como as coizas grandes, devem explicar-se magnificamente; asim
o que é umilde, deve-se dizer com estilo mui simplez, e modo d’
expremir mui natural. As expresoens do-estilo simplez sam tiradas,
dos-modos mais comuns de falar a lingua: e isto nam se-pode fazer,
sem perfeito conhecimento, da-dita lingua. Esta é, segundo os mestres
d’arte, a grande dificuldade, do-estilo simplez. Facil coiza é a
um omem, de alguma literatura; ornar o discurso com figuras: antes
todos propendemos para iso: nam só porque o discurso s’ encurta; mas
porque talvez nos-explicamos melhor, com uma figura, doque com muitas
palavras. Polo contrario, para nos-explicarmos naturalmente e sem
figura, é necesario buscar o termo proprio, que exprima o que se-quer:
o qual nem sempre se-acha, ou ao menos, nam sem dificuldade: e sempre
se-quer perfeita inteligencia da-lingua, para o-executar. Alem disto,
as Figuras encantam o leitor, e impedem-lhe penetrar e descobrir os
vicios, que se-cobrem, com tam ricos vestidos. Nam asim no-estilo
simplez, o qual, como nam faz pompa de ornamentos, deixa considerar
miudamente, todos os pensamentos do-escritor. Por-iso se-diz, que o
estilo simplez é, o _lapis Lydius_ do-Juizo.
Isto que digo, das-expresoens comuas e naturais, deve-se intender com
proporsam. Nam quero dizer, que um omem civil fale, como a plebe; mas
que fale naturalmente. A materia do-estilo umilde, nam pede elevasam
de figuras &c. mas nem por-iso se-deve expremir, com aquelas toscas
palavras, de que uza o povo ignorante. Nam é o mesmo estilo baixo,
que estilo simplez: o estilo baixo, sam modos de falar dos-ignorantes
e pouco cultos: o estilo simplez, é modo de falar natural e sem
ornamentos; mas com palavras proprias, e puras. Pode um pensamento,
ter estilo sublime, e nam ser pensamento sublime: e pode achar-se um
pensamento sublime, com estilo simplez. Explico-me. Para ser sublime
o estilo, basta que eu vista um pensamento, e o-orne com figuras
proprias, aindaque o pensamento nada tenha, de sublime. Polo contrario,
chamamos simplezmente sublime, (com os Retoricos) àquela beleza e
galantaria de um pensamento, que agrada e eleva o leitor, aindaque
seja proferida, com as mais simplezes palavras. Desorteque o _sublime_
pode-se achar, em um só pensamento, ou figura &c. Importa muito
intender, e distinguir isto, para nam ser enfandonho nas conversasoens,
e nas obras que pedem estilo umilde. V. P. tem um bom exemplo de
estilo simplez, nas Cartas familiares de Cicero, principalmente
nas que escreve aos de sua caza: nas Eglogas &c. de Virgilio: nas
Fabulas de Fedro: Cartas de Plinio a algumas pesoas: e outras obras
da-Antiguidade. Em Portuguez as Cartas do-P. Vieira, tirando algumas
que degeneram em sermam &c. podem-se ler, para o estilo simplez. E
estas sam as melhoras obras, do-dito Religiozo.
_MEDIOCRE._
Do-que a V. P. tenho dito fica claro, qual é o estilo _Mediocre_:
aquele digo, que partecipa de um e outro estilo. Tambem este estilo
nam é pouco dificultozo: porque é necesario, conservar uma mediania,
que nam degenere em viciozos extremos: e sam poucos aqueles, que
conhecem as coizas, na sua justa proporsam, e formam aquela ideia, que
merecem. Ja dise, que a materia é a que determina, qual á-de ser o
estilo: e asim uma materia mediocre, pede um estilo proporcionado. A
maior parte das-coizas de que falamos, sam mediocres: e daqui vem, que
neste estilo de falar, deve-se empregar um omem, que quer falar bem;
e conseguir fama, de omem eloquente. Um omem de juizo, que conhece as
coizas como sam, fórma delas ideias justas, e verdadeiras; e as-explica
com as palavras, que sam mais proprias. D’ onde vem, que o estilo
mediocre compete propriamente, às Ciencias todas, à Istoria, e outras
coizas d’este genero: nas-quais se-reprezentam coizas nam vis, mas
mediocres; porem reprezentam-se, damesma sorte que sam, e com palavras
proprias. Tambem as cartas de negocios graves, ou eruditas, e aquelas
de ceremonia a pesoas grandes &c. costumam ser neste estilo. É porem
de advertir, que o estilo mediocre, admite todos os ornamentos d’arte:
beleza de figuras, metaforas, pensamentos finos, belas discrisoens,
armonia do-numero, e da-cadencia: Contudo nam tem a vivacidade, e
grandeza do-sublime. Participa de um e outro, sem se-asemelhar a
nenhum. tem mais forsa e abundancia que o simplez; menos elevasam que
o sublime: e prosegue com paso igual, e mui brandamente. Alegam-se
por-bons exemplos neste genero, as Georgicas de Virgilio: a maior parte
das-cartas de Cicero a Pomponio Atico: &c. os Comentarios de Cezar &c.
aindaque estes, por-nam terem ornamentos, quazi pertencem ao simplez:
as vidas de Cornelio Nepote. &c.
Quem bem intende isto, fica perfeitamente instruido do-modo, com
que deve aplicar-se, a diferentes materias. O estilo da-Istoria
pede clareza, e brevidade. aquela, para explicar todos os acidentes
da-materia: esta, paraque, sem longas frazes, que suspendem a atensam,
descreva as coizas que deve, com um fio de discurso continuado, e sem
ser interrompido com aqueles movimentos, que constituem o Orador[50].
Porque neste cazo nam pode conservar, uma certa inalterabilidade,
e quietasam de animo, que é tam necesaria, para nam inclinar mais
para uma parte, que para outra; e dizer as coizas com verdade, e sem
exagerasam. Pode porem o Istorico, mostrar a sua eloquencia, no-referir
as arengas, que s’ introduzem na Istoria; no-pintar as paixoens &c. mas
tudo isto com advertencia, e sem perder de vista a verdade. É pois a
Istoria aquela materia na qual, despois da-Oratoria, mais se mostra, a
eloquencia vigoroza.
Em segundo lugar fica claro, qual deve ser o estilo _Dogmatico_ ou
_Didascalico_, a que por-outro nome chamamos, estilo _Cientifico_.
Aqui nam se-trata de persuadir, omens apaixonados, excitando as
armas, comque a alma se-move para esta, ou aquela parte. O primeiro
_postulado_ que se-poem, no-principio dos-Tratados modernos é, que o
leitor se-dispa, de todo o genero de prejuizos, e paixoens: e que
examine as razoens, como merecem. Onde supondo-se um leitor docil,
nam é necesario, seguir o estilo veemente[51]. Mas nisto á mais, e
menos, segundo as Ciencias. A Geometria, que explica verdades claras,
e que nam interesam ninguem, deve-se tratar placidisimamente, com
aquelas palavras, que sam precizamente necesarias, para a explicasam
dos-termos &c. A Logica, Fizica, Metafizica pedem ja um estilo mais
ornado: ja se-disputa com omens, que tem suas prevensoens: as verdades
nam sam tam claras: é permetido servir-se de um estilo mais nervozo.
Principalmente na era prezente, em que a Filozofia, despida daquela
antiga e ridicula severidade, trata-se oje em todas as linguas, e com
vocabulos proprios, e se-familiariza com todos. Onde pode tratar-se
em estilo familiar, por-carta, em dialogo, ou de outra maneira; emque
pode ter lugar, um genero de eloquencia mais ornada. A Teologia pode
ser tratada, com estilo mais elevado. Somos interesados em defender,
a verdade da-religiam, contra os Ateos, e Infieîs, e Erejes. Este
interese nam pode menos, que acender em nós, alguma paixam bem devida.
Onde nam é maravilha, se algumas vezes nos-transportamos, falando de
Teologia, e seguimos um estilo mais elevado e viril. Nam digo, que
tudo se aja de tratar, em estilo oratorio, ou que se-devem defender as
questoens, com ironias &c. e nam com razoens solidas: serîa isto um
erro consideravel, e mui condenavel: digo somente, que ja é permetido,
servir-se de alguma figura, e uzar de estilo mais elegante. Os antigos
Padres uzáram deste estilo, quem mais, e quem menos. E oje todos os
omens de melhor doutrina, nam desprezando a fórma da-Escola, uzam porem
dela com tanta moderasam, que comumente expoem as suas sentensas, sem
aquele estilo das-escolas, que até aqui reinava. O que faz que seja
mais bela a Teologia: mais concludente o discurso: e poem à vista, e na
sua luz todas as razoens: porque só asim as-intendem todos, e se-evitam
palavras, que nada significam nas escolas. Quanto às outras Ciencias
profanas, pola maior parte tratam-se mais placidamente, segundo a
necesidade da-materia.
Em terceiro lugar fica claro, qual é o estilo dos-Poetas. Querem os
Poetas, (diz um Retorico) agradar, e elevar o animo dos-ouvintes, com
coizas extraordinarias e maravilhozas: e nam podendo chegar ao fim que
se-propoem, senam sustentando a sublimidade das-coizas que dizem, com
o sublime das-palavras que uzam; daqui vem, que nam se-sugeitam às
leis do-uzo comum; mas formam, para se-explicar, um idioma novo. Tudo
neles é grande e extraordinario; imaginasam, conceito, e palavras.
Daqui nace, que as figuras devem ser, as suas mimozas, Alem diso,
como as verdades abstratas nam agradam, porem sim as coizas, que
entram polos sentidos; fica claro, que querendo o Poeta agradar, deve
procurar metaforas, com que reprezente as coizas sensiveis, e quazi
palpaveis: porque asim é que imprimem, uma particular comosam. Este
é o principio, que obrigou os antigos Poetas, a romperem com certas
ideias, que nos-parecem chimeras. Cada Virtude, e cada Paixam na
Poezia, é uma Deuza: porque a descrisam destas Deuzas tam medonhas, ou
tam engrasadas, faz outra impresam no-animo, doque a simplez palavra de
Virtude, ou Vicio.
_Est Deus in nobis, agitante calescimus illo._
Quando uma vez s’esquenta, a imaginasam do-Poeta, nam fala como os
demais omens: e asim nam é maravilha, que encha o discurso de Figuras,
e ingenhe tantas fabulas e fingimentos. Isto é tam proprio dos-Poetas,
que até os sagrados Poetas, para se-explicarem, servem-se de todo
o genero de metaforas. Isto porem deve intender-se dos-poemas, que
tem por-objeto, materia grande: os divertimentos dos-pastores, que
compoem as Eglogas; as istorias que dam materia às Comedias; e mil
outras poezias, que se-podem considerar com menos paixam, devem ser
tratadas, por-outro estilo. A regra geral, que ao principio demos, é
infalivel, e consiste nisto: A qualidade da-materia deve determinar o
estilo, aindaque posa ser mais ou menos ornado: o que s’intenda tanto
da-Proza, como do-Verso. Isto quanto ao estilo. quanto pois às regras
do-Poema, nam é aqui, o proprio lugar, de as-explicar: porque eu nam
faso tratado, mas reflexoens.
Dirmeám alguns, que estas advertencias conduzem, para fazer uma obra
solida, mas nam para a-fazer bela, e ornada: que é o principal emprego
da-Retorica. E com efeito esta é a costumada cantilena, destes vulgares
Oradores, que ignoram as belezas da-arte. Em algumas partes, temos
notado este defeito: e aqui, para o-confutar melhor, faremos outra
advertencia. Digo pois, que este ingano comum, fica suficientemente
asima convencido: sendo certo, que nam se-requerem outras regras, para
falar com elegancia, e ornato, doque as que asima démos, para falar com
propriedade. A mesmisima coiza se-pode expremir, com diversos nomes,
segundo o modo com que se-considera. A maior beleza e ornamento de uma
compozisam, aquilo que eleva um leitor racionavel e judiciozo, (que
sam os que podem fazer lei) é a exasam, e propriedade com que se-acha
disposta, e executada uma-obra. Quem nam intende este ponto, é noviso
na Retorica. Mas, declarando isto melhor aos principiantes:
Tem a Retorica ornamentos naturais, e artificiais: aqueles entram
necesariamente em qualquer obra: estes com parcimonia. O primeiro
ornamento é a verdade, ou semelhansa das-palavras com as ideias, e
objeto delas. A mais medonha cobra pintada, agrada: as coizas mais
ordinarias, quando sam bem explicadas, nam podem dezagradar. Deve
o discurso ter primeiramente, clareza nas expresoens, para poder
insinuar-se no-animo; armonia, e facil pronuncia. Estes sam os
naturais. Entre os artificiais, poem-se as Figuras todas, os Tropos,
as magnificas expresoens, as aluzoens, alguma ingenhoza aplicasam &c.
as quais sam às vezes tambem recebidas, como a mesma verdade: e elevam
a alma com o encanto oculto da-grandeza, para a qual ela tem propensam
natural. Nestes é em que se-deve empregar o juizo, distribuindo-os
com muita parcimonia, e boa eleisam. Nenhuma coiza orna, que nam seja
racionavel: quando os ornamentos sam repetidos, ou estam muito juntos,
sam importunos, e dezagradam muito: confundem a vista, e cobrem toda a
beleza do-sugeito. Ja nisto falámos larguisimamente. Finalmente quando
o ornamento, nam se-funda em verdade, aindaque um pouco encarecida; é
uma afetasam ridicula, que mostra nacer, de um ingenho mui trivial. Os
ignorantes sam, os que procuram com cuidado, estas ridicularias, para
aquistar fama de doutos por-esta via, visto que a-nam-podem por-outra.
Outro defeito ainda acho, em que comumente caiem, e vem aser, encher
o discurso de alegasoens importunas, de pasos Latinos, de versinhos,
e outras coizas que incontram. Podem as aluzoens, alegasoens &c. ter
lugar, quando á necesidade de ouvir as palavras, na mesma lingua
original; ou para mostrar a sinceridade, de quem as-cita; ou a
elegancia, de quem as-escreveo: o que raras vezes sucede: tudo o mais é
tempo perdido, e trabalho mui escuzado. Este dezejo de parecer erudito,
com a repetisam de mil pasos de autores, tem alucinado infinita
gente. Conheci um, que nam abria a boca, que nam repetise um verso
de Marcial, de Juvenal &c. Examine V.P. este ponto, e achará, que o
defeito é mais geral, doque nam parece. Conheso pouquisimos estudantes
desa Universidade, falo principalmente dos-Opozitores, e dos-que tem
prezunsam de literatura; cuja conversasam seja toleravel. Para dizerem,
que agora é dia; sairám com um, e talvez muitos textos do-Digesto, ou
Codigo &c. Nam deixam pasar coiza, que nam ornem com algum versinho
moderno: e quem sabe mais disto, é mais ciente. Aquele, _Erubescimus
sine lege loqui_, intendem-no tam nû e crû, que é uma piedade. Tambem
entre os Religiozos, nam falta desta fazenda: aquele, _tandem, item, a
parte rei, cum hoc quod, hoc unum est_; e outras destas palavras, sam
mui frequentes nos-seus discursos: e tambem seus textos da-Escritura,
e seus versinhos Latinos. Isto entra em todas as conversasoens,
aindaque sejam de idiotas, e molheres: antes nese cazo melhor, porque
se-grangeia fama sem embaraso.
Este mao modo de pensar, e discorrer, pasou ja das-conversasoens, para
as compozisoens: e por-iso V. P. ve tantos discursos, ou sermoens, ou
orasoens, que se-nam-podem sofrer. Tenho lido mil orasoens modernas * *
* e rarisima achei, em que nam intráse Plinio o moso, claro ou oculto:
mas pola maior parte entra claro: e às vezes a orasam tem mais palavras
de Plinio, doque de quem a-compoz. Ouvîram dizer, que o Panegirico de
Plinio, é o mais suportavel, que nos-deixou a Antiguidade; e sem mais
exame, enchem tudo de Plinio. Outros pasam do-Panegirico às Cartas:
um destes é o P. * * que no-elogio funebre de Julio de Melo, faz uma
istoria, em que introduz muitos periodos, tirados de varias cartas de
Plinio, que dizem o mesmo, que ele repete. Este modo de elogiar, é
totalmente novo, e ignoto à Antiguidade: mas nem por-ser novo cuido
que agradará, aos que intendem a materia. Nestes Panegiricos achará V.
P. duas coizas comumente: uma, é Plinio, e algum autor semelhante: a
segunda, é o Sol, com as Estrelas. Mais vara menos vara, aqui vem dar
todos. Serîa porem melhor, que estes autores puzesem departe, Plinio;
e disesem alguma coiza de sua caza: e nam dezenquietasem as Estrelas,
trazendo-as para uma coiza, para a qual nam calsam bem. Nam é este, o
modo de elogiar. disto se-rim todos os omens que sabem.
Até as aprovasoens dos-livros, andam cheias destes textos, às
vezes arrastadisimos, e talvez tirados da-Escritura, para provar
uma frioleira. Os que nam trazem textos, introduzem razoens bem
desnecesarias, e difundem-se em elogios, tam excesivamente encarecidos,
que ninguem os-pode ler sem nauzea. Aindaque disesem a verdade, e
bem; sempre era um grande defeito, e impropriedade. Vi á anos a vida
do-Infante D. Luiz, em 4.^o escrita polo Conde de Vimiozo; da-qual
as aprovasoens, sem encarecimento algum, compoem metade do-volume.
E nam só fazem isto nos-livros; mas em papeis avulsos, e breves. Vi
uma Egloga, escrita por-um certo Felipe Jozé da-Gama, no-nacimento
de um neto de Joam Alvares da-Costa; cujas aprovasoens eram maiores,
que a obra. O pior é, que tinha uma aprovasam do-Conde da-Ericeira,
D. Francisco Xavier de Menezes, que caîa na mesma simplicidade. Com
efeito, este era o carater do-dito Conde: que, para mostrar que
sabia muito, carregava as suas pinturas, com tantos ornamentos, e
doutrina, que pareciam ridiculas. Ele era um omem erudito: mas ignorava
totalmente aquilo, a que chamam modo, metodo, e criterio. comtantoque
falàse muito, nam lhe-importava se dizia bem. E naverdade na dita
aprovasam da-Egloga, tem coizas indignas. Deixa logo o argumento,
e pasa a descobrir entre Joam Alvares da-Costa e Asinio Pollio,
grande uniformidade. despois, difunde-se sobre os louvores da-Poezia.
finalmente faz uma selada tal, que nam vi coiza mais confuza. Eu nam
disputo agora, se a dita Egloga merece eses louvores: concedo tudo de
grasa: o que digo é, que se-explicava em duas palavras: e é grande
impropriedade fazer uma censura eterna istoriada, para uma brevisima
Egloga. Certamente o P. Estacio de Almeida, que em materia de Poezia
Latina, cuido que sabe alguma coiza mais, que o dito Conde; mostrou
o seu juizo na aprovasam, contentando-se com dizer, que era digna de
s’impremir. E isto deviam tambem fazer os outros: deixando de fazer
Panegiricos, a coizas que nam merecem, ou que merecem menos: e fazèlos
de um modo, que merece mais rizo a erudisam que trazem, que a que
lhe-falta. O P. D. Manoel Caietano de Souza, tambem seguia esta opiniam.
Compoz o Sargentomór Manoel Coelho, uma Explicasam das-oito partes
da-orasam: mas tam pequenina, que nem menos se-lhe-deve chamar livro,
mas caderninho. (foi impresa em Lisboa, no-ano 1726.) Sucede que D.
Manoel aprova esta obra: e aqui, tomando as coizas desde o principio,
faz uma longuisima censura, e um catalogo dos-Gramaticos do-Reino &c.
Tudo coizas desnecesarias! E sei eu, que, se ouvèse de impremir-se
em outro Reino, se-contentariam com escrever, _Imprimatur_. Com esta
advertencia observe V. P., as aprovasoens dos-livros, e verá, que ainda
nam digo metade, do-que devia. Neste particular de aprovasoens, nam
vi omem em Portugal mais moderado, que Fr. Manoel Guilherme: fugia
quanto podia de mentiras e afetasoens; e claramente dizia, o seu
parecer. Mas oje sucede o contrario: porque às vezes fazem-se empenhos,
para determinar os censores: e estes tais, nam censuram o livro, mas
agradecem a eleisam. E sei eu tambem, que quando o P. * * * impremio
a sua obra * * tendo feito um Teologo, a censura difuza; foram-lhe
pedir novamente, que se-dilatáse mais, e louváse a obra com maior
extensam. E nam podendo livrar-se do-empenho, que era forte; acrecentou
alguns sinonimos, para satisfazer às partes: o que sei da-mesma boca
do-censor. Onde com estes exemplos, nam devemos admirar-nos, se
incontramos os elogios tam frequentemente * * *
Mas, tornando à dita erudisam afetada, digo, que a este modo de ornar e
discorrer, chamam os Retoricos, _ornamentos falsos_. Porque os outros,
podem ter lugar no-discurso, e só se-procura a parcimonia: estes, de
nenhum modo devem intrar nele. Ja gran tempo é, que os omens de juizo
clamáram, contra este abuzo: principalmente porque, bem examinada a
coiza, é uma solenisima impostura, e azilo de ignorancia: sendo certo,
que estes tais nunca tem menos erudisam, que quando mostram ter tanta.
Quem ouve aquela machina de textos, persuade-se que é um omem, de
erudisam infinita: mas nada menos: e eu poso jurar de muitos, que nam
abriram os livros que citam, aindaque sejam bem uzuais. Remedeiam-se
com o _Theatrum Vitæ Humanæ_, _Polyantea de Langio_, e outros destes
armazens, em que polo A. B. C. acham-se as materias, dispostas. De que
vem, que os omens inteligentes nam podem menos, que rir-se de tais
compozisoens. Lembro-me, que um leitor de certa Religiam, querendo
persuadir-me, que um seu amigo sabia Latim perfeitamente; dizia-me,
que lia sempre por-_Plutarco_: e carregava muito em _Plutarco_. Ouvi
esta muzica algum tempo; e nam podendo sofrer mais, proguntei-lhe,
se _Plutarco_ era bom Latino. Aqui o omem: _Poisque, iso tem duvida?
na antiguidade nam acha V. P. um Latino, como Plutarco._ O que daqui
se-seguio foi, ficar eu formando mui mao conceito, dele, e do-seu
amigo. De um, por-dizer o que nam sabia: pois se tivese aberto
Plutarco, ou acharia o texto Grego com a versam Latina; ou tendo
somente a versam, acharia no-frontispicio, o nome do-tradutor.
Do-outro, porque aindaque a tradusam, nam seja barbara, contudo nam é
livro para se-imitar: falo da-versam de _Curserio_, e _Xilandro_, &c.
Tambem nam é pequeno defeito, a grande repetisam de sentensas, sem
necesidade. Persuadem-se muitos, que, falando por-sentensas, ficam
graduados como sutilisimos, e fundadisimos letrados. Lèram em Seneca
Filozofo, ou Lucano, ou Tacito, ou algum semelhante, uma quantidade
destas sentensas; e, sem mais exame, nem advertencia, adotam aquele
estilo; e deitam mais sentensas pola boca fóra, que uma carranca de
xafariz nam deita agua. Verdadeiramente é um divertimento, bem digno
de se-procurar em oras ociozas, ter uma conversasam com um destes.
Eu gozei esta felicidade algumas vezes: e nam me-podia satisfazer de
observar, aquela circunspesam magistral, com que proferem as palavras,
em tom decizivo e com toda a magistralidade, de um Padre de Concilio.
Ja eu lhe-perdoára a materia: o que nam poso sofrer é, o modo com
que se-explicam. Se eles tivesem observado e intendido, que aquele
mesmo Seneca foi o primeiro, que comesou a perverter, o bom gosto
da-Latinidade, com tam enfadonhas sentensas: com as quais perdeo entre
os seus, e entre todos os que se-seguîram de alguma estimasam; aquele
conceito, que poderia aquistar, se fose mais parco de ornamentos;
saberiam entam, com que olhos se-devem ler, certos autores. Mas eu
falo em um suposto, que me-parece falso, e vem aser; que estes tais
profiram, verdadeiras sentensas: falam como se fose por-sentensas; mas
nam sei se o que dizem, merece este nome. Porque a Sentensa deve, em
poucas palavras, dizer muito, e dize-lo com modo singular: o que raras
vezes se-acha neles.