os estudos, das-escolas baixas. Sei que V.P. tem gosto, de ouvir-me
falar dos-outros: e me-faz a merce nesta sua dizer, que imprime as
minhas cartas, na memoria: mas sei tambem, que de todos os estudos
das-Umanidades, de nenhum tem mais empenho, que da-Retorica.
Pois se bem me-lembro das-nosas conversasoens, conheci entam em
V. P. um ardente dezejo, de me-ouvir falar nesta materia; e de
querer instruir-se, dos-particulares estilos de Retorica, e muito
principalmente dos-sermoens, de outros paîzes: porque me-dise, que
nam lhe-agradava, o estilo deste Reino: o qual muitas vezes seguîra,
por-necesidade. Nesta carta direi brevemente, o que me ocorre, sobre os
defeitos, e tambem sobre o modo de os-evitar.
A Retorica naceo na Grecia, como todos os outros melhores estudos: e
de la se-espalhou, polas mais partes da-Europa. É mais moderna, que
a Gramatica: mas teve a mesma origem. Querendo os omens na Grecia,
persuadir aos Povos, varias coizas; foi necesario que observasem,
como eles se-persuadiam: e quais eram os meios, comque se-moviam, as
paixoens do-animo. De que naceo esta arte, a que chamam Retorica:
que é quazi tam antiga, como a Filozofia; quero dizer, que comesou a
florecer, despois da-metade do-quarto milenario. Agradou esta erudisam
aos Romanos, que se-reguláram polo mesmo metodo: e tanto se-entregáram
a ela, que, se nam excedèram aos Gregos, na ciencia; sem duvida
excedèram-nos na aplicasam, e exercicio: porque na verdade chegáram a
namorar-se, da-sua galantaria, e utilidade. Dos-Romanos a-recebèram os
outros Povos, e Nasoens: entre as quais as que mostráram mais juizo,
aplicáram-se a ela com cuidado, polos mesmos motivos.
E, na verdade, nam á coiza mais util, que a Retorica: mas nam á alguma,
que com mais negligencia se-trate, neste Reino. Se V.P. observar, o
que os mestres ensinam nas escolas, achará, que é uma embrulhada, que
nenhum omem, quanto mais rapaz, pode intender. Primeiramente, ensinam
a Retorica, em Latim. Erro consideravel: porque nada tem a Retorica,
com o Latim: sendoque os seus preceitos compreendem, e se-exercitam em
todas as linguas. Daqui nace o primeiro dano, que é, que os rapazes
nam a-intendem, porque ainda nam intendem Latim: e nace tambem o
primeiro engano, que é, persuadirem-se os ditos rapazes, que a Retorica
só serve, para as orasoens Latinas. Asim me-respondèram muitos, nam
sò rapazes, mas tambem sacerdotes. Do-que eu conclui, que saiem
da-Retorica, como nela intráram: e examinando as Retoricas, que eles
aprendem, fiquei tambem persuadido, serem elas tais, que nam podiam
produzir, outro fruto.
E, valha a verdade, nam só os rapazes que estudam, mas nam sei se os
mesmos mestres, vivem persuadidos desta razam: porque observo, que
falando-lhe muito, em exemplos Latinos, nam se-servem dos-vulgares,
para mostrar o artificio da-Retorica. Como se os preceitos só servisem,
para compor Latim, e orasoens estudadas: ou como se nas linguas
vulgares, nos-discursos familiares, nam pudesem ter lugar, os preceitos
da-Arte! E com isto ficam novamente persuadidos os estudantes, que só
para orasoens Latinas, serve a Retorica.
Mas por-pouco que se-examine, o que é Retorica, acharseá, que é _Arte
de persuadir_: e por consequencia, que é a unica coiza, que se-acha, e
serve no-comercio umano; e a mais necesaria para ele. Onde quem diz,
que só serve para persuadir na cadeira, ou no-pulpito; conhece pouco,
o que é Retorica. Confeso, que nos-pulpitos, e cadeiras faz a Retorica
gala, de todos os seus ornamentos: mas nam se-limita neles: todo o
lugar é teatro para a Retorica. Nam agrada um livro, se nam é escrito
com arte: nam persuade um discurso, se nam é formado com metodo.
finalmente uma carta, uma resposta, todo o exercicio da-lingua,
necesita da-diresam da-Retorica. A mesma Filozofia, serve-se utilmente
da-elegancia. A Teologia tem necesidade dela; porque (como adverte um
omem douto) nam pode explicar as verdades espirituais, que sam o seu
objeto, senam vestindo-as de palavras sensiveis, com que as-persuada.
A Lei ou Civil, ou Canonica, nam se-pode dispensar, da-Retorica.
Como á-de orar um Advogado, informar o Juiz, defender o Reo; se ele
nam sabe, em que lugar devem estar as provas, ou de que prova á-de
servir-se, para aclarar a verdade da-sua cauza, e excitar os afetos
do-Juiz? Como á-de compor uma escritura, se ele nam sabe, o metodo
de a-tecer, de dilatar os argumentos, e servir-se das-suas proprias
razoens?
O discurso de um omem despido de todo o artificio, nam pode menos, que
ser um Cahos. Poderá ter boas razoens: excogitar provas mui fortes:
mas se as-nam-sabe dispor com ordem, quem poderá intendèlo? quem
se-persuadirá delas? A dispozisam das-partes, dá nova alma ao todo:
convida a conhecer as proporsoens: mostra a relasam e dependencia, que
umas tem das-outras: coloca na sua justa proporsam, o que de outra
sorte nam se-poderia intender. Os diamantes, os rubis, e outras pedras
preciozas sam belas, e servem de grande ornamento: mas segundo o lugar
em que estam. Encastoadas com artificio, mostram toda a sua galantaria,
e dam novo lustre à mesma prata, e oiro que as-rodeia; e ornam muito
as pesoas, que as-trazem: postas porem sem ordem em um monte, ou
misturadas com outras pedras, nam parecem preciozas, mas ou pedras
groseiras, ou cristais. Os astros, que compoem a beleza do-Universo,
nam tem em si mesmos, beleza alguma: mas a proporsam os-faz vistozos.
Quem vise a Lua de perto, acharia um globo, sem diversidade alguma
deste terreste: o mesmo digo, dos-outros planetas opacos. Quem
examináse de vizinho o Sol, nam veria mais, que uma fogueira: o mesmo
digo, dos-outros igneos. Mas todos estes vastos globos, postos na sua
justa proporsam, fazem tal efeito, mostram tam extraordinaria beleza;
que é um famozo argumento, para ver, a suprema mam que os-criou. O Sol
posto no-centro do-Universo, segundo a ipoteze (que agora suponho) de
Copernico, dá luz aos mais planetas, alma ao Mundo, vigor à terra,
utilidade aos omens, e gloria ao seu criador. Se se-chegáse mais
vizinho a nós, queimaria tudo: e acabava-se o Mundo. E eisaqui o
efeito, da-boa proporsam e ordem.
Um omem douto advertidamente chamou à Retorica, a _Perspetiva
da-razam_: porque na ordem inteletual faz o mesmo, que a Perspetiva,
nas distancias locais. Em uma taboa liza, ideia a pintura um palacio,
com imensa profundidade: e muitas vezes com tal artificio, e tam
semelhante ao natural, que se-enganam os olhos. Nam sam as cores
que originam, esta delicioza equivocasam; porque com uma só cor,
se-consegue o mesmo intento: mas a dispozisam das-partes, o saber
pór cada uma na sua justa distancia, o saber-lhe dar as sombras, com
proporsam da-arte, produz este maravilhozo efeito: e faz que eu veja,
reconhesa, e admire, o que de outra sorte nam poderia ver. Este mesmo
é o cazo da-Retorica. Ela tem forsa tal, que me-obriga a descobrir, o
que eu de outra sorte nam verîa. Os materiais podem ser simplezes, as
razoens mui singelas; mas a dispozisam delas fará efeitos tais, que
sem ela nam se-conseguiriam. eu verei, e intenderei, o que sem ela nam
é facil intender. Ora de toda esta doutrina se-conclúe, a extensam
da-Retorica: porque sendo ela a que dá alma, a todos os discursos; e
novo pezo, a todas as razoens; fica claro, que tem lugar em toda a
parte, em que se arrezoa e discorre.
Dirmeám, e ja mo-diseram alguns, que este discurso é dirigido, a
introduzir um estilo afetado nas conversasoens; e carregar todos com
o pezo, de falar por-_tropos_ e _figuras_: nam proferir discurso, que
nam seja segundo as regras da-arte: cuja afetasam é pior, que falar
sem Retorica. Mas esta objesam é igualmente distante, da-boa razam,
que do-meu intento; e é unicamente fundada, em nam saber, que coiza
é Retorica. Permita-me V.P. que eu me-dilate alguma coiza, neste
particular, para explicar o que digo, o que devo, e livrar a muita
gente, deste prejuizo.
Os rapazes, que estudam nestes paîzes, nam sabem nada de Retorica,
porque lha-nam-ensinam: Os que sam adiantados, e continuáram os
estudos, sabem ainda menos; porque bebèram principios, tam contrarios à
boa razam, que ficam imposibilitados, para se-emendarem. Em todo este
discurso protesto, que nam falo daqueles omens, que com raro juizo, e
fina critica se-dezenganáram, das-preocupasoens comuas, e seguem outra
estrada: dos-quais eu conheso alguns: falo somente do-Comum, e falo
fundado nas suas obras: nas quais se-reconhece a verdade, de quanto
digo. Estam todos persuadidos, que a Eloquencia consiste na afetasam,
e singularidade: e, por-esta regra, querendo ser eloquentes, procuram
de ser mui afetados nas palavras, mui singulares nas ideias, e mui fóra
de-propozito nas aplicasoens. Tem V.P. mui belo exemplo nos-sermoens:
que eu, para maior clareza, dividirei em varias especies.
Encomenda-se um sermam v.g. de Exequias, de um General. O meu bom
Pregador mostra aqui, todo o seu ingenho, e eloquencia. Saie logo um
texto da-Escritura, para tema: e á-de ser do-testamento Velho, porque
á-de ser profetico. No-sermam mostra o Pregador, que estava revelado,
na escritura da-Antiga igreja, que aquele General avia fazer famozas
asoens: e nam só asoens _in genere_ eroicas, mas especialmente estava
revelado, que avia ganhar a batalha do-Canal, ou das-Linhas de Elvas.
E isto estava profetizado, com tanta individuasam, que nam se-podia
dezejar mais. Despois, vai recolhendo as outras profecias, da-vida
daquele General. Mostra, que a batalha de Saul contra os Filisteos,
era figura da-grande batalha, que o seu eroe ganhou. Se sucedeo, que
nesta batalha algum piquete, dése principio à asám; se era em partes
montuozas; nam deixa de observar, que tudo iso tinha ja sucedido a
Jonatas, e ao seu escudeiro: onde vem, que até aquela circunstancia,
estava profetizada. Pasa adiante, e comesa a levantar, e requintar
pensamentos. Diz, que o seu eroe, era maior que Saul, nam só de corpo,
mas tambem de animo: que era mais afortunado que David: mais prudente
que Salamam: E se nam á logo um texto claro, com que se-prove isto, nam
falta um expozitor, que diga uma palavra, da-qual o Pregador conclue
manifestamente, que o texto nam se-pode intender, de outra sorte.
Daqui pasa um pouco mais para baixo. Mostra, que Alexandre Magno, em
sua comparasam, era um ridiculo: que o seu eroe tinha um corasam, ao
menos, como metade da-America: que fez coizas, que a ninguem vieram
à imaginasam: e que somente a ele se-pode aplicar o, _Siluit terra
in conspectu ejus_. Se tem alguma noticia de-Istoria, nam deixa de
mostrar, que Julio Cezar, Paulo Emilio, Quinto Fabio, Anibal, Pirro,
&c. podiam ser seus dicipulos. E outras coizas destas, que se o dito
General fose vivo, e as-ouvise, nam podia deixar de envergonharse, de
tal panegirico. Isto quanto ao asumto. Quanto à dispozisam: Despois
de um grande exordio, e comumente improprio, divide o sermam em trez
pontos: raras vezes em dois: rarisimas conclue com um só discurso.
Promete mostrar em cada um, que o seu eroe teve uma singularidade, a
maior do-mundo: o que tudo quer tirar, da-Sagrada escritura. Pede a
grasa, paraque Deus lhe-inspire, o que deve dizer, em materia de tanta
importancia: e prosegue o sermam, na fórma dita.
Se pois as exequias sam de Molher, saie logo, o _Mulierem fortem quis
inveniet?_ e nam a-tendo achado o Sabio, afirma ele, que a gloria de
achar esta mulher, estava rezervada à sua diligencia. E, aindaque a
Senhora fose Religioza, e de animo pacifico; nam pode deixar de intrar,
o fato de Judita; em que ele mostra, que a dita Senhora é Judita: a sua
espada eram as diciplinas, e cilicios: Olofernes era a figura do-mundo,
que ela matou, e prostrou com facilidade, &c. Mas como na escritura
Antiga, á poucos exemplos de molheres eroicas, recorre logo à Nova, e
la vai buscar, a Molher do-Dragam, e outras destas figuras. Finalmente,
discorre das-virtudes da-dita Senhora, polo estilo das-do-General.
Nam me-negará V.P. que esta é a pratica deste Reino: porque
lhe-mostrarei, muitos livros impresos, em que se-acham estes sermoens;
e de omens que tiveram, e conservam grande fama. Progunto agora: acha
V.P. que isto é pregar? que é saber discorrer? que é ser eloquente? Em
primeiro lugar, o tema da-Escritura, e as provas tiradas dela, sam erro
de toda a considerasam. Estes Pregadores nam devem ter lido, o concilio
de Trento[30], que proibe, uzar das-palavras sagradas, aplicadas a
coiza profana: nam devem saber, que é expresamente proibido, explicar
a Escritura, senam segundo a expozisam, dos-SS.PP. da-Igreja. Concedo,
que um expozitor moderno, disèse alguma propozisam, que se-pudese
aplicar ao asumto: por-iso ei-de seguila? quantos destes expozitores,
nam vemos todos os dias, que nam sabem o que dizem? que omem prudente
faz cazo, de semelhantes escritores, que nam fundam a sua expozisam, na
doutrina da-Igreja? Despois diso, quem poderá defender aquelas provas,
tiradas da-Escritura? Ou quer o Pregador dizer, que os fatos da-Antiga
igreja, eram figura do-seu asumto; e esta é uma propozisam temeraria,
por-nam lhe-dar outro nome; e contraria à comua doutrina dos-Padres,
e da-Igreja: ou nam se-persuade disto; e nam se-livra da-censura,
fulminada por-muitos canones, por-abuzar imprudentemente, de palavras
sacrosantas. Porque eu nam acho, que semelhante aplicasam seja outra
coiza mais, que aplicar com grande irreverencia, umas palavras santas,
a um sentido, para que nam foram proferidas: e a um sentido indigno,
profano, e falso: que é o mesmo, que condena o Concilio.
Respondem alguns, que isto quando muito prova, que a aplicasam nam
é boa; por-ser de coiza sagrada, a uma profana: mas nam prova, que
no-sermam nam se-observáram, os preceitos da-Oratoria. Mas esta
mesma resposta mostra, que nam intendem, que coiza é Retorica. Se a
Retorica é arte de persuadir, quem mais se-persuadio com provas, que
nam fazem ao cazo? Que omem de juizo á-de intender, que aquele General
foi grande, porque Saul o-foi tambem? que parentesco tem uma coiza,
com outra? E como a obrigasam daquele panegirista seja, mostrar,
e engrandecer, as virtudes do-seu eroe; todas as provas que tirar
da-Escritura, nam concluem para o seu intento. Conheso, que alguma
vez se-pode alegar, um paso da-Escritura, damesma sorte que se-cita
um paso, da-istoria Profana: porque a istoria da-Escritura, tambem na
materia de Politica ensina muito: mas neste sentido nam se-servem,
os Oradores deste Reino, como é coiza notoria: porem sim, no-sentido
de profecia. Se pois aquele paso, nada faz ao cazo, com que razam
o-alega? Pode-se chamar Orador, um omem que se-funda em razoens, que
nam conduzem, para o seu intento? Temos ja, que a este omem falta, a
principal parte de Orador, que é _Inventio_: o saber buscar razoens
proprias, para o seu intento, e que pròvem o que ele quer. Peca logo na
aplicasam: e niso mesmo peca, contra a Retorica.
Suponha V.P. que da-outra parte estava outro Orador, que respondèse
aos argumentos. suponha que o cazo sucedia no-Egito, aonde antigamente
se-expunham os cadaveres, diante dos-juizes, para serem julgados. Um
publico acuzador, referia todos os defeitos, e respondia aos louvores,
que nam eram fundados. Se o omem era de boa fama, dava-se a sentensa a
seu favor, e enterrava-se com onra e panegirico, acompanhado de grandes
louvores do-Povo: se era condenado, privava-se de sepultura, e a sua
memoria ficava abominavel[31]. Que coiza julga V.P. que diria o noso
Pregador, neste cazo? parece-me, que ficaria convencido de falsidade, o
Orador; e envergonhada a fama do-eroe, que ele nam soubera defender.
Ora esmeuce V.P. as mais partes daquele sermam, e verá quantas faltas
de Retorica, ali se-incontram. Que má dispozisam dos-argumentos! que
arrastada confirmasam das-provas! Isto é supondo, que o paso que ele
cita, tenha alguma semelhansa, com o que quer provar. Mas nam ve V. P.
quantas coizas os Pregadores inculcam, que de nenhum modo se-seguem,
do-texto? Este é o segundo ponto, que nam me-parece de pouco momento,
nesta materia: e isto melhor se-conhece, quando querem esquadrinhar,
as palavras dos-Profetas, ou dos-livros cientificos. Primeiramente
tomam umas palavras troncadas, (que se fosem inteiras, eram contrarias
ao asumto) e delas deduzem o seu pensamento. E que diz V.P. a este
modo de comentar? parece-me que isto é aquilo mesmo, a que, em bom
Portuguez, se-chama, impostura: porque é tirar pensamentos de um texto,
que nam diz tal coiza. Despois, recorrem a um expozitor, ou S. Padre,
o qual talvez guiado do-furor do-seu zelo, ou com exceso retorico,
dise alguma propozisam, que, para nam ser erezia, é necesario tomála
muitos furos abaixo, do-que soa: no-que concordam todos os Criticos, e
Teologos. Aqui o meu Pregador, sem perder nem menos uma silaba, traduz
a propozisam como se-acha: e nela Levanta uma machina de paradoxos,
com que pertende provar, coizas mui verdadeiras, e sezudas. Nam cito
exemplos, porque falo com V.P. que sabe mui bem, de quem eu falo. E
averá quem me-negue, que isto é faltar à Retorica? averá quem se-atreva
a dizer, que isto é saber elogiar? Se os argumentos sam verdadeiros,
sempre sam fóra do-asumto: se o-nam-sam, nam deixam de ser imposturas:
e nam sei qual destas, é pior falta de Retorica. Mas prosigamos o
exame, e vejamos o que fazem, nos-outros asumtos.
Saie um sermam de asám de grasas a Deus, por-algum grande beneficio
concedido; como saude, batalha &c. ou por-alguma asám má castigada,
com gloria de Deus; como o roubo do-Sacramento em S.Engracia, Ato
da-Fé &c. Intende V.P. que por-mudarem de asumto, mudam de metodo?
nam senhor: e a pratica mostra o contrario. O argumento dos-primeiros
dois sermoens deve ser, dar grasas a Deus, por-tam especial beneficio:
e excitar a piedade dos-Fieis, para que o-louvem, por-este favor que
fez. Este é o asumto: e a este fim deve o Pregador dirigir, todos os
seus particulares argumentos. Mas iso é o que ele nam faz. O que ele
cuida é, buscar algum conceito sutil, e singular, com que posa dizer
alguma novidade, e mostrar o seu ingenho. Eu li um sermam do * * * que
pertencia a uma destas clases: em que o Pregador, por-querer dizer
uma novidade teologica, dise uma erezia: que somente o-nam-foi na sua
boca, porque nam intendeo, o que dise: aindaque tivese bastantes anos,
ensinado Teologia. La achou porem um S.Padre moderno, que cuido fose
S. Bernardo, que lhe-deo materia ao conceito. Mas a verdade é, que o
dito S. que frequentemente uza de iperboles, nam dise literalmente,
o que ele supoz. Mas fose o que fose, o sermam teve mil aplauzos, e
impremio-se com onra * * *. Ja se-sabe, que a saude ou batalha, á-de
ser profetizada, na Escritura do-Antigo testamento, ou polo menos
do-Evangelho, e com sinais mui particulares: porque segundo estes
autores, nam á sermam sem tema sagrado; seja o que for. Se o tema nam
calsa bem, nam falta quem o estenda: que este é o comum refugio, de
todos estes senhores.
Contou-me pesoa mui verdadeira, que, achando-se em certa Cidade deste
Reino, sucedèra, que a molher de um tangedor de rabeca, fazendo voto
por-uma infermidade perigoza; quando se-vîra livre, quizera agradecer
ao Santo, o tal beneficio, com uma festa estrondoza, e com sermam. O
dito amigo conhecia o Pregador: e incontrando-se com ele, dise-lhe: Que
tema toma vosè? ao que ele respondeo, Ja tenho escolhido as palavras:
_Surge, ascende Bethel; fac ibi altare_ &c. Reproguntou o meu amigo,
Que conexam tem iso, com o que vosè quer dizer? ao que o Pregador
respondeo seriamente: O texto é otimo: porque que Jacob era rabequista,
iso provo eu logo, com dez expozitores. E com efeito o sermam, saio
semelhante à promesa.
Eu mesmo asisti uma vez a um sermam, de asám de grasas, porque Deus
concedèra chuva, despois de uma grande esterilidade. É necesario
advertir, que se-tinham feito varias procisoens, com imagens
milagrozas, semque Deus ouvise, os clamores do-Povo. Na ultima, leváram
um Cristo com a cruz; e sucedeo, que pouco despois choveo alguma
coiza. O meu Pregador, que tinha fama de grande letrado, prometeo
mostrar no-sermam, que a chuva nam podia vir, por-outro estilo. E
provou isto, com a nuvem de Elias: a qual asimque a pareceo, desfez-se
o ceo em tempestades. Mostrou pois, com dois expozitores modernos,
que aquela nuvem, era Cristo com a cruz às costas. Faltavam algumas
circunstancias, entre as quais era, a da-tempestade seguida; que ca
nam tinha exemplo. Remediou o omem a isto, prometendo em pouco tempo,
a tempestade. (o que podia seguramente profetizar; porque despois de
uma grande elevasam de vapores, uma vez que estes comesam a mover-se,
é claro, que ám-de cair) Sucedeo o cazo da-grande chuva: e o meu
Pregador, alem da-fama de Orador, saio com a de Profeta; que lhe-frutou
muito bem. Os que sabiam pouco, estavam pasmados, da-felicidade de
ingenho do-omem: mas um dos-que estavam no-confeso, e tinha pezado bem
o sermam, falou-me em diferente maneira. E destes sermoens, pudera eu
citar infinitos.
Se o sermam é do-dezagravo do-Sacramento, ja se sabe, que somente
pregará bem, quem mostrar, que á textos expresisimos, em que
se-declara, que no-ano N. sendo Bispo N. Mordomo da-festa N. às
tantas oras do-dia, avia suceder a dita coiza. Mas nam basta isto,
é porem necesario, algum novo pensamento, que comumente prova tudo
o contrario, do-que quer persuadir. E aqui devem intrar, todas as
outras circunstancias, que apontámos. Nam se-lembra o Pregador, que
o asumto sempre é o mesmo: que é, dar grasas a Deus, por-descobrir,
com altisima providencia, os sacrilegos: e com iso mostrar, a sua
mizericordia, mansidam, e justisa: e que este asumto sempre se-deve
inculcar, variando unicamente as palavras, com mais ou menos ingenho,
segundo o cabedal de quem fala. Nam adverte, que faria muito maior
impresam, pintar a atrocidade daquele delito, de uma parte; e da-outra,
as infinitas virtudes, que Deus quiz mostrar, naquele castigo. Nada
disto lembra ao Pregador. o que emporta é, subtilizar bem. Mas o
que dali se-segue é, sair o auditorio tam persuadido, da-pouca
capacidade do-Pregador, como pouco persuadido, do-que ele determinára
persuadir-lhe.
E que nam diz um destes amigos, quando se-lhe-encomenda um sermam
de Intrada, ou Profisam de Freira! Aquele sermam nada mais é, doque
um panegirico da-eleisam, e perseveransa da-Freira, e outras boas
qualidades; acompanhado de uma exortasam, para perseverar na virtude.
Isto é o que deve dizer o Pregador: mas isto é o que nenhum diz. O que
importa é, mostrar, que esta Freira era tanto do-agrado de Deus, que
mandou ao mundo um, ou muitos escritores Sagrados, para lhe-comporem a
vida, muitos seculos antes de nacer. Um amigo meu teve a incumbencia,
de um destes sermoens: e logo lhe-advertîram, que teria mui boa paga,
se acháse na Escritura, toda a vida da-Freira. Ela era Dominicana, e
mui devota do-Rozario: tinha sido Pupila alguns anos, no-dito Convento:
o sermam era na oitava da-festa do-Rozario. Ele, que somente queria um
bom prezente, tomou as palavras do-capitulo IV. do-Cantico: _Veni de
Libano sponsa mea, veni de Libano, veni: coronaberis._ Mostrou, que
a Freira tivera tres estados, de Pupila, Novisa e Profesa: e que a
cadaum conrespondia sua vocasam, e seu _veni_, com que Deus a-chamava,
por-boca de Salamam. Que o _Libano_, reprezentava o Mundo, donde Deus
a-chamava para o Claustro. _Coronaberis_, explicava a Religiam, que é
toda consagrada ao Rozario: e que no-mesmo Rozario, que é uma coroa de
rozas, achava o premio da-sua eleisam, e obediencia. Acomodou novamente
isto ao Rozario, dividido em misterios dolorozos, gozozos, e gloriozos;
cada especie dos-quais conrespondia, aos seus trez estados: o que ele
provou, com textos expresisimos. Desorteque a concluzam do-negocio foi,
que todas as circunstancias da-vida da-Freira, estavam profetizadas com
tanta clareza, por-Salamam; que qualquer cego reconheceria, que aquele
texto somente falava, da-Senhora D. Fulana, filha de Fulano, moradora
em tal parte, Freira em estoutra, &c. O que eu sei é, que toda esta
metafizica frutou, cinco moedas, e um bom prezente: e que as Freiras
nam cabiam na pele de contentes. E isto sucede todos os dias: e alguma
vez eu o-tenho prezenciado, nestas festas.