar? Alem diso, esa falta de
exercicio é cauza, de que se-ignorem muitos livros: pois é certo, que
em Portugal, nam se-conhecem livros bons, que sam bem vulgares em
outros Reinos: e o Panegirista é um deles; que por-nam conhecer os
autores, diz muita falsidade, no-seu Panegirico. Despois que se-fundou
a Academia da-Istoria, quantos livros nam se-conhecem, que antigamente
se-ignoravam? Concedo, que se em Portugal se-introduzisem outros
estudos, com o andar do-tempo fariam o mesmo, que nos-outros paîzes:
mas como ainda estamos mui longe d’esa epoca, nam é maravilha, que
muitos vam estudar fóra, o que cá se-nam-sabe. Prouvera a Deus, que
fosem muitos mais: e que estudasem bem: e viesem introduzir ese bom
gosto, em Portugal.
Quanto ao que diz o Panegirista, que os Estrangeiros podiam aprender,
dos-Portuguezes; tem muita razam: mas deixo a V. P. o-determinar, se
á-de ser em armas, ou letras. Se ele soubèse o conceito, que aqueles
tem dos-Portuguezes, ficaria mui admirado. E para nam buscar exemplos
remotos, direi a V.P. que eu falei em certa Cidade, com um Religiozo,
que viera instruir em Rilhafoles, os ordinandos: e me-dise, que
ficára pasmado, de ver a ignorancia destes paîzes, principalmente
dos-Clerigos: muitos dos-quais, nam obstante terem fama de doutos,
necesitavam aprender, os primeiros rudimentos da-Fé. Este falava
por-experiencia; pois estivera dois anos em Portugal: era alemdiso um
omem de virtude, e mui moderado no-falar. Veja V. P. que conceito eles
tem disto. Pode-se notar no-mesmo Panegirista, a incoerencia: Quando
lhe-tem conta, para avultar a ciencia do-Souza; Roma é uma Cidade cheia
de omens doutos: a Arcadia é uma coiza famozisima: é um congreso de
Virgilios, e Oracios. Quando nam lhe-tem conta, os Estrangeiros nam
sabem nada: e tudo podem aprender, dos-Portuguezes: quem intenderá
tal omem! Em uma palavra, este omem cuido nam fez coiza pior, na sua
vida. Todas as comparasoens que faz, sam arrastadas, e inverosimeis:
as exclamasoens, que frequentemente introduz, fóra do-propozito, e
do-lugar: as parentezis longuisimas, superfluas, e insoportaveis: a
fraze afetada, mas sem elevasam ou nobreza; repetindo em cada regra a
_Ilustrisima_, a um Religiozo, e a um morto. Finalmente nam sabe dar
forsa, aos argumentos que traz, dilatando-os com artificio retorico.
Mas nam quero falar mais nesta materia, porque parece que faso grande
cazo, de uma coiza que o-nam-merece. é fazer grande favor ao autor,
criticar-lhe os defeitos, que sam infinitos. Antes devo pedir a V. P.
perdam, de o-ter demorado, com semelhante orasam: o que fiz por-duas
razoens: Primeira, paraque V. P. vise, a infinita distancia que poem,
entre sermam funebre na igreja, e orasam funebre na academia: como
se os preceitos da-Retorica fosem diferentes! Segunda, paraque vise
pintados em uma só orasam, todos os defeitos que lhe-tenho apontado,
reinarem nestes paîzes: pois sendo este um dos-modernos, caie em todos
eles, nam dizendo o que deve; e dizendo o que nam deve. Os quais sam
mui consideraveis defeitos, de Retorica.
O que até aqui tenho exposto a V. P. bastantemente mostra, o que eu
tinha proposto: e dá uma verdadeira ideia, do-que é Retorica, em que
se-deve uzar, e como se-deve uzar. E com efeito menos ainda basta:
poisque tendo V. P. grande compreensam de materias, e mais que tudo,
formando juizo exato das-coizas; nam lhe-podem ser ocultas, estas que
aponto; e nam pode deixar de falar, com belisima Retorica. Mas á juizos
tam sepultados na materia, que nam podem considerar outras coizas,
senam aquelas que uma vez vîram: nem receberám a verdade mais clara, e
demonstrada, se nam é proposta com aqueles termos, e por-aquele metodo,
que uma vez ouvîram. Isto me-obriga a fazer alguma reflexam, sobre as
partes da-Retorica, ou sobre estas Retoricas uzuais, e principalmente
sobre o estilo do-pulpito: vistoque nestes paîzes, para isto inclinam
mais: e nisto é que necesitam, de melhor diresam; para os-livrar
daqueles ridiculos prejuizos, de que estam cheios.
_METODO DE PERSUADIR._
Manifesta loucura é persuadir-se, que é necesario saber tudo, o que
dizem as Retoricas, para ser Orador[60]. Ja adverti a V. P. que
estas Retoricas comuas, eram pola maior parte uma lista de nomes,
e divizoens, impertinentes de se-aprenderem, e dificultozas para
se-conservarem: mas tudo isto podia suceder, aindaque a materia fose
boa. Porem eu nam paro aqui, mas digo, que nam só polo modo com que
o-dizem, mas iso mesmo que dizem, tem pouquisima ou nenhuma utilidade;
e nada conduz para o fim, de falar bem, e persuadir. E digo da-maior
parte delas, o que lá dise Cicero de outra Retorica, que escrevèra
Cleantes, _Que para nam saber falar, nam avia coisa melhor_[61]. Sam
sinco as partes da-Retorica: Procurar meios de persuadir: dispolos:
falálos bem: estudálos de memoria: e pronunciálos com as asoens que
se-devem. A isto ajuntam, os trez meios de persuadir, que sam as
provas, os costumes, e as paixoens dos-ouvintes. Dizem alem diso,
que qualquer discurso oratorio deve ter exordio: despois, narrar o
fato: despois proválo, e responder aos motivos contrarios: finalmente
perorasam, na qual se-faz um epilogo dos-motivos, e se-excita
novamente, o animo dos-ouvintes. Tudo isto é verdade: mas se pararmos
aqui, pouco saberemos de Retorica. Eu direi alguma coiza da-_Invensam_:
sobre as outras, reporto-me a eses livros comuns; e só tocarei, o que
me-for necesario.
Para buscar argumentos ou provas, que persuadam, o que pertende o
Orador; propoem os Retoricos uma lista de nomes, aque chamam, _lugares
comuns_: os quais ensinam, considerar o argumento de tantas partes, e
voltálo de tantas maneiras, que seja facil, dizer muita coiza do-tal
sugeito. Confeso, que estas considerasoens genericas, dam materia
para falar muito; e em tal ou qual cazo, podem nam ser inutis: mas,
seguindo o parecer dos-omens de exata critica, constantemente digo,
que estes lugares nada menos ensinam, que a falar bem: suministram
ideias gerais, palavras sem sustancia, narizes de cera, que se-aplicam
a tudo, e nam persuadem nada em particular. Um destes que cre muito
nos-_Topicos_, falará uma ora inteira, sem dizer coiza alguma com
propozito: justamente como os Logicos da-Escola. Estes escrevem
longuisimos tratados de _Syllogismo_, dam mil regras, para discorrer
com propriedade, e sem falencia; e para provar tudo o que ocorrer. A
ouvilos na cadeira, julgará um omem, que sam letrados universais: mas
introduza-os V. P. em um discurso particular, e verá, que tudo aquilo
é palhada: concluirám um discurso pior, doque nam fará, um oficial
ignorante. Muitas vezes nam sabem nem comesálo, nem acabálo: e se
lhe-metem a pena na mam, é lastima ver, como escrevem as suas razoens.
O mesmo Cicero, que tam apaixonado era pola Retorica, e seus preceitos,
que escreveo um livro dos-Topicos; contudo reconhece, que é necesario
muito juizo, para se-servir destes lugares, em modo que nam digamos
parvoices[62].
Quem pois reflete nisto, intende o conceito que se-deve fazer, de
semelhantes _lugares_. Se nam fose permetido falar, senam naquilo
que se-sabe, a maior parte destes, que fazem profisam de falar em
publico, ficaria calada. Ninguem é capaz de discorrer em uma materia;
se é que a-nam-tem estudado fundamentalmente: e nunca poderá deduzir,
boas consequencias, se acazo nam posûe bem, os principios. Pode um
Fizico estar cheio de silogismos, até os olhos; ter lido quantas
ridicularias se-tem dito, sobre os apetites da-Materia; se acazo nam
tem bem examinado, as experiencias: nam poderá explicar, qualquer
uzual fenomeno. Pode um Teologo saber, a quinta esencia da-_fórma
silogistica_; mas se nam sabe bem, em que textos se-fundam os Dogmas,
nam será Teologo senam de nome.
Isto suposto, a primeira e importantisima regra da-Invensam é,
intender bem a materia, que se-trata[63]: porque só asim facilmente
se-incontram, os argumentos proporcionados ao sugeito: e tam facilmente
se-incontram, que naturalmente se-aprezentam, caiem da-boca, e da-pena.
Este é o grande defeito, destes Pregadores Portuguezes. Propoem-lhe
uma materia, que eles ignoram: e em lugar de estudarem o que devem,
formam logo ideia, do-que querem dizer; e despois procuram os textos,
que fasam ao intento: e se os-nam-acham, violentamente os-arrastam:
porque finalmente, seja como for, deve-se provar, o que se-propoz.
Ora a Escritura nem sempre dá textos literais, para confirmar todas
as chimeras, que os Pregadores propoem: e asim é necesario recorrer,
a algum destes comentadores Peripateticos: muitos dos-quais adotam
nos-comentarios, as sutilezas: e, se falta este, nunca falta um
destes Asceticos, que provam tudo o que querem: e temos o sermam
feito. Se o Pregador tivese estudado a materia, conheceria, que
verdades importantes, como sam as da-religiam, nam se-podem provar com
sutilezas, mas com razoens solidas: razoens solidas nam se-podem achar,
para provar conceitos ridiculos: de que vem, que necesariamente um omem
que sabe a materia, deve desprezar estas puerilidades; e considerar
todos os sermonarios, talhados por esta medida, como livros que nam
se-devem ler.