Se o sermam é do-Ato da-Fe, comumente declinam para dois extremos: ou

nam chegam a dizer, o que devem; ou dizem muito mais, do-que nam devem.

O Santo Oficio justamente manda pregar, àqueles omens penitenciados,

para os-alumiar na sua cegueira: e esta é uma ideia sacrosanta. Mas

eu nam sei, se os tais Judeos ficam persuadidos: o que sei é, que

os sermoens que eu leio, nam sam proprios, para os-persuadir. Avemos

asentar em primeiro lugar nisto, que estes Judeos Portuguezes, sam

ignorantisimos diso mesmo, que querem profesar. Nam sabem mais, senam

que o Sabado se-deve guardar: e outras noticias gerais. de lingua

Ebraica nada sabem: menos de Caldaica: que sam as duas linguas, em

que estam escritos, os ritos e costumes Judaicos. Isto é sem duvida:

e quem ouve os procesos, conhece claramente, qual é a sua ignorancia

neste ponto. Quanto à ignorancia dos-ritos Judaicos, nam é necesario

alegar, testemunhas Orientais, nem ir buscar os Rabinos, _Maimonides_,

_Jacob Baal-aturim_, _Joseph Caro_ &c. basta que V. P. leia o

_Sigonio_, _Menochio_, _Cuneo_, _Reimero_, _Spencero_, que escrevèram

eruditamente, _de Republica Hebræorum_: ou algum dos-outros, que

tratáram das-escolas, e ritos, como _Selden_, _Godvvin_ &c. e ficará

mui bem persuadido, que estes seus Portuguezes, nam sabem que coiza é

ser Judeo: e sam Judeos, mais por-genio depravado, que por-erudisam.

Isto suposto, alguns Pregadores, como o Cranganor, para mostrarem a sua

erudisam Rabinica, entram em certas materias dificultozas, e procuram

noticias mui particulares, tiradas dos-que impugnáram os Rabinos; para

mostrarem aos Judeos, o seu ingano. Copeiam fielmente, toda a noticia

que se-lhe-oferece, na tal materia: nam sem se-inganar algumas vezes,

como sucedeo ao dito Cranganor; que por-nam ter inteligencia, das-ditas

linguas, nem da-istoria Judaica, nem ter nunca aberto o Talmud;

servio-se algumas vezes de argumentos, que tem mui boas respostas.

(devemos confesar em obzequio da-verdade, que entre os Ebreos

ouveram sempre, omens mui doutos, que propuzeram tais dificuldades

sobre a Escritura, que fazem suar muitos Catolicos doutisimos, para

lhe-responder. onde sem exquizita erudisam, é melhor nam tocar,

semelhantes materias) Finalmente à forsa de ajuntarem noticias, em

lugar de um sermam, fazem um tratado _Contra Judæos_. O que digo,

com boa paz do-dito Arcebispo, e seus apaixonados: porque nam quero

diminuir-lhe a estimasam: mas somente trazelo para exemplo, do-que

aponto.

O que se-segue daqui é, que com todo este trabalho, nem fazem sermam,

nem podem persuadir; pois nam proporcionam as provas, ao asumto. Porque

inculcar erudisam Rabinica, a omens totalmente ignorantes destas

materias, é manifestamente zombar do-seu emprego, e do-auditorio: e

tanto vale isto, como se lhe-pregasem em Persiano, ou discorresem em

diferente materia. Alem diso, á grande diversidade, entre uma disputa,

e um sermam; entre uma disertasam, e uma exortasam: e perde o seu tempo

e a sua fama, quem confunde estes dois nomes, e o significado deles.

Ora eisaqui tem V. P. o que fazem estes, com quererem dizer muito.

Os outros, que asima apontamos, seguirem diversa estrada, nam sei

se os-chame, mais condenaveis. Estes sam aqueles, que querem pregar

aos Judeos, polo estilo dos-outros sermoens, com conceitos sutis, e

pensamentos exquizitos. E nam é necesario muito para intender, que se

os Catolicos Romanos, que estudamos aquela doutrina, que eles inculcam;

os-nam-intendemos, e nos-dezagradam muito; que coiza sucederá, aos

Judeos? Ouve às vezes V. P. propor um asumto, que parece ao intento:

segue com o pensamento, o Pregador no-seu discurso: e quando nam

se-precata, este o-dezempára, e infere uma consequencia tal, que obriga

a rir. Seguro a V. P. que, tendo lido alguma coiza nesta materia, e

tendo observado muito; somente neste genero achei, um sermam Portuguez,

que se-pudese ler: aindaque tambem carregava no-silogismo, e intrava

bem dentro na Metafizica: mas foi o que vi menos mao.

Mas, colhamos as velas, parece a V. P. que este modo de pregar é

louvavel, ou toleravel? parece-lhe, que está fóra da-jurisdisam, de

uma arrezoada critica? O nam proporcionar as provas ao auditorio, ou

seja dizendo-lhe, o que eles nam chegam a intender; ou falando-lhe com

ideias, de que ninguem se-pode persuadir; é erro da-primeira esfera.

Temos outro modo de pregar, aos Ebreos idiotas, deixando de parte,

toda a verdade especulativa, e servindo-se unicamente, de exemplos

sensiveis: os quais, bem discorridos, produzem efeitos, que talvez

se-nam-alcansam, com erudisam mui exquizita.

De todos os argumentos, que se-oferecem para persuadir, a extinsam

da-Antiga igreja, deve o orador escolher, os menos embrulhados; e

persuadilos, com a forsa da-sua eloquencia. Niso é que consiste a

arte, em dilatar os argumentos, que nam sam reconditos. A vinda de

Cristo ao mundo, é oje bem clara: e para o-ser mais, é necesario ter

cuidado, em dispor os-argumentos, e fugir das-sutilezas. Nam á verdade

mais notoria, que a existencia de um Deus: e é observasam dos-melhores

Filozofos, e Teologos, que os antigos Padres para a-provarem, nam

se-serviam de sutilezas inauditas: mas contentavam-se com a prova mais

trivial, que é, a existencia do-Mundo, e principalmente deste noso

globo terreste. Esta unica prova, bem explicada e esmeusada, convenceo

o intendimento umano muito mais, doque nam fizeram, despois do-undecimo

seculo, todas as sutilezas dos-Dialeticos: e ainda oje os melhores

Filozofos asentam, que só nela nam se-acham sofismas. Isto é ao que nós

chamamos, saber conhecer o merecimento das-provas, e saber manejar a

eloquencia. Mas os nosos Pregadores, intendem o contrario: e só cuidam

em procurar ideias, que a ninguem tenham ocorrido: e por-iso nacem

aqueles sermoens, de que o mundo Literario se-ri.

A outra especie de sermoens, em que com mais facilidade, se-dizem

despropozitos, sam os Panegiricos de Santos. Esta especie compreende,

muitas sortes de sermoens: nos-quais á infinitas coizas, que condenar.

Ouvirá V. P. coizas, que cauzam orror. v.g. Devem pregar um sermam de

S. Antonio: em que deviam referir, as virtudes do-Santo: ilustrálas

com o artificio da-Retorica; para animar os fieis a imitálo. Mas isto,

que era a obrigasam do-Panegirista, parece coiza mui trivial, aos

Pregadores modernos. Julgariam que ficavam dezacreditados, se-dizesem

só esta verdade. É necesario levantar machina: e fazer uma trepesa,

composta de mil ridicularias. Dividem pois o sermam, nas-trez partes

solitas: em cada uma das-quais prometem provar coizas, que nada tem

de verosimel. v.g. Que S. Antonio nam foi omem, mas anjo: e a este

seguem-se outros pontos, damesma especie. Concluem pois, que se a

Fé nam estudáse cautelas, chegariam a dizer, que se equivocava com

Deus. Eu tenho ouvido isto, algumas vezes: e contou-me pesoa de muita

autoridade, que ouvira ele mesmo, em certa Cidade do-Reino, propor

estes trez pontos: Que o Santo de que pregava, era grande omem: grande

anjo: e grande Deus. e que tudo isto avia de sair, do-Evangelho. E

segurou-me a dita pesoa, que, ouvindo isto, saîra da-igreja, sem querer

esperar polas provas: tam escandalizado ficou!

Lembra-me ao intento, o que escreve um autor, mui acreditado em

Portugal. Pregava ele de S. Antonio, com o costumado tema, _Vos

estis lux mundi_: e querendo dizer alguma coiza singular, tirou este

asumto: ==_Que uma vez que S. Antonio naceo em Portugal, nam fora

verdadeiro Portuguez, se nam fora luz do-mundo. porque o ser luz

do-mundo nos-outros omens, é só privilegio da-Grasa: nos-Portuguezes, é

tambem obrigasam da-Natureza_==.Pareceo-me argumento nam só singular,

mas inaudito, querer fazer que os Portuguezes, fosem Apostolos

por-natureza: muito mais, porque se o Pregador prováse o que prometia,

tam longe estava, de fazer ao Santo um Panegirico, que lhe-preparava

uma Satira: e desmentia com as suas provas, aquelas singularidades,

que queria descobrir no-Santo: pois quando muito se-diria, que pregava

de todos os Portuguezes. Com esta opiniam examinei as provas: as quais

se-reduziam a isto. Que Cristo constituira os Portuguezes, Apostolos

das-Nasoens estrangeiras: e que asim o-prometèra, a El-Rei D. Afonso

I. e, como se nam ouvèse, quem negáse tal coiza, chama-lhe _verdade

autentica_. A isto acrecenta, uma profecia de S. Tomé, (nam sei em

que archivo a-achou) que os Infieis se-conquistariam na India, com as

armas de Portugal: nam com as de ferro, mas com as do-escudo, que sam

as Quinas: as quais Cristo, diz ele, deu aos Portuguezes, por-armas.

E como S. Antonio era Portuguez, avia conquistar Infieis, como fez: e

avia conquistálos com as Quinas: que nam só de Portugal, mas tambem sam

as armas, da-minha Religiam.

Pareceo duro ao Pregador dizer, que os Indios se-aviam conquistar

com as _Quinas_, e nam com as espadas: mas a isto, achou ele genuina

solusam, na saida que os Ebreos fizeram, do-Egito. Pondéra, que,

sendo-lhe proibidas as armas, diga a Vulgata[32]: _Armati ascenderunt

filii Israel de terra Aegypti_==. Examina pois, que armas eram estas:

e logo as-acha, no-original Ebreo, que diz: _Ascenderunt filii Israel

quini, & quini_== A sim, diz o Pregador, saîram os Ebreos com _quinas_;

pois esas lhe-servirám de armas, _ascenderunt armati_. Confirma isto,

com as cinco pedras de David, das-quais afirma, que eram as cinco

chagas de Cristo, tiradas da-torrente do-seu sangue, com as quais

derrubou o gigante. Esta é a virtude das _quinas_. Por-iso S. Antonio

seguio as bandeiras das-_quinas_, para mostrar que era Portuguez,

derrubando com elas, o Filisteo da-Erezia. Até aqui o Pregador.

Esta em sustancia é a primeira prova do-dito sermam; na qual achará V.

P. materia, para mil reflexoens. Deixo as istoricas, pois é bem claro,

que sam mui ligeiras provas, para afirmar tal paradoxo. Esta aparisam

ao Rei D. Afonso: a redoma de vidro cheia de olio, que veio do-Ceo a

Clodoveo: e outras destas coizas, que se-acham nas istorias, sam boas

para divertir rapazes: e os Criticos as-conservam todas, no-mesmo

armario, em que guardam as penas da-Fenix. Mas nam poso perdoar-lhe, a

má interpretasam, e aplicasam do-texto. Este autor certamente nam leo o

texto Ebreo, ou se o leo, nam o-chegou a intender: porque o texto diz

uma coiza, muito diferente, doque ele supoem. É verdade, que o texto

Ebreo serve-se de uma palavra,[33] que em Latim quer dizer, _Quintati_:

como se diseramos, de _cinco em cinco_: mas este modo de falar nam

é proprio; é translato, e deduzido do-estilo belico. Donde vem, que

explicando os antigos Ebreos, a dita expresam, asentam todos que quer

significar, _armados_. Só diversificam, para explicar particularmente,

a forsa da-dita palavra. _Kimchi_ diz asim: _Cingidos de armas, na

quinta costa._ outros explicam: _Cingidos com cinco generos de armas._

_Sepharadi_ verte: _Quinque turmis ascenderunt, sub quatuor vexillis.

Nam Moises cum senioribus Israel, in medio quatuor turmarum manebat._

Alem diso, todos os omens mais doutos na lingua Ebreia, expondo a dita

expresam, despois de porem o termo proprio e literal, que é _Quintati_,

acrecentam, id est, _Accinti_, _Expediti_: que é o mesmo que, _Armati_,

_Parati_. Desorteque com grandisima advertencia, o tradutor da-Vulgata

dise, _Armati_. E quer dizer o Ebreo, que os Israelitas saîram armados,

e em fórma de batalha; promtos para acometerem, e se-defenderem. E isto

é coiza certa, entre os doutos.

O que suposto, veja V. P. que parentesco tem isto, com as _quinas_.

Alem diso, suponhamos que verdadeiramente se-devia intender, de

_cinco em cinco_: que tiramos daqui para o intento? poderia dizer o

texto, que îam _quini, & quini_: mas nunca dise: _ideo armati, quia

quini & quini_: e é pesima Logica aquela, que de duas coizas sem

conexam, tira tal consequencia. Tambem é falso dizer, que os Ebreos

saîram dezarmados: quando lemos o contrario: pois nam só as batalhas

que deram, mas as obras que fizeram no-campo, mostram bem, que nam

só armas, mas toda a sorte de instrumentos, leváram do-Egito. Ja

nam falo na aplicasam da-profecia, a S. Antonio: pois se S. Tomè

falou das-Indias, que tem isto que fazer, com S. Antonio, que pregou

na Europa? Nam falo nas pedras de David, cuja aplicasam tem tanta

proporsam, como á entre um, e cinco.

Isto que unicamente disemos, basta paraque V.P. intenda, o conceito

que se-deve fazer, de semelhantes sermoens: os quais nada mais sam,

que um mero jogo de palavras, sem verdade, nem verosimilidade alguma:

e que se-desfazem em vento, quando, se-examinam de perto. Eu parei

no-primeiro ponto: avia ainda quatro que examinar: mas eses deixo eu, à

sua considerasam. Ora intende V.P. que o Santo fica elogiado, com tal

panegirico: que o auditorio ficará persuadido: que o Orador merece ser

louvado, por-tal sermam? Sei a resposta que V.P. me-á-de dar, porque

sabe dar às coizas, a sua justa estimasam: mas nem todos sam do-seu

parecer. e apostarei eu, e V.P. nam mo-negará, que mais gente estuda,

polo tal autor, doque pola Escritura, e SS. Padres.

O mesmo autor em outra parte, devendo pregar de S. Bartolomeo, e

sucedendo isto em uma Cidade, em que se-estava para eleger, um grande

Prelado, que nam tinha conexam com a festa; tomou por-tema estas

palavras, _de S. Lucas_: _Elegit duodecim ex ipsis, quos & Apostolos

nominavit_: e em vez de pregar de S. Bartolomeo, pregou das-obrigasoens

das-eleisoens: sem dizer em todo o corpo do-sermam, uma só palavra de

S. Bartolomeo. No-ultimo paragrafo, lembrou-se da-sua falta: e, para

remediar o cazo, diz mui secamente, que tudo o que disera, se-devia

aplicar, ao dito Santo. Porque sendo ele o sexto Apostolo, estava no

meio, que é o lugar de mais autoridade: E a razam disto era, porque

conrespondendo ele à 6.^a pedra da-nova Jeruzalem, que era o _Sardio_;

esta no-Racional de Aram, era a primeira: onde ficava claro, que o

sexto Apostolo, devia ser o primeiro. Acha nova semelhansa entre S.

Bartolomeo, e o _Sardio_: porque esta, segundo Plinio, é de cor de

carne viva: e conseguintemente, um belo retrato de S. Bartolomeo,

que ficou em carne viva, e sem pele. E tornando das-peles vivas, às

eleisoens, acaba o sermam, damesma sorte que o-comesou.

Progunto agora: que outra coiza avia ele dizer, se pregáse

das-eleisoens? Nam ignora V.P. que os sermoens panegiricos, pertencem

ao genero _demonstrativo_; e quem jamais pode sofrer, que um Orador,

que deve elogiar Pedro, faláse de Paulo? Julga V.P. que se-pode chamar

justa digresam, nam falar uma palavra no-asumto, para se-meter

em materîa alheia; e que por-titulo nenhum pertencia ao Pregador?

Mas examinemos ese pouco que diz, de S.Bartolomeo: eu nam acho ali

coiza, que nam seja inverosimel. Aquilo de querer, que S. Bartolomeo

fose criado Apostolo na 6.ᵃ eleisam, é falso; porque tal nam diz o

Evangelho. O que eu acho no-Evangelho é, que Cristo, despois do-jejum

de 40. dias, pasando defronte de Joam, e dizendo este: _Ecce Agnus

Dei_: dois seus dicipulos seguîram Cristo: um deles era André, que

incontrando de tarde, seu irmam Simam, o-conduzio a Cristo. No-dia

seguinte Cristo chamou Filipe: e este, incontrando Natanael, convidou-o

para seguir Cristo. Pouco despois, tornando Cristo de Cafarnaum,

tornou a chamar Simam, e André; que provavelmente se-tinham apartado

de Cristo, para exercitarem o seu oficio: e nunca mais se-apartáram

dele: e no-mesmo caminho chamou Jacob, e Joam. Se pois Natanael é o

mesmo que Bartolomeo, como alguns doutos modernos[34] conjeturam, com

muito fundamento; em tal cazo é o 4.ᵒ eleito: ou o segundo, fazendo

outra contra. Se Natanael é diferente de Bartolomeo, como diz S.

Agostinho[35], e Gregorio Magno[36], neste cazo devemos confesar, que

nam sabemos, quando foi chamado Bartolomeo. O certo é, que o Evangelho

nam explica, circunstancia alguma da-sua vocasam, e da-sua vida, com o

nome de Bartolomeo. Nem menos da-Istoria temos, como morreo Bartolomeo;

avendo grande disparidade de pareceres: aindaque a mais comua é, que

morrèse esfolado. O motivo que teve o Pregador foi, ver que em S.Lucas,

despois das-ditas palavras, nomeia-se em 6.ᵒ lugar Bartolomeo: e asim

intendeo, que foram todos eleitos, naquela ocaziam. Um bocadinho que

soubèse mais de Istoria, lhe-pouparia este erro, tam censuravel em um

Teologo. Mas aindaque isto asim fose; nam bastava para lhe-chamar, a

6.ᵃ eleisam, por-ser uma só: e muito menos deveria esta circunstancia,

dar materia a um sermam.

A outra coiza, que o 6.ᵒ Apostolo fose mais nobre, que o primeiro,

é uma ideia nova: o que só poderia intender-se, se puzese-mos os

Apostolos em linha, ou dobrase-mos a linha em angulo. Despois diso

seguirseîa, nam que o 6.ᵒ era mais nobre que o primeiro: mas sim,

que 6.ᵒ e primeiro era o mesmo. E ja em lugar de XII. que entam

se-nomeiam, se-reduzem os Apostolos a XI. Tambem aquilo de querer, que

S. Bartolomeo seja maior, que S. Pedro, nam sei se se-pode sofrer. Mas

pior que tudo é o cazo, da-pedra _Sardio_. Se esta, por-ser de cor de

carne, se-chama _carnerina_, tanta semelhansa tem com Bartolomeo, como

com os mais Apostolos: porque todos eram de carne, e carne vivente. Mas

o noso Pregador fundou-se na palavra, _viva_: que aplicada à carne,

significa em Portuguez, (mas nam na lingua de Plinio) carne sem pele:

e daî é que tirou o pensamento: que, como asima dizia, se-reduz, a

um mero jogo de palavras. Este é o costume destes Pregadores: quando

se-examinam as suas provas, com sangue frio; nada mais sam, que um

mero trocadilho de palavras, sem verdade, nem ainda verosimilidade:

sem a qual é certo, que ninguem se-pode persuadir. Ora eu podia citar

destes exemplos, a milhares, e sem sair do-mesmo Pregador: mas é coiza

enfadonha, e tambem escuzada, para quem, como V. P., tem tanta pratica

destes panegiricos.

Se o panegirico é de N. Senhora, parece a estes tais, que nam á coiza,

que nam seja licito dizer, em obzequio seu: Sem advertirem, que a

Santisima Virgem, se-daria por-mais bem servida, sem tais sermoens,

com a simplez relasam, das-suas grandes virtudes. O pior é, que á

autores, que fomentam estes sermoens, com livros bem grandes compostos

ao intento, a que chamam conceitos predicaveis. Os Espanhoes abundam

muito disto: e ajuntam uma infinidade de paradoxos, que cuidam provar,

com algumas expresoens figuradas, que se-acham nos-SS. Padres. Achei

um Espanhol, chamado _Bartolomeo de los Rios_, que compoz um groso

volume, todo tecido destas iperboles. Ele prova, que N.Senhora é meza

do-Sacramento: é pam: é vinho: é Cristo em carne. finalmente diz

tanta coiza insolita, que nam sei como puderam vir à imaginasam, de

um omem prudente. E tudo isto tira de umas iperboles, de S. Anselmo,

Bernardo, e alguns asceticos mais modernos. Estranho modo de provar!

servir-se das-figuras de que uzáram os Padres, separálas do-contexto,

para provar uma propozisam absoluta. Se valèse esta Logica, e Retorica,

com as mesmas palavras da-Escritura, se-poderia provar muita coiza

falsa, e ridicula. Nós temos em S.Joam, uma iperbole bem famoza.[37]

_Sunt autem & alia multa, quæ fecit Jesus: quæ scribantur per singula,

nec ipsum, arbitror, mundum capere posse eos, qui scribendi sunt,

libros_==. Quem daqui quizese provar mui seriamente, que uma livraria

grande como o Mundo, nam compreenderia, todas as asoens de Cristo,

serîa louco: porque todos os Padres intendem o texto, iperbolicamente:

e a Escritura abunda muito, destas expresoens. O mesmo digo,

das-expresoens figuradas dos-Padres. Comque, semelhantes autores sam

a origem, de todos estes danos: porque os ignorantes, que nam sabem

distinguir o branco do-negro, servem-se de semelhantes livros, como de

oraculos.

Mas, sem buscar exemplos de longe, tornemos ao meu Pregador asima, e

verá V.P. provas bem eficazes, do-que lhe digo. Pregava ele da-Asumsam

da-Senhora, na igreja de N. S. da-Gloria; com o tema, _Maria optimam

partem elegit_. Protesta em primeiro lugar, que nam lhe-agrada coiza

alguma, do-que tem dito os PP. e Expozitores todos: e que quer, coiza

mais fina. Os Padres o mais que diseram foi: Que Maria escolheo a maior

gloria, entre todos os bemaventurados. o noso Pregador parecendolhe,

que, dizendo aquilo, diziam uma bagatela; sobe de ponto, e diz: _Que

a comparasam de gloria a gloria, nam se-deve fazer só, entre a gloria

de Maria, e a gloria de todas as outras criaturas umanas, e angelicas:

senam com a gloria do-mesmo Criador delas, a quem Maria criou. A

palavra_ optimam (continua ele) _a tudo se-estende: porque sendo

superlativa, poem as coizas no-supremo lugar: do-qual se-nam-exclue

Deus, antes se-inclue esencialmente. Neste tam remontado sentido

pertendo provar, e mostrar oje, que a gloria de Maria, comparada com

a gloria do-mesmo Deus; e fazendo da-gloria de Deus, e da-gloria

de Maria, duas partes; a melhor parte, é a de Maria_==. Até aqui o

Pregador.

Bastava a propozisam do-asumto, para provar o que digo: mas peso a V.

P. um bocadinho de sofrimento, para ouvir a expozisam, e a primeira

prova. _Aindaque a gloria de Deus_, (diz ele) _é infinitamente maior,

que a de Maria; a melhor parte que pode escolher uma maen é, que a

gloria de seu filho seja a maior. Como Maria é maen de Deus, e Deus

filho de Maria; mais se-gloreia a Senhora, de que seu filho goze, esa

infinidade de gloria, doque se a gozára em si mesma. E daqui se-segue,

que considerada a gloria de Deus, e a gloria de Maria, em duas partes;

porque a parte de Deus é a maxima; a parte de Maria é a otima_==.

Posto isto, prova com _Seneca_, _Ovidio_, _Plutarco_, _e Claudiano_,

que os Filhos podem vencer os Pais, em beneficios, e em gloria: e que

isto é, o que mais deve dezejar um Pai. De que conclue: _Que se entre a

gloria de Deus, e de sua maen, fora a escolha da-mesma Senhora, o que a

Senhora avia escolher para si é, que seu Filho a-excedèse, e vencèse na

mesma gloria; como verdadeiramente a-excede e vence_==. Despois disto

produz alguns Padres, que, escrevendo a diversas pesoas, dezejavam,

que os Filhos deles excedesem aos proprios Pais: traz outros exemplos

da-Escritura; e conclue com uma prova teologica, que diz o contrario,

do-que ele quer provar. Este o sermam em breve: no-qual nam á pouco,

que observar.

Primeiramente o asumto que tira é tal, que se tivese a infelicidade,

de o-provar direitamente, dizia uma erezia. cauza orror somente ouvir

propolo. A explicasam é pior, que o mesmo asumto. N. Senhora nam podia

escolher uma coiza, emque nam entra liberdade: como é, ser a gloria de

um tal filho maior, que a da maen: porque iso era necesario. Teve a

Senhora liberdade para aceitar, ou nam aceitar, o ser maen de Cristo:

mas nada, de liberdade, sobre a gloria. Na supozisam imposivel, que

à Senhora desem a escolher, o tomar para si a gloria toda do-Filho;

ou contentar-se de ter um filho, que a-tivese asim; eu nam sei o que

a Senhora diria: nem pertence ao Pregador, advinhálo. É verosimel,

que a Senhora nam deixaria de escolher para si, uma gloria de tanta

dignidade. Mas de supozisoens imposiveis, que omem prudente tirou

jamais, consequencias absolutas? Fica logo claro, que aqui nam

ouveram, duas partes de gloria: entre as quais a da-Maen fose maior,

que a do-Filho. E quanto a estas sutilezas metafizicas, nam provam,

nem concluem coiza alguma, quando se-á-de persuadir, alguma coiza

verdadeira.

Quanto à prova teologica, é ela tal, que me-envergonho saise da-boca,

de quem estudou Teologia. Propoem as palavras de S. Paulo[38]: _Non

rapinam arbitratus est, se esse æqualem Deo: sed semetipsum exinanivit,

formam servi accipiens, in similitudinem hominum factus, & habitu

inventus est ut homo. propter quod & Deus exaltavit illum: & dedit

illi nomen, quod est supra omne nomen_==. Daqui deduz, Que recebeo o

Filho do-Pai, por-verdadeira e propria eleisam, o oficio e dignidade de

Redemtor do-genero Umano, fazendo-se juntamente omem: e com esta nova,

e inefavel dignidade, recebeo um nome sobre todo o nome, que é o nome

de _Jezus_: mais sublime e veneravel, polo que é, e polo que significa,

que o mesmo nome de Deus: _In nomine Jesu omne genu flectatur._

Recebeo a potestade judiciaria: _Pater non judicat quemquam: sed omne

judicium dedit Filio._ Recebeo o primeiro trono, entre as pesoas

da-SS. Trindade: _Dixit Dominus Domino meo, sede a dextris meis._ Se

pois o Padre podia tomar tudo isto para si, porque o-nam-tomou todo?

por-nenhuma outra razam, senam porque era filho.... intendendo, que

quando fosem de seu filho, entam eram mais suas: e que mais e melhor

as-gozava nele, que em si mesmo==. Sam palavras do-Pregador. Aplica

isto à Senhora, e conclue, Que por-iso elegeo a melhor parte: _Maria

optimam partem elegit._

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 14 / 32 段