todas as ideias do-intendimento: A fecundidade que tem a mente, em
formar conceitos, e a facilidade com que de uma mesma coiza, fórma
infinitas ideias, é tal; que pode empobrecer, todas as linguas
do-mundo. Seriam necesarias muitas palavras, para um omem poder dizer
sofrivelmente, o que intende. Mas isto pediria tempo infinito, e
o comercio umano se-faria insoportavel. Conhecèram os Omens muito
bem isto, e cuidáram em lhe-pór o remedio. Daqui naceo a necesidade
de servir-se, de algum modo de expremir, que, aindaque nam diga
tudo, excite diversas ideias no-intendimento, e poupe o trabalho, de
proferir muitas palavras. A experiencia mostrou, que as nosas ideias
tem uma certa uniam, com que mutuamente se-ajudam: proferida uma
das-quais, todas as outras se-aprezentam. Isto asim posto, os Omens
souberam aproveitar-se, desta experiencia; e comesáram a servir-se
de um nome por-outro, para poder excitar a ideia, do-que queriam. Um
nome que significava uma coiza, aplicou-se para significar outra;
e se-transportou da-sua significasam propria para outra, por-cauza
de certo respeito, ou relasám, ou ordem, ou nexo, que uma coiza tem
com outra. A isto chamáram _Tropo_, palavra Grega, que significa
_transpozisam_: e estes modos de falar, chamáram-se Figuras: as quais
podem ser infinitas: mas os Retoricos as-reduzîram a pequeno numero,
contando as mais uzuais: e destas se-faz memoria, nas comuas Retoricas,
com diversos nomes.
Estes _Tropos_, _Metaforas_, ou _Metonimias_, que significam o mesmo,
tem grande uzo, e sam necesarias em todas as linguas, e ornam muito:
nam só porque encurtam o discurso, e fazem mais gostoza a conversasam;
mas tambem porque exprimem melhor, o que se-quer dizer, doque outras
palavras. Diz mais às vezes, uma só metafora, que um longo discurso:
e com uma só palavra, é mais bem intendido um omem, doque com a
fecundidade de infinitas. Quem ouve dizer, que _Alexandre era um raio
da-guerra_; a ideia do-_raio_, que é uma coiza sensivel, exprime bem o
grande poder, com que este omem sugeitava tudo: a velocidade das-suas
conquistas: o eco das-suas vitorias; que atroava tudo, e ainda as mais
remotas Nasoens. Este justamente é o carater de Alexandre: como ja a
Escritura tinha delineado. Uma só ideia excita mil outras, ao intento.
E como os Omens estam acostumados, a estas imagens sensiveis; os tropos
que delas se deduzem, valem infinito. Apenas o comum dos-Omens pode
intender, e julgar de outra sorte.
Sam boas, asim é: mas o uzo é que as-faz racionaveis: quero dizer,
que se-devem uzar em tempo, e lugar proprio, e quando o discurso
o-pede. O que nam advertindo os ignorantes, servem-se pouco sabiamente
das-Figuras; e com muito estudo, falam bem mal. Nam á maior beleza em
uma cara, que os olhos: mas se um rosto nacèse com mais de dois; se
chegáse a ter meia duzia, serîa um monstro. Deve aver figuras: mas
á-de aver proporsam, eleisam, dispozisam: ou seja no-discurso familiar,
ou na Istoria, ou na Cadeira. Este é o grande segredo do-falar bem:
o qual como muitos, segundo adverti, nam chegam a penetrar, quando
ouvem falar em Tropos, tremem de pés e cabesa: e persuadem-se, que é
algum enima singularisimo, rezervado para algum ato publico, ou coiza
semelhante.
Como as palavras sam as que significam, o que pasa dentro d’alma, ouve
necesidade de procurar palavras, para expremir, nam só o que a alma
conhece, mas tambem o que quer; ao que chamamos, _afetos da-alma,
ou paixoens_. O Omem nem sempre se-acha, na mesma dispozisam de
animo: mas esporiado de alguma coiza, saie fóra de si, e entam fala
de outra maneira, mui diferente. As expresoens com que se declara
isto, se-chamam _Figuras_; com a diferensa, que os Tropos sam figuras
das-vozes: e estas que aqui digo, sam figuras do-animo. É incrivel, a
diversidade destas vozes do-animo. Um omem agitado, nam só no-exterior
do-rosto, mostra a sua perturbasam, mas tambem no-modo do-seu discurso.
As paixoens violentas, alteram a bela armonia dos-umores: engrosam
os objetos: impedem que a alma dè a devida atensam, ao que julga:
no-mesmo instante a-transportam, de uma coiza para outra: sam como
o mar alterado, que joga a pela com um navio. Onde, agitadas com
tanta confuzam, as fibras do-cerebro, a alma, que em virtude daquela
armonioza dependencia, que estableceo Deus entre ela e o corpo; deve
conhecer todas as imagens, que elas lhe-prezentam; nam tem, se me-é
licito explicar asim, repouzo algum. A alma agitada, imprime novo
movimento nas fibras, e estas na machina: de que nacem as palavras: com
as quais dando-se dezafogo à ira, que moveo a machina, se-dá tambem
repouzo, à alma.
Sendo pois as nosas palavras, consequencias dos-movimentos d’alma, e
conrespondendo perfeitamente, aos nosos pensamentos; é claro, que o
discurso de um omem, que está sumamente agitado, deve ser dezigual.
Algumas vezes parece este omem difuzo, e fórma uma exata pintura,
das-coizas que sam objeto, da-sua paixam: e cuidando que o-nam-intendem
bem, repete a mesma coiza, em cem diferentes maneiras. Algumas vezes
interrompe o discurso, e sepára as palavras umas das-outras, dizendo de
uma só vez, bastantes coizas. Muitas vezes vareia o discurso, com mil
proguntas, com exclamasoens, com frequentisimas digresoens. Finalmente
um discurso destes vareia-se, com infinitos modos de falar: os quais
modos sam tam proprios, daquelas paixoens d’onde nacem, que, ouvindo-os
proferir, fica um omem formando, justa-ideia da-paixam. Estas pois sam
as tanto celebres Figuras do-animo: as quais nenhuma outra coiza sam
mais, que modos de falar particulares, e diferentes dos-modos de falar
natural e uzual.
Estas Figuras, que sam as naturais pinturas das-paixoens, sam sumamente
utis, e necesarias no-comercio umano. Um pintor famozo, (dise um
grande Retorico, de quem eu aqui sigo as pizadas) que quer delinear um
painel istoriado, nam só pinta as figuras, que devem intrar no-quadro;
mas procura, que cada uma esteja naquele ato, que exprima, o paraque
ele ali a-poem: nem só isto, mas até no-rosto lhe-pinta, aqueles
acidentes, que denotam a paixam, de que sam produzidos. Explico-me
melhor. Um omem agitado, e alterado com a colera, nam tem o rosto
sereno; mas fica palido: abre uns olhos, que parecem cheios de fogo:
carrega a vizeira: finalmente mostra no-rosto mil acidentes, que sam
os carateres da-Colera. Isto pois é o que procura imitar, o pintor:
e se chega a imitálo bem, só este é o bom pintor. O Retorico nam tem
cores, com que imitar a natureza, como o pintor: mas tem palavras,
para imitar aquelas, que profere um omem dominado da-paixam, que ele
quer persuadir: e como estas paixoens tenham, diferentes carateres; é
necesario que se-sirva de diferentes figuras, para as-expremir[41].
Alem disto, ninguem pode persuadir outro, sem que excite nele aquela
paixam, que lhe quer persuadir: porque as paixoens sam os instrumentos;
e, para me-servir de uma expresam filozofica, as machinas que abalam
a alma, e a-inclinam para onde querem. Ora para excitar estas
paixoens nos-outros, é necesario, que um omem se-mostre dominado,
da-mesma paixam:[42] porque, suposta aquela particular dispozisam, e
semelhansa dos-nosos corpos, deixamo-nos persuadir daquela paixam,
que vemos nos-outros: dos-mesmos sentimentos: dos-mesmos afetos:
se nam se-acha algum obstaculo, que empesa o curso da-natureza.
Naturalmente inclinamos a ter compaixam, de uma pesoa, que mostra estar
sumamente aflita: rimos quando nos-achamos, em um grande divertimento
dos-sentidos. Polo contrario, nam choramos, nem mostramos compaixam, de
uma pesoa que ri; aindaque verdadeiramente seja mizeravel. É necesario
ter um animo mui nobre, para se-vestir dos-sentimentos, e necesidades
dos-outros, semque lhas-exponham. Nam obram os Omens comumente asim:
obram porem asim, quando recebem o movimento, do-impulso das-paixoens.
Esta é a _simpatia_ das-paixoens: (se acazo tal voz, significa coiza
alguma) e daqui se-mostra bem, a necesidade das-Figuras, para efeito de
persuadir.
Nam me-cansarei, em dar o numero das-Figuras, e explicar o que
significam, e quando se uza delas. Disto abundam muito, as Retoricas
ordinarias: aindaque sam poucas, que o-expliquem de um modo, que
se-posa perceber. As Figuras sam infinitas: mas os Retoricos
reduzem-nas, a umas certas regras gerais, e-mais comuas. Direi somente,
que estas Figuras, sam as verdadeiras, armas da-alma, com que ela faz
guerra às outras almas; ou vence, ou é vencida: e produzem juntamente
mil outros efeitos. Primeiramente, elas declaram aquelas verdades,
que sam oscuras; e excitam nos-Omens a atensam, para as-perceber.
Aquela grande repetisam, aqueles muitos sinonimos, nam sam inutis
na Retorica[43]: antes sam de infinito preso: porque mostram o
que se-pertende em tanta luz, e de tantas partes; que é imposivel
o-ignorálo: imprimem com tanta forsa uma verdade, descobrem todas as
circunstancias com tanta clareza; que é imposivel nam admetilas. Mas
no-mesmo tempo estas Figuras, se sam bem naturais, e se pintam bem
a origem de que nacem; movem de tal sorte a alma, que a-arrastam e
conduzem, para aquele objeto, de que se-fez a imagem[44]. E como a
alma nam pode ver uma verdade clara, sem a-receber; daqui nace, que
por-forsa admite o objeto, e consente: e temos o omem persuadido.
Estas sam as Figuras, que sam a baze da-Eloquencia. Mas nam intenda V.
P. que eu quero persuadir indiferentemente, toda a sorte de Figuras,
e uzo delas: estou mui longe diso, e defendo constantemente, que só
no-bom uzo delas, é que está a Eloquencia, principalmente sublime.
Isto é o que eu dezejára refletisem comigo algumas pesoas, que,
por-nam-advertirem este importante ponto, dam à luz partos monstruozos.
Se as nosas paixoens sam mal ordenadas; se nam se-excitam quando deve
ser; é coiza clara, que as Figuras só servirám, de pintar a confuzam
das-nosas ideias, e a pouca eleisam do-noso juizo. Um omem que s’enfada
quando nam deve; que em um discurso placido, introduz mil Figuras
fortes; que progunta; que responde; que exclama; e mostra grande
paixam, aindaque nam aja de persuadir, ou disputar com alguem: é um
verdadeiro louco, que guiado, da-sua destemperada imaginasam, empunha a
espada, para combater com um inimigo imaginario. Pois este é o retrato
de muitos autores, que julgam nam serem bons escritores, se nam uzam de
todas as sutilezas d’arte: Semelhantes nisto a um omem de Provincia,
com que eu jantei uma vez, que para mostrar que tivera boa educasam,
comia as uvas com o garfo.
Outros, que devem persuadir, e tem materia para empregar, boa
Retorica; só estudam palavras, que tenham cadencia armonioza, mas tam
afetada, que pola maior parte degenera em verso. Fazem mil reflexoens
inutilisimas: procuram falar sempre por-sentensas: cuidam em introduzir
conceitos sutis, e divizoens importunas: com as quais arengas nam
procuram persuadir, mas agradar, e conseguir fama de eloquentes. E
estes eu os-reputo muito mais ignorantes, que os primeiros, pola sua
afetasam. O certo é, que uns e outros nam intendem, nem o fim, nem os
limites da-Retorica: e que em lugar de estimasam, conseguem desprezo.
As Figuras devem-se empregar, em toda a ocaziam. Temos Figuras para
tudo: negocios graves, mediocres, e para a mesma conversasam familiar.
Basta persuadir-se, de uma importante verdade, que é, que a Figura
nam se-deve procurar, mas naturalmente aprezentar-se: porque, como
tenho mostrado, sam consequencias das-paixoens. Observe V. P. um omem
rustico, que nam seja totalmente estupido, ou uma molher de juizo,
mas nam doutora: entre com eles em um discurso familiar, sobre alguma
materia, que lhe-pertensa: dificulte-lhe conceder-lhe alguma coiza,
que a eles paresa verdadeira, ou que na realidade o-seja: e observe
miudamente, quantas Figuras introduzem no-discurso. E finalmente,
achará mais forsa, nas suas razoens, quando sam em materia verdadeira,
doque nos-discursos, de muitos Oradores de fama. Eu fiz esta
experiencia muitas vezes: e sempre tirei por-fruto, da-minha meditasam,
que as Figuras ám-de ser naturais: e que somente se-fala bem, quando
se-fala animado, de algum verdadeiro interese, e se-deixa guiar, de uma
paixam arrezoada.
V. P. observará isto, nos-seus proprios discursos, ainda naqueles, que
parecem menos considerados, e que sam proferidos, quazi por-impulso
da-natureza. As coleras nam sam iguais, nem as paixoens: e asim á
Figuras nestes mesmos discursos. Fazem-se _antitezes_, por-cauza de
grandes movimentos, e tambem por-ligeiras comosoens. O dezejo que um
omem tem, de expremir-se, e de persuadir as coizas que diz, tem varias
destas Figuras. Na conversasam mais placida, repetem-se sem reparo, os
mesmos termos muitas vezes. servimo-nos de diversas expresoens, para
significar o mesmo. permitem os mais escrupulozos criticos, fazer
alguma breve descrisam, e procurar alguma semelhansa, para explicar
melhor a materia. pode-se proguntar o parecer dos-que ouvem, sobre o
que se-profere; e mostrar-lhe, que é necesario refletir, sobre algumas
das-circunstancias alegadas. Tudo isto pratica-se todas as oras, ou
se-pode praticar, sem enfado de quem ouve, e sem incorrer na censura,
de quem observa. Ora as Figuras nam sam verdes nem azuis, sam em carne
estas mesmas que apontamos, e outras a estas semelhantes. E eisaqui,
que nam só nas orasoens, e discursos estudados, mas em todo o discurso,
tem lugar as Figuras. Em uma palavra, primeiro ouveram Figuras,
doque ouvèse arte de Retorica: aqual nada mais é, doque a observasam
das-naturais Figuras. E asim todo o estudo de um omem, verdadeiramente
eloquente, consiste, em observar bem, a necesidade da-materia; e intrar
tanto dentro nela, que posa formar um discurso natural, mas no-mesmo
tempo eficaz: e em que as Figuras fujam-lhe da-boca, sem que ele vá
detraz delas, para ornar o discurso. Muito necesario é, estudar a
natureza: estudar o carater das-Paixoens: falar naturalmente: que só
asim se-fala eloquente, e sò asim se-persuade. Este é o primeiro ponto,
ou o mais importante, em materia de Retorica.
O segundo, e de nam menor consequencia, está, em saber proporcionar
o estilo, ao argumento que se-trata. Consiste o estilo, em certas
maneiras de s’explicar, e certas particulares expresoens, que cada omem
uza: as quais comumente seguem o impeto do-fogo, que cadaum tem: nam se
achando dois omens, que sejam perfeitamente iguais no-estilo, como nem
menos no-temperamento. Digo pois, que o estilo se-deve regular, segundo
a materia, que se-trata[45]. As expresoens magnificas e nobres, ornam
as coizas, de uma certa magestade, e mostram o grande conceito que
delas fórma, quem asim fala: se a materia nada tem de extraordinario,
antes é sumamente vil; impropriamente se-lhe-aplicam, tais expresoens.
Polo contrario, as coizas que se-podem considerar sem comosam, devem-se
dizer com estilo simplez: outras mais estudadamente: o que faz a
variedade de estilos: que os mestres da-arte reduzem comumente, a
trez. Querem dizer, que ou o discurso é sumamente nobre, ou sumamente
trivial, ou mediocre: à primeira, conresponde o estilo sublime: à
segunda, o estilo simplez: à terceira, o mediocre. A prudencia e
inteligencia com que se-devem aplicar, estes trez generos d’eloquencia,
é o principal emprego, do-Retorico.
_SUBLIME._
Quando se-quer dar uma alta ideia, de alguma coiza, é necesario
refletir no-mesmo tempo, em muitas circunstancias. Por-muito nobre que
seja o _sugeito_, de que se-trata, pode ter mil imperfeisoens: onde é
necesario procurar, de o-por à vista d’aquela parte, que melhor parece;
para poder impremir, uma justa ideia da-sua grandeza: procurando
quanto pode ser, de lhe-cobrir, ou disfarsar os defeitos, sem prejuizo
da-verdade: voltando-o e revoltando-o de todas as melhores partes,
para poder mostrar, até as minimas perfeisoens que tem: e tendo muito
cuidado, de nam sair com alguma expresam, ou pensamento, que destrua
o que se-tem fabricado. Caiem neste defeito infinitas pesoas, ainda
d’aquelas, que nam sam decepadas: Oradores, Istoricos &c. mas sobre
tudo os Poetas: que, por-forsa do-consoante, ou da-quantidade do-verso,
dizem mil coizas ou mal ditas, ou mal aplicadas. Li um soneto de certo
Espanhol, que descrevia um nariz grande: o qual, despois de ter dito
muita coiza do-dito nariz, conclue desfazendo, quanto encarecèra. Porei
somente os tercetos.
_Erase un espolon de una galera.
Erase una piramide de Egito.
Las dose Tribus de narizes era._
_Erase un narizissimo infinito.
Muchissima nariz, nariz tan fiera,
Que en la cara de Anás fuera delito._
Despois dos-quatro versos antecedentes, em que exagerava terrivelmente
o tal nariz, saie com uma frioleira, que destrue tudo. Admetida de
grasa, a comua opiniam do-vulgo, de que os Judeos tem narizes grandes:
admetida novamente a frioleira, de que Anás, por-ser Pontifice,
o-devese ter maior: é certo, que nam teria um nariz maior, que todo o
corpo. Demos-lhe, que fose tam grande: que proporsam tem isto, com uma
piramide, e nariz infinito? Destes exemplos acho a cada paso: de que
concluo, que estes nam sabem, as leis da-Retorica, nem da-Poezia.
Quanto ás expresoens, aindaque as-dezejo nobres, e com armonia sonora;
devem porem uzar-se, com moderasam. Prudentemente se-comparou um
discurso, no-genero sublime, com um palacio magnifico: neste á-de aver
cazas para os amos, para os criados, e tambem estrevarias para os
cavalos. Estas nam ám-de ser, como as anticameras, nem ornadas como
os gabinetes: mas ám-de ter certa magnificencia rustica, e proporsam
ao todo: ám-de ser todas as partes no-seu genero, belas, grandes,
magestozas. Um palacio que tem um portam pequenino, parece coiza
Mourisca, e nam de Architeto inteligente. tudo á-de ser grande, mas
no-mesmo tempo proporcionado. Damesma sorte em um discurso, nem todos
os pensamentos podem ser exquizitos, ou a locusam sublime: á-de aver
pensamentos bons, exquizitos, e mediocres: a locusam damesma sorte, em
alguns lugares sublime; v. g. nas perorasoens, e exagerasoens &c. em
outras mediocre; v. g. nos-exordios, nas confirmasoens de provas &c.
e em outras simplez e natural, como nas narrasoens, e outros lugares.
Mas todas estas coizas ám-de ter proporsam entre si: devem ser ornadas
e vestidas daquela tal grandeza, que mostre serem partes, de uma coiza
grande. Asim se-compoem, um discurso perfeito.
Esta magnificencia de expresoens grandiozas, e armoniozas, convem
ao estilo sublime, com a distribuisam dita, de aplicar as melhores,
às coizas que merecem maior atensam. Tambem no-estilo sublime devem
intrar, reflexoens judiciozas, e varias sentensas, que excitem a
atensam. Nele tem seu proprio lugar, as Figuras grandes: Sendo certo,
que um argumento nobre, nam se-pode tratar, sem alguma particular
comosam: de que nace aquele modo de expremir-se, em que consistem as
Figuras. Devem porem praticarse, segundo as observasoens asima feitas.
Esta porem é a maior dificuldade, do-estilo Sublime: e sam poucos os
omens, que saibam abrasar, uma distribuisam moderada de ornamentos,
no-discurso. A maior parte dos-que escrevem, sam como aquelas pesoas,
que nam tem educasam de Corte. Estas, para se-mostrarem bem informadas,
e de boa eleisam; carregam tanto os vestidos de oiro, e a cabesa de
joias; que em lugar de parecerem bem, ofendem a vista. O pior é, que
no-defeito que repreendemos, caiem tambem os que sam da-Corte, como os
que sam de fóra: e é mais dificultozo emendar-se. Um omem que tem má
eleisam no-vestir, tem tantos censores à vista, que à forsa de critica,
e de observasam, consegue a emenda. Nam asim o que escreve: sam poucos
os que censurem, porque sam pouquisimos os que saibam, como se-deve
censurar. Alem diso, nam á algum, que prezuma tam mal do-seu juizo,
que leia por-livros, que lhe-mostrem, as suas imperfeisoens. Busca
somente aqueles, que mais lhe-agradam, e sam mais uzuais: e em vez de
s’emendar, confirma-se na sua má eleisam. V. P. nam achará um Pregador,
que estude por-_Cicero_, _Demostenes_, _M. Seneca_, _Quintiliano_: ou
leia alguns, dos-que compuzeram boas reflexoens, sobre as ditas obras:
achará porem muitos, que estudam por-sermonarios, e muito maos: e estes
nam podem escrever melhor, doque lem nos-tais autores.
Outros escritores, querendo-se distinguir do-Comum, nam gostam senam,
de expresoens grandes: e de tal sorte se-deixam guiar, por-este furor;
que nam produzem palavra, que nam seja de pé e meio; e que nam acabe
d’estoiro, como uma bomba. As palavras e fraze natural, o modo de
s’expremir uzual, aindaque seja o mais proprio da-materia, nada vale.
desprezam tudo, o que nam é estrondozo. Nenhum destes dirá: _Petrus
amavit Joannem_: nam senhor: mas querem perifraze: _Accidit ut Petrus
amore prosequeretur Joannem_; ou alguma fraze mais comprida. Estes
omens vem todas as coizas, por-microscopio: tudo lhe-parece gigantesco:
ou, para melhor dizer, tudo transformam. A sua cabesa é como a de
D. Quixote: a quem moinhos pareciam palacios; e nam avia coiza para
ele, que nam fose magestoza. Daqui nace, que tudo exprimem pola mesma
maneira. o discurso comesa por-Figura, e acaba em Figura. Este é o
vicio comum destes paîzes; mas muito principalmente dos-Poetas, e
Oradores.
Estes omens confundem o Eloquente, com o Arrogante; a Exagerasam com a
Inverosimilidade: sem advertirem, que sam coizas bem diferentes. Ora
este é o verdadeiro carater da-ignorancia: tanto mais dificultozo de
s’ evitar, quanto é certo, que muitos omens grandes em outro genero,
tem caido neste defeito. Este é o ponto que se-deve advertir, com mais
circunspesam: este o defeito que se-deve fugir, com mais cautela. O que
se-consegue primeiro, com alguma reflexam judicioza: segundo, com a
lisam de bons autores, que falem como devem, e proporcionem o estilo,
ao asumto. Nam á coiza mais ridicula, doque uma grande afetasam de
palavras sonoras, em coizas onde nam devem intrar[46]. Em lugar de
engrandecerem quem fala, mostram a pobreza do-seu intendimento: que nam
tendo cabedal, de dar palavras para tudo, pede-as emprestadas, ou furta
sem advertencia, as que incontra.
Verá tambem V. P. que muitos, querendo falar elegante, acabam tudo em
tom de verso: _Porque nam chego a amar, nam poso padecer_: e com este
_ar_, e _er_; _ir_, e _or_; e consonancias semelhantes, vam enchendo
o discurso, que deveriam cuidar de ornar, com bons pensamentos e
conceitos. Isto é mais vulgar, doque V. P. imagina: e acha-se muita
gente de bigode, que chama a isto elegancia. Eu sei que o numero
oratorio, ou armonia dos-periodos, de que Cicero fala em varios
lugares, é uma grande beleza, em todo o discurso, principalmente
oratorio[47]: mas sei, que é muito diferente, do-que condeno. Nam á
regra exata, para o numero oratorio: a orelha é a que ensina, quando
o periodo é armoniozo[48]. Mas é necesario que tenha mui más orelhas,
quem nam distingue, que as consonancias que apontamos, em lugar de
agradarem, ofendem, e sam uma afetasam. Em Portugal sam rarisimos, os
que observam o numero, ainda nos-discursos estudados. Ou afetam verso,
e isto é vicio[49]: ou declinam para outro extremo, que é a languideza,
e tambem isto é vicio insoportavel. A mediania é que se-busca; e quem
bem intende o que é numero, nas cartas, e no-discurso familiar,
sem advertir o-pratica. Para isto quer-se boa orelha, acostumada a
ouvir ler, e pronunciar bem. Pecam alem disto; em fazer periodos tam
compridos, que nam se podem ler de um jato: o que tambem é falta de
numero. A lisam dos-bons livros remedeia isto, e introduz um omem, na
verdadeira estrada da-Eloquencia. Mas é necesario, lelos sem prejuizos,
e com animo de aprender. O estilo Sublime tem seu proprio lugar, nas
orasoens, e sermoens: na Poezia Eroica, e Tragica: e pode às vezes
ter lugar, na Istoria, quando s’ introduzem a falar, algumas pesoas.
As orasoens de Cicero, os poemas Epicos de Omero, e Virgilio, sam de
estilo sublime.
_SIMPLEZ._