Nam me-quero demorar muito neste exame, porque serîa nunca acabar:

direi somente de pasagem, que o noso Pregador com todo este discurso

desfaz, quanto pertendèra mostrar. Concedamos-lhe tudo de barato, e que

o Filho teve maior gloria que o Pai. &c. progunto: ou daqui se-segue,

que desa maior gloria do-Filho, rezultou no-Pai maior gloria, doque

tinha o Filho, ou nam? Se rezultou maior gloria; ficam desmentidas

todas as provas do-Pregador, com que quer mostrar, que o Filho excede

ao Pai, na gloria. Se nam rezultou maior gloria; nunca se-pode dizer,

que o Pai escolheo _meliorem, immo & optimam partem_. paraque serve

pois toda aquela arenga, se nam á-de provar, o que quer? De toda esta

metafizica pois, com que o Pregador enche o sermam, o que se-segue é,

que se-contradiz a si mesmo.

Mas quem poderá admetir, as provas do-Pregador, tomadas literalmente,

como ele as toma? Em primeiro lugar é falso, que o Pai dèse ao Filho,

com propria eleisam somente sua, a grandeza de Redemtor: porque sendo

a Incarnasam, _obra ad extra_, como lhe-chamam os Teologos, todas as

trez pesoas com uma unica vontade, concorrèram para ela. E isto nam sam

Teologias exquizitas: mas os primeiros elementos da-Fé. Polo contrario,

o noso Pregador supoem mui distintamente, que o Pai tinha uma vontade,

e o Filho outra: porque sem esta supozisam, nam corre o argumento. E

semelhante supozisam, nam sei como os Qualificadores a-deixáram pasar.

Em-segundo lugar é falso, que o nome de _Jezus_ seja maior, que o nome

de _Deus_. Aquele _supra omne nomen_ nam se-intende, compreendendo o

nome de _Deus_. É falso, que o Pai _abjudicase_ de si, a potestade

judiciaria. É falso, que o Filho tenha o primeiro trono, entre as

pesoas da-SS. Trindade. Todos aqueles textos, se-devem intender, com

seu gram de sal, segundo a expozisam dos-antigos Santos, e doutrina

da-Igreja. É falso finalmente, que a gloria do-Filho, que lhe-rezulta

da-redemsam, seja maior que a do-Pai. Ora tudo isto era necesario, que

fose verdade, paraque a paridade fose boa, e prováse, o que o Pregador

queria.

Alguns me-respondèram ja, que as palavras dos-textos mostravam, o

que o Pregador dizia: e que nos-sermoens nam se-deve procurar, rigor

teologico. Esta é a cantilena comua, destes apaixonados por-tais

sermoens. A isto ja respondi varias vezes, e nesta mesma carta. O

que dalî se-segue é, que tais sermoens sam trocadilhos de palavras:

e que páram na superficie, sem profundarem o sentido. Semelhantes

nisto a outro sermam, que eu li, em que o autor, para provar a negrura

da-Morte, trazia o texto: _Lanarum nigræ nullum colorem imbibunt_.

como se bastáse alguma semelhansa de palavras, para provar pensamentos

graves! Tambem é falso dizer, que nos-sermoens nam se-deve buscar,

rigor teologico. Eu intendo por este nome, _verdade teologica_: e

suposto isto constantemente defendo, que nenhum sermam se-deve tolerar

entre Catolicos, que tenha propozisoens contrarias, à dita verdade.

As ampliasoens, as iperboles, as delicadezas, podem ter lugar nas

orasoens: mas devem ser de outra qualidade, que as que aponto. Eu

deixei o sermam quazi no-fim, em que avia outro pensamento, bem

galante: mas nam tenho tempo, para me-demorar tanto, com estas coizas.

Do-que até aqui tenho dito, cuido ficará V.P. persuadido, do-que

afirmo, se quizer ter o trabalho, de ajuntar as minhas reflexoens, com

a leitura do-tal sermam. * * *

Esta materia de panegiricos é tam ampla, que serîa necesario um grande

volume, para tocar levemente, o que lhe-pertence. Acham-se porem outros

panegiricos, que rigorozamente o-sam, e eu considero divididos, em

varias clases. Compreende a primeira aqueles, que tratam de varias

asoens de Cristo, como _Mandato_, _Sacramento_, _Resurreisam_,

_Acensam_ &c. Aqui é onde os Pregadores lambicam o ingenho, para

dizerem coizas mui singulares: e aqui é onde se-mostra, a quinta

esencia de toda a sutileza. Aquele, _Cum dilexisset suos, in finem

dilexit_: tem-se espremido de tantas maneiras, que eu ja nam sei, que

coiza boa pode botar de si: e Pregador conheso eu, que, aplicando o

texto a mui diferente asumto, em lugar de pregar de Cristo, pregou de

si. Nas provas porem concordam estes sermoens, com os antecedentes,

com a unica diferensa de mais, ou menos. Sobre o da-Resurreisam, ja

se-sabe, que os melhores Pregadores dizem suas galantarias, e nam

poucas parvoices, improprias daquele lugar, e da-materia que tratam:

como tambem pouco decentes, a qualquer outro lugar sezudo. Ajunto a

esta, outra quinta especie de sermoens, tambem panegiricos, que sam os

louvores de algumas obras pias, como Publicasam do-_Jubileo_, _Obras de

Mizericordia_, _Procisoens_ &c. Estes ja sabemos, que sem profecia nam

podem pasar: porque como ja dise a V. P. muitas vezes, este é um pecado

nacional destes paizes, para o qual ainda até aqui, nam ouve redemsam.

Com o que asima dise dos-outros, pode-se intender o que se-deve dizer

destes. o defeito é geral: e asim a resposta sempre é a mesma.

Quanto aos sermoens das-Domingas de Quaresma, e Misoens, devo

confesar, que tem menos defeitos, que os outros: porem sempre

conservam os esenciais. Tambem neles (de Quaresma) á sutilezas,

asumtos impropriisimos, pesima dispozisam de provas, e outras coizas

destas. O que verdadeiramente nam poso sofrer é, que estes seus

Pregadores Portuguezes, procurem singularizar-se, com esquipaticos

asumtos, nos-mesmos sermoens da-Quaresma. O Pregador da-menhan, dizem

que explica o Evangelho: o de tarde, toma um asumto mais geral, que

distribue em sinco Domingas, sem se-sugeitar ao Evangelho do-dia. Aqui

pois move a compaixam ouvir, o que alguns excogitam, e quanto trabalham

para descobrir na Escritura, um numero de cinco, que seja acomodavel,

ao dito asumto. Uns, vam buscar, as cinco pedras de David: para atirar

ao auditorio, uma seixada espiritual cada Dominga. Asumto improprio, e

só coiza digna de um menino, que nam intende, o que é eloquencia: sendo

certo, que dezemparam logo o seixo, para falarem em outra materia.

Outros, vam buscar no-Cardial Ugo, que afeta ser moral, e misteriozo,

algumas palavras gerais, que posam calsar às cinco Domingas. Tudo isto

sam arengas: mas estes ainda sam mais toleraveis. Os que eu nam poso

sofrer sam, os que, saindo fora do-numero de cinco, por-se-quererem

singularizar dos outros, tomam ideias mais improprias. Tal foi um

Pregador de boa fama, que ouvi, o qual tomou por-asumto, explicar

o _Racional de Aram_, ou aquele pano que trazia o Sumo Sacerdote

dos-Ebreos, no-peito, em dias de funsam, com doze pedras preciozas

cravadas, em que estavam esculpidos, os nomes das-doze tribus. Este

titulo de sermam agradou muito, aos que tem o juizo nos-cotovelos,

que sam os mais. Concorri eu tambem, para ouvir o sermam, porque

cazualmente naquele dia, achava-me na dita Cidade: e como ja se-falava

muito nas tais Domingas, que foram pregadas em outra parte, fui ouvir,

que asumto tirava do-_Racional_: e como acomodava as doze pedras, com

as cinco Domingas. Com efeito o meu bom Pregador, escolheo entre as

pedras, as que lhe parecèram, e regeitou as outras. Galante modo de

explicar, o Racional de Aram! Do-sermam nada digo, porque a coiza fala

de si. Saindo eu para fora, incontrei um Religiozo da-Companhia meu

amigo, e um dos-omens de melhor juizo, que eu tenho cá visto; o qual

apertando-me a mam, me-dise: Amigo, o Racional é uma peste: o pobre

Aram nam esperava, que o-tratasem tam mal: e concluio dizendo, que tudo

aquilo era uma parvoise.

Com efeito eu nam acho, que proporsam tenha uma coiza, com outra: ou

para que ei-de ir buscar um titulo, que nada tem que fazer, com o

sermam. Nam sei como estes Pregadores ingenhozos, nam tem buscado,

os cinco escudos das-armas de Portugal, ou as cinco _quinas_: em que

se-podia dizer, muita coiza boa. Nam sei como nam se-tem apegado, às

cinco torres de Lisboa, a de S.Giam, do-Bugio, de Belem, a Torre Velha,

e o Forte da-caza da-India: daqui podiam sair muitos tiros espirituais,

e se-podia dizer, muita coiza bonita. Nam sei como nam explicam, os

cinco dedos da-mam, e mil outras coizas, que se-podem compreender,

debaixo desta ideia _de cinco_.

Mas, a falar a verdade, tudo isto sam rapaziadas: e os que procuram

estes asumtos, nam sabem o seu oficio, nem de que cor é, pregar. Eu

intendo que o Pregador de tarde, deve tirar do-Evangelho, um asumto

proprio para o auditorio. Nem me-digam, que o de menhan ja explicou o

Evangelho. os que asim falam, nam sabem que coiza é Escritura. O mesmo

Evangelho, pode dar infinitos asumtos. Nam é necesario, que todos

se-sirvam das-mesmas palavras: podem-se escolher outras: procurar os

SS. Padres, e tirar um asumto proprio: para iso servem os Expozitores.

Na quinta Dominga de Quaresma, todos se-servem das-palavras: _Se

Veritatem dico vobis_ &c e pregam da-Verdade em geral. Um omem que eu

conheci, pregando em um Convento de Freiras, tomou as ultimas palavras:

_Tulerunt ergo lapides ut jacerent in eum. Jesus autem abscondit se,

& exivit de templo._ Daqui tirou este asumto: Que Cristo nesta asám

quizera ensinar-nos, com quanta diligencia devemos fugir, de profanar

os Templos. porque nam só se-escondeo Cristo: mas fugio. Com a primeira

asám, evitava a profanasam com a obra, impedindo a morte: com o sair,

evitava a profanasam com a intensam, fugindo da-prezensa de omens; que

ainda conservavam os dezejos, de o-profanar. Acomodou isto ao intento,

mostrando, quanto Deus abominava, a profanasam dos-Templos. Nam avia

asumto mais proprio, ao lugar: porque nam avia lugar mais profanado com

asoens, e intensoens pecaminozas. Este era um asumto novo: nam sutil,

e ridiculo; mas verdadeiro, e mui proprio: E isto chama-se pregar:

o mais, é falar de alto. Quem tem ingenho, e leitura, pode tirar

infinitos asumtos, do-mesmo Evangelho, acomodados ao seu cazo.

Mas quando o Pregador nam quizese, servir-se do-Evangelho, pouco

importaria: bastava que escolhese um Vicio, para o-condenar, em cada

Dominga, digo dos-que mais reinam naquela Cidade. Porque os sermoens de

Quaresma, sam rigoroza misam: e se-deve buscar, argumento proprio para

isto. Quero ainda conceder, que cada um destes cinco sermoens, deva ter

relasam, com os outros, e compor um corpo de doutrina: digo ainda neste

cazo, que é fácil a um omem de juizo, buscar um argumento natural,

e solido, que se-posa dividir em cinco partes; para explicar cada

parte, em sua tarde: Sem dizer ridicularias e sutilezas; mas coizas,

verdadeiras, utis, e graves: e aplicando sempre o sermam, à necesidade

do-auditorio. Este é o defeito geral, da-maior parte destes Pregadores,

que comumente se-servem de ideias gerais, que nam calsam bem ao

auditorio; e de que nam se-tira fruto algum: pois tam ridiculo é,

falando a omens doutos, querer-lhe explicar, as pesoas da-Trindade &c.

como falando a pesoas ignorantes, servir-se de ideias especulativas;

ou, falando às Freiras, pregar da-politica de Machiavelo, e aos

Rusticos, do-_Principium quo in divinis_: da-_Existencia definitiva e

circunscritiva na Eucaristia_ &c. como eu ja ouvi a alguns pregadores,

e mestres. A isto chama-se, nam saber o _decoro_, quero dizer, nam

saber tratar a materia, nem aplicar os argumentos aos ouvintes: coiza

que condenam os Retoricos[39].

Tambem notei em certos Pregadores, alem dos-ditos, certos defeitos,

que nam sam de pequena considerasam. Omens á, que aplicam os sermoens,

às suas particulares intensoens; e em lugar de pregarem, do-que devem,

pregam de si: E como o tema nam dá para isto, dezempáram logo o asumto,

para meterem outros pensamentos mui alheios: e querendo dizer tudo,

nam dizem coiza que valha. Alguns, despedem-se no-sermam, das-pesoas

suas conhecidas: * * * outros, fazem satira aos Prelados, ou ao governo

politico da-Cidade &c. ou, a pesoas particulares, ou aos seus mesmos

ouvintes. E neste ultimo ponto, nam só caiem os ignorantes, mas pola

maior parte, os de maior doutrina, e prezumsam: e por iso às vezes

as provas, sam tam arrastadas, que é uma piedade ouvilos. Eu quero

conceder de barato, que seja verdade o que dizem: mas nam é aquele o

seu lugar: e sempre tem promto o argumento: _V. P. foi chamado para

pregar disto, e nam daquilo._ Este nam é pequeno defeito de Retorica:

pois é alienar os animos dos-ouvintes: de que se-segue, nam se-poder

obter a persuazam.

Estes sam os defeitos mais gerais, mas comuns, de todos estes seus

Pregadores. Dos-quais se-conclue claramente, que lhes-falta a principal

parte da-Retorica, que è a _Invensam_: da-qual falta nacem, todos os

outros defeitos, que impedem o bom gosto da-eloquencia. Criados desde

a primeira mocidade, com aquele pesimo estilo, de buscar conceitos

exquizitos, e dividir a orasam em tantas partes, quantos eles sam;

perdem os melhores argumentos, que lhe-dariam materia, para tecer

uma orasam continuada; que persuadise o auditorio, e fose digna de

se-ouvir. Nam reprovo as divizoens, quando sam necesarias, e a materia

as-pede: reprovo sim muito, o acomodar a materia às divizoens, para

fazer a costumada trepesa.

Desta falta, de nam saber buscar as provas, nace a segunda, e tam

importante, da-_Dispozisam_. Pois nam tendo argumentos proprios,

nam podem dispolos em maneira, que formem uma orasam unida: na qual

o exordio, ou seja _unido_, ou _separado_, forme um perfeito corpo

com o todo: e em que as partes observem, a sua justa proporsam, e

tal, que umas sirvam de aclarar as outras: e conduzam para o fim,

de persuadir o que se-quer. Desta mesma falta nace, a da-_Locusam_:

sendo certo, que quem nam acha um argumento, acomodado ao que quer,

mas vai buscando sutilezas; nam incontra com palavras proprias, para

expremir um pensamento sezudo, e nobre: nem acha aquelas que sam

necesarias, para ornar com armonia os pensamentos; desorteque fasam

uma orasam armonioza, e agradavel, sem ser afetada: o que nam tem

pouca dificuldade[40]. De que vem, que comumente enchem o discurso, de

mil tropos e figuras, fóra do-seu lugar; que mostram, o pouco talento

do-Pregador, e a ignorancia, da-sua propria lingua. Nace daqui tambem,

nam saber escrever uma carta, ou formar qualquer outro discurso, que

posa persuadir. Finalmente nace, o nam saber discorrer com propriedade,

em materia alguma. Leia V. P. as cartas que se-acham de Frei _Pedro

de Sá_, e Frei _Lucas de Santa Catarina_, e outros semelhantes: leia

os seus discursos: e verá, que cartas, orasoens, sermoens &c. tudo é

o mesmo. Nam se-acha mais, que equivocos, palavras sem significado,

pensamentos inverosimeis, encarecimentos inauditos, em uma palavra, uma

lingua nova, que serve para toda a sorte de asumtos, sem distinsam.

Os ignorantes gostam muito disto, e copeiam esta sorte de papeis, com

todo o cuidado, e acumulam quantos podem: mas os que verdadeiramente

intendem a materia, nam podem menos que rir-se, de tais escritos;

dos-quais toda a alma cristan deve fugir, como contrarios, à boa

eloquencia. A razam de tudo isto é a mesma: porque quem bebe aquele

estilo, de sutilezas, afetasoens, e singularidades; nam sabe distinguir

os estilos, proprios dos-diversos argumentos, que se-lhe-oferecem: e

asim nam sabe, nem pode fazer coiza boa, nem chegar a persuadir ninguem.

É uma prova manifesta disto, a infinita distancia que eles poem, entre

sermam funebres na Igreja, e orasam funebre na Academia. Nesta nam á

tema: comumente nam á divizam de pontos: nam á textos da-Escritura: á

menos sutilezas: e acha-se um discurso continuado, ainda-que cheio de

mil impropriedades, e ridiculos encarecimentos: No-outro acha-se tudo

o contrario. De que provèm esta grande mudansa? eu o-direi: De nam

saber, o que é Retorica: porque os preceitos em ambas as partes, sam os

mesmos. No-pulpito, poso uzar de mais asám do-corpo; e animar com a voz

o discurso: na-academia recito com mais brandura. Mas o papel em ambas

as partes é o mesmo: e doque se-faz na academia, podiam eles inferir, o

que devem fazer no-pulpito.

Porem aqui me-parece, que ouso dizer a V. P. que ja que apontei os

defeitos, aponte o modo de os-emendar. Mas isto; P. muito reverendo,

nam é negocio que se-posa fazer, com tanta brevidade, pois pediria um

tratado inteiro. O que tenho dito, bastava para um omem de juizo: e a

lisam dos-bons autores, completaria tudo. Contudoiso, para obedecer

a V. P. nam deixarei de fazer alguma reflexam, adquerida parte com a

lisam dos-outros, parte com a minha propria experiencia, e reflexam: as

quais V. P. aplicará, aos cazos particulares. Mas como isto pede mais

tempo, quero rezerválo para outra carta: e acabo esta, com pedir a V.

P., me-conserve na sua grasa. Deus guarde &c.

[Illustração]

NOTAS DE RODAPÉ:

[30] _Quia nonnulli Sacrarum scripturarum verba & sententias, ad

profana quæque detorquent; ad scurrilia, scilicet, fabulosa, vana,

adulationes, detractiones, superstitiones, impias & diabolicas

incantationes, divinationes, sortes, libellos etiam famosos: ad

tollendam bujusmodi irreverentiam, prohibet S. Synodus, ne quisquam

quomodolibet verba scripturæ Sacræ ad hæc, & similia audeat usurpare:

atque bujusmodi temeratores & violatores verbi Dei, juris & arbitrii

pœnis per Episcopos coerceantur._ Trident. Sess. I.

[31] _Diodor. Sic. l. 1. sect.2._

[32] _Exodi XIII._ 18.

[33] חמשים

[34] _Rupert. in Johann._ I. = _Tostat. in Matth. X._ = _Jansen._ =

_Alapide Harm. in Johann._ I. _&c._

[35] _Aug. in Johann. Homil._ 7. _& in Ps._ 65.

[36] _In Job. XXXII._ 15.

[37] _XXI._ 25.

[38] _Ad Philipp. II._ 6.

[39] _Est autem quid deceat oratori videndum, non in sententiis

solum, sed etiam in verbis. Non enim omnis fortuna, non omnis honos,

non omnis auctoritas, non omnis ætas, nec vero locus, aut tempus,

aut auditor omnis, eodem aut verborum genere tractandus est, aut

sententiarum: semperque in omni parte orationis, ut vitæ, quid deceat,

est considerandum: quod in re de qua agitur positum est & in personis

eorum, qui dicunt, & eorum, qui audiunt_ =. Cicer. Orat. num. 21.

[40] _Atque illud primum videamus, quale sit, quod vel maxime

desiderat diligentiam, ut fiat quasi structura quædam, (verborum) nec

tamen fiat operose: nam esset cum infinitus, tum puerilis labor._

Cicer. Orat. num. 44.

[Illustração]

CARTA SEXTA.

SUMARIO.

_Continua-se a mesma materia da-Retorica. Fazem-se algumas reflexoens,

sobre o que é verdadeira Retorica, e origem dela. Que coiza sejam

figuras, e como devemos uzar delas. Diversidade dos-estilos, e modo de

os-praticar: e vicios dos-que os-nam-admitem, e praticam. Qual seja o

metodo de persuadir. Qual o metodo dos-panegiricos, e outros sermoens.

Como se-deve ensinar Retorica aos rapazes, e ainda aos mestres.

Algumas reflexoens, sobre as obras do-P. Antonio Vieira._

Nam intenda V. P. que ei-de faltar à promesa: pois nam só com

promtidam, mas com muito gosto executarei nesta carta, o que prometi

na ultima: e direi o como se-devem intender, as coizas que dise,

para emendar os defeitos, que nestes Retoricos vulgares s’incontram:

e que eu apontei na carta pasada. Digo pois, que o primeiro, e mais

importante ponto que deve advertir, quem quer formar, o bom gosto

literario, é, fugir totalmente destas Retoricas comuas, nam só

manuscritas, mas tambem impresas. Estou persuadido, que elas sam a

primeira ruina dos-estudos: porque inspiram mui maos principios, e nam

ensinam o que devem. Ouso louvar muito nestes paîzes, o _Candidatus

Rhetoricæ do-P. Pomei_, _o Ariadne Rhetorum do-Juglar_ &c. e mestres

conheso eu, que nam tem mais noticia da-Retorica, que a que dá o dito

livro, ou outro semelhante. Isto porem é mera iluzam: porque para

nam saber nada, nam á melhores livros, que os ditos. Estes, e outros

tais autores, fazem uma enumerasam das-partes da-Retorica, mui seca e

descarnada. propoem mil questoens, e nam rezolvem nenhuma bem. todo

o livro consiste em divizoens, e subdivizoens, que enfadam antes de

s’intenderem. Mas o pior é, quando ensinam a servir-se, dos-lugares

Retoricos: quando mostram os diversos modos, de ampliar um argumento:

dizem mil coizas inutis, e que mais facilmente s’aprendem, lendo os

bons autores, que estudando as tais observasoens.

Este em carne é o defeito, em que caiem os Logicos Peripateticos,

quando se-dilatam muito, sobre _a fórma silogistica, e ponte

dos-asnos_: despois de dizerem muito, sam obrigados a reconhecer, que

nada daquilo serve, para coiza alguma: e que na pratica do-argumentar,

nam só sam inutis, mas até imposiveis as tais regras. Nam achei até

aqui Peripatetico algum, que, devendo em algum ato publico, provar

de repente alguma propozisam, que lhe-duvidasem; se-servise de tal

metodo: nem menos achei omem algum, que, senam intendeo, e estudou

bem a materia, que á-de tratar; servindo-se unicamente dos-lugares

Retoricos, fizese coiza capaz. Chama-se perder inutilmente o seu tempo,

querer ensinar todas aquelas arengas: das-quais unicamente rezulta,

a desvanecida opiniam de uma ciencia, que nam tem. Os rapazes que

estudáram aquilo, persuadem-se, que sam Retoricos da-primeira esfera:

que podem, com a ajuda de quatro adjetivos e sinonimos, e quatro

descrisoens afetadisimas, arengar de repente, em qualquer materia.

Intendem, que nam á orasam, que nam observe a dispozisam, que eles lem

na sua Retorica. julgam, que nam á discurso oratorio, sem todas aquelas

mexerofadas. Finalmente, como nam lhe-explicam, o verdadeiro uzo

da-Retorica, e artificio da-verdadeira eloquencia; persuadem-se, que

só nos-discursos academicos, tem ela lugar. De que nace, que despois

de perderem bem tempo nas escolas, a que chamam de Retorica, ficam

totalmente ignorantes dela.

Isto suposto, é necesario desterrar uma, e admetir outra sorte de

Retorica. Ja asentamos, que a Retorica deve ser em Portuguez, para os

que nacèram em Portugal: porque, asim s’intendem os preceitos: e na

sua mesma lingua se-mostram, os exemplos. Nam avemos de carregar os

rapazes, com dois pezos: intender a lingua, e intender a Retorica:

tambem nam avemos fingir os Omens, como nam sam; imaginando rapazes

mui agudos, e espertos. Tudo isto é iluzam. Os rapazes sam de diversas

capacidades: e muitos sam rudes. comumente aprendem Retorica, quando

ainda nam intendem bem Latim. E asim, é necesario falar-lhe em

Portuguez: muito mais, porque ou queiram ser Pregadores, ou Advogados,

ou Istoricos &c. tudo isto se-faz cá em Portuguez: e é loucura ensinar

em Latim uma coiza, que pola maior parte, se á-de executar, em Vulgar.

Esta é a primeira regra do-Metodo, facilitar a inteligencia. Nam tenho

até aqui visto, (pode ser que aja) Retorica Portugueza impresa. Certo

sugeito mostrou-me á tempos, alguns apontamentos que fizera: mas nam

mereciam o nome de Retorica. tenho visto varios livros de conceitos:

mas nam era coiza, que merecese ler-se. Sei porem, que atualmente

se-copeia, uma Retorica Portugueza, que me-parece propria para formar,

o bom gosto da-Eloquencia. Um amigo meu mui particular a-compoz, para

uzo seu. pedio-me noticia, dos-melhores autores nesta materia: e deles

copiou, o que conconduzia, para o seu intento. uzou comigo a amizade,

de consultar-me na dispozisam dela. teve a moderasam de ouvir, e nam

desprezar, as minhas reflexoens. cuido que felizmente conseguio, o seu

intento: devo fazer esta justisa, à sua grande capacidade. Nam sei, se

a-determina divulgar: o que se puder ser, procurarei de a-comunicar

a V. P. seguro, de que nam lhe-dezagradará. Mas, tornando ao fio

das-minhas reflexoens:

Ja dise ao principio, que sendo a Retorica, arte de persuadir, tinha

lugar em todo o discurso, que seja proferido com este fim. Doque

se-segue, que a Retorica tem tanta extensam, quanta qualquer lingua:

o que muitos nam intendem, ainda dos-que lem as Retoricas. Parece

paradoxo a muitos, destes enfarinhados nos-estudos, dizer-se, que n’uma

carta, que é escrita com estilo simplez; n’uma Poezia, na Istoria, e

n’um discurso familiar &c. deve ter lugar a Retorica. E isto provèm de

intenderem, que a Retorica consiste, em figuras mui dezuzadas, tropos

mui estudados &c. e asim parece-lhe, que nam se-caza uma coiza com

outra. Mas por-pouco que estes tais, examinasem a materia; conheceriam,

que tudo se-deve tomar, em diverso sentido.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 15 / 32 段